19 de Outubro de 1516.
A George Spalatino, servo de Cristo e sacerdote do Senhor, mestre eruditíssimo, seu amigo sincero e íntegro irmão.
Jesus. Saudações. O que me estranha no eruditíssimo Erasmo, querido Spalatino, é o seguinte: que ao interpretar o apóstolo, entenda a justiça das obras, da lei ou própria (que assim a chama o apóstolo) como a observância das práticas cerimoniais, e defenda, além disso, que no capítulo quinto dos Romanos, o apóstolo não quis fazer referência ao pecado original (que ele, por outra parte, admite). Se lesse os livros que Agostinho escreveu Contra os pelagianos e, em especial, Do espírito e da letra, Do mérito e remissão dos pecados, Contra duas cartas dos pelagianos e Contra Juliano, inclusos quase em totalidade no volume oitavo de suas Obras, perceberia que não fala pessoalmente, senão apoiado nos pais de tanta importância como Cipriano, Nazianzeno, Rético, Irineu, Hilário, Olímpio, Inocêncio e Ambrósio. Se o fizesse, entenderia corretamente ao apóstolo e teria a Agostinho em maior apreço do que até agora tem professado.
Tenho certeza de que meu dissentimento com Erasmo procede do momento de interpretar as Escrituras Sagradas. Pois prefiro seguir a Agostinho do que a Jerônimo, na mesma medida em que ele prefere a Jerônimo do que a Agostinho. Não é que me deixe levar por predileções de minha confissão religiosa, quando intento revalidar a Agostinho; é que me dou conta de que são Jerônimo busca deliberadamente o sentido histórico e, o mais admirável, que interprete muito melhor as Escrituras quando o faz de modo acidental (por exemplo nas Cartas) do que quando o intenciona fazer exaustivamente como nos Opúsculos.
A justiça da lei ou das obras não se encontra somente nas práticas, mas também, e mais exatamente, nas obras de todo o decálogo; porque se observam fora da fé em Cristo, ainda que sejam capazes de fabricar Fabrícios, Régulos e homens integérrimos, saberão tanto de justiça como um arbusto sabe de figos. Como opina Aristóteles, não é realizando coisas justas como que nos justificamos, a não ser que se trate de uma simulação, mas que nos justificamos (por assim dizer), sendo justos é como realizaremos na justiça. É necessário que transforme primeiro a pessoa e depois se transformarão as obras. Agrada-se de Abel, antes que a sua oferta. Mas deixemos isto para outra ocasião.
Rogo-te que te portes como amigo e cristão, e faças saber isto a Erasmo. Porque o mesmo que espero e desejo que sua autoridade chegue a ser celebérrima, temo que muitos se escudem em seu patrocínio para defender a interpretação literal, ou seja, morta, da que estão repletos os Comentários de Lira e quase todos os que foram escritos posteriores a Agostinho. Até o próprio Estapulense, meu Deus, tão espiritual e tão sincero por outra parte, lhe falta na interpretação da Escritura Sagrada esta inteligência que está tão presente em sua vida e em seus conselhos.
Acreditarás que estou temeroso ao ver que passou sob a vara de Aristarco a homens tão eminentes, mas hás de saber que o faço por causa teológica, e pela salvação dos irmãos.
Adeus meu querido Spalatino, e rogue por mim. Escrevo-te a apressadamente, do recôndito de nosso monastério.
O dia seguinte à festa de são Lucas. 1516. Fr. Martinus Luther, agostiniano.
NOTAS:
[1] WA Br1, pp. 70-71. Spalatino (Georg Burckardt, de Spalt), da mesma geração que Lutero, ele viveu entre 1484-1545, exerceu um papel decisivo nos começos da Reforma, dada a sua posição na corte de Frederico, o Sábio, da Saxônia, de quem era chanceler e pregador. Foi o mediador entre o príncipe e Lutero, humanista, e quem soube frear certas destemperanças do reformador que lhe escreveu um numeroso corpo de cartas. Cf. 1. Hüss, Georg Spalatin, Weimar 1956; Id., Georg Spalatins Verháltnis zu Luther und der Reformation: Luther 31 (1960), pp. 67-80.
[2] Refere-se à edição das obras de Agostinho publicadas em Basiléia no ano de 1506.
[3] Sobre o apreço de Erasmo por Jerônimo, em coincidência com as predileções de todos os humanistas, cf. sua própria confissão a Leão X, em 1515 (Opus epistolarum D. Erasmi 11, ed. P.S. Allen, Oxford 1906, p. 80 e 220).
[4] Spalatino também era um mediador entre os humanistas e Lutero, cumpriu fielmente o encargo e na carta que escreveu a Erasmo lhe repete estes conceitos (cf. Opus epistolarum, 417).
[5] Refere-se a Nicolás de Lira (1270-1340) que no início do século XIV escreveu Postillae perpetue in vetus et novum testamentum com grande aceitação e impresso em 1471-1472.
[6] Lefévre d’Etaples (m. em 1536), patriarca do círculo humanista e reformista de Meaux, com algumas ideias próximas de Lutero. Continuou fiel à Igreja de Roma, mas alguns de seu intimidade (Farel, por exemplo) se tornaram em líderes fervorosos da Reforma protestante. Cf. F. Hahn. Faher Stapulensis und Luther: Zeitschrift für Kirchengeschitchte 57 (1938), pp. 356-432.
[7] Aristarco de Samotracia, gramático do século III a.C., que para Lutero, Erasmo e os humanistas era o símbolo das atitudes críticas.
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terça-feira, 28 de agosto de 2018
Carta de Martinho Lutero para Johannes Lange [1 Março de 1517]
Para Johannes Lange
1º de março de 1517
No presente momento, eu estou lendo o nosso Erasmo, mas meu coração recua dele mais e mais. No entanto, uma coisa que eu admiro é que ele constantemente e sabiamente acusa não somente os monges, mas também os padres, de uma ignorância preguiçosa e profundamente arraigada.
Todavia, sou temeroso, pois ele não propaga com amplitude suficiente a graça de Cristo e de Deus, da qual ele conhece muito pouco. O humano é para ele de maior importância do que o divino.
Embora eu não queira julgar Erasmo, eu lhe advirto para que você não leia cegamente o que ele escreve. Pois nós vivemos em tempos perigosos e todos os que são bons estudiosos do hebraico e do grego não são verdadeiros cristãos; mesmo Dr. Jerônimo, com as suas cinco línguas, não conseguiu se aproximar de Agostinho, com sua única língua -- embora Erasmo veja tudo isso de um ponto de vista diferente. Aqueles que atribuem algo ao livre-arbítrio do homem consideram estas coisas diferentemente daqueles que conhecem a livre graça de Deus.
De nossa deserta Wittenberg.
Martinho Lutero, Agostiniano.
1º de março de 1517
No presente momento, eu estou lendo o nosso Erasmo, mas meu coração recua dele mais e mais. No entanto, uma coisa que eu admiro é que ele constantemente e sabiamente acusa não somente os monges, mas também os padres, de uma ignorância preguiçosa e profundamente arraigada.
Todavia, sou temeroso, pois ele não propaga com amplitude suficiente a graça de Cristo e de Deus, da qual ele conhece muito pouco. O humano é para ele de maior importância do que o divino.
Embora eu não queira julgar Erasmo, eu lhe advirto para que você não leia cegamente o que ele escreve. Pois nós vivemos em tempos perigosos e todos os que são bons estudiosos do hebraico e do grego não são verdadeiros cristãos; mesmo Dr. Jerônimo, com as suas cinco línguas, não conseguiu se aproximar de Agostinho, com sua única língua -- embora Erasmo veja tudo isso de um ponto de vista diferente. Aqueles que atribuem algo ao livre-arbítrio do homem consideram estas coisas diferentemente daqueles que conhecem a livre graça de Deus.
De nossa deserta Wittenberg.
Martinho Lutero, Agostiniano.
sábado, 30 de dezembro de 2017
Carta de Lutero a Spalatino [1516]
A George Spalatino[1], servo de Cristo e sacerdote do Senhor, mestre eruditíssimo, seu amigo sincero e íntegro irmão.
Jesus. Saúde.
O que me causa estranheza no eruditíssimo Erasmo, querido Spalatino, é o seguinte: que ao interpretar o apóstolo entenda a justiça das obras, da lei ou própria (como a chama o apóstolo) como sendo a observância das práticas cerimoniais, e defenda, além disso, que no quinto capítulo de Romanos, o apóstolo não quis fazer referência ao pecado original (que ele, por outra parte, admite). Se ler os livros que Agostinho escreveu contra os pelagianos, e em especial Do espírito e da letra, Do mérito e remissão dos pecados, Contra duas cartas dos pelagianos e Contra Juliano, inclusos quase em sua totalidade no tomo oitavo de suas Obras[2], perceberia que não fala pessoalmente, senão apoiado nos pais de importância como Cipriano, Naziazeno, Rético, Ireneu, Hilário, Olímpio, Inocêncio e Ambrósio. Se o Fizesse entenderia corretamente o apóstolo e teria a Agostinho com maior apreço do que até agora professa ter.
Estou certo de que minha discordância de Erasmo procede de que ao interpretar as sagradas Escrituras prefiro seguir a Agostinho antes que a Jerônimo na mesma medida em que ele prefere a Jerônimo do que a Agostinho[3]. Não que me deixe levar pelas predileções de minha confissão religiosa quando intento revalidar a santo Agostinho; é que me dou conta de que são Jerônimo busca deliberadamente o sentido histórico e - o mais admirável - que interpreta muito melhor as Escrituras quando o faz de forma incidental (por exemplo nas Cartas) que quando o quer fazer exaustivamente como nos Opúsculos.
A justiça da lei ou das obras não se acha somente nas práticas, mas também, e mais exatamente, nas obras de todo o decálogo; porque se observam fora da fé em Cristo, ainda que sejam capazes de fabricar Fabrícios, Régulos e homens integérrimos, saberão tanto da justiça como a árvore sabe de figos. Como opina Aristóteles, não é realizando coisas justas como nos justificamos - a não ser que se trate de uma dissimulação -, senão que nos justificando (por assim dizer) e sendo justos é como realizaremos na justiça. É necessário que se transforme primeiro a pessoa e depois se transformarão as obras. Abel agrada antes que a sua oferta. Mas deixemos isto para outra ocasião.
Rogo que te portes como amigo e cristão e faças saber isto a Erasmo[4]. Porque o mesmo que espero e desejo que sua autoridade chegue a ser celebérrima, temo que muitos se escudem em seu patrocínio para defender a interpretação literal, ou seja morta, da que estão repletos os Comentarios de Lira e quase todos os posteriores a Agostinho[5]. Até ao próprio Estapulense, meu Deus, tão espiritual e tão sincero, por outra parte, lhe falta na interpretação da sagrada Escritura esta inteligência que tem tão presente em sua vida e em seus conselhos[6].
Crerás que sou temerário ao ver que me passo sob a vara de Aristarco[7] a homens tão eminentes, mas há de saber que o faço pela causa teológica e pela salvação dos irmãos.
Adeus, meu querido Spalatino, e interceda por mim. Te escrevo às pressas, no rincão de nosso monastério, o dia seguinte à festa de são Lucas. 1516. Frei Martinus Luther, agostiniano.
NOTAS:
[1] WA Br 1, 70-71. Spalatino (Georg Burckhardt, de Spalt), da mesma geração que Lutero - viveu entre 1484-1545 - exerceu um papel decisivo no início da Reforma dada sua posição na corte de Frederick, o Sábio de Saxônia, de quem era chanceler e pregador. Foi o mediador entre o príncipe e Lutero, humanista, e soube frear certas destemperanças do reformador que lhe escreveu um numeroso corpo de cartas. Cf. 1. Hüss, Georg Spalatin, Weimar 1956; Id., Georg Spalatins Verháltnis zu Luther und der Reformation: Luther 31 (1960), pp. 67-80.
[2] Refere-se às obras de santo Agostinho da edição de Basiléia de 1506.
[3] Sobre o apreço de Erasmo por são Jerônimo - em coincidência com as predileções de todos os humanistas - cf. sua própria confissão para Leão X, em 1515 (Opus espistolarum D. Erasmi 11, edição P. S. Allen, Oxford 1906, 86 e 220).
[4] Spalatino também mediador entre os humanistas e Lutero, cumpriu fielmente o cargo e na carta que escreveu a Erasmo lhe repete estes conceitos (cf. Opus epistolarum, 417).
[5] Refere-se a Nicolás de Lira (1270-1340), que no princípio do século XLV escreveu Postillae perpetuae in vetus et novum testamentum, com grande aceitação e impressas em 1471-1472.
[6] Lefévre d'Etaples (falecido em 1536), patriarca do círculo humanista e reformista de Meaux, com algumas ideias semelhantes as de Lutero. Seguiu fiel à igreja de Roma, mas alguns de seu cenáculo (Farel, por exemplo) se tornariam em partidários fervorosos da Reforma protestante. Cf. F. Hahn, Faher Stapulensis und Luther: Zeitschrift für Kirchengeschichte 57 (1938) 356-432.
[7] Aristarco de Samotracia, gramático, que para Lutero, Erasmo e os humanistas era o símbolo das atitudes críticas.
Jesus. Saúde.
O que me causa estranheza no eruditíssimo Erasmo, querido Spalatino, é o seguinte: que ao interpretar o apóstolo entenda a justiça das obras, da lei ou própria (como a chama o apóstolo) como sendo a observância das práticas cerimoniais, e defenda, além disso, que no quinto capítulo de Romanos, o apóstolo não quis fazer referência ao pecado original (que ele, por outra parte, admite). Se ler os livros que Agostinho escreveu contra os pelagianos, e em especial Do espírito e da letra, Do mérito e remissão dos pecados, Contra duas cartas dos pelagianos e Contra Juliano, inclusos quase em sua totalidade no tomo oitavo de suas Obras[2], perceberia que não fala pessoalmente, senão apoiado nos pais de importância como Cipriano, Naziazeno, Rético, Ireneu, Hilário, Olímpio, Inocêncio e Ambrósio. Se o Fizesse entenderia corretamente o apóstolo e teria a Agostinho com maior apreço do que até agora professa ter.
Estou certo de que minha discordância de Erasmo procede de que ao interpretar as sagradas Escrituras prefiro seguir a Agostinho antes que a Jerônimo na mesma medida em que ele prefere a Jerônimo do que a Agostinho[3]. Não que me deixe levar pelas predileções de minha confissão religiosa quando intento revalidar a santo Agostinho; é que me dou conta de que são Jerônimo busca deliberadamente o sentido histórico e - o mais admirável - que interpreta muito melhor as Escrituras quando o faz de forma incidental (por exemplo nas Cartas) que quando o quer fazer exaustivamente como nos Opúsculos.
A justiça da lei ou das obras não se acha somente nas práticas, mas também, e mais exatamente, nas obras de todo o decálogo; porque se observam fora da fé em Cristo, ainda que sejam capazes de fabricar Fabrícios, Régulos e homens integérrimos, saberão tanto da justiça como a árvore sabe de figos. Como opina Aristóteles, não é realizando coisas justas como nos justificamos - a não ser que se trate de uma dissimulação -, senão que nos justificando (por assim dizer) e sendo justos é como realizaremos na justiça. É necessário que se transforme primeiro a pessoa e depois se transformarão as obras. Abel agrada antes que a sua oferta. Mas deixemos isto para outra ocasião.
Rogo que te portes como amigo e cristão e faças saber isto a Erasmo[4]. Porque o mesmo que espero e desejo que sua autoridade chegue a ser celebérrima, temo que muitos se escudem em seu patrocínio para defender a interpretação literal, ou seja morta, da que estão repletos os Comentarios de Lira e quase todos os posteriores a Agostinho[5]. Até ao próprio Estapulense, meu Deus, tão espiritual e tão sincero, por outra parte, lhe falta na interpretação da sagrada Escritura esta inteligência que tem tão presente em sua vida e em seus conselhos[6].
Crerás que sou temerário ao ver que me passo sob a vara de Aristarco[7] a homens tão eminentes, mas há de saber que o faço pela causa teológica e pela salvação dos irmãos.
Adeus, meu querido Spalatino, e interceda por mim. Te escrevo às pressas, no rincão de nosso monastério, o dia seguinte à festa de são Lucas. 1516. Frei Martinus Luther, agostiniano.
NOTAS:
[1] WA Br 1, 70-71. Spalatino (Georg Burckhardt, de Spalt), da mesma geração que Lutero - viveu entre 1484-1545 - exerceu um papel decisivo no início da Reforma dada sua posição na corte de Frederick, o Sábio de Saxônia, de quem era chanceler e pregador. Foi o mediador entre o príncipe e Lutero, humanista, e soube frear certas destemperanças do reformador que lhe escreveu um numeroso corpo de cartas. Cf. 1. Hüss, Georg Spalatin, Weimar 1956; Id., Georg Spalatins Verháltnis zu Luther und der Reformation: Luther 31 (1960), pp. 67-80.
[2] Refere-se às obras de santo Agostinho da edição de Basiléia de 1506.
[3] Sobre o apreço de Erasmo por são Jerônimo - em coincidência com as predileções de todos os humanistas - cf. sua própria confissão para Leão X, em 1515 (Opus espistolarum D. Erasmi 11, edição P. S. Allen, Oxford 1906, 86 e 220).
[4] Spalatino também mediador entre os humanistas e Lutero, cumpriu fielmente o cargo e na carta que escreveu a Erasmo lhe repete estes conceitos (cf. Opus epistolarum, 417).
[5] Refere-se a Nicolás de Lira (1270-1340), que no princípio do século XLV escreveu Postillae perpetuae in vetus et novum testamentum, com grande aceitação e impressas em 1471-1472.
[6] Lefévre d'Etaples (falecido em 1536), patriarca do círculo humanista e reformista de Meaux, com algumas ideias semelhantes as de Lutero. Seguiu fiel à igreja de Roma, mas alguns de seu cenáculo (Farel, por exemplo) se tornariam em partidários fervorosos da Reforma protestante. Cf. F. Hahn, Faher Stapulensis und Luther: Zeitschrift für Kirchengeschichte 57 (1938) 356-432.
[7] Aristarco de Samotracia, gramático, que para Lutero, Erasmo e os humanistas era o símbolo das atitudes críticas.
sábado, 25 de março de 2017
Carta de Martinho Lutero a Erasmo de Rotterdam [1525]
A Erasmo. 18 de Abril de 1524.[1]
Graça e paz de nosso Senhor Jesus Cristo.
Excelentíssimo Erasmo, estive calado o tempo suficiente, e ainda que esperasse que se adiantasse em romper o silêncio, esta espera tão longa apenas resultou falida. Por isso, creio que a própria caridade tem me motivado a começar. Não tenho nada que objetar contra você, pelo fato de que no princípio tenha se afastado de nós, pois podendo entregar-se por completo e sem obstáculos a sua causa contra os meus inimigos papistas; mas, muito menos cheguei a mal em absoluto, que em algumas passagens de seus livros editados nos mordeu e ofendeu com sua pitada de aspereza, para conseguir a sua graça ou mitigar o seu furor. Porque como vemos que Deus ainda não lhe concedeu a força e a coragem para lutar conosco, livre e confiadamente contra os nossos monstros, não somos quem nos atrevemos a exigir algo que supere as suas forças e que não vá com o seu modo de ser. Isto não foi obstáculo para tolerar a tua pusilanimidade e venerar a medida do dom de Deus;[2] porque o que não posso negar a orbe inteira é que o florescimento e reinado das letras, meio para chegar à leitura limpa da Bíblia, é um dom egrégio e magnífico que Deus lhe deu e que temos que agradecer.
Por este motivo nunca desejei que abandonasse ou menosprezasses os seus dotes e se arrolasse em nossos exércitos. Muito nos valeria a sua genialidade e eloquência, mas, ao faltar coragem, era mais seguro que servisse segundo seu dom. Somente temia uma coisa: que em alguma circunstância os inimigos o induzissem a atacar os nossos dogmas em seus escritos publicados e nos víssemos na urgência de nos enfrentar contigo face a face.[3] Contivemos a alguns que com livros preparados estávamos decididos a desafiá-lo. Esse foi o motivo pelo que desejei que não se editasse a Expostulatio de Hutten e muito menos a Esponja,[4] em que, ao meu entender, você percebe que facilmente resulta escrever sobre a modéstia e arguir da falta de modéstia de Lutero, mas que é muito difícil, para não dizer impossível, manter-se invulnerável, sem uma graça singular do Espírito.
Creia ou não, Cristo é testemunha de que lamento com todo o meu coração por tanto ódio e antipatia, como tantas pessoas desencadeia contra você. O seu valor humano está muito acima de todos estes ataques, mas não posso crer que ante eles, você permaneça imóvel. Possivelmente os impulses um zelo justo e lhes pareça que tenha provocado de forma indigna. Direi com toda liberdade: se fossem mais sinceros, não teriam motivos de indignação; mas, estão justificados, porque são de condição tal, que a sua debilidade não lhes permite suportar o teu mau humor e sua simulação (coisas que você preferiria que fossem vistas como prudência e modéstia). Eu mesmo, ainda que irritado e com frequência esteja ansioso, e tenha escrito mais exageradamente do que devo, somente o fiz contra os teimosos e indômitos. Além do mais, me parece que minha própria consciência e a experiência de muitos excedem em testemunho a minha misericórdia e mansidão com os pecadores e os ímpios, ainda que sejam insensatos e iníquos. Que por esse motivo contive a minha pluma quando você me acusava e, em minhas cartas - que chegaram a ti - disse a meus amigos, que contenderia comigo até que saltasse publicamente ao debate; porque, ainda que não simpatizasse conosco, ainda ímpia ou dissimuladamente condena, ou não aprova muitos capítulos da piedade, todavia, não posso, nem quero rotulá-lo de pertinaz.
Mas, e agora, o que posso fazer? As coisas chegaram a seu ponto de máxima frieza por ambas as partes. Se me fosse possível, optaria por fazer-me de mediador para que cessassem de ataca-lo com tanta animosidade e, permitissem que em sua velhice dormisse pacificamente no Senhor. Tenho convicção de que se acalmariam se, em primeiro lugar, tivessem em conta a sua pusilanimidade e medissem a magnitude de nossa causa, que transbordam as suas possibilidades, fundamentalmente porque chegou a um extremo em que não há que temer nenhum perigo, inclusive ainda que Erasmo a combatesse com toda as suas energias, muito menos se faria do que aumentar os seus sarcasmos e dentadas de vez em quando: e se, por outro lado, você meu Erasmo, pensasse em sua debilidade, e não continuasse com esses recursos picantes e agudos de sua retórica, de maneira que, se não pode, nem quer nos defender, que não se comprometa com eles, mas que se dedique as suas coisas. As reações tão iniquamente ante as suas mordidas se deve apenas (e você testemunha disso) a fraqueza humana, que se teme à fama e autoridade de Erasmo, e é muito pior uma mordida de Erasmo que ser triturado por todos os papistas.
Desejo o que disse, ótimo Erasmo, constitua um testemunho de minha boa vontade com você, e a expressão do desejo que abrigo de que Deus lhe conceda um espírito digno de sua fama; se a Deus comprazer demorar nesta concessão, lhe suplico que, entretanto, se não pode colaborar de outra maneira, que limite a ser um mero expectador de nossa tragédia; que não se alie com os nossos adversários engrossando as suas fileiras, e sobretudo, que não edite argumentos que me ataquem, do mesmo modo que não publicarei contra você. Por fim, lembre que os que se amparam sob o meu nome para arremeter, são homens semelhantes a nos dois, aos que é preciso perdoar e ignorar, e que, como disse são Paulo, que têm que nos ajudar a carregar as cargas.[5] Já se mordeu o bastante, cuidemos agora de não nos destruirmos mutuamente;[6] seria um espetáculo ainda mais vergonhoso, sendo indubitável que de ambas as partes têm o desejo de prejudicar a piedade, senão que anela se entregar a sua respectiva tarefa sem pertinência.
Não interprete mal a minha rudeza e atribua-a ao Senhor. Recomendo-lhe esse jovem Joaquim que se parece com o nosso Felipe;[7] verá que, uma vez admitido, se recomendará melhor por si mesmo.
Wittenberg, ano de 1524. Martinus Luther.
NOTAS:
[1] WA Br 3, 270-271. É de interesse esta carta para contrastar a mudança de atitude de Lutero com Erasmo. Próxima da ruptura pública, Lutero luta para conseguir a neutralidade de um adversário sempre temido.
[2] Ef 4:7.
[3] Gl 2:11.
[4] Ulrich von Hutten após a derrota dos “cavaleiros”, fugiu para Basiléia, onde somente recebeu o menosprezo de seu adorado príncipe Erasmo. Este foi o motivo de sua dolorosa Ulrici ab Hutten cum Erasmo Roterdamo presbytero expostulatio, que foi impressa em Estrasburgo, em 1523, após a difusão do manuscrito de Erasmo correspondeu com sua Spongia Erasmi adversus aspergines Hutteni, Basiléia 1523.
[5] Gl 6:2.
[6] Gl 5:15.
[7] Joaquim Camerário do círculo de Wittenberg, amigo de Melanchthon e helenista, achou graça ante Erasm, a julgar pela resposta deste à carta de Lutero: WA Br 3, p. 285.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 397-398.
Tradução em 25 de Março de 2017.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Graça e paz de nosso Senhor Jesus Cristo.
Excelentíssimo Erasmo, estive calado o tempo suficiente, e ainda que esperasse que se adiantasse em romper o silêncio, esta espera tão longa apenas resultou falida. Por isso, creio que a própria caridade tem me motivado a começar. Não tenho nada que objetar contra você, pelo fato de que no princípio tenha se afastado de nós, pois podendo entregar-se por completo e sem obstáculos a sua causa contra os meus inimigos papistas; mas, muito menos cheguei a mal em absoluto, que em algumas passagens de seus livros editados nos mordeu e ofendeu com sua pitada de aspereza, para conseguir a sua graça ou mitigar o seu furor. Porque como vemos que Deus ainda não lhe concedeu a força e a coragem para lutar conosco, livre e confiadamente contra os nossos monstros, não somos quem nos atrevemos a exigir algo que supere as suas forças e que não vá com o seu modo de ser. Isto não foi obstáculo para tolerar a tua pusilanimidade e venerar a medida do dom de Deus;[2] porque o que não posso negar a orbe inteira é que o florescimento e reinado das letras, meio para chegar à leitura limpa da Bíblia, é um dom egrégio e magnífico que Deus lhe deu e que temos que agradecer.
Por este motivo nunca desejei que abandonasse ou menosprezasses os seus dotes e se arrolasse em nossos exércitos. Muito nos valeria a sua genialidade e eloquência, mas, ao faltar coragem, era mais seguro que servisse segundo seu dom. Somente temia uma coisa: que em alguma circunstância os inimigos o induzissem a atacar os nossos dogmas em seus escritos publicados e nos víssemos na urgência de nos enfrentar contigo face a face.[3] Contivemos a alguns que com livros preparados estávamos decididos a desafiá-lo. Esse foi o motivo pelo que desejei que não se editasse a Expostulatio de Hutten e muito menos a Esponja,[4] em que, ao meu entender, você percebe que facilmente resulta escrever sobre a modéstia e arguir da falta de modéstia de Lutero, mas que é muito difícil, para não dizer impossível, manter-se invulnerável, sem uma graça singular do Espírito.
Creia ou não, Cristo é testemunha de que lamento com todo o meu coração por tanto ódio e antipatia, como tantas pessoas desencadeia contra você. O seu valor humano está muito acima de todos estes ataques, mas não posso crer que ante eles, você permaneça imóvel. Possivelmente os impulses um zelo justo e lhes pareça que tenha provocado de forma indigna. Direi com toda liberdade: se fossem mais sinceros, não teriam motivos de indignação; mas, estão justificados, porque são de condição tal, que a sua debilidade não lhes permite suportar o teu mau humor e sua simulação (coisas que você preferiria que fossem vistas como prudência e modéstia). Eu mesmo, ainda que irritado e com frequência esteja ansioso, e tenha escrito mais exageradamente do que devo, somente o fiz contra os teimosos e indômitos. Além do mais, me parece que minha própria consciência e a experiência de muitos excedem em testemunho a minha misericórdia e mansidão com os pecadores e os ímpios, ainda que sejam insensatos e iníquos. Que por esse motivo contive a minha pluma quando você me acusava e, em minhas cartas - que chegaram a ti - disse a meus amigos, que contenderia comigo até que saltasse publicamente ao debate; porque, ainda que não simpatizasse conosco, ainda ímpia ou dissimuladamente condena, ou não aprova muitos capítulos da piedade, todavia, não posso, nem quero rotulá-lo de pertinaz.
Mas, e agora, o que posso fazer? As coisas chegaram a seu ponto de máxima frieza por ambas as partes. Se me fosse possível, optaria por fazer-me de mediador para que cessassem de ataca-lo com tanta animosidade e, permitissem que em sua velhice dormisse pacificamente no Senhor. Tenho convicção de que se acalmariam se, em primeiro lugar, tivessem em conta a sua pusilanimidade e medissem a magnitude de nossa causa, que transbordam as suas possibilidades, fundamentalmente porque chegou a um extremo em que não há que temer nenhum perigo, inclusive ainda que Erasmo a combatesse com toda as suas energias, muito menos se faria do que aumentar os seus sarcasmos e dentadas de vez em quando: e se, por outro lado, você meu Erasmo, pensasse em sua debilidade, e não continuasse com esses recursos picantes e agudos de sua retórica, de maneira que, se não pode, nem quer nos defender, que não se comprometa com eles, mas que se dedique as suas coisas. As reações tão iniquamente ante as suas mordidas se deve apenas (e você testemunha disso) a fraqueza humana, que se teme à fama e autoridade de Erasmo, e é muito pior uma mordida de Erasmo que ser triturado por todos os papistas.
Desejo o que disse, ótimo Erasmo, constitua um testemunho de minha boa vontade com você, e a expressão do desejo que abrigo de que Deus lhe conceda um espírito digno de sua fama; se a Deus comprazer demorar nesta concessão, lhe suplico que, entretanto, se não pode colaborar de outra maneira, que limite a ser um mero expectador de nossa tragédia; que não se alie com os nossos adversários engrossando as suas fileiras, e sobretudo, que não edite argumentos que me ataquem, do mesmo modo que não publicarei contra você. Por fim, lembre que os que se amparam sob o meu nome para arremeter, são homens semelhantes a nos dois, aos que é preciso perdoar e ignorar, e que, como disse são Paulo, que têm que nos ajudar a carregar as cargas.[5] Já se mordeu o bastante, cuidemos agora de não nos destruirmos mutuamente;[6] seria um espetáculo ainda mais vergonhoso, sendo indubitável que de ambas as partes têm o desejo de prejudicar a piedade, senão que anela se entregar a sua respectiva tarefa sem pertinência.
Não interprete mal a minha rudeza e atribua-a ao Senhor. Recomendo-lhe esse jovem Joaquim que se parece com o nosso Felipe;[7] verá que, uma vez admitido, se recomendará melhor por si mesmo.
Wittenberg, ano de 1524. Martinus Luther.
NOTAS:
[1] WA Br 3, 270-271. É de interesse esta carta para contrastar a mudança de atitude de Lutero com Erasmo. Próxima da ruptura pública, Lutero luta para conseguir a neutralidade de um adversário sempre temido.
[2] Ef 4:7.
[3] Gl 2:11.
[4] Ulrich von Hutten após a derrota dos “cavaleiros”, fugiu para Basiléia, onde somente recebeu o menosprezo de seu adorado príncipe Erasmo. Este foi o motivo de sua dolorosa Ulrici ab Hutten cum Erasmo Roterdamo presbytero expostulatio, que foi impressa em Estrasburgo, em 1523, após a difusão do manuscrito de Erasmo correspondeu com sua Spongia Erasmi adversus aspergines Hutteni, Basiléia 1523.
[5] Gl 6:2.
[6] Gl 5:15.
[7] Joaquim Camerário do círculo de Wittenberg, amigo de Melanchthon e helenista, achou graça ante Erasm, a julgar pela resposta deste à carta de Lutero: WA Br 3, p. 285.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 397-398.
Tradução em 25 de Março de 2017.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Carta de Lutero à Ecolampádio [20 Junho de 1523]
Ao sábio e piedoso Ecolampádio,[1] discípulo e fiel servo de Cristo, seu irmão no Senhor.
Graça e paz em Cristo. Em primeiro lugar quero pedir a você, ótimo Ecolampádio, que não ressinta com ingratidão ou negligência por minha parte o fato de não ter-lhe escrito até agora. Muito menos recebi sua carta desde a sua saída da Santa Brígida. Por outro lado (e pressuponho que Cristo fortaleceu o seu coração com a virtude de um espírito tão firme, como para livrá-lo do jugo de Satanás, após vencer estas superstições da consciência) julguei-o suficientemente maduro para esperar suas cartas, ou crer que as minhas o reafirmariam. Sinceramente, temos aprovado de todo o coração o seu espírito e sua virtuosa façanha. Felipe, que goza de forma especial recordando-se, não cessa de acrescer a cada dia a estima que por você professo.
Que o Senhor confirme o seu projeto de expor a Isaías, ainda que tenha me comunicado que tal coisa desagrade a Erasmo. Não se afete com esta indiferença. O que Erasmo pensa – ou simule pensar – nas coisas espirituais o testificam abundantemente os seus livros, desde os primeiros até os mais recentes. Da minha parte, ainda que acuse perfeitamente os seus dardos, como ele dissimula publicamente ser meu inimigo, também deixo entender que não me estou informado de suas astúcias, ainda que as perceba muito melhor do que se imagina. Na realidade está cumprindo aquilo para que estava destinado: introduzir o estudo das línguas [originais] e afastar os estudos sacrílegos. Possivelmente, do mesmo modo que Moisés, morra nos acampamentos de Moabe[2], porque não vigora aos estudos mais altos, ou seja, os que se referem à piedade. Gostaria muitíssimo que parasse de tratar e parafrasear a Escritura Sagrada, já que não se considera a altura que esta atividade exige, ocupa inutilmente os leitores e os atrasa na aprendizagem das Escrituras. Fez o bastante ao evidenciar o mal; enquanto que o bom e conduzir até a terra prometida, parece-me que não está a seu alcance. Mas, por quê falo tanto de Erasmo? Simplesmente para que não se deixe afetar por sua fama e autoridade, e para que você se alegre se percebe que há alguma coisa que não lhe agrade nesta matéria da Sagrada Escritura, pois, como todos começam a suspeitar, neste domínio não pode, ou não quer julgar com retidão.
Ainda tenho visto a sua tradução de Crisóstomo[2] Por causa de nossa amizade suplico que suportes este palavreado. Sei que você não anda necessitado de tais consolos. Nem abandonará a Cristo que habita e que opera por meio de você. Roga por mim, estou ocupado em tantos negócios exteriores, que corro o risco de terminar em carne, eu que comecei no espírito.[3]
Muitas horas me roubam as monjas e frades que saem dos conventos, sendo que tenho que atender às necessidades de todos eles.[5] Não direi nada dos demais que me exigem que cumpra com eles de tantas maneiras.
Adeus, ótimo Ecolampádio, e que a graça de Cristo o acompanhe. Saúde a todos os nossos.
Wittenberg, 20 de Junho de 1523.
NOTAS:
[1] WA Br 3, 96-97. Johanes Ecolampádio (1482-1531), sobrenome humanista de Hausscheim, pregador da catedral de Augsburg até que em 1520 aderiu ao convento de Santa Brígida. Veio a abandoná-lo dois anos mais tarde (a isto ele alude numa carta) para establecer-se em Basiléia como professor de teologia, assumindo por sua vez o papel de protagonista da Reforma nesta cidade. A sua atitude e estudos humanistas aproximaram-no de Erasmo e se percebe o temor de Lutero a que o princípe dos humanistas tivesse demasiada influência sobre ele. Proximo a Zwingli, ao seu lado intervirá no coloquio de Marburg. Cf. A. Staehlin, Das theologische Lebenswerk J. Oekolampads, Leipzing 1939.
[2] Dt 34:1-15.
[3] Divi Johannis Chrysostomi psegmata, nuperrime a Joanne Oecolampadio in latinum promo versa, Basileae 1523.
[4] Gl 3:3.
[5] Lutero se refere ao éxodo masivo de monjas que abandonaram o monasterio. Entre elas estava Catarina von Bora, futura esposa de Lutero. Veja detalhes na carta a Spalatino, 1 de Abril de 1521: WA Br 3, 54-55.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 394-395.
Traduzido em 3 de Dezembro de 2015.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
Graça e paz em Cristo. Em primeiro lugar quero pedir a você, ótimo Ecolampádio, que não ressinta com ingratidão ou negligência por minha parte o fato de não ter-lhe escrito até agora. Muito menos recebi sua carta desde a sua saída da Santa Brígida. Por outro lado (e pressuponho que Cristo fortaleceu o seu coração com a virtude de um espírito tão firme, como para livrá-lo do jugo de Satanás, após vencer estas superstições da consciência) julguei-o suficientemente maduro para esperar suas cartas, ou crer que as minhas o reafirmariam. Sinceramente, temos aprovado de todo o coração o seu espírito e sua virtuosa façanha. Felipe, que goza de forma especial recordando-se, não cessa de acrescer a cada dia a estima que por você professo.
Que o Senhor confirme o seu projeto de expor a Isaías, ainda que tenha me comunicado que tal coisa desagrade a Erasmo. Não se afete com esta indiferença. O que Erasmo pensa – ou simule pensar – nas coisas espirituais o testificam abundantemente os seus livros, desde os primeiros até os mais recentes. Da minha parte, ainda que acuse perfeitamente os seus dardos, como ele dissimula publicamente ser meu inimigo, também deixo entender que não me estou informado de suas astúcias, ainda que as perceba muito melhor do que se imagina. Na realidade está cumprindo aquilo para que estava destinado: introduzir o estudo das línguas [originais] e afastar os estudos sacrílegos. Possivelmente, do mesmo modo que Moisés, morra nos acampamentos de Moabe[2], porque não vigora aos estudos mais altos, ou seja, os que se referem à piedade. Gostaria muitíssimo que parasse de tratar e parafrasear a Escritura Sagrada, já que não se considera a altura que esta atividade exige, ocupa inutilmente os leitores e os atrasa na aprendizagem das Escrituras. Fez o bastante ao evidenciar o mal; enquanto que o bom e conduzir até a terra prometida, parece-me que não está a seu alcance. Mas, por quê falo tanto de Erasmo? Simplesmente para que não se deixe afetar por sua fama e autoridade, e para que você se alegre se percebe que há alguma coisa que não lhe agrade nesta matéria da Sagrada Escritura, pois, como todos começam a suspeitar, neste domínio não pode, ou não quer julgar com retidão.
Ainda tenho visto a sua tradução de Crisóstomo[2] Por causa de nossa amizade suplico que suportes este palavreado. Sei que você não anda necessitado de tais consolos. Nem abandonará a Cristo que habita e que opera por meio de você. Roga por mim, estou ocupado em tantos negócios exteriores, que corro o risco de terminar em carne, eu que comecei no espírito.[3]
Muitas horas me roubam as monjas e frades que saem dos conventos, sendo que tenho que atender às necessidades de todos eles.[5] Não direi nada dos demais que me exigem que cumpra com eles de tantas maneiras.
Adeus, ótimo Ecolampádio, e que a graça de Cristo o acompanhe. Saúde a todos os nossos.
Wittenberg, 20 de Junho de 1523.
NOTAS:
[1] WA Br 3, 96-97. Johanes Ecolampádio (1482-1531), sobrenome humanista de Hausscheim, pregador da catedral de Augsburg até que em 1520 aderiu ao convento de Santa Brígida. Veio a abandoná-lo dois anos mais tarde (a isto ele alude numa carta) para establecer-se em Basiléia como professor de teologia, assumindo por sua vez o papel de protagonista da Reforma nesta cidade. A sua atitude e estudos humanistas aproximaram-no de Erasmo e se percebe o temor de Lutero a que o princípe dos humanistas tivesse demasiada influência sobre ele. Proximo a Zwingli, ao seu lado intervirá no coloquio de Marburg. Cf. A. Staehlin, Das theologische Lebenswerk J. Oekolampads, Leipzing 1939.
[2] Dt 34:1-15.
[3] Divi Johannis Chrysostomi psegmata, nuperrime a Joanne Oecolampadio in latinum promo versa, Basileae 1523.
[4] Gl 3:3.
[5] Lutero se refere ao éxodo masivo de monjas que abandonaram o monasterio. Entre elas estava Catarina von Bora, futura esposa de Lutero. Veja detalhes na carta a Spalatino, 1 de Abril de 1521: WA Br 3, 54-55.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 394-395.
Traduzido em 3 de Dezembro de 2015.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Carta de Martinho Lutero a George Spalatino [Novembro de 1521]
A George Spalatino, discípulo de Cristo, seu amigo na fé.[1]
Jesus. Saudações. Creio que nunca recebi uma carta tão desagradável como a última que você me enviou. Estava decidido não somente a demorar responder, como também a não responder.
Em primeiro lugar, não estou disposto a suportar o que me disse, de que o príncipe não suportará que escreva contra o de Magnuncia, nem nada que possa perturbar a paz pública; pelo contrário, permanecerei sem você, sem o príncipe e sem ninguém no mundo. Se enfrentei o papa, criador do engano, vou me deter diante a sua criatura? Declara muito formoso que não se deve perturbar a paz pública, e você sofreria por turbar a paz eterna de Deus com as ações ímpias e profanas dessa perdição? Isto não sucederá, caro Spalatino; não ocorrerá isto, príncipe, senão que por amor das ovelhas de Cristo e para exemplo dos demais há que resistir ferozmente a este perigosíssimo lobo. Por isso lhe envio o panfleto[2] que preparei contra ele quando recebi a sua carta que não me fez mudar em nada, ainda que o submeti a juízo de Felipe para que o corrigisse no que cresse ser necessário. Não pense impedir a devolução do livro a Felipe nem desestimulá-lo. Considere que não farei isto.
Não deveria impressioná-lo que nós e nossos amigos nos vejamos na precisão de ouvir insultos por parte de nossos adversários, ou dos excessivamente prudentes nas coisas divinas, já que você sabe muito bem que nem Cristo, nem o apóstolo foram agradáveis aos homens. Além do mais, até agora não chegou aos meus ouvidos que aos nossos sejam acusados de algum crime, senão somente de depreciar a impiedade e as doutrinas da perdição, ainda que não me agradem as atitudes dos jovens que receberam mal o enviado dos antonianos.[3] Mas, quem seria capaz de frear sempre a todos e em todo lugar? Ou, eles jamais obram mal? Até os discípulos sofreram a vergonha de Judas Iscariotes e diariamente tiveram que suportar as comunidades por causa de seus maus membros; somente de nós é exigido que não gemamos. Peço a você que não espere a redação de uma apologia para cada um daqueles que desagrada a Wittenberg; não há nada mais impossível.
Não perecerá o evangelho porque algum de nós peque por falta de modéstia: os que por este motivo se afastam da palavra estão provando que não foi ela que aceitaram, senão somente a sua glória. As portas do inferno não poderão separar dela os que acolheram a palavra por causa da palavra. O que quer abandoná-la, que a abandone. Por que não se fixam no melhor e mais sólido que possuímos? Por que se apegam somente ao pior e ao mais fraco? É Felipe e os seus amigos acusados deste crime? Por que condenam o todo por uma parte? É um pecado mais leve receber um pregador ímpio do que aceitar fielmente a sua doutrina. Todavia, este pecado se vê elogiado e o pregador condenado como irredimível. E juízes e equidades desta atitude te fazem temer que o evangelho vá perecer por razões que não são mais do que fumaça?[4]
Confirmo a revogação das missas neste livro que te envio junto a carta.[5] Não pude preparar a Paraclesis, nem creio ser necessário fazê-lo, pelo fato de abordar o assunto em minha Tessaradecade.[6] Por que não facilita a leitura desta obra? Por que não se convence de ler o evangelho e a paixão de Cristo, pois não encontrará consolo melhor? Terei que escrever uma consolação para cada caso? O que diriam os inimigos? Além do mais, espero que baste a Paraclesis de Felipe, pois imagino que no intervalo cessará a enfermidade de seu ânimo, e desta forma a minha chegaria tarde e resultaria inútil. Não será ímpio, nem perigoso diferir ou descuidá-lo de tais circunstâncias.
O que de fato me preocupa agora é a perdição das almas, que é sobre o que ando trabalhado. Estou determinado a atacar os votos dos religiosos e liberar os jovens deste inferno do celibato, imundo e condenadíssimo por causa das coceiras e das poluções. Estou escrevendo isto em parte por causa das tentações, e em parte pela indignação que sinto.[7] Verá que é bom. Não há um só Satanás comigo, ou melhor, contra mim, que estou sozinho e, às vezes, me faço só.
Adeus e saúda a todos os nossos. A Gerbel[8] e lhe escrevi quando recebi a sua última e tudo estava fechado e selado.
Dia de são Martin, 1521. Seu Martinus Luther.
NOTAS:
[1] WA Br 2, 402-403.
[2] Alberto de Maguncia para conseguir ingressos que sanassem as suas finanças em Setembro de 1521 realizou uma exposição indulgenciando as relíquias de sua igreja em Halle. Para evitar reações enviou emissários a Wittenberg que tratassem de convencer ao príncipe eleitor e a amigos de Lutero da conveniência de não se opor. Parece que em parte conseguiu. Mas Lutero escreveu um furioso panfleto Contra o ídolo de Halle, cuja publicação irritou o príncipe. Note-se a violência de Lutero e a reincidência do cardeal, personagem ambíguo e não afetado pelos sucessos de 1517.
[3] Em 5 de Outubro, seguindo o costume, os monges antonianos de Lichtenburg enviaram delegados para recolher esmolas. Foram recebidos violentamente e não foi possível nem sequer pregar.
[4] Is 7:4.
[5] De Abroganda missa privata M. Lutheri setentia: WA 8, 411-476.
[6] A Paraclesis, ou tratado consolatório, neste caso dedicado ao príncipe. Tessaradecas consolatoria pro laborantibus et oneratis, escrito em 1520: WA 6, 104-134.
[7] Plano de sua obra De votis monasticis: WA 8, 573-669.
[8] Nicolás Gerbel foi um jurisconsulto de Estraburgo a quem se dirigiu em 1 Novembro de 1521 (WA Br 2, 396-398).
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 390-391.
Traduzido em 5 de Janeiro de 2015.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
Jesus. Saudações. Creio que nunca recebi uma carta tão desagradável como a última que você me enviou. Estava decidido não somente a demorar responder, como também a não responder.
Em primeiro lugar, não estou disposto a suportar o que me disse, de que o príncipe não suportará que escreva contra o de Magnuncia, nem nada que possa perturbar a paz pública; pelo contrário, permanecerei sem você, sem o príncipe e sem ninguém no mundo. Se enfrentei o papa, criador do engano, vou me deter diante a sua criatura? Declara muito formoso que não se deve perturbar a paz pública, e você sofreria por turbar a paz eterna de Deus com as ações ímpias e profanas dessa perdição? Isto não sucederá, caro Spalatino; não ocorrerá isto, príncipe, senão que por amor das ovelhas de Cristo e para exemplo dos demais há que resistir ferozmente a este perigosíssimo lobo. Por isso lhe envio o panfleto[2] que preparei contra ele quando recebi a sua carta que não me fez mudar em nada, ainda que o submeti a juízo de Felipe para que o corrigisse no que cresse ser necessário. Não pense impedir a devolução do livro a Felipe nem desestimulá-lo. Considere que não farei isto.
Não deveria impressioná-lo que nós e nossos amigos nos vejamos na precisão de ouvir insultos por parte de nossos adversários, ou dos excessivamente prudentes nas coisas divinas, já que você sabe muito bem que nem Cristo, nem o apóstolo foram agradáveis aos homens. Além do mais, até agora não chegou aos meus ouvidos que aos nossos sejam acusados de algum crime, senão somente de depreciar a impiedade e as doutrinas da perdição, ainda que não me agradem as atitudes dos jovens que receberam mal o enviado dos antonianos.[3] Mas, quem seria capaz de frear sempre a todos e em todo lugar? Ou, eles jamais obram mal? Até os discípulos sofreram a vergonha de Judas Iscariotes e diariamente tiveram que suportar as comunidades por causa de seus maus membros; somente de nós é exigido que não gemamos. Peço a você que não espere a redação de uma apologia para cada um daqueles que desagrada a Wittenberg; não há nada mais impossível.
Não perecerá o evangelho porque algum de nós peque por falta de modéstia: os que por este motivo se afastam da palavra estão provando que não foi ela que aceitaram, senão somente a sua glória. As portas do inferno não poderão separar dela os que acolheram a palavra por causa da palavra. O que quer abandoná-la, que a abandone. Por que não se fixam no melhor e mais sólido que possuímos? Por que se apegam somente ao pior e ao mais fraco? É Felipe e os seus amigos acusados deste crime? Por que condenam o todo por uma parte? É um pecado mais leve receber um pregador ímpio do que aceitar fielmente a sua doutrina. Todavia, este pecado se vê elogiado e o pregador condenado como irredimível. E juízes e equidades desta atitude te fazem temer que o evangelho vá perecer por razões que não são mais do que fumaça?[4]
Confirmo a revogação das missas neste livro que te envio junto a carta.[5] Não pude preparar a Paraclesis, nem creio ser necessário fazê-lo, pelo fato de abordar o assunto em minha Tessaradecade.[6] Por que não facilita a leitura desta obra? Por que não se convence de ler o evangelho e a paixão de Cristo, pois não encontrará consolo melhor? Terei que escrever uma consolação para cada caso? O que diriam os inimigos? Além do mais, espero que baste a Paraclesis de Felipe, pois imagino que no intervalo cessará a enfermidade de seu ânimo, e desta forma a minha chegaria tarde e resultaria inútil. Não será ímpio, nem perigoso diferir ou descuidá-lo de tais circunstâncias.
O que de fato me preocupa agora é a perdição das almas, que é sobre o que ando trabalhado. Estou determinado a atacar os votos dos religiosos e liberar os jovens deste inferno do celibato, imundo e condenadíssimo por causa das coceiras e das poluções. Estou escrevendo isto em parte por causa das tentações, e em parte pela indignação que sinto.[7] Verá que é bom. Não há um só Satanás comigo, ou melhor, contra mim, que estou sozinho e, às vezes, me faço só.
Adeus e saúda a todos os nossos. A Gerbel[8] e lhe escrevi quando recebi a sua última e tudo estava fechado e selado.
Dia de são Martin, 1521. Seu Martinus Luther.
NOTAS:
[1] WA Br 2, 402-403.
[2] Alberto de Maguncia para conseguir ingressos que sanassem as suas finanças em Setembro de 1521 realizou uma exposição indulgenciando as relíquias de sua igreja em Halle. Para evitar reações enviou emissários a Wittenberg que tratassem de convencer ao príncipe eleitor e a amigos de Lutero da conveniência de não se opor. Parece que em parte conseguiu. Mas Lutero escreveu um furioso panfleto Contra o ídolo de Halle, cuja publicação irritou o príncipe. Note-se a violência de Lutero e a reincidência do cardeal, personagem ambíguo e não afetado pelos sucessos de 1517.
[3] Em 5 de Outubro, seguindo o costume, os monges antonianos de Lichtenburg enviaram delegados para recolher esmolas. Foram recebidos violentamente e não foi possível nem sequer pregar.
[4] Is 7:4.
[5] De Abroganda missa privata M. Lutheri setentia: WA 8, 411-476.
[6] A Paraclesis, ou tratado consolatório, neste caso dedicado ao príncipe. Tessaradecas consolatoria pro laborantibus et oneratis, escrito em 1520: WA 6, 104-134.
[7] Plano de sua obra De votis monasticis: WA 8, 573-669.
[8] Nicolás Gerbel foi um jurisconsulto de Estraburgo a quem se dirigiu em 1 Novembro de 1521 (WA Br 2, 396-398).
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 390-391.
Traduzido em 5 de Janeiro de 2015.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
Carta de Martinho Lutero a Johannes Staupiz [Setembro de 1521]
A Staupitz. 9 de Setembro de 1521[1]
Jesus. Saudações. Em nada me preocupa a crítica do Capitão[2], nem a de Erasmo, nem me altera a opinião que sobre eles tenho formada. Temi que teria que me explicar com eles, até que me dei conta de que Erasmo estava muito longe do conhecimento da graça, sendo que, em todos os seus escritos não recorre à cruz, senão à paz. Ele crê que tudo pode ser tratado com certa cortesia e benevolência; mas, Behemoth[3] não anda com estas cerimônias e esse sistema é recomendado a ninguém.
Recordo o que aplicava em seu prólogo ao Novo Testamento: “O cristão tem facilidade de depreciar a glória.” Eu pensava comigo: “Oh! Erasmo, muito temo que esteja equivocado!” Grande coisa é depreciar a glória, mas não se referia ao desprezo que lhe poderiam fazer, senão ao que tinha em seu pensamento. Se não tem nenhum significado o desprezo da glória da palavra, menos valor terá o que existe somente no pensamento. Assim, segundo são Paulo “o reino de Deus está no poder”;[4] por isso, ainda não pude me gloriar em nada mais do que da palavra da verdade que me confiou o Senhor.
E por isso, os escritos destes homens que se abstêm de chicotear, de morder, de ofender, nada conseguem. Corrigem educadamente aos pontífices, o tomam como uma lisonja, e como se gozassem do direito de serem incorrigíveis, continuam tão satisfeitos de serem grandes e de que ninguém se atreva a repreendê-los. Estes são os personagens representados por Plutarco em seu livro Da Adulação, e aos que Jeremias fustiga de maneira mais severa e terrível: “maldito quem realiza fraudulentamente o trabalho do Senhor.”[5] Fala da ação da espada contra os inimigos de Deus. Inclusive me assusta e me ofende a consciência porque em Worms fiz caso do conselho que você me deu e os amigos, e não me mostrei forte de espírito, nem me exibi como um novo Elias diante daqueles ídolos.[6] Ouviriam outra coisa se comparecesse novamente diante deles. Mas não falemos mais disto.
O duque João, o Maior, está inteirado de meu paradeiro,[7] coisa que até o momento ignorava; meu anfitrião tem mantido em segredo, mas saberá calar. Encontro-me bem aqui, mas, miserável que sou, me faço preguiçoso, definho no espírito. Hoje, depois de seis dias, fiz do ventre fezes muito duras, que acreditei que exalaria a alma. Agora estou sentado, sentindo dor como uma recém-parida, lacerado, ferido, sangrando, e esta noite não terei nenhum descanso, mesmo que pouco. Dou graças a Cristo que não me priva de alguns dos fragmentos da santa cruz. Estaria curado de todas as feridas se tivesse o ventre ligeiro; mas o que sara em quatro dias volta a abrir toda vez que vou defecar. Digo a você estas coisas, não para que se compadeça de mim, mas para que me congratule e rogue para que me faça digno de fervor espiritual. Chegou o tempo de orar com todas as forças contra Satanás, porque anda gestando alguma tragédia funesta contra a Alemanha. Estou temendo que o Senhor permita e aqui me tenha roncando e vagaroso para orar, resistir, até tal ponto que estou violentamente descontente e cansado de mim mesmo, porque me encontro sozinho e vocês não me ajudam. Oremos e vigiemos para não entrar em tentação.[8] Por hora não tenho mais o que te dizer. Você sabe das demais coisas.
Alegro-me de que Wittenberg prospere, tanto mais porque isto ocorre durante a minha ausência, para que o ímpio veja, se irrite e pereça os seus desejos.[9] Que Cristo termine o que ele começou. Desejaria vividamente que Felipe[10] pregasse às pessoas em algum lugar da cidade nos dias de festa, quando aos poucos se entregarão à bebida e aos jogos, para que se introduzisse o hábito da liberdade[11] e se restituam a face e os costumes da igreja primitiva. Porque se desvalorizado a todas as leis humanas e rejeitado os seus jugos, então, por que é um obstáculo o fato de que não esteja ungido ou tonsurado e que seja casado? Se o anunciar a palavra é uma função sacerdotal, ele é um sacerdote e como sacerdote atua de fato; de outra forma, nem Cristo seria sacerdote, ele que ensinava nas sinagogas, nas barcas e beira mar, nas montanhas: sempre foi o mesmo em todos os lugares e em todos os momentos. Portanto, que não se negue a ninguém que sendo chamado por Deus e que exercendo o ministério da palavra, porque importa que mesmo não sendo chamado por estes tiranos, ou seja, bispos não das igrejas, senão de cavalos e lacaios de príncipes? Não obstante, conheço muito bem os sentimentos deste homem e sei que não se convencerá por minhas razões.
Tem que ser chamado e urgido por mandato e impulso de toda a comunidade. Se ela pede e lhe exige, não se deve, nem pode recusar. Se estivesse presente engajaria todo o meu esforço com o conselho e povo para que lhe pedissem que explicassem o evangelho em privado e em alemão, como comecei a fazê-lo em latim: assim, o bispo converteria em alemão o mesmo que o é em latim. Eu sentiria muita satisfação que fizesses de tua parte tal coisa uma realidade, porque o que mais urgentemente necessita o povo é a palavra de Deus; e que esta abunde no mais generosamente que em todos os demais, ao menos que, urgindo-o a consciência e exigindo-o a Deus, temos a obrigação de chamar-lhe para que não se desperdice o fruto da palavra.
A ti será fácil tratar este assunto no conselho por mediação de Lucas e Cristian[12] para que Cristo vindique a minha ausência e meu silêncio com a sua pregação e sua voz para confusão de Satanás e suas crias. Orígenes ensinou de modo privado as mulheres[13], então, por que motivo ele não tenta fazer o mesmo, sendo que ele pode e deve fazê-lo? E ainda mais quando o povo está necessitado e sedento. Rogo a você que não deixe se vencer por desculpas. Redigirá textos formosos que é algo que lhe é conveniente. Não há motivo para ambicioná-lo, mas tem que ser insistentemente chamado pela igreja, inclusive até solicitado para que este serviço e faça não o que seja útil para ele, senão que o que proveitoso para muitos. Ainda te suplico: coloque maior diligência em fixa-lo, ajudando-o com amigos que juntos possam apoiá-lo.
E adeus. Lembre-se de mim diante o Senhor.
Do deserto,[14] dia seguinte à natividade de Maria, 1521. Teu Martinus Luther.
NOTAS:
[1] WA Br 2, 387-389.
[2] Capitão a esta altura era um dos humanistas que se aproximava de Erasmo em Basiléia.
[3] Jó 40:15ss.
[4] 1 Co 4:20.
[5] Jr 48:10.
[6] 1 Rs 18:20ss.
[7] Irmão de Frederico, o Sábio.
[8] Mt 26:41.
[9] Sl 112:10.
[10] Felipe Melanchthon.
[11] Lutero pensa na liberdade da palavra de Deus, da pregação, e no sacerdócio universal dos crentes.
[12] Lucas Cranach, o célebre pintor, e Cristian Düring, o mais conhecido e talvez o maior impressor de Wittenberg, ambos seus amigos.
[13] Jerônimo, De viris illustribus, 54 (ML 23, 699).
[14] Denominação que ele aplica aos seus retiros forçados, agora em Warturb, logo (1530) nas cartas de Coburgo.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), p. 388-390.
Tradução em 5 de Janeiro de 2015.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
Jesus. Saudações. Em nada me preocupa a crítica do Capitão[2], nem a de Erasmo, nem me altera a opinião que sobre eles tenho formada. Temi que teria que me explicar com eles, até que me dei conta de que Erasmo estava muito longe do conhecimento da graça, sendo que, em todos os seus escritos não recorre à cruz, senão à paz. Ele crê que tudo pode ser tratado com certa cortesia e benevolência; mas, Behemoth[3] não anda com estas cerimônias e esse sistema é recomendado a ninguém.
Recordo o que aplicava em seu prólogo ao Novo Testamento: “O cristão tem facilidade de depreciar a glória.” Eu pensava comigo: “Oh! Erasmo, muito temo que esteja equivocado!” Grande coisa é depreciar a glória, mas não se referia ao desprezo que lhe poderiam fazer, senão ao que tinha em seu pensamento. Se não tem nenhum significado o desprezo da glória da palavra, menos valor terá o que existe somente no pensamento. Assim, segundo são Paulo “o reino de Deus está no poder”;[4] por isso, ainda não pude me gloriar em nada mais do que da palavra da verdade que me confiou o Senhor.
E por isso, os escritos destes homens que se abstêm de chicotear, de morder, de ofender, nada conseguem. Corrigem educadamente aos pontífices, o tomam como uma lisonja, e como se gozassem do direito de serem incorrigíveis, continuam tão satisfeitos de serem grandes e de que ninguém se atreva a repreendê-los. Estes são os personagens representados por Plutarco em seu livro Da Adulação, e aos que Jeremias fustiga de maneira mais severa e terrível: “maldito quem realiza fraudulentamente o trabalho do Senhor.”[5] Fala da ação da espada contra os inimigos de Deus. Inclusive me assusta e me ofende a consciência porque em Worms fiz caso do conselho que você me deu e os amigos, e não me mostrei forte de espírito, nem me exibi como um novo Elias diante daqueles ídolos.[6] Ouviriam outra coisa se comparecesse novamente diante deles. Mas não falemos mais disto.
O duque João, o Maior, está inteirado de meu paradeiro,[7] coisa que até o momento ignorava; meu anfitrião tem mantido em segredo, mas saberá calar. Encontro-me bem aqui, mas, miserável que sou, me faço preguiçoso, definho no espírito. Hoje, depois de seis dias, fiz do ventre fezes muito duras, que acreditei que exalaria a alma. Agora estou sentado, sentindo dor como uma recém-parida, lacerado, ferido, sangrando, e esta noite não terei nenhum descanso, mesmo que pouco. Dou graças a Cristo que não me priva de alguns dos fragmentos da santa cruz. Estaria curado de todas as feridas se tivesse o ventre ligeiro; mas o que sara em quatro dias volta a abrir toda vez que vou defecar. Digo a você estas coisas, não para que se compadeça de mim, mas para que me congratule e rogue para que me faça digno de fervor espiritual. Chegou o tempo de orar com todas as forças contra Satanás, porque anda gestando alguma tragédia funesta contra a Alemanha. Estou temendo que o Senhor permita e aqui me tenha roncando e vagaroso para orar, resistir, até tal ponto que estou violentamente descontente e cansado de mim mesmo, porque me encontro sozinho e vocês não me ajudam. Oremos e vigiemos para não entrar em tentação.[8] Por hora não tenho mais o que te dizer. Você sabe das demais coisas.
Alegro-me de que Wittenberg prospere, tanto mais porque isto ocorre durante a minha ausência, para que o ímpio veja, se irrite e pereça os seus desejos.[9] Que Cristo termine o que ele começou. Desejaria vividamente que Felipe[10] pregasse às pessoas em algum lugar da cidade nos dias de festa, quando aos poucos se entregarão à bebida e aos jogos, para que se introduzisse o hábito da liberdade[11] e se restituam a face e os costumes da igreja primitiva. Porque se desvalorizado a todas as leis humanas e rejeitado os seus jugos, então, por que é um obstáculo o fato de que não esteja ungido ou tonsurado e que seja casado? Se o anunciar a palavra é uma função sacerdotal, ele é um sacerdote e como sacerdote atua de fato; de outra forma, nem Cristo seria sacerdote, ele que ensinava nas sinagogas, nas barcas e beira mar, nas montanhas: sempre foi o mesmo em todos os lugares e em todos os momentos. Portanto, que não se negue a ninguém que sendo chamado por Deus e que exercendo o ministério da palavra, porque importa que mesmo não sendo chamado por estes tiranos, ou seja, bispos não das igrejas, senão de cavalos e lacaios de príncipes? Não obstante, conheço muito bem os sentimentos deste homem e sei que não se convencerá por minhas razões.
Tem que ser chamado e urgido por mandato e impulso de toda a comunidade. Se ela pede e lhe exige, não se deve, nem pode recusar. Se estivesse presente engajaria todo o meu esforço com o conselho e povo para que lhe pedissem que explicassem o evangelho em privado e em alemão, como comecei a fazê-lo em latim: assim, o bispo converteria em alemão o mesmo que o é em latim. Eu sentiria muita satisfação que fizesses de tua parte tal coisa uma realidade, porque o que mais urgentemente necessita o povo é a palavra de Deus; e que esta abunde no mais generosamente que em todos os demais, ao menos que, urgindo-o a consciência e exigindo-o a Deus, temos a obrigação de chamar-lhe para que não se desperdice o fruto da palavra.
A ti será fácil tratar este assunto no conselho por mediação de Lucas e Cristian[12] para que Cristo vindique a minha ausência e meu silêncio com a sua pregação e sua voz para confusão de Satanás e suas crias. Orígenes ensinou de modo privado as mulheres[13], então, por que motivo ele não tenta fazer o mesmo, sendo que ele pode e deve fazê-lo? E ainda mais quando o povo está necessitado e sedento. Rogo a você que não deixe se vencer por desculpas. Redigirá textos formosos que é algo que lhe é conveniente. Não há motivo para ambicioná-lo, mas tem que ser insistentemente chamado pela igreja, inclusive até solicitado para que este serviço e faça não o que seja útil para ele, senão que o que proveitoso para muitos. Ainda te suplico: coloque maior diligência em fixa-lo, ajudando-o com amigos que juntos possam apoiá-lo.
E adeus. Lembre-se de mim diante o Senhor.
Do deserto,[14] dia seguinte à natividade de Maria, 1521. Teu Martinus Luther.
NOTAS:
[1] WA Br 2, 387-389.
[2] Capitão a esta altura era um dos humanistas que se aproximava de Erasmo em Basiléia.
[3] Jó 40:15ss.
[4] 1 Co 4:20.
[5] Jr 48:10.
[6] 1 Rs 18:20ss.
[7] Irmão de Frederico, o Sábio.
[8] Mt 26:41.
[9] Sl 112:10.
[10] Felipe Melanchthon.
[11] Lutero pensa na liberdade da palavra de Deus, da pregação, e no sacerdócio universal dos crentes.
[12] Lucas Cranach, o célebre pintor, e Cristian Düring, o mais conhecido e talvez o maior impressor de Wittenberg, ambos seus amigos.
[13] Jerônimo, De viris illustribus, 54 (ML 23, 699).
[14] Denominação que ele aplica aos seus retiros forçados, agora em Warturb, logo (1530) nas cartas de Coburgo.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), p. 388-390.
Tradução em 5 de Janeiro de 2015.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
sábado, 12 de abril de 2014
Carta de Martinho Lutero a Erasmo de Rotterdam [1519]
A Erasmo em Basiléia. 28 de Março de 1519[1]
Jesus. Saudações. Quantas vezes, conversei com você Erasmo, nossa glória e nossa esperança, e você comigo, e ainda não nos conhecemos! Estranho isso, não é mesmo? Não, não é de se estranhar devido às muitas tarefas de todos os dias. Quem há cujas dificuldades mais profundas não ocupem Erasmo, a quem Erasmo não ensine, em que Erasmo não domine? Refiro-me com clareza a quem devidamente ama as letras. Agrada-me, sobremaneira, que outros presentes de Cristo possam se enumerar também, os quais a muitos resultem em perturbação; precisamente nisto me apoio para discernir os dons do misericordioso Deus, dos do Deus irado. Felicito-o, porque ao mesmo tempo resulta em tão grato motivo a todos os bons, desagrada não menos aqueles que anelam ser os únicos supremos e o mais gratos.
Mas, eu seria um néscio, que com as mãos sem lavar e sem um prefácio de reverência e honra com que me dirijo a você, varão de categoria incomparável, como um desconhecido se dirige a outro desconhecido. A sua humanidade saberá desconsiderar a minha amizade, ou a minha imperícia, já que, transcorrido minha existência entre os sofistas, nem sequer aprendi a forma de saudar por carta a um homem erudito. Doutro modo com quantas cartas o fadiguei demoradamente, sem poder sofrer que estivesse me falando perpetuamente na solidão da minha cela!
Mas, através do excelentíssimo Fabrício Capitão[2] fui informado de que, graças a aquela bagatela das indulgências, meu nome tornou-se noticiado para você, e que não somente leu, como também aceitou as minhas insignificantes afirmações no prólogo de uma edição posterior de sua Enchiridion[3], então, senti a obrigação ainda que fosse por esta barbaríssima carta, de reconhecer o teu espírito egrégio, filão que enriquece ao meu, bem como o de todos. Ainda que seja consciente do pouco que significará para você, que por carta me confesse devoto e agradecido (a você, a quem excede com seu ânimo fervoroso, com oculto agradecimento e amor de Deus, como nos basta, apesar de não nos conhecer, considera os seus sentimentos e suas obras nos livros, sem necessidade de cartas, nem de conversas pessoais), todavia, nem o pudor, nem a consciência sofre que não manifeste o meu agradecimento por escrito, e mais desde que o meu nome começou a sair da obscuridade, para que a ninguém incorra interpretar o silêncio como algo mal-intencionado e péssimo.
Portanto, meu Erasmo, homem amável, se a você parece reconhecer este menor irmão em Cristo, devotíssimo e afeitíssimo por você, ainda que por sua ignorância não mereça outra coisa, senão que jazer enterrado num rincão, desconhecido até para o sol e o céu de todos, que é o que sempre desejei; não por preguiça, senão porque era consciente de meu limitado recurso. Mas não me explico porque tenha distorcido alguma coisa, de modo que me veja forçado a padecer com grande vergonha, e que minhas ignominias e minha infortunada ignorância se vejam agitadas e ocupadas diante dos doutores.
Felipe Melanchthon está bem. Apenas se conseguirmos entre todos que não exponha a sua saúde em esforço de sua excessiva paixão pelas letras. O ardor de sua idade lhe arde em desejos de fazer tudo ao mesmo tempo. Bom serviço prestaria se o advertir por carta que se guarde por amor de nós, e às boas letras. Nada melhor poderíamos prometer-nos que a salvação desta cabeça.[4]
Saúda-o Andres Karlstadt[5] que em o venera de todo em Cristo. Que o mesmo Jesus o guarde sempre, excelente Erasmo, amém. Resultei verboso, mas estará de acordo, em que não te convém ler sempre cartas eruditas e que, de vez em quando “com os enfermos tem de enfermar”.[6]
Wittenberg, dia quinto das calendas de Abril, 1519.
NOTAS:
[1] WA Br 1, pp. 361-363. Lutero se dirige a Erasmo com humildade estratégica e forçada. É evidente a sua intencionalidade. Há que contrastar estes tons com os das cartas 1 e 2.
[2] Capitão comunicou a Lutero por carta (WA Br 1, p. 197) a admiração de Erasmo. Wolfgang Fabrício Capitão (1478-1541), em 1519, todavia, ainda estava nas fileiras católicas, mas, posteriormente tornou-se um dos reformadores de Estrasburgo, de talante conciliador.
[3] Erasmo, na edição de 1518, colocou um prólogo com pontos de convergência das ideias das 95 Teses de Lutero.
[4] Assim fez Erasmo no mês seguinte, numa carta dirigida a Melanchthon (Opus epistolarum, 3, p. 540).
[5] Cf. carta 2, nota 5.
[6] 1 Co 9:12. Esta tradução mencionada por Lutero não equivale ao texto grego. Difícil descobrir qual fonte, ou se foi uma citação parafraseada de memória [imprecisa] do texto bíblico. A sua tradução final para o alemão é "So andere dieser Macht an euch teilhaftig sind, warum nicht viel mehr wir? Aber wir haben solche Macht nicht gebraucht, sondern ertragen allerlei, daß wir nicht dem Evangelium Christi ein Hindernis machen" [Se outros participam de vocês, não seria muito mais do que nós? Mas, temos um direito que não é necessário, para suportar todas as coisas, para que não façamos um obstáculo para o evangelho de Cristo]. É possível que Lutero esteja citando a tradução latina do Novo Testamento de Erasmo. Nota do tradutor.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp.. 378-379.
Tradução com introdução e notas em 12 de Abril de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
Jesus. Saudações. Quantas vezes, conversei com você Erasmo, nossa glória e nossa esperança, e você comigo, e ainda não nos conhecemos! Estranho isso, não é mesmo? Não, não é de se estranhar devido às muitas tarefas de todos os dias. Quem há cujas dificuldades mais profundas não ocupem Erasmo, a quem Erasmo não ensine, em que Erasmo não domine? Refiro-me com clareza a quem devidamente ama as letras. Agrada-me, sobremaneira, que outros presentes de Cristo possam se enumerar também, os quais a muitos resultem em perturbação; precisamente nisto me apoio para discernir os dons do misericordioso Deus, dos do Deus irado. Felicito-o, porque ao mesmo tempo resulta em tão grato motivo a todos os bons, desagrada não menos aqueles que anelam ser os únicos supremos e o mais gratos.
Mas, eu seria um néscio, que com as mãos sem lavar e sem um prefácio de reverência e honra com que me dirijo a você, varão de categoria incomparável, como um desconhecido se dirige a outro desconhecido. A sua humanidade saberá desconsiderar a minha amizade, ou a minha imperícia, já que, transcorrido minha existência entre os sofistas, nem sequer aprendi a forma de saudar por carta a um homem erudito. Doutro modo com quantas cartas o fadiguei demoradamente, sem poder sofrer que estivesse me falando perpetuamente na solidão da minha cela!
Mas, através do excelentíssimo Fabrício Capitão[2] fui informado de que, graças a aquela bagatela das indulgências, meu nome tornou-se noticiado para você, e que não somente leu, como também aceitou as minhas insignificantes afirmações no prólogo de uma edição posterior de sua Enchiridion[3], então, senti a obrigação ainda que fosse por esta barbaríssima carta, de reconhecer o teu espírito egrégio, filão que enriquece ao meu, bem como o de todos. Ainda que seja consciente do pouco que significará para você, que por carta me confesse devoto e agradecido (a você, a quem excede com seu ânimo fervoroso, com oculto agradecimento e amor de Deus, como nos basta, apesar de não nos conhecer, considera os seus sentimentos e suas obras nos livros, sem necessidade de cartas, nem de conversas pessoais), todavia, nem o pudor, nem a consciência sofre que não manifeste o meu agradecimento por escrito, e mais desde que o meu nome começou a sair da obscuridade, para que a ninguém incorra interpretar o silêncio como algo mal-intencionado e péssimo.
Portanto, meu Erasmo, homem amável, se a você parece reconhecer este menor irmão em Cristo, devotíssimo e afeitíssimo por você, ainda que por sua ignorância não mereça outra coisa, senão que jazer enterrado num rincão, desconhecido até para o sol e o céu de todos, que é o que sempre desejei; não por preguiça, senão porque era consciente de meu limitado recurso. Mas não me explico porque tenha distorcido alguma coisa, de modo que me veja forçado a padecer com grande vergonha, e que minhas ignominias e minha infortunada ignorância se vejam agitadas e ocupadas diante dos doutores.
Felipe Melanchthon está bem. Apenas se conseguirmos entre todos que não exponha a sua saúde em esforço de sua excessiva paixão pelas letras. O ardor de sua idade lhe arde em desejos de fazer tudo ao mesmo tempo. Bom serviço prestaria se o advertir por carta que se guarde por amor de nós, e às boas letras. Nada melhor poderíamos prometer-nos que a salvação desta cabeça.[4]
Saúda-o Andres Karlstadt[5] que em o venera de todo em Cristo. Que o mesmo Jesus o guarde sempre, excelente Erasmo, amém. Resultei verboso, mas estará de acordo, em que não te convém ler sempre cartas eruditas e que, de vez em quando “com os enfermos tem de enfermar”.[6]
Wittenberg, dia quinto das calendas de Abril, 1519.
NOTAS:
[1] WA Br 1, pp. 361-363. Lutero se dirige a Erasmo com humildade estratégica e forçada. É evidente a sua intencionalidade. Há que contrastar estes tons com os das cartas 1 e 2.
[2] Capitão comunicou a Lutero por carta (WA Br 1, p. 197) a admiração de Erasmo. Wolfgang Fabrício Capitão (1478-1541), em 1519, todavia, ainda estava nas fileiras católicas, mas, posteriormente tornou-se um dos reformadores de Estrasburgo, de talante conciliador.
[3] Erasmo, na edição de 1518, colocou um prólogo com pontos de convergência das ideias das 95 Teses de Lutero.
[4] Assim fez Erasmo no mês seguinte, numa carta dirigida a Melanchthon (Opus epistolarum, 3, p. 540).
[5] Cf. carta 2, nota 5.
[6] 1 Co 9:12. Esta tradução mencionada por Lutero não equivale ao texto grego. Difícil descobrir qual fonte, ou se foi uma citação parafraseada de memória [imprecisa] do texto bíblico. A sua tradução final para o alemão é "So andere dieser Macht an euch teilhaftig sind, warum nicht viel mehr wir? Aber wir haben solche Macht nicht gebraucht, sondern ertragen allerlei, daß wir nicht dem Evangelium Christi ein Hindernis machen" [Se outros participam de vocês, não seria muito mais do que nós? Mas, temos um direito que não é necessário, para suportar todas as coisas, para que não façamos um obstáculo para o evangelho de Cristo]. É possível que Lutero esteja citando a tradução latina do Novo Testamento de Erasmo. Nota do tradutor.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp.. 378-379.
Tradução com introdução e notas em 12 de Abril de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
sábado, 22 de março de 2014
Carta Martinho Lutero a George Spalatino [1518]
18 de Janeiro de 1518[1]
Ao seu irrepreensível George Spalatino,[2] verdadeiro discípulo de Cristo e irmão.
Jesus. Saúde. Até agora você tem me perguntado algumas coisas, ótimo Spalatino, cuja resposta dependia de minha capacidade ou de minha temeridade; agora, ao rogar-me que te oriente em que concerne o conhecimento da Sagrada Escritura, me levanta um problema que excede em muito todas as minhas forças. E, é que nem eu mesmo posso encontrar quem me guie no assunto com tanta transcendência. Cada um, inclusive os mais eruditos e melhores intelectuais, podem perceber o seu lazer. Aí tem a Erasmo: afirma publicamente que são Jerônimo é um teólogo de categoria tal, que a segundo a sua predileção deveria ser o único que tomasse em consideração. Pois bem, se ousar antepor a santo Agostinho, e se me tomasse por árbitro parcial e suspeito por causa de minhas confessas simpatias e de sentença divulgada, e que a tempos aceitei de Erasmo, que afirmou que seria uma enorme vergonha comparar Agostinho com Jerônimo. Outros abundam outras opiniões.
Da minha parte, dada minha pobre erudição e escassa inteligência, não me atreveria a dizer nada em assuntos de tanta importância e entre juízes tão qualificados. A Erasmo sempre o louvo, e o defendo ante todos os que deliberadamente odeiam a Escritura Sagrada, ou a desconhecem por ignorância,[3] mas, intencionalmente me guardo de vomitar no que discordo dele para não alimentar a inveja que eles têm, e apesar disto que vejam em Erasmo muitas coisas que me parecem tão pouco imprudentes para chegar ao conhecimento de Cristo. Tudo isto, está claro, falando como um teólogo, e não como um gramático; porque, de outra forma, o próprio Jerônimo, tão celebrado por Erasmo, não encontraria nada mais erudito e inteligente que isto.
Você sabe que violará o sagrado da amizade se comunicar a alguém a minha opinião sobre Erasmo. Não te digo isto em vão. Bem sabe que há muitos que deliberadamente andam a caça de motivos para caluniar aos bons eruditos. Permaneça em segredo o que disse. E ainda mais: não me faças caso, até que você mesmo não tenha se convencido disto pela leitura.
Não obstante, se te empenha em saber do meu programa de erudito, eu confiarei por completo a você um grupo de amigos íntimos, mas sob a condição de que não me sigas, a não ser criteriosamente. A primeira coisa que você tem que ter presente é a certeza indestrutível de que a Escritura Sagrada é impossível penetrá-la baseado no estudo e inteligência. Portanto, teu primeiro empenho será o começar pela oração; mas, uma oração em que peça para que a mais pura misericórdia te conceda a inteligência da sua palavra, e que se agrade de te usar para a sua glória, não para a tua, nem para a de nenhum humano. Nenhum mestre das palavras divinas poderá ser o melhor do que seu próprio autor, de acordo com o que disse: “todos serão ensinados por Deus.”[4] Portanto, convém sobremaneira que você se desespere com todas as suas forças e de toda a tua inteligência e confie unicamente na ação do Espírito. Atente a quem te diz por experiência própria.
Baseado neste humilde desespero, depois leia a Bíblia em ordem, desde o princípio até o fim, para que aprendas primeiro e de memória a narração livre (o que imagino que terá feito). Para isto será muito proveitoso são Jerônimo em suas Cartas e Comentários, mas para chegar ao conhecimento de Cristo e da graça – ou seja, para penetrar na inteligência mais secreta do espírito – parecem-me muito mais coerentes que santo Agostinho e Ambrósio, porque a percepção de que são Jerônimo “originou” (ou seja, alegorizou) demasiadamente.[5] Digo isto, mas deixo o a juízo de Erasmo, pois, não me pediu a opinião de Erasmo, e sim a minha.
Se lhe agrada o meu método começará pela leitura de Do espírito e da letra de santo Agostinho, obra que o nosso Karlstadt,[6] homem de incomparáveis conhecimentos, explicou e editou com admiráveis comentários. Leis depois o livro Contra Juliano e Contra as cartas dos pelagianos. Também acrescente Da vocação de todas as nações de são Ambrósio, se bem que pelo estilo, pela inteligência e pela cronologia deva ser atribuído a outro autor; todavia, está cheio de erudição. Deixe os demais para depois, se é que resultarem de teu agrado o que indiquei a você. E perdoe-me a temeridade de atrever-me antepor em assunto tão árduo o meu sistema ao de outros de tanto peso.
Por fim, renunciarei da Apologia de Erasmo, mas me afeta veementemente o duelo que desencadeou entre dois príncipes das letras.[7] Erasmo está muito acima de todos, e é o que melhor se expressa, mas também é o mais amargo apesar de seus esforços por conservar a amizade.
Adeus meu Spalatino. Em nosso monastério, dia de santa Prisca, quando recebi a sua carta, 1518. Fr. Martinus Eleutherius. O P. Staupitz anda por Munich, em Baviera; e de lá acaba de escrever-me.
NOTAS:
[1] WA Br 1, 133-134. Do valor doutrinário desta carta deu testemunho o próprio destinatário com a nota marginal que lhe pôs: “1518. Introductio in theologiam”.
[2] WA Br 1, pp. 70-71. Spalatino (Georg Burckhardt, de Spalt) da mesma geração que Lutero. Ele viveu entre 1484-1545, realizou um papel decisivo no início da Reforma devido a sua posição na corte de Frederico, o Sábio da Saxônia, de quem era chanceler e pregador. Foi o mediador entre o príncipe e Lutero, que como humanista, soube frear certas exageros do reformador que escreveu um numeroso corpo de cartas. Cf. I. Hüss, Georg Spalatin, Weimar 1956; Id., Georg Spaltins Verhâltins zu Luther und der Reformation: Luther 31 (1960), pp. 67-80. Nota de Teófanes Egido.
[3] Alude aos escolásticos, tão maltratados pelos humanistas e o reformador, numa das poucas coisas em que estavam de acordo. Nota de Teófanes Egido. Erasmo criticando os teólogos escolásticos declara que “arrogam-se insolentemente o direito de definir e discutir verdades incompreensíveis, profanando assim a majestade da teologia com as palavras e sentenças mais insulsas e triviais. No entanto, esses insignificantes faladores envaidecem-se com sua vazia erudição e experimentam tanto prazer em ocupar-se dia e noite com essas suavíssimas nênias que nem tempo lhe sobre para ler ao menos uma vez o Evangelho e as cartas de são Paulo.” Erasmo Rotterdam, Elogio da loucura (São Paulo, Editora Martin Claret, 2002), p. 82. Igualmente Lutero declara o seu rompimento formal com os escolásticos em sua Disputatio contra scholasticam theologiam. Martinho Lutero, “Debate sobre a Teologia Escolástica” in: Obras Selecionadas – Os primórdios escritos de 1517-1519 (São Leopoldo, Editora Sinodal & Concórdia Editora, 1987), vol. 1, pp. 13-20. Nota do tradutor.
[4] Jo 6:45.
[5] Lutero está fazendo menção a Orígenes, conhecido pelo seu método alegórico, segundo a Escola de Alexandria. Nota do tradutor.
[6] Karlstadt (Andreas Rudolf Karlstadt, 1480-1541). A opinião de Lutero é dos primeiros anos, quando Karlstadt era seu defensor sem restrições. Depois, por interpretações pessoais da Escritura, distanciou-se de Lutero na doutrina e nas práticas eucarísticas, sobressaindo-lhe, chegando a posturas sócio-religiosas “iluminadas”. Terminou como um dos personagens mais odiados por Lutero, sobretudo desde 1523. Cf. E. Hertzsch, Karlstadt und seine Bedeutung für das Luthertum, Gotha 1932.
[7] Refere-se a Apologia contra L. d’Etaples, editada em 1517, e a controvérsia entre ambos a propósito de determinados problemas da carta aos Hebreus.
Traduzido de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 374-376.
Tradução com introdução e notas em 22 de Fevereiro de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
Ao seu irrepreensível George Spalatino,[2] verdadeiro discípulo de Cristo e irmão.
Jesus. Saúde. Até agora você tem me perguntado algumas coisas, ótimo Spalatino, cuja resposta dependia de minha capacidade ou de minha temeridade; agora, ao rogar-me que te oriente em que concerne o conhecimento da Sagrada Escritura, me levanta um problema que excede em muito todas as minhas forças. E, é que nem eu mesmo posso encontrar quem me guie no assunto com tanta transcendência. Cada um, inclusive os mais eruditos e melhores intelectuais, podem perceber o seu lazer. Aí tem a Erasmo: afirma publicamente que são Jerônimo é um teólogo de categoria tal, que a segundo a sua predileção deveria ser o único que tomasse em consideração. Pois bem, se ousar antepor a santo Agostinho, e se me tomasse por árbitro parcial e suspeito por causa de minhas confessas simpatias e de sentença divulgada, e que a tempos aceitei de Erasmo, que afirmou que seria uma enorme vergonha comparar Agostinho com Jerônimo. Outros abundam outras opiniões.
Da minha parte, dada minha pobre erudição e escassa inteligência, não me atreveria a dizer nada em assuntos de tanta importância e entre juízes tão qualificados. A Erasmo sempre o louvo, e o defendo ante todos os que deliberadamente odeiam a Escritura Sagrada, ou a desconhecem por ignorância,[3] mas, intencionalmente me guardo de vomitar no que discordo dele para não alimentar a inveja que eles têm, e apesar disto que vejam em Erasmo muitas coisas que me parecem tão pouco imprudentes para chegar ao conhecimento de Cristo. Tudo isto, está claro, falando como um teólogo, e não como um gramático; porque, de outra forma, o próprio Jerônimo, tão celebrado por Erasmo, não encontraria nada mais erudito e inteligente que isto.
Você sabe que violará o sagrado da amizade se comunicar a alguém a minha opinião sobre Erasmo. Não te digo isto em vão. Bem sabe que há muitos que deliberadamente andam a caça de motivos para caluniar aos bons eruditos. Permaneça em segredo o que disse. E ainda mais: não me faças caso, até que você mesmo não tenha se convencido disto pela leitura.
Não obstante, se te empenha em saber do meu programa de erudito, eu confiarei por completo a você um grupo de amigos íntimos, mas sob a condição de que não me sigas, a não ser criteriosamente. A primeira coisa que você tem que ter presente é a certeza indestrutível de que a Escritura Sagrada é impossível penetrá-la baseado no estudo e inteligência. Portanto, teu primeiro empenho será o começar pela oração; mas, uma oração em que peça para que a mais pura misericórdia te conceda a inteligência da sua palavra, e que se agrade de te usar para a sua glória, não para a tua, nem para a de nenhum humano. Nenhum mestre das palavras divinas poderá ser o melhor do que seu próprio autor, de acordo com o que disse: “todos serão ensinados por Deus.”[4] Portanto, convém sobremaneira que você se desespere com todas as suas forças e de toda a tua inteligência e confie unicamente na ação do Espírito. Atente a quem te diz por experiência própria.
Baseado neste humilde desespero, depois leia a Bíblia em ordem, desde o princípio até o fim, para que aprendas primeiro e de memória a narração livre (o que imagino que terá feito). Para isto será muito proveitoso são Jerônimo em suas Cartas e Comentários, mas para chegar ao conhecimento de Cristo e da graça – ou seja, para penetrar na inteligência mais secreta do espírito – parecem-me muito mais coerentes que santo Agostinho e Ambrósio, porque a percepção de que são Jerônimo “originou” (ou seja, alegorizou) demasiadamente.[5] Digo isto, mas deixo o a juízo de Erasmo, pois, não me pediu a opinião de Erasmo, e sim a minha.
Se lhe agrada o meu método começará pela leitura de Do espírito e da letra de santo Agostinho, obra que o nosso Karlstadt,[6] homem de incomparáveis conhecimentos, explicou e editou com admiráveis comentários. Leis depois o livro Contra Juliano e Contra as cartas dos pelagianos. Também acrescente Da vocação de todas as nações de são Ambrósio, se bem que pelo estilo, pela inteligência e pela cronologia deva ser atribuído a outro autor; todavia, está cheio de erudição. Deixe os demais para depois, se é que resultarem de teu agrado o que indiquei a você. E perdoe-me a temeridade de atrever-me antepor em assunto tão árduo o meu sistema ao de outros de tanto peso.
Por fim, renunciarei da Apologia de Erasmo, mas me afeta veementemente o duelo que desencadeou entre dois príncipes das letras.[7] Erasmo está muito acima de todos, e é o que melhor se expressa, mas também é o mais amargo apesar de seus esforços por conservar a amizade.
Adeus meu Spalatino. Em nosso monastério, dia de santa Prisca, quando recebi a sua carta, 1518. Fr. Martinus Eleutherius. O P. Staupitz anda por Munich, em Baviera; e de lá acaba de escrever-me.
NOTAS:
[1] WA Br 1, 133-134. Do valor doutrinário desta carta deu testemunho o próprio destinatário com a nota marginal que lhe pôs: “1518. Introductio in theologiam”.
[2] WA Br 1, pp. 70-71. Spalatino (Georg Burckhardt, de Spalt) da mesma geração que Lutero. Ele viveu entre 1484-1545, realizou um papel decisivo no início da Reforma devido a sua posição na corte de Frederico, o Sábio da Saxônia, de quem era chanceler e pregador. Foi o mediador entre o príncipe e Lutero, que como humanista, soube frear certas exageros do reformador que escreveu um numeroso corpo de cartas. Cf. I. Hüss, Georg Spalatin, Weimar 1956; Id., Georg Spaltins Verhâltins zu Luther und der Reformation: Luther 31 (1960), pp. 67-80. Nota de Teófanes Egido.
[3] Alude aos escolásticos, tão maltratados pelos humanistas e o reformador, numa das poucas coisas em que estavam de acordo. Nota de Teófanes Egido. Erasmo criticando os teólogos escolásticos declara que “arrogam-se insolentemente o direito de definir e discutir verdades incompreensíveis, profanando assim a majestade da teologia com as palavras e sentenças mais insulsas e triviais. No entanto, esses insignificantes faladores envaidecem-se com sua vazia erudição e experimentam tanto prazer em ocupar-se dia e noite com essas suavíssimas nênias que nem tempo lhe sobre para ler ao menos uma vez o Evangelho e as cartas de são Paulo.” Erasmo Rotterdam, Elogio da loucura (São Paulo, Editora Martin Claret, 2002), p. 82. Igualmente Lutero declara o seu rompimento formal com os escolásticos em sua Disputatio contra scholasticam theologiam. Martinho Lutero, “Debate sobre a Teologia Escolástica” in: Obras Selecionadas – Os primórdios escritos de 1517-1519 (São Leopoldo, Editora Sinodal & Concórdia Editora, 1987), vol. 1, pp. 13-20. Nota do tradutor.
[4] Jo 6:45.
[5] Lutero está fazendo menção a Orígenes, conhecido pelo seu método alegórico, segundo a Escola de Alexandria. Nota do tradutor.
[6] Karlstadt (Andreas Rudolf Karlstadt, 1480-1541). A opinião de Lutero é dos primeiros anos, quando Karlstadt era seu defensor sem restrições. Depois, por interpretações pessoais da Escritura, distanciou-se de Lutero na doutrina e nas práticas eucarísticas, sobressaindo-lhe, chegando a posturas sócio-religiosas “iluminadas”. Terminou como um dos personagens mais odiados por Lutero, sobretudo desde 1523. Cf. E. Hertzsch, Karlstadt und seine Bedeutung für das Luthertum, Gotha 1932.
[7] Refere-se a Apologia contra L. d’Etaples, editada em 1517, e a controvérsia entre ambos a propósito de determinados problemas da carta aos Hebreus.
Traduzido de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 374-376.
Tradução com introdução e notas em 22 de Fevereiro de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
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