19 de Outubro de 1516.
A George Spalatino, servo de Cristo e sacerdote do Senhor, mestre eruditíssimo, seu amigo sincero e íntegro irmão.
Jesus. Saudações. O que me estranha no eruditíssimo Erasmo, querido Spalatino, é o seguinte: que ao interpretar o apóstolo, entenda a justiça das obras, da lei ou própria (que assim a chama o apóstolo) como a observância das práticas cerimoniais, e defenda, além disso, que no capítulo quinto dos Romanos, o apóstolo não quis fazer referência ao pecado original (que ele, por outra parte, admite). Se lesse os livros que Agostinho escreveu Contra os pelagianos e, em especial, Do espírito e da letra, Do mérito e remissão dos pecados, Contra duas cartas dos pelagianos e Contra Juliano, inclusos quase em totalidade no volume oitavo de suas Obras, perceberia que não fala pessoalmente, senão apoiado nos pais de tanta importância como Cipriano, Nazianzeno, Rético, Irineu, Hilário, Olímpio, Inocêncio e Ambrósio. Se o fizesse, entenderia corretamente ao apóstolo e teria a Agostinho em maior apreço do que até agora tem professado.
Tenho certeza de que meu dissentimento com Erasmo procede do momento de interpretar as Escrituras Sagradas. Pois prefiro seguir a Agostinho do que a Jerônimo, na mesma medida em que ele prefere a Jerônimo do que a Agostinho. Não é que me deixe levar por predileções de minha confissão religiosa, quando intento revalidar a Agostinho; é que me dou conta de que são Jerônimo busca deliberadamente o sentido histórico e, o mais admirável, que interprete muito melhor as Escrituras quando o faz de modo acidental (por exemplo nas Cartas) do que quando o intenciona fazer exaustivamente como nos Opúsculos.
A justiça da lei ou das obras não se encontra somente nas práticas, mas também, e mais exatamente, nas obras de todo o decálogo; porque se observam fora da fé em Cristo, ainda que sejam capazes de fabricar Fabrícios, Régulos e homens integérrimos, saberão tanto de justiça como um arbusto sabe de figos. Como opina Aristóteles, não é realizando coisas justas como que nos justificamos, a não ser que se trate de uma simulação, mas que nos justificamos (por assim dizer), sendo justos é como realizaremos na justiça. É necessário que transforme primeiro a pessoa e depois se transformarão as obras. Agrada-se de Abel, antes que a sua oferta. Mas deixemos isto para outra ocasião.
Rogo-te que te portes como amigo e cristão, e faças saber isto a Erasmo. Porque o mesmo que espero e desejo que sua autoridade chegue a ser celebérrima, temo que muitos se escudem em seu patrocínio para defender a interpretação literal, ou seja, morta, da que estão repletos os Comentários de Lira e quase todos os que foram escritos posteriores a Agostinho. Até o próprio Estapulense, meu Deus, tão espiritual e tão sincero por outra parte, lhe falta na interpretação da Escritura Sagrada esta inteligência que está tão presente em sua vida e em seus conselhos.
Acreditarás que estou temeroso ao ver que passou sob a vara de Aristarco a homens tão eminentes, mas hás de saber que o faço por causa teológica, e pela salvação dos irmãos.
Adeus meu querido Spalatino, e rogue por mim. Escrevo-te a apressadamente, do recôndito de nosso monastério.
O dia seguinte à festa de são Lucas. 1516. Fr. Martinus Luther, agostiniano.
NOTAS:
[1] WA Br1, pp. 70-71. Spalatino (Georg Burckardt, de Spalt), da mesma geração que Lutero, ele viveu entre 1484-1545, exerceu um papel decisivo nos começos da Reforma, dada a sua posição na corte de Frederico, o Sábio, da Saxônia, de quem era chanceler e pregador. Foi o mediador entre o príncipe e Lutero, humanista, e quem soube frear certas destemperanças do reformador que lhe escreveu um numeroso corpo de cartas. Cf. 1. Hüss, Georg Spalatin, Weimar 1956; Id., Georg Spalatins Verháltnis zu Luther und der Reformation: Luther 31 (1960), pp. 67-80.
[2] Refere-se à edição das obras de Agostinho publicadas em Basiléia no ano de 1506.
[3] Sobre o apreço de Erasmo por Jerônimo, em coincidência com as predileções de todos os humanistas, cf. sua própria confissão a Leão X, em 1515 (Opus epistolarum D. Erasmi 11, ed. P.S. Allen, Oxford 1906, p. 80 e 220).
[4] Spalatino também era um mediador entre os humanistas e Lutero, cumpriu fielmente o encargo e na carta que escreveu a Erasmo lhe repete estes conceitos (cf. Opus epistolarum, 417).
[5] Refere-se a Nicolás de Lira (1270-1340) que no início do século XIV escreveu Postillae perpetue in vetus et novum testamentum com grande aceitação e impresso em 1471-1472.
[6] Lefévre d’Etaples (m. em 1536), patriarca do círculo humanista e reformista de Meaux, com algumas ideias próximas de Lutero. Continuou fiel à Igreja de Roma, mas alguns de seu intimidade (Farel, por exemplo) se tornaram em líderes fervorosos da Reforma protestante. Cf. F. Hahn. Faher Stapulensis und Luther: Zeitschrift für Kirchengeschitchte 57 (1938), pp. 356-432.
[7] Aristarco de Samotracia, gramático do século III a.C., que para Lutero, Erasmo e os humanistas era o símbolo das atitudes críticas.
Mostrando postagens com marcador Cartas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cartas. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 28 de agosto de 2018
Carta de Martinho Lutero para Alberto de Maguncia [31 de Outubro de 1517]
Para Alberto de Maguncia
31 de outubro de 1517
Ao Reverendíssimo Padre em Cristo, Senhor Alberto, Arcebispo de Magdeburg e Maguncia, Senhor de Brandeburg, seu estimado senhor e pastor em Cristo. A graça de Deus seja com ele.
Que a sua Alteza Eleitoral graciosamente me permita, o menor e mais indigno dos homens, escrever a você. O Senhor Jesus Cristo é minha testemunha de que eu, por conta de minha indignidade, há muito tempo tenho hesitado fazer o que agora faço audaciosamente, movido a isso por um senso de obrigação que eu devo a você, reverendíssimo padre. Que a sua Graça olhe graciosamente para mim, pó e cinzas, e responda à minha ânsia por sua aprovação eclesiástica.
Com o consentimento de sua Alteza Eleitoral, a Indulgência Papal para a reconstrução da Basílica de São Pedro em Roma está sendo levada pelo do território. Eu não me queixo muito do alto clamor do pregador de Indulgências, o qual eu não ouvi, mas me entristece o falso significado que o povo simples atribui às indulgências, as pobres almas acreditando que, quando compram tais cartas, asseguram a sua salvação; e também que, no momento em que o dinheiro cai na caixa, almas são libertas do purgatório; e que todos os pecados serão perdoados por meio de uma carta de Indulgência, mesmo aquele de ultraje à Mãe de Deus, fosse alguém blasfemo o suficiente para fazer tal coisa; e, finalmente, que, por meio dessas Indulgências, o homem é livre de todas as punições! Ah, Santo Deus! Assim estão aquelas almas que têm sido entregues aos seus cuidados, querido padre, sendo levadas no caminho de morte. E por elas você terá de prestar contas. Porque os méritos de nenhum bispo podem assegurar a salvação das almas confiadas a ele, o que nem sempre é assegurado através da graça de Deus, o apóstolo admoestando-nos a "trabalhar a vossa própria salvação com temor e tremor"; e que o caminho que leva à vida é tão estreito, que o Senhor, por meio dos profetas Amós e Zacarias, assemelha aqueles que alcançam a vida eterna a um tição tirado do fogo; e, acima de tudo, o Senhor aponta para a dificuldade da redenção. Portanto, eu não poderia mais permanecer em silêncio.
Então, como você pode, por meio de falsas promessas de Indulgências, as quais não promovem a salvação ou a santificação das almas deles, levar o povo à segurança carnal, declarando-os livres das dolorosas consequências da má conduta, com as quais a Igreja costumava punir os pecados deles?Porque atos de piedade e amor são infinitamente melhores do que Indulgências, mas ainda assim os bispos não pregam estes atos tão energicamente, embora o principal dever deles é pregar ao seu povo o amor de Cristo. Em nenhum lugar, Cristo mandou pregar as Indulgências, mas sim o Evangelho. Assim, a que perigo um bispo se expõe quando, ao invés de pregar o Evangelho entre o povo, condena-o ao silêncio, ao mesmo tempo em que o clamor das Indulgências ressoa através do território? Não irá Cristo dizer a eles, "Tu coas um mosquito, mas engoles um camelo"?
Em adição a isto, reverendo padre, tem sido espalhado largamente, sob o seu nome, mas certamente sem o seu conhecimento, que esta Indulgência é o inestimável presente de Deus, por meio do qual o homem pode ser reconciliado com Deus e escapar do fogo do purgatório, e que aqueles que comprarem a Indulgência não têm necessidade de arrependimento.
O que mais eu posso fazer, reverendíssimo padre, além de implorar que a Sua Serena Alteza olhe para este assunto e possa abolir este livreto de instruções, e que ordene aqueles pregadores a adotarem um outro estilo de pregação, para que não surja alguém e lhes refute escrevendo um outro livro em resposta ao primeiro, para a confusão da sua Serena Alteza, ideia que muito me alarma. Eu espero que a sua Serena Alteza possa graciosamente se dignar a aceitar o fiel serviço que o seu insignificante servo, com verdadeira devoção, renderia a você. Que o Senhor guarde você para toda a eternidade. Amém.
Wittenberg, véspera do Dia de Todos os Santos, 1517.
Se for conforme o desejo de sua Graça, talvez você poderia olhar as minhas teses que envio em anexo, para que você possa perceber que a opinião sobre as Indulgências é muito variada, enquanto aqueles que as proclamam fantasiam que tais Indulgências não podem ser disputadas. Seu filho indigno,
Martinho Lutero
Agostiniano, separado como Doutor de Sagrada Teologia.
31 de outubro de 1517
Ao Reverendíssimo Padre em Cristo, Senhor Alberto, Arcebispo de Magdeburg e Maguncia, Senhor de Brandeburg, seu estimado senhor e pastor em Cristo. A graça de Deus seja com ele.
Que a sua Alteza Eleitoral graciosamente me permita, o menor e mais indigno dos homens, escrever a você. O Senhor Jesus Cristo é minha testemunha de que eu, por conta de minha indignidade, há muito tempo tenho hesitado fazer o que agora faço audaciosamente, movido a isso por um senso de obrigação que eu devo a você, reverendíssimo padre. Que a sua Graça olhe graciosamente para mim, pó e cinzas, e responda à minha ânsia por sua aprovação eclesiástica.
Com o consentimento de sua Alteza Eleitoral, a Indulgência Papal para a reconstrução da Basílica de São Pedro em Roma está sendo levada pelo do território. Eu não me queixo muito do alto clamor do pregador de Indulgências, o qual eu não ouvi, mas me entristece o falso significado que o povo simples atribui às indulgências, as pobres almas acreditando que, quando compram tais cartas, asseguram a sua salvação; e também que, no momento em que o dinheiro cai na caixa, almas são libertas do purgatório; e que todos os pecados serão perdoados por meio de uma carta de Indulgência, mesmo aquele de ultraje à Mãe de Deus, fosse alguém blasfemo o suficiente para fazer tal coisa; e, finalmente, que, por meio dessas Indulgências, o homem é livre de todas as punições! Ah, Santo Deus! Assim estão aquelas almas que têm sido entregues aos seus cuidados, querido padre, sendo levadas no caminho de morte. E por elas você terá de prestar contas. Porque os méritos de nenhum bispo podem assegurar a salvação das almas confiadas a ele, o que nem sempre é assegurado através da graça de Deus, o apóstolo admoestando-nos a "trabalhar a vossa própria salvação com temor e tremor"; e que o caminho que leva à vida é tão estreito, que o Senhor, por meio dos profetas Amós e Zacarias, assemelha aqueles que alcançam a vida eterna a um tição tirado do fogo; e, acima de tudo, o Senhor aponta para a dificuldade da redenção. Portanto, eu não poderia mais permanecer em silêncio.
Então, como você pode, por meio de falsas promessas de Indulgências, as quais não promovem a salvação ou a santificação das almas deles, levar o povo à segurança carnal, declarando-os livres das dolorosas consequências da má conduta, com as quais a Igreja costumava punir os pecados deles?Porque atos de piedade e amor são infinitamente melhores do que Indulgências, mas ainda assim os bispos não pregam estes atos tão energicamente, embora o principal dever deles é pregar ao seu povo o amor de Cristo. Em nenhum lugar, Cristo mandou pregar as Indulgências, mas sim o Evangelho. Assim, a que perigo um bispo se expõe quando, ao invés de pregar o Evangelho entre o povo, condena-o ao silêncio, ao mesmo tempo em que o clamor das Indulgências ressoa através do território? Não irá Cristo dizer a eles, "Tu coas um mosquito, mas engoles um camelo"?
Em adição a isto, reverendo padre, tem sido espalhado largamente, sob o seu nome, mas certamente sem o seu conhecimento, que esta Indulgência é o inestimável presente de Deus, por meio do qual o homem pode ser reconciliado com Deus e escapar do fogo do purgatório, e que aqueles que comprarem a Indulgência não têm necessidade de arrependimento.
O que mais eu posso fazer, reverendíssimo padre, além de implorar que a Sua Serena Alteza olhe para este assunto e possa abolir este livreto de instruções, e que ordene aqueles pregadores a adotarem um outro estilo de pregação, para que não surja alguém e lhes refute escrevendo um outro livro em resposta ao primeiro, para a confusão da sua Serena Alteza, ideia que muito me alarma. Eu espero que a sua Serena Alteza possa graciosamente se dignar a aceitar o fiel serviço que o seu insignificante servo, com verdadeira devoção, renderia a você. Que o Senhor guarde você para toda a eternidade. Amém.
Wittenberg, véspera do Dia de Todos os Santos, 1517.
Se for conforme o desejo de sua Graça, talvez você poderia olhar as minhas teses que envio em anexo, para que você possa perceber que a opinião sobre as Indulgências é muito variada, enquanto aqueles que as proclamam fantasiam que tais Indulgências não podem ser disputadas. Seu filho indigno,
Martinho Lutero
Agostiniano, separado como Doutor de Sagrada Teologia.
Carta de Martinho Lutero para Johannes Lange [1 Março de 1517]
Para Johannes Lange
1º de março de 1517
No presente momento, eu estou lendo o nosso Erasmo, mas meu coração recua dele mais e mais. No entanto, uma coisa que eu admiro é que ele constantemente e sabiamente acusa não somente os monges, mas também os padres, de uma ignorância preguiçosa e profundamente arraigada.
Todavia, sou temeroso, pois ele não propaga com amplitude suficiente a graça de Cristo e de Deus, da qual ele conhece muito pouco. O humano é para ele de maior importância do que o divino.
Embora eu não queira julgar Erasmo, eu lhe advirto para que você não leia cegamente o que ele escreve. Pois nós vivemos em tempos perigosos e todos os que são bons estudiosos do hebraico e do grego não são verdadeiros cristãos; mesmo Dr. Jerônimo, com as suas cinco línguas, não conseguiu se aproximar de Agostinho, com sua única língua -- embora Erasmo veja tudo isso de um ponto de vista diferente. Aqueles que atribuem algo ao livre-arbítrio do homem consideram estas coisas diferentemente daqueles que conhecem a livre graça de Deus.
De nossa deserta Wittenberg.
Martinho Lutero, Agostiniano.
1º de março de 1517
No presente momento, eu estou lendo o nosso Erasmo, mas meu coração recua dele mais e mais. No entanto, uma coisa que eu admiro é que ele constantemente e sabiamente acusa não somente os monges, mas também os padres, de uma ignorância preguiçosa e profundamente arraigada.
Todavia, sou temeroso, pois ele não propaga com amplitude suficiente a graça de Cristo e de Deus, da qual ele conhece muito pouco. O humano é para ele de maior importância do que o divino.
Embora eu não queira julgar Erasmo, eu lhe advirto para que você não leia cegamente o que ele escreve. Pois nós vivemos em tempos perigosos e todos os que são bons estudiosos do hebraico e do grego não são verdadeiros cristãos; mesmo Dr. Jerônimo, com as suas cinco línguas, não conseguiu se aproximar de Agostinho, com sua única língua -- embora Erasmo veja tudo isso de um ponto de vista diferente. Aqueles que atribuem algo ao livre-arbítrio do homem consideram estas coisas diferentemente daqueles que conhecem a livre graça de Deus.
De nossa deserta Wittenberg.
Martinho Lutero, Agostiniano.
sábado, 30 de dezembro de 2017
Carta de Lutero a Spalatino [1516]
A George Spalatino[1], servo de Cristo e sacerdote do Senhor, mestre eruditíssimo, seu amigo sincero e íntegro irmão.
Jesus. Saúde.
O que me causa estranheza no eruditíssimo Erasmo, querido Spalatino, é o seguinte: que ao interpretar o apóstolo entenda a justiça das obras, da lei ou própria (como a chama o apóstolo) como sendo a observância das práticas cerimoniais, e defenda, além disso, que no quinto capítulo de Romanos, o apóstolo não quis fazer referência ao pecado original (que ele, por outra parte, admite). Se ler os livros que Agostinho escreveu contra os pelagianos, e em especial Do espírito e da letra, Do mérito e remissão dos pecados, Contra duas cartas dos pelagianos e Contra Juliano, inclusos quase em sua totalidade no tomo oitavo de suas Obras[2], perceberia que não fala pessoalmente, senão apoiado nos pais de importância como Cipriano, Naziazeno, Rético, Ireneu, Hilário, Olímpio, Inocêncio e Ambrósio. Se o Fizesse entenderia corretamente o apóstolo e teria a Agostinho com maior apreço do que até agora professa ter.
Estou certo de que minha discordância de Erasmo procede de que ao interpretar as sagradas Escrituras prefiro seguir a Agostinho antes que a Jerônimo na mesma medida em que ele prefere a Jerônimo do que a Agostinho[3]. Não que me deixe levar pelas predileções de minha confissão religiosa quando intento revalidar a santo Agostinho; é que me dou conta de que são Jerônimo busca deliberadamente o sentido histórico e - o mais admirável - que interpreta muito melhor as Escrituras quando o faz de forma incidental (por exemplo nas Cartas) que quando o quer fazer exaustivamente como nos Opúsculos.
A justiça da lei ou das obras não se acha somente nas práticas, mas também, e mais exatamente, nas obras de todo o decálogo; porque se observam fora da fé em Cristo, ainda que sejam capazes de fabricar Fabrícios, Régulos e homens integérrimos, saberão tanto da justiça como a árvore sabe de figos. Como opina Aristóteles, não é realizando coisas justas como nos justificamos - a não ser que se trate de uma dissimulação -, senão que nos justificando (por assim dizer) e sendo justos é como realizaremos na justiça. É necessário que se transforme primeiro a pessoa e depois se transformarão as obras. Abel agrada antes que a sua oferta. Mas deixemos isto para outra ocasião.
Rogo que te portes como amigo e cristão e faças saber isto a Erasmo[4]. Porque o mesmo que espero e desejo que sua autoridade chegue a ser celebérrima, temo que muitos se escudem em seu patrocínio para defender a interpretação literal, ou seja morta, da que estão repletos os Comentarios de Lira e quase todos os posteriores a Agostinho[5]. Até ao próprio Estapulense, meu Deus, tão espiritual e tão sincero, por outra parte, lhe falta na interpretação da sagrada Escritura esta inteligência que tem tão presente em sua vida e em seus conselhos[6].
Crerás que sou temerário ao ver que me passo sob a vara de Aristarco[7] a homens tão eminentes, mas há de saber que o faço pela causa teológica e pela salvação dos irmãos.
Adeus, meu querido Spalatino, e interceda por mim. Te escrevo às pressas, no rincão de nosso monastério, o dia seguinte à festa de são Lucas. 1516. Frei Martinus Luther, agostiniano.
NOTAS:
[1] WA Br 1, 70-71. Spalatino (Georg Burckhardt, de Spalt), da mesma geração que Lutero - viveu entre 1484-1545 - exerceu um papel decisivo no início da Reforma dada sua posição na corte de Frederick, o Sábio de Saxônia, de quem era chanceler e pregador. Foi o mediador entre o príncipe e Lutero, humanista, e soube frear certas destemperanças do reformador que lhe escreveu um numeroso corpo de cartas. Cf. 1. Hüss, Georg Spalatin, Weimar 1956; Id., Georg Spalatins Verháltnis zu Luther und der Reformation: Luther 31 (1960), pp. 67-80.
[2] Refere-se às obras de santo Agostinho da edição de Basiléia de 1506.
[3] Sobre o apreço de Erasmo por são Jerônimo - em coincidência com as predileções de todos os humanistas - cf. sua própria confissão para Leão X, em 1515 (Opus espistolarum D. Erasmi 11, edição P. S. Allen, Oxford 1906, 86 e 220).
[4] Spalatino também mediador entre os humanistas e Lutero, cumpriu fielmente o cargo e na carta que escreveu a Erasmo lhe repete estes conceitos (cf. Opus epistolarum, 417).
[5] Refere-se a Nicolás de Lira (1270-1340), que no princípio do século XLV escreveu Postillae perpetuae in vetus et novum testamentum, com grande aceitação e impressas em 1471-1472.
[6] Lefévre d'Etaples (falecido em 1536), patriarca do círculo humanista e reformista de Meaux, com algumas ideias semelhantes as de Lutero. Seguiu fiel à igreja de Roma, mas alguns de seu cenáculo (Farel, por exemplo) se tornariam em partidários fervorosos da Reforma protestante. Cf. F. Hahn, Faher Stapulensis und Luther: Zeitschrift für Kirchengeschichte 57 (1938) 356-432.
[7] Aristarco de Samotracia, gramático, que para Lutero, Erasmo e os humanistas era o símbolo das atitudes críticas.
Jesus. Saúde.
O que me causa estranheza no eruditíssimo Erasmo, querido Spalatino, é o seguinte: que ao interpretar o apóstolo entenda a justiça das obras, da lei ou própria (como a chama o apóstolo) como sendo a observância das práticas cerimoniais, e defenda, além disso, que no quinto capítulo de Romanos, o apóstolo não quis fazer referência ao pecado original (que ele, por outra parte, admite). Se ler os livros que Agostinho escreveu contra os pelagianos, e em especial Do espírito e da letra, Do mérito e remissão dos pecados, Contra duas cartas dos pelagianos e Contra Juliano, inclusos quase em sua totalidade no tomo oitavo de suas Obras[2], perceberia que não fala pessoalmente, senão apoiado nos pais de importância como Cipriano, Naziazeno, Rético, Ireneu, Hilário, Olímpio, Inocêncio e Ambrósio. Se o Fizesse entenderia corretamente o apóstolo e teria a Agostinho com maior apreço do que até agora professa ter.
Estou certo de que minha discordância de Erasmo procede de que ao interpretar as sagradas Escrituras prefiro seguir a Agostinho antes que a Jerônimo na mesma medida em que ele prefere a Jerônimo do que a Agostinho[3]. Não que me deixe levar pelas predileções de minha confissão religiosa quando intento revalidar a santo Agostinho; é que me dou conta de que são Jerônimo busca deliberadamente o sentido histórico e - o mais admirável - que interpreta muito melhor as Escrituras quando o faz de forma incidental (por exemplo nas Cartas) que quando o quer fazer exaustivamente como nos Opúsculos.
A justiça da lei ou das obras não se acha somente nas práticas, mas também, e mais exatamente, nas obras de todo o decálogo; porque se observam fora da fé em Cristo, ainda que sejam capazes de fabricar Fabrícios, Régulos e homens integérrimos, saberão tanto da justiça como a árvore sabe de figos. Como opina Aristóteles, não é realizando coisas justas como nos justificamos - a não ser que se trate de uma dissimulação -, senão que nos justificando (por assim dizer) e sendo justos é como realizaremos na justiça. É necessário que se transforme primeiro a pessoa e depois se transformarão as obras. Abel agrada antes que a sua oferta. Mas deixemos isto para outra ocasião.
Rogo que te portes como amigo e cristão e faças saber isto a Erasmo[4]. Porque o mesmo que espero e desejo que sua autoridade chegue a ser celebérrima, temo que muitos se escudem em seu patrocínio para defender a interpretação literal, ou seja morta, da que estão repletos os Comentarios de Lira e quase todos os posteriores a Agostinho[5]. Até ao próprio Estapulense, meu Deus, tão espiritual e tão sincero, por outra parte, lhe falta na interpretação da sagrada Escritura esta inteligência que tem tão presente em sua vida e em seus conselhos[6].
Crerás que sou temerário ao ver que me passo sob a vara de Aristarco[7] a homens tão eminentes, mas há de saber que o faço pela causa teológica e pela salvação dos irmãos.
Adeus, meu querido Spalatino, e interceda por mim. Te escrevo às pressas, no rincão de nosso monastério, o dia seguinte à festa de são Lucas. 1516. Frei Martinus Luther, agostiniano.
NOTAS:
[1] WA Br 1, 70-71. Spalatino (Georg Burckhardt, de Spalt), da mesma geração que Lutero - viveu entre 1484-1545 - exerceu um papel decisivo no início da Reforma dada sua posição na corte de Frederick, o Sábio de Saxônia, de quem era chanceler e pregador. Foi o mediador entre o príncipe e Lutero, humanista, e soube frear certas destemperanças do reformador que lhe escreveu um numeroso corpo de cartas. Cf. 1. Hüss, Georg Spalatin, Weimar 1956; Id., Georg Spalatins Verháltnis zu Luther und der Reformation: Luther 31 (1960), pp. 67-80.
[2] Refere-se às obras de santo Agostinho da edição de Basiléia de 1506.
[3] Sobre o apreço de Erasmo por são Jerônimo - em coincidência com as predileções de todos os humanistas - cf. sua própria confissão para Leão X, em 1515 (Opus espistolarum D. Erasmi 11, edição P. S. Allen, Oxford 1906, 86 e 220).
[4] Spalatino também mediador entre os humanistas e Lutero, cumpriu fielmente o cargo e na carta que escreveu a Erasmo lhe repete estes conceitos (cf. Opus epistolarum, 417).
[5] Refere-se a Nicolás de Lira (1270-1340), que no princípio do século XLV escreveu Postillae perpetuae in vetus et novum testamentum, com grande aceitação e impressas em 1471-1472.
[6] Lefévre d'Etaples (falecido em 1536), patriarca do círculo humanista e reformista de Meaux, com algumas ideias semelhantes as de Lutero. Seguiu fiel à igreja de Roma, mas alguns de seu cenáculo (Farel, por exemplo) se tornariam em partidários fervorosos da Reforma protestante. Cf. F. Hahn, Faher Stapulensis und Luther: Zeitschrift für Kirchengeschichte 57 (1938) 356-432.
[7] Aristarco de Samotracia, gramático, que para Lutero, Erasmo e os humanistas era o símbolo das atitudes críticas.
quinta-feira, 23 de novembro de 2017
Carta de Calvino para Farel [1541]
CALVINO EM BERNA – SUA ENTREVISTA COM UM DOS PRINCIPAIS MAGISTRADOS, E COM OS MINISTROS DAQUELA CIDADE.
MORAT, Setembro de 1541[1]
Assim que cheguei em Berna, apresentei minha carta ao vice-cônsul. Ao lê-la, ele disse: Os de Estrasburgo e Basileia pedem que um salvo-conduto seja concedido a você. Eu respondi que tal requerimento era supérfluo, porque eu nem era um malfeitor, nem estava em um território de completos inimigos. Então eu expliquei o que eles podiam facilmente ter entendido. O Conselho, no entanto, por ignorância grosseira, entendeu assim, como se tivesse sido escrita em referência a uma escolta. O estado da minha saúde impediu minha espera no Senado pessoalmente; nem pareceu-me que isso valeria a pena. Em seguida eu me desculpei com o Vice-Cônsul, quando ele perguntou por que eu não tinha vindo pessoalmente. O Senado retornou em resposta, de que eu não precisava de proteção pública em um cantão pacífico, e que em outros aspectos eles estariam mais que prontos para me auxiliar. Veja que zombaria. Eu encontrei muitas provas de gentileza entre os irmãos. Konzen estava ausente. Erasmo e Sulzer em seus próprios nomes e de outros, aprovaram a minha declaração e livremente prometeram seu auxílio e favor. Sulzer, além de outros, conversou comigo de modo familiar sobre vários pontos. Parece-me que nós devemos fazer o possível para garantir sua cooperação; será de grande utilidade, e ele se mostrou bem disposto. Eu não me esqueci, como você possa supor, de interceder pela causa de seu interesse. Uma comitiva foi enviada.[2] Eu não consegui obter mais; e Giron declarou que seria sem propósito insistir ainda mais nesse assunto. O Senhor, no entanto, não tem necessidade alguma de tal conselho ou proteção. Adeus, com todos os irmãos. – Seu,
João Calvino
[Autógrafo original em latim. -- Biblioteca de Genebra. Volume 106.]
NOTAS:
[1] Após uma curta visita a Berne, Calvino, em Morat, escreveu a Farel para informá-lo sobre alguns dos incidentes de sua viagem.
[2] Essa comitiva tinha ido solicitar o favor do rei Francisco I, pelos valdenses da Provência.
Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana Filadélfia em Marabá-PA; cursando mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo CPAJ – Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.
MORAT, Setembro de 1541[1]
Assim que cheguei em Berna, apresentei minha carta ao vice-cônsul. Ao lê-la, ele disse: Os de Estrasburgo e Basileia pedem que um salvo-conduto seja concedido a você. Eu respondi que tal requerimento era supérfluo, porque eu nem era um malfeitor, nem estava em um território de completos inimigos. Então eu expliquei o que eles podiam facilmente ter entendido. O Conselho, no entanto, por ignorância grosseira, entendeu assim, como se tivesse sido escrita em referência a uma escolta. O estado da minha saúde impediu minha espera no Senado pessoalmente; nem pareceu-me que isso valeria a pena. Em seguida eu me desculpei com o Vice-Cônsul, quando ele perguntou por que eu não tinha vindo pessoalmente. O Senado retornou em resposta, de que eu não precisava de proteção pública em um cantão pacífico, e que em outros aspectos eles estariam mais que prontos para me auxiliar. Veja que zombaria. Eu encontrei muitas provas de gentileza entre os irmãos. Konzen estava ausente. Erasmo e Sulzer em seus próprios nomes e de outros, aprovaram a minha declaração e livremente prometeram seu auxílio e favor. Sulzer, além de outros, conversou comigo de modo familiar sobre vários pontos. Parece-me que nós devemos fazer o possível para garantir sua cooperação; será de grande utilidade, e ele se mostrou bem disposto. Eu não me esqueci, como você possa supor, de interceder pela causa de seu interesse. Uma comitiva foi enviada.[2] Eu não consegui obter mais; e Giron declarou que seria sem propósito insistir ainda mais nesse assunto. O Senhor, no entanto, não tem necessidade alguma de tal conselho ou proteção. Adeus, com todos os irmãos. – Seu,
João Calvino
[Autógrafo original em latim. -- Biblioteca de Genebra. Volume 106.]
NOTAS:
[1] Após uma curta visita a Berne, Calvino, em Morat, escreveu a Farel para informá-lo sobre alguns dos incidentes de sua viagem.
[2] Essa comitiva tinha ido solicitar o favor do rei Francisco I, pelos valdenses da Provência.
Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana Filadélfia em Marabá-PA; cursando mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo CPAJ – Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.
terça-feira, 28 de março de 2017
Carta de Lutero a Jerônimo Baumgartner [1524]
Ao jovem Jerônimo Baumgartner, de Nürnberg, piedosíssimo e erudíssimo, mui querido em Cristo.[1]
Graça e paz no Senhor.
Também me vejo carecendo de acudí-lo, meu Jerônimo, no socorro da multidão dos pobres. Este jovem chamado Gregório Keser solicita a manutenção num lugar qualquer, e me pediu que lhe recomende alguma pessoa de Nürnberg. Poucas esperanças lhe dei, pois sei que todos estão ocupados; não obstante, lhe enviei em nome de Deus “que alimenta até aos corvos”.[2]
Além do mais, se quiser ficar com tua Kathe Bora, se antecipe antes de que seja entregue a outro que anda interessado nela.[3] Ela continua preferindo a você. Da minha parte, gostaria que casassem.
Adeus.
Wittenberg, 12 de Outubro de 1524.
NOTAS:
[1] WA Br 3, pp. 357-358. Sobre este primeiro pretendente de Catarina von Bora, e na certeza da indicação, conferir E. Kroker, Katharina von Bora, Martin Luther Frau (Berlin, 1959), p. 56ss
[2] Lc 12:24.
[3] Este terceiro na concorrência por Catarina, ao parecer muito cobiçada, foi Gaspar Glatius, pregador de Orlamünde (Conferir. H. Boehmer, em Luther Jahrbuch 7 [1925], p. 58ss).
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 398-399.
Tradução em 26 de Março de 2017.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Graça e paz no Senhor.
Também me vejo carecendo de acudí-lo, meu Jerônimo, no socorro da multidão dos pobres. Este jovem chamado Gregório Keser solicita a manutenção num lugar qualquer, e me pediu que lhe recomende alguma pessoa de Nürnberg. Poucas esperanças lhe dei, pois sei que todos estão ocupados; não obstante, lhe enviei em nome de Deus “que alimenta até aos corvos”.[2]
Além do mais, se quiser ficar com tua Kathe Bora, se antecipe antes de que seja entregue a outro que anda interessado nela.[3] Ela continua preferindo a você. Da minha parte, gostaria que casassem.
Adeus.
Wittenberg, 12 de Outubro de 1524.
NOTAS:
[1] WA Br 3, pp. 357-358. Sobre este primeiro pretendente de Catarina von Bora, e na certeza da indicação, conferir E. Kroker, Katharina von Bora, Martin Luther Frau (Berlin, 1959), p. 56ss
[2] Lc 12:24.
[3] Este terceiro na concorrência por Catarina, ao parecer muito cobiçada, foi Gaspar Glatius, pregador de Orlamünde (Conferir. H. Boehmer, em Luther Jahrbuch 7 [1925], p. 58ss).
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 398-399.
Tradução em 26 de Março de 2017.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
sábado, 25 de março de 2017
Carta de Martinho Lutero a Erasmo de Rotterdam [1525]
A Erasmo. 18 de Abril de 1524.[1]
Graça e paz de nosso Senhor Jesus Cristo.
Excelentíssimo Erasmo, estive calado o tempo suficiente, e ainda que esperasse que se adiantasse em romper o silêncio, esta espera tão longa apenas resultou falida. Por isso, creio que a própria caridade tem me motivado a começar. Não tenho nada que objetar contra você, pelo fato de que no princípio tenha se afastado de nós, pois podendo entregar-se por completo e sem obstáculos a sua causa contra os meus inimigos papistas; mas, muito menos cheguei a mal em absoluto, que em algumas passagens de seus livros editados nos mordeu e ofendeu com sua pitada de aspereza, para conseguir a sua graça ou mitigar o seu furor. Porque como vemos que Deus ainda não lhe concedeu a força e a coragem para lutar conosco, livre e confiadamente contra os nossos monstros, não somos quem nos atrevemos a exigir algo que supere as suas forças e que não vá com o seu modo de ser. Isto não foi obstáculo para tolerar a tua pusilanimidade e venerar a medida do dom de Deus;[2] porque o que não posso negar a orbe inteira é que o florescimento e reinado das letras, meio para chegar à leitura limpa da Bíblia, é um dom egrégio e magnífico que Deus lhe deu e que temos que agradecer.
Por este motivo nunca desejei que abandonasse ou menosprezasses os seus dotes e se arrolasse em nossos exércitos. Muito nos valeria a sua genialidade e eloquência, mas, ao faltar coragem, era mais seguro que servisse segundo seu dom. Somente temia uma coisa: que em alguma circunstância os inimigos o induzissem a atacar os nossos dogmas em seus escritos publicados e nos víssemos na urgência de nos enfrentar contigo face a face.[3] Contivemos a alguns que com livros preparados estávamos decididos a desafiá-lo. Esse foi o motivo pelo que desejei que não se editasse a Expostulatio de Hutten e muito menos a Esponja,[4] em que, ao meu entender, você percebe que facilmente resulta escrever sobre a modéstia e arguir da falta de modéstia de Lutero, mas que é muito difícil, para não dizer impossível, manter-se invulnerável, sem uma graça singular do Espírito.
Creia ou não, Cristo é testemunha de que lamento com todo o meu coração por tanto ódio e antipatia, como tantas pessoas desencadeia contra você. O seu valor humano está muito acima de todos estes ataques, mas não posso crer que ante eles, você permaneça imóvel. Possivelmente os impulses um zelo justo e lhes pareça que tenha provocado de forma indigna. Direi com toda liberdade: se fossem mais sinceros, não teriam motivos de indignação; mas, estão justificados, porque são de condição tal, que a sua debilidade não lhes permite suportar o teu mau humor e sua simulação (coisas que você preferiria que fossem vistas como prudência e modéstia). Eu mesmo, ainda que irritado e com frequência esteja ansioso, e tenha escrito mais exageradamente do que devo, somente o fiz contra os teimosos e indômitos. Além do mais, me parece que minha própria consciência e a experiência de muitos excedem em testemunho a minha misericórdia e mansidão com os pecadores e os ímpios, ainda que sejam insensatos e iníquos. Que por esse motivo contive a minha pluma quando você me acusava e, em minhas cartas - que chegaram a ti - disse a meus amigos, que contenderia comigo até que saltasse publicamente ao debate; porque, ainda que não simpatizasse conosco, ainda ímpia ou dissimuladamente condena, ou não aprova muitos capítulos da piedade, todavia, não posso, nem quero rotulá-lo de pertinaz.
Mas, e agora, o que posso fazer? As coisas chegaram a seu ponto de máxima frieza por ambas as partes. Se me fosse possível, optaria por fazer-me de mediador para que cessassem de ataca-lo com tanta animosidade e, permitissem que em sua velhice dormisse pacificamente no Senhor. Tenho convicção de que se acalmariam se, em primeiro lugar, tivessem em conta a sua pusilanimidade e medissem a magnitude de nossa causa, que transbordam as suas possibilidades, fundamentalmente porque chegou a um extremo em que não há que temer nenhum perigo, inclusive ainda que Erasmo a combatesse com toda as suas energias, muito menos se faria do que aumentar os seus sarcasmos e dentadas de vez em quando: e se, por outro lado, você meu Erasmo, pensasse em sua debilidade, e não continuasse com esses recursos picantes e agudos de sua retórica, de maneira que, se não pode, nem quer nos defender, que não se comprometa com eles, mas que se dedique as suas coisas. As reações tão iniquamente ante as suas mordidas se deve apenas (e você testemunha disso) a fraqueza humana, que se teme à fama e autoridade de Erasmo, e é muito pior uma mordida de Erasmo que ser triturado por todos os papistas.
Desejo o que disse, ótimo Erasmo, constitua um testemunho de minha boa vontade com você, e a expressão do desejo que abrigo de que Deus lhe conceda um espírito digno de sua fama; se a Deus comprazer demorar nesta concessão, lhe suplico que, entretanto, se não pode colaborar de outra maneira, que limite a ser um mero expectador de nossa tragédia; que não se alie com os nossos adversários engrossando as suas fileiras, e sobretudo, que não edite argumentos que me ataquem, do mesmo modo que não publicarei contra você. Por fim, lembre que os que se amparam sob o meu nome para arremeter, são homens semelhantes a nos dois, aos que é preciso perdoar e ignorar, e que, como disse são Paulo, que têm que nos ajudar a carregar as cargas.[5] Já se mordeu o bastante, cuidemos agora de não nos destruirmos mutuamente;[6] seria um espetáculo ainda mais vergonhoso, sendo indubitável que de ambas as partes têm o desejo de prejudicar a piedade, senão que anela se entregar a sua respectiva tarefa sem pertinência.
Não interprete mal a minha rudeza e atribua-a ao Senhor. Recomendo-lhe esse jovem Joaquim que se parece com o nosso Felipe;[7] verá que, uma vez admitido, se recomendará melhor por si mesmo.
Wittenberg, ano de 1524. Martinus Luther.
NOTAS:
[1] WA Br 3, 270-271. É de interesse esta carta para contrastar a mudança de atitude de Lutero com Erasmo. Próxima da ruptura pública, Lutero luta para conseguir a neutralidade de um adversário sempre temido.
[2] Ef 4:7.
[3] Gl 2:11.
[4] Ulrich von Hutten após a derrota dos “cavaleiros”, fugiu para Basiléia, onde somente recebeu o menosprezo de seu adorado príncipe Erasmo. Este foi o motivo de sua dolorosa Ulrici ab Hutten cum Erasmo Roterdamo presbytero expostulatio, que foi impressa em Estrasburgo, em 1523, após a difusão do manuscrito de Erasmo correspondeu com sua Spongia Erasmi adversus aspergines Hutteni, Basiléia 1523.
[5] Gl 6:2.
[6] Gl 5:15.
[7] Joaquim Camerário do círculo de Wittenberg, amigo de Melanchthon e helenista, achou graça ante Erasm, a julgar pela resposta deste à carta de Lutero: WA Br 3, p. 285.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 397-398.
Tradução em 25 de Março de 2017.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Graça e paz de nosso Senhor Jesus Cristo.
Excelentíssimo Erasmo, estive calado o tempo suficiente, e ainda que esperasse que se adiantasse em romper o silêncio, esta espera tão longa apenas resultou falida. Por isso, creio que a própria caridade tem me motivado a começar. Não tenho nada que objetar contra você, pelo fato de que no princípio tenha se afastado de nós, pois podendo entregar-se por completo e sem obstáculos a sua causa contra os meus inimigos papistas; mas, muito menos cheguei a mal em absoluto, que em algumas passagens de seus livros editados nos mordeu e ofendeu com sua pitada de aspereza, para conseguir a sua graça ou mitigar o seu furor. Porque como vemos que Deus ainda não lhe concedeu a força e a coragem para lutar conosco, livre e confiadamente contra os nossos monstros, não somos quem nos atrevemos a exigir algo que supere as suas forças e que não vá com o seu modo de ser. Isto não foi obstáculo para tolerar a tua pusilanimidade e venerar a medida do dom de Deus;[2] porque o que não posso negar a orbe inteira é que o florescimento e reinado das letras, meio para chegar à leitura limpa da Bíblia, é um dom egrégio e magnífico que Deus lhe deu e que temos que agradecer.
Por este motivo nunca desejei que abandonasse ou menosprezasses os seus dotes e se arrolasse em nossos exércitos. Muito nos valeria a sua genialidade e eloquência, mas, ao faltar coragem, era mais seguro que servisse segundo seu dom. Somente temia uma coisa: que em alguma circunstância os inimigos o induzissem a atacar os nossos dogmas em seus escritos publicados e nos víssemos na urgência de nos enfrentar contigo face a face.[3] Contivemos a alguns que com livros preparados estávamos decididos a desafiá-lo. Esse foi o motivo pelo que desejei que não se editasse a Expostulatio de Hutten e muito menos a Esponja,[4] em que, ao meu entender, você percebe que facilmente resulta escrever sobre a modéstia e arguir da falta de modéstia de Lutero, mas que é muito difícil, para não dizer impossível, manter-se invulnerável, sem uma graça singular do Espírito.
Creia ou não, Cristo é testemunha de que lamento com todo o meu coração por tanto ódio e antipatia, como tantas pessoas desencadeia contra você. O seu valor humano está muito acima de todos estes ataques, mas não posso crer que ante eles, você permaneça imóvel. Possivelmente os impulses um zelo justo e lhes pareça que tenha provocado de forma indigna. Direi com toda liberdade: se fossem mais sinceros, não teriam motivos de indignação; mas, estão justificados, porque são de condição tal, que a sua debilidade não lhes permite suportar o teu mau humor e sua simulação (coisas que você preferiria que fossem vistas como prudência e modéstia). Eu mesmo, ainda que irritado e com frequência esteja ansioso, e tenha escrito mais exageradamente do que devo, somente o fiz contra os teimosos e indômitos. Além do mais, me parece que minha própria consciência e a experiência de muitos excedem em testemunho a minha misericórdia e mansidão com os pecadores e os ímpios, ainda que sejam insensatos e iníquos. Que por esse motivo contive a minha pluma quando você me acusava e, em minhas cartas - que chegaram a ti - disse a meus amigos, que contenderia comigo até que saltasse publicamente ao debate; porque, ainda que não simpatizasse conosco, ainda ímpia ou dissimuladamente condena, ou não aprova muitos capítulos da piedade, todavia, não posso, nem quero rotulá-lo de pertinaz.
Mas, e agora, o que posso fazer? As coisas chegaram a seu ponto de máxima frieza por ambas as partes. Se me fosse possível, optaria por fazer-me de mediador para que cessassem de ataca-lo com tanta animosidade e, permitissem que em sua velhice dormisse pacificamente no Senhor. Tenho convicção de que se acalmariam se, em primeiro lugar, tivessem em conta a sua pusilanimidade e medissem a magnitude de nossa causa, que transbordam as suas possibilidades, fundamentalmente porque chegou a um extremo em que não há que temer nenhum perigo, inclusive ainda que Erasmo a combatesse com toda as suas energias, muito menos se faria do que aumentar os seus sarcasmos e dentadas de vez em quando: e se, por outro lado, você meu Erasmo, pensasse em sua debilidade, e não continuasse com esses recursos picantes e agudos de sua retórica, de maneira que, se não pode, nem quer nos defender, que não se comprometa com eles, mas que se dedique as suas coisas. As reações tão iniquamente ante as suas mordidas se deve apenas (e você testemunha disso) a fraqueza humana, que se teme à fama e autoridade de Erasmo, e é muito pior uma mordida de Erasmo que ser triturado por todos os papistas.
Desejo o que disse, ótimo Erasmo, constitua um testemunho de minha boa vontade com você, e a expressão do desejo que abrigo de que Deus lhe conceda um espírito digno de sua fama; se a Deus comprazer demorar nesta concessão, lhe suplico que, entretanto, se não pode colaborar de outra maneira, que limite a ser um mero expectador de nossa tragédia; que não se alie com os nossos adversários engrossando as suas fileiras, e sobretudo, que não edite argumentos que me ataquem, do mesmo modo que não publicarei contra você. Por fim, lembre que os que se amparam sob o meu nome para arremeter, são homens semelhantes a nos dois, aos que é preciso perdoar e ignorar, e que, como disse são Paulo, que têm que nos ajudar a carregar as cargas.[5] Já se mordeu o bastante, cuidemos agora de não nos destruirmos mutuamente;[6] seria um espetáculo ainda mais vergonhoso, sendo indubitável que de ambas as partes têm o desejo de prejudicar a piedade, senão que anela se entregar a sua respectiva tarefa sem pertinência.
Não interprete mal a minha rudeza e atribua-a ao Senhor. Recomendo-lhe esse jovem Joaquim que se parece com o nosso Felipe;[7] verá que, uma vez admitido, se recomendará melhor por si mesmo.
Wittenberg, ano de 1524. Martinus Luther.
NOTAS:
[1] WA Br 3, 270-271. É de interesse esta carta para contrastar a mudança de atitude de Lutero com Erasmo. Próxima da ruptura pública, Lutero luta para conseguir a neutralidade de um adversário sempre temido.
[2] Ef 4:7.
[3] Gl 2:11.
[4] Ulrich von Hutten após a derrota dos “cavaleiros”, fugiu para Basiléia, onde somente recebeu o menosprezo de seu adorado príncipe Erasmo. Este foi o motivo de sua dolorosa Ulrici ab Hutten cum Erasmo Roterdamo presbytero expostulatio, que foi impressa em Estrasburgo, em 1523, após a difusão do manuscrito de Erasmo correspondeu com sua Spongia Erasmi adversus aspergines Hutteni, Basiléia 1523.
[5] Gl 6:2.
[6] Gl 5:15.
[7] Joaquim Camerário do círculo de Wittenberg, amigo de Melanchthon e helenista, achou graça ante Erasm, a julgar pela resposta deste à carta de Lutero: WA Br 3, p. 285.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 397-398.
Tradução em 25 de Março de 2017.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
terça-feira, 17 de maio de 2016
Carta de João Calvino a Christopher Libertet [1534]
CARTA 11
PARA CHRISTOPHER LIBERTET[1]
CALVINO EM BASILÉIA - REVISÃO DA BÍBLIA DE ROBERT OLIVETAN - TRATADO SOBRE A IMORTALIDADE DA ALMA.
BASILÉIA, 11 de Setembro, [1534][2]
Quando o nosso amigo Olivetan[3] insinuou, através das cartas que ele escreveu sobre o momento da sua partida, que ele tinha colocado de lado sua publicação intentada do Novo Testamento para um outro momento, pareceu-me que eu poderia fazer a revisão que havia prometido no meu período de lazer, e reservá-lo para um outro momento. Nesse ínterim, outros estudos envolveram minha atenção, e eu não pensei mais no assunto, ou melhor, me afundei na costumeira enfermidade. Na verdade, eu raramente tenho posto minha mão para trabalhar nele, e além disso, o volume que enviei será necessário para o conjunto, e embora tenha sido trazido há três meses, ainda não foi feito. Isso não aconteceu por qualquer indiferença de minha parte, mas em parte pela lentidão do encadernador, a quem, no entanto, nós não deixamos de chamar diariamente, parcialmente também porque quando ele foi inicialmente trazido para mim nós pedimos um suprimento de papel para a extensão de seis folhas, o que não podia ser feito imediatamente. De agora em diante, no entanto, separarei uma hora todos os dias para me aplicar a este trabalho. Se eu tivesse que fazer quaisquer observações, não iria confiá-las a ninguém mais senão a você, a menos que Olivetan em seu retorno se antecipasse a você. Além disso, palavras tem sido trazidas a mim por alguém, não sei quem, a pedido seu, que você não aprova inteiramente algumas coisas no meu tratado sobre a imortalidade da alma.[4] Assim, longe de ser ofendido por causa de sua opinião, gentilmente me deleito com esta simplicidade direta. Nem minha perversidade chega a tal ponto que me permitisse uma liberdade de opinião tal, que eu desejasse subtraí-la de outros. Que eu, no entanto, não te oprima ou irrite desnecessariamente, lutando a mesma batalha repetidas vezes, eu desejo que você entenda que o livro foi reformulado por mim. Algumas coisas foram adicionados, outros deixados de fora, mas tudo completamente de uma forma e método diferentes. Ainda que algumas poucas coisas foram omitidos, outras eu inseri, e algumas coisas eu alterei. Quanto àquele ensaio que eu tinha dado para Olivetan ler, continha meus primeiros pensamentos, foram preparados em forma de memorandos ou comentários ao invés de conclusões resultantes de qualquer método definido e certo, embora houvesse alguma aparência de ordem.
Aquele novo livro (pois assim deve ser chamado) que eu teria lhe enviado, tinha sido lido por mim de novo. Mas desde que foi escrito por Gaspar, eu nem olhei para ele. Até logo; que o Senhor te tenha em seus cuidados e possa enriquecê-lo sempre com seus próprios dons. – Seu,
Martianus Lucanius.[5]
De uma forma ou de outra aconteceu que na pressa de escrever eu omiti, o que modo algum, eu pretendia. Era de exortar você e os outros irmãos em poucas palavras, mas de todo o coração, ao cultivo da paz, para preservação daquilo que vocês deveriam todos se esforçarem o mais intensamente possível, visto que Satanás procura atentamente a vossa derrubada. Você podem ter dificuldades de acreditar o quanto eu fiquei chocado ao ouvir que o novo alvoroço sobre os leprosos, foi iniciado por ele de quem eu jamais suspeitaria tal coisa. Mas finalmente ele vomitou o veneno que foi engolindo na longa dissimulação, e tendo armado o bote, fugiu como uma víbora. Não seja faltoso, de sua parte, peço-te, no que depender de você, que, na verdade, eu estava confiante de que seria o caso de seu próprio acordo, mas eu estava disposto ao mesmo tempo para interpor minha oração pela paz.
[Autógrafo original Latim - Biblioteca da Companhia de Neuchatel].
NOTAS:
[1] Christopher Libertet ou Fabri, de Viena em Dauphiny, um ministro digno da Igreja de Neuchatel. Por um breve período ele começou relações de amizade com Calvino, foi em 1536 pastor da congregação em Thenon, participou no mesmo ano na disputa em Lausanne e foi chamado em 1546 pela Igreja de Neuchatel, onde serviu até a hora de sua morte, em 1563, com a mesma sabedoria e fidelidade.
[2] Sem ano. Esta carta, escrita antes da publicação da Bíblia de Robert Olivetan, refere-se, evidentemente, ao ano de 1534. Devido à necessidade de deixar a França, a fim de escapar da perseguição, Calvino tinha se exilado em Basiléia, onde, no ano seguinte, compôs seu livro “De l’Institution Chretienne.”
[3] Peter Robert Olivetan, relacionado a Calvino e tradutor da Bíblia para a língua francesa. Banido de Genebra, em 1533, ele havia se retirado para Neuchatel, onde publicou consecutivamente (1534-1535) sua tradução do Novo e do Velho Testamento. Este trabalho, realizado a pedido dos valdenses do Piemonte, tinha sido revisado por Calvino.
[4] Este é o tratado que tem direito “Psychopannychia, qua refellitur eorum error qui animas post mortem usque ad ultimum judicium dormire putant.” – Paris, 1534, 8vo. Este tratado, traduzido para o francês pelo próprio Calvino, foi inserido, com um prefácio do autor, “a un sien amy,” no “Recueil des Opuscules,” página 1.
[5] Um pseudônimo que Calvino, por vezes, fazia uso em sua correspondência Latina.
Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana Filadélfia em Marabá-PA, cursando Mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo CPAJ – Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.
PARA CHRISTOPHER LIBERTET[1]
CALVINO EM BASILÉIA - REVISÃO DA BÍBLIA DE ROBERT OLIVETAN - TRATADO SOBRE A IMORTALIDADE DA ALMA.
BASILÉIA, 11 de Setembro, [1534][2]
Quando o nosso amigo Olivetan[3] insinuou, através das cartas que ele escreveu sobre o momento da sua partida, que ele tinha colocado de lado sua publicação intentada do Novo Testamento para um outro momento, pareceu-me que eu poderia fazer a revisão que havia prometido no meu período de lazer, e reservá-lo para um outro momento. Nesse ínterim, outros estudos envolveram minha atenção, e eu não pensei mais no assunto, ou melhor, me afundei na costumeira enfermidade. Na verdade, eu raramente tenho posto minha mão para trabalhar nele, e além disso, o volume que enviei será necessário para o conjunto, e embora tenha sido trazido há três meses, ainda não foi feito. Isso não aconteceu por qualquer indiferença de minha parte, mas em parte pela lentidão do encadernador, a quem, no entanto, nós não deixamos de chamar diariamente, parcialmente também porque quando ele foi inicialmente trazido para mim nós pedimos um suprimento de papel para a extensão de seis folhas, o que não podia ser feito imediatamente. De agora em diante, no entanto, separarei uma hora todos os dias para me aplicar a este trabalho. Se eu tivesse que fazer quaisquer observações, não iria confiá-las a ninguém mais senão a você, a menos que Olivetan em seu retorno se antecipasse a você. Além disso, palavras tem sido trazidas a mim por alguém, não sei quem, a pedido seu, que você não aprova inteiramente algumas coisas no meu tratado sobre a imortalidade da alma.[4] Assim, longe de ser ofendido por causa de sua opinião, gentilmente me deleito com esta simplicidade direta. Nem minha perversidade chega a tal ponto que me permitisse uma liberdade de opinião tal, que eu desejasse subtraí-la de outros. Que eu, no entanto, não te oprima ou irrite desnecessariamente, lutando a mesma batalha repetidas vezes, eu desejo que você entenda que o livro foi reformulado por mim. Algumas coisas foram adicionados, outros deixados de fora, mas tudo completamente de uma forma e método diferentes. Ainda que algumas poucas coisas foram omitidos, outras eu inseri, e algumas coisas eu alterei. Quanto àquele ensaio que eu tinha dado para Olivetan ler, continha meus primeiros pensamentos, foram preparados em forma de memorandos ou comentários ao invés de conclusões resultantes de qualquer método definido e certo, embora houvesse alguma aparência de ordem.
Aquele novo livro (pois assim deve ser chamado) que eu teria lhe enviado, tinha sido lido por mim de novo. Mas desde que foi escrito por Gaspar, eu nem olhei para ele. Até logo; que o Senhor te tenha em seus cuidados e possa enriquecê-lo sempre com seus próprios dons. – Seu,
Martianus Lucanius.[5]
De uma forma ou de outra aconteceu que na pressa de escrever eu omiti, o que modo algum, eu pretendia. Era de exortar você e os outros irmãos em poucas palavras, mas de todo o coração, ao cultivo da paz, para preservação daquilo que vocês deveriam todos se esforçarem o mais intensamente possível, visto que Satanás procura atentamente a vossa derrubada. Você podem ter dificuldades de acreditar o quanto eu fiquei chocado ao ouvir que o novo alvoroço sobre os leprosos, foi iniciado por ele de quem eu jamais suspeitaria tal coisa. Mas finalmente ele vomitou o veneno que foi engolindo na longa dissimulação, e tendo armado o bote, fugiu como uma víbora. Não seja faltoso, de sua parte, peço-te, no que depender de você, que, na verdade, eu estava confiante de que seria o caso de seu próprio acordo, mas eu estava disposto ao mesmo tempo para interpor minha oração pela paz.
[Autógrafo original Latim - Biblioteca da Companhia de Neuchatel].
NOTAS:
[1] Christopher Libertet ou Fabri, de Viena em Dauphiny, um ministro digno da Igreja de Neuchatel. Por um breve período ele começou relações de amizade com Calvino, foi em 1536 pastor da congregação em Thenon, participou no mesmo ano na disputa em Lausanne e foi chamado em 1546 pela Igreja de Neuchatel, onde serviu até a hora de sua morte, em 1563, com a mesma sabedoria e fidelidade.
[2] Sem ano. Esta carta, escrita antes da publicação da Bíblia de Robert Olivetan, refere-se, evidentemente, ao ano de 1534. Devido à necessidade de deixar a França, a fim de escapar da perseguição, Calvino tinha se exilado em Basiléia, onde, no ano seguinte, compôs seu livro “De l’Institution Chretienne.”
[3] Peter Robert Olivetan, relacionado a Calvino e tradutor da Bíblia para a língua francesa. Banido de Genebra, em 1533, ele havia se retirado para Neuchatel, onde publicou consecutivamente (1534-1535) sua tradução do Novo e do Velho Testamento. Este trabalho, realizado a pedido dos valdenses do Piemonte, tinha sido revisado por Calvino.
[4] Este é o tratado que tem direito “Psychopannychia, qua refellitur eorum error qui animas post mortem usque ad ultimum judicium dormire putant.” – Paris, 1534, 8vo. Este tratado, traduzido para o francês pelo próprio Calvino, foi inserido, com um prefácio do autor, “a un sien amy,” no “Recueil des Opuscules,” página 1.
[5] Um pseudônimo que Calvino, por vezes, fazia uso em sua correspondência Latina.
Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana Filadélfia em Marabá-PA, cursando Mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo CPAJ – Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.
quinta-feira, 7 de abril de 2016
Carta de João Calvino a Francis Daniel [1534]
CARTA 10 - PARA FRANCIS DANIEL
APOSENTADORIA DE CALVINO EM ANGOULEME
DOXOPOLIS [1534]
Sem ter nada em particular para escrever eu posso em qualquer momento bancar o fofoqueiro com você, e assim preencher uma carta. Ainda assim, porque eu deveria lançar sobre você minhas reclamações? A questão principal que, na minha opinião, é interessante o suficiente para ser comunicada a você neste momento é que eu estou bem, e levando em consideração a fraqueza do corpo e a enfermidade da qual você está ciente, também ainda estou fazendo alguns progressos no estudo. Com certeza, também, a bondade do meu patrono pode muito bem acelerar a inatividade do mais indolente indivíduo, pois é tal que compreendo claramente ser dada por causa das cartas. Por isso eu devo ainda mais empenhar-me e sinceramente esforçar-me para que eu não seja totalmente tomado pela pressão de tão generosa bondade, que de algum modo, constrange-me ao esforço. Embora, na verdade, se eu tivesse que tensionar cada nervo ao máximo, jamais conseguiria qualquer retorno adequado, ou até mesmo inadequado, tão grande é a quantidade de obrigações que eu teria que encarar. Este incentivo, portanto, deve manter-me continuamente consciente para cultivar aquelas motivações comuns do estudo, pois por causa dele um grande valor é colocado sobre de mim. Se fosse permitido desfrutar um repouso como este — a pausa, se estou a considerá-lo como meu exílio ou como minha aposentadoria, devo concluir que eu tenho sido favoravelmente bem cuidado. Mas o Senhor, por cuja providência tudo é antevisto, vai cuidar destas coisas. Eu aprendi por experiência própria que nós não podemos ver muito longe a nossa frente. Quando prometi a mim mesmo uma vida tranquila e fácil, o que eu menos esperava estava à mão; e, pelo contrário, quando pareceu-me que minha situação não podia ser tão amena, um ninho calmo foi construído para mim, além das minhas expectativas, e isso é a ação do Senhor, a quem, quando nos comprometemos, Ele mesmo cuida de nós. Mas eu já quase enchi minha página, parte com escrita, parte com a borrões. — Adeus, saúde a quem você desejar.
[Cópia latina — Biblioteca de Berna. Volume 450.]
Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana Filadélfia em Marabá-PA, cursando Mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.
APOSENTADORIA DE CALVINO EM ANGOULEME
DOXOPOLIS [1534]
Sem ter nada em particular para escrever eu posso em qualquer momento bancar o fofoqueiro com você, e assim preencher uma carta. Ainda assim, porque eu deveria lançar sobre você minhas reclamações? A questão principal que, na minha opinião, é interessante o suficiente para ser comunicada a você neste momento é que eu estou bem, e levando em consideração a fraqueza do corpo e a enfermidade da qual você está ciente, também ainda estou fazendo alguns progressos no estudo. Com certeza, também, a bondade do meu patrono pode muito bem acelerar a inatividade do mais indolente indivíduo, pois é tal que compreendo claramente ser dada por causa das cartas. Por isso eu devo ainda mais empenhar-me e sinceramente esforçar-me para que eu não seja totalmente tomado pela pressão de tão generosa bondade, que de algum modo, constrange-me ao esforço. Embora, na verdade, se eu tivesse que tensionar cada nervo ao máximo, jamais conseguiria qualquer retorno adequado, ou até mesmo inadequado, tão grande é a quantidade de obrigações que eu teria que encarar. Este incentivo, portanto, deve manter-me continuamente consciente para cultivar aquelas motivações comuns do estudo, pois por causa dele um grande valor é colocado sobre de mim. Se fosse permitido desfrutar um repouso como este — a pausa, se estou a considerá-lo como meu exílio ou como minha aposentadoria, devo concluir que eu tenho sido favoravelmente bem cuidado. Mas o Senhor, por cuja providência tudo é antevisto, vai cuidar destas coisas. Eu aprendi por experiência própria que nós não podemos ver muito longe a nossa frente. Quando prometi a mim mesmo uma vida tranquila e fácil, o que eu menos esperava estava à mão; e, pelo contrário, quando pareceu-me que minha situação não podia ser tão amena, um ninho calmo foi construído para mim, além das minhas expectativas, e isso é a ação do Senhor, a quem, quando nos comprometemos, Ele mesmo cuida de nós. Mas eu já quase enchi minha página, parte com escrita, parte com a borrões. — Adeus, saúde a quem você desejar.
[Cópia latina — Biblioteca de Berna. Volume 450.]
Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana Filadélfia em Marabá-PA, cursando Mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.
quinta-feira, 10 de março de 2016
Carta de Martinho Lutero a Johannes Staupitz [Setembro de 1523]
Ao reverendo pai em Cristo, João, abade de São Pedro da ordem dos beneditinos em Salzburg, seu superior em Cristo, seu pai e preceptor.[1]
A graça e paz em Cristo Jesus, o nosso Senhor.
Reverendo pai em Cristo: é injusto o teu silêncio e facilmente podes suspeitar o que dele opinamos. Mas, ainda que tenhamos perdido a tua graça e teu beneplácito não poderemos nos esquecer e ser ingratos contigo, por quem começou a brilhar a luz do evangelho nas trevas e em nossos corações. Confesso que nos agradaria mais se não te houvessem feito abade, mas, já que o és, procuraremos, o bem dos dois e deixemos que cada um abunde em sua opinião. Pior que ter te afastado de nós é suportarmos os teus amigos e eu o que esteja a serviço desse monstruoso famoso, teu cardeal.[2] Te vês obrigado a suportar e calar o que queres fazer, coisa que o mundo apenas pode aguentar. Milagre será não estejas em perigo de renegar a Cristo. Por isso, todos rogamos e desejamos que retornes a nós, que te libertes do cárcere desta tirania e esperamos que estejas de acordo por tua parte. Tal como te conheci até agora, sinto-me incapaz de compor esses dois extremos que se combatem entre si: que continues sendo o mesmo, e que consintas perseverar nessa situação, o que, se continuas sendo o mesmo, não penses com frequência em abandoná-la. E por último, como de ti pensamos e desejamos o melhor, abrigamos boas esperanças, ainda que a nossa esperança se veja fortemente abalada por teu duradouro silêncio.
Por este motivo me atrevo enviar-te estas letras em favor do irmão Acácio, cativo antes em teu monastério e agora, assim o espero, liberto em Cristo. Se continuas sendo o mesmo que conheci, não te peço somente que o perdoes, mas o farás generosamente, como também, te rogo que lhe dês algo da abundância de teu rico monastério, com o que possa iniciar uma nova vida, este homem pobre e carente. Assim peço a ele, e ainda que estive duvidando na incerteza, espero o melhor e me inclinei a presumir o melhor de ti. Se tens mudado em relação a nós, que Cristo não queira isto – te falo com toda a liberdade – não queiras perder tempo com palavra inúteis, mas que preferiria invocar a misericórdia de Deus sobre ti e sobre todos nós.
Assim vês, reverendo pai, que ambiguamente tenho que escrever a causa de que teu longo silêncio nos têm munido na incerteza sobre os teus sentimentos, quando tu tão bem nos conheces. Além do mais, estou certo de que o teu coração não pode depreciar-nos, ainda que nada em nós fosse do teu agrado. Por minha parte não deixarei de orar para que se cumpra o meu desejo de que te afastes de teu cardeal e do papado, como separado estou e tu o estiveste. Deus me ouça, e te una a nós. Amém.
Wittenberg, Dia de são Lamberto, 1523.[3] Martinus Lutherus.
NOTAS:
[1] WA Br 3, pp. 155-156. Staupitz terminou se tornando abade da histórica abadia de São Pedro em Salzburg; ou seja, ele foi transferido dos agostinianos para os beneditinos. A carta de Staupitz, possível contestação a este fato, onde se reflete a sua bondade natural, mas em que fecha a cara para Lutero por causa de seus excessos e violência. Cf. WA Br 3, pp. 236ss. Significado de Staupitz para Lutero em E. Wolf, Staupitz und Luther, Leipzig 1927.
[2] Mateo Lang, arcebispo de Salzburg, outra das pessoas cordialmente aborrecidas por Lutero.
[3] Data equivale a 17 de Setembro de 1523. Nota do tradutor.
Esta carta foi originalmente traduzida de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 395-396.
Tradução com introdução e notas em 10 de Março de 2016.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
A graça e paz em Cristo Jesus, o nosso Senhor.
Reverendo pai em Cristo: é injusto o teu silêncio e facilmente podes suspeitar o que dele opinamos. Mas, ainda que tenhamos perdido a tua graça e teu beneplácito não poderemos nos esquecer e ser ingratos contigo, por quem começou a brilhar a luz do evangelho nas trevas e em nossos corações. Confesso que nos agradaria mais se não te houvessem feito abade, mas, já que o és, procuraremos, o bem dos dois e deixemos que cada um abunde em sua opinião. Pior que ter te afastado de nós é suportarmos os teus amigos e eu o que esteja a serviço desse monstruoso famoso, teu cardeal.[2] Te vês obrigado a suportar e calar o que queres fazer, coisa que o mundo apenas pode aguentar. Milagre será não estejas em perigo de renegar a Cristo. Por isso, todos rogamos e desejamos que retornes a nós, que te libertes do cárcere desta tirania e esperamos que estejas de acordo por tua parte. Tal como te conheci até agora, sinto-me incapaz de compor esses dois extremos que se combatem entre si: que continues sendo o mesmo, e que consintas perseverar nessa situação, o que, se continuas sendo o mesmo, não penses com frequência em abandoná-la. E por último, como de ti pensamos e desejamos o melhor, abrigamos boas esperanças, ainda que a nossa esperança se veja fortemente abalada por teu duradouro silêncio.
Por este motivo me atrevo enviar-te estas letras em favor do irmão Acácio, cativo antes em teu monastério e agora, assim o espero, liberto em Cristo. Se continuas sendo o mesmo que conheci, não te peço somente que o perdoes, mas o farás generosamente, como também, te rogo que lhe dês algo da abundância de teu rico monastério, com o que possa iniciar uma nova vida, este homem pobre e carente. Assim peço a ele, e ainda que estive duvidando na incerteza, espero o melhor e me inclinei a presumir o melhor de ti. Se tens mudado em relação a nós, que Cristo não queira isto – te falo com toda a liberdade – não queiras perder tempo com palavra inúteis, mas que preferiria invocar a misericórdia de Deus sobre ti e sobre todos nós.
Assim vês, reverendo pai, que ambiguamente tenho que escrever a causa de que teu longo silêncio nos têm munido na incerteza sobre os teus sentimentos, quando tu tão bem nos conheces. Além do mais, estou certo de que o teu coração não pode depreciar-nos, ainda que nada em nós fosse do teu agrado. Por minha parte não deixarei de orar para que se cumpra o meu desejo de que te afastes de teu cardeal e do papado, como separado estou e tu o estiveste. Deus me ouça, e te una a nós. Amém.
Wittenberg, Dia de são Lamberto, 1523.[3] Martinus Lutherus.
NOTAS:
[1] WA Br 3, pp. 155-156. Staupitz terminou se tornando abade da histórica abadia de São Pedro em Salzburg; ou seja, ele foi transferido dos agostinianos para os beneditinos. A carta de Staupitz, possível contestação a este fato, onde se reflete a sua bondade natural, mas em que fecha a cara para Lutero por causa de seus excessos e violência. Cf. WA Br 3, pp. 236ss. Significado de Staupitz para Lutero em E. Wolf, Staupitz und Luther, Leipzig 1927.
[2] Mateo Lang, arcebispo de Salzburg, outra das pessoas cordialmente aborrecidas por Lutero.
[3] Data equivale a 17 de Setembro de 1523. Nota do tradutor.
Esta carta foi originalmente traduzida de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 395-396.
Tradução com introdução e notas em 10 de Março de 2016.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Carta de Lutero à Ecolampádio [20 Junho de 1523]
Ao sábio e piedoso Ecolampádio,[1] discípulo e fiel servo de Cristo, seu irmão no Senhor.
Graça e paz em Cristo. Em primeiro lugar quero pedir a você, ótimo Ecolampádio, que não ressinta com ingratidão ou negligência por minha parte o fato de não ter-lhe escrito até agora. Muito menos recebi sua carta desde a sua saída da Santa Brígida. Por outro lado (e pressuponho que Cristo fortaleceu o seu coração com a virtude de um espírito tão firme, como para livrá-lo do jugo de Satanás, após vencer estas superstições da consciência) julguei-o suficientemente maduro para esperar suas cartas, ou crer que as minhas o reafirmariam. Sinceramente, temos aprovado de todo o coração o seu espírito e sua virtuosa façanha. Felipe, que goza de forma especial recordando-se, não cessa de acrescer a cada dia a estima que por você professo.
Que o Senhor confirme o seu projeto de expor a Isaías, ainda que tenha me comunicado que tal coisa desagrade a Erasmo. Não se afete com esta indiferença. O que Erasmo pensa – ou simule pensar – nas coisas espirituais o testificam abundantemente os seus livros, desde os primeiros até os mais recentes. Da minha parte, ainda que acuse perfeitamente os seus dardos, como ele dissimula publicamente ser meu inimigo, também deixo entender que não me estou informado de suas astúcias, ainda que as perceba muito melhor do que se imagina. Na realidade está cumprindo aquilo para que estava destinado: introduzir o estudo das línguas [originais] e afastar os estudos sacrílegos. Possivelmente, do mesmo modo que Moisés, morra nos acampamentos de Moabe[2], porque não vigora aos estudos mais altos, ou seja, os que se referem à piedade. Gostaria muitíssimo que parasse de tratar e parafrasear a Escritura Sagrada, já que não se considera a altura que esta atividade exige, ocupa inutilmente os leitores e os atrasa na aprendizagem das Escrituras. Fez o bastante ao evidenciar o mal; enquanto que o bom e conduzir até a terra prometida, parece-me que não está a seu alcance. Mas, por quê falo tanto de Erasmo? Simplesmente para que não se deixe afetar por sua fama e autoridade, e para que você se alegre se percebe que há alguma coisa que não lhe agrade nesta matéria da Sagrada Escritura, pois, como todos começam a suspeitar, neste domínio não pode, ou não quer julgar com retidão.
Ainda tenho visto a sua tradução de Crisóstomo[2] Por causa de nossa amizade suplico que suportes este palavreado. Sei que você não anda necessitado de tais consolos. Nem abandonará a Cristo que habita e que opera por meio de você. Roga por mim, estou ocupado em tantos negócios exteriores, que corro o risco de terminar em carne, eu que comecei no espírito.[3]
Muitas horas me roubam as monjas e frades que saem dos conventos, sendo que tenho que atender às necessidades de todos eles.[5] Não direi nada dos demais que me exigem que cumpra com eles de tantas maneiras.
Adeus, ótimo Ecolampádio, e que a graça de Cristo o acompanhe. Saúde a todos os nossos.
Wittenberg, 20 de Junho de 1523.
NOTAS:
[1] WA Br 3, 96-97. Johanes Ecolampádio (1482-1531), sobrenome humanista de Hausscheim, pregador da catedral de Augsburg até que em 1520 aderiu ao convento de Santa Brígida. Veio a abandoná-lo dois anos mais tarde (a isto ele alude numa carta) para establecer-se em Basiléia como professor de teologia, assumindo por sua vez o papel de protagonista da Reforma nesta cidade. A sua atitude e estudos humanistas aproximaram-no de Erasmo e se percebe o temor de Lutero a que o princípe dos humanistas tivesse demasiada influência sobre ele. Proximo a Zwingli, ao seu lado intervirá no coloquio de Marburg. Cf. A. Staehlin, Das theologische Lebenswerk J. Oekolampads, Leipzing 1939.
[2] Dt 34:1-15.
[3] Divi Johannis Chrysostomi psegmata, nuperrime a Joanne Oecolampadio in latinum promo versa, Basileae 1523.
[4] Gl 3:3.
[5] Lutero se refere ao éxodo masivo de monjas que abandonaram o monasterio. Entre elas estava Catarina von Bora, futura esposa de Lutero. Veja detalhes na carta a Spalatino, 1 de Abril de 1521: WA Br 3, 54-55.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 394-395.
Traduzido em 3 de Dezembro de 2015.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
Graça e paz em Cristo. Em primeiro lugar quero pedir a você, ótimo Ecolampádio, que não ressinta com ingratidão ou negligência por minha parte o fato de não ter-lhe escrito até agora. Muito menos recebi sua carta desde a sua saída da Santa Brígida. Por outro lado (e pressuponho que Cristo fortaleceu o seu coração com a virtude de um espírito tão firme, como para livrá-lo do jugo de Satanás, após vencer estas superstições da consciência) julguei-o suficientemente maduro para esperar suas cartas, ou crer que as minhas o reafirmariam. Sinceramente, temos aprovado de todo o coração o seu espírito e sua virtuosa façanha. Felipe, que goza de forma especial recordando-se, não cessa de acrescer a cada dia a estima que por você professo.
Que o Senhor confirme o seu projeto de expor a Isaías, ainda que tenha me comunicado que tal coisa desagrade a Erasmo. Não se afete com esta indiferença. O que Erasmo pensa – ou simule pensar – nas coisas espirituais o testificam abundantemente os seus livros, desde os primeiros até os mais recentes. Da minha parte, ainda que acuse perfeitamente os seus dardos, como ele dissimula publicamente ser meu inimigo, também deixo entender que não me estou informado de suas astúcias, ainda que as perceba muito melhor do que se imagina. Na realidade está cumprindo aquilo para que estava destinado: introduzir o estudo das línguas [originais] e afastar os estudos sacrílegos. Possivelmente, do mesmo modo que Moisés, morra nos acampamentos de Moabe[2], porque não vigora aos estudos mais altos, ou seja, os que se referem à piedade. Gostaria muitíssimo que parasse de tratar e parafrasear a Escritura Sagrada, já que não se considera a altura que esta atividade exige, ocupa inutilmente os leitores e os atrasa na aprendizagem das Escrituras. Fez o bastante ao evidenciar o mal; enquanto que o bom e conduzir até a terra prometida, parece-me que não está a seu alcance. Mas, por quê falo tanto de Erasmo? Simplesmente para que não se deixe afetar por sua fama e autoridade, e para que você se alegre se percebe que há alguma coisa que não lhe agrade nesta matéria da Sagrada Escritura, pois, como todos começam a suspeitar, neste domínio não pode, ou não quer julgar com retidão.
Ainda tenho visto a sua tradução de Crisóstomo[2] Por causa de nossa amizade suplico que suportes este palavreado. Sei que você não anda necessitado de tais consolos. Nem abandonará a Cristo que habita e que opera por meio de você. Roga por mim, estou ocupado em tantos negócios exteriores, que corro o risco de terminar em carne, eu que comecei no espírito.[3]
Muitas horas me roubam as monjas e frades que saem dos conventos, sendo que tenho que atender às necessidades de todos eles.[5] Não direi nada dos demais que me exigem que cumpra com eles de tantas maneiras.
Adeus, ótimo Ecolampádio, e que a graça de Cristo o acompanhe. Saúde a todos os nossos.
Wittenberg, 20 de Junho de 1523.
NOTAS:
[1] WA Br 3, 96-97. Johanes Ecolampádio (1482-1531), sobrenome humanista de Hausscheim, pregador da catedral de Augsburg até que em 1520 aderiu ao convento de Santa Brígida. Veio a abandoná-lo dois anos mais tarde (a isto ele alude numa carta) para establecer-se em Basiléia como professor de teologia, assumindo por sua vez o papel de protagonista da Reforma nesta cidade. A sua atitude e estudos humanistas aproximaram-no de Erasmo e se percebe o temor de Lutero a que o princípe dos humanistas tivesse demasiada influência sobre ele. Proximo a Zwingli, ao seu lado intervirá no coloquio de Marburg. Cf. A. Staehlin, Das theologische Lebenswerk J. Oekolampads, Leipzing 1939.
[2] Dt 34:1-15.
[3] Divi Johannis Chrysostomi psegmata, nuperrime a Joanne Oecolampadio in latinum promo versa, Basileae 1523.
[4] Gl 3:3.
[5] Lutero se refere ao éxodo masivo de monjas que abandonaram o monasterio. Entre elas estava Catarina von Bora, futura esposa de Lutero. Veja detalhes na carta a Spalatino, 1 de Abril de 1521: WA Br 3, 54-55.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 394-395.
Traduzido em 3 de Dezembro de 2015.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
quarta-feira, 8 de abril de 2015
Ulrich Zwingli: uma carta ao bom povo de Appenzell [1526]
Em vários lugares Zwingli despreocupadamente se referiu a Appenzell como um ninho de atividade anabatista. Embora necessariamente não estivesse incorreta a sua acusação causou um pouco de contenda (mesmo ele nunca tendo, francamente, acusado o governo da cidade de quaisquer simpatias com os anabatistas). Então, numa tentativa de esclarecer os fatos, em 12 de fevereiro de 1526, ele escreveu:[1]
"Graça e paz da parte de Deus para vocês, respeitados, honrados, sábios, clementes, graciosos e amados Mestres: um caso extremamente infeliz aconteceu comigo, em que fui acusado publicamente diante de suas reuniões de adoração, ter insultado com palavras indecorosas e, se diga com todo o respeito, de ter chamado vocês de hereges, meus graciosos governantes do Estado.
Estou tão longe de aplicar esse nome a vocês, que eu deveria em breve, pensar em chamar o céu de inferno. Por toda a minha vida eu tenho pensado e falado de vocês em termos elogiosos e honra, senhores de Abtzell, como o faço agora, e, como Deus me favorece, deverei fazer até ao fim dos meus dias.
Mas não aconteceu há muito tempo, quando eu estava pregando contra os Catabatistas[2] que eu usei essas palavras: 'os Catabatistas estão agora a fazer tanto mal aos honestos cidadãos de Abtzell e estão mostrando tão grande insolência, que nada poderia ser mais infame.’ Vocês podem perceber, gentis senhores, com que modéstia eu os tenho em consideração, porque os Catabatistas turbulentos lhes causaram tantos problemas. Na verdade, eu suspeito que os Catabatistas são as mesmas pessoas que criaram este sermão contra mim em circulação entre vocês, pois eles fazem muitas destas coisas que não os tornam verdadeiros cristãos. Portanto, gentis e sábios senhores, peço mais sinceramente que vocês tenham me desculpado ante toda a comunidade, e, se for o caso, que vocês leiam esta carta em assembleia pública.
Senhores, eu lhes garanto, em nome de Deus, o nosso Salvador, nestes tempos perigosos que nunca vocês estiveram fora de meus pensamentos e minha solícita ansiedade; e se de alguma forma eu serei capaz de servir a vocês, que eu não poupe esforços para fazê-lo. Além do fato de que eu nunca usei esses termos, mesmo contra os meus inimigos, deixe-me dizer que nunca entrou na minha mente a aplicação de tais epítetos insultuosos a vocês, meus senhores piedosos e sábios.
Seja isto suficiente. Que Deus vos conserve em segurança, e que Ele possa colocar um freio nessas falsidades desenfreadas que estão sendo espalhadas por toda parte, o que é uma evidência de alguns grandes perigos - e que Ele possa realizar seus cultos e o completo estado na verdadeira fé em Cristo! Receba esta minha carta como boa parte, pois eu não poderia sofrer assim, com base numa falsidade contra mim, sem que desmentisse esta acusação.”
NOTAS:
[1] O texto original alemão foi traduzido por S.M. Jackson: Gnad und frid von gott. Hochgeachte, ersame, wysen, gnädige, günstige lieben herren Es kumpt mir eigenlich für, wie ich vor üwer wysheit offenlich gescholten sye, als ob ich uch, mine gnädigen herren gemeins lands, bescholten habe mit etwas ungeschickten worten und urloub vor üwer eer kätzer genempt hab, welchs als verr vor mir ist, als das ich geredt hab, die hell sye der himel. Ich hab all min läbtag herlich und erlich von uch minen herren von Abtzell geredt und gehalten, und noch hüt bi tag und, ob gott wil, bis in minen tod. Es hat sich aber in vergangner zyt begeben, do ich wider die widertöuffer gepredget, also geredt hab: “Die widertöuffer gebend ietz den biderben lúten zuo Abtzell so vil muey und arbeit ze schaffen und tribend so vil muotwillens, das ‘s ein spott ist”. Sehend, gnädigen herren, mit was zucht ich erbermd hab mit üwer wysheit gehebt, das úch die verwirrigen töuffer so vil unruowen gestattend. Aber ich zwyfel eigenlich, das mir die widertöuffer selb sölchen lümbden by úch ufgeblasen habind; dann sy tuond der dingen vil, die christenen warhaften menschen nit wol anstond. Hierumb, gnädige wyse herren, wellend mich umb gotzwillen vor gantzer gemeind verantwurt haben und, hatt es fuog, ouch disen brief vor gantzer gemeind vorlesen lassen; dann ich by gott, der üns alle erlöst hatt, sag, das ir mir uss miner sorg und angst in disen gevarlichen zyten nimmer kumend; und wo ich úch für andre yenen gedienen könd, wölt ich mich nit sparen. Darzuo hab ich minen fygenden all min tag nie sölichs zuogeredt, was wolt ich denn úch frommen wysen herren und ein gantze biderbe gemeind mit sölcher unghander red beladen? Nit me denn: sind gott bevolhen; der welle üns sölcher fräfnen lügen abhelffen, die allenthalb werdend fürggeben, das doch ein gwüss zeichen ist einer großen gevar, und üwer wisheit sampt gantzer gemeind in warem christenem glouben behalten. Derstond min schryben imm besten; dann ich sölchen unerberen lug nit hab mögen uff mir ligen lassen. Geben z’ Zürich xij. tags Hornungs M.D. xxvj. Üwer wysheit williger Huldrych Zuingli. Den frommen, fürsichtigen, ersamen, wysen amman, radt und gantzer gemeind zuo Abbtzell, sinen gnädigen, günstigen, lieben herren.
[2] Catabatistas é outro termo usado por Zwingli para os anabatistas.
Extraído de https://zwingliusredivivus.wordpress.com/2015/02/12/today-with-zwingli-a-letter-to-the-good-people-of-appenzell/
Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki em 8 de Abril de 2015.
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática
"Graça e paz da parte de Deus para vocês, respeitados, honrados, sábios, clementes, graciosos e amados Mestres: um caso extremamente infeliz aconteceu comigo, em que fui acusado publicamente diante de suas reuniões de adoração, ter insultado com palavras indecorosas e, se diga com todo o respeito, de ter chamado vocês de hereges, meus graciosos governantes do Estado.
Estou tão longe de aplicar esse nome a vocês, que eu deveria em breve, pensar em chamar o céu de inferno. Por toda a minha vida eu tenho pensado e falado de vocês em termos elogiosos e honra, senhores de Abtzell, como o faço agora, e, como Deus me favorece, deverei fazer até ao fim dos meus dias.
Mas não aconteceu há muito tempo, quando eu estava pregando contra os Catabatistas[2] que eu usei essas palavras: 'os Catabatistas estão agora a fazer tanto mal aos honestos cidadãos de Abtzell e estão mostrando tão grande insolência, que nada poderia ser mais infame.’ Vocês podem perceber, gentis senhores, com que modéstia eu os tenho em consideração, porque os Catabatistas turbulentos lhes causaram tantos problemas. Na verdade, eu suspeito que os Catabatistas são as mesmas pessoas que criaram este sermão contra mim em circulação entre vocês, pois eles fazem muitas destas coisas que não os tornam verdadeiros cristãos. Portanto, gentis e sábios senhores, peço mais sinceramente que vocês tenham me desculpado ante toda a comunidade, e, se for o caso, que vocês leiam esta carta em assembleia pública.
Senhores, eu lhes garanto, em nome de Deus, o nosso Salvador, nestes tempos perigosos que nunca vocês estiveram fora de meus pensamentos e minha solícita ansiedade; e se de alguma forma eu serei capaz de servir a vocês, que eu não poupe esforços para fazê-lo. Além do fato de que eu nunca usei esses termos, mesmo contra os meus inimigos, deixe-me dizer que nunca entrou na minha mente a aplicação de tais epítetos insultuosos a vocês, meus senhores piedosos e sábios.
Seja isto suficiente. Que Deus vos conserve em segurança, e que Ele possa colocar um freio nessas falsidades desenfreadas que estão sendo espalhadas por toda parte, o que é uma evidência de alguns grandes perigos - e que Ele possa realizar seus cultos e o completo estado na verdadeira fé em Cristo! Receba esta minha carta como boa parte, pois eu não poderia sofrer assim, com base numa falsidade contra mim, sem que desmentisse esta acusação.”
NOTAS:
[1] O texto original alemão foi traduzido por S.M. Jackson: Gnad und frid von gott. Hochgeachte, ersame, wysen, gnädige, günstige lieben herren Es kumpt mir eigenlich für, wie ich vor üwer wysheit offenlich gescholten sye, als ob ich uch, mine gnädigen herren gemeins lands, bescholten habe mit etwas ungeschickten worten und urloub vor üwer eer kätzer genempt hab, welchs als verr vor mir ist, als das ich geredt hab, die hell sye der himel. Ich hab all min läbtag herlich und erlich von uch minen herren von Abtzell geredt und gehalten, und noch hüt bi tag und, ob gott wil, bis in minen tod. Es hat sich aber in vergangner zyt begeben, do ich wider die widertöuffer gepredget, also geredt hab: “Die widertöuffer gebend ietz den biderben lúten zuo Abtzell so vil muey und arbeit ze schaffen und tribend so vil muotwillens, das ‘s ein spott ist”. Sehend, gnädigen herren, mit was zucht ich erbermd hab mit üwer wysheit gehebt, das úch die verwirrigen töuffer so vil unruowen gestattend. Aber ich zwyfel eigenlich, das mir die widertöuffer selb sölchen lümbden by úch ufgeblasen habind; dann sy tuond der dingen vil, die christenen warhaften menschen nit wol anstond. Hierumb, gnädige wyse herren, wellend mich umb gotzwillen vor gantzer gemeind verantwurt haben und, hatt es fuog, ouch disen brief vor gantzer gemeind vorlesen lassen; dann ich by gott, der üns alle erlöst hatt, sag, das ir mir uss miner sorg und angst in disen gevarlichen zyten nimmer kumend; und wo ich úch für andre yenen gedienen könd, wölt ich mich nit sparen. Darzuo hab ich minen fygenden all min tag nie sölichs zuogeredt, was wolt ich denn úch frommen wysen herren und ein gantze biderbe gemeind mit sölcher unghander red beladen? Nit me denn: sind gott bevolhen; der welle üns sölcher fräfnen lügen abhelffen, die allenthalb werdend fürggeben, das doch ein gwüss zeichen ist einer großen gevar, und üwer wisheit sampt gantzer gemeind in warem christenem glouben behalten. Derstond min schryben imm besten; dann ich sölchen unerberen lug nit hab mögen uff mir ligen lassen. Geben z’ Zürich xij. tags Hornungs M.D. xxvj. Üwer wysheit williger Huldrych Zuingli. Den frommen, fürsichtigen, ersamen, wysen amman, radt und gantzer gemeind zuo Abbtzell, sinen gnädigen, günstigen, lieben herren.
[2] Catabatistas é outro termo usado por Zwingli para os anabatistas.
Extraído de https://zwingliusredivivus.wordpress.com/2015/02/12/today-with-zwingli-a-letter-to-the-good-people-of-appenzell/
Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki em 8 de Abril de 2015.
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Carta de João Calvino a Francis Daniel [1533]
CARTA 9 - A FRANCIS DANIEL
REFORMA EM PARIS – A FÚRIA DE SORBONNE - COMÉDIA SATÍRICA DIRIGIDA CONTRA A RAINHA DE NAVARRO - A INTERVENÇÃO DE FRANCIS I. DELIBERAÇÃO SOBRE AS QUATRO FACULDADES - REVOGAÇÃO DA CENSURA PRONUNCIADA CONTRA O LIVRO INTITULADO "O ESPELHO DA ALMA PECADORA."
PARIS, [Outubro] 1533.
Embora eu tenha do meu lado uma gama de materiais que fornecem provas mais que satisfatórias do que está escrito, conterei minha caneta, para que você possa ter os principais fatos ao invés de uma longa narrativa; que se fosse para eu escrever tudo, daria um volume considerável. Em primeiro de outubro, período do ano em que os meninos que passam da classe de gramática para dialética, como de costume, por questão de prática, fazem uma peça teatral, eles representaram uma no Ginásio de Navarro, o que foi extraordinariamente pungente com aspersão de fel e vinagre. Os personagens levados ao palco são – uma rainha, que, femininamente vestida, apareceu com um tear, e totalmente ocupada com a roca e a agulha; em seguida, a furiosa Megera apareceu, trazendo tochas acesas perto de si, e pronta para jogar fora a roca e a agulha. Por um momento ela ofereceu oposição e dificuldade, mas quando ela se rendeu, recebeu em suas mãos o evangelho, e imediatamente se esqueceu de todos os hábitos que tinha anteriormente cultivado, e quase até de si mesma. Por último, ela se torna tirânica, e persegue os inocentes e desafortunados usando todo tipo de crueldade. Muitos outros recursos foram introduzidos no mesmo estilo, a maioria indignamente, de fato, contra essa excelente mulher, a quem, indireta ou obscuramente, eles insultuosamente afrontaram com suas injúrias. Por alguns dias o caso foi suprimido. Depois, no entanto, como a verdade é filha do tempo, e todo o problema tendo sido relatado à rainha, pareceu a ela que isso poderia deixar um péssimo exemplo e incentivo à lascívia deles, que sempre se pasmam atrás de coisas novas, se fosse permitido que esta impertinência passasse impune.
O chefe da polícia com cem oficiais dirigiu-se ao ginásio, e por sua ordem, cercaram o edifício para que ninguém pudesse escapar. Ele então entrou com alguns de seus homens, mas não teve sucesso em encontrar o autor da peça teatral. Dizem que ele jamais esperava um procedimento assim, e por isso não fez qualquer provisão para o caso de acontecer; mas estando por acaso no quarto de um amigo, ouviu o barulho antes que pudessem vê-lo e então se escondeu até conseguir uma chance de fuga do flagrante. O chefe do comando da polícia capturou os artistas juvenis; o diretor do Ginásio, entretanto, resistiu a este procedimento; no meio da confusão, pedras foram jogadas por alguns dos rapazes. O chefe da polícia, no entanto, manteve seus prisioneiros em custódia e os obrigou a explicarem o que partes eles tinham encenado na peça. Quando o autor da confusão não podia mais ser preso, o próximo passo foi inquirir aqueles que, tendo o poder de impedir, haviam permitido o espetáculo, escondendo o caso todo por tanto tempo. Um que se destacou acima do restante em autoridade e nome, (por ser o grande mestre Lauret) percebeu que poderia ser preso de forma mais respeitosa na casa de um dos Comissários, (como eles os chamam.) Outro deles, Morinus, o segundo depois dele, recebeu ordens de permanecer em casa. Enquanto isso, o inquérito prosseguia. O que foi descoberto, eu não sei: ele agora está intimado a comparecer numa citação de três dias curtos, como eles agora chamam. Tanto por uma comédia.
Certos teólogos facciosos perpetraram outro feito igualmente maligno e talvez quase tão audacioso. Quando eles procuraram as lojas dos livreiros, entre os livros que eles trouxeram, eles apreenderam o livro que é chamado Le Miroir de L'Ame Pecheresse [O Espelho da Alma Pecadora], leitura que eles queriam proibir. Quando o Rainha foi informada disso, ela chamou o rei seu irmão e contou a ele que ela tinha escrito o livro. Através de cartas endereçadas aos mestres da Academia de Paris ele exigia que eles garantissem a ele se tinham examinado o livro, e se eles tinham o classificado entre aqueles de religião doentia; e que se o consideravam de tal modo, que eles explicassem as razões de sua opinião. Referindo-se a todo o processo, Nicolas Cop, o médico, no momento o reitor, relatou o caso para as quatro faculdades de artes, de medicina, de filosofia, de teologia e de lei canônica. Entre os mestres de artes a quem ele se dirigiu primeiro, ele se dedicou na exposição de discurso longo e amargo contra os doutores, por causa de seu comportamento impetuoso e arrogante com sua majestade a rainha. Ele os aconselhou a não interferirem de forma alguma em questões tão perigosas, se não quisessem incorrer no desagrado do rei, nem se colocarem contra a rainha, a mãe de todas as virtudes e de todo bom aprendizado. Por último, que eles não deviam tomar sobre si a culpa desta ofensa, para não encorajarem a presunção daqueles que estavam sempre prontos a entrar em situações encobertas com o pretexto que isso era o feito da Academia com a qual eles tinham se comprometido, sem que a Academia estivesse de modo algum ciente disso. Era a opinião de todos eles que o ato deveria ser desmentido.
Os teólogos, canonistas e médicos, eram todos da mesma opinião. O reitor informou o decreto de sua ordem; em seguida, o deão da Faculdade de Medicina; em terceiro lugar, o mestre de Direito Canônico; em quarto, a Faculdade de Teologia. Le Clerc, o sacerdote da paróquia de Santo André, teve a última palavra, sobre quem caiu toda a confusão, outros se afastando dele sumiram de vista. Em primeiro lugar ele elogiou, em expressão sublime, a retidão do Rei, a firmeza destemida com que até então tem se portado como um protetor da fé. Que havia intrometidos que se dedicavam em perverter essa excelente pessoa, que também estavam associados pela destruição da faculdade sagrada; que ele, no entanto, sustentava uma expectativa confiante de que eles não teriam sucesso em seus desejos e que, em oposição a tal firmeza que ele sabia que o rei possuía. Que como considerada a matéria em mãos, ele foi de fato nomeado pelo decreto da Academia ao cargo; que nada, no entanto, foi menos intentado por ele do que tentar algo contra a rainha, uma mulher tão adornada por conversa piedosa, bem como pela religião pura, em prova de que ele aduziu a reverência com o qual ela tinha observado o rito do funeral em memória de sua falecida mãe; que ele tomou como livros proibidos, ambas produções obscenas, — Pantagruel e a Floresta de Amores, e outros da mesmo cunho; que, nesse ínterim, ele tinha colocado de lado o livro em questão como digno de desconfiança, porque foi publicado sem a aprovação da faculdade, em fraude e contravenção do decreto, pelo qual foi proibido levar adiante qualquer coisa que dissesse respeito da fé sem o conselho e aprovação da faculdade; que, em uma palavra, esta foi sua defesa, que o que foi levado em questão tinha sido feito sob garantia e ordem da faculdade; que todos eram participantes na ofensa, se houvesse algum, embora eles possam negar isso. E tudo isto foi dito em francês, para que todos pudessem entender se ele falou a verdade; todos alegaram, no entanto, que ele se declarou este pretenso desconhecimento a título de desculpa. Estavam presentes também o Bispo de Senlis, L'Etoile, e um dos chefes do palácio. Quando Le Clerc terminou de falar, Parvi disse que ele tinha lido o livro, — que ele não tinha encontrado nada que exigisse expurgação a menos que ele tivesse esquecido sua teologia.
Finalmente, ele exigiu que fosse feito um decreto pelo qual eles pudessem satisfazer o Rei. Cop, o reitor, anunciou que a Academia não reconhecia essa censura em seus termos; que eles não aprovavam nem homologavam a censura pela qual o livro em questão foi classificado entre os livros proibidos ou suspeitos; que aqueles que a tinham feito deviam olhar para ela, sobre que bases estavam defendendo o processo; que cartas deveriam ser preparadas no devido tempo, por meio das quais a Academia pudesse se desculpar diante do rei, e também agradecer por ele ter tão gentilmente se dirigido a eles de forma paternal. O diploma real foi produzido, pelo qual a permissão foi concedida ao Bispo de Paris para nomear os pregadores que quisesse para as diferentes paróquias, onde eles tivessem sido escolhidos de antemão pela vontade dos paroquianos; a principal influência sendo apreciada por aqueles que eram mais resistentes e possuídos de um furor sem sentido, os quais consideravam zelo, tal como o de Elias, com o qual, no entanto, ele era zeloso pela casa de Deus. — Adeus.
[Autógrafo latino original — Biblioteca de Berna. Volume 141]
Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, cursando Mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.
REFORMA EM PARIS – A FÚRIA DE SORBONNE - COMÉDIA SATÍRICA DIRIGIDA CONTRA A RAINHA DE NAVARRO - A INTERVENÇÃO DE FRANCIS I. DELIBERAÇÃO SOBRE AS QUATRO FACULDADES - REVOGAÇÃO DA CENSURA PRONUNCIADA CONTRA O LIVRO INTITULADO "O ESPELHO DA ALMA PECADORA."
PARIS, [Outubro] 1533.
Embora eu tenha do meu lado uma gama de materiais que fornecem provas mais que satisfatórias do que está escrito, conterei minha caneta, para que você possa ter os principais fatos ao invés de uma longa narrativa; que se fosse para eu escrever tudo, daria um volume considerável. Em primeiro de outubro, período do ano em que os meninos que passam da classe de gramática para dialética, como de costume, por questão de prática, fazem uma peça teatral, eles representaram uma no Ginásio de Navarro, o que foi extraordinariamente pungente com aspersão de fel e vinagre. Os personagens levados ao palco são – uma rainha, que, femininamente vestida, apareceu com um tear, e totalmente ocupada com a roca e a agulha; em seguida, a furiosa Megera apareceu, trazendo tochas acesas perto de si, e pronta para jogar fora a roca e a agulha. Por um momento ela ofereceu oposição e dificuldade, mas quando ela se rendeu, recebeu em suas mãos o evangelho, e imediatamente se esqueceu de todos os hábitos que tinha anteriormente cultivado, e quase até de si mesma. Por último, ela se torna tirânica, e persegue os inocentes e desafortunados usando todo tipo de crueldade. Muitos outros recursos foram introduzidos no mesmo estilo, a maioria indignamente, de fato, contra essa excelente mulher, a quem, indireta ou obscuramente, eles insultuosamente afrontaram com suas injúrias. Por alguns dias o caso foi suprimido. Depois, no entanto, como a verdade é filha do tempo, e todo o problema tendo sido relatado à rainha, pareceu a ela que isso poderia deixar um péssimo exemplo e incentivo à lascívia deles, que sempre se pasmam atrás de coisas novas, se fosse permitido que esta impertinência passasse impune.
O chefe da polícia com cem oficiais dirigiu-se ao ginásio, e por sua ordem, cercaram o edifício para que ninguém pudesse escapar. Ele então entrou com alguns de seus homens, mas não teve sucesso em encontrar o autor da peça teatral. Dizem que ele jamais esperava um procedimento assim, e por isso não fez qualquer provisão para o caso de acontecer; mas estando por acaso no quarto de um amigo, ouviu o barulho antes que pudessem vê-lo e então se escondeu até conseguir uma chance de fuga do flagrante. O chefe do comando da polícia capturou os artistas juvenis; o diretor do Ginásio, entretanto, resistiu a este procedimento; no meio da confusão, pedras foram jogadas por alguns dos rapazes. O chefe da polícia, no entanto, manteve seus prisioneiros em custódia e os obrigou a explicarem o que partes eles tinham encenado na peça. Quando o autor da confusão não podia mais ser preso, o próximo passo foi inquirir aqueles que, tendo o poder de impedir, haviam permitido o espetáculo, escondendo o caso todo por tanto tempo. Um que se destacou acima do restante em autoridade e nome, (por ser o grande mestre Lauret) percebeu que poderia ser preso de forma mais respeitosa na casa de um dos Comissários, (como eles os chamam.) Outro deles, Morinus, o segundo depois dele, recebeu ordens de permanecer em casa. Enquanto isso, o inquérito prosseguia. O que foi descoberto, eu não sei: ele agora está intimado a comparecer numa citação de três dias curtos, como eles agora chamam. Tanto por uma comédia.
Certos teólogos facciosos perpetraram outro feito igualmente maligno e talvez quase tão audacioso. Quando eles procuraram as lojas dos livreiros, entre os livros que eles trouxeram, eles apreenderam o livro que é chamado Le Miroir de L'Ame Pecheresse [O Espelho da Alma Pecadora], leitura que eles queriam proibir. Quando o Rainha foi informada disso, ela chamou o rei seu irmão e contou a ele que ela tinha escrito o livro. Através de cartas endereçadas aos mestres da Academia de Paris ele exigia que eles garantissem a ele se tinham examinado o livro, e se eles tinham o classificado entre aqueles de religião doentia; e que se o consideravam de tal modo, que eles explicassem as razões de sua opinião. Referindo-se a todo o processo, Nicolas Cop, o médico, no momento o reitor, relatou o caso para as quatro faculdades de artes, de medicina, de filosofia, de teologia e de lei canônica. Entre os mestres de artes a quem ele se dirigiu primeiro, ele se dedicou na exposição de discurso longo e amargo contra os doutores, por causa de seu comportamento impetuoso e arrogante com sua majestade a rainha. Ele os aconselhou a não interferirem de forma alguma em questões tão perigosas, se não quisessem incorrer no desagrado do rei, nem se colocarem contra a rainha, a mãe de todas as virtudes e de todo bom aprendizado. Por último, que eles não deviam tomar sobre si a culpa desta ofensa, para não encorajarem a presunção daqueles que estavam sempre prontos a entrar em situações encobertas com o pretexto que isso era o feito da Academia com a qual eles tinham se comprometido, sem que a Academia estivesse de modo algum ciente disso. Era a opinião de todos eles que o ato deveria ser desmentido.
Os teólogos, canonistas e médicos, eram todos da mesma opinião. O reitor informou o decreto de sua ordem; em seguida, o deão da Faculdade de Medicina; em terceiro lugar, o mestre de Direito Canônico; em quarto, a Faculdade de Teologia. Le Clerc, o sacerdote da paróquia de Santo André, teve a última palavra, sobre quem caiu toda a confusão, outros se afastando dele sumiram de vista. Em primeiro lugar ele elogiou, em expressão sublime, a retidão do Rei, a firmeza destemida com que até então tem se portado como um protetor da fé. Que havia intrometidos que se dedicavam em perverter essa excelente pessoa, que também estavam associados pela destruição da faculdade sagrada; que ele, no entanto, sustentava uma expectativa confiante de que eles não teriam sucesso em seus desejos e que, em oposição a tal firmeza que ele sabia que o rei possuía. Que como considerada a matéria em mãos, ele foi de fato nomeado pelo decreto da Academia ao cargo; que nada, no entanto, foi menos intentado por ele do que tentar algo contra a rainha, uma mulher tão adornada por conversa piedosa, bem como pela religião pura, em prova de que ele aduziu a reverência com o qual ela tinha observado o rito do funeral em memória de sua falecida mãe; que ele tomou como livros proibidos, ambas produções obscenas, — Pantagruel e a Floresta de Amores, e outros da mesmo cunho; que, nesse ínterim, ele tinha colocado de lado o livro em questão como digno de desconfiança, porque foi publicado sem a aprovação da faculdade, em fraude e contravenção do decreto, pelo qual foi proibido levar adiante qualquer coisa que dissesse respeito da fé sem o conselho e aprovação da faculdade; que, em uma palavra, esta foi sua defesa, que o que foi levado em questão tinha sido feito sob garantia e ordem da faculdade; que todos eram participantes na ofensa, se houvesse algum, embora eles possam negar isso. E tudo isto foi dito em francês, para que todos pudessem entender se ele falou a verdade; todos alegaram, no entanto, que ele se declarou este pretenso desconhecimento a título de desculpa. Estavam presentes também o Bispo de Senlis, L'Etoile, e um dos chefes do palácio. Quando Le Clerc terminou de falar, Parvi disse que ele tinha lido o livro, — que ele não tinha encontrado nada que exigisse expurgação a menos que ele tivesse esquecido sua teologia.
Finalmente, ele exigiu que fosse feito um decreto pelo qual eles pudessem satisfazer o Rei. Cop, o reitor, anunciou que a Academia não reconhecia essa censura em seus termos; que eles não aprovavam nem homologavam a censura pela qual o livro em questão foi classificado entre os livros proibidos ou suspeitos; que aqueles que a tinham feito deviam olhar para ela, sobre que bases estavam defendendo o processo; que cartas deveriam ser preparadas no devido tempo, por meio das quais a Academia pudesse se desculpar diante do rei, e também agradecer por ele ter tão gentilmente se dirigido a eles de forma paternal. O diploma real foi produzido, pelo qual a permissão foi concedida ao Bispo de Paris para nomear os pregadores que quisesse para as diferentes paróquias, onde eles tivessem sido escolhidos de antemão pela vontade dos paroquianos; a principal influência sendo apreciada por aqueles que eram mais resistentes e possuídos de um furor sem sentido, os quais consideravam zelo, tal como o de Elias, com o qual, no entanto, ele era zeloso pela casa de Deus. — Adeus.
[Autógrafo latino original — Biblioteca de Berna. Volume 141]
Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, cursando Mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Carta de Martinho Lutero a George Spalatino [Novembro de 1521]
A George Spalatino, discípulo de Cristo, seu amigo na fé.[1]
Jesus. Saudações. Creio que nunca recebi uma carta tão desagradável como a última que você me enviou. Estava decidido não somente a demorar responder, como também a não responder.
Em primeiro lugar, não estou disposto a suportar o que me disse, de que o príncipe não suportará que escreva contra o de Magnuncia, nem nada que possa perturbar a paz pública; pelo contrário, permanecerei sem você, sem o príncipe e sem ninguém no mundo. Se enfrentei o papa, criador do engano, vou me deter diante a sua criatura? Declara muito formoso que não se deve perturbar a paz pública, e você sofreria por turbar a paz eterna de Deus com as ações ímpias e profanas dessa perdição? Isto não sucederá, caro Spalatino; não ocorrerá isto, príncipe, senão que por amor das ovelhas de Cristo e para exemplo dos demais há que resistir ferozmente a este perigosíssimo lobo. Por isso lhe envio o panfleto[2] que preparei contra ele quando recebi a sua carta que não me fez mudar em nada, ainda que o submeti a juízo de Felipe para que o corrigisse no que cresse ser necessário. Não pense impedir a devolução do livro a Felipe nem desestimulá-lo. Considere que não farei isto.
Não deveria impressioná-lo que nós e nossos amigos nos vejamos na precisão de ouvir insultos por parte de nossos adversários, ou dos excessivamente prudentes nas coisas divinas, já que você sabe muito bem que nem Cristo, nem o apóstolo foram agradáveis aos homens. Além do mais, até agora não chegou aos meus ouvidos que aos nossos sejam acusados de algum crime, senão somente de depreciar a impiedade e as doutrinas da perdição, ainda que não me agradem as atitudes dos jovens que receberam mal o enviado dos antonianos.[3] Mas, quem seria capaz de frear sempre a todos e em todo lugar? Ou, eles jamais obram mal? Até os discípulos sofreram a vergonha de Judas Iscariotes e diariamente tiveram que suportar as comunidades por causa de seus maus membros; somente de nós é exigido que não gemamos. Peço a você que não espere a redação de uma apologia para cada um daqueles que desagrada a Wittenberg; não há nada mais impossível.
Não perecerá o evangelho porque algum de nós peque por falta de modéstia: os que por este motivo se afastam da palavra estão provando que não foi ela que aceitaram, senão somente a sua glória. As portas do inferno não poderão separar dela os que acolheram a palavra por causa da palavra. O que quer abandoná-la, que a abandone. Por que não se fixam no melhor e mais sólido que possuímos? Por que se apegam somente ao pior e ao mais fraco? É Felipe e os seus amigos acusados deste crime? Por que condenam o todo por uma parte? É um pecado mais leve receber um pregador ímpio do que aceitar fielmente a sua doutrina. Todavia, este pecado se vê elogiado e o pregador condenado como irredimível. E juízes e equidades desta atitude te fazem temer que o evangelho vá perecer por razões que não são mais do que fumaça?[4]
Confirmo a revogação das missas neste livro que te envio junto a carta.[5] Não pude preparar a Paraclesis, nem creio ser necessário fazê-lo, pelo fato de abordar o assunto em minha Tessaradecade.[6] Por que não facilita a leitura desta obra? Por que não se convence de ler o evangelho e a paixão de Cristo, pois não encontrará consolo melhor? Terei que escrever uma consolação para cada caso? O que diriam os inimigos? Além do mais, espero que baste a Paraclesis de Felipe, pois imagino que no intervalo cessará a enfermidade de seu ânimo, e desta forma a minha chegaria tarde e resultaria inútil. Não será ímpio, nem perigoso diferir ou descuidá-lo de tais circunstâncias.
O que de fato me preocupa agora é a perdição das almas, que é sobre o que ando trabalhado. Estou determinado a atacar os votos dos religiosos e liberar os jovens deste inferno do celibato, imundo e condenadíssimo por causa das coceiras e das poluções. Estou escrevendo isto em parte por causa das tentações, e em parte pela indignação que sinto.[7] Verá que é bom. Não há um só Satanás comigo, ou melhor, contra mim, que estou sozinho e, às vezes, me faço só.
Adeus e saúda a todos os nossos. A Gerbel[8] e lhe escrevi quando recebi a sua última e tudo estava fechado e selado.
Dia de são Martin, 1521. Seu Martinus Luther.
NOTAS:
[1] WA Br 2, 402-403.
[2] Alberto de Maguncia para conseguir ingressos que sanassem as suas finanças em Setembro de 1521 realizou uma exposição indulgenciando as relíquias de sua igreja em Halle. Para evitar reações enviou emissários a Wittenberg que tratassem de convencer ao príncipe eleitor e a amigos de Lutero da conveniência de não se opor. Parece que em parte conseguiu. Mas Lutero escreveu um furioso panfleto Contra o ídolo de Halle, cuja publicação irritou o príncipe. Note-se a violência de Lutero e a reincidência do cardeal, personagem ambíguo e não afetado pelos sucessos de 1517.
[3] Em 5 de Outubro, seguindo o costume, os monges antonianos de Lichtenburg enviaram delegados para recolher esmolas. Foram recebidos violentamente e não foi possível nem sequer pregar.
[4] Is 7:4.
[5] De Abroganda missa privata M. Lutheri setentia: WA 8, 411-476.
[6] A Paraclesis, ou tratado consolatório, neste caso dedicado ao príncipe. Tessaradecas consolatoria pro laborantibus et oneratis, escrito em 1520: WA 6, 104-134.
[7] Plano de sua obra De votis monasticis: WA 8, 573-669.
[8] Nicolás Gerbel foi um jurisconsulto de Estraburgo a quem se dirigiu em 1 Novembro de 1521 (WA Br 2, 396-398).
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 390-391.
Traduzido em 5 de Janeiro de 2015.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
Jesus. Saudações. Creio que nunca recebi uma carta tão desagradável como a última que você me enviou. Estava decidido não somente a demorar responder, como também a não responder.
Em primeiro lugar, não estou disposto a suportar o que me disse, de que o príncipe não suportará que escreva contra o de Magnuncia, nem nada que possa perturbar a paz pública; pelo contrário, permanecerei sem você, sem o príncipe e sem ninguém no mundo. Se enfrentei o papa, criador do engano, vou me deter diante a sua criatura? Declara muito formoso que não se deve perturbar a paz pública, e você sofreria por turbar a paz eterna de Deus com as ações ímpias e profanas dessa perdição? Isto não sucederá, caro Spalatino; não ocorrerá isto, príncipe, senão que por amor das ovelhas de Cristo e para exemplo dos demais há que resistir ferozmente a este perigosíssimo lobo. Por isso lhe envio o panfleto[2] que preparei contra ele quando recebi a sua carta que não me fez mudar em nada, ainda que o submeti a juízo de Felipe para que o corrigisse no que cresse ser necessário. Não pense impedir a devolução do livro a Felipe nem desestimulá-lo. Considere que não farei isto.
Não deveria impressioná-lo que nós e nossos amigos nos vejamos na precisão de ouvir insultos por parte de nossos adversários, ou dos excessivamente prudentes nas coisas divinas, já que você sabe muito bem que nem Cristo, nem o apóstolo foram agradáveis aos homens. Além do mais, até agora não chegou aos meus ouvidos que aos nossos sejam acusados de algum crime, senão somente de depreciar a impiedade e as doutrinas da perdição, ainda que não me agradem as atitudes dos jovens que receberam mal o enviado dos antonianos.[3] Mas, quem seria capaz de frear sempre a todos e em todo lugar? Ou, eles jamais obram mal? Até os discípulos sofreram a vergonha de Judas Iscariotes e diariamente tiveram que suportar as comunidades por causa de seus maus membros; somente de nós é exigido que não gemamos. Peço a você que não espere a redação de uma apologia para cada um daqueles que desagrada a Wittenberg; não há nada mais impossível.
Não perecerá o evangelho porque algum de nós peque por falta de modéstia: os que por este motivo se afastam da palavra estão provando que não foi ela que aceitaram, senão somente a sua glória. As portas do inferno não poderão separar dela os que acolheram a palavra por causa da palavra. O que quer abandoná-la, que a abandone. Por que não se fixam no melhor e mais sólido que possuímos? Por que se apegam somente ao pior e ao mais fraco? É Felipe e os seus amigos acusados deste crime? Por que condenam o todo por uma parte? É um pecado mais leve receber um pregador ímpio do que aceitar fielmente a sua doutrina. Todavia, este pecado se vê elogiado e o pregador condenado como irredimível. E juízes e equidades desta atitude te fazem temer que o evangelho vá perecer por razões que não são mais do que fumaça?[4]
Confirmo a revogação das missas neste livro que te envio junto a carta.[5] Não pude preparar a Paraclesis, nem creio ser necessário fazê-lo, pelo fato de abordar o assunto em minha Tessaradecade.[6] Por que não facilita a leitura desta obra? Por que não se convence de ler o evangelho e a paixão de Cristo, pois não encontrará consolo melhor? Terei que escrever uma consolação para cada caso? O que diriam os inimigos? Além do mais, espero que baste a Paraclesis de Felipe, pois imagino que no intervalo cessará a enfermidade de seu ânimo, e desta forma a minha chegaria tarde e resultaria inútil. Não será ímpio, nem perigoso diferir ou descuidá-lo de tais circunstâncias.
O que de fato me preocupa agora é a perdição das almas, que é sobre o que ando trabalhado. Estou determinado a atacar os votos dos religiosos e liberar os jovens deste inferno do celibato, imundo e condenadíssimo por causa das coceiras e das poluções. Estou escrevendo isto em parte por causa das tentações, e em parte pela indignação que sinto.[7] Verá que é bom. Não há um só Satanás comigo, ou melhor, contra mim, que estou sozinho e, às vezes, me faço só.
Adeus e saúda a todos os nossos. A Gerbel[8] e lhe escrevi quando recebi a sua última e tudo estava fechado e selado.
Dia de são Martin, 1521. Seu Martinus Luther.
NOTAS:
[1] WA Br 2, 402-403.
[2] Alberto de Maguncia para conseguir ingressos que sanassem as suas finanças em Setembro de 1521 realizou uma exposição indulgenciando as relíquias de sua igreja em Halle. Para evitar reações enviou emissários a Wittenberg que tratassem de convencer ao príncipe eleitor e a amigos de Lutero da conveniência de não se opor. Parece que em parte conseguiu. Mas Lutero escreveu um furioso panfleto Contra o ídolo de Halle, cuja publicação irritou o príncipe. Note-se a violência de Lutero e a reincidência do cardeal, personagem ambíguo e não afetado pelos sucessos de 1517.
[3] Em 5 de Outubro, seguindo o costume, os monges antonianos de Lichtenburg enviaram delegados para recolher esmolas. Foram recebidos violentamente e não foi possível nem sequer pregar.
[4] Is 7:4.
[5] De Abroganda missa privata M. Lutheri setentia: WA 8, 411-476.
[6] A Paraclesis, ou tratado consolatório, neste caso dedicado ao príncipe. Tessaradecas consolatoria pro laborantibus et oneratis, escrito em 1520: WA 6, 104-134.
[7] Plano de sua obra De votis monasticis: WA 8, 573-669.
[8] Nicolás Gerbel foi um jurisconsulto de Estraburgo a quem se dirigiu em 1 Novembro de 1521 (WA Br 2, 396-398).
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 390-391.
Traduzido em 5 de Janeiro de 2015.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
Carta de Martinho Lutero a Johannes Staupiz [Setembro de 1521]
A Staupitz. 9 de Setembro de 1521[1]
Jesus. Saudações. Em nada me preocupa a crítica do Capitão[2], nem a de Erasmo, nem me altera a opinião que sobre eles tenho formada. Temi que teria que me explicar com eles, até que me dei conta de que Erasmo estava muito longe do conhecimento da graça, sendo que, em todos os seus escritos não recorre à cruz, senão à paz. Ele crê que tudo pode ser tratado com certa cortesia e benevolência; mas, Behemoth[3] não anda com estas cerimônias e esse sistema é recomendado a ninguém.
Recordo o que aplicava em seu prólogo ao Novo Testamento: “O cristão tem facilidade de depreciar a glória.” Eu pensava comigo: “Oh! Erasmo, muito temo que esteja equivocado!” Grande coisa é depreciar a glória, mas não se referia ao desprezo que lhe poderiam fazer, senão ao que tinha em seu pensamento. Se não tem nenhum significado o desprezo da glória da palavra, menos valor terá o que existe somente no pensamento. Assim, segundo são Paulo “o reino de Deus está no poder”;[4] por isso, ainda não pude me gloriar em nada mais do que da palavra da verdade que me confiou o Senhor.
E por isso, os escritos destes homens que se abstêm de chicotear, de morder, de ofender, nada conseguem. Corrigem educadamente aos pontífices, o tomam como uma lisonja, e como se gozassem do direito de serem incorrigíveis, continuam tão satisfeitos de serem grandes e de que ninguém se atreva a repreendê-los. Estes são os personagens representados por Plutarco em seu livro Da Adulação, e aos que Jeremias fustiga de maneira mais severa e terrível: “maldito quem realiza fraudulentamente o trabalho do Senhor.”[5] Fala da ação da espada contra os inimigos de Deus. Inclusive me assusta e me ofende a consciência porque em Worms fiz caso do conselho que você me deu e os amigos, e não me mostrei forte de espírito, nem me exibi como um novo Elias diante daqueles ídolos.[6] Ouviriam outra coisa se comparecesse novamente diante deles. Mas não falemos mais disto.
O duque João, o Maior, está inteirado de meu paradeiro,[7] coisa que até o momento ignorava; meu anfitrião tem mantido em segredo, mas saberá calar. Encontro-me bem aqui, mas, miserável que sou, me faço preguiçoso, definho no espírito. Hoje, depois de seis dias, fiz do ventre fezes muito duras, que acreditei que exalaria a alma. Agora estou sentado, sentindo dor como uma recém-parida, lacerado, ferido, sangrando, e esta noite não terei nenhum descanso, mesmo que pouco. Dou graças a Cristo que não me priva de alguns dos fragmentos da santa cruz. Estaria curado de todas as feridas se tivesse o ventre ligeiro; mas o que sara em quatro dias volta a abrir toda vez que vou defecar. Digo a você estas coisas, não para que se compadeça de mim, mas para que me congratule e rogue para que me faça digno de fervor espiritual. Chegou o tempo de orar com todas as forças contra Satanás, porque anda gestando alguma tragédia funesta contra a Alemanha. Estou temendo que o Senhor permita e aqui me tenha roncando e vagaroso para orar, resistir, até tal ponto que estou violentamente descontente e cansado de mim mesmo, porque me encontro sozinho e vocês não me ajudam. Oremos e vigiemos para não entrar em tentação.[8] Por hora não tenho mais o que te dizer. Você sabe das demais coisas.
Alegro-me de que Wittenberg prospere, tanto mais porque isto ocorre durante a minha ausência, para que o ímpio veja, se irrite e pereça os seus desejos.[9] Que Cristo termine o que ele começou. Desejaria vividamente que Felipe[10] pregasse às pessoas em algum lugar da cidade nos dias de festa, quando aos poucos se entregarão à bebida e aos jogos, para que se introduzisse o hábito da liberdade[11] e se restituam a face e os costumes da igreja primitiva. Porque se desvalorizado a todas as leis humanas e rejeitado os seus jugos, então, por que é um obstáculo o fato de que não esteja ungido ou tonsurado e que seja casado? Se o anunciar a palavra é uma função sacerdotal, ele é um sacerdote e como sacerdote atua de fato; de outra forma, nem Cristo seria sacerdote, ele que ensinava nas sinagogas, nas barcas e beira mar, nas montanhas: sempre foi o mesmo em todos os lugares e em todos os momentos. Portanto, que não se negue a ninguém que sendo chamado por Deus e que exercendo o ministério da palavra, porque importa que mesmo não sendo chamado por estes tiranos, ou seja, bispos não das igrejas, senão de cavalos e lacaios de príncipes? Não obstante, conheço muito bem os sentimentos deste homem e sei que não se convencerá por minhas razões.
Tem que ser chamado e urgido por mandato e impulso de toda a comunidade. Se ela pede e lhe exige, não se deve, nem pode recusar. Se estivesse presente engajaria todo o meu esforço com o conselho e povo para que lhe pedissem que explicassem o evangelho em privado e em alemão, como comecei a fazê-lo em latim: assim, o bispo converteria em alemão o mesmo que o é em latim. Eu sentiria muita satisfação que fizesses de tua parte tal coisa uma realidade, porque o que mais urgentemente necessita o povo é a palavra de Deus; e que esta abunde no mais generosamente que em todos os demais, ao menos que, urgindo-o a consciência e exigindo-o a Deus, temos a obrigação de chamar-lhe para que não se desperdice o fruto da palavra.
A ti será fácil tratar este assunto no conselho por mediação de Lucas e Cristian[12] para que Cristo vindique a minha ausência e meu silêncio com a sua pregação e sua voz para confusão de Satanás e suas crias. Orígenes ensinou de modo privado as mulheres[13], então, por que motivo ele não tenta fazer o mesmo, sendo que ele pode e deve fazê-lo? E ainda mais quando o povo está necessitado e sedento. Rogo a você que não deixe se vencer por desculpas. Redigirá textos formosos que é algo que lhe é conveniente. Não há motivo para ambicioná-lo, mas tem que ser insistentemente chamado pela igreja, inclusive até solicitado para que este serviço e faça não o que seja útil para ele, senão que o que proveitoso para muitos. Ainda te suplico: coloque maior diligência em fixa-lo, ajudando-o com amigos que juntos possam apoiá-lo.
E adeus. Lembre-se de mim diante o Senhor.
Do deserto,[14] dia seguinte à natividade de Maria, 1521. Teu Martinus Luther.
NOTAS:
[1] WA Br 2, 387-389.
[2] Capitão a esta altura era um dos humanistas que se aproximava de Erasmo em Basiléia.
[3] Jó 40:15ss.
[4] 1 Co 4:20.
[5] Jr 48:10.
[6] 1 Rs 18:20ss.
[7] Irmão de Frederico, o Sábio.
[8] Mt 26:41.
[9] Sl 112:10.
[10] Felipe Melanchthon.
[11] Lutero pensa na liberdade da palavra de Deus, da pregação, e no sacerdócio universal dos crentes.
[12] Lucas Cranach, o célebre pintor, e Cristian Düring, o mais conhecido e talvez o maior impressor de Wittenberg, ambos seus amigos.
[13] Jerônimo, De viris illustribus, 54 (ML 23, 699).
[14] Denominação que ele aplica aos seus retiros forçados, agora em Warturb, logo (1530) nas cartas de Coburgo.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), p. 388-390.
Tradução em 5 de Janeiro de 2015.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
Jesus. Saudações. Em nada me preocupa a crítica do Capitão[2], nem a de Erasmo, nem me altera a opinião que sobre eles tenho formada. Temi que teria que me explicar com eles, até que me dei conta de que Erasmo estava muito longe do conhecimento da graça, sendo que, em todos os seus escritos não recorre à cruz, senão à paz. Ele crê que tudo pode ser tratado com certa cortesia e benevolência; mas, Behemoth[3] não anda com estas cerimônias e esse sistema é recomendado a ninguém.
Recordo o que aplicava em seu prólogo ao Novo Testamento: “O cristão tem facilidade de depreciar a glória.” Eu pensava comigo: “Oh! Erasmo, muito temo que esteja equivocado!” Grande coisa é depreciar a glória, mas não se referia ao desprezo que lhe poderiam fazer, senão ao que tinha em seu pensamento. Se não tem nenhum significado o desprezo da glória da palavra, menos valor terá o que existe somente no pensamento. Assim, segundo são Paulo “o reino de Deus está no poder”;[4] por isso, ainda não pude me gloriar em nada mais do que da palavra da verdade que me confiou o Senhor.
E por isso, os escritos destes homens que se abstêm de chicotear, de morder, de ofender, nada conseguem. Corrigem educadamente aos pontífices, o tomam como uma lisonja, e como se gozassem do direito de serem incorrigíveis, continuam tão satisfeitos de serem grandes e de que ninguém se atreva a repreendê-los. Estes são os personagens representados por Plutarco em seu livro Da Adulação, e aos que Jeremias fustiga de maneira mais severa e terrível: “maldito quem realiza fraudulentamente o trabalho do Senhor.”[5] Fala da ação da espada contra os inimigos de Deus. Inclusive me assusta e me ofende a consciência porque em Worms fiz caso do conselho que você me deu e os amigos, e não me mostrei forte de espírito, nem me exibi como um novo Elias diante daqueles ídolos.[6] Ouviriam outra coisa se comparecesse novamente diante deles. Mas não falemos mais disto.
O duque João, o Maior, está inteirado de meu paradeiro,[7] coisa que até o momento ignorava; meu anfitrião tem mantido em segredo, mas saberá calar. Encontro-me bem aqui, mas, miserável que sou, me faço preguiçoso, definho no espírito. Hoje, depois de seis dias, fiz do ventre fezes muito duras, que acreditei que exalaria a alma. Agora estou sentado, sentindo dor como uma recém-parida, lacerado, ferido, sangrando, e esta noite não terei nenhum descanso, mesmo que pouco. Dou graças a Cristo que não me priva de alguns dos fragmentos da santa cruz. Estaria curado de todas as feridas se tivesse o ventre ligeiro; mas o que sara em quatro dias volta a abrir toda vez que vou defecar. Digo a você estas coisas, não para que se compadeça de mim, mas para que me congratule e rogue para que me faça digno de fervor espiritual. Chegou o tempo de orar com todas as forças contra Satanás, porque anda gestando alguma tragédia funesta contra a Alemanha. Estou temendo que o Senhor permita e aqui me tenha roncando e vagaroso para orar, resistir, até tal ponto que estou violentamente descontente e cansado de mim mesmo, porque me encontro sozinho e vocês não me ajudam. Oremos e vigiemos para não entrar em tentação.[8] Por hora não tenho mais o que te dizer. Você sabe das demais coisas.
Alegro-me de que Wittenberg prospere, tanto mais porque isto ocorre durante a minha ausência, para que o ímpio veja, se irrite e pereça os seus desejos.[9] Que Cristo termine o que ele começou. Desejaria vividamente que Felipe[10] pregasse às pessoas em algum lugar da cidade nos dias de festa, quando aos poucos se entregarão à bebida e aos jogos, para que se introduzisse o hábito da liberdade[11] e se restituam a face e os costumes da igreja primitiva. Porque se desvalorizado a todas as leis humanas e rejeitado os seus jugos, então, por que é um obstáculo o fato de que não esteja ungido ou tonsurado e que seja casado? Se o anunciar a palavra é uma função sacerdotal, ele é um sacerdote e como sacerdote atua de fato; de outra forma, nem Cristo seria sacerdote, ele que ensinava nas sinagogas, nas barcas e beira mar, nas montanhas: sempre foi o mesmo em todos os lugares e em todos os momentos. Portanto, que não se negue a ninguém que sendo chamado por Deus e que exercendo o ministério da palavra, porque importa que mesmo não sendo chamado por estes tiranos, ou seja, bispos não das igrejas, senão de cavalos e lacaios de príncipes? Não obstante, conheço muito bem os sentimentos deste homem e sei que não se convencerá por minhas razões.
Tem que ser chamado e urgido por mandato e impulso de toda a comunidade. Se ela pede e lhe exige, não se deve, nem pode recusar. Se estivesse presente engajaria todo o meu esforço com o conselho e povo para que lhe pedissem que explicassem o evangelho em privado e em alemão, como comecei a fazê-lo em latim: assim, o bispo converteria em alemão o mesmo que o é em latim. Eu sentiria muita satisfação que fizesses de tua parte tal coisa uma realidade, porque o que mais urgentemente necessita o povo é a palavra de Deus; e que esta abunde no mais generosamente que em todos os demais, ao menos que, urgindo-o a consciência e exigindo-o a Deus, temos a obrigação de chamar-lhe para que não se desperdice o fruto da palavra.
A ti será fácil tratar este assunto no conselho por mediação de Lucas e Cristian[12] para que Cristo vindique a minha ausência e meu silêncio com a sua pregação e sua voz para confusão de Satanás e suas crias. Orígenes ensinou de modo privado as mulheres[13], então, por que motivo ele não tenta fazer o mesmo, sendo que ele pode e deve fazê-lo? E ainda mais quando o povo está necessitado e sedento. Rogo a você que não deixe se vencer por desculpas. Redigirá textos formosos que é algo que lhe é conveniente. Não há motivo para ambicioná-lo, mas tem que ser insistentemente chamado pela igreja, inclusive até solicitado para que este serviço e faça não o que seja útil para ele, senão que o que proveitoso para muitos. Ainda te suplico: coloque maior diligência em fixa-lo, ajudando-o com amigos que juntos possam apoiá-lo.
E adeus. Lembre-se de mim diante o Senhor.
Do deserto,[14] dia seguinte à natividade de Maria, 1521. Teu Martinus Luther.
NOTAS:
[1] WA Br 2, 387-389.
[2] Capitão a esta altura era um dos humanistas que se aproximava de Erasmo em Basiléia.
[3] Jó 40:15ss.
[4] 1 Co 4:20.
[5] Jr 48:10.
[6] 1 Rs 18:20ss.
[7] Irmão de Frederico, o Sábio.
[8] Mt 26:41.
[9] Sl 112:10.
[10] Felipe Melanchthon.
[11] Lutero pensa na liberdade da palavra de Deus, da pregação, e no sacerdócio universal dos crentes.
[12] Lucas Cranach, o célebre pintor, e Cristian Düring, o mais conhecido e talvez o maior impressor de Wittenberg, ambos seus amigos.
[13] Jerônimo, De viris illustribus, 54 (ML 23, 699).
[14] Denominação que ele aplica aos seus retiros forçados, agora em Warturb, logo (1530) nas cartas de Coburgo.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), p. 388-390.
Tradução em 5 de Janeiro de 2015.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
Carta de João Calvino para Francis Daniel [1533]
CARTA 8 - COMUNICAÇÕES DIVERSAS - UM NOVO TRABALHO DESENVOLVIDO.
PARIS, 1533.
Eu te envio estas coletâneas dos últimos trabalhos, sob esta condição, que, de acordo com o melhor de sua fé e dever, elas circulem entre os amigos, a quem você também saudará respeitosamente por mim, exceto Framberg, a quem resolvi domar com meu silêncio, percebendo que não fui capaz de persuadi-lo com brandura, nem conseguir nada dele por admoestação.
Além disso, o pior de tudo, quando seu irmão veio para cá, ele nem sequer enviou uma única saudação através dele. Eu gostaria que você tomasse conta da demanda legal do Michael, se de alguma maneira ela possa ser executada; mas existe a necessidade do despacho. Por quem, se você fizer tudo que estiver ao seu alcance, te agradecerei como se você tivesse feito este favor a mim mesmo. Você fará o ofício de intérprete para as irmãs, para que você não desfrute sozinho de suas piadas. Eu te envio outro epítome da nossa Academia, ao qual eu resolvi adicionar como um apêndice o que teria sido terminado daqueles Comentários antigos, se o tempo tivesse permitido.
Adeus, meu irmão e amigo mais fiel, seu irmão,
Calvino.
Em nem preciso dizer que estes são tempos difíceis; eles falam por si.
Cuidado para não comunicar o epítome de forma descuidada.
NOTA:
[1] Numa cópia desta carta aparece o destinatário como sendo “Ao Monsieur meu irmão e bom amigo, Advogado em Orleans.” Veja in: Letters 1528-1545 - Selected Works of John Calvin, vol. 4, p. 475.
[Autógrafo Original Latim. - Biblioteca de Berna. Volume 141, página 43.]
Extraído de Letters 1528-1545 - Selected Works of John Calvin (Albany, Ages Software, 1998), vol. 4, p. 41.
Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, pastor efetivo na Igreja Presbiteriana de Lagoa Santa; professor de teologia e hermenêutica na Escola Bíblica Central do Brasil/Lagoa Santa-MG; Bacharel em Teologia e Missiologia pela Escola Superior de Teologia e Estudos Transculturais/Montes Claros-MG (2003), Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie/São Paulo-SP (2013), cursando Mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.
Revisado por Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO
PARIS, 1533.
Eu te envio estas coletâneas dos últimos trabalhos, sob esta condição, que, de acordo com o melhor de sua fé e dever, elas circulem entre os amigos, a quem você também saudará respeitosamente por mim, exceto Framberg, a quem resolvi domar com meu silêncio, percebendo que não fui capaz de persuadi-lo com brandura, nem conseguir nada dele por admoestação.
Além disso, o pior de tudo, quando seu irmão veio para cá, ele nem sequer enviou uma única saudação através dele. Eu gostaria que você tomasse conta da demanda legal do Michael, se de alguma maneira ela possa ser executada; mas existe a necessidade do despacho. Por quem, se você fizer tudo que estiver ao seu alcance, te agradecerei como se você tivesse feito este favor a mim mesmo. Você fará o ofício de intérprete para as irmãs, para que você não desfrute sozinho de suas piadas. Eu te envio outro epítome da nossa Academia, ao qual eu resolvi adicionar como um apêndice o que teria sido terminado daqueles Comentários antigos, se o tempo tivesse permitido.
Adeus, meu irmão e amigo mais fiel, seu irmão,
Calvino.
Em nem preciso dizer que estes são tempos difíceis; eles falam por si.
Cuidado para não comunicar o epítome de forma descuidada.
NOTA:
[1] Numa cópia desta carta aparece o destinatário como sendo “Ao Monsieur meu irmão e bom amigo, Advogado em Orleans.” Veja in: Letters 1528-1545 - Selected Works of John Calvin, vol. 4, p. 475.
[Autógrafo Original Latim. - Biblioteca de Berna. Volume 141, página 43.]
Extraído de Letters 1528-1545 - Selected Works of John Calvin (Albany, Ages Software, 1998), vol. 4, p. 41.
Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, pastor efetivo na Igreja Presbiteriana de Lagoa Santa; professor de teologia e hermenêutica na Escola Bíblica Central do Brasil/Lagoa Santa-MG; Bacharel em Teologia e Missiologia pela Escola Superior de Teologia e Estudos Transculturais/Montes Claros-MG (2003), Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie/São Paulo-SP (2013), cursando Mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.
Revisado por Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO
sábado, 31 de maio de 2014
Carta de Martinho Lutero a Johannes Staupitz [1521]
A Staupitz. 14 de Janeiro de 1521[1]
Jesus. Saudações. Quando estávamos em Augsburg[2], reverendíssimo pai, ao tratar deste meu assunto, e entre outras coisas, me disse: “não esqueça, irmão, que tudo você começou em nome de nosso Senhor Jesus Cristo.” Estas palavras as recebi não como faladas por você, mas proferidas por meio da sua pessoa, e as tenho gravadas em minha memória. Com estas mesmas palavras, suplico: “acorde também do que você me disse”. Este negócio se tornou num jogo até agora; ao presente a coisa está se tornando mais sério e, ao tom de suas palavras, se Deus não o completar, é impossível que chegue ao seu término. Ninguém pode colocar em dúvida que tudo se acha na mão do poderosíssimo Deus. Que de nós pode decidir aqui? O que pensarão os homens? É tão violento o tumulto que se levanta, que me parece não será possível aplacar até o dia final, que tanta é a animosidade a que de um lado, ou de outro chegou.
Ainda que emita excomunhões, queime livros e me mate, é fato, que o papado não se encontra na mesma situação que antes. Todos os sinais dizem que um grande portento está clamando às portas. Que afortunado seria o papa se empenhasse em compor a paz com bons meios, em vez de afrontar a questão tratando de eliminar a Lutero pelo redemoinho da violência! Queimei os livros e a bula papal[3], no princípio o fiz com medo e rezando, mas hoje estou contente de ter realizado, pelo que teria feito durante minha vida. São mais peçonhentos do que eu acreditava serem.
Emser, de Leipzig, escreveu em língua vernácula, motivado pelo duque George[4], que está furioso comigo, e que “respirando ameaças e morte”,[5] dispôs na mesma aula de forma impiedosa que tomassem medidas contra mim.
O imperador me convocou por carta dirigida ao príncipe. Ao recusar este, revogou aquele a primeira carta com outras. Somente Deus sabe o que sucederá[6].
O nosso vigário Wenceslao marchou para Nürnberg. Zschessius se encontra em Grimma e disse que partirá dali; Deus o conserve.[7]
Aqui tudo está florescendo como antes. Hutten apostilou a bula[8] com anotações saladísimas contra o papa e está preparando outras coisas sobre o mesmo. Os meus escritos foram queimados três vezes: em Lovaina, em Colônia e na Maguncia com grande desprezo e perigo dos que os queimaram. Até Tomás Murner[9] furioso escreveu contra mim. Esse asno descalço de Leipzig não me incomoda.[10]
Adeus, meu pai. Rogue pela palavra de Deus e por mim. Estou arrebatado e envolto nestas olas.
Wittenberg, dia de são Felix, 1521.
Martinus Lutherus, agostiniano.
NOTAS:
[1] WA Br 2, pp. 245-246.
[2] Na entrevista com Cajetano em Outubro de 1518 (cf. Conversas a Mesa).
[3] A queima pública e teatral da bula condenatória de sua doutrina (Exsurge Domine, de Leão X), assim como dos livros que representavam o direito e as tradições eclesiásticas e escolásticas ocorreu em 10 de Dezembro de 1520. (Os panfletos que distribuiu impressos, cf. em WA 6, pp. 597ss; 7, pp. 94ss. Uma narrativa vivida, por uma testemunha presente, em WA 7, pp. 184ss). H. Grisar, Zu Luthers Verbrennung der Bannbulle: Historisches Jahrbuch 42 (1922), pp. 266-276; J. Luther, Noch einmal Luthers Worte bei der Verbrennung der Bannbulle: Archiv für Reformationsgeschichte 45 (1954), pp. 260-265.
[4] A obra de referência escrita por Jerônimo Emser contra o Manifesto à nobreza. George da Saxônia será um inimigo próximo e perseguidor de Lutero, e sua universidade de Leipzig das mais hostis contra o reformador.
[5] Compare com At 9:1.
[6] Em relação com a Dieta de Worms, cf. a nossa introdução ao escrito 6 desta edição.
[7] Wenceslao Link, sucessor de Staupitz no cargo de superior de Lutero em 1520, três anos depois que aderiu a Reforma, na qual ele foi um elemento ativo. Wolgang Zeschau, abade do convento agostiniano de Grimma, também partidário de Lutero.
[8] Ulrich von Hutten (1488-1523), é um dos personagens mais caracterizados deste momento alemão. Apoiou a causa de Lutero por motivos políticos (nacionalistas), econômicos (talvez, também pelos religiosos), sendo que era um dos representantes dos cavaleiros prejudicados pela conjectura do novo capitalismo. Moveu – como bom humanista – bem os ressortes xenófobos contra Roma. Ademais de outros modos, lançou o panfleto de referência Bulla Decimi Leonis contra errores Martini Lutheri et sequatium. Sobre sua pessoa, atividade, etc., cf. a obra clássica de P. Kalkoff, Ulrich von Hutten und die Entscheidungsjahre der Reformation, Leipzig 1920, e a mais atual de K. Kleinschmidt, Ulrich von Hutten, Berlim 1955.
[9] Tomás Murner (1475-1537) um dos escritores satíricos antiluteranos de maior altura e genialidade. Entre outros escritos neste ano crítico a que Lutero alude, lançaria o que mais lhe deu fama, e o mais violento, em tom de epopeia Sobre os loucos luteranos (1522).
[10] Refere-se a Alfeld.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp.. 380-381.
Tradução com introdução em 31 de Maio de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
Jesus. Saudações. Quando estávamos em Augsburg[2], reverendíssimo pai, ao tratar deste meu assunto, e entre outras coisas, me disse: “não esqueça, irmão, que tudo você começou em nome de nosso Senhor Jesus Cristo.” Estas palavras as recebi não como faladas por você, mas proferidas por meio da sua pessoa, e as tenho gravadas em minha memória. Com estas mesmas palavras, suplico: “acorde também do que você me disse”. Este negócio se tornou num jogo até agora; ao presente a coisa está se tornando mais sério e, ao tom de suas palavras, se Deus não o completar, é impossível que chegue ao seu término. Ninguém pode colocar em dúvida que tudo se acha na mão do poderosíssimo Deus. Que de nós pode decidir aqui? O que pensarão os homens? É tão violento o tumulto que se levanta, que me parece não será possível aplacar até o dia final, que tanta é a animosidade a que de um lado, ou de outro chegou.
Ainda que emita excomunhões, queime livros e me mate, é fato, que o papado não se encontra na mesma situação que antes. Todos os sinais dizem que um grande portento está clamando às portas. Que afortunado seria o papa se empenhasse em compor a paz com bons meios, em vez de afrontar a questão tratando de eliminar a Lutero pelo redemoinho da violência! Queimei os livros e a bula papal[3], no princípio o fiz com medo e rezando, mas hoje estou contente de ter realizado, pelo que teria feito durante minha vida. São mais peçonhentos do que eu acreditava serem.
Emser, de Leipzig, escreveu em língua vernácula, motivado pelo duque George[4], que está furioso comigo, e que “respirando ameaças e morte”,[5] dispôs na mesma aula de forma impiedosa que tomassem medidas contra mim.
O imperador me convocou por carta dirigida ao príncipe. Ao recusar este, revogou aquele a primeira carta com outras. Somente Deus sabe o que sucederá[6].
O nosso vigário Wenceslao marchou para Nürnberg. Zschessius se encontra em Grimma e disse que partirá dali; Deus o conserve.[7]
Aqui tudo está florescendo como antes. Hutten apostilou a bula[8] com anotações saladísimas contra o papa e está preparando outras coisas sobre o mesmo. Os meus escritos foram queimados três vezes: em Lovaina, em Colônia e na Maguncia com grande desprezo e perigo dos que os queimaram. Até Tomás Murner[9] furioso escreveu contra mim. Esse asno descalço de Leipzig não me incomoda.[10]
Adeus, meu pai. Rogue pela palavra de Deus e por mim. Estou arrebatado e envolto nestas olas.
Wittenberg, dia de são Felix, 1521.
Martinus Lutherus, agostiniano.
NOTAS:
[1] WA Br 2, pp. 245-246.
[2] Na entrevista com Cajetano em Outubro de 1518 (cf. Conversas a Mesa).
[3] A queima pública e teatral da bula condenatória de sua doutrina (Exsurge Domine, de Leão X), assim como dos livros que representavam o direito e as tradições eclesiásticas e escolásticas ocorreu em 10 de Dezembro de 1520. (Os panfletos que distribuiu impressos, cf. em WA 6, pp. 597ss; 7, pp. 94ss. Uma narrativa vivida, por uma testemunha presente, em WA 7, pp. 184ss). H. Grisar, Zu Luthers Verbrennung der Bannbulle: Historisches Jahrbuch 42 (1922), pp. 266-276; J. Luther, Noch einmal Luthers Worte bei der Verbrennung der Bannbulle: Archiv für Reformationsgeschichte 45 (1954), pp. 260-265.
[4] A obra de referência escrita por Jerônimo Emser contra o Manifesto à nobreza. George da Saxônia será um inimigo próximo e perseguidor de Lutero, e sua universidade de Leipzig das mais hostis contra o reformador.
[5] Compare com At 9:1.
[6] Em relação com a Dieta de Worms, cf. a nossa introdução ao escrito 6 desta edição.
[7] Wenceslao Link, sucessor de Staupitz no cargo de superior de Lutero em 1520, três anos depois que aderiu a Reforma, na qual ele foi um elemento ativo. Wolgang Zeschau, abade do convento agostiniano de Grimma, também partidário de Lutero.
[8] Ulrich von Hutten (1488-1523), é um dos personagens mais caracterizados deste momento alemão. Apoiou a causa de Lutero por motivos políticos (nacionalistas), econômicos (talvez, também pelos religiosos), sendo que era um dos representantes dos cavaleiros prejudicados pela conjectura do novo capitalismo. Moveu – como bom humanista – bem os ressortes xenófobos contra Roma. Ademais de outros modos, lançou o panfleto de referência Bulla Decimi Leonis contra errores Martini Lutheri et sequatium. Sobre sua pessoa, atividade, etc., cf. a obra clássica de P. Kalkoff, Ulrich von Hutten und die Entscheidungsjahre der Reformation, Leipzig 1920, e a mais atual de K. Kleinschmidt, Ulrich von Hutten, Berlim 1955.
[9] Tomás Murner (1475-1537) um dos escritores satíricos antiluteranos de maior altura e genialidade. Entre outros escritos neste ano crítico a que Lutero alude, lançaria o que mais lhe deu fama, e o mais violento, em tom de epopeia Sobre os loucos luteranos (1522).
[10] Refere-se a Alfeld.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp.. 380-381.
Tradução com introdução em 31 de Maio de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
quarta-feira, 28 de maio de 2014
Carta de João Calvino a Francis Daniel [1532]
CARTA 6 - CALVINO ENVIA CÓPIAS DO TRATADO "DE
CLEMENTIA" A VÁRIAS PESSOAS - PROCURA
POR RESIDÊNCIA EM PARIS.
PARIS, [1532]
Suas duas cartas que chegaram até mim tratam quase do mesmo assunto, e quase com as mesmas palavras. Atendi seu pedido acerca das Bíblias, cuja aquisição demandou mais necessidade de arrumar alguns problemas do que dinheiro. Quando eu empacotar minhas coisas eu vou colocá-las junto com a minha bagagem. O caso é daquele tipo que suponho poder ser adiado até aquele momento. Quanto ao resto, você tem que me ajudar por sua vez.
Os Livros de Sêneca sobre a Clemência estão finalmente impressos: eles são de meu próprio custo e trabalho.[1] O dinheiro que foi gasto deve ser agora recolhido de todas as mãos. Além disso, eu preciso cuidar que o meu crédito esteja seguro. Escreva-me assim que puder, e faça-me saber como foram recebidos, se com favor ou frieza, e tente também convencer Landrin a palestrar sobre eles. Eu envio uma cópia para você; você pode se responsabilizar pelos outros cinco, que devem ser encaminhados a Bourges para Le Roy, Pigney, Sucquet, Brosse, Baratier? Se Sucquet puder aceitá-lo com o propósito de palestrar, será de grande ajuda pra mim. Adeus.
Eu não tenho nada a escrever para Duchemin, visto que muitas vezes eu perguntei e ele não enviou-me nenhuma resposta, nem me propus a minha viagem até que ele escreva. O que importa se por alguns dias eu tiver que tremer de frio, até encontrar uma hospedaria onde repousar o corpo! Quanto a Coiffart, o que mais posso dizer, exceto que ele é um sujeito egoísta? – Mais uma vez, adeus.
Lembranças a sua mãe e a sua tia.
[Cópia Latina — Biblioteca de Berna. Volume 450.]
Extraído de Letters 1528-1545 - Selected Works of John Calvin (Albany, Ages Software, 1998), vol. 4, p. 38.
Tradução em 25 de Maio de 2014.
NOTAS:
[1] Este é o livro com o título de L. Annaei Senecae Libri 2, de Clementia, ad Nero Caesarem, Commentariis Illustrati. Publicado em Paris, 1532. Calvino dedicou esta obra ao seu colega de estudos Claude de Hangest, membro da ilustre família de Mornmot, que se tornou become o Abade de St. Eloy em Nyon. A epístola de dedicatória é datada de Paris, em 4 de Abril de 1532. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, pastor efetivo na Igreja Presbiteriana de Lagoa Santa; professor de teologia e hermenêutica na Escola Bíblica Central do Brasil/Lagoa Santa-MG; Bacharel em Teologia e Missiologia pela Escola Superior de Teologia e Estudos Transculturais/Montes Claros-MG (2003), Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie/São Paulo-SP (2013), cursando Mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.
Revisado por Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO
CLEMENTIA" A VÁRIAS PESSOAS - PROCURA
POR RESIDÊNCIA EM PARIS.
PARIS, [1532]
Suas duas cartas que chegaram até mim tratam quase do mesmo assunto, e quase com as mesmas palavras. Atendi seu pedido acerca das Bíblias, cuja aquisição demandou mais necessidade de arrumar alguns problemas do que dinheiro. Quando eu empacotar minhas coisas eu vou colocá-las junto com a minha bagagem. O caso é daquele tipo que suponho poder ser adiado até aquele momento. Quanto ao resto, você tem que me ajudar por sua vez.
Os Livros de Sêneca sobre a Clemência estão finalmente impressos: eles são de meu próprio custo e trabalho.[1] O dinheiro que foi gasto deve ser agora recolhido de todas as mãos. Além disso, eu preciso cuidar que o meu crédito esteja seguro. Escreva-me assim que puder, e faça-me saber como foram recebidos, se com favor ou frieza, e tente também convencer Landrin a palestrar sobre eles. Eu envio uma cópia para você; você pode se responsabilizar pelos outros cinco, que devem ser encaminhados a Bourges para Le Roy, Pigney, Sucquet, Brosse, Baratier? Se Sucquet puder aceitá-lo com o propósito de palestrar, será de grande ajuda pra mim. Adeus.
Eu não tenho nada a escrever para Duchemin, visto que muitas vezes eu perguntei e ele não enviou-me nenhuma resposta, nem me propus a minha viagem até que ele escreva. O que importa se por alguns dias eu tiver que tremer de frio, até encontrar uma hospedaria onde repousar o corpo! Quanto a Coiffart, o que mais posso dizer, exceto que ele é um sujeito egoísta? – Mais uma vez, adeus.
Lembranças a sua mãe e a sua tia.
[Cópia Latina — Biblioteca de Berna. Volume 450.]
Extraído de Letters 1528-1545 - Selected Works of John Calvin (Albany, Ages Software, 1998), vol. 4, p. 38.
Tradução em 25 de Maio de 2014.
NOTAS:
[1] Este é o livro com o título de L. Annaei Senecae Libri 2, de Clementia, ad Nero Caesarem, Commentariis Illustrati. Publicado em Paris, 1532. Calvino dedicou esta obra ao seu colega de estudos Claude de Hangest, membro da ilustre família de Mornmot, que se tornou become o Abade de St. Eloy em Nyon. A epístola de dedicatória é datada de Paris, em 4 de Abril de 1532. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, pastor efetivo na Igreja Presbiteriana de Lagoa Santa; professor de teologia e hermenêutica na Escola Bíblica Central do Brasil/Lagoa Santa-MG; Bacharel em Teologia e Missiologia pela Escola Superior de Teologia e Estudos Transculturais/Montes Claros-MG (2003), Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie/São Paulo-SP (2013), cursando Mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.
Revisado por Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO
terça-feira, 13 de maio de 2014
Carta de João Calvino para Francis Daniel [1532]
CARTA 5 - PRIMEIRO TRABALHO DE CALVINO — COMENTÁRIO SOBRE O TRATADO SÊNECA, "DE CLEMENTIA"
PARIS, 23 de Maio de 1532.
Bem, enfim a sorte está lançada. Meus comentários sobre os livros de Sêneca, "De Clementia",[1] foram impressos, mas com meus próprios recursos, e me levou mais dinheiro do que você bem pode imaginar. No momento, estou empregando todo esforço para conseguir um pouco de volta. Tenho despertado alguns dos professores desta cidade para fazer uso deles em palestras. Na Universidade de Bourges convenci um amigo a fazer isso a partir do púlpito por meio de uma palestra pública. Você também poderia me ajudar um pouco, se você não me entender mal; faça-o em nome de nossa velha amizade; visto especialmente, sem qualquer dano à sua reputação, que você pode me prestar este serviço, e que talvez também tenda a ser de benefício público. Se você se dispuser a prestar-me este benefício, vou enviar-lhe cem cópias, ou tantas quantas você desejar. Enquanto isso, aceite esta cópia, mas sem supor que ao aceita-la, eu estarei forçando você a fazer o que eu peço. É meu desejo que tudo esteja bem e sem constrangimentos entre nós. Adeus e permita-me em breve ouvir de você. Escrevi recentemente ao Pigney, mas ele ainda não respondeu. Ao Brosse escrevi há muito tempo, mas desta vez não obtive nenhuma resposta. Ele, que dará a Le Roy sua cópia, com certeza o saudará.
[Cópia Latina — Biblioteca de Berna. Volume 450]
Extraído de Letters 1528-1545 - Selected Works of John Calvin (Albany, Ages Software, 1998), vol. 4, p. 37.
Tradução em 7 de Maio de 2014.
NOTAS:
[1] Este é o livro com o título de L. Annaei Senecae Libri 2, de Clementia, ad Nero Caesarem, Commentariis Illustrati. Publicado em Paris, 1532. Calvino dedicou esta obra ao seu colega de estudos Claude de Hangest, membro da ilustre família de Mornmot, que se tornou become o Abade de St. Eloy em Nyon. A epístola de dedicatória é datada de Paris, em 4 de Abril de 1532. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, pastor efetivo na Igreja Presbiteriana de Lagoa Santa; professor de teologia e hermenêutica na Escola Bíblica Central do Brasil/Lagoa Santa-MG; Bacharel em Teologia e Missiologia pela Escola Superior de Teologia e Estudos Transculturais/Montes Claros-MG (2003), Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie/São Paulo-SP (2013), cursando Mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.
Revisado por Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO
PARIS, 23 de Maio de 1532.
Bem, enfim a sorte está lançada. Meus comentários sobre os livros de Sêneca, "De Clementia",[1] foram impressos, mas com meus próprios recursos, e me levou mais dinheiro do que você bem pode imaginar. No momento, estou empregando todo esforço para conseguir um pouco de volta. Tenho despertado alguns dos professores desta cidade para fazer uso deles em palestras. Na Universidade de Bourges convenci um amigo a fazer isso a partir do púlpito por meio de uma palestra pública. Você também poderia me ajudar um pouco, se você não me entender mal; faça-o em nome de nossa velha amizade; visto especialmente, sem qualquer dano à sua reputação, que você pode me prestar este serviço, e que talvez também tenda a ser de benefício público. Se você se dispuser a prestar-me este benefício, vou enviar-lhe cem cópias, ou tantas quantas você desejar. Enquanto isso, aceite esta cópia, mas sem supor que ao aceita-la, eu estarei forçando você a fazer o que eu peço. É meu desejo que tudo esteja bem e sem constrangimentos entre nós. Adeus e permita-me em breve ouvir de você. Escrevi recentemente ao Pigney, mas ele ainda não respondeu. Ao Brosse escrevi há muito tempo, mas desta vez não obtive nenhuma resposta. Ele, que dará a Le Roy sua cópia, com certeza o saudará.
[Cópia Latina — Biblioteca de Berna. Volume 450]
Extraído de Letters 1528-1545 - Selected Works of John Calvin (Albany, Ages Software, 1998), vol. 4, p. 37.
Tradução em 7 de Maio de 2014.
NOTAS:
[1] Este é o livro com o título de L. Annaei Senecae Libri 2, de Clementia, ad Nero Caesarem, Commentariis Illustrati. Publicado em Paris, 1532. Calvino dedicou esta obra ao seu colega de estudos Claude de Hangest, membro da ilustre família de Mornmot, que se tornou become o Abade de St. Eloy em Nyon. A epístola de dedicatória é datada de Paris, em 4 de Abril de 1532. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, pastor efetivo na Igreja Presbiteriana de Lagoa Santa; professor de teologia e hermenêutica na Escola Bíblica Central do Brasil/Lagoa Santa-MG; Bacharel em Teologia e Missiologia pela Escola Superior de Teologia e Estudos Transculturais/Montes Claros-MG (2003), Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie/São Paulo-SP (2013), cursando Mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.
Revisado por Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO
sábado, 10 de maio de 2014
Carta de João Calvino à Francis Daniel [1530]
CARTA 4 - PARA FRANCIS DANIEL
INTELIGÊNCIA DOMÉSTICA — PARTIDA PARA A ITÁLIA DO
IRMÃO DE FRANCIS DANIEL.
DE ACRÓPOLES, 15 de janeiro de 1530[1]
Não estava em meu poder responder mais cedo à carta do seu irmão Robert, porque só foi entregue a mim por volta de meados de novembro, e pouco depois tive que empreender uma viagem de duas semanas. A doença do mensageiro, o qual caiu de cama por doze dias com uma perigosa queixa em Lyons, dificultou que a carta chegasse a mim mais cedo.
Enquanto isso, o tempo certo tinha passado; com o passar da estação, e eu não tive oportunidade de despachar uma carta. Em relação ao seu irmão, o problema é o seguinte: — eu procurei, de todas as formas, induzi-lo a permanecer conosco. Quando eu verifiquei que ele tinha precipitadamente e sem qualquer razão suficiente desistido disto, ou resolvido contra isto, pensei que devia convencê-lo a retornar para casa; e como ele às vezes tinha dito que qualquer tentativa deste tipo seria em vão, eu pensei melhor, para o momento, em ceder, até que o calor tivesse diminuido alguns graus. Quando me pareceu que ele tinha de alguma maneira caido em si, de repente, enquanto este passo jamais tenha por minha mente, ele fugiu para a Itália. Eu estava esperando por ele e seu colega para o jantar, porque aquele tempo tinha sido combinado para tocarmos no assunto. Eles não apareceram. Quando durante todo o dia, eles não apareceram, comecei a suspeitar nem sei o que. Numa consulta à Pousada, foi trazida uma mensaagem de volta de que ele já tinha ido embora. Peter, a quem você conheceu, e que tinha acompanhado eles por uma milha ou mais, voltou para casa cerca de 4 horas. Portanto, se algo aconteceu contrário à sua vontade e dos seus parentes, você não deve me culpar, porque fiz o máximo para que ele não pudesse se afastar mais de você, contra sua vontade.
Adeus; dê lembranças a todos. Que o Senhor guarde todos vocês, especialmente sua família.
Você pode assumir a responsabilidade de entregar a carta para minha irmã Mary Du Marais?
[Cópia Latina. — Biblioteca de Berna. Volume 450.]
Extraído de Letters 1528-1545 - Selected Works of John Calvin (Albany, Ages Software, 1998), vol. 4, pp. 35-36.
NOTAS:
[1] Acrópolis que é Paris.
Tradução em 5 de Maio de 2014.
Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, pastor efetivo na Igreja Presbiteriana de Lagoa Santa; professor de teologia e hermenêutica na Escola Bíblica Central do Brasil/Lagoa Santa-MG; Bacharel em Teologia e Missiologia pela Escola Superior de Teologia e Estudos Transculturais/Montes Claros-MG (2003), Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie/São Paulo-SP (2013), cursando Mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.
Revisado por Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO
INTELIGÊNCIA DOMÉSTICA — PARTIDA PARA A ITÁLIA DO
IRMÃO DE FRANCIS DANIEL.
DE ACRÓPOLES, 15 de janeiro de 1530[1]
Não estava em meu poder responder mais cedo à carta do seu irmão Robert, porque só foi entregue a mim por volta de meados de novembro, e pouco depois tive que empreender uma viagem de duas semanas. A doença do mensageiro, o qual caiu de cama por doze dias com uma perigosa queixa em Lyons, dificultou que a carta chegasse a mim mais cedo.
Enquanto isso, o tempo certo tinha passado; com o passar da estação, e eu não tive oportunidade de despachar uma carta. Em relação ao seu irmão, o problema é o seguinte: — eu procurei, de todas as formas, induzi-lo a permanecer conosco. Quando eu verifiquei que ele tinha precipitadamente e sem qualquer razão suficiente desistido disto, ou resolvido contra isto, pensei que devia convencê-lo a retornar para casa; e como ele às vezes tinha dito que qualquer tentativa deste tipo seria em vão, eu pensei melhor, para o momento, em ceder, até que o calor tivesse diminuido alguns graus. Quando me pareceu que ele tinha de alguma maneira caido em si, de repente, enquanto este passo jamais tenha por minha mente, ele fugiu para a Itália. Eu estava esperando por ele e seu colega para o jantar, porque aquele tempo tinha sido combinado para tocarmos no assunto. Eles não apareceram. Quando durante todo o dia, eles não apareceram, comecei a suspeitar nem sei o que. Numa consulta à Pousada, foi trazida uma mensaagem de volta de que ele já tinha ido embora. Peter, a quem você conheceu, e que tinha acompanhado eles por uma milha ou mais, voltou para casa cerca de 4 horas. Portanto, se algo aconteceu contrário à sua vontade e dos seus parentes, você não deve me culpar, porque fiz o máximo para que ele não pudesse se afastar mais de você, contra sua vontade.
Adeus; dê lembranças a todos. Que o Senhor guarde todos vocês, especialmente sua família.
Você pode assumir a responsabilidade de entregar a carta para minha irmã Mary Du Marais?
[Cópia Latina. — Biblioteca de Berna. Volume 450.]
Extraído de Letters 1528-1545 - Selected Works of John Calvin (Albany, Ages Software, 1998), vol. 4, pp. 35-36.
NOTAS:
[1] Acrópolis que é Paris.
Tradução em 5 de Maio de 2014.
Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, pastor efetivo na Igreja Presbiteriana de Lagoa Santa; professor de teologia e hermenêutica na Escola Bíblica Central do Brasil/Lagoa Santa-MG; Bacharel em Teologia e Missiologia pela Escola Superior de Teologia e Estudos Transculturais/Montes Claros-MG (2003), Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie/São Paulo-SP (2013), cursando Mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.
Revisado por Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO
Assinar:
Postagens (Atom)
Prefácio de João Calvino à Loci Communes de Filipe Melanchthon
Introdução Em 1546, uma tradução francesa da obra de Filipe Melanchthon de 1545, Loci communes , foi publicada em Genebra sob o título de ...
-
A Melanchthon 1 de Agosto de 1521[1] Você não terminou de dar razões suficientes para medir com a mesma norma o voto dos sacerdotes e d...
-
NOTA DOS EDITORES Com esta publicação o leitor brasileiro tem o privilégio de travar conhecimento – pela primeira vez em língua portuguesa...
-
Introdução histórica por Teófanes Egido Para a compreensão do feito e do significado da atuação de Lutero ante a Dieta de Worms e de seu d...

















