Além disso, caso contrário, não poderíamos levá-los a um acordo, ordenamos e pedimos antecipadamente e antes de tudo que façam um inventário de suas mercadorias e dos seus negócios, dívidas, títulos e tudo mais que depende disso, dos seus móveis, utensílios, bens comuns e bens adquiridos. Deixe que eles resolvam e fechem suas contas e, assim, providenciem entre eles que haja uma resolução definitiva, que ponham fim a todas as brigas anteriores e que, a partir de agora, cada um possa saber o que é seu para que não haja reclamação. E desejamos que isso seja feito o mais rápido possível, o mais tardar dentro de um ano, sem procedimentos formais, mas pacificamente e com boa vontade. Se uma das partes não quiser consentir, ou seja, fazer esse inventário e liquidar suas contas sem um processo ou ir a um tribunal, a outra parte terá a opção e a liberdade de renunciar ao presente contrato e retornando ao seu primeiro curso [de ação legal?].
Sendo assim, será nosso desejo que as duas partes vivam juntas, mantendo uma família comum como fizeram até agora, tanto para seu próprio contentamento e repouso, como para evitar as conversas fúteis do mundo e o escândalo que possa resultar de sua separação. No entanto, como não podemos fazê-los concordar com isso,[1] ordenamos que a separação seja realizada quando as contas forem concluídas, ou seja, dentro de um ano. Para que eles se separem e cada um se retire pacificamente,[2] sob pena de retornar à sua condição anterior, ou seja, cada um deles deve, respectivamente, continuar com os direitos e ações que tomou como se este presente acordo nunca fosse feito. No entanto, se acontecer posteriormente que, para a facilidade e conveniência das duas partes ou de uma delas, lhes pareça apropriado organizar e realizar uma separação, nós os deixamos livres para fazê-lo.[3]
NOTAS:
[1] Calvino primeiro escreveu: “No entanto, se isso não puder ser feito de outra maneira e ambas as partes preferirem viver separadamente, ou um dos dois desejar isso, solicitamos ... ”.
[2] O texto original: “eles são mutuamente obrigados a se separar, cada um a pedido do outro ... ”.
[3] O texto está em CO 10/1:143–44 sem data citado pelo livro de Philip L. Reynolds and John Witte, Jr., orgs., To Have and to Hold - Marrying and Its Documentation in Western Christendom, 400–1600 (Cambridge, Cambridge University Press, 2007), p. 478.
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domingo, 29 de março de 2020
domingo, 26 de novembro de 2017
Carta de Calvino à Farel [16/02/1541]
CHEGADA DE CALVINO A GENEBRA – SUA ENTREVISTA COM OS MAGISTRADOS – ELABORA UMA FORMA DE DISCIPLINA ECLESIÁSTICA – ACONSELHA FAREL QUANTO À MODERAÇÃO.
GENEBRA, 16 de Setembro de 1541[1]
Como você desejava, eu estou estabelecido aqui; que o Senhor faça que isso coopere para o bem. Para o momento, eu devo manter Viret aqui também, por quem não vou sofrer de modo nenhum por ele ser levado para longe de mim. E você, ademais, e todos os irmãos, esforcem-se ao máximo para me ajudar aqui, a menos que vocês tenham me torturado sem propósito, e me tornado completamente deplorável, sem nenhum benefício a ser obtido. Imediatamente após eu ter oferecido meus serviços ao Senado, declarei que uma Igreja não pode se manter a menos que um sistema de governo estabelecido seja acordado, do modo como prescrito a nós na palavra de Deus, e tal como era usado na Igreja antiga. Depois eu toquei gentilmente em certos pontos de modo que eles pudessem entender qual era o meu desejo. Mas porque toda a questão da disciplina era muito grande para ser discutida daquela forma, pedi-lhes que nomeassem alguns dentre eles, que pudessem tratar do assunto conosco. Seis deles foram designados em seguida. Artigos relativos a toda a política eclesiástica serão preparados, os quais nós devemos apresentar ao Senado logo em sequência. Os três colegas demonstraram algum sinal de concordância com nós dois. De algum modo, pelo menos, serão obtidos. Desejamos sinceramente saber como as coisas estão indo em sua Igreja.[2] Esperamos, no entanto, que, influenciados pela autoridade dos de Berna e Bienna, esses problemas tenham sido completamente resolvidos, ou pelo menos acalmados de algum modo. Quando você tem Satanás para combater, e você luta sob a bandeira de Cristo, aquele que cinge sua armadura e te conduziu à batalha, te dará a vitória. Mas, uma vez que uma boa causa exige também um bom instrumento, tenha o cuidado de não lhe fazer tantas concessões, de modo a pensar que não houve nada desejável de sua parte que bons homens possam razoavelmente esperar de você. Nós não aconselhamos você a manter uma consciência boa e pura, sobre a qual, não temos quaisquer dúvidas; só desejamos sinceramente, que na medida que seu dever permitir, você se adeque mais ao povo. Existe, como você sabe, dois tipos de popularidade: aquela quando buscamos o favor dos outros por motivo de ambição e desejo de agradar; e a outra, quando, por equidade e moderação, nós ganhamos confiança deles, de modo a torná-los dispostos a serem ensinado por nós. Você deve nos perdoar se tratamos com certa liberdade com você. Em referência a esse ponto em particular, nós percebemos que você não dá satisfação mesmo para alguns bons homens. Mesmo onde não há nada mais a se queixar, você peca neste ponto, por não dar satisfação àqueles a quem o Senhor te fez devedor. Você está ciente do quanto te amamos, e do quanto te respeitamos. Esta mesma afeição, é verdade, esse respeito nos impele a uma crítica mais direta e rigorosa, porque desejamos sinceramente que naqueles notáveis dons que o Senhor conferiu a você, nem mancha ou defeito possam ser achados de modo que o malfeitor possa encontrar falta ou mesmo falar contra ti. Isto eu escrevi aconselhado por Viret, e por conta disso usei o plural. Adeus, mais que excelente e amável irmão.
[Autógrafo original em latim. -- Biblioteca de Genebra. Volume 106.]
NOTAS:
[1] Calvino chegou a Genebra no dia 13 de setembro de 1541. Encontramos sob esta data, em excertos dos Registros do Conselho: – “Calvino, tendo chegado a Genebra, apresentou-se ao Conselho, ao qual ele trouxe cartas dos Magistrados e Ministros de Estrasburgo. Ele se desculpou por sua viagem ter sido adiada. Ele apresentou que seria necessário estabelecer o trabalho das ordenanças eclesiásticas. Resolveu-se que eles se dedicariam a isto imediatamente, e para esse fim foram designados, juntamente com Calvino, Claude Pertemps, Amy Perrin, Claude Roset, Jean Lambert, Potalia, e Jean Balard. Resolveu-se também manter Calvino aqui sempre. – Outubro de 1541. A côngrua de Calvino foi definida em quinhentos florins, doze medidas de milho e dois tonéis de vinho”. Para moradia, eles ofereceram a mansão Fregneville, comprada pelo preço de duzentos e sessenta coroas, com um corte de veludo para vestimentas.
[2]
Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana Filadélfia em Marabá-PA; cursando mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo CPAJ – Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.
GENEBRA, 16 de Setembro de 1541[1]
Como você desejava, eu estou estabelecido aqui; que o Senhor faça que isso coopere para o bem. Para o momento, eu devo manter Viret aqui também, por quem não vou sofrer de modo nenhum por ele ser levado para longe de mim. E você, ademais, e todos os irmãos, esforcem-se ao máximo para me ajudar aqui, a menos que vocês tenham me torturado sem propósito, e me tornado completamente deplorável, sem nenhum benefício a ser obtido. Imediatamente após eu ter oferecido meus serviços ao Senado, declarei que uma Igreja não pode se manter a menos que um sistema de governo estabelecido seja acordado, do modo como prescrito a nós na palavra de Deus, e tal como era usado na Igreja antiga. Depois eu toquei gentilmente em certos pontos de modo que eles pudessem entender qual era o meu desejo. Mas porque toda a questão da disciplina era muito grande para ser discutida daquela forma, pedi-lhes que nomeassem alguns dentre eles, que pudessem tratar do assunto conosco. Seis deles foram designados em seguida. Artigos relativos a toda a política eclesiástica serão preparados, os quais nós devemos apresentar ao Senado logo em sequência. Os três colegas demonstraram algum sinal de concordância com nós dois. De algum modo, pelo menos, serão obtidos. Desejamos sinceramente saber como as coisas estão indo em sua Igreja.[2] Esperamos, no entanto, que, influenciados pela autoridade dos de Berna e Bienna, esses problemas tenham sido completamente resolvidos, ou pelo menos acalmados de algum modo. Quando você tem Satanás para combater, e você luta sob a bandeira de Cristo, aquele que cinge sua armadura e te conduziu à batalha, te dará a vitória. Mas, uma vez que uma boa causa exige também um bom instrumento, tenha o cuidado de não lhe fazer tantas concessões, de modo a pensar que não houve nada desejável de sua parte que bons homens possam razoavelmente esperar de você. Nós não aconselhamos você a manter uma consciência boa e pura, sobre a qual, não temos quaisquer dúvidas; só desejamos sinceramente, que na medida que seu dever permitir, você se adeque mais ao povo. Existe, como você sabe, dois tipos de popularidade: aquela quando buscamos o favor dos outros por motivo de ambição e desejo de agradar; e a outra, quando, por equidade e moderação, nós ganhamos confiança deles, de modo a torná-los dispostos a serem ensinado por nós. Você deve nos perdoar se tratamos com certa liberdade com você. Em referência a esse ponto em particular, nós percebemos que você não dá satisfação mesmo para alguns bons homens. Mesmo onde não há nada mais a se queixar, você peca neste ponto, por não dar satisfação àqueles a quem o Senhor te fez devedor. Você está ciente do quanto te amamos, e do quanto te respeitamos. Esta mesma afeição, é verdade, esse respeito nos impele a uma crítica mais direta e rigorosa, porque desejamos sinceramente que naqueles notáveis dons que o Senhor conferiu a você, nem mancha ou defeito possam ser achados de modo que o malfeitor possa encontrar falta ou mesmo falar contra ti. Isto eu escrevi aconselhado por Viret, e por conta disso usei o plural. Adeus, mais que excelente e amável irmão.
[Autógrafo original em latim. -- Biblioteca de Genebra. Volume 106.]
NOTAS:
[1] Calvino chegou a Genebra no dia 13 de setembro de 1541. Encontramos sob esta data, em excertos dos Registros do Conselho: – “Calvino, tendo chegado a Genebra, apresentou-se ao Conselho, ao qual ele trouxe cartas dos Magistrados e Ministros de Estrasburgo. Ele se desculpou por sua viagem ter sido adiada. Ele apresentou que seria necessário estabelecer o trabalho das ordenanças eclesiásticas. Resolveu-se que eles se dedicariam a isto imediatamente, e para esse fim foram designados, juntamente com Calvino, Claude Pertemps, Amy Perrin, Claude Roset, Jean Lambert, Potalia, e Jean Balard. Resolveu-se também manter Calvino aqui sempre. – Outubro de 1541. A côngrua de Calvino foi definida em quinhentos florins, doze medidas de milho e dois tonéis de vinho”. Para moradia, eles ofereceram a mansão Fregneville, comprada pelo preço de duzentos e sessenta coroas, com um corte de veludo para vestimentas.
[2]
Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana Filadélfia em Marabá-PA; cursando mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo CPAJ – Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.
sábado, 15 de fevereiro de 2014
Carta de Pedro Rechier a João Calvino [1557]
Carta do Rev. Pedro Rechier[1] a João Calvino, em Março de 1557, desde o Forte de Coligny, na Guanabara, por ocasião da primeira tentativa de implantação da Igreja Reformada no Brasil pelos franceses[2]
Não quis desprezar a presente ocasião, para esclarecê-lo, meu irmão, acerca das nossas coisas. Em primeiro lugar quero que seja por ti conhecido o benefício que de Deus recebemos até agora, a fim de que conosco lhe dês graças pela sua bondade. Pois de todos nós teve tal cuidado que, pela sua bondade nos conduziu todos ao porto, sãos e incólumes, através das multas separações das terras e do mar. Saih, na verdade, como é natural, expôs-nos, no caminho, a diversos perigos: mas, como filhos, embora indignos, sempre experimentamos muito a mão auxiliadora do Pai que continua misericordiosamente estendida para nós através dos dias.
Ao chegarmos ao porto, Villegagnon[3] quis que a Palavra de Deus fosse publicamente pregada.[3] Na semana subsequente desejou que fosse administrada a ceia sagrada de Cristo, a que ele próprio com alguns de seus domésticos, religiosamente compareceu, dando um exemplo da sua fé para a edificação das pessoas presentes. Quem podia melhor auxiliar o nosso plano? Que podia corresponder mais oportunamente aos nossos desejos todos de que a verdadeira igreja ter-se patenteado a esses furiosos junto de nós? Com tais benefícios o nosso supremo Pai se dignou recompensar-nos.
Esta região, doutro lado, porque seja inculta e com raros habitantes, quase nada produz daquilo que a gente de nosso país gosta de saborear. Produz milho é verdade, figos silvestres e umas certas raízes com as quais fabricam para seus habitantes, a farinha que lhes serve de provisão de viagem. Não tem pão, nem produz vinho ou algo semelhante. Além disso, não nos servimos, em nenhum tempo ou lugar, de nenhum fruto familiar. Todavia, qualquer coisa nos basta, e passamos perfeitamente bem, bastando dizer que estou mais forte que de costume e o mesmo acontece a todos os outros. Um naturalista teria acrescido ao que disse a bondade do ar, que de tal sorte se tempera e corresponde ao nosso maio. De tal forma o Pai celeste se mostra bom e nos oferece o seu paterno afeto que aqui, em tão bárbaro e agreste solo, nos ministra o seu favor, a fim de que comprovemos que a provisão de viagem do homem não depende do pão, mas, da Palavra de Deus, cuja bênção substitui para nós todas as delícias.
Uma coisa há que nos constrange e preocupa: a selvageria do povo, tão grande que maior não podia ser. Não lhes censuro serem antropófagos o que, entretanto, é neles muito vulgar; mas deploro a estupidez de sua mente que é palpável mesmo nas trevas. Sobre a virtude do Pai também nada conhecem não distinguindo o bem do mal e os vícios que a natureza revela naturalmente às outras gentes eles os têm por virtude; não conhecendo a torpeza do vício pouco diferem das feras. E o que é a mais perniciosa de todas as coisas, não sabem se Deus existe. Estão muito longe de observar a Sua lei ou admirar o Seu poder e vontade, por isso não temos esperança de ganhá los inteiramente para Cristo, embora seja realmente a coisa mais importante de todas. Aprovo na verdade quem os descreve como uma “tábula rasa”, facilmente pintável em quaisquer cores, pois essa espécie de cores nada tem de contrário à pureza natural.
Mas o grande obstáculo é a diversidade de idiomas. Acrescente se que não temos intérpretes fiéis a Deus. O mérito de nossa obra consiste para nós em refrear o passo e esperar pacientemente que os adolescentes aprendam a língua dos índios. E já alguns vivem entre eles. Praza a Deus que fique aquém deles qualquer perigo para as suas almas. Desde que o Altíssimo nos impôs esta tarefa, devemos esperar que esta terra se torne a futura possessão de Cristo. Neste ínterim precisamos mais gente para que se forme esta nação bárbara e que nossa igreja receba seu incremento. Abundaríamos certamente de toda a cópia de bens se aqui houvesse um povo numeroso; sendo poucas almas progride o agricultor muito devagar. Mas por todas as coisas vela o Altíssimo. Nós em verdade, desejamos fortemente ser recomendados às preces de todas as nossas Igrejas.[4]
NOTAS:
[1] O Rev Pedro Rechier foi um dos pastores formados na Academia de Genebra e indicados por Calvino para integrarem a primeira expedição de franceses e suíços [de genebrinos] que veio para o Brasil. Eles aportaram na Baia da Guanabara, no Rio de Janeiro. Ele era "doutor ver em teologia e ex-frade carmelita, convertera-se ao Protestantismo e, após haver feito seus estudos em Genebra, dirigiu-se ao Brasil em 1556, de onde voltou no ano seguinte, sendo então enviado a Rochelle, em cujo lugar organizou a Igreja e morreu a 8 de março de 1580. Ali publicou ele, primeiro em latim (1561) e depois em francês (1562), a Refutação às loucas fantasias, às execráveis blasfêmias, aos erros e às mentiras de Nicolas Durand de Villegaignon." Jean Crespin, A tragédia da Guanabara - A História dos Primeiros Mártires do Cristianismo no Brasil (Rio de Janeiro, CPAD, 2006), p. 25. Nota do revisor.
[2] Enquanto tradicionalmente a nossa história apresenta, duma perspectiva católica, os franceses como invasores, na realidade eles eram colonizadores. Nota do revisor.
[3] Nicolas Durand de Villegagnon. Nota do revisor.
[4] Para uma análise da Confissão de Fé da Guanabara recomendo a leitura da Dissertação de Mestrado do Ms. Rev. Folton Nogueira da Silva. # [SILVA, Folton Nogueira da. Principais doutrinas da Confissão de fé da Guanabara. 1998] que pode ser obtida nos arquivos do CPAJ na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Para estudo continuado sobre o assunto recomendo dois livros que oferecem ad fontes:
1. Jean Crespin, A tragédia da Guanabara - A história dos primeiros mártires do Cristianismo no Brasil (Rio de Janeiro, CPAD, 2006).
2. Jean Crespin, A tragédia da Guanabara - A história dos primeiros mártires do Cristianismo no Brasil (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2007).
Tradução de Sergio Milliet
Revisão e notas por Rev. Ewerton B. Tokashiki
Extraído do livro Viagem à terra do Brasil, Jean de Léry, nota 134, Editora Itatiaia, 1980.
Não quis desprezar a presente ocasião, para esclarecê-lo, meu irmão, acerca das nossas coisas. Em primeiro lugar quero que seja por ti conhecido o benefício que de Deus recebemos até agora, a fim de que conosco lhe dês graças pela sua bondade. Pois de todos nós teve tal cuidado que, pela sua bondade nos conduziu todos ao porto, sãos e incólumes, através das multas separações das terras e do mar. Saih, na verdade, como é natural, expôs-nos, no caminho, a diversos perigos: mas, como filhos, embora indignos, sempre experimentamos muito a mão auxiliadora do Pai que continua misericordiosamente estendida para nós através dos dias.
Ao chegarmos ao porto, Villegagnon[3] quis que a Palavra de Deus fosse publicamente pregada.[3] Na semana subsequente desejou que fosse administrada a ceia sagrada de Cristo, a que ele próprio com alguns de seus domésticos, religiosamente compareceu, dando um exemplo da sua fé para a edificação das pessoas presentes. Quem podia melhor auxiliar o nosso plano? Que podia corresponder mais oportunamente aos nossos desejos todos de que a verdadeira igreja ter-se patenteado a esses furiosos junto de nós? Com tais benefícios o nosso supremo Pai se dignou recompensar-nos.
Esta região, doutro lado, porque seja inculta e com raros habitantes, quase nada produz daquilo que a gente de nosso país gosta de saborear. Produz milho é verdade, figos silvestres e umas certas raízes com as quais fabricam para seus habitantes, a farinha que lhes serve de provisão de viagem. Não tem pão, nem produz vinho ou algo semelhante. Além disso, não nos servimos, em nenhum tempo ou lugar, de nenhum fruto familiar. Todavia, qualquer coisa nos basta, e passamos perfeitamente bem, bastando dizer que estou mais forte que de costume e o mesmo acontece a todos os outros. Um naturalista teria acrescido ao que disse a bondade do ar, que de tal sorte se tempera e corresponde ao nosso maio. De tal forma o Pai celeste se mostra bom e nos oferece o seu paterno afeto que aqui, em tão bárbaro e agreste solo, nos ministra o seu favor, a fim de que comprovemos que a provisão de viagem do homem não depende do pão, mas, da Palavra de Deus, cuja bênção substitui para nós todas as delícias.
Uma coisa há que nos constrange e preocupa: a selvageria do povo, tão grande que maior não podia ser. Não lhes censuro serem antropófagos o que, entretanto, é neles muito vulgar; mas deploro a estupidez de sua mente que é palpável mesmo nas trevas. Sobre a virtude do Pai também nada conhecem não distinguindo o bem do mal e os vícios que a natureza revela naturalmente às outras gentes eles os têm por virtude; não conhecendo a torpeza do vício pouco diferem das feras. E o que é a mais perniciosa de todas as coisas, não sabem se Deus existe. Estão muito longe de observar a Sua lei ou admirar o Seu poder e vontade, por isso não temos esperança de ganhá los inteiramente para Cristo, embora seja realmente a coisa mais importante de todas. Aprovo na verdade quem os descreve como uma “tábula rasa”, facilmente pintável em quaisquer cores, pois essa espécie de cores nada tem de contrário à pureza natural.
Mas o grande obstáculo é a diversidade de idiomas. Acrescente se que não temos intérpretes fiéis a Deus. O mérito de nossa obra consiste para nós em refrear o passo e esperar pacientemente que os adolescentes aprendam a língua dos índios. E já alguns vivem entre eles. Praza a Deus que fique aquém deles qualquer perigo para as suas almas. Desde que o Altíssimo nos impôs esta tarefa, devemos esperar que esta terra se torne a futura possessão de Cristo. Neste ínterim precisamos mais gente para que se forme esta nação bárbara e que nossa igreja receba seu incremento. Abundaríamos certamente de toda a cópia de bens se aqui houvesse um povo numeroso; sendo poucas almas progride o agricultor muito devagar. Mas por todas as coisas vela o Altíssimo. Nós em verdade, desejamos fortemente ser recomendados às preces de todas as nossas Igrejas.[4]
NOTAS:
[1] O Rev Pedro Rechier foi um dos pastores formados na Academia de Genebra e indicados por Calvino para integrarem a primeira expedição de franceses e suíços [de genebrinos] que veio para o Brasil. Eles aportaram na Baia da Guanabara, no Rio de Janeiro. Ele era "doutor ver em teologia e ex-frade carmelita, convertera-se ao Protestantismo e, após haver feito seus estudos em Genebra, dirigiu-se ao Brasil em 1556, de onde voltou no ano seguinte, sendo então enviado a Rochelle, em cujo lugar organizou a Igreja e morreu a 8 de março de 1580. Ali publicou ele, primeiro em latim (1561) e depois em francês (1562), a Refutação às loucas fantasias, às execráveis blasfêmias, aos erros e às mentiras de Nicolas Durand de Villegaignon." Jean Crespin, A tragédia da Guanabara - A História dos Primeiros Mártires do Cristianismo no Brasil (Rio de Janeiro, CPAD, 2006), p. 25. Nota do revisor.
[2] Enquanto tradicionalmente a nossa história apresenta, duma perspectiva católica, os franceses como invasores, na realidade eles eram colonizadores. Nota do revisor.
[3] Nicolas Durand de Villegagnon. Nota do revisor.
[4] Para uma análise da Confissão de Fé da Guanabara recomendo a leitura da Dissertação de Mestrado do Ms. Rev. Folton Nogueira da Silva. # [SILVA, Folton Nogueira da. Principais doutrinas da Confissão de fé da Guanabara. 1998] que pode ser obtida nos arquivos do CPAJ na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Para estudo continuado sobre o assunto recomendo dois livros que oferecem ad fontes:
1. Jean Crespin, A tragédia da Guanabara - A história dos primeiros mártires do Cristianismo no Brasil (Rio de Janeiro, CPAD, 2006).
2. Jean Crespin, A tragédia da Guanabara - A história dos primeiros mártires do Cristianismo no Brasil (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2007).
Tradução de Sergio Milliet
Revisão e notas por Rev. Ewerton B. Tokashiki
Extraído do livro Viagem à terra do Brasil, Jean de Léry, nota 134, Editora Itatiaia, 1980.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
O testamento de João Calvino
A última vontade e testamento do Mestre João Calvino[1]
Em nome de Deus, seja conhecido de todos os homens e por aqueles que estão presentes, que no dia 25 de Abril do ano de 1564, eu Peter Chenelat, cidadão e tabelião de Genebra, fui procurado pelo honrado João Calvino, ministro da Palavra da Deus na Igreja de Genebra, e burguês da dita Genebra,[2] que estando doente e indisposto em corpo somente, declarou-me a sua intenção de fazer o seu testamento e declaração de sua última vontade, solicitando-me escreve-la conforme poderia por ele ser ditada e pronunciada no seu declarado desejo, tenho feito, e escrito-a sob a sua ordem, e de acordo com o que ele ditou e pronunciou, palavra por palavra, sem omitir ou, acrescentar nada – na forma como segue:
Em nome de Deus, eu João Calvino, ministro da Palavra de Deus, na Igreja de Genebra, sentindo estar em declínio [de saúde], por causa de diversos males, e que não posso senão pensar que isto seja da vontade de Deus para tirar-me em breve deste mundo, e sendo aconselhado a fazer e firmar por escrito o meu testamento e declaração da minha última vontade da forma como segue:
Em primeiro lugar, dou graças a Deus, não só porque teve compaixão de mim, uma pobre criatura sua, ao tirar-me do abismo da idolatria no qual eu estava atolado, de modo a guiar-me para a luz do seu evangelho e tornar-me um participante da doutrina da salvação, da qual eu era inteiramente indigno, e continuando em sua misericórdia, Ele tem me suportado em meio a muitos pecados e oscilações, que eram tais, que eu bem merecia ser rejeitado por Ele uma centena de vezes – mas pelo contrário, Ele estendeu-me a sua misericórdia para que eu e meu labor pudéssemos conduzir e anunciar a verdade do seu evangelho; protestando que é meu desejo viver e morrer nesta fé, a qual foi-me conferida, não possuindo outra esperança, nem refúgio, exceto em sua gratuita adoção, sobre a qual toda a minha salvação está fundamentada; abraçando a graça que Ele tem-me entregue, em nosso Senhor Jesus Cristo, e aceitando os méritos da sua morte e sofrimento, de modo que, por estes meios, todos os meus pecados estão sepultados; e orando-lhe para lavar-me e purificar-me pelo sangue deste grande Redentor, que foi derramado por nós, pobres pecadores, que eu possa comparecer diante de sua face, carregando a sua imagem tal como ela era.[3]
Também protesto que tenho diligentemente, de acordo com a medida da graça que me é dada, ensinar a sua Palavra com pureza, tanto em meus sermões como em meus escritos, e expondo fielmente a Sagrada Escritura; e ainda, que em toda disputa que tive com os inimigos da verdade, nunca fiz uso de sutis artimanhas, nem de sofismas, senão que tenho me esforçado em agir honestamente ao manter o debate. Mas ai de mim! Pois, o desejo que tive, e o zelo, se podem assim ser chamados, foram tão frios e tão lentos que sinto que sou um devedor a tudo e em toda parte, e que isto, não foi por sua infinita bondade, toda afeição que tive poderia ser como fumaça, e não somente isto, que desde os favores que Ele me concedeu poderiam senão render-me maior culpa; de modo que o meu único recurso é este, que sendo Pai de misericórdia, Ele me apresentará diante do Pai, sendo eu um tão miserável pecador.
Além disso, desejo que o meu corpo, após o meu falecimento, seja enterrado conforme o modo usual, para a espera do dia da bendita ressurreição.
A respeito dos poucos bens terrenos que Deus me deu aqui para dispor-los, eu nomeio e indico como o meu único herdeiro, meu amado irmão Antony Calvino, mas somente como honrado herdeiro, concedendo-lhe o direito de possuir nada mais, senão a taça que ganhei de Monsieur de Varennes,[4] e suplico-lhe que fique satisfeito com isto, como eu estou bem certo de que ele será, pois ele sabe que fiz isto por nenhuma outra razão, senão que o pouco que deixo possa permanecer para os seus filhos. Em seguida, deixo para a Academia dez moedas de cinco xelins, e para o tesouro dos pobres estrangeiros a mesma soma.[5] Igualmente, para Jane, filha de Charles Costan e minha meia-irmã,[6] por assim dizer, por parte de pai, a soma de dez moedas de cinco xelins; e ainda, para cada um de meus sobrinhos, Samuel e João, filhos de meu supracitado irmão,[7] quarenta moedas de cinco xelins; e para cada uma de minhas sobrinhas, Anne, Susannah e Dorothy deixo trinta moedas de cinco xelins. Também para o meu sobrinho David e seu irmão, pois ele tem sido imprudente e inseguro, deixo-lhe, porém, vinte e cinco moedas de cinco xelins como uma punição.[8] Este é o total de todos os bens que Deus me deu, de acordo com o que fui capaz de avaliar e estima-los, quer sejam em livros,[9] mobília,[10] objetos de prata, ou qualquer outra coisa. De qualquer modo, é possível que o resultado da venda remonte a alguma coisa mais, entendo que poderia ser distribuído entre meus citados sobrinhos e sobrinhas, sem excluir David, se Deus tiver lhe concedido graça para ser mais moderado e sério. Mas, creio que a respeito deste assunto não haverá dificuldade, especialmente quanto as minhas dívidas que serão pagas, como tenho encarregado a meu irmão em quem confio, nomeando-o executor deste testamento junto ao respeitável Laurence de Normandie, concedendo-lhes poderes e autoridade para fazer um inventário sem qualquer forma judicial, e negociar minha mobília para levantar dinheiro dela de modo a consumar as orientações deste testamento como ele está aqui firmado por escrito, neste dia
25 de Abril de 1564.
Testemunho com a minha mão,
JOÃO CALVINO.[11]
Após ser escrito como está acima, no mesmo instante o citado respeitável Calvino subscreveu com a sua usual assinatura o registro do citado testamento. E no dia seguinte, que foi 26 do mês de Abril, o citado respeitável Calvino chamou pela uma segunda vez junto aos respeitáveis Theodore Beza, Raymond Chauvet, Michael Cop, Louis Enoch, Nicholas Coladon, Jacques Desbordes, ministros da Palavra de Deus nesta igreja, e o respeitável Henry Seringer, professor de letras, todos os burgueses de Genebra, na presença de quem ele declarou que tinha determinado-me escrever sob ele, e com o seu ditado, o citado testamento na forma, e com as mesmas palavras que estão acima, dizendo-me para que o lesse em alta voz na presença das ditas testemunhas convidadas para este propósito, o que eu fiz com uma voz audível, e palavra por palavra. Depois desta leitura, ele declarou que esta era a sua vontade e último disposição, desejando que pudesse ser realizado. E assim, para maior confirmação do mesmo, solicitou as pessoas supracitadas que também a assinassem comigo, em Genebra, na rua chamada Des Chanoines, na residência do citado testador. Com fé disto, e para servir por suficiente prova, tenho redigido na forma como acima está apresentado o presente testamento, de modo a expedi-lo a quem o é de direito, sob o comum selo dos nossos mais honrados senhores e superiores e com a minha usual assinatura.
Testemunho com a minha mão,
P. CHENELAT.
NOTAS:
[1] Nota do tradutor: O texto original está no Corpus Reformatorum vol. 20, pp. 298-302.
[2] Nota do tradutor: Alister McGrath nota que “Calvino somente adquiriu o status de bougeois, em Genebra, na sua velhice: ele nunca veio a ser um cidadão da cidade. Ele não poderia concorrer às eleições (e até dezembro de 1559 ele não podia nem mesmo votar nas eleições municipais); nem teve ele qualquer acesso privilegiado ao Conselho municipal ou influência direta sobre este, em nenhuma fase de sua carreira.” Alister McGrath, A vida de João Calvino (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2004), p. 148.
[3] Nota do tradutor: Calvino em seus escritos preserva essa característica coerente à sua convicção de que era a soberana graça que o tornava aceito diante de Deus, apesar de sua indignidade pecaminosa. Herman J. Selderhuis nota que Calvino “continuamente cita em suas cartas numerosas características negativas das quais ele era ciente, mas que ao mesmo tempo tinha dificuldade de esconder.” Herman J. Selderhuis, ed., The Calvin Handbook (Grand Rapids, Wm. Eerdmans Pulishing Co., 2009), p. 6. Ronald Wallace faz similar observar “o próprio Calvino era bem consciente de muitas de suas falhas que, às vezes, prejudicavam seu testemunho público e que o caracterizavam como uma pessoa particular.” Ronald Wallace, Calvino, Genebra e a Reforma – Um estudo sobre Calvino como um Reformador Social, Clérigo, Pastor e Teólogo (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2003), p. 237. Sobre este assunto Wallace dedica das páginas 237 a 242.
[4] Nota do editor: Guilhaume de Trie, Lorde de Varennes. Ele morreu em 1562, deixando a guarda de seus filhos à Calvino.
[5] Nota do tradutor: Este “tesouro dos pobres estrangeiros” era um fundo de reserva que a cidade de Genebra tinha para socorrer os refugiados, que por motivos políticos ou teológicos eram expulsos de suas pátrias, e procuravam acolhida nesta cidade. Durante o retorno de João Calvino para Genebra esta cidade em pouco tempo tornou-se não somente um local de referência para a Reforma teológica, mas também para o pensamento econômico, político e social. O próprio Calvino sabia o que era andar errante como um “pobre estrangeiro”. David W. Hall, The legacy of John Calvin – his influence on the modern world (Phillipsburg, P&R Publishing, 2008), pp. 15-18.
[6] Nota do editor: Mary, filha de um segundo casamento de Gérard Calvino. Ela deixou Noyon em 1536, para acompanhar os seus irmãos, João e Antony para a Suíça.
[7] Nota do editor: Antony Calvino teve com a sua primeira esposa dois filhos, Samuel e Davi, e duas filhas, Anne e Susannah; com a segunda, um filho, João, que morreu sem deixar posteridade em 1601, e três filhas, Dorothy, Judith e Mary, que morreram da praga em 1574.
[8] Nota do editor: Este David, bem como o seu irmão Samuel, foram deserdados por Antony Calvino, por causa de sua “desobediência”.
[9] Nota do editor: Os livros de Calvino foram comprados após a sua morte pelo lorde, como podemos ver nos registros do concílio do dia 8 de Julho de 1564: “resolvido comprar para a república os tais livros do senhor Calvino, como o senhor Beza melhor julgar.”
[10] Nota do editor: Uma parte da mobília pertencia a república de Genebra, como é provado pelo inventário preservado nos arquivos (No. 1426). Extraímos desta lista os artigos emprestados para o reformador, do dia 27 de Dezembro de 1548, e devolvidos ao lorde após a sua morte.
[11] Nota do tradutor: Calvino faleceu em 27 de Maio de 1564 e é sepultado no dia seguinte “’envolvido em uma mortalha e colocado em um caixão de madeira, sem pompa ou cerimônia requintada ... seu túmulo foi identificado com um montículo simples, como o de seus mais humildes companheiros.’ Conforme ele mesmo desejara.” Derek W.H. Thomas, “Quem era João Calvino?” in: Burk Parsons, ed., João Calvino amor à devoção, doutrina e glória de Deus (São José dos Campos, Editora Fiel, 2010), p. 54.
[12] Nota do tradutor: O livro foi publicado pela Editora Cultura Cristã sob o título de “Cartas de João Calvino – celebrando os 500 anos de nascimento do Reformador de Genebra”.
Extraído de Letters of John Calvin: Select from the Bonnet Edition with an introductory biographical sketch (Edinburgh, The Banner of Truth Trust, 1980), pp. 249-253.[12]
Tradução em 20 de Novembro de 2005 e revisado em 12 de Fevereiro de 2014.
Rev. Ewerton B.Tokashiki
Em nome de Deus, seja conhecido de todos os homens e por aqueles que estão presentes, que no dia 25 de Abril do ano de 1564, eu Peter Chenelat, cidadão e tabelião de Genebra, fui procurado pelo honrado João Calvino, ministro da Palavra da Deus na Igreja de Genebra, e burguês da dita Genebra,[2] que estando doente e indisposto em corpo somente, declarou-me a sua intenção de fazer o seu testamento e declaração de sua última vontade, solicitando-me escreve-la conforme poderia por ele ser ditada e pronunciada no seu declarado desejo, tenho feito, e escrito-a sob a sua ordem, e de acordo com o que ele ditou e pronunciou, palavra por palavra, sem omitir ou, acrescentar nada – na forma como segue:
Em nome de Deus, eu João Calvino, ministro da Palavra de Deus, na Igreja de Genebra, sentindo estar em declínio [de saúde], por causa de diversos males, e que não posso senão pensar que isto seja da vontade de Deus para tirar-me em breve deste mundo, e sendo aconselhado a fazer e firmar por escrito o meu testamento e declaração da minha última vontade da forma como segue:
Em primeiro lugar, dou graças a Deus, não só porque teve compaixão de mim, uma pobre criatura sua, ao tirar-me do abismo da idolatria no qual eu estava atolado, de modo a guiar-me para a luz do seu evangelho e tornar-me um participante da doutrina da salvação, da qual eu era inteiramente indigno, e continuando em sua misericórdia, Ele tem me suportado em meio a muitos pecados e oscilações, que eram tais, que eu bem merecia ser rejeitado por Ele uma centena de vezes – mas pelo contrário, Ele estendeu-me a sua misericórdia para que eu e meu labor pudéssemos conduzir e anunciar a verdade do seu evangelho; protestando que é meu desejo viver e morrer nesta fé, a qual foi-me conferida, não possuindo outra esperança, nem refúgio, exceto em sua gratuita adoção, sobre a qual toda a minha salvação está fundamentada; abraçando a graça que Ele tem-me entregue, em nosso Senhor Jesus Cristo, e aceitando os méritos da sua morte e sofrimento, de modo que, por estes meios, todos os meus pecados estão sepultados; e orando-lhe para lavar-me e purificar-me pelo sangue deste grande Redentor, que foi derramado por nós, pobres pecadores, que eu possa comparecer diante de sua face, carregando a sua imagem tal como ela era.[3]
Também protesto que tenho diligentemente, de acordo com a medida da graça que me é dada, ensinar a sua Palavra com pureza, tanto em meus sermões como em meus escritos, e expondo fielmente a Sagrada Escritura; e ainda, que em toda disputa que tive com os inimigos da verdade, nunca fiz uso de sutis artimanhas, nem de sofismas, senão que tenho me esforçado em agir honestamente ao manter o debate. Mas ai de mim! Pois, o desejo que tive, e o zelo, se podem assim ser chamados, foram tão frios e tão lentos que sinto que sou um devedor a tudo e em toda parte, e que isto, não foi por sua infinita bondade, toda afeição que tive poderia ser como fumaça, e não somente isto, que desde os favores que Ele me concedeu poderiam senão render-me maior culpa; de modo que o meu único recurso é este, que sendo Pai de misericórdia, Ele me apresentará diante do Pai, sendo eu um tão miserável pecador.
Além disso, desejo que o meu corpo, após o meu falecimento, seja enterrado conforme o modo usual, para a espera do dia da bendita ressurreição.
A respeito dos poucos bens terrenos que Deus me deu aqui para dispor-los, eu nomeio e indico como o meu único herdeiro, meu amado irmão Antony Calvino, mas somente como honrado herdeiro, concedendo-lhe o direito de possuir nada mais, senão a taça que ganhei de Monsieur de Varennes,[4] e suplico-lhe que fique satisfeito com isto, como eu estou bem certo de que ele será, pois ele sabe que fiz isto por nenhuma outra razão, senão que o pouco que deixo possa permanecer para os seus filhos. Em seguida, deixo para a Academia dez moedas de cinco xelins, e para o tesouro dos pobres estrangeiros a mesma soma.[5] Igualmente, para Jane, filha de Charles Costan e minha meia-irmã,[6] por assim dizer, por parte de pai, a soma de dez moedas de cinco xelins; e ainda, para cada um de meus sobrinhos, Samuel e João, filhos de meu supracitado irmão,[7] quarenta moedas de cinco xelins; e para cada uma de minhas sobrinhas, Anne, Susannah e Dorothy deixo trinta moedas de cinco xelins. Também para o meu sobrinho David e seu irmão, pois ele tem sido imprudente e inseguro, deixo-lhe, porém, vinte e cinco moedas de cinco xelins como uma punição.[8] Este é o total de todos os bens que Deus me deu, de acordo com o que fui capaz de avaliar e estima-los, quer sejam em livros,[9] mobília,[10] objetos de prata, ou qualquer outra coisa. De qualquer modo, é possível que o resultado da venda remonte a alguma coisa mais, entendo que poderia ser distribuído entre meus citados sobrinhos e sobrinhas, sem excluir David, se Deus tiver lhe concedido graça para ser mais moderado e sério. Mas, creio que a respeito deste assunto não haverá dificuldade, especialmente quanto as minhas dívidas que serão pagas, como tenho encarregado a meu irmão em quem confio, nomeando-o executor deste testamento junto ao respeitável Laurence de Normandie, concedendo-lhes poderes e autoridade para fazer um inventário sem qualquer forma judicial, e negociar minha mobília para levantar dinheiro dela de modo a consumar as orientações deste testamento como ele está aqui firmado por escrito, neste dia
25 de Abril de 1564.
Testemunho com a minha mão,
JOÃO CALVINO.[11]
Após ser escrito como está acima, no mesmo instante o citado respeitável Calvino subscreveu com a sua usual assinatura o registro do citado testamento. E no dia seguinte, que foi 26 do mês de Abril, o citado respeitável Calvino chamou pela uma segunda vez junto aos respeitáveis Theodore Beza, Raymond Chauvet, Michael Cop, Louis Enoch, Nicholas Coladon, Jacques Desbordes, ministros da Palavra de Deus nesta igreja, e o respeitável Henry Seringer, professor de letras, todos os burgueses de Genebra, na presença de quem ele declarou que tinha determinado-me escrever sob ele, e com o seu ditado, o citado testamento na forma, e com as mesmas palavras que estão acima, dizendo-me para que o lesse em alta voz na presença das ditas testemunhas convidadas para este propósito, o que eu fiz com uma voz audível, e palavra por palavra. Depois desta leitura, ele declarou que esta era a sua vontade e último disposição, desejando que pudesse ser realizado. E assim, para maior confirmação do mesmo, solicitou as pessoas supracitadas que também a assinassem comigo, em Genebra, na rua chamada Des Chanoines, na residência do citado testador. Com fé disto, e para servir por suficiente prova, tenho redigido na forma como acima está apresentado o presente testamento, de modo a expedi-lo a quem o é de direito, sob o comum selo dos nossos mais honrados senhores e superiores e com a minha usual assinatura.
Testemunho com a minha mão,
P. CHENELAT.
NOTAS:
[1] Nota do tradutor: O texto original está no Corpus Reformatorum vol. 20, pp. 298-302.
[2] Nota do tradutor: Alister McGrath nota que “Calvino somente adquiriu o status de bougeois, em Genebra, na sua velhice: ele nunca veio a ser um cidadão da cidade. Ele não poderia concorrer às eleições (e até dezembro de 1559 ele não podia nem mesmo votar nas eleições municipais); nem teve ele qualquer acesso privilegiado ao Conselho municipal ou influência direta sobre este, em nenhuma fase de sua carreira.” Alister McGrath, A vida de João Calvino (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2004), p. 148.
[3] Nota do tradutor: Calvino em seus escritos preserva essa característica coerente à sua convicção de que era a soberana graça que o tornava aceito diante de Deus, apesar de sua indignidade pecaminosa. Herman J. Selderhuis nota que Calvino “continuamente cita em suas cartas numerosas características negativas das quais ele era ciente, mas que ao mesmo tempo tinha dificuldade de esconder.” Herman J. Selderhuis, ed., The Calvin Handbook (Grand Rapids, Wm. Eerdmans Pulishing Co., 2009), p. 6. Ronald Wallace faz similar observar “o próprio Calvino era bem consciente de muitas de suas falhas que, às vezes, prejudicavam seu testemunho público e que o caracterizavam como uma pessoa particular.” Ronald Wallace, Calvino, Genebra e a Reforma – Um estudo sobre Calvino como um Reformador Social, Clérigo, Pastor e Teólogo (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2003), p. 237. Sobre este assunto Wallace dedica das páginas 237 a 242.
[4] Nota do editor: Guilhaume de Trie, Lorde de Varennes. Ele morreu em 1562, deixando a guarda de seus filhos à Calvino.
[5] Nota do tradutor: Este “tesouro dos pobres estrangeiros” era um fundo de reserva que a cidade de Genebra tinha para socorrer os refugiados, que por motivos políticos ou teológicos eram expulsos de suas pátrias, e procuravam acolhida nesta cidade. Durante o retorno de João Calvino para Genebra esta cidade em pouco tempo tornou-se não somente um local de referência para a Reforma teológica, mas também para o pensamento econômico, político e social. O próprio Calvino sabia o que era andar errante como um “pobre estrangeiro”. David W. Hall, The legacy of John Calvin – his influence on the modern world (Phillipsburg, P&R Publishing, 2008), pp. 15-18.
[6] Nota do editor: Mary, filha de um segundo casamento de Gérard Calvino. Ela deixou Noyon em 1536, para acompanhar os seus irmãos, João e Antony para a Suíça.
[7] Nota do editor: Antony Calvino teve com a sua primeira esposa dois filhos, Samuel e Davi, e duas filhas, Anne e Susannah; com a segunda, um filho, João, que morreu sem deixar posteridade em 1601, e três filhas, Dorothy, Judith e Mary, que morreram da praga em 1574.
[8] Nota do editor: Este David, bem como o seu irmão Samuel, foram deserdados por Antony Calvino, por causa de sua “desobediência”.
[9] Nota do editor: Os livros de Calvino foram comprados após a sua morte pelo lorde, como podemos ver nos registros do concílio do dia 8 de Julho de 1564: “resolvido comprar para a república os tais livros do senhor Calvino, como o senhor Beza melhor julgar.”
[10] Nota do editor: Uma parte da mobília pertencia a república de Genebra, como é provado pelo inventário preservado nos arquivos (No. 1426). Extraímos desta lista os artigos emprestados para o reformador, do dia 27 de Dezembro de 1548, e devolvidos ao lorde após a sua morte.
[11] Nota do tradutor: Calvino faleceu em 27 de Maio de 1564 e é sepultado no dia seguinte “’envolvido em uma mortalha e colocado em um caixão de madeira, sem pompa ou cerimônia requintada ... seu túmulo foi identificado com um montículo simples, como o de seus mais humildes companheiros.’ Conforme ele mesmo desejara.” Derek W.H. Thomas, “Quem era João Calvino?” in: Burk Parsons, ed., João Calvino amor à devoção, doutrina e glória de Deus (São José dos Campos, Editora Fiel, 2010), p. 54.
[12] Nota do tradutor: O livro foi publicado pela Editora Cultura Cristã sob o título de “Cartas de João Calvino – celebrando os 500 anos de nascimento do Reformador de Genebra”.
Extraído de Letters of John Calvin: Select from the Bonnet Edition with an introductory biographical sketch (Edinburgh, The Banner of Truth Trust, 1980), pp. 249-253.[12]
Tradução em 20 de Novembro de 2005 e revisado em 12 de Fevereiro de 2014.
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