sábado, 25 de março de 2017

Carta de Martinho Lutero a Erasmo de Rotterdam [1525]

A Erasmo. 18 de Abril de 1524.[1]

Graça e paz de nosso Senhor Jesus Cristo.

Excelentíssimo Erasmo, estive calado o tempo suficiente, e ainda que esperasse que se adiantasse em romper o silêncio, esta espera tão longa apenas resultou falida. Por isso, creio que a própria caridade tem me motivado a começar. Não tenho nada que objetar contra você, pelo fato de que no princípio tenha se afastado de nós, pois podendo entregar-se por completo e sem obstáculos a sua causa contra os meus inimigos papistas; mas, muito menos cheguei a mal em absoluto, que em algumas passagens de seus livros editados nos mordeu e ofendeu com sua pitada de aspereza, para conseguir a sua graça ou mitigar o seu furor. Porque como vemos que Deus ainda não lhe concedeu a força e a coragem para lutar conosco, livre e confiadamente contra os nossos monstros, não somos quem nos atrevemos a exigir algo que supere as suas forças e que não vá com o seu modo de ser. Isto não foi obstáculo para tolerar a tua pusilanimidade e venerar a medida do dom de Deus;[2] porque o que não posso negar a orbe inteira é que o florescimento e reinado das letras, meio para chegar à leitura limpa da Bíblia, é um dom egrégio e magnífico que Deus lhe deu e que temos que agradecer.
Por este motivo nunca desejei que abandonasse ou menosprezasses os seus dotes e se arrolasse em nossos exércitos. Muito nos valeria a sua genialidade e eloquência, mas, ao faltar coragem, era mais seguro que servisse segundo seu dom. Somente temia uma coisa: que em alguma circunstância os inimigos o induzissem a atacar os nossos dogmas em seus escritos publicados e nos víssemos na urgência de nos enfrentar contigo face a face.[3] Contivemos a alguns que com livros preparados estávamos decididos a desafiá-lo. Esse foi o motivo pelo que desejei que não se editasse a Expostulatio de Hutten e muito menos a Esponja,[4] em que, ao meu entender, você percebe que facilmente resulta escrever sobre a modéstia e arguir da falta de modéstia de Lutero, mas que é muito difícil, para não dizer impossível, manter-se invulnerável, sem uma graça singular do Espírito.
Creia ou não, Cristo é testemunha de que lamento com todo o meu coração por tanto ódio e antipatia, como tantas pessoas desencadeia contra você. O seu valor humano está muito acima de todos estes ataques, mas não posso crer que ante eles, você permaneça imóvel. Possivelmente os impulses um zelo justo e lhes pareça que tenha provocado de forma indigna. Direi com toda liberdade: se fossem mais sinceros, não teriam motivos de indignação; mas, estão justificados, porque são de condição tal, que a sua debilidade não lhes permite suportar o teu mau humor e sua simulação (coisas que você preferiria que fossem vistas como prudência e modéstia). Eu mesmo, ainda que irritado e com frequência esteja ansioso, e tenha escrito mais exageradamente do que devo, somente o fiz contra os teimosos e indômitos. Além do mais, me parece que minha própria consciência e a experiência de muitos excedem em testemunho a minha misericórdia e mansidão com os pecadores e os ímpios, ainda que sejam insensatos e iníquos. Que por esse motivo contive a minha pluma quando você me acusava e, em minhas cartas - que chegaram a ti - disse a meus amigos, que contenderia comigo até que saltasse publicamente ao debate; porque, ainda que não simpatizasse conosco, ainda ímpia ou dissimuladamente condena, ou não aprova muitos capítulos da piedade, todavia, não posso, nem quero rotulá-lo de pertinaz.
Mas, e agora, o que posso fazer? As coisas chegaram a seu ponto de máxima frieza por ambas as partes. Se me fosse possível, optaria por fazer-me de mediador para que cessassem de ataca-lo com tanta animosidade e, permitissem que em sua velhice dormisse pacificamente no Senhor. Tenho convicção de que se acalmariam se, em primeiro lugar, tivessem em conta a sua pusilanimidade e medissem a magnitude de nossa causa, que transbordam as suas possibilidades, fundamentalmente porque chegou a um extremo em que não há que temer nenhum perigo, inclusive ainda que Erasmo a combatesse com toda as suas energias, muito menos se faria do que aumentar os seus sarcasmos e dentadas de vez em quando: e se, por outro lado, você meu Erasmo, pensasse em sua debilidade, e não continuasse com esses recursos picantes e agudos de sua retórica, de maneira que, se não pode, nem quer nos defender, que não se comprometa com eles, mas que se dedique as suas coisas. As reações tão iniquamente ante as suas mordidas se deve apenas (e você testemunha disso) a fraqueza humana, que se teme à fama e autoridade de Erasmo, e é muito pior uma mordida de Erasmo que ser triturado por todos os papistas.
Desejo o que disse, ótimo Erasmo, constitua um testemunho de minha boa vontade com você, e a expressão do desejo que abrigo de que Deus lhe conceda um espírito digno de sua fama; se a Deus comprazer demorar nesta concessão, lhe suplico que, entretanto, se não pode colaborar de outra maneira, que limite a ser um mero expectador de nossa tragédia; que não se alie com os nossos adversários engrossando as suas fileiras, e sobretudo, que não edite argumentos que me ataquem, do mesmo modo que não publicarei contra você. Por fim, lembre que os que se amparam sob o meu nome para arremeter, são homens semelhantes a nos dois, aos que é preciso perdoar e ignorar, e que, como disse são Paulo, que têm que nos ajudar a carregar as cargas.[5] Já se mordeu o bastante, cuidemos agora de não nos destruirmos mutuamente;[6] seria um espetáculo ainda mais vergonhoso, sendo indubitável que de ambas as partes têm o desejo de prejudicar a piedade, senão que anela se entregar a sua respectiva tarefa sem pertinência.
Não interprete mal a minha rudeza e atribua-a ao Senhor. Recomendo-lhe esse jovem Joaquim que se parece com o nosso Felipe;[7] verá que, uma vez admitido, se recomendará melhor por si mesmo.

Wittenberg, ano de 1524. Martinus Luther.


NOTAS:
[1] WA Br 3, 270-271. É de interesse esta carta para contrastar a mudança de atitude de Lutero com Erasmo. Próxima da ruptura pública, Lutero luta para conseguir a neutralidade de um adversário sempre temido.
[2] Ef 4:7.
[3] Gl 2:11.
[4] Ulrich von Hutten após a derrota dos “cavaleiros”, fugiu para Basiléia, onde somente recebeu o menosprezo de seu adorado príncipe Erasmo. Este foi o motivo de sua dolorosa Ulrici ab Hutten cum Erasmo Roterdamo presbytero expostulatio, que foi impressa em Estrasburgo, em 1523, após a difusão do manuscrito de Erasmo correspondeu com sua Spongia Erasmi adversus aspergines Hutteni, Basiléia 1523.
[5] Gl 6:2.
[6] Gl 5:15.
[7] Joaquim Camerário do círculo de Wittenberg, amigo de Melanchthon e helenista, achou graça ante Erasm, a julgar pela resposta deste à carta de Lutero: WA Br 3, p. 285.


Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 397-398.

Tradução em 25 de Março de 2017.
Rev. Ewerton B. Tokashiki

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