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segunda-feira, 15 de maio de 2017

O sofrimento causado pelo pecado - Johannes Wollebius

(I)
1. Algo mais acerca do pecado. Precisamos considerar o sofrimento causado pelo pecado.
2. Este sofrimento é tanto temporal como eterno.
3. Tanto é físico como espiritual.

PROPOSIÇÕES

I. Deus incluiu todos os sofrimentos do homem sob a palavra “morte”. Gn 2:17: “no dia em que dela comeres, certamente morrerás.”
II. Há quatro estágios desta morte.
III. O primeiro é a morte espiritual, que é a perda da vida espiritual, de modo que o homem vive apenas para o pecado. Ap 3:1: “Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives e estás morto.”
IV. A segunda é a morte do sofrimento, que é a perda da felicidade original e o desdobramento de toda espécie de desafortúnio. Êx 10:17: “Oreis ao SENHOR, vosso Deus, que tire de mim esta morte.”
V. A terceira é a morte física, que é a perda desta vida, a dissolução do corpo à terra, e o retorno do espírito a Deus. Ec 12:7 “e retornará à terra como era, e o espírito a Deus que o deu.” A alma retornará a Deus que será tanto um pai como um juiz. Apesar da morte, pelo favor de Cristo, ter se tornado numa passagem desta vida para a eternidade, neste lugar a morte será considerada como ela é.
VI. O quarto estágio é a morte eterna, ou estado de condenação, que é chamado de segunda morte, pela comparação com a morte física (Ap 21:8).
VII. Nada, exceto a Escritura, ensina o que é afirmado acerca do estado dos condenados.
VIII. Este estado consiste da perda do sumo bem e o processo para o sumo mal.
IX. A perda do sumo bem é isto: eles serão excluídos para sempre da comunhão com Deus e das suas bençãos (Mt 25:41: “apartai-vos de mim, malditos.”).
X. O correspondente ao maior mal será a eterna comunhão com o demônio e seus anjos (Mt 25:41: “No lago de fogo,[O texto original infernalis; Vulgata e Beza leem “fogo eterno”] preparado para o demônio e seus anjos.”).
XI. O lugar preparado para os condenados é o inferno.
XII. A localização do inferno é um assunto que não pode ser conhecido pela experiência, nem é alcançado pela inquirição.
XIII. É suficiente notar que na Escritura ele é chamado de gehenna (Mt 5:22); “fornalha de fogo” (Mt 13:42); um lugar de tormento (Lc 16:23); “uma prisão” (1 Pe 3:19); “poço do abismo” (Ap 9:1); “o lago de fogo” (Ap 20:15); “lago que arde com fogo e enxofre” (Ap 21:8).
XIV. Os pontos que necessitam de consideração são a multiplicidade, a severidade e a eternidade das punições.
XV. A multiplicidade é óbvia, porque serão tormentos tanto espirituais como físicos.
XVI. As principais punições espirituais será o verme da consciência que não morre (Is 66:24), e seguindo a isto, as extremas e indescritíveis tribulações e aflições (Rm 2:9).
XVII. As punições físicas são chamadas “fogo inextinguível” (Mt 13:42; Ap 20:15); nesta vida não há maior sentimento de sofrimento [do que queimar].
XVIII. A severidade da punição é apresentada pelo lamento e ranger de dentes (Mt 22:13); estes são evidências do mais alto grau de dor e sofrimento.
XIX. Este sofrimento é eterno, de modo que, o réprobo não tem expectativa aonde olhar. (Lc 16:26: “Está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que querem passar daqui para vós outros não podem, nem os de lá passar para nós.” Ap 14:11: “A fumaça do seu tormento sobe pelos séculos dos séculos”).
XX. O absurdo ensino dos papistas acerca do limbo das crianças, dos pais e acerca do purgatório estão baseados nos sonhos dos poetas pagãos, não têm sentido e nem são dignos de especial refutação.

domingo, 26 de março de 2017

O pecado atual - Johannes Wollebius

(I)
Do mesmo modo que o pecado original. O pecado atual é algo que viola a lei de Deus no pensamento, desejo, palavra e ações.

PROPOSIÇÕES

I. O pecado tem diversas formas por causa da variedade de circunstâncias.
II. O pecado pode ser, dependendo de quem o comete [ex causa efficiens], tanto pessoas públicas ou privadas, e de pessoas dado maior ou menor grau de importância.
III. Ele pode ser, dependendo da causa material, em pensamento, desejo, palavra, ou ação.
IV. Ele é, dependendo da causa formal, tanto de omissão como de comissão.
V. Ele é, dependendo da causa final, tanto por impulso como de paixão, ou um pecado contra a consciência; assim, ele pode ser o resultado da natureza má em vez de uma fraqueza, ou da fraqueza e não da natureza má.[1]
VI. Ele é, dependendo do sujeito, um pecado do corpo ou da alma, ou de ambos.
VII. Ele é, dependendo do objeto, cometido contra Deus, ou contra o próximo.
VIII. Se contra Deus, ele é praticado com parte da vontade, ou com toda a vontade. O último a Escritura chama de “o pecado contra o Espírito Santo” e “pecado para morte” (Mt 12:32; 1 Jo 5:16).
IX. O pecado contra o Espírito Santo, ou pecado para morte, é cometido quando alguém que é convencido em sua consciência pelo testemunho do Espírito Santo, e mesmo assim, por assim dizer, levanta a sua cabeça contra ele com ódio, perversidade e orgulho.[2]
X. O pecado contra homens prejudica tanto a superiores, inferiores, ou iguais, pessoas vinculadas [ao pecador] sejam mais próximos, ou de distantes graus de parentesco, afinidade, etc.
XI. Dependendo das circunstâncias [ex adiunctis] o pecado pode ser em si [per se], ou per accidens. Um exemplo de pecado per accidens é o escândalo em relação as ações que são indiferentes em si (Rm 14).
XII. Nenhum pecado é por natureza tão pequeno [veniale seu tam leve] que não mereça condenação. Isto significa a rejeição do erro dos papistas, que ensinam que alguns pecados são veniais. A razão é esclarecida a partir do objeto e efeito; não há pecado no qual o crime contra a divina e infinita majestade de Deus não seja afetada.
XIII. Mas de fato todos os pecados podem ser perdoados pelo mérito e graça de Cristo, exceto a incredulidade final [infidelitas finalis], e o pecado contra o Espírito Santo. Não é uma questão destes últimos serem mais poderosos do que o mérito e graça de Cristo. Eles são rejeições deste mérito e graça com o seu desprezo.
XIV. O julgamento concernente a relativa seriedade [de gradibus] dos outros pecados precisam ser feitos sobre a base das circunstâncias, em consideração do que eles podem ser avaliados, como mais ou menos graves. Por exemplo, um pecado é mais grave se cometido por uma pessoa de alto grau, mais do que cometido por uma pessoa de baixa posição. “Quanto mais atraente é o crime em si, maior a culpa do criminoso.” Um pecado premeditado é mais grave do que quando meramente pensado, e o de palavra e ação é mais grave do que o praticado em pensamento e desejo. Um pecado deliberado é pior do que um de omissão da mesma ordem. Um pecado contra Deus é pior do que o que é cometido contra o próximo. Um pecado cometido em relação a quem temos razões para sermos contidos do pecado, é mais grave do que se cometido em relação qualquer um; por exemplo, um pecado contra os pais é mais grave do que um da mesma ordem contra um irmão. Um mau exemplo [scandalum] é mais grave quando diante dos jovens do quando o praticamos em relação aos adultos.[3 ]

NOTAS:
[1] Alexander Ross traduz: “Quanto ao fim; ele é tanto da incoerência, ou da afeição, e contra a consciência; e pode ser malícia, e não uma enfermidade; ou o contrário, uma enfermidade, e não malícia.” The Abridgment of Christian Divinity, p. 83.
[2] F. Turrentin também (Locus IX, Questão XIV.3) enfatiza que o pecado para morte precisa ser mais do que ausência de arrependimento final “porque todos os réprobos morrem no final impenitentes, mas de nem todos pode ser afirmado terem pecado contra o Espírito Santo.”
[3] Aqui há base para a casuística que é tão importante na Theologia Practica de Voetius.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O pecado original e o livre arbítrio

(I)

1. O pecado resultante do primeiro pecado é tanto original como atual.
2. Pecado original é um mal inato de toda humanidade, enxertada em todos que descendem de Adão, por causa da culpa [reatus] do primeiro pecado, pelo qual a liberdade para o bem foi completamente perdida [penitus] e a emergência de uma inclinação para fazer o mal.

PROPOSIÇÕES

I. Na Escritura este pecado é chamado o pecado par excellence, e também “o corpo do pecado” (Rm 6:6), “pecado ... tornando pecaminoso” (Rm 7:13), “pecado que habita” (Rm 7:17), “a lei dos membros” (Rm 7:23), “o velho homem” (Rm 6:6), e “a carne” (Jo 3:6; Gl 5:17).
II. Ele também é chamado de concupiscência. Rm 7:7: “eu poderia não ter conhecido a concupiscência, se a lei não tivesse dito: ‘não cobiçarás’”.
III. Os papistas estão errados quando removem a concupiscência da lista dos pecados, e adicionam-na as obras de Deus. Pelo nome de concupiscência pode significar outra faculdade natural de desejo, que esteve no homem antes da queda, ou o mal aderindo a esta faculdade, que está ali pelo seu primeiro ato, e pelo qual ela está inclinada para o mal.
IV. A causa aproximada do pecado original é a culpa [reatus] do primeiro pecado, com respeito a ele é justa a punição infligida por Deus, e de fato, parte da morte que Deus advertiu ao homem.
V. Embora a alma humana é soprada [na pessoa] diretamente por Deus, entretanto, desde o primeiro momento estando unido ao corpo, ela é culpada do primeiro pecado, que é imputado a toda raça humana, e por isso é corrompida por aquela pecaminosidade.
VI. O fato dela ser praticada de forma voluntária e consciente, não impede que o pecado original seja pecado. Certo de que a vontade esteja completamente ausente, no entanto, que a ilegalidade esteja em nossa natureza é suficiente [para cometermos pecado].
VII. Nenhum ser humano, nem mesmo a virgem Maria, está livre do pecado original (somente Cristo foi exceção), nem afeta as crianças meramente, mas também aqueles que ainda não nasceram, e ele cresce, como a ganância nos descendentes dos lobos. Sl 51:5 “porque em pecado me concebeu minha mãe”. 2 Co 5:21 “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós”.
VIII. O pecado original consiste não somente na inabilidade para fazer o bem, mas também de uma tendência [proclivitas] para o mal; não é uma mera perda do bem que foi recebido originalmente, mas também a adição do mal correspondente.
IX. Por causa do pecado original a bondade natural é corrompida, e a bondade sobrenatural está completamente [penitus] perdida.
X. Entretanto, subsiste o intelecto, mas ele está confuso; e a vontade que perdeu a sua retidão; e os desejos inferiores que estão totalmente corrompidos.
XI. O homem não redimido mesmo em assuntos naturais e civis é capaz de fazer o bem apenas por graça especial.
XII. Sem esta graça especial de Deus, nada significante é realizado pelos pagãos [gentiles].
XIII. Tudo o que eles são capazes de realizar está tão misturado com multiforme futilidade, que as suas maiores virtudes são simplesmente esplêndidos pecados [splendida peccata] diante de Deus.
XIV. Boas obras não são apenas ações que são boas em si mesmas, mas ações que são realizadas pelos motivos corretos. A frase “boas obras” podem ser usadas em sentido unívoco e equívoco. Ela é usada em sentido unívoco quando as ações são boas simplesmente com respeito a todas as circunstâncias, mas ela é equivocadamente quando as ações são boas em si mesmas, mas corrompidas em relação ao objeto, ou sujeito, ou meios, ou ainda o propósito. Se examinar-se do propósito das ações dos pagãos, será evidente que eles são preocupados com a sua própria glória, e não com a que pertence a Deus.
XV. Embora as paixões dos réprobos são restringidas por Deus como um freio, eles não fazem tudo o que são capazes.
XVI. Os dons sobrenaturais, chamados de iluminação do intelecto, retidão da vontade e a conformidade da paixão da razão, estão completamente perdidos.
XVII. Assim, em assuntos espirituais, o homem em si não possui nenhum princípio de conhecimento ou ação, nem um sólido fato ou possibilidade.
XVIII. Embora há quem atribua aos não redimidos algum livre arbítrio, ou outros poderes pelos quais poderiam fazer o bem, ou preparar-se para a conversão e a graça de Deus, estão buscando uma casa em cinzas. Este é o erro dos pelagianos e dos semipelagianos.
XIX. A vontade permanece livre da coerção, mas não livre de escolher entre o bem e o mal.
XX. A vontade se tornou tão má [factum est ad malum] que ela seria melhor descrita como escrava do que como livre. No que diz respeito ao intelecto “o homem natural não pode entender as coisas concernentes ao Espírito de Deus” (1 Co 2:14). Bem como a vontade “a imaginação do coração do homem é má” (Gn 8:21). E por fim, a Escritura declara que o homem perdeu completamente a vida espiritual, estando “morto em pecado” (Ef 2:1).
XXI. Quando este pecado é perdoado aos pais piedosos, de modo algum é repassado por geração aos seus filhos.

Pois a mancha não está completamente retirada pelo perdão, apesar da culpa ser removida. O dom da fé não é dado pela geração, mas pela regeneração, assim o homem gera um homem não como regenerado, mas simplesmente como um homem, do mesmo modo que uma semente limpa das arestas, palha e casca, ainda produzirá quando crescer.

Tradução de Rev. Ewerton B. Tokashiki
Extraído de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin(Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp. 69-71.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

A queda dos primeiros pais e o início do sofrimento humano - Johanes Wollebius

(I)

1. Muito do governo de Deus sobre o ser humano se estabelece no estado de inocência. O seu governo sobre eles no estado de miséria significa que Deus, pelo justo juízo, sujeita o homem, a quem pelo seu próprio ato caiu em pecado, para várias penalidades.
2. Entretanto, este estado consiste do pecado, e do sofrimento como um resultado do pecado.
3. Pecado é transgressão da lei, ou algo contrário a lei divina (1 Jo 3:4). Neste ponto, por “lei” entende-se tanto os mandamentos como as proibições primeiramente entregues ao homem, e a lei da natureza escrita em seu coração. Anteriormente, no devido lugar, falaremos da restauração e extensão da lei após a queda.

PROPOSIÇÕES

I. A palavra “pecado” é usada tanto concretamente, do assunto sem lei com a sua ilegalidade, como abstratamente, da simples ilegalidade.
II. A definição de pecado é pelo que se pensa, diz e faz é também restrita. De tal maneira os papistas a definem; como aparecerá abaixo, esta definição não cobre o pecado original.
III. Deus não pode, sem blasfêmia, ser chamado o autor do pecado.
IV. Não há razão de por que o mesmo ato, de diferentes perspectivas, não pode ser tanto um pecado e uma punição do pecado.

(2)

1. Pecado é tanto o primeiro pecado ou o resultado dele.
2. Este primeiro pecado é a desobediência dos primeiros pais, pelo qual eles transgrediram a proibição de Deus acerca da árvore do conhecimento do bem e do mal.

PROPOSIÇÕES

I. A causa da transgressão de Adão e Eva não foi Deus, nem um decreto de Deus, nem a anulação de alguma graça especial, nem a permissão da queda, nem qualquer motivo incitado naturalmente, nem o governo providencial da própria queda. Ela não foi Deus, porque ele tinha estritamente proibido o comer do fruto daquela árvore. Ela não foi o seu decreto, porque este conduz somente a uma imutável e para uma coerciva necessidade, nem induz ninguém a pecar. Ela não foi a anulação de alguma graça especial, porque o homem poderia ter se preservado inocente, pois não havia obrigação de dar nem mesmo a graça que Deus deu ao homem; de fato, ele recebeu a habilidade de agir como ele quisesse, apesar de não tê-lo disposto como poderia. Ele não foi incitado por algum motivo natural, pois um motivo em si não era pecado. Ele não foi o governo providencial da queda, pois trazer o bom do mal é ser a fonte do bem antes do que do mal.
II. Deus tanto quis, como não realizou o primeiro pecado. Ele não quis, a medida em que é pecado, mas ele quis a medida em que ele signifique a revelação de sua glória, misericórdia e justiça.
III. A causa imediata do pecado original foi a instigação e persuasão da antiga serpente, o demônio.
IV. A causa antecedente foi a vontade do homem, a qual por si era indiferente em relação ao bem ou mal, mas, quando convencido por Satanás, ela se voltou para o mal.
V. Há cinco estágios da queda, pelos quais o homem caiu de Deus um passo por vez, e não de uma vez: (1) Irrefletida e intrometidamente quando Eva conversou com a serpente na ausência de seu marido; (2) incredulidade, que pouco a pouco ela começou a concordar com as mentiras de Satanás, quem atribuiu dúvida sobre a bondade de Deus em relação ao homem, de modo que ela desconfiou de Deus; (3) desejo pelo fruto proibido e pela glória divina; (4) o próprio ato; (5) a tentação de Adão e também o despertamento nele de um desejo indisciplinado.
VI. Se todos os aspectos [pars] deste pecado forem levados em conta, então, é corretamente ele chamado de transgressão de toda a lei natural. O homem pecou por incredulidade, desconfiança, ingratidão e idolatria, bem como ele deixou Deus, e fez para si um ídolo. Ele também pecou ao desprezar a palavra de Deus, por rebelião, homicídio e descontrole por acatar secretamente aquilo que não tinha a permissão de Deus, por concordar com falsas declarações, e finalmente por desejar uma maior dignidade, de fato, uma dignidade que pertence somente a Deus. Todavia, onde a lei natural é limitada para uma definição que chame este pecado de intemperança, ambição ou orgulho.
VII. Corretamente, entretanto, com o bendito apóstolo, chamamos este pecado de “transgressão”, “crime” e “desobediência” (Rm 5:14, 18-19).
VIII. Neste caso, Adão precisava entender não somente como indivíduo particular, mas também em sua capacidade pública [ut publica persona], e assim, como pai de toda a raça humana, e seu cabeça e raiz.
IX. Portanto, tanto faz se ele perdeu ou ganhou, ele ganhou e perdei para si, bem como para toda a sua posteridade. Assim como o cabeça de uma família negocia tanto sobre o seu favor e dos outros membros, e um nobre pode perder ou preservar os seus privilégios como os de sua posteridade, do mesmo modo, Adão perdeu esta sua felicidade e de sua posteridade. Como de uma raiz envenenada nada saudável pode germinar, assim são naturalmente os que descendem de Adão, nascem sob os efeitos deste pecado.
X. Portanto, este pecado não é apenas pessoal, mas também natural. De fato, toda a natureza foi corrompida por ele, pelo mesmo fato que a posteridade de Adão – que é, toda naturalmente descendente de Adão – está presa. Então, Cristo é exceção desta culpa. Ele nasceu de Adão, mas não através de Adão; não por geração natural, mas pelo poder do Espírito Santo.
XI. Portanto, como uma pessoa corrompeu a natureza, agora a natureza corrompe as pessoas.
XII. Nós piamente cremos que os nossos primeiros pais foram recebidos em graça por Deus.


Tradução de Rev. Ewerton B. Tokashiki
Extraído de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin(Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp.66-68.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

O governo de Deus sobre os homens no estado de inocência

(1)

1. Tal é o governo de Deus sobre os anjos. O seu governo sobre os seres humanos é evidente no estado de inocência e mistério, e finalmente no estado de glória e graça.
2. O seu governo sobre os homens num estado de inocência consistiu de dar um pacto das obras para eles, pelo qual, sob a condição de obediência, ele prometeu felicidade eterna, e advertiu a desobediência com morte.

I. O pacto de Deus com o homem é duplo, tanto um pacto de obras como de graça:[1] o primeiro antes da queda e o segundo após ela.
II. O pacto das obras foi confirmado por um duplo sacramento: a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal, e ambas estavam localizadas no centro do paraíso.
III. O seu propósito era duplo: (1) que a obediência do homem pudesse ser posta à prova, através de comer ou abstendo-se delas; (2) que o primeiro pudesse significar felicidade eterna se eles obedecessem, e o segundo, a perda do sumo bem e a vinda de um mal maior se eles que desobedecessem.
IV. Embora a árvore da vida é assim chamada por seu significado sacramental, não porque estivesse nela o poder de conceder a vida.
V. Semelhantemente, a árvore do conhecimento do bem e do mal tinha o seu nome porque ela significa o mais alto bem e mal, e por causa do evento associado a ela. Por meio dela o homem aprendeu como o bem se perdeu, e que mal lhe sobreveio.
VI. A felicidade do homem, enquanto sem pecado, descansava principalmente na imagem de Deus.
VII. O assunto da divina imagem é primariamente a alma, e secundariamente o corpo, de modo que a alma se expressa por meio do corpo.
VIII. Os dons da imagem de Deus foram parcialmente naturais e parcialmente sobrenaturais.
IX. Os dons naturais eram: a substância simples e invisível da alma e as suas faculdades, intelecto e vontade.
X. Os dons sobrenaturais eram: clareza de intelecto, liberdade e retidão da vontade, conformidade [com a razão] sobre a parte da pessoa completa [homo] e domínio sobre as criaturas inferiores.
XI. O intelecto do primeiro homem era tão claro que ele conhecia todas as verdades naturais [naturalia] que poderiam ser conhecidas por meios da auto-evidência dos primeiros princípios. Adão provê uma excelente ilustração desta espécie de conhecimento quando ele nomeia a todas as criaturas de acordo com a sua natureza (Gn 2:20).
XII. O livre arbítrio [no estado de inocência] era indiferente quanto ao bem e mal, de modo que o homem poderia permanecer no estado sem pecado, se ele assim decidisse; ele recebeu a habilidade de agir conforme ele quisesse, mas não decidiu de acordo com esta possibilidade [accipit posse, si vellet, non autem vele ut posset]. O livre arbítrio tem quatro modos, porque o estado do homem se desdobra em quatro momentos.[2] No primeiro homem a vontade era livre para o bem e o mal. No homem caído era livre somente para o mal. No homem regenerado, ou homem em estado de graça, a vontade é livre do mal e para o bem, pela graça de Deus, mas imperfeitamente. No estado de glória ela será perfeitamente livre do mal e para o bem. No estado de inocência o homem era capaz de não pecar [posse non peccare]. No estado de miséria ele não poderia fazer outra coisa senão pecar. No estado de graça o pecado não pode governar o homem. No estado de glória ele será plenamente incapaz para pecar.[3]
XIII. Os apetites inferiores e todas as paixões estavam em harmonia com a razão.
XIV. O primeiro homem era imortal.
XV. O senhorio original do homem sobre as criaturas inferiores não somente era completo, como também era tranquila e pacífica em seu uso.
XVI. Que o labor que era tarefa de Adão, em cuidar e cultivar o jardim, não era por pesar, mas era com muita satisfação.


NOTAS:
[1] Sobre a história deste conceito veja Gottlob Schrenk, Gottesreich u. Bund in ältern Protestantismus (Gütersloh, 1923). Tanto Cocceius como os Padrões de Westminster organizam a teologia sobre este princípio. A escola de Saumur diverge do pensamento da teologia reformada dos três pactos, um “legal” sendo interposto entre os dois aceitos. Nota de John W. Beardslee III.
[2] Aqui Wollebius claramente segue a interpretação de agostiniana do livre arbítrio. Ele ensinava que os quatro estágios da libertas naturae [liberdade da natureza], Richard A. Muller explica que “a liberdade que é própria de um ser dada a sua natureza particular”. Os quatro estados da libertas naturae são: 1) libertas Adami [liberdade de Adão]: “antes da queda - isto é a capacidade ou poder para não pecar”. 2) libertas peccatorum [liberdade de pecadores]: “uma liberdade que é própria e restrita aos limites da natureza caída e é, portanto, uma incapacidade absoluta de fazer o bem, ou para agir para o bem, sendo o pecador incapaz de não pecar”. 3) libertas fidelium [liberdade dos fiéis]: “a liberdade daqueles que são regenerados pelo Espírito Santo, que é próprio da natureza regenerada e, é caracterizada pela capacidade para o pecado e para fazer o bem”. 4) libertas gloriae [liberdade de glória]: “uma liberdade adequada à natureza redimida integralmente, que, como residentes do reino do céu estão agora caracterizados pela incapacidade para o pecado”. Em outras palavras, os quatro estados do homem em relação ao pecado enumerados por Agostinho de Hipona são: 1) no estado antes da queda, o homem era capaz de não pecar (posse non peccare); 2) após a queda, ele é incapaz de não pecar (non posse non peccare); 3) sendo regenerado ele se torna capaz de não pecar (non posse peccare); e 4) no estado de glorificação ele será incapaz de pecar (peccare non posse). Veja Richard A. Muller, Dictionary of Latin and Greek Theological Terms, p. 176. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[3] Thomas Boston escreveu o livro The Nature Human on Fourfould State (The Banner of Truth), que se tornou obra de referência sobre o assunto entre os puritanos. Nota de Ewerton B. Tokashiki.


Traduzido de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin(Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp.64-66.

sábado, 26 de dezembro de 2015

A Predestinação - Johannes Wollebius

(1)

1. Um decreto de Deus que afeta as criaturas pode ser tanto geral como específico.
2. O decreto geral é aquele em que ele determinou mostrar a glória de seu poder, sabedoria e bondade na criação e preservação de todas as coisas.
3. O decreto específico, chamado predestinação, é aquele que ele ordena esta glória de sua graça, misericórdia e justiça se revelando nas criaturas racionais, sejam eles eleitos ou réprobos.

PROPOSIÇÕES

I. Embora a predestinação seja um ato único e absolutamente simples na mente de Deus, todavia, levando em consideração a fraqueza do nosso entendimento, a predestinação como um destino último, pode ser diferenciada da predestinação com respeito aos meios.
II. Todos os que estão predestinados para um destino, também têm predestinado os seus meios.

(2)

1. A predestinação afeta tanto os anjos como aos homens.
2. A predestinação dos anjos significa que Deus determinou sempre preservar alguns deles em [sua] felicidade original, em Cristo como cabeça,[1] e punir outros eternamente em abandoná-los de seu estado de sua própria harmonia, para revelar a glória de sua graça e justiça.
3. A predestinação dos seres humanos significa que, da raça humana que ele criou à sua própria imagem, mas que caíram em pecado por seu próprio ato, Deus determinou na eternidade salvar alguns por meio de Cristo, mas também condenar eternamente os demais, mantendo-os em sua própria miséria, para que revelassem a glória de sua misericórdia e justiça.
4. Entretanto, há dois aspectos [pars] da predestinação: eleição e reprovação.

PROPOSIÇÕES

I. A predestinação é num sentido um decreto absoluto e ao mesmo tempo não.
II. Ele é absoluto com respeito a sua causa eficiente [causa efficiens impulsiva] o qual nem é a fé do eleito, nem o pecado do réprobo, mas absolutamente a livre vontade de Deus. Nem é a fé ou a santidade prevista a causa da eleição, nem se tornou eleita a pessoa porque creu. Pelo contrário, ele crê porque foi eleito. Em At 13:48 “creram os que estavam ordenados para a vida eterna”. Nem somos escolhidos porque seríamos santos, mas “a fim de que sejamos santos e inculpáveis nele, em amor” (Ef 1:4). Nem é o pecado previsto a causa da reprovação. Se fosse, todos seríamos reprovados. Que Deus agiu sobre a sua absoluta e livre boa vontade [beneplacitum] é evidente em Lc 12:33: “é a boa vontade do Pai dar-lhes o reino”, e de Rm 9:15: “terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia”, e 9:18: “ele tem misericórdia de quem quer, e endurece a quem lhe apraz”.
III. Mas o decreto da predestinação não é absoluto com respeito aquilo que ele oferece [materia seu obiectus], nem em relação aos meios pelos quais ele conduz.
IV. Aquilo que a predestinação realiza não é o homem considerado absolutamente, mas o homem é quem caiu em pecado pelo seu próprio ato. As razões para isto são óbvias. (1) O decreto pressupõe pecado ao revelar misericórdia e a ira, ou a justiça; a misericórdia é sem sentido exceto na presença do sofrimento, bem como a justiça ou da ira é sem sentido exceto na presença do pecado. (2) Somente a culpa pode ser reprovada. Mas o homem não é culpado quando criado por Deus, senão quando ele foi deformado por Satanás.
V. Todavia, o pecado não é a causa da reprovação, mas uma necessária condição no objeto [materia seu obiectus]. Embora ele não seja a causa da reprovação, no entanto, o pecado é uma causa da culpa [causa reprobabilitatis]. A diferença entre ser culpado e ser reprovado é o mesmo que entre potência e ato; todos os homens são culpados por causa do pecado, mas nem todos são réprobos.
VI. Portanto, a predestinação pressupõe os seguintes decretos: (1) criar o homem; (2) conceder a imagem de Deus ao homem criado, mas de tal forma que pudesse perde-la; (3) permitir a sua queda.
VII. Os meios pelos quais o decreto é conduzido são tais que, embora Deus atue apenas pelo seu beneplácito, todavia, o eleito não tem base para orgulhar-se, nem o réprobo tem fundamento para reclamar. Sobre o primeiro confere imerecida graça, e, sobre o outro reserva punição.
VIII. Numerosas questões surgem: (1) Sobre qual direito Deus condena um homem à reprovação, sendo ele sua própria criatura? (2) Por que ele não elege, ou condena igualmente a todos? (3) Por que ele escolhe alguém como Pedro, e condena outro como Judas? A resposta para a primeira questão depende da causa material, que é um homem tão caído como culpado. A resposta da segunda vem do propósito, porque Deus pretende revelar a glória de sua misericórdia e sua justiça. A resposta da terceira vem da causa ativa, porque este é o modo que Deus deseja fazê-lo. Do mesmo modo, seria como perguntar por que um oleiro faz diferentes pratos do mesmo monte de argila, a resposta é encontrada no seu propósito de servir aos muitos usos dos pratos numa casa. Mas se for perguntado por que ele faz um vaso de um pedaço de todo o barro, e um pote de outra parte, a resposta está na causa ativa: isto é o que oleiro quer.
IX. Cristo pode ser considerado tanto Deus-homem, ou como o nosso mediador. Do primeiro ponto de vista ele é, com o Pai e o Espírito Santo, a eficiente causa da nossa eleição. De uma segunda perspectiva, ele é o meio de executar a nossa eleição. Portanto, se diz que somos escolhidos em Cristo (Ef 1:4); e de fato, somos conduzidos à salvação por meio dele. O decreto que nos salva é predestinação para um destino final; que é dar Cristo como nosso cabeça, predestinação significando a aplicação.
X. As palavras gregas próthesis [propósito], prógnosis [presciência] e proorismós [predestinação], podem ser diferenciadas pelo propósito de instrução, embora sejam muitas vezes usadas como sinônimos. Assim, a palavra próthesis se refere à intenção de salvar, enquanto que prógnosis à livre graça pela qual Deus nos vê como seus, e proorismós designa a predestinação para Cristo e os outros meios da salvação. Rm 8:28-29: “porque sabemos, que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito [katá próthesin]”. “Pois aqueles que ele preconheceu [proégno] ele também predestinou [proórise] para serem conformes à imagem de seu Filho”.
XI. Estão errados aqueles que ensinam a doutrina da eleição ao mesmo tempo que negam a reprovação. A Escritura ensina a reprovação do mesmo modo que a eleição. Is 41:9: “eu te escolhi, e não te rejeitei.” Ml 1:2-3: “amei a Jacó, mas odiei a Esaú.” Rm 9:18: “Ele tem misericórdia de quem quer, e endurece a quem lhe apraz.” Rm 11:7: “o eleito é alcançado, e os outros endurecidos.” 1 Ts 5:9: “Deus não nos destinou para a ira, mas para a salvação.” 2 Tm 2:20: “vasos para honra, e outros para desonra.” Jd 4: “desde muito tempo alguns homens dissimulados, foram destinados para a condenação”.
XII. Assim como Cristo não é a causa da eleição, mas da salvação, do mesmo modo a incredulidade não é a causa da reprovação, mas da condenação. A condenação difere da reprovação como o meio de realizar um decreto se distingue do próprio decreto.
XIII. O propósito da reprovação não é a condenação, mas a revelação da glória da justiça de Deus. Entretanto, o homem não pode alegar que foi criado para ser condenado; pois a condenação pela qual a pessoa foi rejeitada, se conduz para o mal, não é o propósito, mas o meio da execução do propósito de Deus.
XIV. Dois atos da reprovação podem ser aceitos com o propósito de instrução: a negação da imerecida graça, que é chamada de preterição, e a entrega da merecida punição, que é chamada de condenação.
XV. Ao examinar a nossa eleição pela lógica, faz-se necessário proceder dos meios de realizar do próprio decreto, fazendo a origem de nossa santificação. O argumento é o seguinte: todo aquele que sabe que recebeu o dom da santificação [in se sentit donum] pelo qual morremos para o pecado, e vivemos para a justiça, é justificado, chamado ou habitado com fé verdadeira, e eleito. Mas eu sei [sentio] isto pela graça de Deus; e assim, eu sou justificado, chamado e eleito.[2]
XVI. É diabólico o argumento de que se eu sou um eleito, então não necessito de boas obras, e que se eu sou um réprobo, elas são inúteis. Em primeiro lugar, um cristão não precisa decidir se ele é um eleito ou um réprobo; pelo contrário, ele deve examinar a sua fé como um meio de [verificar] a sua eleição. 2 Co 13:5-6 “examinem-se, vejam se realmente estais na fé; provai-vos, a vós mesmos. Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados. Mas espero reconheçais que não somos reprovados”. Em segundo lugar, este argumento separa assuntos que deveriam ser simples por serem corretamente subordinados, e une conceitos contraditórios. As boas obras devem ser subordinadas à eleição, mas nunca separados dela, bem como elas são os meios que quando realizados, certificam a nossa eleição. É contraditório para qualquer um, que sendo réprobo realizar boas obras.[3]

NOTAS:
[1] Sobre a relação dos anjos com Cristo, veja também Francis Turrentin, Loco IV, questão viii. Nota de John W. Beardslee III.
[2] Veja Turretin, Locus IV, questões xii, xiii. Nota de John W. Beardslee III.
[3] Wollebius define boas obras como sendo “aquelas ações que são realizadas pela graça do Espírito Santo, por causa de uma fé verdadeira e de acordo com as exigências da lei, para a glória de Deus, a certeza da nossa salvação e a edificação do nosso próximo”. Por isso, ele declara que um réprobo é incapaz de realizar boas obras. John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics, p. 191. Nota de Ewerton B. Tokashiki.

Traduzido de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin (Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp.50-53.

domingo, 7 de setembro de 2014

Carta de Martinho Lutero a Felipe Melanchthon [1521]

A Melanchthon

1 de Agosto de 1521[1]

Você não terminou de dar razões suficientes para medir com a mesma norma o voto dos sacerdotes e dos freis. A mim o que mais me convence é que a ordem sacerdotal foi estabelecida como livre por Deus; mas, não foi assim com os monges que espontaneamente escolheram e ofereceram o seu estado a Deus. Quase me atreveria a decidir que quem ingressou nestes compromissos antes de sua puberdade que podem sair dela sem escrúpulo, se não fosse porque ainda não me atrevo a sentenciar nada acerca dos que são velhos e viveram durante longo tempo neste estado.

Mesmo porque, Paulo afirma com toda liberdade que foram os demônios quem vedaram o matrimônio aos sacerdotes;[2] assim, como a voz de Paulo é a voz de Deus, não há dúvida de que há que confiarmos nela, de forma que ainda que houvessem pactuado esta proibição diabólica desde o princípio, agora, quando são conscientes de a quem prometeram, há que romper confiadamente o pacto.

Esta proibição do diabo expressada claramente na Sagrada Escritura me obriga e força a aprovar o realizado pelo bispo cameracense.[3] Deus não engana, nem mente ao dizer que esta é uma proibição do diabo. Portanto, não pode ser estável o pacto firmado, já que se fez na força de um erro ímpio contra Deus e, além disso, depois de havê-lo reprovado e condenado. Disse expressamente serem espíritos do erro os autores de tal proibição.

Por que, então, há de temer a aceitação desta sentença divina, ainda que se oponham todas as portas do inferno? Não se pode comparar isto com o juramento que os filhos de Israel fizeram aos gibeonitas, porque tinham o preceito de oferecer a paz e de admiti-la se lhes era oferecida; por isso, os admitiram na qualidade de prosélitos aderidos a seu rito. Tudo se fez em Gibeão: nada houve nele que se fizesse contra Deus, nem por sugestão dos espíritos do erro, e ainda que a princípio murmurassem, depois se achegaram a ele.[4]

Além do mais, acrescenta que o celibato é uma instituição meramente humana; o homem que o instituiu pede rescindi-lo e, portanto, pode executa-lo qualquer um cristão. Fixa-te que o digo, inclusive supondo que não tenha se estabelecido por demônios, senão por um bom homem.

Ao não contar com esta sentença divina que se refere aos monges, não é seguro afirmar o mesmo deles. Pessoalmente não me atreveria fazê-lo e, por isso, tão pouco aconselharia aos demais que o fizessem. Desejo fosse possível fazê-lo para que de agora adiante ninguém se fizesse monge, ou para que saíssem os que o são, e se encontram na idade da luxúria. Há que evitar os escândalos, ainda que fossem lícitos, nas coisas em que a Escritura não nos manifesta com clareza.

Quanto ao que o ótimo Karlstadt cita de são Paulo que “há que evitar as jovens viúvas e escolher as sexagenárias”[5], desejo que fosse convincente! Porque podem facilmente arguir que o apóstolo o estabelece para as futuras, e que das anteriores disse estar condenadas por haver falhado com o primeiro compromisso. Essa autoridade evitada não pode constituir um fiel apoio para a consciência, que é o que andamos buscando. E, o que é senão a razão a que inclui que “melhor é casar do que viver abrasado” para evitar a fornicação?[6] Então, o matrimônio com o pecado quebra o pacto. Somente buscamos a Escritura e o testemunho da vontade divina. Quem sabe se ao se abrasar hoje, não se abrasaria também amanhã?

Nem eu me atreveria conceder aos sacerdotes o matrimônio somente por esse abrasamento, se são Paulo não disse que tal proibição do matrimônio é errônea, diabólica, hipócrita e condenada por Deus.[7] Ou seja, que ainda que independente do ardor, têm que abandonar o celibato somente pelo temor de Deus. Mas sobre este problema seria útil discutir com maior compromisso. Seria muito satisfatório que pudesse ajudar aos frades e as freiras, mas eu sinto muito por estes pobres moços e moças, atormentados pelas poluições e coceiras.

Quanto à comunhão, sob as duas espécies, não argumentarei por meio de exemplos, senão com base na Palavra de Cristo. Não há argumento que convença de que peca, ou deixe de fazê-lo quem receba somente uma espécie; o que há que ter em conta é que Cristo não exige nenhuma das duas, como não exige necessariamente o batismo quando um tirano, ou o mundo fazem impossível recorrer à água. Também a violência das perseguições separa o marido da esposa que Deus proibiu que se separassem, sem que um ou o outro consentisse na separação. Da mesma maneira, tão pouco, quem os corações piedosos veem-se privados da segunda espécie, e quem o consente ou aprova, ninguém poderá negar que são papistas, e não cristãos, nem negar que cometem pecado.

Se não existe esta exigência da necessidade, e sendo que há um tirano que urge, não vejo como possa pecar quem recebe apenas uma espécie. Quem poderá eliminar pela força ao tirano que se opõe? Portanto, o único que vale é a razão que dita que não se observa o que foi estabelecido por Cristo, mas nada define a Escritura, sem a qual não podemos afirmar que constitua pecado. É algo formado por Cristo, mas livremente permitido e não pode ser cativado nem no todo, nem na parte. O que fazer se, como no caso do mártir Donato, que se rompeu e derramou o cálice e alguns não puderam comungar esta espécie, porque não se tem disponível mais vinho, ou se ocorressem em outras circunstâncias? Em resumo, sendo que a Escritura não se pronuncia, nem eu me atrevo dizer de minha parte que isto seja pecado. É muito conveniente, todavia, que restaurem ao seu prístino estado este ensino de Cristo, e precisamente este era o primeiro que havia pensado solicitar quando regressar aí. Conhecemos há muito este tirano, e podemos resisti-lo para não nos vermos obrigados a comungar somente sob uma espécie.

O que nunca voltarei a fazer é celebrar a missa privada. Rogo fervorosamente a Deus que se apresse em conceder-nos o seu Espírito em abundância. Suspeito que não tardará que Deus visite a Alemanha pelo merecido que tem a sua incredulidade, sua impiedade e seu ódio pelo evangelho. Quando isto acontecer eles lançarão sobre nós a culpa deste açoite, por provocarmos a Deus com nossa heresia e nos “convertemos na vergonha dos homens e no desejo do povo”;[8] mas, eles acharão desculpas para os seus pecados, se justificarão comprovando que os réprobos não se converterão, nem pela bondade, nem pela ira e muitos se escandalizarão. Que se faça, sim, que se cumpra a vontade do Senhor. Amém!

Se você é pregador da graça, prega a graça verdadeira, não a graça fingida; se a graça é verdadeira, tenha a certeza de que se trata do pecado verdadeiro, não do fingido, porque, Deus não salva os pecadores fingidos. Seja pecador e peque fortemente, mas confia e se alegre mais fortemente ainda em Cristo, vencedor do pecado, da morte e do mundo. Há de pecar enquanto vivamos aqui. Esta vida não é a morada da justiça, senão que, como disse Pedro, estamos a espera de novos céus e de nova terra em que habite a justiça.[10] Basta que pela riqueza da glória tenhamos conhecido o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo;[11] deste não nos separará o pecado, inclusive ainda que forniquemos e matemos milhares e milhares de vezes ao dia. Por que é que crê ser tão mingado o preço da redenção de nossos pecados, pago por tão grande e bom cordeiro?

Reza forte ainda que seja um pecador fortíssimo.

Dia do apóstolo são Pedro, 1521.[12]


NOTAS:
[1] WA Br 2, 370-372. Como se pode observar a carta somente foi conservada fragmentariamente. Felipe Melanchthon (1497-1560), indubitavelmente o personagem mais próximo de Lutero, apesar de seu distanciamento teológico progressivo e as suas diferenças de caráter, foi na realidade o primeiro sistematizador da teologia de Lutero (em suas Loci Communes, 1521). Lutero sempre o venerou, se preocupou com a sua saúde, o animou e lhe exasperou em muitas ocasiões. Está presente em quase todas as tentativas de aproximação entre Roma e a Reforma. Graças a ele pode-se preservar – ao menos num setor do luteranismo – um humanismo do qual o reformador e Amsdorf careciam. Cf. H. Bornkamm, Philipp Melanchthon, Göttingen 1950; P. Meinhold, Philipp Melanchthon, der Lehrer der Kirche, Berlin 1960; L. Stern, Martin Luther und Philipp Melanchthon. Ihre ideologische Herkunft und geschichtliche Leistung, 1953; W.H. Heuser, Luther und Melanchthon, Einheit in Gegensatz, München 1960; V. Vajta, Luther und Melanchthon, Göttingen 1961; M. Greschat, Melanchthon neben Luther, Witten 1965.
[2] Em 1 Tm 4:1. Veja a forma de argumentar de Lutero e a força que faz sobre determinadas passagens da Escritura.
[3] Bartolomé Bernhard de Feldkirch prefeito de Kemberg (daí a denominação de “cameracense” aludindo ao famoso Pierre d’Ally bispo de Cambrai) que se casou com farto consentimento de Lutero (Lutero e Melanchthon, 26 de Maio de 1521: WA Br 2, 347).
[4] Em Js 9:3 ss.
[5] Em 1 Tm 5:12. Esta primeira parte da carta, ponto de partida das variações posteriores do pensamento de Lutero sobre o celibato, esteve determinada pelas teses sustentadas por Karlstadt em Junho deste ano em Wittenberg.
[6] Em 1 Co 7:2 e 9.
[7] Ver nota 2 desta carta.
[8] Em Sl 22:7.
[9] Esta expressão foi uma das mais atacadas pela apologética antiluterana. Pelo contexto o leitor verá o forte conteúdo teológico e cristológico, veementemente (era o seu humor) expresso por Lutero. Uma exegese aceitável deste lugar, cf. J. Lortz, o.c. I, 317 ss.
[10] Em 2 Pe 3:13.
[11] Em 1 Jo 1:29.
[12] Festividade de São Pedro “ad vincula”.


Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), p. 385-387.

Tradução de 7 de Setembro de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.

Prefácio de João Calvino à Loci Communes de Filipe Melanchthon

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