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terça-feira, 28 de agosto de 2018

Carta de Martinho Lutero para Johannes Lange [1 Março de 1517]

Para Johannes Lange
1º de março de 1517

No presente momento, eu estou lendo o nosso Erasmo, mas meu coração recua dele mais e mais. No entanto, uma coisa que eu admiro é que ele constantemente e sabiamente acusa não somente os monges, mas também os padres, de uma ignorância preguiçosa e profundamente arraigada.

Todavia, sou temeroso, pois ele não propaga com amplitude suficiente a graça de Cristo e de Deus, da qual ele conhece muito pouco. O humano é para ele de maior importância do que o divino.

Embora eu não queira julgar Erasmo, eu lhe advirto para que você não leia cegamente o que ele escreve. Pois nós vivemos em tempos perigosos e todos os que são bons estudiosos do hebraico e do grego não são verdadeiros cristãos; mesmo Dr. Jerônimo, com as suas cinco línguas, não conseguiu se aproximar de Agostinho, com sua única língua -- embora Erasmo veja tudo isso de um ponto de vista diferente. Aqueles que atribuem algo ao livre-arbítrio do homem consideram estas coisas diferentemente daqueles que conhecem a livre graça de Deus.

De nossa deserta Wittenberg.
Martinho Lutero, Agostiniano.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O pecado original e o livre arbítrio

(I)

1. O pecado resultante do primeiro pecado é tanto original como atual.
2. Pecado original é um mal inato de toda humanidade, enxertada em todos que descendem de Adão, por causa da culpa [reatus] do primeiro pecado, pelo qual a liberdade para o bem foi completamente perdida [penitus] e a emergência de uma inclinação para fazer o mal.

PROPOSIÇÕES

I. Na Escritura este pecado é chamado o pecado par excellence, e também “o corpo do pecado” (Rm 6:6), “pecado ... tornando pecaminoso” (Rm 7:13), “pecado que habita” (Rm 7:17), “a lei dos membros” (Rm 7:23), “o velho homem” (Rm 6:6), e “a carne” (Jo 3:6; Gl 5:17).
II. Ele também é chamado de concupiscência. Rm 7:7: “eu poderia não ter conhecido a concupiscência, se a lei não tivesse dito: ‘não cobiçarás’”.
III. Os papistas estão errados quando removem a concupiscência da lista dos pecados, e adicionam-na as obras de Deus. Pelo nome de concupiscência pode significar outra faculdade natural de desejo, que esteve no homem antes da queda, ou o mal aderindo a esta faculdade, que está ali pelo seu primeiro ato, e pelo qual ela está inclinada para o mal.
IV. A causa aproximada do pecado original é a culpa [reatus] do primeiro pecado, com respeito a ele é justa a punição infligida por Deus, e de fato, parte da morte que Deus advertiu ao homem.
V. Embora a alma humana é soprada [na pessoa] diretamente por Deus, entretanto, desde o primeiro momento estando unido ao corpo, ela é culpada do primeiro pecado, que é imputado a toda raça humana, e por isso é corrompida por aquela pecaminosidade.
VI. O fato dela ser praticada de forma voluntária e consciente, não impede que o pecado original seja pecado. Certo de que a vontade esteja completamente ausente, no entanto, que a ilegalidade esteja em nossa natureza é suficiente [para cometermos pecado].
VII. Nenhum ser humano, nem mesmo a virgem Maria, está livre do pecado original (somente Cristo foi exceção), nem afeta as crianças meramente, mas também aqueles que ainda não nasceram, e ele cresce, como a ganância nos descendentes dos lobos. Sl 51:5 “porque em pecado me concebeu minha mãe”. 2 Co 5:21 “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós”.
VIII. O pecado original consiste não somente na inabilidade para fazer o bem, mas também de uma tendência [proclivitas] para o mal; não é uma mera perda do bem que foi recebido originalmente, mas também a adição do mal correspondente.
IX. Por causa do pecado original a bondade natural é corrompida, e a bondade sobrenatural está completamente [penitus] perdida.
X. Entretanto, subsiste o intelecto, mas ele está confuso; e a vontade que perdeu a sua retidão; e os desejos inferiores que estão totalmente corrompidos.
XI. O homem não redimido mesmo em assuntos naturais e civis é capaz de fazer o bem apenas por graça especial.
XII. Sem esta graça especial de Deus, nada significante é realizado pelos pagãos [gentiles].
XIII. Tudo o que eles são capazes de realizar está tão misturado com multiforme futilidade, que as suas maiores virtudes são simplesmente esplêndidos pecados [splendida peccata] diante de Deus.
XIV. Boas obras não são apenas ações que são boas em si mesmas, mas ações que são realizadas pelos motivos corretos. A frase “boas obras” podem ser usadas em sentido unívoco e equívoco. Ela é usada em sentido unívoco quando as ações são boas simplesmente com respeito a todas as circunstâncias, mas ela é equivocadamente quando as ações são boas em si mesmas, mas corrompidas em relação ao objeto, ou sujeito, ou meios, ou ainda o propósito. Se examinar-se do propósito das ações dos pagãos, será evidente que eles são preocupados com a sua própria glória, e não com a que pertence a Deus.
XV. Embora as paixões dos réprobos são restringidas por Deus como um freio, eles não fazem tudo o que são capazes.
XVI. Os dons sobrenaturais, chamados de iluminação do intelecto, retidão da vontade e a conformidade da paixão da razão, estão completamente perdidos.
XVII. Assim, em assuntos espirituais, o homem em si não possui nenhum princípio de conhecimento ou ação, nem um sólido fato ou possibilidade.
XVIII. Embora há quem atribua aos não redimidos algum livre arbítrio, ou outros poderes pelos quais poderiam fazer o bem, ou preparar-se para a conversão e a graça de Deus, estão buscando uma casa em cinzas. Este é o erro dos pelagianos e dos semipelagianos.
XIX. A vontade permanece livre da coerção, mas não livre de escolher entre o bem e o mal.
XX. A vontade se tornou tão má [factum est ad malum] que ela seria melhor descrita como escrava do que como livre. No que diz respeito ao intelecto “o homem natural não pode entender as coisas concernentes ao Espírito de Deus” (1 Co 2:14). Bem como a vontade “a imaginação do coração do homem é má” (Gn 8:21). E por fim, a Escritura declara que o homem perdeu completamente a vida espiritual, estando “morto em pecado” (Ef 2:1).
XXI. Quando este pecado é perdoado aos pais piedosos, de modo algum é repassado por geração aos seus filhos.

Pois a mancha não está completamente retirada pelo perdão, apesar da culpa ser removida. O dom da fé não é dado pela geração, mas pela regeneração, assim o homem gera um homem não como regenerado, mas simplesmente como um homem, do mesmo modo que uma semente limpa das arestas, palha e casca, ainda produzirá quando crescer.

Tradução de Rev. Ewerton B. Tokashiki
Extraído de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin(Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp. 69-71.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

O governo de Deus sobre os homens no estado de inocência

(1)

1. Tal é o governo de Deus sobre os anjos. O seu governo sobre os seres humanos é evidente no estado de inocência e mistério, e finalmente no estado de glória e graça.
2. O seu governo sobre os homens num estado de inocência consistiu de dar um pacto das obras para eles, pelo qual, sob a condição de obediência, ele prometeu felicidade eterna, e advertiu a desobediência com morte.

I. O pacto de Deus com o homem é duplo, tanto um pacto de obras como de graça:[1] o primeiro antes da queda e o segundo após ela.
II. O pacto das obras foi confirmado por um duplo sacramento: a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal, e ambas estavam localizadas no centro do paraíso.
III. O seu propósito era duplo: (1) que a obediência do homem pudesse ser posta à prova, através de comer ou abstendo-se delas; (2) que o primeiro pudesse significar felicidade eterna se eles obedecessem, e o segundo, a perda do sumo bem e a vinda de um mal maior se eles que desobedecessem.
IV. Embora a árvore da vida é assim chamada por seu significado sacramental, não porque estivesse nela o poder de conceder a vida.
V. Semelhantemente, a árvore do conhecimento do bem e do mal tinha o seu nome porque ela significa o mais alto bem e mal, e por causa do evento associado a ela. Por meio dela o homem aprendeu como o bem se perdeu, e que mal lhe sobreveio.
VI. A felicidade do homem, enquanto sem pecado, descansava principalmente na imagem de Deus.
VII. O assunto da divina imagem é primariamente a alma, e secundariamente o corpo, de modo que a alma se expressa por meio do corpo.
VIII. Os dons da imagem de Deus foram parcialmente naturais e parcialmente sobrenaturais.
IX. Os dons naturais eram: a substância simples e invisível da alma e as suas faculdades, intelecto e vontade.
X. Os dons sobrenaturais eram: clareza de intelecto, liberdade e retidão da vontade, conformidade [com a razão] sobre a parte da pessoa completa [homo] e domínio sobre as criaturas inferiores.
XI. O intelecto do primeiro homem era tão claro que ele conhecia todas as verdades naturais [naturalia] que poderiam ser conhecidas por meios da auto-evidência dos primeiros princípios. Adão provê uma excelente ilustração desta espécie de conhecimento quando ele nomeia a todas as criaturas de acordo com a sua natureza (Gn 2:20).
XII. O livre arbítrio [no estado de inocência] era indiferente quanto ao bem e mal, de modo que o homem poderia permanecer no estado sem pecado, se ele assim decidisse; ele recebeu a habilidade de agir conforme ele quisesse, mas não decidiu de acordo com esta possibilidade [accipit posse, si vellet, non autem vele ut posset]. O livre arbítrio tem quatro modos, porque o estado do homem se desdobra em quatro momentos.[2] No primeiro homem a vontade era livre para o bem e o mal. No homem caído era livre somente para o mal. No homem regenerado, ou homem em estado de graça, a vontade é livre do mal e para o bem, pela graça de Deus, mas imperfeitamente. No estado de glória ela será perfeitamente livre do mal e para o bem. No estado de inocência o homem era capaz de não pecar [posse non peccare]. No estado de miséria ele não poderia fazer outra coisa senão pecar. No estado de graça o pecado não pode governar o homem. No estado de glória ele será plenamente incapaz para pecar.[3]
XIII. Os apetites inferiores e todas as paixões estavam em harmonia com a razão.
XIV. O primeiro homem era imortal.
XV. O senhorio original do homem sobre as criaturas inferiores não somente era completo, como também era tranquila e pacífica em seu uso.
XVI. Que o labor que era tarefa de Adão, em cuidar e cultivar o jardim, não era por pesar, mas era com muita satisfação.


NOTAS:
[1] Sobre a história deste conceito veja Gottlob Schrenk, Gottesreich u. Bund in ältern Protestantismus (Gütersloh, 1923). Tanto Cocceius como os Padrões de Westminster organizam a teologia sobre este princípio. A escola de Saumur diverge do pensamento da teologia reformada dos três pactos, um “legal” sendo interposto entre os dois aceitos. Nota de John W. Beardslee III.
[2] Aqui Wollebius claramente segue a interpretação de agostiniana do livre arbítrio. Ele ensinava que os quatro estágios da libertas naturae [liberdade da natureza], Richard A. Muller explica que “a liberdade que é própria de um ser dada a sua natureza particular”. Os quatro estados da libertas naturae são: 1) libertas Adami [liberdade de Adão]: “antes da queda - isto é a capacidade ou poder para não pecar”. 2) libertas peccatorum [liberdade de pecadores]: “uma liberdade que é própria e restrita aos limites da natureza caída e é, portanto, uma incapacidade absoluta de fazer o bem, ou para agir para o bem, sendo o pecador incapaz de não pecar”. 3) libertas fidelium [liberdade dos fiéis]: “a liberdade daqueles que são regenerados pelo Espírito Santo, que é próprio da natureza regenerada e, é caracterizada pela capacidade para o pecado e para fazer o bem”. 4) libertas gloriae [liberdade de glória]: “uma liberdade adequada à natureza redimida integralmente, que, como residentes do reino do céu estão agora caracterizados pela incapacidade para o pecado”. Em outras palavras, os quatro estados do homem em relação ao pecado enumerados por Agostinho de Hipona são: 1) no estado antes da queda, o homem era capaz de não pecar (posse non peccare); 2) após a queda, ele é incapaz de não pecar (non posse non peccare); 3) sendo regenerado ele se torna capaz de não pecar (non posse peccare); e 4) no estado de glorificação ele será incapaz de pecar (peccare non posse). Veja Richard A. Muller, Dictionary of Latin and Greek Theological Terms, p. 176. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[3] Thomas Boston escreveu o livro The Nature Human on Fourfould State (The Banner of Truth), que se tornou obra de referência sobre o assunto entre os puritanos. Nota de Ewerton B. Tokashiki.


Traduzido de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin(Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp.64-66.

Prefácio de João Calvino à Loci Communes de Filipe Melanchthon

  Introdução Em 1546, uma tradução francesa da obra de Filipe Melanchthon de 1545, Loci communes , foi publicada em Genebra sob o título de ...