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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Prefácio de João Calvino à Loci Communes de Filipe Melanchthon

 Introdução

Em 1546, uma tradução francesa da obra de Filipe Melanchthon de 1545, Loci communes, foi publicada em Genebra sob o título de Sumário da Teologia, ou Lugares Comuns, revisada e ampliada pela última vez por Ms. Filipe Melanchthon.[1] Em sua introdução, Calvino tem o cuidado de elogiar o braço direito de Lutero, em vez de apontar as divergências que existiam entre eles, particularmente sobre o livre-arbítrio e a predestinação.[2] Wulfert de Greef afirma: “Isso é surpreendente porque mais tarde (1552), em um debate com Jean Trolliet sobre a predestinação, fica bastante claro que Calvino e Melanchthon não concordavam e todos os aspectos”.[3]

Contudo, a falta de referência a esses assuntos talvez não seja tão surpreendente, considerando o propósito de Calvino em seu prefácio. Bruce Gordon avalia que o objetivo de Calvino era “tornar o professor de Wittenberg conhecido pelos leitores franceses como um piedoso mestre da igreja e demonstrar que havia um corpo doutrinário consensual entre as igrejas protestantes e que, ao se dirigir aos evangélicos franceses, Calvino falava com a voz comum da Reforma Protestante em geral”.[4]

É certamente uma demonstração da apreciação e magnanimidade de Calvino o fato de ele não ter permitido que essas diferenças em questões que ambos consideravam centrais prejudicassem uma amizade para toda a vida, iniciada em outubro de 1538, quando foram apresentados por Martin Bucer.[5] Calvino valorizava essa amizade, embora, por vezes, a defesa de Lutero por Melanchthon e sua submissão a ele lhe causassem angústia, particularmente no que diz respeito à doutrina da presença real nas controvérsias eucarísticas e à virulência de Lutero sobre o assunto. Na dedicatória de seu comentário sobre Daniel, ele descreveu Melanchthon como “um homem que, por conta de sua incomparável habilidade nos mais excelentes ramos do conhecimento, sua piedade e outras virtudes, é digno da admiração de todas as épocas”. Por sua vez, Melanchthon chamava Calvino de “o teólogo”.[6] A estima mútua entre eles é atestada nas cartas que trocaram, mais do lado genebrino (14) do que do lado de Wittenberg (8). Como afirma Philip Schaff, “Melanchthon era doze anos mais velho que Calvino, assim como Lutero era treze anos mais velho que Melanchthon. Calvino, portanto, pode ter mantido com Melanchthon a relação de aluno com professor.”[7]

Os dois reformadores se encontraram três vezes ao todo: em Frankfurt (1539), Worms (1540) e Regensburg (1541).[8] Após o Colóquio de Regensburg, não se viram novamente, pois Calvino havia reassumido seu cargo em Genebra em setembro de 1541, após uma ausência de três anos. No ano seguinte, Melanchthon sugeriu que Calvino respondesse ao teólogo holandês Albert Pighius, o que Calvino fez, dedicando seu tratado De libero arbitrio a Melanchthon em fevereiro de 1543. Melanchthon agradeceu a Calvino por esse gesto em maio do ano seguinte: “Fiquei muito comovido com sua gentileza e agradeço-lhe por ter demonstrado seu amor por mim ao mundo todo, colocando meu nome no início de seu notável livro, onde o mundo inteiro poderá vê-lo.”[9]

Calvino escreveu esta introdução à principal obra de Melanchthon estando plenamente ciente da diferença em suas abordagens, particularmente no que diz respeito ao problema da predestinação divina e do pecado.[10] Na primeira edição dos Loci, em 1521, e em seu Comentário de Romanos três anos depois, Melanchthon havia afirmado, assim como Lutero na controvérsia com Erasmo, que Deus faz todas as coisas não por permissividade, mas por poder, e que ele predestinou os atos humanos livres.[11] Mais tarde, ele hesitou, dizendo: “Sustento a proposição de que Deus não é o autor do pecado e, portanto, não pode desejá-lo. Davi foi levado à transgressão por sua própria vontade”.[12] Apesar dessa diferença, Calvino deixou suas reservas de lado e escreveu uma introdução excepcional. Schaff comenta: “Este é o único exemplo de um reformador republicando e recomendando a obra de outro reformador, que era a única rival formidável de sua própria obra principal sobre o mesmo assunto (as Institutas) e diferia dela em vários pontos”.[13] Calvino também teve a palavra final nessas trocas fraternas no auge da controvérsia eucarística, dois anos após a morte de seu amigo em abril de 1560, apelando a Melanchthon em uma oração sincera:

Ó Filipe Melanchthon! Apelo a ti, que agora vives com Cristo no seio de Deus, e ali nos espera até que sejamos reunidos contigo naquele repouso bendito. Cem vezes, quando exausto de trabalhos e oprimido por tantas aflições, repousaste tua cabeça familiarmente em meu peito e disseste: “Quem me dera poder morrer neste seio!” Desde então, desejei mil vezes que nos fosse concedido viver juntos; pois certamente assim terias tido mais coragem para a inevitável contenda, e serias mais forte para desprezar a inveja e para não considerar como nada todas as acusações. Desta maneira, também, a malícia de muitos teria sido refreada, os quais, de tua mansidão que chamam de fraqueza, reuniram audácia para seus ataques.[14]

 

 

O texto

 João Calvino, aos leitores[15]

 Se este livro fosse publicado em latim, dificilmente seria digno da minha parte recomendá-lo. Se o fizesse, estaria me expondo a acusações de impertinência e presunção. O seu autor é tão renomado entre os eruditos de hoje que ninguém pode deixar de conhecê-lo. Além de ser reconhecido por sua excelente erudição, ele também merece crédito por citar os escritos de outros, o que é mais um motivo para recomendar suas obras. Como ele é menos conhecido entre aqueles de nosso país que não tiveram o benefício da instrução acadêmica, achei pertinente, juntamente com vários outros que compartilham da mesma opinião, informar aos leitores que muito se pode aprender com este livro e incentivá-los a estudá-lo completamente.

Não comentarei aqui sobre o autor, nem sobre os dons extraordinários com que ele é abençoado, graças pelas quais ele é digno de ser honrado por todos aqueles que amam as coisas de Deus. Apenas me referirei ao livro. Quanto ao seu conteúdo, trata-se de um breve resumo das coisas que os cristãos precisam saber para guiá-los no caminho da salvação. Aqui encontramos tudo o que precisamos saber sobre Deus; como devemos servi-lo; o que precisamos crer a respeito de Cristo; por que ele nos foi enviado por seu Pai; a graça que recebemos por meio dele; em que devemos fundamentar nossa esperança de salvação; como devemos invocar o nome do Senhor; o que são a verdadeira fé e o arrependimento; como podemos ser pacientes na adversidade e onde os cristãos podem encontrar verdadeira consolação; onde devemos discernir a igreja; como ela deve ser governada e quem são seus verdadeiros líderes; qual a utilidade dos sacramentos e sua administração; quais são nossas responsabilidades uns para com os outros, para com aqueles que têm autoridade sobre nós, para com aqueles que estão sob nossa responsabilidade e para com nossos iguais. Estas são as coisas às quais os cristãos devem dedicar suas vidas, se aspiram a usar seu tempo com ensinos proveitosos. Todas essas questões são abordadas neste livro e apresentadas de forma que, tanto jovens quanto adultos, recebam instruções úteis, contanto que as abordem com o desejo de aprender.

O que é louvável é que este autor profundamente erudito não se preocupou com sutilezas nem escreveu com grandeza retórica, como facilmente poderia ter feito, mas simplificou o material ao máximo, buscando apenas edificar seus leitores. Todos nós deveríamos tentar escrever dessa maneira, exceto nas ocasiões em que os argumentos falaciosos apresentados por nossos adversários nos obrigam a agir de outra forma. No entanto, a simplicidade é a maior qualidade ao lidar com a doutrina cristã. É por isso que o autor se absteve de desenvolver certos pontos em profundidade, mesmo que o justificassem.[16] Ele se ateve ao que é considerado necessário para a salvação, deixando de lado ou omitindo questões não absolutamente essenciais, sobre as quais a falta de conhecimento ou o julgamento suspenso não comprometem o resultado, como, por exemplo, a questão do livre-arbítrio. Estou bem ciente de que a apresentação feita aqui não é suficiente para satisfazer a todos.[17] Parece que as capacidades humanas recebem muita liberdade. A razão para isso é que, tendo tratado do cerne da questão, o autor prefere passar adiante e não abordar questões que não são essenciais para a salvação dos crentes. Ele parte do princípio de que o entendimento humano é cego, a tal ponto que nossa razão não pode nos conduzir a Deus ou ao conhecimento dele, a menos que Deus nos ilumine pela graça do seu Espírito Santo. Da mesma forma, nossa própria vontade é perversa e distorcida, a tal ponto que produz apenas inclinações errôneas e rebelião contra Deus e sua justiça, que, consequentemente, lhe desagradam, até que o Espírito Santo renove nossos corações.[18] Assim, vemos que ele considera a graça de Deus como a única origem de qualquer bem espiritual em nossa salvação, e que o homem não tem nada de que se gloriar. Ele, contudo, afirma que o homem possui certa liberdade no que diz respeito a esta vida terrena, no estar acordado e no dormir, em cumprir suas atividades diárias, em trabalhar, estudar ou se ocupar de negócios.[19] Por quê? Ao se limitar ao essencial, ele coloca o homem em seu verdadeiro nível, mostrando que, por si só, ele só pode se desviar de Deus e pecar, caindo assim na perdição, e que qualquer capacidade que ele tenha para fazer o bem não lhe é inerente, mas apenas pela graça de Deus. Dito isso, ele impõe limites a essa liberdade, que chama de liberdade civil, afirmando que Deus reina continuamente do alto. Não há muito o que criticar nisso. Mas era importante esclarecer ao leitor as intenções do autor, para que ninguém se ofendesse com um detalhe menor.

Pode-se igualmente dizer da questão da predestinação. Visto que hoje existem tantos espíritos rebeldes que procuram apenas satisfazer a sua curiosidade e que não conhecem a moderação, num esforço para evitar o perigo, ele prefere tratar apenas do que é necessário saber, deixando outras coisas em suspenso.[20] Se ele desenvolvesse completamente esta questão, daria vazão a um grande debate confuso e desconcertante, sem frutos nem edificação. Afirmo que nada do que é revelado nas Escrituras seja omitido, qualquer que seja o caso. No entanto, quem deseja edificar os seus leitores não deve ser culpado por se limitar às coisas que se sabe serem mais úteis, ou por apenas mencionar ou deixar de lado o que sabe ser improdutivo.

No que diz respeito aos sacramentos, um senso de humildade o levou a acrescentar a absolvição como um terceiro sacramento, além do batismo e da ceia do Senhor.[21] Visto que a absolvição aparece comumente nesse contexto, ele se adaptou à prática comum, desejando evitar controvérsias. Não que ele jamais tenha pretendido colocar a absolvição no mesmo nível do batismo e da Ceia do Senhor, conferindo-lhe o mesmo status, ou obrigar os cristãos a observá-la como se fosse um sacramento instituído por Jesus Cristo. A sua intenção não era impô-la, mas sim permitir que os cristãos recorressem a ela.[22] Isso fica claro na justificativa que ele apresenta. Ele a considera uma prática boa e útil, o que, no entanto, não é motivo suficiente para considerá-la um sacramento.

Se os leitores mantiverem o senso de proporção ao avaliar este livro que o autor demonstrou ao escrevê-lo, tudo correrá bem e nada os impedirá de se beneficiarem enormemente da leitura. Mas o problema é que muitas pessoas hoje em dia não leem livros com o desejo de aprender, seja qual for o assunto, mas sim buscam algo para criticar. E se conseguirem questionar uma única palavra, isso se torna um obstáculo que as impede de se beneficiarem de qualquer forma. Então, ignorando tudo de bom que o livro contém, orgulham-se de uma maneira que causa sua própria ruína. Pior ainda, os mais ignorantes são os mais francos e críticos. Outros são tão exigentes que um único detalhe pode afastá-los completamente, a ponto de uma única frase que não lhes agrade afastá-los do livro como um todo, mesmo que ele contenha muito conteúdo sobre o qual seria aconselhável refletir. Sem dúvida, é um truque do diabo para desviá-los e impedi-los de receber a sã doutrina que lhes é apresentada. Portanto, aqueles que desejam obter algum proveito deste livro devem cultivar um espírito ensinável, deixando de lado tudo o que for um obstáculo ao progresso, para que avancem no caminho correto que leva à pura verdade de Deus, a única coisa à qual somos chamados a nos apegar, usando esses meios humanos para nos ajudar a alcançar esse objetivo.[23]

 

Notas:

[1] La Somme de théologie, ou Lieux communs, revus et augmentez pour la dernière fois, par M. Philippe Melancthon. A obra de Melanchthon, que apareceu pela primeira vez em 1521, foi expandida em diversas edições, principalmente em 1535 e 1545, antes de sua versão definitiva em 1559, um ano antes da morte do autor. A “última vez” mencionada no título francês é provavelmente uma estratégia de marketing. Foi traduzido do francês por Alison Wells, com introdução e anotações de Paul Wells. As notas acrescentadas por mim, serão identificadas como “nota do tradutor”.

[2] Barbara Pitkin nota que “há ainda outro motivo pelo qual o período de 1539 a 1546 representa um campo fértil para explorar as diferenças entre as concepções de Calvino e Melanchthon sobre a natureza humana. Foi também nesse período que cada um desenvolveu sua própria compreensão da natureza e das capacidades humanas, levando-as a uma expressão mais completa. Em 1539, Calvino publicou uma edição revisada e ampliada de suas Institutas, que continha discussões novas e detalhadas sobre a natureza humana, a natureza do arrependimento e a vida cristã. Em 1542, publicou um tratado sobre a natureza e a imortalidade da alma, ostensivamente uma refutação da ideia de que, após a morte, a alma ou ‘dorme’ em um estado de esquecimento até o dia do juízo final ou que, de fato, morre com o corpo. Finalmente, em 1543, defendeu a servidão da vontade em um tratado expressamente dedicado a Melanchthon.” Barbara Pitkin, “The Protestant Zeno: Calvin and the Development of Melanchthon’s Anthropology” in: The Journal of Religion, vol. 84, no. 3 (July 2004), pp. 350-351. Nota do tradutor.

[3] Wulfert de Greef, The Writings of John Calvin: An Introductory Guide, p. 193. De Greef sugere que a referência de Calvino à “acomodação” de Melanchthon (ver o Prefácio abaixo) é crítica, enquanto pode ser interpretada como um reconhecimento da abordagem sensível do escritor de Wittenberg a questões difíceis.

[4] Bruce Gordon, Calvin (New Haven: Yale University Press, 2009), p. 162. Melanchthon não respondeu à tradução e, por não falar francês, provavelmente nunca leu o texto.

[5] James T. Hickman, “The Friendship of Melanchthon and Calvin,” Westminster Theological Journal 38.2 (1976): 152–65. Cf. Clyde L. Manschreck, Melanchthon: The Quiet Reformer (Eugene, OR: Wipf & Stock, 2009), pp. 254–255.

[6] Phillip Schaff, History of the Christian Church: Modern Christianity. The Swiss Reformation, vol. 8, p. 344 (as páginas 344–354 referem-se à Calvino e Melanchthon).

[7] Phillip Schaff, History of the Christian Church: Modern Christianity. The Swiss Reformation, vol. 8, p. 344.

[8] O Colóquio de Regensburg foi a última oportunidade realista de reunir as confissões católica e protestante na Alemanha. Ele fracassou devido à incapacidade de se chegar a um acordo sobre uma fórmula satisfatória a respeito da doutrina eucarística e da questão da autoridade da Igreja.

[9] Phillip Schaff, History of the Christian Church: Modern Christianity. The Swiss Reformation, vol. 8, p. 348.

[10] Barbara Pitkin conclui que “Calvino estava claramente ciente de algumas dessas mudanças e respondeu a elas, ainda não diretamente a Melanchthon, pois continuava a esperar seu apoio e concordância. Em vez disso, alertou os leitores franceses de Melanchthon sobre as deficiências na abordagem do autor a temas como o livre-arbítrio e a predestinação, no prefácio que escreveu para a tradução francesa de 1546 dos Loci communes. Ali, Calvino adverte seus leitores sobre a ortodoxia de Melanchthon e seu desejo de simplicidade. É esta última qualidade, afirma Calvino, que levou o autor a conceder certa liberdade em assuntos terrenos, a abordar a predestinação apenas superficialmente e a incluir a absolvição entre os sacramentos. Calvino, assim, explicitou, desta vez citando nomes, três áreas-chave de divergência, ainda convicto de que estas refletiam meramente diferentes maneiras de ensinar e não divisões permanentes ou intransponíveis.” Barbara Pitkin, “The Protestant Zeno: Calvin and the Development of Melanchthon’s Anthropology” in: The Journal of Religion, vol. 84, no. 3 (July 2004), pp. 376-377. Nota do tradutor.

[11] Na edição de 1521 do Loci de Melanchthon, são citados doze textos e afirma-se que “já que tudo o que acontece ocorre necessariamente segundo a predestinação divina, a nossa vontade não tem liberdade”, acrescentando-se em seguida: “O que mais Paulo está fazendo em Romanos 9 e 11 senão atribuir tudo o que acontece à predestinação divina?” Philip Melanchthon, Commonplaces: Loci Communes, 1521 (St. Louis, Concordia Publishing, 2014), pp. 65–66.

[12] Phillip Schaff, History of the Christian Church: Modern Christianity. The Swiss Reformation, vol. 8, p. 349.

[13] Phillip Schaff, History of the Christian Church: Modern Christianity. The Swiss Reformation, vol. 8, p. 350.

[14] Baum, Cunitz, Reuss, eds., Ioannis Calvini Opera Quae Supersunt Omnia, (Brunschwig: C.A. Schwetschke, 1870), vol. 9, p. 461.

[15] Segue-se o “Prefácio de João Calvino à tradução francesa de Loci Communes de Filipe Melanchthon” in Ioannis Calvini Opera Quae Supersunt Omnia, ed. Baum, Cunitz, Reuss (Brunschwig: C.A. Schwetschke, 1870), vol. 9 pp. 847–850.

[16] A marca registrada de Calvin era a simplicidade e a concisão.

[17] As formulações de Melanchthon sobre o tema do livre-arbítrio são bem mais abrangentes do que o tom incisivo do De servo arbitrio de Martinho Lutero contra Erasmo (1525). Calvino provavelmente acha que Melanchthon não foi longe o suficiente, mas se absteve de críticas explícitas.

[18] Apesar das reservas de Calvino, sua reação moderada deve-se em parte ao fato de que os pontos essenciais estão seguros — a pecaminosidade total do homem e a necessidade da obra do Espírito Santo na renovação.

[19] Freedom in terrestrial things was indicated by Luther in his argument against Erasmus, and not to be confused with man’s incapacity in the spiritual realm, apart from regeneration. In the 1521 Loci, Melanchthon distinguishes between internal and external freedom, Commonplaces, 76. Considered according to predestination there is no freedom in either domain, but if the will is considered according to external works, “natural judgment concludes that some freedom exists.” A liberdade nas coisas terrenas foi indicada por Lutero em seu argumento contra Erasmo, e não deve ser confundida com a incapacidade do homem no reino espiritual, exceto pela regeneração. Em Loci (1521), Melanchthon distingue entre liberdade interna e externa (Commonplaces, 76). Considerada segundo a predestinação, não há liberdade em nenhum dos domínios, mas se a vontade for considerada segundo as obras externas, “o juízo natural conclui que existe alguma liberdade”.

[20]  Calvino respondeu em 1543 aos primeiros seis livros de Albert Pighius, Ten Books on Human Free Choice and Divine Grace with his. A.N.S. Lane, ed, De Libero Arbitrio in: The Bondage and the Liberation of the Will (Grand Rapids, Baker Books, 1996).

[21] Veja Herman A. Speelman, Melanchthon and Calvin on Confession and Communion: Early Modern Protestant Penitential and Eucharistic Piety (Göttingen: Vandenhoek & Ruprecht, 2016).

[22] Para Calvino, a absolvição está relacionada ao “poder das chaves” e ao perdão por meio da pregação do evangelho, em contraste com o sacramento da absolvição. Veja John Calvin, Institutas 3.4.14–15 e 4.19.16.

[23] Calvino aprecia contrastar o caminho reto e estreito da verdade em Cristo com caminhos tortuosos, “tempestuosos e incertos”. Veja, por exemplo, seu comentário sobre Cristo como mediador único no Comentário de 1Timóteo. Opera, vol. 42, p. 270.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Acerca do Magistrado Civil - Philip Melanchthon

Eu considero muito importante esta seção sobre magistrados. Por enquanto, devo seguir a divisão popular por razões pedagógicas. Alguns magistrados são civis e outros eclesiásticos. O magistrado civil é aquele que porta a espada e vela pela paz civil. Paulo aprova isso em Rm 13. As questões sob a espada são direitos civis, ordenanças civis dos tribunais públicos e penalidades para criminosos. É obrigação da espada fazer cumprir as leis contra assassinato, vingança, etc. Portanto, o fato de que o magistrado exerce a espada é agradável a Deus. O mesmo pode ser dito aos advogados se eles distorcem a lei ou defendem os oprimidos, mesmo que os litigantes cometam grandes pecados. Ao empunhar o poder da espada, tenho isso a dizer. Em primeiro lugar, se os governantes ordenarem qualquer coisa contrária a Deus, não devem ser obedecidos. Em 5.29: “Devemos obedecer a Deus e não aos homens”. Você tem inúmeras declarações deste princípio, especialmente aquele muito bom em Am 7.10-17.

No próximo lugar, se eles mandarem qualquer coisa que seja para o bem público, devemos obedecê-los de acordo com Rm 13.5: “Portanto, deve-se sujeitar, não só para evitar a ira de Deus, mas também por causa da consciência”. Porque o amor nos obriga a cumprir todas as obrigações civis. Finalmente, se alguma coisa é comandada com capricho tirânico, devemos suportar essa magistratura também por causa do amor, já que nada pode ser mudado sem uma revolta ou sedição pública. Pertinente é a palavra de Cristo: “Mas se alguém te atingir na face direita, volte-se para o outro também” (Mt 5.39). Mas se você pode escapar sem ofensa e perturbação pública, faça isso. Por exemplo, se você foi injustamente jogado na prisão e pode fugir sem perturbações públicas, nada proíbe sua fuga de acordo com 1 Co 7.21: “Mas se você pode ganhar sua liberdade, aproveite a oportunidade”. No que diz respeito aos magistrados eclesiásticos, primeiro, pensamos que os bispos são servos e não potestades ou magistrados. Em segundo lugar, os bispos não têm o direito de estabelecer leis, uma vez que foram ordenados a pregar apenas a Palavra de Deus, e não a dos homens, como dissemos acima. Isso parece suficientemente claro a partir de Jr 23.

1. Portanto, em primeiro lugar, se eles ensinam as Escrituras, devem ser ouvidos como se o próprio Cristo falasse. Lc 10.16 traz isto: “Aquele que te ouvir, ouça-me”. Isso se refere à Escritura, não às tradições humanas, como é evidente quando ele diz em Mt 10.41: “Aquele que recebe um profeta porque é profeta ...”; ele não diz aqui “pseudoprofeta”.

2. Em segundo lugar, se eles ensinam algo contrário às Escrituras, não devem ser ouvidos. Lemos em At 5.29: “Devemos obedecer a Deus e não aos homens”. Mt 15.6: “Então, por causa da sua tradição, você anulou a palavra de Deus”. Naqueles dias, o Papa decretou algo contrário à justiça divina, quando emitiu a bula em que Lutero foi condenado; nisto ele não deve ser obedecido.

3. Em terceiro lugar, se eles decretarem qualquer coisa que vá além das Escrituras para subjugar as consciências, não devem ser ouvidos. Pois nada além da lei divina obriga a consciência. Paulo estava falando sobre isso em 1 Tm 4.1ss., onde ele chama a lei do celibato e de alimentos proibidos "doutrinas dos demônios". Ele faz isso, embora essas coisas não parecem contradizer as Escrituras e, embora pareçam ser coisas que, por si só, não são ruins. O celibato e o abster-se de carne não são coisas malignas em si mesmas. Mas essas regras são impiedosas se você acha que está cometendo pecado ao não obedecê-las. Aqueles que pensam que um homem está pecando, por não observarem as horas canônicas ou que comem carne no sexto ou sétimo dia, estão ensinando coisas impiedosas. Pois um bispo não pode obrigar uma consciência cristã. 2 Co 13.10: “Escrevo isso enquanto estou longe de vocês, para que, quando eu for, não precise ser severo no uso da autoridade que o Senhor me deu para construir e não para derrubar”.

4. Em quarto lugar, se você não quer sobrecarregar a consciência com a lei de um bispo, mas interpretar a sua exigência apenas como uma obrigação externa (como homens espirituais e aqueles que, geralmente, entendem que a consciência não pode ser vinculada por nenhuma lei humana), você considerará a lei de um bispo como estando pareada com a tirania de um magistrado civil. Assim qualquer que seja a exigência dos bispos que vá além da Escritura, é tirania, já que eles não têm o direito de ordenar. Você suportará esses fardos por causa do amor, de acordo com a passagem: “Mas se alguém te golpear a sua face direita, volte-se para o outro também” (Mt 5.39). Além disso, se você pode se opor sem ofensa, nada o proíbe. Por exemplo, se sem causar perturbação pública você puder sair da prisão na qual você está detido por um tirano, nada o impede, de acordo com 1 Co 7.21: “Mas se você pode ganhar a sua liberdade, aproveite a oportunidade”. E Cristo dispensou as tradições farisaicas em Mt 9 e 12, entretanto, ele não destruiu as leis civis. Agora que as leis farisaicas são dispensadas, somos mais livres, não só porque são uma imposição sobre cada indivíduo com estes que são fardos comuns, mas também, porque eles facilmente obrigam a consciência. A regra e direção de todas as leis humanas estão sob a fé e o amor, e especialmente sob a necessidade. A necessidade libera de todas as tradições se, em qualquer ponto, a alma ou a vida do corpo caíram em perigo através da tradição.

Extraído de Philip Melanchthon, Loci Communes Theologici in: Willhelm Pauck, ed., Melanchthon and Bucer (Louisville, Westminster John Knox Press, 2006), pp. 148-150.
Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Carta de Martinho Lutero a George Spalatino [Novembro de 1521]

A George Spalatino, discípulo de Cristo, seu amigo na fé.[1]

Jesus. Saudações. Creio que nunca recebi uma carta tão desagradável como a última que você me enviou. Estava decidido não somente a demorar responder, como também a não responder.

Em primeiro lugar, não estou disposto a suportar o que me disse, de que o príncipe não suportará que escreva contra o de Magnuncia, nem nada que possa perturbar a paz pública; pelo contrário, permanecerei sem você, sem o príncipe e sem ninguém no mundo. Se enfrentei o papa, criador do engano, vou me deter diante a sua criatura? Declara muito formoso que não se deve perturbar a paz pública, e você sofreria por turbar a paz eterna de Deus com as ações ímpias e profanas dessa perdição? Isto não sucederá, caro Spalatino; não ocorrerá isto, príncipe, senão que por amor das ovelhas de Cristo e para exemplo dos demais há que resistir ferozmente a este perigosíssimo lobo. Por isso lhe envio o panfleto[2] que preparei contra ele quando recebi a sua carta que não me fez mudar em nada, ainda que o submeti a juízo de Felipe para que o corrigisse no que cresse ser necessário. Não pense impedir a devolução do livro a Felipe nem desestimulá-lo. Considere que não farei isto.

Não deveria impressioná-lo que nós e nossos amigos nos vejamos na precisão de ouvir insultos por parte de nossos adversários, ou dos excessivamente prudentes nas coisas divinas, já que você sabe muito bem que nem Cristo, nem o apóstolo foram agradáveis aos homens. Além do mais, até agora não chegou aos meus ouvidos que aos nossos sejam acusados de algum crime, senão somente de depreciar a impiedade e as doutrinas da perdição, ainda que não me agradem as atitudes dos jovens que receberam mal o enviado dos antonianos.[3] Mas, quem seria capaz de frear sempre a todos e em todo lugar? Ou, eles jamais obram mal? Até os discípulos sofreram a vergonha de Judas Iscariotes e diariamente tiveram que suportar as comunidades por causa de seus maus membros; somente de nós é exigido que não gemamos. Peço a você que não espere a redação de uma apologia para cada um daqueles que desagrada a Wittenberg; não há nada mais impossível.

Não perecerá o evangelho porque algum de nós peque por falta de modéstia: os que por este motivo se afastam da palavra estão provando que não foi ela que aceitaram, senão somente a sua glória. As portas do inferno não poderão separar dela os que acolheram a palavra por causa da palavra. O que quer abandoná-la, que a abandone. Por que não se fixam no melhor e mais sólido que possuímos? Por que se apegam somente ao pior e ao mais fraco? É Felipe e os seus amigos acusados deste crime? Por que condenam o todo por uma parte? É um pecado mais leve receber um pregador ímpio do que aceitar fielmente a sua doutrina. Todavia, este pecado se vê elogiado e o pregador condenado como irredimível. E juízes e equidades desta atitude te fazem temer que o evangelho vá perecer por razões que não são mais do que fumaça?[4]

Confirmo a revogação das missas neste livro que te envio junto a carta.[5] Não pude preparar a Paraclesis, nem creio ser necessário fazê-lo, pelo fato de abordar o assunto em minha Tessaradecade.[6] Por que não facilita a leitura desta obra? Por que não se convence de ler o evangelho e a paixão de Cristo, pois não encontrará consolo melhor? Terei que escrever uma consolação para cada caso? O que diriam os inimigos? Além do mais, espero que baste a Paraclesis de Felipe, pois imagino que no intervalo cessará a enfermidade de seu ânimo, e desta forma a minha chegaria tarde e resultaria inútil. Não será ímpio, nem perigoso diferir ou descuidá-lo de tais circunstâncias.

O que de fato me preocupa agora é a perdição das almas, que é sobre o que ando trabalhado. Estou determinado a atacar os votos dos religiosos e liberar os jovens deste inferno do celibato, imundo e condenadíssimo por causa das coceiras e das poluções. Estou escrevendo isto em parte por causa das tentações, e em parte pela indignação que sinto.[7] Verá que é bom. Não há um só Satanás comigo, ou melhor, contra mim, que estou sozinho e, às vezes, me faço só.

Adeus e saúda a todos os nossos. A Gerbel[8] e lhe escrevi quando recebi a sua última e tudo estava fechado e selado.

Dia de são Martin, 1521. Seu Martinus Luther.

NOTAS:
[1] WA Br 2, 402-403.
[2] Alberto de Maguncia para conseguir ingressos que sanassem as suas finanças em Setembro de 1521 realizou uma exposição indulgenciando as relíquias de sua igreja em Halle. Para evitar reações enviou emissários a Wittenberg que tratassem de convencer ao príncipe eleitor e a amigos de Lutero da conveniência de não se opor. Parece que em parte conseguiu. Mas Lutero escreveu um furioso panfleto Contra o ídolo de Halle, cuja publicação irritou o príncipe. Note-se a violência de Lutero e a reincidência do cardeal, personagem ambíguo e não afetado pelos sucessos de 1517.
[3] Em 5 de Outubro, seguindo o costume, os monges antonianos de Lichtenburg enviaram delegados para recolher esmolas. Foram recebidos violentamente e não foi possível nem sequer pregar.
[4] Is 7:4.
[5] De Abroganda missa privata M. Lutheri setentia: WA 8, 411-476.
[6] A Paraclesis, ou tratado consolatório, neste caso dedicado ao príncipe. Tessaradecas consolatoria pro laborantibus et oneratis, escrito em 1520: WA 6, 104-134.
[7] Plano de sua obra De votis monasticis: WA 8, 573-669.
[8] Nicolás Gerbel foi um jurisconsulto de Estraburgo a quem se dirigiu em 1 Novembro de 1521 (WA Br 2, 396-398).


Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 390-391.
Traduzido em 5 de Janeiro de 2015.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.

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