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quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Algumas críticas à Loci Communi: A carta de Martinho Lutero para Felipe Melanchthon


 [1 de agosto de 1521][1]

Dia do apóstolo são Pedro, 1521.[2]

 Você não terminou de dar razões suficientes para medir com a mesma norma o voto dos sacerdotes e dos freis. A mim, o que mais me convence é que a ordem sacerdotal foi estabelecida como livre por Deus; mas, não foi assim com os monges que espontaneamente escolheram e ofereceram a sua origem a Deus. Quase me atreveria a decidir que quem ingressou nestes compromissos antes de sua puberdade que podem sair dela sem escrúpulo, se não fosse porque ainda não me atrevo a sentenciar nada acerca dos que são velhos e viveram durante longo tempo neste estado.

Mesmo porque, Paulo afirma com toda liberdade que foram os demônios quem vedaram o matrimônio aos sacerdotes.[3] Assim, como a voz de Paulo é a voz de Deus, não há dúvida de que há que confiarmos nela, de forma que ainda que houvessem pactuado esta proibição diabólica desde o princípio, agora, quando são conscientes de a quem prometeram, há que romper confiadamente o pacto.

Esta proibição do diabo expressada claramente na Escritura Sagrada obriga-me e força a aprovar o realizado pelo bispo cameracense. Deus não engana, nem mente ao dizer que esta é uma proibição do diabo. Portanto, não pode ser estável o pacto firmado, já que se fez na força de um erro ímpio contra Deus e, além disso, depois de havê-lo reprovado e condenado. Disse expressamente serem espíritos do erro os autores dessa proibição.

Por que, então, há de temer a aceitação desta sentença divina, ainda que se oponham todas as portas do inferno? Não se pode comparar isto com o juramento que os filhos de Israel fizeram aos gibeonitas, porque tinham o preceito de oferecer a paz e de admiti-la se lhes era oferecida. Por isso, os admitiram na qualidade de prosélitos aderidos a seu rito. Tudo se fez em Gibeão, pois nada houve nele que se fizesse contra Deus, nem por sugestão dos espíritos do erro, e ainda que a princípio murmurassem, depois achegaram-se a ele.[4]

Além do mais, acrescenta que o celibato é uma instituição meramente humana; o homem que o instituiu pede rescindi-lo e, portanto, pode executá-lo qualquer um cristão. Fixa-te que o digo, inclusive supondo que não tenha se estabelecido por demônios, senão por um bom homem.

Ao não contar com esta sentença divina que se refere aos monges, não é seguro afirmar o mesmo deles. Pessoalmente não me atreveria fazê-lo e, por isso, tão pouco aconselharia aos demais que o fizessem. Desejo fosse possível fazê-lo para que de agora adiante ninguém se fizesse monge, ou para que saíssem os que o são, e se encontram na idade da luxúria. Há que evitar os escândalos, ainda que fossem lícitos, nas coisas em que a Escritura não nos manifesta com clareza.

Quanto ao que o exímio Karlstadt cita de são Paulo que “há que evitar as jovens viúvas e escolher as sexagenárias,”[5] desejo que fosse convincente! Porque podem facilmente arguir que o apóstolo o estabelece para as futuras, e que das anteriores disse estar condenadas por haver falhado com o primeiro compromisso. Essa autoridade evitada não pode constituir um fiel apoio para a consciência, que é o que andamos buscando. E, o que é senão a razão a que inclui que “melhor é casar-se do que viver abrasado” para evitar a fornicação? Então, o matrimônio com o pecado quebra o pacto. Somente buscamos a Escritura e o testemunho da vontade divina. Quem sabe se ao se abrasar hoje, não se abrasaria também amanhã?

Nem eu me atreveria conceder aos sacerdotes o matrimônio somente por esse abrasamento, se são Paulo não disse que tal proibição do matrimônio é errônea, diabólica, hipócrita e condenada por Deus.[6] Ou seja, que ainda que independente do ardor, têm que abandonar o celibato somente pelo temor de Deus. Mas sobre este problema seria útil discutir com maior compromisso. Seria muito satisfatório que pudesse ajudar os frades e as freiras, mas eu sinto muito por estes pobres moços e moças, atormentados pelas poluições e coceiras.

Quanto à comunhão, sob as duas espécies, não argumentarei por meio de exemplos, senão com base na Palavra de Cristo. Não há argumento que convença de que peca, ou deixe de fazê-lo quem receba somente uma espécie; o que há que ter em conta é que Cristo não exige nenhuma das duas, como não exige necessariamente o batismo quando um tirano, ou o mundo fazem impossível recorrer à água. Também a violência das perseguições separa o marido da esposa que Deus proibiu que se separassem, sem que um ou o outro consentisse na separação. Da mesma maneira, tão pouco, quem os corações piedosos veem-se privados da segunda espécie, e quem o consente ou aprova, ninguém poderá negar que são papistas, e não cristãos, nem negar que cometem pecado.

Se não existe esta exigência da necessidade, e sendo que há um tirano que urge, não vejo como possa pecar quem recebe apenas uma espécie. Quem poderá eliminar pela força ao tirano que se opõe? Portanto, o único que vale é a razão que dita que não se observa o que foi estabelecido por Cristo, mas nada define a Escritura, sem a qual não podemos afirmar que constitua pecado. É algo formado por Cristo, mas livremente permitido e não pode ser cativado nem no todo, nem na parte. O que fazer se, como no caso do mártir Donato, que se rompeu e derramou o cálice e alguns não puderam comungar esta espécie, porque não se tem disponível mais vinho, ou se ocorressem em outras circunstâncias? Em resumo, sendo que a Escritura não se pronuncia, nem eu me atrevo dizer de minha parte que isto seja pecado. É muito conveniente, todavia, que restaurem ao seu prístino estado este ensino de Cristo, e precisamente este era o primeiro que havia pensado solicitar quando regressar aí. Conhecemos há muito este tirano, e podemos resisti-lo para não nos vermos obrigados a comungar somente sob uma espécie.

O que nunca voltarei a fazer é celebrar a missa privada. Rogo fervorosamente a Deus que se apresse em conceder-nos o seu Espírito em abundância. Suspeito que não tardará que Deus visite a Alemanha pelo merecido que tem a sua incredulidade, sua impiedade e seu ódio pelo evangelho. Quando isto acontecer eles lançarão sobre nós a culpa deste açoite, por provocarmos a Deus com nossa heresia e nos “convertemos na vergonha dos homens e no desejo do povo;”[7] mas, eles acharão desculpas para os seus pecados, se justificarão comprovando que os réprobos não se converterão, nem pela bondade, nem pela ira e muitos se escandalizarão. Que se faça, sim, que se cumpra a vontade do Senhor. Amém!

Se você é pregador da graça, prega a graça verdadeira, não a graça fingida; se a graça é verdadeira, tenha a certeza de que se trata do pecado verdadeiro, não do fingido, porque, Deus não salva os pecadores fingidos. Seja pecador e peque fortemente, mas confia e se alegre mais fortemente ainda em Cristo, vencedor do pecado, da morte e do mundo. Há de pecar enquanto vivamos aqui. Esta vida não é a morada da justiça, senão que, como disse Pedro, estamos à espera de novos céus e de nova terra em que habite a justiça.[8] Basta que pela riqueza da glória tenhamos conhecido o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo;[9] deste não nos separará o pecado, inclusive ainda que forniquemos e matemos milhares e milhares de vezes ao dia. Por que é que crê ser tão mingado o preço da redenção de nossos pecados, pago por tão grande e bom cordeiro?

Ore forte ainda que seja um pecador fortíssimo.


NOTAS:

[1] WA Br 2, 370-372. Como se pode observar a carta somente foi conservada fragmentariamente. Felipe Melanchthon (1497-1560), indubitavelmente o personagem mais próximo de Lutero, apesar de seu distanciamento teológico progressivo e as suas diferenças de caráter, foi na realidade o primeiro sistematizador da teologia de Lutero (em suas Loci Communes, 1521). Lutero sempre o venerou, se preocupou com a sua saúde, o animou e lhe exasperou em muitas ocasiões. Está presente em quase todas as tentativas de aproximação entre Roma e a Reforma. Graças a ele pode-se preservar, ao menos num setor do luteranismo, um humanismo do qual o reformador e Amsdorf careciam. Cf. H. Bornkamm, Philipp Melanchthon, Göttingen 1950; P. Meinhold, Philipp Melanchthon, der Lehrer der Kirche, Berlin 1960; L. Stern, Martin Luther und Philipp Melanchthon. Ihre ideologische Herkunft und geschichtliche Leistung, 1953; W.H. Heuser, Luther und Melanchthon, Einheit in Gegensatz, München 1960; V. Vajta, Luther und Melanchthon, Göttingen 1961; M. Greschat, Melanchthon neben Luther, Witten 1965. Teófanes Egido, org., Lutero – Obras, pp. 385-387.

[2] Refere-se à festividade de são Pedro “ad vincula.”

[3] Bartolomé Bernhard de Feldkirch prefeito de Kemberg (daí a denominação de “cameracense” aludindo ao famoso Pierre d’Ally bispo de Cambrai) que se casou com farto consentimento de Lutero (Lutero e Melanchthon, 26 de maio de 1521: WA Br 2, p. 347).

[4] Em 1Tm 5.12. Esta primeira parte da carta, ponto de partida das variações posteriores do pensamento de Lutero sobre o celibato, esteve determinada pelas teses sustentadas por Karlstadt em junho deste ano em Wittenberg.

[5] Em 1Co 7.2 e 9.

[6] Em Sl 22.7.

[7] Esta expressão foi uma das mais atacadas pela apologética antiluterana. Pelo contexto o leitor verá o forte conteúdo teológico e cristológico, veementemente (era o seu humor) expresso por Lutero. Uma exegese aceitável deste lugar, cf. J. Lortz, o.c. I, 317 ss.

[8] Em 2Pe 3.13.

[9] Em 1Jo 1.29.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Theodore Beza recomenda Jacob Arminius

Theodore Beza, o principal teólogo de Genebra, escreveu outra carta de recomendação a favor de Armínio para o Conselho de Amsterdã. Beza escreveu ao Rev. Martin Lydius, ministro da igreja de Amsterdã, as seguintes palavras de recomendação acerca de Armínio:

“Para descrever em poucas palavras, tenho o prazer de notar que, desde o período em que Armínio retornou para nós, da Basileia para Genebra, tanto suas conquistas no aprendizado quanto seu modo de vida foram tão aprovados por nós, que criamos as maiores esperanças a seu respeito, se ele seguir o mesmo caminho que está agora e no qual, pensamos, pelo favor de Deus, ele continuará. Pois o Senhor lhe conferiu, entre outros talentos, uma feliz habilidade de perceber claramente a natureza das coisas e de formar um julgamento correto sobre elas, que, se daqui por diante for submetido ao governo da piedade, do qual ele se mostra mais indubitavelmente estudioso, fará com que sua poderosa genialidade, depois de amadurecida pelos anos e confirmada por seu conhecimento das coisas, produza uma rica e mais abundante colheita. Esses são nossos sentimentos em relação a Armínio, um jovem, na medida em que pudemos fazer um julgamento sobre ele, em nenhum aspecto indigno de sua benevolência e liberalidade.”

W. Robert Godfrey, Saving the Reformation: The Pastoral Theology of the Canons of Dort, Reformation Trust Publishing p. 198.
Traduzido por Alan Kleber Rocha

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Os Artigos de Lausanne por João Calvino

Questões a serem discutidas em Lausanne
na nova província de Berna

em 1 de Outubro de 1537

I
A Sagrada Escritura ensina apenas uma maneira de justificação, que é pela fé em Jesus Cristo, de uma vez por todas oferecida, e não é senão um destruidor de toda a virtude de Cristo, quem faz outra satisfação, oferta ou purificação para a remissão de pecados.

II
Esta Escritura reconhece a Jesus Cristo, que ressuscitou dos mortos e está no céu à direita do Pai, como o único chefe e verdadeiro sacerdote, mediador soberano e verdadeiro defensor da sua Igreja.

III
A Sagrada Escritura chama de Igreja de Deus todos os que creem que são recebidos somente pelo sangue de Jesus Cristo e que, creem com constância e sem vacilar, firmam e apoiam-se na Palavra, que, retirando-se de entre nós em presença corpórea, todavia, a virtude de seu Espírito Santo enche, sustenta, governa e vivifica todas as coisas.

IV
A referida Igreja contém certas coisas que são conhecidas apenas para os olhos de Deus. Possui sempre cerimônias ordenadas por Cristo, através das quais é visto e conhecido, isto é, o Batismo e a Ceia de nosso Senhor, que são chamados sacramentos, pois são símbolos e sinais de coisas secretas, isto é, da graça divina. A referida Igreja não reconhece nenhum ministério, exceto o que prega a Palavra de Deus e administra os sacramentos.

VI
Além disso, esta mesma Igreja não recebe nenhuma outra confissão além daquela que é feita a Deus, nenhuma outra absolvição do que aquela que é dada por Deus para a remissão dos pecados e que, por si só, perdoa e remete seus pecados que, para esse fim, confessam a sua culpa.

VII
Além disso, esta mesma Igreja nega todas as outras formas e meios de servir a Deus, além do que é espiritualmente ordenado pela Palavra de Deus, que consiste no amor de si mesmo e do próximo. Por isso, rejeita inteiramente os inúmeros esforços fúteis de todas as cerimônias que pervertem a religião, como imagens e coisas semelhantes.

VIII
Também reconhece o magistrado civil ordenado por Deus apenas como necessário para preservar a paz e a tranquilidade do Estado. Para que fim, deseja e ordena que todos sejam obedientes a medida em que nada é ordenado contrário a Deus.

IX
Em seguida, afirma que o casamento é instituído por Deus para todas as pessoas como adequado e conveniente a elas, e não infringe a santidade de ninguém.

X
Finalmente, quanto às coisas que são indiferentes, como alimentos, bebidas e a observação dos dias, permite que tudo o que o homem crê que possa usar em todos os momentos de forma livre, a não ser o que a sabedoria e a caridade impeçam.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Acerca da ordem do culto público [1523]

Por Martinho Lutero

O serviço de adoração que agora está em uso comum em todos os lugares remonta ao começo genuíno cristão, e do mesmo modo, o ofício da pregação. Mas assim como este foi pervertido pelos tiranos espirituais, assim o culto foi corrompido pelos hipócritas. Do mesmo modo que não abolimos por essa causa o ofício da pregação, senão que buscamos restaurá-lo outra vez ao seu lugar correto e próprio, muito menos é nossa intenção eliminar o culto, mas sim restaurá-lo novamente ao seu uso devido.

Três sérios abusos foram introduzidos no culto. Primeiro, silenciou-se a Palavra de Deus, e permaneceram somente a leitura e o cântico nas igrejas, o qual é o pior abuso. Segundo, quando se silencio a Palavra de Deus introduziram uma multidão de fábulas e mentiras não cristãs, com lendas, hinos e sermões que é algo horrível de suportar. Terceiro, tal culto divino se converteu numa obra pela qual se poderia ganhar a graça de Deus e a salvação. Como resultado, desapareceu a fé e todos se esforçavam por entrar no sacerdócio, encheram os conventos e os monastérios, e construíram igrejas.

Agora para corrigir estes abusos, primeiro deve-se saber que uma congregação cristã nunca deve se reunir sem a pregação da Palavra de Deus e a oração, ainda que seja breve, como diz o Salmo 102.21-22: "Para que publique em Sião o nome de Jehová, e seu louvor em Jerusalém, quando os povos e os reinos se congregarem para servir a Jehová". E Paulo em 1 Coríntios 14 diz que quando se reunirem deverá haver profecia, ensino e admoestação. Assim, quando não há pregação da Palavra de Deus, melhor que nem se cante, nem leiam, nem sequer se reúnam.

Este foi o costume entre os cristãos do tempo dos apóstolos e também se deve praticar agora. Devemos nos reunir diariamente às quatro ou cinco da manhã e os alunos, ou sacerdotes, ou quem quiser, para ler a Palavra de Deus, da maneira em que, todavia, se lê a lição matinal; isto o devem fazer um ou dois, ou de modo responsivo entre dois indivíduos ou coros, como melhor lhes parecer.

Logo o pregador, ou quem quer que seja que se tenha nomeado, se adiantará e interpretará uma parte da lição, para que todos entendam e a aprendam e sejam admoestados. Ao primeiro Paulo chama "falar em línguas", ao outro o chama "interpretar" ou "profetizar", ou "falar com o sentido ou entendimento". Se não fizerem assim, a congregação não receberá o benefício da lição, como ocorre nos monastérios e nos conventos, onde somente gritavam às paredes.

A lição deve ser extraída do Antigo Testamento. Deve-se selecionar um dos livros e ler um ou dois capítulos, ou a metade de um capítulo até terminar o livro. Depois selecionar outro livro, e prosseguir assim até que se faça a leitura de toda a Bíblia. E quando não se entender o texto, seguir adiante, e dar glória a Deus. Assim com o treinamento diário o povo cristão chegará a estar adestrado e bem versado na Bíblia. Porque deste modo se formaram cristãos genuínos como nos tempos anteriores - tanto virgens como mártires poderão se formar hoje.

Após a duração de meia hora ou algo assim, a lição e sua interpretação, a congregação se unirá em dar graças a Deus, louvá-lo, e orar pelos frutos da Palavra, etc. Para isto debem usar os Salmos e alguns bons responsórios e antífonas. Em resumo, que tudo termine em uma hora, ou o tempo que for conveniente; porque não se deve sobrecarregar as almas, nem cansá-las, como sobrecarregam como mulas nos monastérios e conventos atualmente.

Desse modo, reúnam-se às cinco ou seis da tarde. A esta hora realmente se deve ler outra vez o Antigo Testamento, livro por livro, ou seja, os profetas, assim como Moisés e os livros históricos se consideram na manhã. Mas sendo que também o Novo Testamento é um livro, permito a leitura do Antigo Testamento na manhã e do Novo Testamento à tarde, ou vice e versa, e a leitura, interpretação, louvor, cânticos e oração pela manhã, também por uma hora. Porque a única coisa importante é que se permita trabalhar a Palavra de Deus para elevar e vivificar as almas para que não se cansem. Se desejarem celebrar outro culto similar durante o dia, após o almoço, é um assunto de livre escolha. E ainda que toda a congregação não participe destes cultos diários, os sacerdotes e alunos, e especialmente aqueles de quem se espera, que serão bons pregadores e pastores, devem estar presentes. E deve-se admoestá-los a fazer isto voluntariamente, não por constrangimento ou forçados, ou para obter um prêmio temporal ou eterno, mas somente para a glória de Deus e o bem-estar do próximo.

Além destes cultos diários para um grupo mais reduzido, toda a congregação deve se reunir aos Domingos, e deve cantar a missa e vésperas como é de costume. Em ambos os cultos se pregará para toda a congregação, na parte da manhã sobre o evangelho do dia, e à tarde sobre a epístola; ou o pregador pode usar seu discernimento para determinar se quer pregar sobre certo livro, ou dois. Se alguém deseja receber o sacramento neste tempo, que seja administrado num horário que seja conveniente a todos os interessados.

Devem descontinuar completamente as missas diárias. Porque a Palavra é mais importante e não a missa. Mas se alguém desejar o sacramento durante a semana, que se celebre a misa quando houver a inclinação e a oportunidade. Porque neste assunto não se pode estabelecer regras definitivas.

Que se retenham os cantos nas missas dominicais e vésperas, mesmo que sejam bastante boas e tomadas da Escritura. Todavia, pode-se aumentar ou diminuir o seu número. Mas selecionar os cânticos para os cultos diários da manhã e à tarde será o dever do pastor e pregador. Porque cada manhã determinará um responsório, ou antífona, digno com uma coleta, e o mesmo para a tarde, e com isto se lerá e cantará publicamente após a lição e exposição. Mas momentaneamente podemos eliminar as antífonas, responsórios, e as coletas, do mesmo modo que as lendas dos santos e da cruz, até que sejam purificados, porque há uma terrível quantidade de imundícia neles.

As festas dos santos devem ser descontinuadas, ou onde houver uma boa lenda cristã, se poderá insertar como um exemplo após a leitura do evangelho do Domingo. Podem continuar as festas da purificação e a anunciação de Maria, e pelo momento também sua assunção e natividade, ainda que os cânticos que são usados nelas não sejam puros. A festa de João Batista também é pura. Nenhuma das lendas dos apóstolos é pura, exceto a de são Paulo. Podem ser transferidas para o Domingo mais próximo, ou celebrar separadamente, se assim desejarem.

Outros assuntos se ajustarão segundo surja a necessidade. Para resumir tudo: que tudo se faça para que a Palavra tenha liberdade de atuar, em vez de palavrear como é a regra até agora. Podemos deixar tudo, menos a Palavra. Por outro lado, nada é tão proveitoso como a Palavra. Porque toda a Escritura mostra que a Palavra deve ter liberdade para atuar entre os cristãos. E em Lucas 10, o próprio Cristo disse: "uma coisa é necessária", ou seja, que Maria se sentasse aos pés de Cristo e ouvisse diariamente a sua palavra. Esta é a melhor parte para escolher e nunca lhe será tirada. É uma palavra eterna. Tudo o mais passará, não importa quanto cuidado e esforço Marta dê. Deus nos ajude a alcançar isso. Amém.

Prefácio de João Calvino à Loci Communes de Filipe Melanchthon

  Introdução Em 1546, uma tradução francesa da obra de Filipe Melanchthon de 1545, Loci communes , foi publicada em Genebra sob o título de ...