terça-feira, 17 de maio de 2016

Carta de João Calvino a Christopher Libertet [1534]

CARTA 11

PARA CHRISTOPHER LIBERTET[1]

CALVINO EM BASILÉIA - REVISÃO DA BÍBLIA DE ROBERT OLIVETAN - TRATADO SOBRE A IMORTALIDADE DA ALMA.
BASILÉIA, 11 de Setembro, [1534][2]

Quando o nosso amigo Olivetan[3] insinuou, através das cartas que ele escreveu sobre o momento da sua partida, que ele tinha colocado de lado sua publicação intentada do Novo Testamento para um outro momento, pareceu-me que eu poderia fazer a revisão que havia prometido no meu período de lazer, e reservá-lo para um outro momento. Nesse ínterim, outros estudos envolveram minha atenção, e eu não pensei mais no assunto, ou melhor, me afundei na costumeira enfermidade. Na verdade, eu raramente tenho posto minha mão para trabalhar nele, e além disso, o volume que enviei será necessário para o conjunto, e embora tenha sido trazido há três meses, ainda não foi feito. Isso não aconteceu por qualquer indiferença de minha parte, mas em parte pela lentidão do encadernador, a quem, no entanto, nós não deixamos de chamar diariamente, parcialmente também porque quando ele foi inicialmente trazido para mim nós pedimos um suprimento de papel para a extensão de seis folhas, o que não podia ser feito imediatamente. De agora em diante, no entanto, separarei uma hora todos os dias para me aplicar a este trabalho. Se eu tivesse que fazer quaisquer observações, não iria confiá-las a ninguém mais senão a você, a menos que Olivetan em seu retorno se antecipasse a você. Além disso, palavras tem sido trazidas a mim por alguém, não sei quem, a pedido seu, que você não aprova inteiramente algumas coisas no meu tratado sobre a imortalidade da alma.[4] Assim, longe de ser ofendido por causa de sua opinião, gentilmente me deleito com esta simplicidade direta. Nem minha perversidade chega a tal ponto que me permitisse uma liberdade de opinião tal, que eu desejasse subtraí-la de outros. Que eu, no entanto, não te oprima ou irrite desnecessariamente, lutando a mesma batalha repetidas vezes, eu desejo que você entenda que o livro foi reformulado por mim. Algumas coisas foram adicionados, outros deixados de fora, mas tudo completamente de uma forma e método diferentes. Ainda que algumas poucas coisas foram omitidos, outras eu inseri, e algumas coisas eu alterei. Quanto àquele ensaio que eu tinha dado para Olivetan ler, continha meus primeiros pensamentos, foram preparados em forma de memorandos ou comentários ao invés de conclusões resultantes de qualquer método definido e certo, embora houvesse alguma aparência de ordem.

Aquele novo livro (pois assim deve ser chamado) que eu teria lhe enviado, tinha sido lido por mim de novo. Mas desde que foi escrito por Gaspar, eu nem olhei para ele. Até logo; que o Senhor te tenha em seus cuidados e possa enriquecê-lo sempre com seus próprios dons. – Seu,

Martianus Lucanius.[5]

De uma forma ou de outra aconteceu que na pressa de escrever eu omiti, o que modo algum, eu pretendia. Era de exortar você e os outros irmãos em poucas palavras, mas de todo o coração, ao cultivo da paz, para preservação daquilo que vocês deveriam todos se esforçarem o mais intensamente possível, visto que Satanás procura atentamente a vossa derrubada. Você podem ter dificuldades de acreditar o quanto eu fiquei chocado ao ouvir que o novo alvoroço sobre os leprosos, foi iniciado por ele de quem eu jamais suspeitaria tal coisa. Mas finalmente ele vomitou o veneno que foi engolindo na longa dissimulação, e tendo armado o bote, fugiu como uma víbora. Não seja faltoso, de sua parte, peço-te, no que depender de você, que, na verdade, eu estava confiante de que seria o caso de seu próprio acordo, mas eu estava disposto ao mesmo tempo para interpor minha oração pela paz.


[Autógrafo original Latim - Biblioteca da Companhia de Neuchatel].

NOTAS:
[1] Christopher Libertet ou Fabri, de Viena em Dauphiny, um ministro digno da Igreja de Neuchatel. Por um breve período ele começou relações de amizade com Calvino, foi em 1536 pastor da congregação em Thenon, participou no mesmo ano na disputa em Lausanne e foi chamado em 1546 pela Igreja de Neuchatel, onde serviu até a hora de sua morte, em 1563, com a mesma sabedoria e fidelidade.
[2] Sem ano. Esta carta, escrita antes da publicação da Bíblia de Robert Olivetan, refere-se, evidentemente, ao ano de 1534. Devido à necessidade de deixar a França, a fim de escapar da perseguição, Calvino tinha se exilado em Basiléia, onde, no ano seguinte, compôs seu livro “De l’Institution Chretienne.”
[3] Peter Robert Olivetan, relacionado a Calvino e tradutor da Bíblia para a língua francesa. Banido de Genebra, em 1533, ele havia se retirado para Neuchatel, onde publicou consecutivamente (1534-1535) sua tradução do Novo e do Velho Testamento. Este trabalho, realizado a pedido dos valdenses do Piemonte, tinha sido revisado por Calvino.
[4] Este é o tratado que tem direito “Psychopannychia, qua refellitur eorum error qui animas post mortem usque ad ultimum judicium dormire putant.” – Paris, 1534, 8vo. Este tratado, traduzido para o francês pelo próprio Calvino, foi inserido, com um prefácio do autor, “a un sien amy,” no “Recueil des Opuscules,” página 1.
[5] Um pseudônimo que Calvino, por vezes, fazia uso em sua correspondência Latina.


Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana Filadélfia em Marabá-PA, cursando Mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo CPAJ – Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.

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