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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Prefácio de João Calvino à Loci Communes de Filipe Melanchthon

 Introdução

Em 1546, uma tradução francesa da obra de Filipe Melanchthon de 1545, Loci communes, foi publicada em Genebra sob o título de Sumário da Teologia, ou Lugares Comuns, revisada e ampliada pela última vez por Ms. Filipe Melanchthon.[1] Em sua introdução, Calvino tem o cuidado de elogiar o braço direito de Lutero, em vez de apontar as divergências que existiam entre eles, particularmente sobre o livre-arbítrio e a predestinação.[2] Wulfert de Greef afirma: “Isso é surpreendente porque mais tarde (1552), em um debate com Jean Trolliet sobre a predestinação, fica bastante claro que Calvino e Melanchthon não concordavam e todos os aspectos”.[3]

Contudo, a falta de referência a esses assuntos talvez não seja tão surpreendente, considerando o propósito de Calvino em seu prefácio. Bruce Gordon avalia que o objetivo de Calvino era “tornar o professor de Wittenberg conhecido pelos leitores franceses como um piedoso mestre da igreja e demonstrar que havia um corpo doutrinário consensual entre as igrejas protestantes e que, ao se dirigir aos evangélicos franceses, Calvino falava com a voz comum da Reforma Protestante em geral”.[4]

É certamente uma demonstração da apreciação e magnanimidade de Calvino o fato de ele não ter permitido que essas diferenças em questões que ambos consideravam centrais prejudicassem uma amizade para toda a vida, iniciada em outubro de 1538, quando foram apresentados por Martin Bucer.[5] Calvino valorizava essa amizade, embora, por vezes, a defesa de Lutero por Melanchthon e sua submissão a ele lhe causassem angústia, particularmente no que diz respeito à doutrina da presença real nas controvérsias eucarísticas e à virulência de Lutero sobre o assunto. Na dedicatória de seu comentário sobre Daniel, ele descreveu Melanchthon como “um homem que, por conta de sua incomparável habilidade nos mais excelentes ramos do conhecimento, sua piedade e outras virtudes, é digno da admiração de todas as épocas”. Por sua vez, Melanchthon chamava Calvino de “o teólogo”.[6] A estima mútua entre eles é atestada nas cartas que trocaram, mais do lado genebrino (14) do que do lado de Wittenberg (8). Como afirma Philip Schaff, “Melanchthon era doze anos mais velho que Calvino, assim como Lutero era treze anos mais velho que Melanchthon. Calvino, portanto, pode ter mantido com Melanchthon a relação de aluno com professor.”[7]

Os dois reformadores se encontraram três vezes ao todo: em Frankfurt (1539), Worms (1540) e Regensburg (1541).[8] Após o Colóquio de Regensburg, não se viram novamente, pois Calvino havia reassumido seu cargo em Genebra em setembro de 1541, após uma ausência de três anos. No ano seguinte, Melanchthon sugeriu que Calvino respondesse ao teólogo holandês Albert Pighius, o que Calvino fez, dedicando seu tratado De libero arbitrio a Melanchthon em fevereiro de 1543. Melanchthon agradeceu a Calvino por esse gesto em maio do ano seguinte: “Fiquei muito comovido com sua gentileza e agradeço-lhe por ter demonstrado seu amor por mim ao mundo todo, colocando meu nome no início de seu notável livro, onde o mundo inteiro poderá vê-lo.”[9]

Calvino escreveu esta introdução à principal obra de Melanchthon estando plenamente ciente da diferença em suas abordagens, particularmente no que diz respeito ao problema da predestinação divina e do pecado.[10] Na primeira edição dos Loci, em 1521, e em seu Comentário de Romanos três anos depois, Melanchthon havia afirmado, assim como Lutero na controvérsia com Erasmo, que Deus faz todas as coisas não por permissividade, mas por poder, e que ele predestinou os atos humanos livres.[11] Mais tarde, ele hesitou, dizendo: “Sustento a proposição de que Deus não é o autor do pecado e, portanto, não pode desejá-lo. Davi foi levado à transgressão por sua própria vontade”.[12] Apesar dessa diferença, Calvino deixou suas reservas de lado e escreveu uma introdução excepcional. Schaff comenta: “Este é o único exemplo de um reformador republicando e recomendando a obra de outro reformador, que era a única rival formidável de sua própria obra principal sobre o mesmo assunto (as Institutas) e diferia dela em vários pontos”.[13] Calvino também teve a palavra final nessas trocas fraternas no auge da controvérsia eucarística, dois anos após a morte de seu amigo em abril de 1560, apelando a Melanchthon em uma oração sincera:

Ó Filipe Melanchthon! Apelo a ti, que agora vives com Cristo no seio de Deus, e ali nos espera até que sejamos reunidos contigo naquele repouso bendito. Cem vezes, quando exausto de trabalhos e oprimido por tantas aflições, repousaste tua cabeça familiarmente em meu peito e disseste: “Quem me dera poder morrer neste seio!” Desde então, desejei mil vezes que nos fosse concedido viver juntos; pois certamente assim terias tido mais coragem para a inevitável contenda, e serias mais forte para desprezar a inveja e para não considerar como nada todas as acusações. Desta maneira, também, a malícia de muitos teria sido refreada, os quais, de tua mansidão que chamam de fraqueza, reuniram audácia para seus ataques.[14]

 

 

O texto

 João Calvino, aos leitores[15]

 Se este livro fosse publicado em latim, dificilmente seria digno da minha parte recomendá-lo. Se o fizesse, estaria me expondo a acusações de impertinência e presunção. O seu autor é tão renomado entre os eruditos de hoje que ninguém pode deixar de conhecê-lo. Além de ser reconhecido por sua excelente erudição, ele também merece crédito por citar os escritos de outros, o que é mais um motivo para recomendar suas obras. Como ele é menos conhecido entre aqueles de nosso país que não tiveram o benefício da instrução acadêmica, achei pertinente, juntamente com vários outros que compartilham da mesma opinião, informar aos leitores que muito se pode aprender com este livro e incentivá-los a estudá-lo completamente.

Não comentarei aqui sobre o autor, nem sobre os dons extraordinários com que ele é abençoado, graças pelas quais ele é digno de ser honrado por todos aqueles que amam as coisas de Deus. Apenas me referirei ao livro. Quanto ao seu conteúdo, trata-se de um breve resumo das coisas que os cristãos precisam saber para guiá-los no caminho da salvação. Aqui encontramos tudo o que precisamos saber sobre Deus; como devemos servi-lo; o que precisamos crer a respeito de Cristo; por que ele nos foi enviado por seu Pai; a graça que recebemos por meio dele; em que devemos fundamentar nossa esperança de salvação; como devemos invocar o nome do Senhor; o que são a verdadeira fé e o arrependimento; como podemos ser pacientes na adversidade e onde os cristãos podem encontrar verdadeira consolação; onde devemos discernir a igreja; como ela deve ser governada e quem são seus verdadeiros líderes; qual a utilidade dos sacramentos e sua administração; quais são nossas responsabilidades uns para com os outros, para com aqueles que têm autoridade sobre nós, para com aqueles que estão sob nossa responsabilidade e para com nossos iguais. Estas são as coisas às quais os cristãos devem dedicar suas vidas, se aspiram a usar seu tempo com ensinos proveitosos. Todas essas questões são abordadas neste livro e apresentadas de forma que, tanto jovens quanto adultos, recebam instruções úteis, contanto que as abordem com o desejo de aprender.

O que é louvável é que este autor profundamente erudito não se preocupou com sutilezas nem escreveu com grandeza retórica, como facilmente poderia ter feito, mas simplificou o material ao máximo, buscando apenas edificar seus leitores. Todos nós deveríamos tentar escrever dessa maneira, exceto nas ocasiões em que os argumentos falaciosos apresentados por nossos adversários nos obrigam a agir de outra forma. No entanto, a simplicidade é a maior qualidade ao lidar com a doutrina cristã. É por isso que o autor se absteve de desenvolver certos pontos em profundidade, mesmo que o justificassem.[16] Ele se ateve ao que é considerado necessário para a salvação, deixando de lado ou omitindo questões não absolutamente essenciais, sobre as quais a falta de conhecimento ou o julgamento suspenso não comprometem o resultado, como, por exemplo, a questão do livre-arbítrio. Estou bem ciente de que a apresentação feita aqui não é suficiente para satisfazer a todos.[17] Parece que as capacidades humanas recebem muita liberdade. A razão para isso é que, tendo tratado do cerne da questão, o autor prefere passar adiante e não abordar questões que não são essenciais para a salvação dos crentes. Ele parte do princípio de que o entendimento humano é cego, a tal ponto que nossa razão não pode nos conduzir a Deus ou ao conhecimento dele, a menos que Deus nos ilumine pela graça do seu Espírito Santo. Da mesma forma, nossa própria vontade é perversa e distorcida, a tal ponto que produz apenas inclinações errôneas e rebelião contra Deus e sua justiça, que, consequentemente, lhe desagradam, até que o Espírito Santo renove nossos corações.[18] Assim, vemos que ele considera a graça de Deus como a única origem de qualquer bem espiritual em nossa salvação, e que o homem não tem nada de que se gloriar. Ele, contudo, afirma que o homem possui certa liberdade no que diz respeito a esta vida terrena, no estar acordado e no dormir, em cumprir suas atividades diárias, em trabalhar, estudar ou se ocupar de negócios.[19] Por quê? Ao se limitar ao essencial, ele coloca o homem em seu verdadeiro nível, mostrando que, por si só, ele só pode se desviar de Deus e pecar, caindo assim na perdição, e que qualquer capacidade que ele tenha para fazer o bem não lhe é inerente, mas apenas pela graça de Deus. Dito isso, ele impõe limites a essa liberdade, que chama de liberdade civil, afirmando que Deus reina continuamente do alto. Não há muito o que criticar nisso. Mas era importante esclarecer ao leitor as intenções do autor, para que ninguém se ofendesse com um detalhe menor.

Pode-se igualmente dizer da questão da predestinação. Visto que hoje existem tantos espíritos rebeldes que procuram apenas satisfazer a sua curiosidade e que não conhecem a moderação, num esforço para evitar o perigo, ele prefere tratar apenas do que é necessário saber, deixando outras coisas em suspenso.[20] Se ele desenvolvesse completamente esta questão, daria vazão a um grande debate confuso e desconcertante, sem frutos nem edificação. Afirmo que nada do que é revelado nas Escrituras seja omitido, qualquer que seja o caso. No entanto, quem deseja edificar os seus leitores não deve ser culpado por se limitar às coisas que se sabe serem mais úteis, ou por apenas mencionar ou deixar de lado o que sabe ser improdutivo.

No que diz respeito aos sacramentos, um senso de humildade o levou a acrescentar a absolvição como um terceiro sacramento, além do batismo e da ceia do Senhor.[21] Visto que a absolvição aparece comumente nesse contexto, ele se adaptou à prática comum, desejando evitar controvérsias. Não que ele jamais tenha pretendido colocar a absolvição no mesmo nível do batismo e da Ceia do Senhor, conferindo-lhe o mesmo status, ou obrigar os cristãos a observá-la como se fosse um sacramento instituído por Jesus Cristo. A sua intenção não era impô-la, mas sim permitir que os cristãos recorressem a ela.[22] Isso fica claro na justificativa que ele apresenta. Ele a considera uma prática boa e útil, o que, no entanto, não é motivo suficiente para considerá-la um sacramento.

Se os leitores mantiverem o senso de proporção ao avaliar este livro que o autor demonstrou ao escrevê-lo, tudo correrá bem e nada os impedirá de se beneficiarem enormemente da leitura. Mas o problema é que muitas pessoas hoje em dia não leem livros com o desejo de aprender, seja qual for o assunto, mas sim buscam algo para criticar. E se conseguirem questionar uma única palavra, isso se torna um obstáculo que as impede de se beneficiarem de qualquer forma. Então, ignorando tudo de bom que o livro contém, orgulham-se de uma maneira que causa sua própria ruína. Pior ainda, os mais ignorantes são os mais francos e críticos. Outros são tão exigentes que um único detalhe pode afastá-los completamente, a ponto de uma única frase que não lhes agrade afastá-los do livro como um todo, mesmo que ele contenha muito conteúdo sobre o qual seria aconselhável refletir. Sem dúvida, é um truque do diabo para desviá-los e impedi-los de receber a sã doutrina que lhes é apresentada. Portanto, aqueles que desejam obter algum proveito deste livro devem cultivar um espírito ensinável, deixando de lado tudo o que for um obstáculo ao progresso, para que avancem no caminho correto que leva à pura verdade de Deus, a única coisa à qual somos chamados a nos apegar, usando esses meios humanos para nos ajudar a alcançar esse objetivo.[23]

 

Notas:

[1] La Somme de théologie, ou Lieux communs, revus et augmentez pour la dernière fois, par M. Philippe Melancthon. A obra de Melanchthon, que apareceu pela primeira vez em 1521, foi expandida em diversas edições, principalmente em 1535 e 1545, antes de sua versão definitiva em 1559, um ano antes da morte do autor. A “última vez” mencionada no título francês é provavelmente uma estratégia de marketing. Foi traduzido do francês por Alison Wells, com introdução e anotações de Paul Wells. As notas acrescentadas por mim, serão identificadas como “nota do tradutor”.

[2] Barbara Pitkin nota que “há ainda outro motivo pelo qual o período de 1539 a 1546 representa um campo fértil para explorar as diferenças entre as concepções de Calvino e Melanchthon sobre a natureza humana. Foi também nesse período que cada um desenvolveu sua própria compreensão da natureza e das capacidades humanas, levando-as a uma expressão mais completa. Em 1539, Calvino publicou uma edição revisada e ampliada de suas Institutas, que continha discussões novas e detalhadas sobre a natureza humana, a natureza do arrependimento e a vida cristã. Em 1542, publicou um tratado sobre a natureza e a imortalidade da alma, ostensivamente uma refutação da ideia de que, após a morte, a alma ou ‘dorme’ em um estado de esquecimento até o dia do juízo final ou que, de fato, morre com o corpo. Finalmente, em 1543, defendeu a servidão da vontade em um tratado expressamente dedicado a Melanchthon.” Barbara Pitkin, “The Protestant Zeno: Calvin and the Development of Melanchthon’s Anthropology” in: The Journal of Religion, vol. 84, no. 3 (July 2004), pp. 350-351. Nota do tradutor.

[3] Wulfert de Greef, The Writings of John Calvin: An Introductory Guide, p. 193. De Greef sugere que a referência de Calvino à “acomodação” de Melanchthon (ver o Prefácio abaixo) é crítica, enquanto pode ser interpretada como um reconhecimento da abordagem sensível do escritor de Wittenberg a questões difíceis.

[4] Bruce Gordon, Calvin (New Haven: Yale University Press, 2009), p. 162. Melanchthon não respondeu à tradução e, por não falar francês, provavelmente nunca leu o texto.

[5] James T. Hickman, “The Friendship of Melanchthon and Calvin,” Westminster Theological Journal 38.2 (1976): 152–65. Cf. Clyde L. Manschreck, Melanchthon: The Quiet Reformer (Eugene, OR: Wipf & Stock, 2009), pp. 254–255.

[6] Phillip Schaff, History of the Christian Church: Modern Christianity. The Swiss Reformation, vol. 8, p. 344 (as páginas 344–354 referem-se à Calvino e Melanchthon).

[7] Phillip Schaff, History of the Christian Church: Modern Christianity. The Swiss Reformation, vol. 8, p. 344.

[8] O Colóquio de Regensburg foi a última oportunidade realista de reunir as confissões católica e protestante na Alemanha. Ele fracassou devido à incapacidade de se chegar a um acordo sobre uma fórmula satisfatória a respeito da doutrina eucarística e da questão da autoridade da Igreja.

[9] Phillip Schaff, History of the Christian Church: Modern Christianity. The Swiss Reformation, vol. 8, p. 348.

[10] Barbara Pitkin conclui que “Calvino estava claramente ciente de algumas dessas mudanças e respondeu a elas, ainda não diretamente a Melanchthon, pois continuava a esperar seu apoio e concordância. Em vez disso, alertou os leitores franceses de Melanchthon sobre as deficiências na abordagem do autor a temas como o livre-arbítrio e a predestinação, no prefácio que escreveu para a tradução francesa de 1546 dos Loci communes. Ali, Calvino adverte seus leitores sobre a ortodoxia de Melanchthon e seu desejo de simplicidade. É esta última qualidade, afirma Calvino, que levou o autor a conceder certa liberdade em assuntos terrenos, a abordar a predestinação apenas superficialmente e a incluir a absolvição entre os sacramentos. Calvino, assim, explicitou, desta vez citando nomes, três áreas-chave de divergência, ainda convicto de que estas refletiam meramente diferentes maneiras de ensinar e não divisões permanentes ou intransponíveis.” Barbara Pitkin, “The Protestant Zeno: Calvin and the Development of Melanchthon’s Anthropology” in: The Journal of Religion, vol. 84, no. 3 (July 2004), pp. 376-377. Nota do tradutor.

[11] Na edição de 1521 do Loci de Melanchthon, são citados doze textos e afirma-se que “já que tudo o que acontece ocorre necessariamente segundo a predestinação divina, a nossa vontade não tem liberdade”, acrescentando-se em seguida: “O que mais Paulo está fazendo em Romanos 9 e 11 senão atribuir tudo o que acontece à predestinação divina?” Philip Melanchthon, Commonplaces: Loci Communes, 1521 (St. Louis, Concordia Publishing, 2014), pp. 65–66.

[12] Phillip Schaff, History of the Christian Church: Modern Christianity. The Swiss Reformation, vol. 8, p. 349.

[13] Phillip Schaff, History of the Christian Church: Modern Christianity. The Swiss Reformation, vol. 8, p. 350.

[14] Baum, Cunitz, Reuss, eds., Ioannis Calvini Opera Quae Supersunt Omnia, (Brunschwig: C.A. Schwetschke, 1870), vol. 9, p. 461.

[15] Segue-se o “Prefácio de João Calvino à tradução francesa de Loci Communes de Filipe Melanchthon” in Ioannis Calvini Opera Quae Supersunt Omnia, ed. Baum, Cunitz, Reuss (Brunschwig: C.A. Schwetschke, 1870), vol. 9 pp. 847–850.

[16] A marca registrada de Calvin era a simplicidade e a concisão.

[17] As formulações de Melanchthon sobre o tema do livre-arbítrio são bem mais abrangentes do que o tom incisivo do De servo arbitrio de Martinho Lutero contra Erasmo (1525). Calvino provavelmente acha que Melanchthon não foi longe o suficiente, mas se absteve de críticas explícitas.

[18] Apesar das reservas de Calvino, sua reação moderada deve-se em parte ao fato de que os pontos essenciais estão seguros — a pecaminosidade total do homem e a necessidade da obra do Espírito Santo na renovação.

[19] Freedom in terrestrial things was indicated by Luther in his argument against Erasmus, and not to be confused with man’s incapacity in the spiritual realm, apart from regeneration. In the 1521 Loci, Melanchthon distinguishes between internal and external freedom, Commonplaces, 76. Considered according to predestination there is no freedom in either domain, but if the will is considered according to external works, “natural judgment concludes that some freedom exists.” A liberdade nas coisas terrenas foi indicada por Lutero em seu argumento contra Erasmo, e não deve ser confundida com a incapacidade do homem no reino espiritual, exceto pela regeneração. Em Loci (1521), Melanchthon distingue entre liberdade interna e externa (Commonplaces, 76). Considerada segundo a predestinação, não há liberdade em nenhum dos domínios, mas se a vontade for considerada segundo as obras externas, “o juízo natural conclui que existe alguma liberdade”.

[20]  Calvino respondeu em 1543 aos primeiros seis livros de Albert Pighius, Ten Books on Human Free Choice and Divine Grace with his. A.N.S. Lane, ed, De Libero Arbitrio in: The Bondage and the Liberation of the Will (Grand Rapids, Baker Books, 1996).

[21] Veja Herman A. Speelman, Melanchthon and Calvin on Confession and Communion: Early Modern Protestant Penitential and Eucharistic Piety (Göttingen: Vandenhoek & Ruprecht, 2016).

[22] Para Calvino, a absolvição está relacionada ao “poder das chaves” e ao perdão por meio da pregação do evangelho, em contraste com o sacramento da absolvição. Veja John Calvin, Institutas 3.4.14–15 e 4.19.16.

[23] Calvino aprecia contrastar o caminho reto e estreito da verdade em Cristo com caminhos tortuosos, “tempestuosos e incertos”. Veja, por exemplo, seu comentário sobre Cristo como mediador único no Comentário de 1Timóteo. Opera, vol. 42, p. 270.

domingo, 29 de março de 2020

Fragmento do rascunho da Ordenança Eclesiástica sobre a “Propriedade do Matrimônio” por João Calvino

Além disso, caso contrário, não poderíamos levá-los a um acordo, ordenamos e pedimos antecipadamente e antes de tudo que façam um inventário de suas mercadorias e dos seus negócios, dívidas, títulos e tudo mais que depende disso, dos seus móveis, utensílios, bens comuns e bens adquiridos. Deixe que eles resolvam e fechem suas contas e, assim, providenciem entre eles que haja uma resolução definitiva, que ponham fim a todas as brigas anteriores e que, a partir de agora, cada um possa saber o que é seu para que não haja reclamação. E desejamos que isso seja feito o mais rápido possível, o mais tardar dentro de um ano, sem procedimentos formais, mas pacificamente e com boa vontade. Se uma das partes não quiser consentir, ou seja, fazer esse inventário e liquidar suas contas sem um processo ou ir a um tribunal, a outra parte terá a opção e a liberdade de renunciar ao presente contrato e retornando ao seu primeiro curso [de ação legal?].

Sendo assim, será nosso desejo que as duas partes vivam juntas, mantendo uma família comum como fizeram até agora, tanto para seu próprio contentamento e repouso, como para evitar as conversas fúteis do mundo e o escândalo que possa resultar de sua separação. No entanto, como não podemos fazê-los concordar com isso,[1] ordenamos que a separação seja realizada quando as contas forem concluídas, ou seja, dentro de um ano. Para que eles se separem e cada um se retire pacificamente,[2] sob pena de retornar à sua condição anterior, ou seja, cada um deles deve, respectivamente, continuar com os direitos e ações que tomou como se este presente acordo nunca fosse feito. No entanto, se acontecer posteriormente que, para a facilidade e conveniência das duas partes ou de uma delas, lhes pareça apropriado organizar e realizar uma separação, nós os deixamos livres para fazê-lo.[3]


NOTAS:
[1] Calvino primeiro escreveu: “No entanto, se isso não puder ser feito de outra maneira e ambas as partes preferirem viver separadamente, ou um dos dois desejar isso, solicitamos ... ”.
[2] O texto original: “eles são mutuamente obrigados a se separar, cada um a pedido do outro ... ”.
[3] O texto está em CO 10/1:143–44 sem data citado pelo livro de Philip L. Reynolds and John Witte, Jr., orgs., To Have and to Hold - Marrying and Its Documentation in Western Christendom, 400–1600 (Cambridge, Cambridge University Press, 2007), p. 478.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Conselhos de João Calvino sobre empréstimo, usura e Igreja e Estado.

Eu seria mais diligente em responder, querido irmão, se não fosse impedido pela dificuldade que parece estar relacionada à pergunta que fez em sua carta. Você pergunta se é permitido aos ministros cobrar e obter lucro com o dinheiro deles. Se eu disser “não” categoricamente, minha resposta poderá ser julgada mais severa do que a correta e, possivelmente, será distorcida. Portanto, não me atreveria a afirmar que não é permitido. Sei como é provável que isso acarrete falsas acusações e escândalos, mais intrigante, e como a maioria das pessoas estendem os limites dos bens que podem adquirir, mesmo sob condições de restrição, prefiro parar de me comprometer do que dar uma resposta completa, e oferecer a minha opinião de que este assunto fosse liberado de restrições de uma vez por todas.

Seria sensato, é claro, abster-se de transações desse tipo e da ganância por lucros. Jeremias tem o propósito de testemunhar sobre si mesmo: “Nunca lhes emprestei com usura, nem eles me emprestaram a mim com usura; todavia, cada um deles me amaldiçoa” [Jr 15.10]. Quando um ministro da Palavra pode impedir-se de obter lucros desse tipo, ele está tomando a decisão certa para si. Não obstante, é mais tolerável que receba esse lucro do que entre nos negócios ou empreenda alguma atividade que o afaste dos deveres de seu ofício e, portanto, não vejo que isso mereça condenação como algo geral. Eu gostaria de ver a restrição usada. Obviamente, ele não deve estipular uma taxa de retorno definitiva ou que uma quantia específica de dinheiro lhe seja paga. Ele pode, no entanto, investir seu dinheiro com um homem honesto, cuja boa fé e honestidade ele confia. Que se contente com um retorno justo e honesto de seu dinheiro, de acordo com o modo das bênçãos de Deus sobre ele como usuário de riqueza.

Sobre a questão de prestar juramento no consistório, você deve agir com prudência para combater as desvantagens e murmúrios dos iníquos. Será melhor, portanto, se aqueles que são chamados prestarem juramento quando for necessário e permanecerem como se estivessem no tribunal de Deus, uma vez que o próprio Deus está presidindo uma assembleia. Evite cuidadosamente qualquer tipo de ação que tenha aparência de uma justificativa, ou mesmo algo parecido.

Por fim, não vejo dificuldade em admitir no consistório àqueles que são responsáveis pela jurisdição civil normal, desde que não estejam presentes devido ao prestígio e respeito à sua jurisdição. Uma distinção deve sempre ser observada entre essas duas áreas claramente distintas de responsabilidade: a civil e a eclesiástica. Além disso, não há razão para excluí-los de nossas investigações e decisões sobre assuntos espirituais. Em resumo, quando homens adequados forem escolhidos para esse cargo, cuidem para que não combinem o poder da espada com algo que, por sua própria natureza, deva permanecer distinto desse poder.

Achei que deveria responder às suas perguntas dessa maneira, mas não quero que as respostas pareçam ter vindo apenas de minhas opiniões. Eu consultei meus irmãos expressamente, e eles aprovaram.

Saudações,
10 Janeiro de 1560.


Mary Beaty and Benjamin W. Farley, Calvin’s Ecclesiastical Advice (Louisville, Westminster/John Knox Press, 1991), pp. 160-161.
Tradução de Ewerton B. Tokashiki

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Os Artigos de Lausanne por João Calvino

Questões a serem discutidas em Lausanne
na nova província de Berna

em 1 de Outubro de 1537

I
A Sagrada Escritura ensina apenas uma maneira de justificação, que é pela fé em Jesus Cristo, de uma vez por todas oferecida, e não é senão um destruidor de toda a virtude de Cristo, quem faz outra satisfação, oferta ou purificação para a remissão de pecados.

II
Esta Escritura reconhece a Jesus Cristo, que ressuscitou dos mortos e está no céu à direita do Pai, como o único chefe e verdadeiro sacerdote, mediador soberano e verdadeiro defensor da sua Igreja.

III
A Sagrada Escritura chama de Igreja de Deus todos os que creem que são recebidos somente pelo sangue de Jesus Cristo e que, creem com constância e sem vacilar, firmam e apoiam-se na Palavra, que, retirando-se de entre nós em presença corpórea, todavia, a virtude de seu Espírito Santo enche, sustenta, governa e vivifica todas as coisas.

IV
A referida Igreja contém certas coisas que são conhecidas apenas para os olhos de Deus. Possui sempre cerimônias ordenadas por Cristo, através das quais é visto e conhecido, isto é, o Batismo e a Ceia de nosso Senhor, que são chamados sacramentos, pois são símbolos e sinais de coisas secretas, isto é, da graça divina. A referida Igreja não reconhece nenhum ministério, exceto o que prega a Palavra de Deus e administra os sacramentos.

VI
Além disso, esta mesma Igreja não recebe nenhuma outra confissão além daquela que é feita a Deus, nenhuma outra absolvição do que aquela que é dada por Deus para a remissão dos pecados e que, por si só, perdoa e remete seus pecados que, para esse fim, confessam a sua culpa.

VII
Além disso, esta mesma Igreja nega todas as outras formas e meios de servir a Deus, além do que é espiritualmente ordenado pela Palavra de Deus, que consiste no amor de si mesmo e do próximo. Por isso, rejeita inteiramente os inúmeros esforços fúteis de todas as cerimônias que pervertem a religião, como imagens e coisas semelhantes.

VIII
Também reconhece o magistrado civil ordenado por Deus apenas como necessário para preservar a paz e a tranquilidade do Estado. Para que fim, deseja e ordena que todos sejam obedientes a medida em que nada é ordenado contrário a Deus.

IX
Em seguida, afirma que o casamento é instituído por Deus para todas as pessoas como adequado e conveniente a elas, e não infringe a santidade de ninguém.

X
Finalmente, quanto às coisas que são indiferentes, como alimentos, bebidas e a observação dos dias, permite que tudo o que o homem crê que possa usar em todos os momentos de forma livre, a não ser o que a sabedoria e a caridade impeçam.

domingo, 26 de novembro de 2017

Carta de Calvino à Farel [16/02/1541]

CHEGADA DE CALVINO A GENEBRA – SUA ENTREVISTA COM OS MAGISTRADOS – ELABORA UMA FORMA DE DISCIPLINA ECLESIÁSTICA – ACONSELHA FAREL QUANTO À MODERAÇÃO.

GENEBRA, 16 de Setembro de 1541[1]

Como você desejava, eu estou estabelecido aqui; que o Senhor faça que isso coopere para o bem. Para o momento, eu devo manter Viret aqui também, por quem não vou sofrer de modo nenhum por ele ser levado para longe de mim. E você, ademais, e todos os irmãos, esforcem-se ao máximo para me ajudar aqui, a menos que vocês tenham me torturado sem propósito, e me tornado completamente deplorável, sem nenhum benefício a ser obtido. Imediatamente após eu ter oferecido meus serviços ao Senado, declarei que uma Igreja não pode se manter a menos que um sistema de governo estabelecido seja acordado, do modo como prescrito a nós na palavra de Deus, e tal como era usado na Igreja antiga. Depois eu toquei gentilmente em certos pontos de modo que eles pudessem entender qual era o meu desejo. Mas porque toda a questão da disciplina era muito grande para ser discutida daquela forma, pedi-lhes que nomeassem alguns dentre eles, que pudessem tratar do assunto conosco. Seis deles foram designados em seguida. Artigos relativos a toda a política eclesiástica serão preparados, os quais nós devemos apresentar ao Senado logo em sequência. Os três colegas demonstraram algum sinal de concordância com nós dois. De algum modo, pelo menos, serão obtidos. Desejamos sinceramente saber como as coisas estão indo em sua Igreja.[2] Esperamos, no entanto, que, influenciados pela autoridade dos de Berna e Bienna, esses problemas tenham sido completamente resolvidos, ou pelo menos acalmados de algum modo. Quando você tem Satanás para combater, e você luta sob a bandeira de Cristo, aquele que cinge sua armadura e te conduziu à batalha, te dará a vitória. Mas, uma vez que uma boa causa exige também um bom instrumento, tenha o cuidado de não lhe fazer tantas concessões, de modo a pensar que não houve nada desejável de sua parte que bons homens possam razoavelmente esperar de você. Nós não aconselhamos você a manter uma consciência boa e pura, sobre a qual, não temos quaisquer dúvidas; só desejamos sinceramente, que na medida que seu dever permitir, você se adeque mais ao povo. Existe, como você sabe, dois tipos de popularidade: aquela quando buscamos o favor dos outros por motivo de ambição e desejo de agradar; e a outra, quando, por equidade e moderação, nós ganhamos confiança deles, de modo a torná-los dispostos a serem ensinado por nós. Você deve nos perdoar se tratamos com certa liberdade com você. Em referência a esse ponto em particular, nós percebemos que você não dá satisfação mesmo para alguns bons homens. Mesmo onde não há nada mais a se queixar, você peca neste ponto, por não dar satisfação àqueles a quem o Senhor te fez devedor. Você está ciente do quanto te amamos, e do quanto te respeitamos. Esta mesma afeição, é verdade, esse respeito nos impele a uma crítica mais direta e rigorosa, porque desejamos sinceramente que naqueles notáveis dons que o Senhor conferiu a você, nem mancha ou defeito possam ser achados de modo que o malfeitor possa encontrar falta ou mesmo falar contra ti. Isto eu escrevi aconselhado por Viret, e por conta disso usei o plural. Adeus, mais que excelente e amável irmão.

[Autógrafo original em latim. -- Biblioteca de Genebra. Volume 106.]

NOTAS:
[1] Calvino chegou a Genebra no dia 13 de setembro de 1541. Encontramos sob esta data, em excertos dos Registros do Conselho: – “Calvino, tendo chegado a Genebra, apresentou-se ao Conselho, ao qual ele trouxe cartas dos Magistrados e Ministros de Estrasburgo. Ele se desculpou por sua viagem ter sido adiada. Ele apresentou que seria necessário estabelecer o trabalho das ordenanças eclesiásticas. Resolveu-se que eles se dedicariam a isto imediatamente, e para esse fim foram designados, juntamente com Calvino, Claude Pertemps, Amy Perrin, Claude Roset, Jean Lambert, Potalia, e Jean Balard. Resolveu-se também manter Calvino aqui sempre. – Outubro de 1541. A côngrua de Calvino foi definida em quinhentos florins, doze medidas de milho e dois tonéis de vinho”. Para moradia, eles ofereceram a mansão Fregneville, comprada pelo preço de duzentos e sessenta coroas, com um corte de veludo para vestimentas.
[2]


Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana Filadélfia em Marabá-PA; cursando mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo CPAJ – Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Carta de Calvino para Farel [1541]

CALVINO EM BERNA – SUA ENTREVISTA COM UM DOS PRINCIPAIS MAGISTRADOS, E COM OS MINISTROS DAQUELA CIDADE.
MORAT, Setembro de 1541[1]

Assim que cheguei em Berna, apresentei minha carta ao vice-cônsul. Ao lê-la, ele disse: Os de Estrasburgo e Basileia pedem que um salvo-conduto seja concedido a você. Eu respondi que tal requerimento era supérfluo, porque eu nem era um malfeitor, nem estava em um território de completos inimigos. Então eu expliquei o que eles podiam facilmente ter entendido. O Conselho, no entanto, por ignorância grosseira, entendeu assim, como se tivesse sido escrita em referência a uma escolta. O estado da minha saúde impediu minha espera no Senado pessoalmente; nem pareceu-me que isso valeria a pena. Em seguida eu me desculpei com o Vice-Cônsul, quando ele perguntou por que eu não tinha vindo pessoalmente. O Senado retornou em resposta, de que eu não precisava de proteção pública em um cantão pacífico, e que em outros aspectos eles estariam mais que prontos para me auxiliar. Veja que zombaria. Eu encontrei muitas provas de gentileza entre os irmãos. Konzen estava ausente. Erasmo e Sulzer em seus próprios nomes e de outros, aprovaram a minha declaração e livremente prometeram seu auxílio e favor. Sulzer, além de outros, conversou comigo de modo familiar sobre vários pontos. Parece-me que nós devemos fazer o possível para garantir sua cooperação; será de grande utilidade, e ele se mostrou bem disposto. Eu não me esqueci, como você possa supor, de interceder pela causa de seu interesse. Uma comitiva foi enviada.[2] Eu não consegui obter mais; e Giron declarou que seria sem propósito insistir ainda mais nesse assunto. O Senhor, no entanto, não tem necessidade alguma de tal conselho ou proteção. Adeus, com todos os irmãos. – Seu,

João Calvino

[Autógrafo original em latim. -- Biblioteca de Genebra. Volume 106.]

NOTAS:
[1] Após uma curta visita a Berne, Calvino, em Morat, escreveu a Farel para informá-lo sobre alguns dos incidentes de sua viagem.
[2] Essa comitiva tinha ido solicitar o favor do rei Francisco I, pelos valdenses da Provência.

Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana Filadélfia em Marabá-PA; cursando mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo CPAJ – Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A visitação dos enfermos - por João Calvino

O ofício de um verdadeiro e fiel ministro não é apenas ensinar publicamente àquelas pessoas, sobre quem, ele é pastor ordenado, mas, na medida do possível, que admoeste, exorte, repreenda e console a cada um em particular. Então, a maior necessidade que um homem tem da doutrina espiritual de nosso Senhor é quando a sua mão o visita nas aflições, seja de doença ou de outros males, e, especialmente, na hora da morte, pois então, ele se sentirá mais forte do que nunca na sua vida, antes pressionada em consciência tanto pelo juízo de Deus, a que ele se vê prestes a ser chamado, como pelos assaltos do diabo, que então usa todos os seus esforços para vencer o pobre, mergulhando e dominando-o na confusão. E, portanto, o dever de um ministro é visitar os doentes e consolá-los pela Palavra do Senhor, mostrando-lhes que tudo o que eles sofrem e padecem, vem da mão de Deus e da Sua boa providência, que não envia nada aos crentes exceto para o seu bem e a salvação.

Ele citará passagens das Escrituras adequadas a cada situação. Além disso, se ele vê a doença como perigoso, ele lhes dará consolo, no que for mais animador, conforme ele os vê tocados por sua aflição; isto é, se ele percebe que estão pesarosos, com o medo da morte, irá mostrar-lhes que não é motivo de desânimo para os crentes, que tendo Jesus Cristo por seu guia e protetor, serão conduzidos, em meio à sua aflição, para a vida em que Ele entrou. Por considerações semelhantes, ele removerá o medo e o terror que eles têm do juízo de Deus. Se ele perceber que não estão suficientemente oprimidos e agonizados pela convicção de seus pecados, ele lhes declarará a justiça de Deus, diante da qual eles não podem resistir, exceto por Sua misericórdia, recebendo a Jesus Cristo para a sua salvação. Mas, se vendo-os afligidos em suas consciências e perturbados por suas ofensas, ele apresentará Jesus Cristo para a vida e mostrará como nele todos os pobres pecadores podem, duvidosos de si mesmos, descansar em Deus e encontrar consolo e refúgio. Além disso, um bom e fiel ministro considerará corretamente todos os meios que são apropriados para consolar os angustiados, conforme ele os vê afetados: sendo guiados em tudo pela Palavra do Senhor.

Além disso, se o ministro tiver qualquer coisa pela qual ele possa consolar e dar alívio físico aos pobres aflitos, ele não deve lhes privar, mas mostre a todos um verdadeiro exemplo de caridade.

John Calvin, Tracts and Treatises – On the Doctrine and Worship of the Church (Edinburgh: Calvin Translation Society, 1849), vol. 2, pp. 127-128.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

A Forma de Juramento Prescrito Para os Ministros da Igreja de Genebra

A forma e apresentação do juramento e da promessa que os ministros do evangelho, admitidos e recebidos na cidade de Genebra devem fazer diante do Nobre Sindico e do Conselho da referida cidade, será da seguinte forma:

Prometo e juro que no ministério, para o qual sou chamado, servirei fielmente diante de Deus, afirmando puramente a sua Palavra para a edificação desta igreja a que ele vinculou-me; que não abusarei de sua doutrina para servir minhas preferências carnais, nem agradarei a qualquer homem, mas que a empregarei com consciência pura no serviço da sua glória e para proveito do seu povo, ao qual sou devedor. Igualmente prometo e juro defender as Ordenanças Eclesiásticas[1] conforme aprovadas pelos Conselhos Menor e Maior desta cidade e, à medida em que eu for encarregado de administrá-las, inocentando-me lealmente, sem dar lugar ao ódio, sem favores de preferências, ou à vingança, nem a qualquer outro sentimento carnal, e, em geral, cumprir o que é próprio de um bom e fiel ministro. Em terceiro lugar, eu juro e prometo guardar e manter a honra e o bem-estar dos nobres e da cidade de Genebra, esforçando-me, na medida do possível, para que as pessoas continuem em paz e na benéfica unidade sob o governo do Conselho, e não consentindo, de modo algum, que alguém os viole. Finalmente, eu prometo e juro, por estar sujeito ao governo e constituição desta cidade, mostrar um bom exemplo de obediência a todos, sendo da minha parte, sujeito às leis e aos magistrados, tanto quanto o meu ofício permitir; isto é, sem prejuízo da liberdade que devemos ter ao ensinar de acordo com o que Deus nos ordena e fazer as coisas que pertencem ao nosso ofício. E, concluindo, prometo servir aos nobres e as pessoas de tal maneira, desde que não seja impedido de prestar a Deus o culto que lhe devo em minha vocação
[2]

NOTAS:
[1] As Ordenanças Eclesiásticas tornaram-se o programa de reforma da Igreja de Genebra. Estou preparando uma tradução de textos selecionados de João Calvino que foram as diretrizes para o trabalho da Companhia de Pastores da Igreja de Genebra.
[2] O Consistório Menor aprovou o uso do texto em 17 de Julho de 1542.

J.K.S. Reid, ed., Calvin: Theological Treatises, pp. 71-72.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

A forma de questionar e examinar aos pequenos antes de serem admitidos a receber a Ceia do Senhor

Escrito por João Calvino


Pergunta o mestre: Vocês são cristãos?
Responde o discípulo: Sim somos, pela misericórdia de Deus.

Mestre: Vocês nasceram cristãos, ou se tornaram após o nascimento?
Discípulo: Todos nascemos pecadores desde o ventre da mãe, condenados, inimigos de Deus e filhos da ira por natureza. Mas, depois recebemos o benefício de sermos cristãos por amor de Jesus Cristo.

Mestre: Por que motivo nascemos assim?
Discípulo: Porque todos pecamos em Adão, por ele ter se tornado pecador, nascemos pecadores corrompidos e sentenciados a morte como traidores.

Mestre: Que sinal vocês têm de que são cristãos?
Discípulo: Tenho a fé do evangelho e o batismo.

Mestre: Se têm a fé por sinal de são cristãos, digam-me agora em que creem?
Discípulo: Cremos em Deus Pai, e em Jesus Cristo seu Filho, e no Espírito Santo, em quem tenho toda confiança de minha salvação, e a quem sempre recorremos em todas as nossas necessidades.

Mestre: O Pai, o Filho e o Espírito Santo são mais de um Deus?
Discípulo: Não. Porque não há, nem pode existir além de um, que é o Criador e Preservador de tudo.

Mestre: Que confissão de fé vocês fazem?
Discípulo: A que é desde sempre comum à Igreja de Jesus Cristo, que se chama o Símbolo dos Apóstolos, que começa: Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, criador do céu e da terra ...

Mestre: Em quantas partes se divide?
Discípulo: Em quatro.

Mestre: Diga o resumo do que contém na primeira parte.
Discípulo: Que Deus, que é Pai de Jesus Cristo, nosso Senhor, é também pai de todos nós por amor dele; e é o princípio e causa de todas as coisas, as quais governa de tal maneira que nada ocorre sem a sua ordenação e vontade, e ele é o provedor de todas as coisas, o que mantém e sustenta com sua bondade, sabedoria e poder.

Mestre: Agora diga o que contém na segunda.
Discípulo: Que Jesus Cristo, sendo Deus igual ao Pai, condescendeu ao mundo, e se fez homem no ventre da santa e virgem Maria, por obra do Espírito Santo, e vindo cumprir tudo o que se requeria para nossa salvação; e que do céu, aonde subiu após ressuscitado, e onde está assentado à destra do Pai, no último dia virá com grande glória e majestade para julgar vivos e mortos.

Mestre: Passe para as duas últimas.
Discípulo: A suma da terceira é que confessamos crer no Espírito Santo, Deus verdadeiro, igual com o Pai e o Filho, por cuja virtude e potência as promessas feitas e cumpridas em Jesus Cristo são impressas e seladas em nossos corações; o qual nos santifica e conserva pela fé, e nos faz seu templo. A última é que há uma igreja santa e universal, congregada e iluminada pelo Espírito Santo, livre e purificada de seus pecados pelo sangue de Jesus Cristo, o qual é seu cabeça, de onde recebe espírito e vida, e que Deus lhe tem equipada a cumprida possessão da vida eterna. Este é o resumo e substância do que creio.

Mestre: Está bem declarado, passemos adiante. Devemos servir a Deus segundo os seus mandamentos, ou segundo as tradições dos homens?
Discípulo: Devemos servi-lo segundo os seus mandamentos, e não segundo as tradições dos homens.

Mestre: Por que não temos de servi-lo segundo as tradições dos homens?
Discípulo: Porque todos os serviços que por elas se fazem, os têm proibidos como sendo vãos e abomináveis. E castiga com cegueira de entendimento e outros muitos males aos homens por eles.

Mestre: Onde encontraremos os mandamentos de Deus pelos quais requer servi-lo?
Discípulo: Encontraremos em muitos lugares da santa Escritura, e singularmente no capítulo 20 de Êxodo. Deus os deu a seu povo, pela mão de Moisés, dizendo: “Ouve Israel, Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da escravidão: não terás outros deuses diante de mim”, etc. E os demais da primeira e segunda tábua.

Mestre: Vocês têm força para cumpri-los como Deus ordena?
Discípulo: Não, de modo algum; porque toda a nossa inclinação é fraqueza, ignorância e corrupção.

Mestre: Então, quem é que os cumpre em vocês?
Discípulo: O Espírito Santo.

Mestre: E depois de Deus ter concedido o seu Espírito, vocês são capazes de cumpri-los perfeitamente?
Discípulo: Muito menos.

Mestre: Deus na lei amaldiçoa e rejeita a todos os que não cumprem perfeitamente os seus mandamentos.
Discípulo: Assim é verdade.

Mestre: Então, por qual meio vocês serão salvos e livres da maldição de Deus?
Discípulo: Seremos salvos somente pela morte e sofrimento de nosso Senhor Jesus Cristo.

Mestre: Como assim?
Discípulo: Porque por sua morte nos restituiu a vida, e nos reconciliou com o eterno Pai. Segundo disse são Paulo, que foi morto pelos nossos pecados, e ressuscitou para nossa justificação.

Mestre: De que maneira vocês serão participantes do benefício de sua morte e ressurreição para alcançar a salvação?
Discípulo: Recebendo-o por verdadeira fé e confiança na misericórdia de Deus.

Mestre: Essa fé com que se recebe o benefício de Cristo, encontra-se sem a obediência de Deus, e sem caridade para com o próximo?
Discípulo: Não, de modo algum. Porque ela é a raiz de onde procedem. E assim, quem verdadeiramente crê, alegremente obedece a Deus e ama ao seu próximo, e pelas boas obras que lhe faz, declara tanto um como o outro.

Mestre: De que maneira a fé, a obediência e o amor estão juntas no cristão?
Discípulo: Na verdade elas sempre andam tão unidas que onde qualquer uma delas se acha, necessariamente se encontram todas as outras.

Mestre: Satisfeito, passemos à oração, e digam-me primeiro. Em nome de quem vocês invocam a Deus?
Discípulo: Em nome de Jesus Cristo, que é o nosso perpétuo intercessor e advogado diante de sua Majestade.

Mestre: Há outro advogado, ou temos necessidade de outro além deste diante do Pai?
Discípulo: Não há outro, nem temos necessidade de outro. Porque não há além de um Redentor, que é Jesus Cristo, assim não há, nem pode haver mais de um advogado e mediador entre Deus e os homens, que é ele mesmo.

Mestre: Será ouvido se fizer uma oração a Deus por meio de outro que não seja Jesus Cristo?
Discípulo: Não. Pelo contrário, peca em orar assim. Porque não tem mandamento, nem promessa de Deus para isto; e tudo o que não procede da fé, é pecado.

Mestre: Logo os que invocam a Deus por meio dos santos que passaram por este mundo, são deste modo ofensores de sua Majestade?
Discípulo: É verdade. Porque não tem Deus expressamente proibido e mostram os que assim o fazem, que não têm Deus por Pai, nem conhecem a Jesus Cristo.

Mestre: Vejamos qual é a forma que se tem que invocá-lo?
Discípulo: A que ensinou Jesus Cristo aos seus apóstolos, para a sua Igreja, de onde se contém tudo o que temos que pedir a Deus para passar desta vida, e vir depois a gozar da que é eterna. E começa desta maneira: Pai nosso, que está no céu, etc.

Mestre: É permitido usar de outra forma de oração que não seja esta?
Discípulo: É lícito, desde que se refira a esta todas as orações que fizermos.

Mestre: Por que?
Discípulo: Porque nesta oração se abrange tudo o que Deus requer que lhe peçamos, e nos é dada por regra de bem orar.

Mestre: Quantos sacramentos há na Igreja cristã?
Discípulo: Somente dois.

Mestre: Quais são?
Discípulo: O batismo e a Santa Ceia do Senhor.

Mestre: Qual é a significação do batismo?
Discípulo: Tem duas partes. Porque nele nos representa o Senhor, de um lado, e a remissão dos nossos pecados, e por outro, a nossa regeneração ou renovação espiritual.

Mestre: E o que nos significa a Santa Ceia?
Discípulo: Significamos que pela comunhão do corpo e do sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, são mantidas nossas almas na esperança da vida eterna.

Mestre: O que nos representa o pão e o vinho que nos são dados na Santa Ceia?
Discípulo: Representam-nos que o corpo e sangue de Jesus Cristo têm tal virtude para manter nossas almas, do mesmo modo que o pão e o vinho para sustentar os nossos corpos.

Mestre: A Ceia foi instituída para que novamente se faça nela o sacrifício a Deus do corpo de seu Filho?
Discípulo: Não, de maneira alguma. Porque somente a Jesus Cristo, por ser o eterno sacerdote, pertence o ofício de sacrificar, o qual na cruz ofereceu seu corpo em perpétuo sacrifício, que bastou para a nossa salvação. Portanto, não resta senão que gozemos dele.

Mestre: Então, para que foi estabelecida a Ceia, se não temos que sacrificar?
Discípulo: Foi-nos deixada por um perpétuo memorial da morte do Senhor. E assim, pelo uso legítimo dela somos induzidos a considerar tudo o que ele fez para a nossa salvação, e somos mantidos espiritualmente, e confirmados na fé de tudo isto.

Mestre: Todo cristão deve receber o sinal do pão e do vinho, ou basta usar apenas de um deles.
Discípulo: É necessário a todo cristão receber ambas os elementos. Porque assim o Senhor Jesus Cristo deixou ordenado e estabelecido. E quem o fizer contra isto, incorre em gravíssimo pecado.

Mestre: Vocês entendem que o corpo de Jesus Cristo esteja encerrado no pão, e o seu sangue no vinho?
Discípulo: Não.

Mestre: Então, onde devemos buscar a Jesus Cristo a fim de satisfazermos nele?
Discípulo: No céu, na glória do Pai.

Mestre: Qual é o meio para ao céu onde Jesus Cristo está?
Discípulo: É a verdadeira fé do evangelho. Porque por ela Deus nos atraí para si, e vamos a ele.

Mestre: Então, é necessário exercer a verdadeira fé, antes que possamos bem usar deste santo sacramento?
Discípulo: É verdade. Porque foi instituída para confortar e esforçar os que estão vivos em Deus, e nenhum está se não a tiver.

Mestre: O que recebem os que carecendo desta fé se achegam da mesa do Senhor para comungar?
Discípulo: Recebendo o sacramento do corpo e do sangue do Senhor, recebem juízo e condenação contra si, como disse são Paulo.

Mestre: Então o que faremos para que recebendo o sacramento nos seja saudável?
Discípulo: Devemos nos examinar como ordena o apóstolo.

Mestre: Como se fará esta prova e exame?
Discípulo: Que observe cada um antes da comunhão, se tem verdadeiro arrependimento de seus pecados, e firme propósito de viver conforme a lei de Deus; se está unido com Jesus Cristo pela fé, e com seus próximos pelo amor.

Mestre: E como podemos ter esta fé para que estejamos dispostos para este celestial convite?
Discípulo: Obtemos pelo Espírito Santo que mora em nossos corações e nos faz certos das promessas de Deus, que nos são feitas no evangelho.

Mestre: Que sinais teremos para conhecer que as recebemos?
Discípulo: Temos quatro. A primeira, amar a Deus e estar afeiçoados pela sua lei. A segunda, ter a consciência pacífica e certa de que são perdoados os nossos pecados pelo sangue de Jesus Cristo. A terceira, usar da caridade com os próximos em geral, e especialmente com os fiéis e membros de Cristo. A última, mortificar continuamente todas as concupiscências e desejos da carne, e ter grande ódio ao pecado.

Mestre: Onde houver estes frutos, existirá a fé verdadeira e eficaz?
Discípulo: Sim, porque eles são conhecidos.

Mestre: Agora sigam com a graça de Deus, e esforcem-se sempre com diligência de frutificar desta maneira, e roguem ao Senhor que faça a todos, que seja glorificado por meio de todos, e que sejamos verdadeiros imitadores de Jesus Cristo, o nosso único Redentor e Senhor.


Fim do catecismo


Traduzido de B. Foster Stockwell, "Catecismo de la Iglesia de Ginebra [1542]" in: Catecismos de la Iglesia Reformada (Buenos Aires, Editorial "La Aurora", 1962), pp. 116-124.

Prefácio de João Calvino à Loci Communes de Filipe Melanchthon

  Introdução Em 1546, uma tradução francesa da obra de Filipe Melanchthon de 1545, Loci communes , foi publicada em Genebra sob o título de ...