Mostrando postagens com marcador Ceia do Senhor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ceia do Senhor. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Os Artigos de Marburgo [1529]

Estes artigos são resultado do colóquio de Marburgo, realizado entre os dias 1 a 4 de Outubro de 1529, organizado pelo Princípe eleitor Philip de Hesse.

Artigo I
Que nós de ambos os lados, cremos e confessamos unanimemente que há apenas um único verdadeiro Deus natural, criador de todas as criaturas, e que este mesmo Deus é um em essência e natureza e trino em pessoas, a saber, Pai, Filho e Espírito Santo, como foi decretado no Concílio de Nicéia e é cantado e lido no Credo Niceno pela Igreja Cristã inteira em todo o mundo

Artigo II
Cremos que não o Pai, nem o Espírito Santo, mas o Filho de Deus Pai, ele próprio por natureza Deus verdadeiro, se tornou homem mediante a operação do Espírito Santo, sem a colaboração de semente masculina, nascendo da pura Virgem Maria, completo em corpo e alma como outro homem qualquer, mas sem pecado.

Artigo III
Que este Filho de Deus e de Maria, não dividido na pessoa, Jesus Cristo, foi crucificado por nós, morreu, foi sepultado, ressuscitou dos mortos, subiu ao céu, está assentado à direita de Deus, Senhor sobre todas as criaturas, e virá para julgar os vivos e os mortos.

Artigo IV
Cremos que o pecado original é inato, e herdado por nós de Adão, e é pecado de tal espécie que condena todas as pessoas. E se Jesus Cristo não tivesse vindo para nos ajudar com sua morte e vida, ser-nos-ia necessário morrer eternamente e não poderíamos ter entrado no reino de Deus e alcançado a salvação.

Artigo V
Cremos que somos salvos desse pecado e de todos os outros pecados, bem como da morte eterna, se cremos neste Filho de Deus, Jesus Cristo, que morreu por nós e que, além dessa fé, nenhuma obra posição ou ordem nos pode livrar de qualquer pecado.

Artigo VI
Que essa fé é dádiva de Deus, que não podemos obter mediante quaisquer obras precedentes ou méritos, nem adquirir por meio de nossas próprias forças, mas o Espírito Santo outorga e cria essa fé em nossos corações, como lhe agrada, quando ouvimos o Evangelho ou Palavra de Cristo.

Artigo VII
Que essa fé é nossa justiça perante Deus, em vista da qual Deus nos reconhece e nos considera justos, piedosos e santos, sem todas as obras e méritos e, por intermédio dela, nos livra do pecado, da morte e do inferno, e nos recebe em sua graça e nos salva, mediante seu Filho, no qual cremos e assim usufruímos e compartilhamos sua justiça, vida e todos os bens. Portanto, toda a vida e os votos monásticos, quando se considera que contribuem para a salvação, são completamente condenados.

Artigo VIII
Que o Espírito Santo normalmente não outorga essa fé ou dádiva a ninguém sem pregação, ou a palavra oral, ou tendo precedido o Evangelho de Cristo, mas, mediante essa palavra oral, e com ela produz e cria a fé onde e em quem lhe agrada (Rm 10:17).

Artigo IX
Que o Santo Batismo é um sacramento que foi instituído por Deus como auxílio a essa fé, e porque a ordem de Deus “ide, batizai”, e a promessa de Deus “aquele que crê” estão contidas nele, não é mero sinal vazio ou senha entre cristãos, mas antes sinal e obra de Deus Poe cujo intermédio nossa fé cresce e somos regenerados para a vida eterna.

Artigo X
Que essa fé, quando fomos considerados e declarados justos e santos por intermédio, pela eficácia do Espírito Santo, pratica boas obras por nosso intermédio, a saber, amar nosso próximo, orar a Deus e sofrer toda espécie de perseguição.

Artigo XI
Que a confissão ou busca de aconselhamento com seu pastor ou próximo deve, na verdade, ser voluntária e livre, não obstante, é muito útil às consciências aflitas, atribuladas ou oprimidas pelos pecados, ou que caíram em erro, especialmente devido à absolvição ou ao consolo do Evangelho, que é a verdadeira absolvição.

Artigo XII
Que todos os magistrados e leis seculares, tribunais e decretos, onde quer que existam, são verdadeiramente bons, e não são proibidos como alguns do papado e anabatistas ensinam e sustentam. Pelo contrário, que o cristão que nasce ou é chamado para uma dessas instituições, certamente pode ser salvo pela fé em Cristo, do mesmo modo como no estado de pai ou mãe, esposo ou esposa, etc.

Artigo XIII
O que se denomina tradição ou ordenança humana em questões espirituais ou eclesiásticas, caso não contradiga evidentemente a palavra de Deus, pode ser conservado ou abolido livremente conforme (a necessidade) do povo com o qual tratamos, a fim de evitar escândalo desnecessário na prática do amor para o fraco e para se preservar a paz. Também que a doutrina da proibição do matrimônio dos sacerdotes é doutrina do demônio (1 Tm 4:1 ss.)

Artigo XIV
Que o Batismo de crianças é correto, e que, mediante ele, elas são recebidas na graça de Deus e na cristandade.

Artigo XV
Todos cremos e sustentamos, no tocante à Ceia de nosso querido Senhor Jesus Cristo, que ambas as espécies devem ser usadas segundo a instituição de Cristo; também que a missa não é obra mediante a qual se obtém graça para outros, vivos ou mortos; também que o sacramento do Altar é o sacramento do verdadeiro corpo e sangue de Cristo, e que a participação espiritual desse corpo e sangue é especialmente necessária para todo cristão verdadeiro. Do mesmo modo, que o uso do sacramento, tal como acontece com a Palavra, é dado pelo Deus onipotente a fim de que consciências fracas possam, por seu intermédio, ser estimuladas a fé, pelo Espírito Santo. E apesar de, no momento, não concordarmos quanto a se o verdadeiro corpo e sangue de Cristo estão corporalmente presentes no pão e vinho, apesar disso, cada lado deve demonstrar amor cristão ao outro, o quanto permitir a consciência, e ambos devem orar com fervor ao Deus onipotente para que ele, mediante seu Espírito, nos confirme na reta compreensão Amém.

Martinus Luther, Johannes Brentius, Justus Jonas Johanes Oecolampadius, Philipus Melanchthon, Huldrychus Zwinglius, Andreas Osiander, Martinus Butzerus, Stephanus Agrícola, Caspar Hedio.

domingo, 7 de setembro de 2014

Carta de Martinho Lutero a Felipe Melanchthon [1521]

A Melanchthon

1 de Agosto de 1521[1]

Você não terminou de dar razões suficientes para medir com a mesma norma o voto dos sacerdotes e dos freis. A mim o que mais me convence é que a ordem sacerdotal foi estabelecida como livre por Deus; mas, não foi assim com os monges que espontaneamente escolheram e ofereceram o seu estado a Deus. Quase me atreveria a decidir que quem ingressou nestes compromissos antes de sua puberdade que podem sair dela sem escrúpulo, se não fosse porque ainda não me atrevo a sentenciar nada acerca dos que são velhos e viveram durante longo tempo neste estado.

Mesmo porque, Paulo afirma com toda liberdade que foram os demônios quem vedaram o matrimônio aos sacerdotes;[2] assim, como a voz de Paulo é a voz de Deus, não há dúvida de que há que confiarmos nela, de forma que ainda que houvessem pactuado esta proibição diabólica desde o princípio, agora, quando são conscientes de a quem prometeram, há que romper confiadamente o pacto.

Esta proibição do diabo expressada claramente na Sagrada Escritura me obriga e força a aprovar o realizado pelo bispo cameracense.[3] Deus não engana, nem mente ao dizer que esta é uma proibição do diabo. Portanto, não pode ser estável o pacto firmado, já que se fez na força de um erro ímpio contra Deus e, além disso, depois de havê-lo reprovado e condenado. Disse expressamente serem espíritos do erro os autores de tal proibição.

Por que, então, há de temer a aceitação desta sentença divina, ainda que se oponham todas as portas do inferno? Não se pode comparar isto com o juramento que os filhos de Israel fizeram aos gibeonitas, porque tinham o preceito de oferecer a paz e de admiti-la se lhes era oferecida; por isso, os admitiram na qualidade de prosélitos aderidos a seu rito. Tudo se fez em Gibeão: nada houve nele que se fizesse contra Deus, nem por sugestão dos espíritos do erro, e ainda que a princípio murmurassem, depois se achegaram a ele.[4]

Além do mais, acrescenta que o celibato é uma instituição meramente humana; o homem que o instituiu pede rescindi-lo e, portanto, pode executa-lo qualquer um cristão. Fixa-te que o digo, inclusive supondo que não tenha se estabelecido por demônios, senão por um bom homem.

Ao não contar com esta sentença divina que se refere aos monges, não é seguro afirmar o mesmo deles. Pessoalmente não me atreveria fazê-lo e, por isso, tão pouco aconselharia aos demais que o fizessem. Desejo fosse possível fazê-lo para que de agora adiante ninguém se fizesse monge, ou para que saíssem os que o são, e se encontram na idade da luxúria. Há que evitar os escândalos, ainda que fossem lícitos, nas coisas em que a Escritura não nos manifesta com clareza.

Quanto ao que o ótimo Karlstadt cita de são Paulo que “há que evitar as jovens viúvas e escolher as sexagenárias”[5], desejo que fosse convincente! Porque podem facilmente arguir que o apóstolo o estabelece para as futuras, e que das anteriores disse estar condenadas por haver falhado com o primeiro compromisso. Essa autoridade evitada não pode constituir um fiel apoio para a consciência, que é o que andamos buscando. E, o que é senão a razão a que inclui que “melhor é casar do que viver abrasado” para evitar a fornicação?[6] Então, o matrimônio com o pecado quebra o pacto. Somente buscamos a Escritura e o testemunho da vontade divina. Quem sabe se ao se abrasar hoje, não se abrasaria também amanhã?

Nem eu me atreveria conceder aos sacerdotes o matrimônio somente por esse abrasamento, se são Paulo não disse que tal proibição do matrimônio é errônea, diabólica, hipócrita e condenada por Deus.[7] Ou seja, que ainda que independente do ardor, têm que abandonar o celibato somente pelo temor de Deus. Mas sobre este problema seria útil discutir com maior compromisso. Seria muito satisfatório que pudesse ajudar aos frades e as freiras, mas eu sinto muito por estes pobres moços e moças, atormentados pelas poluições e coceiras.

Quanto à comunhão, sob as duas espécies, não argumentarei por meio de exemplos, senão com base na Palavra de Cristo. Não há argumento que convença de que peca, ou deixe de fazê-lo quem receba somente uma espécie; o que há que ter em conta é que Cristo não exige nenhuma das duas, como não exige necessariamente o batismo quando um tirano, ou o mundo fazem impossível recorrer à água. Também a violência das perseguições separa o marido da esposa que Deus proibiu que se separassem, sem que um ou o outro consentisse na separação. Da mesma maneira, tão pouco, quem os corações piedosos veem-se privados da segunda espécie, e quem o consente ou aprova, ninguém poderá negar que são papistas, e não cristãos, nem negar que cometem pecado.

Se não existe esta exigência da necessidade, e sendo que há um tirano que urge, não vejo como possa pecar quem recebe apenas uma espécie. Quem poderá eliminar pela força ao tirano que se opõe? Portanto, o único que vale é a razão que dita que não se observa o que foi estabelecido por Cristo, mas nada define a Escritura, sem a qual não podemos afirmar que constitua pecado. É algo formado por Cristo, mas livremente permitido e não pode ser cativado nem no todo, nem na parte. O que fazer se, como no caso do mártir Donato, que se rompeu e derramou o cálice e alguns não puderam comungar esta espécie, porque não se tem disponível mais vinho, ou se ocorressem em outras circunstâncias? Em resumo, sendo que a Escritura não se pronuncia, nem eu me atrevo dizer de minha parte que isto seja pecado. É muito conveniente, todavia, que restaurem ao seu prístino estado este ensino de Cristo, e precisamente este era o primeiro que havia pensado solicitar quando regressar aí. Conhecemos há muito este tirano, e podemos resisti-lo para não nos vermos obrigados a comungar somente sob uma espécie.

O que nunca voltarei a fazer é celebrar a missa privada. Rogo fervorosamente a Deus que se apresse em conceder-nos o seu Espírito em abundância. Suspeito que não tardará que Deus visite a Alemanha pelo merecido que tem a sua incredulidade, sua impiedade e seu ódio pelo evangelho. Quando isto acontecer eles lançarão sobre nós a culpa deste açoite, por provocarmos a Deus com nossa heresia e nos “convertemos na vergonha dos homens e no desejo do povo”;[8] mas, eles acharão desculpas para os seus pecados, se justificarão comprovando que os réprobos não se converterão, nem pela bondade, nem pela ira e muitos se escandalizarão. Que se faça, sim, que se cumpra a vontade do Senhor. Amém!

Se você é pregador da graça, prega a graça verdadeira, não a graça fingida; se a graça é verdadeira, tenha a certeza de que se trata do pecado verdadeiro, não do fingido, porque, Deus não salva os pecadores fingidos. Seja pecador e peque fortemente, mas confia e se alegre mais fortemente ainda em Cristo, vencedor do pecado, da morte e do mundo. Há de pecar enquanto vivamos aqui. Esta vida não é a morada da justiça, senão que, como disse Pedro, estamos a espera de novos céus e de nova terra em que habite a justiça.[10] Basta que pela riqueza da glória tenhamos conhecido o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo;[11] deste não nos separará o pecado, inclusive ainda que forniquemos e matemos milhares e milhares de vezes ao dia. Por que é que crê ser tão mingado o preço da redenção de nossos pecados, pago por tão grande e bom cordeiro?

Reza forte ainda que seja um pecador fortíssimo.

Dia do apóstolo são Pedro, 1521.[12]


NOTAS:
[1] WA Br 2, 370-372. Como se pode observar a carta somente foi conservada fragmentariamente. Felipe Melanchthon (1497-1560), indubitavelmente o personagem mais próximo de Lutero, apesar de seu distanciamento teológico progressivo e as suas diferenças de caráter, foi na realidade o primeiro sistematizador da teologia de Lutero (em suas Loci Communes, 1521). Lutero sempre o venerou, se preocupou com a sua saúde, o animou e lhe exasperou em muitas ocasiões. Está presente em quase todas as tentativas de aproximação entre Roma e a Reforma. Graças a ele pode-se preservar – ao menos num setor do luteranismo – um humanismo do qual o reformador e Amsdorf careciam. Cf. H. Bornkamm, Philipp Melanchthon, Göttingen 1950; P. Meinhold, Philipp Melanchthon, der Lehrer der Kirche, Berlin 1960; L. Stern, Martin Luther und Philipp Melanchthon. Ihre ideologische Herkunft und geschichtliche Leistung, 1953; W.H. Heuser, Luther und Melanchthon, Einheit in Gegensatz, München 1960; V. Vajta, Luther und Melanchthon, Göttingen 1961; M. Greschat, Melanchthon neben Luther, Witten 1965.
[2] Em 1 Tm 4:1. Veja a forma de argumentar de Lutero e a força que faz sobre determinadas passagens da Escritura.
[3] Bartolomé Bernhard de Feldkirch prefeito de Kemberg (daí a denominação de “cameracense” aludindo ao famoso Pierre d’Ally bispo de Cambrai) que se casou com farto consentimento de Lutero (Lutero e Melanchthon, 26 de Maio de 1521: WA Br 2, 347).
[4] Em Js 9:3 ss.
[5] Em 1 Tm 5:12. Esta primeira parte da carta, ponto de partida das variações posteriores do pensamento de Lutero sobre o celibato, esteve determinada pelas teses sustentadas por Karlstadt em Junho deste ano em Wittenberg.
[6] Em 1 Co 7:2 e 9.
[7] Ver nota 2 desta carta.
[8] Em Sl 22:7.
[9] Esta expressão foi uma das mais atacadas pela apologética antiluterana. Pelo contexto o leitor verá o forte conteúdo teológico e cristológico, veementemente (era o seu humor) expresso por Lutero. Uma exegese aceitável deste lugar, cf. J. Lortz, o.c. I, 317 ss.
[10] Em 2 Pe 3:13.
[11] Em 1 Jo 1:29.
[12] Festividade de São Pedro “ad vincula”.


Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), p. 385-387.

Tradução de 7 de Setembro de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Ato e uso da Santa Ceia do Senhor por Hulrich Zwingli [1525]

O TEXTO[1]

O profeta[2] ou pastor[3] orará de frente para o povo[4] com voz imposta e clara,[5] dizendo:
Oh! Deus onipotente e eterno, a quem honram como é devido a todas as criaturas, a quem adoram e louvam como Fazedor, Criador e Pai; concede-nos, nós que somos pobres pecadores, o que fielmente e com fé celebramos, louvando-te, com ações de graças que o teu Filho Unigênito, o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, ordenou aos crentes em memória de sua morte. Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, o teu Filho, que contigo vive e reina em união com o Espírito Santo, Deus de toda eternidade. Amém.

O diácono ou leitor dirá com voz imposta, assim: o que vamos ler está escrito na 1ª Epístola de Paulo aos Coríntios, capítulo 11. (é realizada a leitura da Escritura).

Os diáconos e toda a congregação, declaram em seguida: Louvado seja Deus!

O cântico[6] de louvor será iniciado pelo pastor com a primeira estrofe e então todo o povo, homens e mulheres,[7] recitarão uma estrofe após a outra:

Pastor: Glória a Deus nas alturas!
Homens: E paz na terra!
Mulheres: E aos homens de boa vontade!
Homens: Louvamos e exaltamos a Ti.
Mulheres: Adoramos e honramos a Ti.
Homens: Damos graças por tua grande glória e tua bondade, oh! Senhor e Deus, rei dos céus, Pai e onipotente!
Mulheres: Oh! Senhor, Filho Unigênito, Jesus Cristo e Espírito Santo.
Homens: Oh! Senhor, Deus, tu Cordeiro de Deus, Filho do Pai, que tira o pecado do mundo, tem compaixão de nós.
Mulheres: Tu que tiras os pecados do mundo, aceita a nossa oração.
Homens: Tu que estás assentado à direita do Pai, tem compaixão de nós.
Mulheres: Pois somente Tu és santo.
Homens: Somente Tu és Senhor.
Mulheres: Somente Tu és o Altíssimo, Jesus Cristo com o Espírito Santo na glória de Deus Pai.
Homens e mulheres: Amém.

Agora o diácono diz ao leitor: O Senhor seja convosco!
O povo responde: E com o teu espírito.
Leitor: A leitura do Evangelho se encontra escrita no evangelho de João, capítulo 6.
O povo responde: Louvado seja Deus!
Leitura bíblica: (Jo 6:47-63)[8]
Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida. Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram. Este é o pão que desce do céu, para que todo o que dele comer não pereça. Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém dele comer, viverá eternamente; e o pão que eu darei pela vida do mundo é a minha carne. Disputavam, pois, os judeus entre si, dizendo: Como pode este dar-nos a comer a sua própria carne? Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue permanece em mim, e eu, nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e igualmente eu vivo pelo Pai, também quem de mim se alimenta por mim viverá. Este é o pão que desceu do céu, em nada semelhante àquele que os vossos pais comeram e, contudo, morreram; quem comer este pão viverá eternamente. Estas coisas disse Jesus, quando ensinava na sinagoga de Cafarnaum. Muitos dos seus discípulos, tendo ouvido tais palavras, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir? Mas Jesus, sabendo por si mesmo que eles murmuravam a respeito de suas palavras, interpelou-os: Isto vos escandaliza? Que será, pois, se virdes o Filho do Homem subir para o lugar onde primeiro estava? O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida.
Leitor (após a leitura, ele beija o livro) diz: Demos louvor e graças! Que Ele conforme a sua santa palavra perdoe todos os nossos pecados.
O povo responde: Amém.

O diácono:[9] Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra.
Homens: Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor,
Mulheres: o qual foi concebido do Espírito Santo,
Homens: nasceu da Virgem Maria,
Mulheres: padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos,
Homens: foi crucificado, morto e sepultado, desceu aos infernos,
Mulheres: no terceiro dia ressuscitou dos mortos,
Homens: subiu aos céus, está sentado à destra de Deus, o Pai onipotente,
Mulheres: donde há de vir para julgar os vivos e os mortos.
Homens: Creio no Espírito Santo,
Mulheres: na santa igreja católica,
Homens: na comunhão dos santos,
Mulheres: na remissão dos pecados,
Homens: na ressurreição da carne
Mulheres: e na vida eterna.
O povo: Amém.

Diácono: Agora, amados irmãos, vamos comer o pão e beber conforme a instituição de nosso Senhor Jesus Cristo e como ele ordenou: Em sua memória, com louvor e ações de graças por ter morrido por nós e derramado o seu sangue lavando com ele os nossos pecados. Portanto, que cada um pense, segundo admoesta Paulo, que consolo, que fé e confiança tem em nosso senhor Jesus Cristo, a fim de que ninguém considere-se crente, não sendo, e por não ser se faça culpado da morte do Senhor e peque contra toda a Igreja cristã, que é o corpo de Cristo. Ajoelhai-vos e orai:

Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome;
Venha o teu reino,
Faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu;
O pão nosso de cada dia dá-nos hoje;
E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores;
E não nos deixes cair em tentação;
Mas livra-nos do mal
.[10]

O povo responde: Amém.
Diácono: Oh! Senhor, Deus onipotente, que por teu Espírito nos concedeu estar unidos na mesma fé, e com isto fez que sejamos o teu corpo: a este corpo tem ordenado que te louve, e lhe dê graças pelo bem e generoso bem que tem recebido, entregando o teu Filho Unigênito, o nosso Senhor Jesus Cristo. Outorgando-nos que fielmente te louvemos e demos graças e não provoquemos com hipocrisia ou falsidade a verdade que não consente com enganos. Concede-nos também o poder viver em pureza, como corresponde a teu corpo, aos que fez membros de tua família e teus filhos, a fim de que igualmente os incrédulos aprendam reconhecer o teu nome e a tua honra. Senhor guarda-nos de que por nossa causa, o teu nome e honras sejam escarnecidos; Senhor aumenta continuamente a nossa fé, ou seja, a nossa confiança em Ti, que vives e governas, Deus de toda a eternidade. Amém.

Diácono: (leitura de 1 Co 11:23-34)[11]
Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. Por semelhante modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha. Por isso, aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e, assim, coma do pão, e beba do cálice; pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si. Eis a razão por que há entre vós muitos fracos e doentes e não poucos que dormem. Porque, se nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados. Mas, quando julgados, somos disciplinados pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo. Assim, pois, irmãos meus, quando vos reunis para comer, esperai uns pelos outros. Se alguém tem fome, coma em casa, a fim de não vos reunirdes para juízo. Quanto às demais coisas, eu as ordenarei quando for ter convosco.

Terminada a leitura, os diáconos reconhecidos como tais, oferecem o pão ázimo a todos, e que cada crente pegue com a sua própria mão um pedaço de pão, ou aceite o pão da mão do diácono que o oferece. Uma vez que cada um tenha comido o seu pedaço de pão, os outros diáconos se aproximam com o cálice e de igual modo dão de beber a cada um. E que tudo isto se faça com o respeito e a decência própria da Igreja de Deus, e da Ceia de Cristo.

Logo após comer e beber, seguindo o exemplo de Cristo, declarem o Salmo 113, com ações de graças. Começará com o pastor.
Pastor: Louvai, oh! Servos do Senhor, louvai o nome do Senhor!
Homens: Louvado seja o nome do Senhor agora e até a eternidade!
Mulheres: Desde que se levante o sol, até o seu repouso seja louvado o nome do Senhor.
Homens: O Senhor é engrandecido sobre todos os povos e sua honra exaltada acima dos céus.
Mulheres: Quem é o Senhor, nosso Deus, que estando tão alto se inclina para olhar os céus e a terra?
Homens: O Senhor que dentre o pó levanta ao humilde, e ao pobre tira da imundícia.
Mulheres: E os assenta com os príncipes, com os príncipes de seu povo.
Homens: O Senhor que a mulher estéril concede a maternidade e faz que tenha alegria nos seus filhos.
Pastor: Senhor, damos-te graças por todos os bens e dádivas; graças, Senhor, que vives e governas, Deus de toda a eternidade.
O povo: Amém
.
Pastor: Ide em paz.


NOTAS:
[1] M. Gutiérrez Marín comenta que “o tratado prescreve que a Santa Ceia fosse celebrada quatro vezes por ano (Páscoa da Ressurreição, Pentecostes, o 11 de Setembro, ou seja, quando antes da Reforma se venerava aos santos Félix e Régula, e no Natal)” in: Zuinglio – Antología (Barcelona, Producciones Editoriales del Nordeste, 1973), p. 112. O texto do impresso em Março ou início de Abril, sendo esta liturgia usada pela primeira vez em 13 de Abril de 1525. Nota do tradutor.
[2] Por profeta, Zwingli entendia o “pregador”, e não alguém que pudesse falar novas revelações extra-bíblicas. M. Gutiérrez Marín observa que para ele profecia significava “a profunda investigação da Sagrada Escritura, e isto de modo que os pregadores formados, ou ainda em preparo, estivessem bem preparados.” Zuinglio – Antología, p. 34.
[3] Entre 26 a 28 de Outubro de 1523, Zwingli pregou numa conferência que reuniu cerca de 350 pastores suíços. A pedido de Joachim Vadian, dirigente da Reforma em San Gall, publicou o sermão em 26 de Março de 1524, com o título de “O Pastor.” Este tornou-se um tratado de teologia pastoral. Este sermão será em breve publicado aqui no blog.
[4] A liturgia tradicional católico romana ainda hoje preserva a prática do celebrante no momento de consagrar a hóstia dar as costas para o povo.
[5] Não mais em latim, mas em vernáculo comum.
[6] O uso de instrumentos era ausente no culto da Igreja de Zurique nos dias de Zwingli, apesar ser o reformador um exímio músico sabendo manusear instrumentos como alaúde, harpa, violino, flauta, címbalo, cítara de cordas, também compositor, tendo-se preservado pelo menos 3 hinos de sua autoria. Hannes Reimamm esclarece que Zwingli “não teve tempo de formular uma doutrina sobre o cântico no culto, senão que também com respeito a esta questão encontrava a meio caminho. E isto é próprio de um homem cujas características não eram a imobilidade, mas o dinamismo. O fato dele não conseguir conjugar a música com o culto e ter abolido radicalmente o cântico de Salmos por corais na missa, não significa que quisera abolir para sempre a música e os cânticos nos lugares destinados ao culto.” Hannes Reimamm, “Die Einführung des Kirchengesanges in der Zürcher Kirche nach der Reformation” (Zürich, 1959) citado por M. Gutiérrez Marín, Zuinglio – Antología, p. 111. Interessante notar que a partir de 1533 são impressos 17 hinários diferentes em Zurique. A maioria deles com o título “Salmos e cânticos espirituais”, contendo melodias alemãs e uma parte com o subtítulo “Salmos de Davi” contendo melodias francesas; parte deles eram salmos metrificados, e ainda alguns cânticos compostos por Lutero, e canções adaptadas com letras bíblicas ou doutrinárias. Nota do tradutor.
[7] M. Gutiérrez Marín comenta que “os homens se sentavam no lado direito e as mulheres no lado esquerdo do templo. O pão e o vinho eram servidos em bandejas de madeira, sendo repartido pelos diáconos para a congregação que permanece sentada. Não havia nem música nem cânticos.” Zuinglio – Antología, p. 112.
[8] Optei por citar a versão ARA.
[9] O diácono dá início e em seguida, os homens e as mulheres alternam recitando o Credo Apostólico, e todos juntos findam dizendo: Amém. Nota do tradutor.
[10] A oração do Pai Nosso é feita sem a doxologia da segunda metade do verso 13. Optei por citar a versão ARA. Nota do tradutor.
[11] Optei por citar a versão ARA. Nota do tradutor.


Extraído de M. Gutiérrez Marín, Zuinglio – Antología (Barcelona, Producciones Editorial del Nordeste, 1973), pp. 112-117.

Traduzido em 8 de Setembro de 2010
Revisado em 7 de Março de 2014
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO

Prefácio de João Calvino à Loci Communes de Filipe Melanchthon

  Introdução Em 1546, uma tradução francesa da obra de Filipe Melanchthon de 1545, Loci communes , foi publicada em Genebra sob o título de ...