19 de Outubro de 1516.
A George Spalatino, servo de Cristo e sacerdote do Senhor, mestre eruditíssimo, seu amigo sincero e íntegro irmão.
Jesus. Saudações. O que me estranha no eruditíssimo Erasmo, querido Spalatino, é o seguinte: que ao interpretar o apóstolo, entenda a justiça das obras, da lei ou própria (que assim a chama o apóstolo) como a observância das práticas cerimoniais, e defenda, além disso, que no capítulo quinto dos Romanos, o apóstolo não quis fazer referência ao pecado original (que ele, por outra parte, admite). Se lesse os livros que Agostinho escreveu Contra os pelagianos e, em especial, Do espírito e da letra, Do mérito e remissão dos pecados, Contra duas cartas dos pelagianos e Contra Juliano, inclusos quase em totalidade no volume oitavo de suas Obras, perceberia que não fala pessoalmente, senão apoiado nos pais de tanta importância como Cipriano, Nazianzeno, Rético, Irineu, Hilário, Olímpio, Inocêncio e Ambrósio. Se o fizesse, entenderia corretamente ao apóstolo e teria a Agostinho em maior apreço do que até agora tem professado.
Tenho certeza de que meu dissentimento com Erasmo procede do momento de interpretar as Escrituras Sagradas. Pois prefiro seguir a Agostinho do que a Jerônimo, na mesma medida em que ele prefere a Jerônimo do que a Agostinho. Não é que me deixe levar por predileções de minha confissão religiosa, quando intento revalidar a Agostinho; é que me dou conta de que são Jerônimo busca deliberadamente o sentido histórico e, o mais admirável, que interprete muito melhor as Escrituras quando o faz de modo acidental (por exemplo nas Cartas) do que quando o intenciona fazer exaustivamente como nos Opúsculos.
A justiça da lei ou das obras não se encontra somente nas práticas, mas também, e mais exatamente, nas obras de todo o decálogo; porque se observam fora da fé em Cristo, ainda que sejam capazes de fabricar Fabrícios, Régulos e homens integérrimos, saberão tanto de justiça como um arbusto sabe de figos. Como opina Aristóteles, não é realizando coisas justas como que nos justificamos, a não ser que se trate de uma simulação, mas que nos justificamos (por assim dizer), sendo justos é como realizaremos na justiça. É necessário que transforme primeiro a pessoa e depois se transformarão as obras. Agrada-se de Abel, antes que a sua oferta. Mas deixemos isto para outra ocasião.
Rogo-te que te portes como amigo e cristão, e faças saber isto a Erasmo. Porque o mesmo que espero e desejo que sua autoridade chegue a ser celebérrima, temo que muitos se escudem em seu patrocínio para defender a interpretação literal, ou seja, morta, da que estão repletos os Comentários de Lira e quase todos os que foram escritos posteriores a Agostinho. Até o próprio Estapulense, meu Deus, tão espiritual e tão sincero por outra parte, lhe falta na interpretação da Escritura Sagrada esta inteligência que está tão presente em sua vida e em seus conselhos.
Acreditarás que estou temeroso ao ver que passou sob a vara de Aristarco a homens tão eminentes, mas hás de saber que o faço por causa teológica, e pela salvação dos irmãos.
Adeus meu querido Spalatino, e rogue por mim. Escrevo-te a apressadamente, do recôndito de nosso monastério.
O dia seguinte à festa de são Lucas. 1516. Fr. Martinus Luther, agostiniano.
NOTAS:
[1] WA Br1, pp. 70-71. Spalatino (Georg Burckardt, de Spalt), da mesma geração que Lutero, ele viveu entre 1484-1545, exerceu um papel decisivo nos começos da Reforma, dada a sua posição na corte de Frederico, o Sábio, da Saxônia, de quem era chanceler e pregador. Foi o mediador entre o príncipe e Lutero, humanista, e quem soube frear certas destemperanças do reformador que lhe escreveu um numeroso corpo de cartas. Cf. 1. Hüss, Georg Spalatin, Weimar 1956; Id., Georg Spalatins Verháltnis zu Luther und der Reformation: Luther 31 (1960), pp. 67-80.
[2] Refere-se à edição das obras de Agostinho publicadas em Basiléia no ano de 1506.
[3] Sobre o apreço de Erasmo por Jerônimo, em coincidência com as predileções de todos os humanistas, cf. sua própria confissão a Leão X, em 1515 (Opus epistolarum D. Erasmi 11, ed. P.S. Allen, Oxford 1906, p. 80 e 220).
[4] Spalatino também era um mediador entre os humanistas e Lutero, cumpriu fielmente o encargo e na carta que escreveu a Erasmo lhe repete estes conceitos (cf. Opus epistolarum, 417).
[5] Refere-se a Nicolás de Lira (1270-1340) que no início do século XIV escreveu Postillae perpetue in vetus et novum testamentum com grande aceitação e impresso em 1471-1472.
[6] Lefévre d’Etaples (m. em 1536), patriarca do círculo humanista e reformista de Meaux, com algumas ideias próximas de Lutero. Continuou fiel à Igreja de Roma, mas alguns de seu intimidade (Farel, por exemplo) se tornaram em líderes fervorosos da Reforma protestante. Cf. F. Hahn. Faher Stapulensis und Luther: Zeitschrift für Kirchengeschitchte 57 (1938), pp. 356-432.
[7] Aristarco de Samotracia, gramático do século III a.C., que para Lutero, Erasmo e os humanistas era o símbolo das atitudes críticas.
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terça-feira, 28 de agosto de 2018
sábado, 30 de dezembro de 2017
Carta de Lutero a Spalatino [1516]
A George Spalatino[1], servo de Cristo e sacerdote do Senhor, mestre eruditíssimo, seu amigo sincero e íntegro irmão.
Jesus. Saúde.
O que me causa estranheza no eruditíssimo Erasmo, querido Spalatino, é o seguinte: que ao interpretar o apóstolo entenda a justiça das obras, da lei ou própria (como a chama o apóstolo) como sendo a observância das práticas cerimoniais, e defenda, além disso, que no quinto capítulo de Romanos, o apóstolo não quis fazer referência ao pecado original (que ele, por outra parte, admite). Se ler os livros que Agostinho escreveu contra os pelagianos, e em especial Do espírito e da letra, Do mérito e remissão dos pecados, Contra duas cartas dos pelagianos e Contra Juliano, inclusos quase em sua totalidade no tomo oitavo de suas Obras[2], perceberia que não fala pessoalmente, senão apoiado nos pais de importância como Cipriano, Naziazeno, Rético, Ireneu, Hilário, Olímpio, Inocêncio e Ambrósio. Se o Fizesse entenderia corretamente o apóstolo e teria a Agostinho com maior apreço do que até agora professa ter.
Estou certo de que minha discordância de Erasmo procede de que ao interpretar as sagradas Escrituras prefiro seguir a Agostinho antes que a Jerônimo na mesma medida em que ele prefere a Jerônimo do que a Agostinho[3]. Não que me deixe levar pelas predileções de minha confissão religiosa quando intento revalidar a santo Agostinho; é que me dou conta de que são Jerônimo busca deliberadamente o sentido histórico e - o mais admirável - que interpreta muito melhor as Escrituras quando o faz de forma incidental (por exemplo nas Cartas) que quando o quer fazer exaustivamente como nos Opúsculos.
A justiça da lei ou das obras não se acha somente nas práticas, mas também, e mais exatamente, nas obras de todo o decálogo; porque se observam fora da fé em Cristo, ainda que sejam capazes de fabricar Fabrícios, Régulos e homens integérrimos, saberão tanto da justiça como a árvore sabe de figos. Como opina Aristóteles, não é realizando coisas justas como nos justificamos - a não ser que se trate de uma dissimulação -, senão que nos justificando (por assim dizer) e sendo justos é como realizaremos na justiça. É necessário que se transforme primeiro a pessoa e depois se transformarão as obras. Abel agrada antes que a sua oferta. Mas deixemos isto para outra ocasião.
Rogo que te portes como amigo e cristão e faças saber isto a Erasmo[4]. Porque o mesmo que espero e desejo que sua autoridade chegue a ser celebérrima, temo que muitos se escudem em seu patrocínio para defender a interpretação literal, ou seja morta, da que estão repletos os Comentarios de Lira e quase todos os posteriores a Agostinho[5]. Até ao próprio Estapulense, meu Deus, tão espiritual e tão sincero, por outra parte, lhe falta na interpretação da sagrada Escritura esta inteligência que tem tão presente em sua vida e em seus conselhos[6].
Crerás que sou temerário ao ver que me passo sob a vara de Aristarco[7] a homens tão eminentes, mas há de saber que o faço pela causa teológica e pela salvação dos irmãos.
Adeus, meu querido Spalatino, e interceda por mim. Te escrevo às pressas, no rincão de nosso monastério, o dia seguinte à festa de são Lucas. 1516. Frei Martinus Luther, agostiniano.
NOTAS:
[1] WA Br 1, 70-71. Spalatino (Georg Burckhardt, de Spalt), da mesma geração que Lutero - viveu entre 1484-1545 - exerceu um papel decisivo no início da Reforma dada sua posição na corte de Frederick, o Sábio de Saxônia, de quem era chanceler e pregador. Foi o mediador entre o príncipe e Lutero, humanista, e soube frear certas destemperanças do reformador que lhe escreveu um numeroso corpo de cartas. Cf. 1. Hüss, Georg Spalatin, Weimar 1956; Id., Georg Spalatins Verháltnis zu Luther und der Reformation: Luther 31 (1960), pp. 67-80.
[2] Refere-se às obras de santo Agostinho da edição de Basiléia de 1506.
[3] Sobre o apreço de Erasmo por são Jerônimo - em coincidência com as predileções de todos os humanistas - cf. sua própria confissão para Leão X, em 1515 (Opus espistolarum D. Erasmi 11, edição P. S. Allen, Oxford 1906, 86 e 220).
[4] Spalatino também mediador entre os humanistas e Lutero, cumpriu fielmente o cargo e na carta que escreveu a Erasmo lhe repete estes conceitos (cf. Opus epistolarum, 417).
[5] Refere-se a Nicolás de Lira (1270-1340), que no princípio do século XLV escreveu Postillae perpetuae in vetus et novum testamentum, com grande aceitação e impressas em 1471-1472.
[6] Lefévre d'Etaples (falecido em 1536), patriarca do círculo humanista e reformista de Meaux, com algumas ideias semelhantes as de Lutero. Seguiu fiel à igreja de Roma, mas alguns de seu cenáculo (Farel, por exemplo) se tornariam em partidários fervorosos da Reforma protestante. Cf. F. Hahn, Faher Stapulensis und Luther: Zeitschrift für Kirchengeschichte 57 (1938) 356-432.
[7] Aristarco de Samotracia, gramático, que para Lutero, Erasmo e os humanistas era o símbolo das atitudes críticas.
Jesus. Saúde.
O que me causa estranheza no eruditíssimo Erasmo, querido Spalatino, é o seguinte: que ao interpretar o apóstolo entenda a justiça das obras, da lei ou própria (como a chama o apóstolo) como sendo a observância das práticas cerimoniais, e defenda, além disso, que no quinto capítulo de Romanos, o apóstolo não quis fazer referência ao pecado original (que ele, por outra parte, admite). Se ler os livros que Agostinho escreveu contra os pelagianos, e em especial Do espírito e da letra, Do mérito e remissão dos pecados, Contra duas cartas dos pelagianos e Contra Juliano, inclusos quase em sua totalidade no tomo oitavo de suas Obras[2], perceberia que não fala pessoalmente, senão apoiado nos pais de importância como Cipriano, Naziazeno, Rético, Ireneu, Hilário, Olímpio, Inocêncio e Ambrósio. Se o Fizesse entenderia corretamente o apóstolo e teria a Agostinho com maior apreço do que até agora professa ter.
Estou certo de que minha discordância de Erasmo procede de que ao interpretar as sagradas Escrituras prefiro seguir a Agostinho antes que a Jerônimo na mesma medida em que ele prefere a Jerônimo do que a Agostinho[3]. Não que me deixe levar pelas predileções de minha confissão religiosa quando intento revalidar a santo Agostinho; é que me dou conta de que são Jerônimo busca deliberadamente o sentido histórico e - o mais admirável - que interpreta muito melhor as Escrituras quando o faz de forma incidental (por exemplo nas Cartas) que quando o quer fazer exaustivamente como nos Opúsculos.
A justiça da lei ou das obras não se acha somente nas práticas, mas também, e mais exatamente, nas obras de todo o decálogo; porque se observam fora da fé em Cristo, ainda que sejam capazes de fabricar Fabrícios, Régulos e homens integérrimos, saberão tanto da justiça como a árvore sabe de figos. Como opina Aristóteles, não é realizando coisas justas como nos justificamos - a não ser que se trate de uma dissimulação -, senão que nos justificando (por assim dizer) e sendo justos é como realizaremos na justiça. É necessário que se transforme primeiro a pessoa e depois se transformarão as obras. Abel agrada antes que a sua oferta. Mas deixemos isto para outra ocasião.
Rogo que te portes como amigo e cristão e faças saber isto a Erasmo[4]. Porque o mesmo que espero e desejo que sua autoridade chegue a ser celebérrima, temo que muitos se escudem em seu patrocínio para defender a interpretação literal, ou seja morta, da que estão repletos os Comentarios de Lira e quase todos os posteriores a Agostinho[5]. Até ao próprio Estapulense, meu Deus, tão espiritual e tão sincero, por outra parte, lhe falta na interpretação da sagrada Escritura esta inteligência que tem tão presente em sua vida e em seus conselhos[6].
Crerás que sou temerário ao ver que me passo sob a vara de Aristarco[7] a homens tão eminentes, mas há de saber que o faço pela causa teológica e pela salvação dos irmãos.
Adeus, meu querido Spalatino, e interceda por mim. Te escrevo às pressas, no rincão de nosso monastério, o dia seguinte à festa de são Lucas. 1516. Frei Martinus Luther, agostiniano.
NOTAS:
[1] WA Br 1, 70-71. Spalatino (Georg Burckhardt, de Spalt), da mesma geração que Lutero - viveu entre 1484-1545 - exerceu um papel decisivo no início da Reforma dada sua posição na corte de Frederick, o Sábio de Saxônia, de quem era chanceler e pregador. Foi o mediador entre o príncipe e Lutero, humanista, e soube frear certas destemperanças do reformador que lhe escreveu um numeroso corpo de cartas. Cf. 1. Hüss, Georg Spalatin, Weimar 1956; Id., Georg Spalatins Verháltnis zu Luther und der Reformation: Luther 31 (1960), pp. 67-80.
[2] Refere-se às obras de santo Agostinho da edição de Basiléia de 1506.
[3] Sobre o apreço de Erasmo por são Jerônimo - em coincidência com as predileções de todos os humanistas - cf. sua própria confissão para Leão X, em 1515 (Opus espistolarum D. Erasmi 11, edição P. S. Allen, Oxford 1906, 86 e 220).
[4] Spalatino também mediador entre os humanistas e Lutero, cumpriu fielmente o cargo e na carta que escreveu a Erasmo lhe repete estes conceitos (cf. Opus epistolarum, 417).
[5] Refere-se a Nicolás de Lira (1270-1340), que no princípio do século XLV escreveu Postillae perpetuae in vetus et novum testamentum, com grande aceitação e impressas em 1471-1472.
[6] Lefévre d'Etaples (falecido em 1536), patriarca do círculo humanista e reformista de Meaux, com algumas ideias semelhantes as de Lutero. Seguiu fiel à igreja de Roma, mas alguns de seu cenáculo (Farel, por exemplo) se tornariam em partidários fervorosos da Reforma protestante. Cf. F. Hahn, Faher Stapulensis und Luther: Zeitschrift für Kirchengeschichte 57 (1938) 356-432.
[7] Aristarco de Samotracia, gramático, que para Lutero, Erasmo e os humanistas era o símbolo das atitudes críticas.
sexta-feira, 1 de dezembro de 2017
Carta de Lutero ao Príncipe Eleitor Frederick, o Sábio [5 de Março de 1522]
Berna, 5 de Março de 1522.
Ao ilustre e excelentíssimo Príncipe e Nobre, Senhor Frederick, Duque da Saxônia, Príncipe Eleitor do Sacro Império Romano, Landgrave da Turíngia, Marquês de Meissen, meu Senhor e Patrão.
Jesus. Graça e paz de Deus, nosso Pai, e de nosso Senhor Jesus Cristo e meus serviços mais submissos.
Ilustre e excelentíssimo Príncipe Eleitor, Clementíssimo Senhor: Recebi o escrito e as objeções benévolas de Vossa Alteza Eleitoral,[1] sexta-feira à noite, quando estava preparando-me para partir no dia seguinte, o sábado. É desnecessário que eu manifeste o meu testemunho que V.A.E. tenha as melhores intenções comigo, pois creio estar seguro nelas até onde chega o conhecimento humano. Mas, por outro lado, também tenho boa intenção. Creio que sabes por um conhecimento que sobrepuja a experiência humana. Mas com isso não se faz nada.
O escrito de V.A.E. deu-me a impressão de que minha carta afetou um pouco a V.A.E., enquanto escrevi que fosse prudente. Mas a firme convicção de que V.A.E. conhece bem meu coração, me precaveu de semelhante imaginação, para que V.A.E. não creia que com tais palavras intencionasse aludir à celebérrima prudência de V.A.E.. Pois, creio que o estado de meu coração que por razão e sem dissimulação alguma, sempre tem o prazer e satisfação na pessoa de V.A.E., mais que em todos os demais príncipes e autoridades. Entretanto, o que escrevi deve-se à preocupação de confortar a V.A.E, não por minha causa, no qual não pensava até então, mas pelo assunto desacertado que em Wittenberg[2] suscitou por parte dos nossos, para grande opróbrio do evangelho. Temi que V.A.E. afligisse-se muito com isso. Pois também me atribulei tanto que me desalentei acerca desta causa, se não estivesse seguro de que o puro Evangelho está entre nós. Tudo o que de mal afligiu-me até agora por este assunto, foi-me uma mera distração e um nada. Se fosse possível, impediria com o sacrifício da minha vida. Aconteceu de uma maneira que não podemos responder do ocorrido nem diante de Deus, nem ante o mundo. É um pesadelo para mim e ainda mais para o Santo Evangelho. Isto me dói no coração.
Por isso, Clementíssimo Senhor, minha carta somente refere-se àquele assunto, não à minha causa, para que V.A.E. não se fixe no pensamento o que o diabo apresenta nesse jogo. Para mim foi uma necessidade expressar semelhante exortação, ainda que para V.A.E. não vos faça falta.
Entretanto, Vossa Senhoria, quanto a minha causa, respondo-vos assim: V.A.E. sabes – ou se não sabes, faço-vos ciente disto – que tenho o evangelho não de homens, senão somente do céu recebido do nosso Senhor Jesus Cristo, de maneira que com direito, poderia me gloriar de ser servo e evangelista, e assim ser chamado, como agora adiante o farei. Mas ao oferecer-me para um interrogatório e um tribunal, eu o fiz, não porque duvidava disso, mas por demasiada humildade para chamar os demais.
Mas vejo agora que o meu excesso de humildade atraiu como consequência uma humilhação do Evangelho. O diabo quer ocupar todo o lugar, enquanto concedo somente um palmo. Impulsionado por minha consciência devo fazer outra coisa. A V.A.E. compraza-te o suficiente em esconder-me por este ano, a fim de servir a V.A.E.. Pois o diabo sabe bem que não o fiz por covardia. Viu claramente o meu coração quando entrei em Worms, de modo que, sabendo que tantos demônios se levantaram contra mim, como teias há nos tetos, com prazer saltaria no meio deles.
O Duque George [Spalatino] está longe de ser tanto como apenas um diabo. E o pai da imensa misericórdia pelo evangelho nos fez senhores corajosos e superiores a todos os demônios e acima da morte, e nos deu abundante confiança para que possamos dizer-lhe: amantíssimo pai. Por isso V.A.E. podes notar que para semelhante pai seria maior vergonha se não confiássemos tanto nele para ser também senhores sobre a ira do Duque George.
Quanto a mim, sei muito bem que, se esta causa em Leipzig se encontrar no mesmo estado como em Wittenberg, eu iria cavalgando para lá, ainda que (V.A.E. me perdoe a expressão simplória) chovessem durante nove dias puros Duques Georges e cada um fosse nove vezes mais feroz do que ele. Ele tem a meu Cristo como um homem trançado de palha. Meu senhor e eu aguentaremos por um momento.
Não ocultarei a V.A.E. que não foi apenas vez que implorei e chorei, em favor do Duque George, para que Deus o ilumine. Então, mais uma vez, clamarei e chorarei, entretanto, depois nunca mais o farei. Rogo a V.A.E. que também ajude a pedir e faça implorar para que possamos afastar dele o juízo que (oh, meu Deus!) se aproxima sem cessar. Quisera estrangular rapidamente ao Duque George com uma palavra, se com isso pudesse resolver.
Escrevo isso a V.A.E. com a intenção de que saibas que chegarei a Wittenberg com uma proteção mais alta do que a do Príncipe Eleitor. Por isso não penso em solicitar a proteção de V.A.E. Até opino que eu possa proteger mais a V.A.E. do que vos a mim. Além do mais, se soubesse que V.A.E. pudera e quisera proteger-me, não iria. Neste assunto não deve intervir a nenhuma espada, nem de prever em nada. Somente Deus deve operar aqui em qualquer preocupação e colaboração humana. Consequentemente, V.A.E. é ainda muito débil na fé, não posso em nada ter a V.A.E. por um homem que possas proteger e salvar-me.
Como agora V.A.E. desejas saber o que fazer nestes assuntos, crendo ter realizado pouco, contesto submissamente: V.A.E. fez o suficiente, e não há de fazer mais nada. Pois a Deus não agrada a preocupação e a intromissão de V.A.E., nem as minhas. Por isso pode guiar-se V.A.E. Se V.A.E. crês nisso, estará seguro e terás paz. Se não crês, por minha, o creio e tenho que tolerar que V.A.E. em sua incredulidade tenha suas penas por suas preocupações, como corresponde padecer a todas descrenças.
Como não quero obedecer a V.A.E., Vossa Senhoria fica desculpado ante Deus no caso de prenderem e me matarem. Diante dos homens, V.A.E. deve conduzir-se assim: como príncipe eleitor ser obediente à autoridade e admitir que a majestade imperial proceda nas cidades e países de V.A.E. com respeito aos corpos e bens como corresponde segundo a constituição do império e não se defender, nem resistir, nem apelar de forma alguma à resistência ou a algum impedimento, quando quiserem prender ou matar-me.
Pois a autoridade não deve quebrar, nem resistir a ela, senão aquele que a instituiu. O contrário seria rebelião e estaria contra Deus.
Pois a autoridade não deve interromper, nem resistir a ela, senão aquele de nascimento nobre para que seja o meu carcereiro. Se V.A.E. deixa as portas abertas e respeita o livre salvo-conduto eleitoral, quando eles ou os seus emissários vierem buscar-me, V.A.E. cumpres com a obediência. Não podem pedir mais de V.A.E. que saber que Lutero está com Vossa Senhoria. E isso sucederá sem preocupação, intervenção e perigo para V.A.E.. Cristo não me ensinou a ser cristão com prejuízo de outro. Mas, se fossem tão insensatos e ordenassem que V.A.E. pusesses as mãos sobre mim, então direi a V.A.E. o que haverdes de fazer. Quero que por minha causa, V.A.E. esteja a salvo de dano e perigo em corpo, bens e alma, creia ou não.
Com isso encomendo a V.A.E. a graça de Deus. Seguiremos falando quando necessário, se fizer falta. Este escrito o despacho rapidamente para que V.A.E. não se aflija ao ouvir de meu regresso. Pois se quero ser um cristão verdadeiro, devo e tenho que ser consolador para todos, e não prejudicial. É outro homem com que trato: conheces-me bem e eu o conheço o suficiente. Se V.A.E. fosse crente, veria a magnificência de Deus. Mas como não crês, então, não podes ainda nada perceber. Amor a louvor a Deus para sempre! Entregue em Berna, na casa do oficial de impostos, quarta-feira de cinzas de 1522.
De V.A.E. servo submisso
M. Lutherus
NOTAS:
[1] Doravante abreviado como V.A.E..
[2] Alusão aos atos turbulentos de Wittenberg.
Carlos Mitthaus, org., Páginas Escogidas de Martín Lutero (Buenos Aires, editorial La Autora, 1961), pp. 197-200.
Tradução de Rev. Ewerton B. Tokashiki
Ao ilustre e excelentíssimo Príncipe e Nobre, Senhor Frederick, Duque da Saxônia, Príncipe Eleitor do Sacro Império Romano, Landgrave da Turíngia, Marquês de Meissen, meu Senhor e Patrão.
Jesus. Graça e paz de Deus, nosso Pai, e de nosso Senhor Jesus Cristo e meus serviços mais submissos.
Ilustre e excelentíssimo Príncipe Eleitor, Clementíssimo Senhor: Recebi o escrito e as objeções benévolas de Vossa Alteza Eleitoral,[1] sexta-feira à noite, quando estava preparando-me para partir no dia seguinte, o sábado. É desnecessário que eu manifeste o meu testemunho que V.A.E. tenha as melhores intenções comigo, pois creio estar seguro nelas até onde chega o conhecimento humano. Mas, por outro lado, também tenho boa intenção. Creio que sabes por um conhecimento que sobrepuja a experiência humana. Mas com isso não se faz nada.
O escrito de V.A.E. deu-me a impressão de que minha carta afetou um pouco a V.A.E., enquanto escrevi que fosse prudente. Mas a firme convicção de que V.A.E. conhece bem meu coração, me precaveu de semelhante imaginação, para que V.A.E. não creia que com tais palavras intencionasse aludir à celebérrima prudência de V.A.E.. Pois, creio que o estado de meu coração que por razão e sem dissimulação alguma, sempre tem o prazer e satisfação na pessoa de V.A.E., mais que em todos os demais príncipes e autoridades. Entretanto, o que escrevi deve-se à preocupação de confortar a V.A.E, não por minha causa, no qual não pensava até então, mas pelo assunto desacertado que em Wittenberg[2] suscitou por parte dos nossos, para grande opróbrio do evangelho. Temi que V.A.E. afligisse-se muito com isso. Pois também me atribulei tanto que me desalentei acerca desta causa, se não estivesse seguro de que o puro Evangelho está entre nós. Tudo o que de mal afligiu-me até agora por este assunto, foi-me uma mera distração e um nada. Se fosse possível, impediria com o sacrifício da minha vida. Aconteceu de uma maneira que não podemos responder do ocorrido nem diante de Deus, nem ante o mundo. É um pesadelo para mim e ainda mais para o Santo Evangelho. Isto me dói no coração.
Por isso, Clementíssimo Senhor, minha carta somente refere-se àquele assunto, não à minha causa, para que V.A.E. não se fixe no pensamento o que o diabo apresenta nesse jogo. Para mim foi uma necessidade expressar semelhante exortação, ainda que para V.A.E. não vos faça falta.
Entretanto, Vossa Senhoria, quanto a minha causa, respondo-vos assim: V.A.E. sabes – ou se não sabes, faço-vos ciente disto – que tenho o evangelho não de homens, senão somente do céu recebido do nosso Senhor Jesus Cristo, de maneira que com direito, poderia me gloriar de ser servo e evangelista, e assim ser chamado, como agora adiante o farei. Mas ao oferecer-me para um interrogatório e um tribunal, eu o fiz, não porque duvidava disso, mas por demasiada humildade para chamar os demais.
Mas vejo agora que o meu excesso de humildade atraiu como consequência uma humilhação do Evangelho. O diabo quer ocupar todo o lugar, enquanto concedo somente um palmo. Impulsionado por minha consciência devo fazer outra coisa. A V.A.E. compraza-te o suficiente em esconder-me por este ano, a fim de servir a V.A.E.. Pois o diabo sabe bem que não o fiz por covardia. Viu claramente o meu coração quando entrei em Worms, de modo que, sabendo que tantos demônios se levantaram contra mim, como teias há nos tetos, com prazer saltaria no meio deles.
O Duque George [Spalatino] está longe de ser tanto como apenas um diabo. E o pai da imensa misericórdia pelo evangelho nos fez senhores corajosos e superiores a todos os demônios e acima da morte, e nos deu abundante confiança para que possamos dizer-lhe: amantíssimo pai. Por isso V.A.E. podes notar que para semelhante pai seria maior vergonha se não confiássemos tanto nele para ser também senhores sobre a ira do Duque George.
Quanto a mim, sei muito bem que, se esta causa em Leipzig se encontrar no mesmo estado como em Wittenberg, eu iria cavalgando para lá, ainda que (V.A.E. me perdoe a expressão simplória) chovessem durante nove dias puros Duques Georges e cada um fosse nove vezes mais feroz do que ele. Ele tem a meu Cristo como um homem trançado de palha. Meu senhor e eu aguentaremos por um momento.
Não ocultarei a V.A.E. que não foi apenas vez que implorei e chorei, em favor do Duque George, para que Deus o ilumine. Então, mais uma vez, clamarei e chorarei, entretanto, depois nunca mais o farei. Rogo a V.A.E. que também ajude a pedir e faça implorar para que possamos afastar dele o juízo que (oh, meu Deus!) se aproxima sem cessar. Quisera estrangular rapidamente ao Duque George com uma palavra, se com isso pudesse resolver.
Escrevo isso a V.A.E. com a intenção de que saibas que chegarei a Wittenberg com uma proteção mais alta do que a do Príncipe Eleitor. Por isso não penso em solicitar a proteção de V.A.E. Até opino que eu possa proteger mais a V.A.E. do que vos a mim. Além do mais, se soubesse que V.A.E. pudera e quisera proteger-me, não iria. Neste assunto não deve intervir a nenhuma espada, nem de prever em nada. Somente Deus deve operar aqui em qualquer preocupação e colaboração humana. Consequentemente, V.A.E. é ainda muito débil na fé, não posso em nada ter a V.A.E. por um homem que possas proteger e salvar-me.
Como agora V.A.E. desejas saber o que fazer nestes assuntos, crendo ter realizado pouco, contesto submissamente: V.A.E. fez o suficiente, e não há de fazer mais nada. Pois a Deus não agrada a preocupação e a intromissão de V.A.E., nem as minhas. Por isso pode guiar-se V.A.E. Se V.A.E. crês nisso, estará seguro e terás paz. Se não crês, por minha, o creio e tenho que tolerar que V.A.E. em sua incredulidade tenha suas penas por suas preocupações, como corresponde padecer a todas descrenças.
Como não quero obedecer a V.A.E., Vossa Senhoria fica desculpado ante Deus no caso de prenderem e me matarem. Diante dos homens, V.A.E. deve conduzir-se assim: como príncipe eleitor ser obediente à autoridade e admitir que a majestade imperial proceda nas cidades e países de V.A.E. com respeito aos corpos e bens como corresponde segundo a constituição do império e não se defender, nem resistir, nem apelar de forma alguma à resistência ou a algum impedimento, quando quiserem prender ou matar-me.
Pois a autoridade não deve quebrar, nem resistir a ela, senão aquele que a instituiu. O contrário seria rebelião e estaria contra Deus.
Pois a autoridade não deve interromper, nem resistir a ela, senão aquele de nascimento nobre para que seja o meu carcereiro. Se V.A.E. deixa as portas abertas e respeita o livre salvo-conduto eleitoral, quando eles ou os seus emissários vierem buscar-me, V.A.E. cumpres com a obediência. Não podem pedir mais de V.A.E. que saber que Lutero está com Vossa Senhoria. E isso sucederá sem preocupação, intervenção e perigo para V.A.E.. Cristo não me ensinou a ser cristão com prejuízo de outro. Mas, se fossem tão insensatos e ordenassem que V.A.E. pusesses as mãos sobre mim, então direi a V.A.E. o que haverdes de fazer. Quero que por minha causa, V.A.E. esteja a salvo de dano e perigo em corpo, bens e alma, creia ou não.
Com isso encomendo a V.A.E. a graça de Deus. Seguiremos falando quando necessário, se fizer falta. Este escrito o despacho rapidamente para que V.A.E. não se aflija ao ouvir de meu regresso. Pois se quero ser um cristão verdadeiro, devo e tenho que ser consolador para todos, e não prejudicial. É outro homem com que trato: conheces-me bem e eu o conheço o suficiente. Se V.A.E. fosse crente, veria a magnificência de Deus. Mas como não crês, então, não podes ainda nada perceber. Amor a louvor a Deus para sempre! Entregue em Berna, na casa do oficial de impostos, quarta-feira de cinzas de 1522.
De V.A.E. servo submisso
M. Lutherus
NOTAS:
[1] Doravante abreviado como V.A.E..
[2] Alusão aos atos turbulentos de Wittenberg.
Carlos Mitthaus, org., Páginas Escogidas de Martín Lutero (Buenos Aires, editorial La Autora, 1961), pp. 197-200.
Tradução de Rev. Ewerton B. Tokashiki
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Carta de Lutero à Ecolampádio [20 Junho de 1523]
Ao sábio e piedoso Ecolampádio,[1] discípulo e fiel servo de Cristo, seu irmão no Senhor.
Graça e paz em Cristo. Em primeiro lugar quero pedir a você, ótimo Ecolampádio, que não ressinta com ingratidão ou negligência por minha parte o fato de não ter-lhe escrito até agora. Muito menos recebi sua carta desde a sua saída da Santa Brígida. Por outro lado (e pressuponho que Cristo fortaleceu o seu coração com a virtude de um espírito tão firme, como para livrá-lo do jugo de Satanás, após vencer estas superstições da consciência) julguei-o suficientemente maduro para esperar suas cartas, ou crer que as minhas o reafirmariam. Sinceramente, temos aprovado de todo o coração o seu espírito e sua virtuosa façanha. Felipe, que goza de forma especial recordando-se, não cessa de acrescer a cada dia a estima que por você professo.
Que o Senhor confirme o seu projeto de expor a Isaías, ainda que tenha me comunicado que tal coisa desagrade a Erasmo. Não se afete com esta indiferença. O que Erasmo pensa – ou simule pensar – nas coisas espirituais o testificam abundantemente os seus livros, desde os primeiros até os mais recentes. Da minha parte, ainda que acuse perfeitamente os seus dardos, como ele dissimula publicamente ser meu inimigo, também deixo entender que não me estou informado de suas astúcias, ainda que as perceba muito melhor do que se imagina. Na realidade está cumprindo aquilo para que estava destinado: introduzir o estudo das línguas [originais] e afastar os estudos sacrílegos. Possivelmente, do mesmo modo que Moisés, morra nos acampamentos de Moabe[2], porque não vigora aos estudos mais altos, ou seja, os que se referem à piedade. Gostaria muitíssimo que parasse de tratar e parafrasear a Escritura Sagrada, já que não se considera a altura que esta atividade exige, ocupa inutilmente os leitores e os atrasa na aprendizagem das Escrituras. Fez o bastante ao evidenciar o mal; enquanto que o bom e conduzir até a terra prometida, parece-me que não está a seu alcance. Mas, por quê falo tanto de Erasmo? Simplesmente para que não se deixe afetar por sua fama e autoridade, e para que você se alegre se percebe que há alguma coisa que não lhe agrade nesta matéria da Sagrada Escritura, pois, como todos começam a suspeitar, neste domínio não pode, ou não quer julgar com retidão.
Ainda tenho visto a sua tradução de Crisóstomo[2] Por causa de nossa amizade suplico que suportes este palavreado. Sei que você não anda necessitado de tais consolos. Nem abandonará a Cristo que habita e que opera por meio de você. Roga por mim, estou ocupado em tantos negócios exteriores, que corro o risco de terminar em carne, eu que comecei no espírito.[3]
Muitas horas me roubam as monjas e frades que saem dos conventos, sendo que tenho que atender às necessidades de todos eles.[5] Não direi nada dos demais que me exigem que cumpra com eles de tantas maneiras.
Adeus, ótimo Ecolampádio, e que a graça de Cristo o acompanhe. Saúde a todos os nossos.
Wittenberg, 20 de Junho de 1523.
NOTAS:
[1] WA Br 3, 96-97. Johanes Ecolampádio (1482-1531), sobrenome humanista de Hausscheim, pregador da catedral de Augsburg até que em 1520 aderiu ao convento de Santa Brígida. Veio a abandoná-lo dois anos mais tarde (a isto ele alude numa carta) para establecer-se em Basiléia como professor de teologia, assumindo por sua vez o papel de protagonista da Reforma nesta cidade. A sua atitude e estudos humanistas aproximaram-no de Erasmo e se percebe o temor de Lutero a que o princípe dos humanistas tivesse demasiada influência sobre ele. Proximo a Zwingli, ao seu lado intervirá no coloquio de Marburg. Cf. A. Staehlin, Das theologische Lebenswerk J. Oekolampads, Leipzing 1939.
[2] Dt 34:1-15.
[3] Divi Johannis Chrysostomi psegmata, nuperrime a Joanne Oecolampadio in latinum promo versa, Basileae 1523.
[4] Gl 3:3.
[5] Lutero se refere ao éxodo masivo de monjas que abandonaram o monasterio. Entre elas estava Catarina von Bora, futura esposa de Lutero. Veja detalhes na carta a Spalatino, 1 de Abril de 1521: WA Br 3, 54-55.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 394-395.
Traduzido em 3 de Dezembro de 2015.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
Graça e paz em Cristo. Em primeiro lugar quero pedir a você, ótimo Ecolampádio, que não ressinta com ingratidão ou negligência por minha parte o fato de não ter-lhe escrito até agora. Muito menos recebi sua carta desde a sua saída da Santa Brígida. Por outro lado (e pressuponho que Cristo fortaleceu o seu coração com a virtude de um espírito tão firme, como para livrá-lo do jugo de Satanás, após vencer estas superstições da consciência) julguei-o suficientemente maduro para esperar suas cartas, ou crer que as minhas o reafirmariam. Sinceramente, temos aprovado de todo o coração o seu espírito e sua virtuosa façanha. Felipe, que goza de forma especial recordando-se, não cessa de acrescer a cada dia a estima que por você professo.
Que o Senhor confirme o seu projeto de expor a Isaías, ainda que tenha me comunicado que tal coisa desagrade a Erasmo. Não se afete com esta indiferença. O que Erasmo pensa – ou simule pensar – nas coisas espirituais o testificam abundantemente os seus livros, desde os primeiros até os mais recentes. Da minha parte, ainda que acuse perfeitamente os seus dardos, como ele dissimula publicamente ser meu inimigo, também deixo entender que não me estou informado de suas astúcias, ainda que as perceba muito melhor do que se imagina. Na realidade está cumprindo aquilo para que estava destinado: introduzir o estudo das línguas [originais] e afastar os estudos sacrílegos. Possivelmente, do mesmo modo que Moisés, morra nos acampamentos de Moabe[2], porque não vigora aos estudos mais altos, ou seja, os que se referem à piedade. Gostaria muitíssimo que parasse de tratar e parafrasear a Escritura Sagrada, já que não se considera a altura que esta atividade exige, ocupa inutilmente os leitores e os atrasa na aprendizagem das Escrituras. Fez o bastante ao evidenciar o mal; enquanto que o bom e conduzir até a terra prometida, parece-me que não está a seu alcance. Mas, por quê falo tanto de Erasmo? Simplesmente para que não se deixe afetar por sua fama e autoridade, e para que você se alegre se percebe que há alguma coisa que não lhe agrade nesta matéria da Sagrada Escritura, pois, como todos começam a suspeitar, neste domínio não pode, ou não quer julgar com retidão.
Ainda tenho visto a sua tradução de Crisóstomo[2] Por causa de nossa amizade suplico que suportes este palavreado. Sei que você não anda necessitado de tais consolos. Nem abandonará a Cristo que habita e que opera por meio de você. Roga por mim, estou ocupado em tantos negócios exteriores, que corro o risco de terminar em carne, eu que comecei no espírito.[3]
Muitas horas me roubam as monjas e frades que saem dos conventos, sendo que tenho que atender às necessidades de todos eles.[5] Não direi nada dos demais que me exigem que cumpra com eles de tantas maneiras.
Adeus, ótimo Ecolampádio, e que a graça de Cristo o acompanhe. Saúde a todos os nossos.
Wittenberg, 20 de Junho de 1523.
NOTAS:
[1] WA Br 3, 96-97. Johanes Ecolampádio (1482-1531), sobrenome humanista de Hausscheim, pregador da catedral de Augsburg até que em 1520 aderiu ao convento de Santa Brígida. Veio a abandoná-lo dois anos mais tarde (a isto ele alude numa carta) para establecer-se em Basiléia como professor de teologia, assumindo por sua vez o papel de protagonista da Reforma nesta cidade. A sua atitude e estudos humanistas aproximaram-no de Erasmo e se percebe o temor de Lutero a que o princípe dos humanistas tivesse demasiada influência sobre ele. Proximo a Zwingli, ao seu lado intervirá no coloquio de Marburg. Cf. A. Staehlin, Das theologische Lebenswerk J. Oekolampads, Leipzing 1939.
[2] Dt 34:1-15.
[3] Divi Johannis Chrysostomi psegmata, nuperrime a Joanne Oecolampadio in latinum promo versa, Basileae 1523.
[4] Gl 3:3.
[5] Lutero se refere ao éxodo masivo de monjas que abandonaram o monasterio. Entre elas estava Catarina von Bora, futura esposa de Lutero. Veja detalhes na carta a Spalatino, 1 de Abril de 1521: WA Br 3, 54-55.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 394-395.
Traduzido em 3 de Dezembro de 2015.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Carta de Martinho Lutero a George Spalatino [Novembro de 1521]
A George Spalatino, discípulo de Cristo, seu amigo na fé.[1]
Jesus. Saudações. Creio que nunca recebi uma carta tão desagradável como a última que você me enviou. Estava decidido não somente a demorar responder, como também a não responder.
Em primeiro lugar, não estou disposto a suportar o que me disse, de que o príncipe não suportará que escreva contra o de Magnuncia, nem nada que possa perturbar a paz pública; pelo contrário, permanecerei sem você, sem o príncipe e sem ninguém no mundo. Se enfrentei o papa, criador do engano, vou me deter diante a sua criatura? Declara muito formoso que não se deve perturbar a paz pública, e você sofreria por turbar a paz eterna de Deus com as ações ímpias e profanas dessa perdição? Isto não sucederá, caro Spalatino; não ocorrerá isto, príncipe, senão que por amor das ovelhas de Cristo e para exemplo dos demais há que resistir ferozmente a este perigosíssimo lobo. Por isso lhe envio o panfleto[2] que preparei contra ele quando recebi a sua carta que não me fez mudar em nada, ainda que o submeti a juízo de Felipe para que o corrigisse no que cresse ser necessário. Não pense impedir a devolução do livro a Felipe nem desestimulá-lo. Considere que não farei isto.
Não deveria impressioná-lo que nós e nossos amigos nos vejamos na precisão de ouvir insultos por parte de nossos adversários, ou dos excessivamente prudentes nas coisas divinas, já que você sabe muito bem que nem Cristo, nem o apóstolo foram agradáveis aos homens. Além do mais, até agora não chegou aos meus ouvidos que aos nossos sejam acusados de algum crime, senão somente de depreciar a impiedade e as doutrinas da perdição, ainda que não me agradem as atitudes dos jovens que receberam mal o enviado dos antonianos.[3] Mas, quem seria capaz de frear sempre a todos e em todo lugar? Ou, eles jamais obram mal? Até os discípulos sofreram a vergonha de Judas Iscariotes e diariamente tiveram que suportar as comunidades por causa de seus maus membros; somente de nós é exigido que não gemamos. Peço a você que não espere a redação de uma apologia para cada um daqueles que desagrada a Wittenberg; não há nada mais impossível.
Não perecerá o evangelho porque algum de nós peque por falta de modéstia: os que por este motivo se afastam da palavra estão provando que não foi ela que aceitaram, senão somente a sua glória. As portas do inferno não poderão separar dela os que acolheram a palavra por causa da palavra. O que quer abandoná-la, que a abandone. Por que não se fixam no melhor e mais sólido que possuímos? Por que se apegam somente ao pior e ao mais fraco? É Felipe e os seus amigos acusados deste crime? Por que condenam o todo por uma parte? É um pecado mais leve receber um pregador ímpio do que aceitar fielmente a sua doutrina. Todavia, este pecado se vê elogiado e o pregador condenado como irredimível. E juízes e equidades desta atitude te fazem temer que o evangelho vá perecer por razões que não são mais do que fumaça?[4]
Confirmo a revogação das missas neste livro que te envio junto a carta.[5] Não pude preparar a Paraclesis, nem creio ser necessário fazê-lo, pelo fato de abordar o assunto em minha Tessaradecade.[6] Por que não facilita a leitura desta obra? Por que não se convence de ler o evangelho e a paixão de Cristo, pois não encontrará consolo melhor? Terei que escrever uma consolação para cada caso? O que diriam os inimigos? Além do mais, espero que baste a Paraclesis de Felipe, pois imagino que no intervalo cessará a enfermidade de seu ânimo, e desta forma a minha chegaria tarde e resultaria inútil. Não será ímpio, nem perigoso diferir ou descuidá-lo de tais circunstâncias.
O que de fato me preocupa agora é a perdição das almas, que é sobre o que ando trabalhado. Estou determinado a atacar os votos dos religiosos e liberar os jovens deste inferno do celibato, imundo e condenadíssimo por causa das coceiras e das poluções. Estou escrevendo isto em parte por causa das tentações, e em parte pela indignação que sinto.[7] Verá que é bom. Não há um só Satanás comigo, ou melhor, contra mim, que estou sozinho e, às vezes, me faço só.
Adeus e saúda a todos os nossos. A Gerbel[8] e lhe escrevi quando recebi a sua última e tudo estava fechado e selado.
Dia de são Martin, 1521. Seu Martinus Luther.
NOTAS:
[1] WA Br 2, 402-403.
[2] Alberto de Maguncia para conseguir ingressos que sanassem as suas finanças em Setembro de 1521 realizou uma exposição indulgenciando as relíquias de sua igreja em Halle. Para evitar reações enviou emissários a Wittenberg que tratassem de convencer ao príncipe eleitor e a amigos de Lutero da conveniência de não se opor. Parece que em parte conseguiu. Mas Lutero escreveu um furioso panfleto Contra o ídolo de Halle, cuja publicação irritou o príncipe. Note-se a violência de Lutero e a reincidência do cardeal, personagem ambíguo e não afetado pelos sucessos de 1517.
[3] Em 5 de Outubro, seguindo o costume, os monges antonianos de Lichtenburg enviaram delegados para recolher esmolas. Foram recebidos violentamente e não foi possível nem sequer pregar.
[4] Is 7:4.
[5] De Abroganda missa privata M. Lutheri setentia: WA 8, 411-476.
[6] A Paraclesis, ou tratado consolatório, neste caso dedicado ao príncipe. Tessaradecas consolatoria pro laborantibus et oneratis, escrito em 1520: WA 6, 104-134.
[7] Plano de sua obra De votis monasticis: WA 8, 573-669.
[8] Nicolás Gerbel foi um jurisconsulto de Estraburgo a quem se dirigiu em 1 Novembro de 1521 (WA Br 2, 396-398).
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 390-391.
Traduzido em 5 de Janeiro de 2015.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
Jesus. Saudações. Creio que nunca recebi uma carta tão desagradável como a última que você me enviou. Estava decidido não somente a demorar responder, como também a não responder.
Em primeiro lugar, não estou disposto a suportar o que me disse, de que o príncipe não suportará que escreva contra o de Magnuncia, nem nada que possa perturbar a paz pública; pelo contrário, permanecerei sem você, sem o príncipe e sem ninguém no mundo. Se enfrentei o papa, criador do engano, vou me deter diante a sua criatura? Declara muito formoso que não se deve perturbar a paz pública, e você sofreria por turbar a paz eterna de Deus com as ações ímpias e profanas dessa perdição? Isto não sucederá, caro Spalatino; não ocorrerá isto, príncipe, senão que por amor das ovelhas de Cristo e para exemplo dos demais há que resistir ferozmente a este perigosíssimo lobo. Por isso lhe envio o panfleto[2] que preparei contra ele quando recebi a sua carta que não me fez mudar em nada, ainda que o submeti a juízo de Felipe para que o corrigisse no que cresse ser necessário. Não pense impedir a devolução do livro a Felipe nem desestimulá-lo. Considere que não farei isto.
Não deveria impressioná-lo que nós e nossos amigos nos vejamos na precisão de ouvir insultos por parte de nossos adversários, ou dos excessivamente prudentes nas coisas divinas, já que você sabe muito bem que nem Cristo, nem o apóstolo foram agradáveis aos homens. Além do mais, até agora não chegou aos meus ouvidos que aos nossos sejam acusados de algum crime, senão somente de depreciar a impiedade e as doutrinas da perdição, ainda que não me agradem as atitudes dos jovens que receberam mal o enviado dos antonianos.[3] Mas, quem seria capaz de frear sempre a todos e em todo lugar? Ou, eles jamais obram mal? Até os discípulos sofreram a vergonha de Judas Iscariotes e diariamente tiveram que suportar as comunidades por causa de seus maus membros; somente de nós é exigido que não gemamos. Peço a você que não espere a redação de uma apologia para cada um daqueles que desagrada a Wittenberg; não há nada mais impossível.
Não perecerá o evangelho porque algum de nós peque por falta de modéstia: os que por este motivo se afastam da palavra estão provando que não foi ela que aceitaram, senão somente a sua glória. As portas do inferno não poderão separar dela os que acolheram a palavra por causa da palavra. O que quer abandoná-la, que a abandone. Por que não se fixam no melhor e mais sólido que possuímos? Por que se apegam somente ao pior e ao mais fraco? É Felipe e os seus amigos acusados deste crime? Por que condenam o todo por uma parte? É um pecado mais leve receber um pregador ímpio do que aceitar fielmente a sua doutrina. Todavia, este pecado se vê elogiado e o pregador condenado como irredimível. E juízes e equidades desta atitude te fazem temer que o evangelho vá perecer por razões que não são mais do que fumaça?[4]
Confirmo a revogação das missas neste livro que te envio junto a carta.[5] Não pude preparar a Paraclesis, nem creio ser necessário fazê-lo, pelo fato de abordar o assunto em minha Tessaradecade.[6] Por que não facilita a leitura desta obra? Por que não se convence de ler o evangelho e a paixão de Cristo, pois não encontrará consolo melhor? Terei que escrever uma consolação para cada caso? O que diriam os inimigos? Além do mais, espero que baste a Paraclesis de Felipe, pois imagino que no intervalo cessará a enfermidade de seu ânimo, e desta forma a minha chegaria tarde e resultaria inútil. Não será ímpio, nem perigoso diferir ou descuidá-lo de tais circunstâncias.
O que de fato me preocupa agora é a perdição das almas, que é sobre o que ando trabalhado. Estou determinado a atacar os votos dos religiosos e liberar os jovens deste inferno do celibato, imundo e condenadíssimo por causa das coceiras e das poluções. Estou escrevendo isto em parte por causa das tentações, e em parte pela indignação que sinto.[7] Verá que é bom. Não há um só Satanás comigo, ou melhor, contra mim, que estou sozinho e, às vezes, me faço só.
Adeus e saúda a todos os nossos. A Gerbel[8] e lhe escrevi quando recebi a sua última e tudo estava fechado e selado.
Dia de são Martin, 1521. Seu Martinus Luther.
NOTAS:
[1] WA Br 2, 402-403.
[2] Alberto de Maguncia para conseguir ingressos que sanassem as suas finanças em Setembro de 1521 realizou uma exposição indulgenciando as relíquias de sua igreja em Halle. Para evitar reações enviou emissários a Wittenberg que tratassem de convencer ao príncipe eleitor e a amigos de Lutero da conveniência de não se opor. Parece que em parte conseguiu. Mas Lutero escreveu um furioso panfleto Contra o ídolo de Halle, cuja publicação irritou o príncipe. Note-se a violência de Lutero e a reincidência do cardeal, personagem ambíguo e não afetado pelos sucessos de 1517.
[3] Em 5 de Outubro, seguindo o costume, os monges antonianos de Lichtenburg enviaram delegados para recolher esmolas. Foram recebidos violentamente e não foi possível nem sequer pregar.
[4] Is 7:4.
[5] De Abroganda missa privata M. Lutheri setentia: WA 8, 411-476.
[6] A Paraclesis, ou tratado consolatório, neste caso dedicado ao príncipe. Tessaradecas consolatoria pro laborantibus et oneratis, escrito em 1520: WA 6, 104-134.
[7] Plano de sua obra De votis monasticis: WA 8, 573-669.
[8] Nicolás Gerbel foi um jurisconsulto de Estraburgo a quem se dirigiu em 1 Novembro de 1521 (WA Br 2, 396-398).
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 390-391.
Traduzido em 5 de Janeiro de 2015.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
quinta-feira, 7 de agosto de 2014
Carta de Martinho Lutero a George Spalatino [1521]
A Spalatino. 14 de Maio de 1521[1]
Ao seu caríssimo e fidelíssimo servo em Cristo, George Spalatino, em Altenburg.
Jesus. Saudações. Recebi a sua carta, assim como as de Gerbel e Sapido, na domínica Exaudi, querido Spalatino. Atrasei deliberadamente a contestação para que o ruído recente de meu cativeiro não desse motivo para que alguém interceptasse as cartas. Por aqui correm muitos rumores sobre mim; não obstante, prevalece a opinião de que fui capturado por amigos enviados da Franconia. Amanhã expira o prazo do salvo-conduto imperial.[2] Causa-me dor o que me disse do rigorosíssimo edito que dará motivo para violentar até as consciências[3]; e não é algo que dói por mim, mas porque sua imprudência acabará arrojando todo o mal sobre suas cabeças e porque estão incitando cada vez mais ódio. Quanto ódio suscitará está vergonhosa violência! Mas deixe-o; possivelmente esteja chegando o tempo de sua visitação.[4]
Continuo sem notícias acerca dos nossos de Wittenberg e dos demais lugares. Enquanto íamos a Eisenach a juventude de Erfurt assaltou durante a noite as casas de alguns sacerdotes; estava indignado porque o decano de são Severino, grande papista, agarrando-os pela gola das vestes, expulsou publicamente do coro o mestre Drach, sob o pretexto de que estava excomungado, pela simples razão de que, junto conosco, saiu para me receber quando cheguei a Erfurt. Entretanto, aguardam que outras coisas aconteçam. O conselho anda dissimulando; os sacerdotes não tendo boa reputação ali, e dizem que a juventude artesã anda conspirando com os estudantes. Possivelmente está próximo o cumprimento do provérbio “Erfordia Praga”.[5]
Contaram-me ontem que em Gotha, certo sacerdote foi mal recebido porque havia comprado não sei o que para incrementar os ingressos da igreja e, com a desculpa de isenção eclesiástica, negou-se pagar os impostos e tributos. Podemos perceber que o povo não pode nem quer continuar aguentando o jugo papista, como disse Erasmo em sua Boulé.[6] Não cessamos de urgi-lo e dar-lhe importância, porque, graças a luz reveladora de tudo, temos prescindido da fama, da opinião, e aquele tipo de piedade não vale, nem reina, como não reinou até agora. Veremos se de agora em diante, oprimindo e aumentando tudo como até este momento fizeram.
Da minha parte aqui estou todos os dias sentado, ocioso e crapuloso. Estou lendo a Bíblia em hebraico e grego. Vou escrever um sermão em alemão sobre a liberdade da confissão auricular, continuarei com os Salmos e os comentários, desde que receba de Wittenberg algumas coisas necessárias, entre as quais se encontra o Magnificat que comecei.
Você não faz ideia da amabilidade com o que o abade de Hersfeld nos acolheu.[7] Ele fez com que o seu chanceler e seu tesoureiro saíssem ao nosso encontro a uma légua de larga distância; depois, o mesmo com muitos cavaleiros nos recebeu à entrada de seu castelo e nos acompanhou até a cidade. Nela fomos recebidos pelo conselho. Descansamos em seu monastério e me alojou em seu próprio quarto. Obrigaram-me a pregar um sermão às cinco da manhã, apesar de que lhes adverti que se expunham a perder os seus benefícios, se a notícia chegasse aos imperiais, que o interpretariam como uma violação da promessa dada ao mandato de não pregar em meu itinerário. Entretanto, disse-lhes que não havia consentido em que se atasse a Palavra de Deus, como era a verdade. Também preguei em Eisenach apesar do protesto do acovardado pároco ante o notário e testemunhas presentes, alegando com humildade de ser necessário a isto, por medo de seus tiranos. Talvez em Worms digam que com isto violei a promessa, mas não foi assim, porque não dependia de minha condição de atar a Palavra de Deus, nem prometi isto; e ainda, de ir contra Deus, e muito menos poderia observá-lo ainda que houvesse prometido. Ao dia seguinte nos acompanhou até a selva e havendo o seu chanceler se unido a nós, nos ofereceu comida a todos em Berka. Por fim, e depois de partir todo este acompanhamento com Jerônimo, entramos pela tarde em Eisenach e fomos recebidos pelos cidadãos do local que a pé, saíram ao nosso encontro.
Através da selva fui visitar aos meus parentes que estão espalhados por quase toda a região. Despedi-me deles, e quando nos dirigíamos a Walterhausen, um pouco além das proximidades de Altenstein, fui capturado. Amsdorf[8] estava forçosamente informado de que alguém planejava sequestrar-me, mas ignora o lugar de meu cativeiro. O irmão que ia comigo[9] ao perceber a tempo os cavaleiros, saltou do carro e dizem que chegou a pé, pela tarde, em Walterhausen, sem que ninguém lhe saudasse.
Aqui em encontro, despojado de meu hábito, disfarçado de cavaleiro, com barba e cabelos longos. Seria difícil para você me reconhecer, porque há muito tempo que nem eu mesmo me conheço. Atuo com liberdade cristã, livre de todas as leis desse tirano, se bem que é verdade que eu gostaria que o porco de Dresden[10] se dignasse em matar-me por pregar em público, se é que Deus lhe agrada que padeça por sua Palavra.
Adeus e rogue por mim. Saudações a toda a tua corte.
No Monte, terça-feira da domínica Exaudi, 1521.
Martinus Luterus.
NOTAS:
[1] WA Br 2, pp. 337-338. Incluímos esta carta por expressar e recompor o retorno de Lutero de Worms e os sentimentos que o animam em seu retiro forçado em Wartburg, onde disfarçado passaria 300 dias e conhecido pelo “cavaleiro George”.
[2] Refere-se ao salvo-conduto expedido por Carlos V, no dia 25 de Abril e válido por 21 dias.
[3] O edito imperial de proscrição com todos os efeitos conseguintes (qualquer um poderia atentar com toda tranquilidade contra a vida do proscrito), estava redigido, ainda que tardaria algo em promulgar-se. Este é o motivo de que toda a vida posterior de Lutero transcorra na Saxônia.
[4] Jr 46:21.
[5] Reproduz um provérbio popular que fazia referência aos sucessos que em 1409 registra-se ocorrem na cidade de Praga. O rei da Bohemia reformou o estudo e concedeu a independência a “nação” Tcheca, em prejuízo da Alemanha, que era quem a dominava naqueles dias de Huss. Os alemães, em parte, recorreram a Erfurt, primeira universidade de Lutero.
[6] Consilium cuiusdam exa animo cupientis que apareceu entre 1520-1521, que literalmente diz citado por Lutero, e que certamente não era de paternidade erasmiana.
[7] Era abade do monastério de Hersfeld naquelas circunstâncias Kraft Myle.
[8] Nicolas de Amsdorf (1483-1565), professor de Wittenberg, companheiro de Lutero e um de seus mais próximos amigos e colaboradores. Se tornaria no representante da ortodoxia luterana contra os “desvios” irenistas e sinergistas de Melanchthon e do “luteranismo”. Consagrado bispo de Naumburg por Lutero (1542). Cf. P. Brunner, Nikolaus von Amsdorf als Bischof von Naumburg, Gütersloh 1961.
[9] O irmãos agostiniano J. Petzensteiner, companheiro com Amsdorf deste velhor regresso de Worms e testemunha do sequestro simulado. Cf. M. Simon, Johannes Petzensteiner, Luthers Reisebegleiter in Worms: Zeitschrift für bayerische Kirchengeschichte 35 (1966), pp. 113-137.
[10] O duque George da Saxônia.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp.383-385.
Tradução com introdução e notas em 12 de Abril de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
Ao seu caríssimo e fidelíssimo servo em Cristo, George Spalatino, em Altenburg.
Jesus. Saudações. Recebi a sua carta, assim como as de Gerbel e Sapido, na domínica Exaudi, querido Spalatino. Atrasei deliberadamente a contestação para que o ruído recente de meu cativeiro não desse motivo para que alguém interceptasse as cartas. Por aqui correm muitos rumores sobre mim; não obstante, prevalece a opinião de que fui capturado por amigos enviados da Franconia. Amanhã expira o prazo do salvo-conduto imperial.[2] Causa-me dor o que me disse do rigorosíssimo edito que dará motivo para violentar até as consciências[3]; e não é algo que dói por mim, mas porque sua imprudência acabará arrojando todo o mal sobre suas cabeças e porque estão incitando cada vez mais ódio. Quanto ódio suscitará está vergonhosa violência! Mas deixe-o; possivelmente esteja chegando o tempo de sua visitação.[4]
Continuo sem notícias acerca dos nossos de Wittenberg e dos demais lugares. Enquanto íamos a Eisenach a juventude de Erfurt assaltou durante a noite as casas de alguns sacerdotes; estava indignado porque o decano de são Severino, grande papista, agarrando-os pela gola das vestes, expulsou publicamente do coro o mestre Drach, sob o pretexto de que estava excomungado, pela simples razão de que, junto conosco, saiu para me receber quando cheguei a Erfurt. Entretanto, aguardam que outras coisas aconteçam. O conselho anda dissimulando; os sacerdotes não tendo boa reputação ali, e dizem que a juventude artesã anda conspirando com os estudantes. Possivelmente está próximo o cumprimento do provérbio “Erfordia Praga”.[5]
Contaram-me ontem que em Gotha, certo sacerdote foi mal recebido porque havia comprado não sei o que para incrementar os ingressos da igreja e, com a desculpa de isenção eclesiástica, negou-se pagar os impostos e tributos. Podemos perceber que o povo não pode nem quer continuar aguentando o jugo papista, como disse Erasmo em sua Boulé.[6] Não cessamos de urgi-lo e dar-lhe importância, porque, graças a luz reveladora de tudo, temos prescindido da fama, da opinião, e aquele tipo de piedade não vale, nem reina, como não reinou até agora. Veremos se de agora em diante, oprimindo e aumentando tudo como até este momento fizeram.
Da minha parte aqui estou todos os dias sentado, ocioso e crapuloso. Estou lendo a Bíblia em hebraico e grego. Vou escrever um sermão em alemão sobre a liberdade da confissão auricular, continuarei com os Salmos e os comentários, desde que receba de Wittenberg algumas coisas necessárias, entre as quais se encontra o Magnificat que comecei.
Você não faz ideia da amabilidade com o que o abade de Hersfeld nos acolheu.[7] Ele fez com que o seu chanceler e seu tesoureiro saíssem ao nosso encontro a uma légua de larga distância; depois, o mesmo com muitos cavaleiros nos recebeu à entrada de seu castelo e nos acompanhou até a cidade. Nela fomos recebidos pelo conselho. Descansamos em seu monastério e me alojou em seu próprio quarto. Obrigaram-me a pregar um sermão às cinco da manhã, apesar de que lhes adverti que se expunham a perder os seus benefícios, se a notícia chegasse aos imperiais, que o interpretariam como uma violação da promessa dada ao mandato de não pregar em meu itinerário. Entretanto, disse-lhes que não havia consentido em que se atasse a Palavra de Deus, como era a verdade. Também preguei em Eisenach apesar do protesto do acovardado pároco ante o notário e testemunhas presentes, alegando com humildade de ser necessário a isto, por medo de seus tiranos. Talvez em Worms digam que com isto violei a promessa, mas não foi assim, porque não dependia de minha condição de atar a Palavra de Deus, nem prometi isto; e ainda, de ir contra Deus, e muito menos poderia observá-lo ainda que houvesse prometido. Ao dia seguinte nos acompanhou até a selva e havendo o seu chanceler se unido a nós, nos ofereceu comida a todos em Berka. Por fim, e depois de partir todo este acompanhamento com Jerônimo, entramos pela tarde em Eisenach e fomos recebidos pelos cidadãos do local que a pé, saíram ao nosso encontro.
Através da selva fui visitar aos meus parentes que estão espalhados por quase toda a região. Despedi-me deles, e quando nos dirigíamos a Walterhausen, um pouco além das proximidades de Altenstein, fui capturado. Amsdorf[8] estava forçosamente informado de que alguém planejava sequestrar-me, mas ignora o lugar de meu cativeiro. O irmão que ia comigo[9] ao perceber a tempo os cavaleiros, saltou do carro e dizem que chegou a pé, pela tarde, em Walterhausen, sem que ninguém lhe saudasse.
Aqui em encontro, despojado de meu hábito, disfarçado de cavaleiro, com barba e cabelos longos. Seria difícil para você me reconhecer, porque há muito tempo que nem eu mesmo me conheço. Atuo com liberdade cristã, livre de todas as leis desse tirano, se bem que é verdade que eu gostaria que o porco de Dresden[10] se dignasse em matar-me por pregar em público, se é que Deus lhe agrada que padeça por sua Palavra.
Adeus e rogue por mim. Saudações a toda a tua corte.
No Monte, terça-feira da domínica Exaudi, 1521.
Martinus Luterus.
NOTAS:
[1] WA Br 2, pp. 337-338. Incluímos esta carta por expressar e recompor o retorno de Lutero de Worms e os sentimentos que o animam em seu retiro forçado em Wartburg, onde disfarçado passaria 300 dias e conhecido pelo “cavaleiro George”.
[2] Refere-se ao salvo-conduto expedido por Carlos V, no dia 25 de Abril e válido por 21 dias.
[3] O edito imperial de proscrição com todos os efeitos conseguintes (qualquer um poderia atentar com toda tranquilidade contra a vida do proscrito), estava redigido, ainda que tardaria algo em promulgar-se. Este é o motivo de que toda a vida posterior de Lutero transcorra na Saxônia.
[4] Jr 46:21.
[5] Reproduz um provérbio popular que fazia referência aos sucessos que em 1409 registra-se ocorrem na cidade de Praga. O rei da Bohemia reformou o estudo e concedeu a independência a “nação” Tcheca, em prejuízo da Alemanha, que era quem a dominava naqueles dias de Huss. Os alemães, em parte, recorreram a Erfurt, primeira universidade de Lutero.
[6] Consilium cuiusdam exa animo cupientis que apareceu entre 1520-1521, que literalmente diz citado por Lutero, e que certamente não era de paternidade erasmiana.
[7] Era abade do monastério de Hersfeld naquelas circunstâncias Kraft Myle.
[8] Nicolas de Amsdorf (1483-1565), professor de Wittenberg, companheiro de Lutero e um de seus mais próximos amigos e colaboradores. Se tornaria no representante da ortodoxia luterana contra os “desvios” irenistas e sinergistas de Melanchthon e do “luteranismo”. Consagrado bispo de Naumburg por Lutero (1542). Cf. P. Brunner, Nikolaus von Amsdorf als Bischof von Naumburg, Gütersloh 1961.
[9] O irmãos agostiniano J. Petzensteiner, companheiro com Amsdorf deste velhor regresso de Worms e testemunha do sequestro simulado. Cf. M. Simon, Johannes Petzensteiner, Luthers Reisebegleiter in Worms: Zeitschrift für bayerische Kirchengeschichte 35 (1966), pp. 113-137.
[10] O duque George da Saxônia.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp.383-385.
Tradução com introdução e notas em 12 de Abril de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
terça-feira, 8 de abril de 2014
Carta de Martinho Lutero à Johannes Staupitz [1519]
A Staupitz. 20 de Fevereiro de 1519[1]
Ao reverendo e excelentíssimo padre Johan Staupitz, vigário dos Ermitões de Santo Agostinho, e no culto de Cristo, o seu patrono e superior.
Jesus. Saudações. Reverendo padre: Ainda que esteja tão longe de mim e tão calado que não me escreva as esperadíssimas cartas, me atreverei a quebrar o silêncio.[2] Desejo – bem como desejam todos – que te deixes ver alguma vez nesta situação afligida pelas pragas do céu. Espero haver chegado até você as minhas Atas[3], ou seja, a cólera e a indignação de Roma. Deus não somente me conduz, me arrebata, como também me empurra; não estou em minha sensatez: quero estar tranquilo e todavia, me vejo pressionado no fragor dos tumultos.
Carlos Miltitz entrevistou-me em Altenburg[4]. Estava queixoso de que eu tinha ganho a todos para a minha causa e os afastado do papa. Da exploração que fiz em todas as hospedagens deduzi que apenas dois a cada cinco estavam a favor de Roma. Depois, na corte do príncipe, informei-me que vinha armado com setenta breves apostólicos a fim de conduzir-me preso para a Jerusalém homicida, a essa Babilônica de púrpura.[5] Quando desesperou-se neste projeto começou a tratar de que eu restituísse à igreja romana o que lhe havia roubado, e se empenhou em convencer-me que eu me retratasse. Ao rogar-lhe que me indicasse no que tinha que retratar-me, por fim, nos convencemos em remeter a causa a alguns bispos. Propus-lhe o arcebispo de Salzburg, bem como ao de Tréveres e ao de Freising. Pela tarde fui convidado, estivemos alegres na comida e nos separamos depois de haver me dado um ósculo. Comportei-me como se não estivesse consciente dessas italianidades e simulações. Também convocou a Tetzel e lhe repreendeu. Em Leipzig, por fim, o convenceu de que gozasse de uma estupenda mensalidade de noventa florins e mais três empregados e uma carruagem livre de todo custo. Então, Tetzel desapareceu; ninguém – talvez, a exceção de seus progenitores – sabe para onde ele se foi.[6]
Eck, meu homem astuto, quer arrastar-me para novas disputas, como pode ver no que te adjunto. Desta maneira, Deus cuida em manter-me andando ocupado. Mas, se é a vontade de Cristo, desta disputa nada de bom poderá saldar para os direitos e usos de Roma, que são o cetro em que Eck se apoia.[7]
Eu gostaria que visse os meus livretos impressos em Basiléia[8] e que confrontasse o que os eruditos opinam sobre mim, sobre Eck, sobre Silvestre e sobre os teólogos escolásticos. Equivocando-se deliberadamente, com muitíssimo gracejo, chamam Silvestre (além de outras coisas cheias de humor) de magiro de palácio, em lugar de mestre de palácio (magiro em grego significa cozinheiro)[9]. Isto cairá mal aos heróis romanos. Rogo a ti: reze por mim. Confio com firmeza que o Senhor forçará ao teu coração para cuidar de mim. Sou um homem que está em perigo e empurrado à sociedade, ao deboche, ao desprezo, a negligência e outras moléstias, além das que me oprimem por ofício.
Por fim, se aproximam os de Leipzig para a disputa com Eck. Acusam-me de ser imprudente por escrever que rejeitava e reclamam que cante a palinódia num escrito pessoal. Mas fui assegurado pelo duque George[10] de que eles haviam recusado antecipadamente e eu disse a eles em duas ocasiões que o seu decano havia recusado anteriormente a minha petição, como na realidade o fez. Desta maneira tão baixa quer esta gente impedir tal disputa; mas, o duque George continua urgindo-a.
Adeus, boníssimo padre. 20 de Fevereiro de 1519. Fr. Martinus Lutherus, agostiniano.
NOTAS:
[1] WA 1, pp. 344-345. Nota de Teófanes Egido.
[2] Johannes Staupitz para não se comprometer, associando-se de algum modo, com Lutero, evita inclusive responder as várias cartas enviadas por Lutero, em que o reformador alemão solicita conselhos, posicionamento e coerência com o evangelho que primeiramente ele viu em seu tutor. Veja nas outras cartas traduzidas os insistentes pedidos de resposta de Lutero. Nota do tradutor.
[3] Lutero se refere às Atas Augustana (WA 2, 1ss), onde narra a célebre entrevista com Cajetano (cf. Conversas à Mesa, n. 9-10 desta edição). Nota de Teófanes Egido.
[4] Sobre os contatos do legado de Miltitz e Lutero neste tempo e a desafortunada intervenção do primeiro, cf. a nossa introdução ao Tratado sobre a liberdade cristã, escrito 5 desta edição. Sobre a entrevista aludida por Lutero, cf. H. Boehmer, Der junge Luther, ed. de H. BornKamm, Leipzig 1952, pp. 207ss. Nota de Teófanes Egido.
[5] É interessante notar que Lutero usa uma linguagem apocalíptica condenatória contra a Igreja Romana, bem como contra ao papa. Nota do tradutor.
[6] Johannes Tetzel (1465-1519) pregador da indulgência que desencadeou o primeiro protesto público de Lutero em 1517 (veja as 95 Teses). Sobre a alusão da carta e o histórico do dominicano, cf. N. Paulus, Johann Tetzel der Ablassprâdiger, Mainz 1899, pp. 71ss. Nota de Teófanes Egido.
[7] Refere às teses impressas por Eck (WA 2, p. 154) com vistas à disputa que em Leipzig lhe enfretaria com Karlstadt e Lutero. Eck foi sem dúvidas o mais formidável e um dos melhores e mais preparados debatedores contra Lutero. Nota de Teófanes Egido.
[8] Os seus primeiros escritos latinos surgem editados em Outubro de 1518, na impressa de Froben (Basiléia), numa edição feita sema autorização de Lutero. Nota de Teófanes Egido.
[9] Silvestre Prierias (1456-1523), um dos primeiros rivais de Lutero, sem a grandeza de Eck. O livro Diálogo equivocadamente da capa do livro, cf. WA 1, p. 645. Nota de Teófanes Egido.
[10] O duque George Spalatino da Saxônia. Nota do tradutor.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), p. 377-378.
Tradução em 8 de Abril de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
Ao reverendo e excelentíssimo padre Johan Staupitz, vigário dos Ermitões de Santo Agostinho, e no culto de Cristo, o seu patrono e superior.
Jesus. Saudações. Reverendo padre: Ainda que esteja tão longe de mim e tão calado que não me escreva as esperadíssimas cartas, me atreverei a quebrar o silêncio.[2] Desejo – bem como desejam todos – que te deixes ver alguma vez nesta situação afligida pelas pragas do céu. Espero haver chegado até você as minhas Atas[3], ou seja, a cólera e a indignação de Roma. Deus não somente me conduz, me arrebata, como também me empurra; não estou em minha sensatez: quero estar tranquilo e todavia, me vejo pressionado no fragor dos tumultos.
Carlos Miltitz entrevistou-me em Altenburg[4]. Estava queixoso de que eu tinha ganho a todos para a minha causa e os afastado do papa. Da exploração que fiz em todas as hospedagens deduzi que apenas dois a cada cinco estavam a favor de Roma. Depois, na corte do príncipe, informei-me que vinha armado com setenta breves apostólicos a fim de conduzir-me preso para a Jerusalém homicida, a essa Babilônica de púrpura.[5] Quando desesperou-se neste projeto começou a tratar de que eu restituísse à igreja romana o que lhe havia roubado, e se empenhou em convencer-me que eu me retratasse. Ao rogar-lhe que me indicasse no que tinha que retratar-me, por fim, nos convencemos em remeter a causa a alguns bispos. Propus-lhe o arcebispo de Salzburg, bem como ao de Tréveres e ao de Freising. Pela tarde fui convidado, estivemos alegres na comida e nos separamos depois de haver me dado um ósculo. Comportei-me como se não estivesse consciente dessas italianidades e simulações. Também convocou a Tetzel e lhe repreendeu. Em Leipzig, por fim, o convenceu de que gozasse de uma estupenda mensalidade de noventa florins e mais três empregados e uma carruagem livre de todo custo. Então, Tetzel desapareceu; ninguém – talvez, a exceção de seus progenitores – sabe para onde ele se foi.[6]
Eck, meu homem astuto, quer arrastar-me para novas disputas, como pode ver no que te adjunto. Desta maneira, Deus cuida em manter-me andando ocupado. Mas, se é a vontade de Cristo, desta disputa nada de bom poderá saldar para os direitos e usos de Roma, que são o cetro em que Eck se apoia.[7]
Eu gostaria que visse os meus livretos impressos em Basiléia[8] e que confrontasse o que os eruditos opinam sobre mim, sobre Eck, sobre Silvestre e sobre os teólogos escolásticos. Equivocando-se deliberadamente, com muitíssimo gracejo, chamam Silvestre (além de outras coisas cheias de humor) de magiro de palácio, em lugar de mestre de palácio (magiro em grego significa cozinheiro)[9]. Isto cairá mal aos heróis romanos. Rogo a ti: reze por mim. Confio com firmeza que o Senhor forçará ao teu coração para cuidar de mim. Sou um homem que está em perigo e empurrado à sociedade, ao deboche, ao desprezo, a negligência e outras moléstias, além das que me oprimem por ofício.
Por fim, se aproximam os de Leipzig para a disputa com Eck. Acusam-me de ser imprudente por escrever que rejeitava e reclamam que cante a palinódia num escrito pessoal. Mas fui assegurado pelo duque George[10] de que eles haviam recusado antecipadamente e eu disse a eles em duas ocasiões que o seu decano havia recusado anteriormente a minha petição, como na realidade o fez. Desta maneira tão baixa quer esta gente impedir tal disputa; mas, o duque George continua urgindo-a.
Adeus, boníssimo padre. 20 de Fevereiro de 1519. Fr. Martinus Lutherus, agostiniano.
NOTAS:
[1] WA 1, pp. 344-345. Nota de Teófanes Egido.
[2] Johannes Staupitz para não se comprometer, associando-se de algum modo, com Lutero, evita inclusive responder as várias cartas enviadas por Lutero, em que o reformador alemão solicita conselhos, posicionamento e coerência com o evangelho que primeiramente ele viu em seu tutor. Veja nas outras cartas traduzidas os insistentes pedidos de resposta de Lutero. Nota do tradutor.
[3] Lutero se refere às Atas Augustana (WA 2, 1ss), onde narra a célebre entrevista com Cajetano (cf. Conversas à Mesa, n. 9-10 desta edição). Nota de Teófanes Egido.
[4] Sobre os contatos do legado de Miltitz e Lutero neste tempo e a desafortunada intervenção do primeiro, cf. a nossa introdução ao Tratado sobre a liberdade cristã, escrito 5 desta edição. Sobre a entrevista aludida por Lutero, cf. H. Boehmer, Der junge Luther, ed. de H. BornKamm, Leipzig 1952, pp. 207ss. Nota de Teófanes Egido.
[5] É interessante notar que Lutero usa uma linguagem apocalíptica condenatória contra a Igreja Romana, bem como contra ao papa. Nota do tradutor.
[6] Johannes Tetzel (1465-1519) pregador da indulgência que desencadeou o primeiro protesto público de Lutero em 1517 (veja as 95 Teses). Sobre a alusão da carta e o histórico do dominicano, cf. N. Paulus, Johann Tetzel der Ablassprâdiger, Mainz 1899, pp. 71ss. Nota de Teófanes Egido.
[7] Refere às teses impressas por Eck (WA 2, p. 154) com vistas à disputa que em Leipzig lhe enfretaria com Karlstadt e Lutero. Eck foi sem dúvidas o mais formidável e um dos melhores e mais preparados debatedores contra Lutero. Nota de Teófanes Egido.
[8] Os seus primeiros escritos latinos surgem editados em Outubro de 1518, na impressa de Froben (Basiléia), numa edição feita sema autorização de Lutero. Nota de Teófanes Egido.
[9] Silvestre Prierias (1456-1523), um dos primeiros rivais de Lutero, sem a grandeza de Eck. O livro Diálogo equivocadamente da capa do livro, cf. WA 1, p. 645. Nota de Teófanes Egido.
[10] O duque George Spalatino da Saxônia. Nota do tradutor.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), p. 377-378.
Tradução em 8 de Abril de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
sábado, 22 de março de 2014
Carta Martinho Lutero a George Spalatino [1518]
18 de Janeiro de 1518[1]
Ao seu irrepreensível George Spalatino,[2] verdadeiro discípulo de Cristo e irmão.
Jesus. Saúde. Até agora você tem me perguntado algumas coisas, ótimo Spalatino, cuja resposta dependia de minha capacidade ou de minha temeridade; agora, ao rogar-me que te oriente em que concerne o conhecimento da Sagrada Escritura, me levanta um problema que excede em muito todas as minhas forças. E, é que nem eu mesmo posso encontrar quem me guie no assunto com tanta transcendência. Cada um, inclusive os mais eruditos e melhores intelectuais, podem perceber o seu lazer. Aí tem a Erasmo: afirma publicamente que são Jerônimo é um teólogo de categoria tal, que a segundo a sua predileção deveria ser o único que tomasse em consideração. Pois bem, se ousar antepor a santo Agostinho, e se me tomasse por árbitro parcial e suspeito por causa de minhas confessas simpatias e de sentença divulgada, e que a tempos aceitei de Erasmo, que afirmou que seria uma enorme vergonha comparar Agostinho com Jerônimo. Outros abundam outras opiniões.
Da minha parte, dada minha pobre erudição e escassa inteligência, não me atreveria a dizer nada em assuntos de tanta importância e entre juízes tão qualificados. A Erasmo sempre o louvo, e o defendo ante todos os que deliberadamente odeiam a Escritura Sagrada, ou a desconhecem por ignorância,[3] mas, intencionalmente me guardo de vomitar no que discordo dele para não alimentar a inveja que eles têm, e apesar disto que vejam em Erasmo muitas coisas que me parecem tão pouco imprudentes para chegar ao conhecimento de Cristo. Tudo isto, está claro, falando como um teólogo, e não como um gramático; porque, de outra forma, o próprio Jerônimo, tão celebrado por Erasmo, não encontraria nada mais erudito e inteligente que isto.
Você sabe que violará o sagrado da amizade se comunicar a alguém a minha opinião sobre Erasmo. Não te digo isto em vão. Bem sabe que há muitos que deliberadamente andam a caça de motivos para caluniar aos bons eruditos. Permaneça em segredo o que disse. E ainda mais: não me faças caso, até que você mesmo não tenha se convencido disto pela leitura.
Não obstante, se te empenha em saber do meu programa de erudito, eu confiarei por completo a você um grupo de amigos íntimos, mas sob a condição de que não me sigas, a não ser criteriosamente. A primeira coisa que você tem que ter presente é a certeza indestrutível de que a Escritura Sagrada é impossível penetrá-la baseado no estudo e inteligência. Portanto, teu primeiro empenho será o começar pela oração; mas, uma oração em que peça para que a mais pura misericórdia te conceda a inteligência da sua palavra, e que se agrade de te usar para a sua glória, não para a tua, nem para a de nenhum humano. Nenhum mestre das palavras divinas poderá ser o melhor do que seu próprio autor, de acordo com o que disse: “todos serão ensinados por Deus.”[4] Portanto, convém sobremaneira que você se desespere com todas as suas forças e de toda a tua inteligência e confie unicamente na ação do Espírito. Atente a quem te diz por experiência própria.
Baseado neste humilde desespero, depois leia a Bíblia em ordem, desde o princípio até o fim, para que aprendas primeiro e de memória a narração livre (o que imagino que terá feito). Para isto será muito proveitoso são Jerônimo em suas Cartas e Comentários, mas para chegar ao conhecimento de Cristo e da graça – ou seja, para penetrar na inteligência mais secreta do espírito – parecem-me muito mais coerentes que santo Agostinho e Ambrósio, porque a percepção de que são Jerônimo “originou” (ou seja, alegorizou) demasiadamente.[5] Digo isto, mas deixo o a juízo de Erasmo, pois, não me pediu a opinião de Erasmo, e sim a minha.
Se lhe agrada o meu método começará pela leitura de Do espírito e da letra de santo Agostinho, obra que o nosso Karlstadt,[6] homem de incomparáveis conhecimentos, explicou e editou com admiráveis comentários. Leis depois o livro Contra Juliano e Contra as cartas dos pelagianos. Também acrescente Da vocação de todas as nações de são Ambrósio, se bem que pelo estilo, pela inteligência e pela cronologia deva ser atribuído a outro autor; todavia, está cheio de erudição. Deixe os demais para depois, se é que resultarem de teu agrado o que indiquei a você. E perdoe-me a temeridade de atrever-me antepor em assunto tão árduo o meu sistema ao de outros de tanto peso.
Por fim, renunciarei da Apologia de Erasmo, mas me afeta veementemente o duelo que desencadeou entre dois príncipes das letras.[7] Erasmo está muito acima de todos, e é o que melhor se expressa, mas também é o mais amargo apesar de seus esforços por conservar a amizade.
Adeus meu Spalatino. Em nosso monastério, dia de santa Prisca, quando recebi a sua carta, 1518. Fr. Martinus Eleutherius. O P. Staupitz anda por Munich, em Baviera; e de lá acaba de escrever-me.
NOTAS:
[1] WA Br 1, 133-134. Do valor doutrinário desta carta deu testemunho o próprio destinatário com a nota marginal que lhe pôs: “1518. Introductio in theologiam”.
[2] WA Br 1, pp. 70-71. Spalatino (Georg Burckhardt, de Spalt) da mesma geração que Lutero. Ele viveu entre 1484-1545, realizou um papel decisivo no início da Reforma devido a sua posição na corte de Frederico, o Sábio da Saxônia, de quem era chanceler e pregador. Foi o mediador entre o príncipe e Lutero, que como humanista, soube frear certas exageros do reformador que escreveu um numeroso corpo de cartas. Cf. I. Hüss, Georg Spalatin, Weimar 1956; Id., Georg Spaltins Verhâltins zu Luther und der Reformation: Luther 31 (1960), pp. 67-80. Nota de Teófanes Egido.
[3] Alude aos escolásticos, tão maltratados pelos humanistas e o reformador, numa das poucas coisas em que estavam de acordo. Nota de Teófanes Egido. Erasmo criticando os teólogos escolásticos declara que “arrogam-se insolentemente o direito de definir e discutir verdades incompreensíveis, profanando assim a majestade da teologia com as palavras e sentenças mais insulsas e triviais. No entanto, esses insignificantes faladores envaidecem-se com sua vazia erudição e experimentam tanto prazer em ocupar-se dia e noite com essas suavíssimas nênias que nem tempo lhe sobre para ler ao menos uma vez o Evangelho e as cartas de são Paulo.” Erasmo Rotterdam, Elogio da loucura (São Paulo, Editora Martin Claret, 2002), p. 82. Igualmente Lutero declara o seu rompimento formal com os escolásticos em sua Disputatio contra scholasticam theologiam. Martinho Lutero, “Debate sobre a Teologia Escolástica” in: Obras Selecionadas – Os primórdios escritos de 1517-1519 (São Leopoldo, Editora Sinodal & Concórdia Editora, 1987), vol. 1, pp. 13-20. Nota do tradutor.
[4] Jo 6:45.
[5] Lutero está fazendo menção a Orígenes, conhecido pelo seu método alegórico, segundo a Escola de Alexandria. Nota do tradutor.
[6] Karlstadt (Andreas Rudolf Karlstadt, 1480-1541). A opinião de Lutero é dos primeiros anos, quando Karlstadt era seu defensor sem restrições. Depois, por interpretações pessoais da Escritura, distanciou-se de Lutero na doutrina e nas práticas eucarísticas, sobressaindo-lhe, chegando a posturas sócio-religiosas “iluminadas”. Terminou como um dos personagens mais odiados por Lutero, sobretudo desde 1523. Cf. E. Hertzsch, Karlstadt und seine Bedeutung für das Luthertum, Gotha 1932.
[7] Refere-se a Apologia contra L. d’Etaples, editada em 1517, e a controvérsia entre ambos a propósito de determinados problemas da carta aos Hebreus.
Traduzido de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 374-376.
Tradução com introdução e notas em 22 de Fevereiro de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
Ao seu irrepreensível George Spalatino,[2] verdadeiro discípulo de Cristo e irmão.
Jesus. Saúde. Até agora você tem me perguntado algumas coisas, ótimo Spalatino, cuja resposta dependia de minha capacidade ou de minha temeridade; agora, ao rogar-me que te oriente em que concerne o conhecimento da Sagrada Escritura, me levanta um problema que excede em muito todas as minhas forças. E, é que nem eu mesmo posso encontrar quem me guie no assunto com tanta transcendência. Cada um, inclusive os mais eruditos e melhores intelectuais, podem perceber o seu lazer. Aí tem a Erasmo: afirma publicamente que são Jerônimo é um teólogo de categoria tal, que a segundo a sua predileção deveria ser o único que tomasse em consideração. Pois bem, se ousar antepor a santo Agostinho, e se me tomasse por árbitro parcial e suspeito por causa de minhas confessas simpatias e de sentença divulgada, e que a tempos aceitei de Erasmo, que afirmou que seria uma enorme vergonha comparar Agostinho com Jerônimo. Outros abundam outras opiniões.
Da minha parte, dada minha pobre erudição e escassa inteligência, não me atreveria a dizer nada em assuntos de tanta importância e entre juízes tão qualificados. A Erasmo sempre o louvo, e o defendo ante todos os que deliberadamente odeiam a Escritura Sagrada, ou a desconhecem por ignorância,[3] mas, intencionalmente me guardo de vomitar no que discordo dele para não alimentar a inveja que eles têm, e apesar disto que vejam em Erasmo muitas coisas que me parecem tão pouco imprudentes para chegar ao conhecimento de Cristo. Tudo isto, está claro, falando como um teólogo, e não como um gramático; porque, de outra forma, o próprio Jerônimo, tão celebrado por Erasmo, não encontraria nada mais erudito e inteligente que isto.
Você sabe que violará o sagrado da amizade se comunicar a alguém a minha opinião sobre Erasmo. Não te digo isto em vão. Bem sabe que há muitos que deliberadamente andam a caça de motivos para caluniar aos bons eruditos. Permaneça em segredo o que disse. E ainda mais: não me faças caso, até que você mesmo não tenha se convencido disto pela leitura.
Não obstante, se te empenha em saber do meu programa de erudito, eu confiarei por completo a você um grupo de amigos íntimos, mas sob a condição de que não me sigas, a não ser criteriosamente. A primeira coisa que você tem que ter presente é a certeza indestrutível de que a Escritura Sagrada é impossível penetrá-la baseado no estudo e inteligência. Portanto, teu primeiro empenho será o começar pela oração; mas, uma oração em que peça para que a mais pura misericórdia te conceda a inteligência da sua palavra, e que se agrade de te usar para a sua glória, não para a tua, nem para a de nenhum humano. Nenhum mestre das palavras divinas poderá ser o melhor do que seu próprio autor, de acordo com o que disse: “todos serão ensinados por Deus.”[4] Portanto, convém sobremaneira que você se desespere com todas as suas forças e de toda a tua inteligência e confie unicamente na ação do Espírito. Atente a quem te diz por experiência própria.
Baseado neste humilde desespero, depois leia a Bíblia em ordem, desde o princípio até o fim, para que aprendas primeiro e de memória a narração livre (o que imagino que terá feito). Para isto será muito proveitoso são Jerônimo em suas Cartas e Comentários, mas para chegar ao conhecimento de Cristo e da graça – ou seja, para penetrar na inteligência mais secreta do espírito – parecem-me muito mais coerentes que santo Agostinho e Ambrósio, porque a percepção de que são Jerônimo “originou” (ou seja, alegorizou) demasiadamente.[5] Digo isto, mas deixo o a juízo de Erasmo, pois, não me pediu a opinião de Erasmo, e sim a minha.
Se lhe agrada o meu método começará pela leitura de Do espírito e da letra de santo Agostinho, obra que o nosso Karlstadt,[6] homem de incomparáveis conhecimentos, explicou e editou com admiráveis comentários. Leis depois o livro Contra Juliano e Contra as cartas dos pelagianos. Também acrescente Da vocação de todas as nações de são Ambrósio, se bem que pelo estilo, pela inteligência e pela cronologia deva ser atribuído a outro autor; todavia, está cheio de erudição. Deixe os demais para depois, se é que resultarem de teu agrado o que indiquei a você. E perdoe-me a temeridade de atrever-me antepor em assunto tão árduo o meu sistema ao de outros de tanto peso.
Por fim, renunciarei da Apologia de Erasmo, mas me afeta veementemente o duelo que desencadeou entre dois príncipes das letras.[7] Erasmo está muito acima de todos, e é o que melhor se expressa, mas também é o mais amargo apesar de seus esforços por conservar a amizade.
Adeus meu Spalatino. Em nosso monastério, dia de santa Prisca, quando recebi a sua carta, 1518. Fr. Martinus Eleutherius. O P. Staupitz anda por Munich, em Baviera; e de lá acaba de escrever-me.
NOTAS:
[1] WA Br 1, 133-134. Do valor doutrinário desta carta deu testemunho o próprio destinatário com a nota marginal que lhe pôs: “1518. Introductio in theologiam”.
[2] WA Br 1, pp. 70-71. Spalatino (Georg Burckhardt, de Spalt) da mesma geração que Lutero. Ele viveu entre 1484-1545, realizou um papel decisivo no início da Reforma devido a sua posição na corte de Frederico, o Sábio da Saxônia, de quem era chanceler e pregador. Foi o mediador entre o príncipe e Lutero, que como humanista, soube frear certas exageros do reformador que escreveu um numeroso corpo de cartas. Cf. I. Hüss, Georg Spalatin, Weimar 1956; Id., Georg Spaltins Verhâltins zu Luther und der Reformation: Luther 31 (1960), pp. 67-80. Nota de Teófanes Egido.
[3] Alude aos escolásticos, tão maltratados pelos humanistas e o reformador, numa das poucas coisas em que estavam de acordo. Nota de Teófanes Egido. Erasmo criticando os teólogos escolásticos declara que “arrogam-se insolentemente o direito de definir e discutir verdades incompreensíveis, profanando assim a majestade da teologia com as palavras e sentenças mais insulsas e triviais. No entanto, esses insignificantes faladores envaidecem-se com sua vazia erudição e experimentam tanto prazer em ocupar-se dia e noite com essas suavíssimas nênias que nem tempo lhe sobre para ler ao menos uma vez o Evangelho e as cartas de são Paulo.” Erasmo Rotterdam, Elogio da loucura (São Paulo, Editora Martin Claret, 2002), p. 82. Igualmente Lutero declara o seu rompimento formal com os escolásticos em sua Disputatio contra scholasticam theologiam. Martinho Lutero, “Debate sobre a Teologia Escolástica” in: Obras Selecionadas – Os primórdios escritos de 1517-1519 (São Leopoldo, Editora Sinodal & Concórdia Editora, 1987), vol. 1, pp. 13-20. Nota do tradutor.
[4] Jo 6:45.
[5] Lutero está fazendo menção a Orígenes, conhecido pelo seu método alegórico, segundo a Escola de Alexandria. Nota do tradutor.
[6] Karlstadt (Andreas Rudolf Karlstadt, 1480-1541). A opinião de Lutero é dos primeiros anos, quando Karlstadt era seu defensor sem restrições. Depois, por interpretações pessoais da Escritura, distanciou-se de Lutero na doutrina e nas práticas eucarísticas, sobressaindo-lhe, chegando a posturas sócio-religiosas “iluminadas”. Terminou como um dos personagens mais odiados por Lutero, sobretudo desde 1523. Cf. E. Hertzsch, Karlstadt und seine Bedeutung für das Luthertum, Gotha 1932.
[7] Refere-se a Apologia contra L. d’Etaples, editada em 1517, e a controvérsia entre ambos a propósito de determinados problemas da carta aos Hebreus.
Traduzido de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 374-376.
Tradução com introdução e notas em 22 de Fevereiro de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
sexta-feira, 21 de março de 2014
Carta de Martinho Lutero a George Spalatino [1516]
19 de Outubro de 1516.[1]
A George Spalatino, servo de Cristo e sacerdote do Senhor, eruditíssimo mestre, seu amigo sincero e íntegro irmão.
Jesus. Saudações. O que me estranho no eruditíssimo Erasmo, querido Spalatino, é o seguinte: que ao interpretar o apóstolo entenda a justiça das obras, da lei ou própria (que assim a chama o apóstolo) como a observância das práticas cerimoniais e defenda, além disso, que no capítulo quinto aos Romanos, o apóstolo não intencionou referir-se ao pecado original (que ele, noutra parte, admite). Se ler os livros que Agostinho escreveu aos pelagianos, e em especial Do espírito e da letra, Do mérito e a remissão dos pecados, Contra as cartas dos pelagianos e Contra Juliano, inclusos em quase a sua totalidade no oitavo volume de suas Obras,[2] perceberia de que não fala a sua opinião pessoal, mas apoiado em pais de tanta importância como Cipriano, Nacianceno, Rético, Ireneu, Hilário, Olímpio, Inocêncio e Ambrósio. Se fizesse corretamente entender o que disse o apóstolo, teria em Agostinho um maior apreço do que até agora manifesta.
Estou certo de que meu dissentimento com Erasmo procede de que no momento de interpretar as Sagradas Escrituras prefiro seguir a Agostinho que a Jerônimo, na mesma medida em que ele prefere a Jerônimo que a Agostinho.[3] Não que eu me deixe levar por predileções de minha confissão religiosa quando intento revalidar a Santo Agostinho; é que percebo que São Jerônimo busca deliberadamente o sentido histórico e – o mais admirável – que interpreta muito melhor as Escrituras quando o faz de forma incidental (por exemplo, nas Cartas) do que quando o quer fazer exaustivamente, como nos Opúsculos.
A justiça da lei ou das obras não se encontra somente nas práticas, mas também, e mais exatamente, nas obras de todo o decálogo; porque se observar fora da fé em Cristo, ainda que sejam capazes de fabricar Fabrícios, Régulos e homens de integralíssimos, ainda assim saberiam tanto da justiça como a sorbus[4] sabe de figos. Discordando de Aristóteles, não é realizando coisas justas que nos justificamos – a não ser que se trate de uma simulação – mas que justificando-nos (por assim dizer) e, sendo justos é como realizaremos a justiça. É necessário que se transforme primeiro a pessoa e depois se transformarão as obras. Agrada Abel antes que sua oferta. Mas deixemos isto par outra ocasião.
Rogo-te que portes como amigo e cristão e faças saber isto a Erasmo.[5] Porque o mesmo que espero e desejo que sua autoridade chegue a ser celebérrima, temo que muitos se escudem em seu patrocínio para defender a interpretação literal, que equivale dizer morta, da que estão repletos os Comentários de Lira, e quase todos os posteriores a Agostinho.[6] Até mesmo Estapulense, meu Deus, tão espiritual e tão sincero por outra lado, na interpretação da Sagrada Escritura lhe falta inteligência que tem tão presente em sua vida e em seus conselhos.[7]
Terá um sentimento temerário ao ver que passo sob a vara de Aristarco[8] a homens tão eminentes, mas saberá que o faço pelo motivo teológico e pela salvação do irmãos.
Adeus, meu querido Spalatino, e rogue por mim. Escrevo para você às pressas, do interior de nosso monastério, no dia seguinte à festa de são Lucas. 1516.[9]
Fr. Martinus Luther, agostiniano.
NOTAS:
[1] WA Br 1, pp. 70-71. Spalatino (Georg Burckhardt, de Spalt) da mesma geração que Lutero. Ele viveu entre 1484-1545, realizou um papel decisivo no início da Reforma devido a sua posição na corte de Frederico, o Sábio da Saxônia, de quem era chanceler e pregador. Foi o mediador entre o príncipe e Lutero, que como humanista, soube frear certas exageros do reformador que escreveu um numeroso corpo de cartas. Cf. I. Hüss, Georg Spalatin, Weimar 1956; Id., Georg Spaltins Verhâltins zu Luther und der Reformation: Luther 31 (1960), pp. 67-80. Nota de Teófanes Egido.
[2] Se refere à edição das obras de São Agostinho de Basiléia, 1506. Nota de Teófanes Egido.
[3] Sobre o apreço de Erasmo com São Jerônimo – coincidentemente com as predileções de todos os humanistas – cf. sua própria confissão a Leão X, em 1515 (Opus epistolarum D. Erasmi II, edic. P.S. Allen, Oxford 1906, pp. 86 e 220). Nota de Teófanes Egido.
[4] É a planta que produz os frutos utilizados para fazer a vodca russa. Nota do tradutor.
[5] Spalatino também mediou entre os humanistas e Lutero, cumprindo fielmente o cargo e na carta que escreveu a Erasmo lhe repete estes conceitos (cf. Opus epistolarum, 417). Nota de Teófanes Egido.
[6] Refere-se a Nicolas Lira (1270-1340), que no início do século XIV escreveu Postillae perpetuae in vetus et novum testamentum, tendo grande aceitação e várias publicações em 1471-1472. Nota de Teófanes Egido.
[7] Lefévre d’Etaples (faleceu em 1536) foi patriarca do círculo humanista e reformista de Meaux, com algumas ideias semelhantes de Lutero. Continuou fiel à Igreja de Roma, mas alguns de seu circulo (por exemplo Farel) se tornariam em paladinos fervorosos da Reforma protestante. Cf. F. Hahn, Faber Stapulensis um Luther: Zeitschrift für Kirchengeschichite 57 (1938), pp. 356-432. Nota de Teófanes Egido.
[8] Aristarco de Samotracia foi gramático do século III, que para Lutero, Erasmo e os demais humanistas era o símbolo das atitudes críticas. Nota de Teófanes Egido.
[9]Teófanes Egido no prefácio da coletânea das “Cartas” de Lutero afirma que [nota do tradutor]:
Traduzido de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 373-374.
Tradução com introdução e notas em 20 de Fevereiro de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
A George Spalatino, servo de Cristo e sacerdote do Senhor, eruditíssimo mestre, seu amigo sincero e íntegro irmão.
Jesus. Saudações. O que me estranho no eruditíssimo Erasmo, querido Spalatino, é o seguinte: que ao interpretar o apóstolo entenda a justiça das obras, da lei ou própria (que assim a chama o apóstolo) como a observância das práticas cerimoniais e defenda, além disso, que no capítulo quinto aos Romanos, o apóstolo não intencionou referir-se ao pecado original (que ele, noutra parte, admite). Se ler os livros que Agostinho escreveu aos pelagianos, e em especial Do espírito e da letra, Do mérito e a remissão dos pecados, Contra as cartas dos pelagianos e Contra Juliano, inclusos em quase a sua totalidade no oitavo volume de suas Obras,[2] perceberia de que não fala a sua opinião pessoal, mas apoiado em pais de tanta importância como Cipriano, Nacianceno, Rético, Ireneu, Hilário, Olímpio, Inocêncio e Ambrósio. Se fizesse corretamente entender o que disse o apóstolo, teria em Agostinho um maior apreço do que até agora manifesta.
Estou certo de que meu dissentimento com Erasmo procede de que no momento de interpretar as Sagradas Escrituras prefiro seguir a Agostinho que a Jerônimo, na mesma medida em que ele prefere a Jerônimo que a Agostinho.[3] Não que eu me deixe levar por predileções de minha confissão religiosa quando intento revalidar a Santo Agostinho; é que percebo que São Jerônimo busca deliberadamente o sentido histórico e – o mais admirável – que interpreta muito melhor as Escrituras quando o faz de forma incidental (por exemplo, nas Cartas) do que quando o quer fazer exaustivamente, como nos Opúsculos.
A justiça da lei ou das obras não se encontra somente nas práticas, mas também, e mais exatamente, nas obras de todo o decálogo; porque se observar fora da fé em Cristo, ainda que sejam capazes de fabricar Fabrícios, Régulos e homens de integralíssimos, ainda assim saberiam tanto da justiça como a sorbus[4] sabe de figos. Discordando de Aristóteles, não é realizando coisas justas que nos justificamos – a não ser que se trate de uma simulação – mas que justificando-nos (por assim dizer) e, sendo justos é como realizaremos a justiça. É necessário que se transforme primeiro a pessoa e depois se transformarão as obras. Agrada Abel antes que sua oferta. Mas deixemos isto par outra ocasião.
Rogo-te que portes como amigo e cristão e faças saber isto a Erasmo.[5] Porque o mesmo que espero e desejo que sua autoridade chegue a ser celebérrima, temo que muitos se escudem em seu patrocínio para defender a interpretação literal, que equivale dizer morta, da que estão repletos os Comentários de Lira, e quase todos os posteriores a Agostinho.[6] Até mesmo Estapulense, meu Deus, tão espiritual e tão sincero por outra lado, na interpretação da Sagrada Escritura lhe falta inteligência que tem tão presente em sua vida e em seus conselhos.[7]
Terá um sentimento temerário ao ver que passo sob a vara de Aristarco[8] a homens tão eminentes, mas saberá que o faço pelo motivo teológico e pela salvação do irmãos.
Adeus, meu querido Spalatino, e rogue por mim. Escrevo para você às pressas, do interior de nosso monastério, no dia seguinte à festa de são Lucas. 1516.[9]
Fr. Martinus Luther, agostiniano.
NOTAS:
[1] WA Br 1, pp. 70-71. Spalatino (Georg Burckhardt, de Spalt) da mesma geração que Lutero. Ele viveu entre 1484-1545, realizou um papel decisivo no início da Reforma devido a sua posição na corte de Frederico, o Sábio da Saxônia, de quem era chanceler e pregador. Foi o mediador entre o príncipe e Lutero, que como humanista, soube frear certas exageros do reformador que escreveu um numeroso corpo de cartas. Cf. I. Hüss, Georg Spalatin, Weimar 1956; Id., Georg Spaltins Verhâltins zu Luther und der Reformation: Luther 31 (1960), pp. 67-80. Nota de Teófanes Egido.
[2] Se refere à edição das obras de São Agostinho de Basiléia, 1506. Nota de Teófanes Egido.
[3] Sobre o apreço de Erasmo com São Jerônimo – coincidentemente com as predileções de todos os humanistas – cf. sua própria confissão a Leão X, em 1515 (Opus epistolarum D. Erasmi II, edic. P.S. Allen, Oxford 1906, pp. 86 e 220). Nota de Teófanes Egido.
[4] É a planta que produz os frutos utilizados para fazer a vodca russa. Nota do tradutor.
[5] Spalatino também mediou entre os humanistas e Lutero, cumprindo fielmente o cargo e na carta que escreveu a Erasmo lhe repete estes conceitos (cf. Opus epistolarum, 417). Nota de Teófanes Egido.
[6] Refere-se a Nicolas Lira (1270-1340), que no início do século XIV escreveu Postillae perpetuae in vetus et novum testamentum, tendo grande aceitação e várias publicações em 1471-1472. Nota de Teófanes Egido.
[7] Lefévre d’Etaples (faleceu em 1536) foi patriarca do círculo humanista e reformista de Meaux, com algumas ideias semelhantes de Lutero. Continuou fiel à Igreja de Roma, mas alguns de seu circulo (por exemplo Farel) se tornariam em paladinos fervorosos da Reforma protestante. Cf. F. Hahn, Faber Stapulensis um Luther: Zeitschrift für Kirchengeschichite 57 (1938), pp. 356-432. Nota de Teófanes Egido.
[8] Aristarco de Samotracia foi gramático do século III, que para Lutero, Erasmo e os demais humanistas era o símbolo das atitudes críticas. Nota de Teófanes Egido.
[9]Teófanes Egido no prefácio da coletânea das “Cartas” de Lutero afirma que [nota do tradutor]:
Nem os escritos maiores, nem muitas vezes as suas obras ocasionais, são válidas para traçar os sentimentos, as reações, as preocupações profundas e as alegrias de Lutero. As cartas constituem o melhor instrumento para reconstruir a sua íntima biografia. Não apenas isso, como poderemos observar, pois algumas das cartas inclusas nesta edição são verdadeiramente programáticas ou possuem conteúdos básicos de sua teologia e do primeiro período da história do “protestantismo”.
O fato de que ser possível se reunir na edição crítica de Weimar o elevado número de aproximadamente 4500 cartas, indica o que na realidade deveria ser a atividade epistolar de Lutero, sendo que, forçosamente, as que se perderam são em número mais do que as coletadas nestes 14 volumes da citada edição.
Procuramos oferecer amostras de todos os tons, cartas onde pontifica, anatematiza, onde se humilha diante de Erasmo, ou esbraveja contra ele, nas que expõe as suas convicções, as suas misérias, o convite da festa de casamento, ou, na que salta de ternura diante do seu filho, as cheias de sentimento por sua Cate e as formosas antologias da série de Coburgo. Esperamos que o esforço de selecionar corresponda a nossa intencionalidade.
As edições das Cartas de Lutero que usamos de base foram as seguintes. As publicadas pela edição Walch (volume 21 da primeira, 21a e 21b da segunda) da metade do século XVIII. A coleção de M. de Vette – J.R. Seidemann, Luthers Briefe, Berlim 1825-1828, 1856. A mais completa de L. Enders – G. Kawerau, Dr. Martin Luthers Briefwechsel, Berlim, 19 volumes, Frankfurt-Stuttgart-Leipzig 1884-1907, 1932 (incorporadas na edição Erlangen). Todas as cartas consultadas foram revisadas à luz das informações da edição crítica de Weimar, Briefwechsel, 14 volumes, 1930-1970. Nos servimos também, para aclarar muitos detalhes, das correções de H. Rückert, Luthers Briefe, Berlim 1966 (volume 6 da edição de CI), assim como LW 48-50 e Lab 8.
Para evitar reiterações e facilitar as citações, somente ofereceremos a referência obrigada do lugar correspondente a cada carta na clássica e, por agora, definitiva edição Weimar.
Traduzido de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 373-374.
Tradução com introdução e notas em 20 de Fevereiro de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
quinta-feira, 20 de março de 2014
Carta de Martinho Lutero a Johannes Staupitz [1521]
Ao reverendo e excelentíssimo Johannes Staupitz, mestre na sagrada teologia, agostiniano ermitão, seu primogênito no Senhor.[1]
Saudações.
Admira-me que as minhas cartas e meus livros não tenham chegado ainda às tuas mãos, como deduzo de ti. Pregando aos demais, estou desqualificando a mim mesmo,[2] que até tal extremo me aliena o trato com os humanos. Porque te adjunto poderás ter uma ideia do espírito com que trato a Palavra de Deus. Nada se fez ainda em Worms contra mim, considerando que os papistas andam maquinando desígnios perniciosos com invejável furor. Spalatino escreveu-me dizendo que o evangelho goza ali de grande aceitação, que espera que não me condenem sem antes escutarem e serem convencidos.
Em Leipzig, sem nenhum tipo de inibição, Emser escreveu contra mim acusações que são coletâneas de mentiras desde o princípio até o fim. Percebo que preciso dar uma resposta a este monstruoso projeto do duque George, que é quem nutre a loucura do autor.[3]
Não me incomoda a notícia de que Leão X[4] também se voltou contra ti. Desta sorte, poderás erigir para exemplo do mundo a cruz que tanto pregaste. Não gostaria que o lobo se contentasse com tua resposta na que lhe concedes mais do que é justo; o interpretará como se renegasses de mim e de tudo o que é meu, ao declarar que te vem a submeter a seu juízo. Por isso, se Cristo te ama, te obrigará a reconvocação deste escrito, sendo que nessa bula se condenou tudo o que ensinas e aprazes. Como nada disto te és desconhecido, parece-me que ofendes a Cristo, pois aceitas como juiz aquele que é um furioso inimigo de Cristo, a quem se desenfreia contra a palavra da graça. Terias que afirmar isto, e repreendê-lo por esta impiedade. Que não é motivo para andar com medo, senão que deves responder, neste tempo em que nosso Senhor Jesus Cristo se vê condenado, despojado e blasfemado. Na mesma medida em que me exortas à humildade, eu exorto a tua soberba; tua humildade é tão excessiva, como excessiva é minha soberba.
Mas, a situação é séria. Vemos que Cristo está sofrendo. Se antes foi preciso calar, agora, quando o próprio boníssimo Salvador que se entregou a si mesmo por nós, padecendo ignomínia por todo o mundo, não lutaremos por ele, não ariscaremos o nosso pescoço? Meu pai, que é muito mais grave o perigo do que muitos pensam; começa a entrar no vigor do evangelho: “o que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu pai, mas me envergonharei do que de mim se envergonhar.”[5]
Que pensem que eu seja soberbo, avarento, adúltero, homicida, contra o Papa e réu de todos os vícios, com tanto que não podem arguir de calar impiamente enquanto o Senhor sofre e diz: “não há escapatória para mim; não há quem cuide de meu espírito; olhava a minha direita e ninguém me reconhecia.”[6] Tenho a confiança de que esta confissão me perdoará todos os meus pecados. Que por este motivo lancei confiado contra esse ídolo e verdadeiro anticristo de Roma. A palavra de Cristo não é palavra de paz, senão que palavra de espada.[7] Entretanto, o que direi, “miserável eu sou, Minerva?”.[8]
Estas coisas escrevo a ti, em confiança, porque muito temo que te coloques como mediador entre Cristo e o Papa, e que vejas o quão violentamente contrário eles são entre si. Roguemos para que o Senhor Jesus com o sopro de sua boca destrua sem tardar a este filho da perdição.[9] Se não queres vir após mim, deixe que eu marche e me retire. Não deixarei, pela graça de Deus, a tarefa de jogar na cara as atrocidades deste monstro.
De fato, que me enche de tristeza esta tua submissão, que me revela a um Staupitz tão diferente daquele pregador da graça e da cruz. Não teria sofrido se tivesses atuado desta forma antes da promulgação da bula e da ignomínia feita a Cristo.
Hutten e muitos outros escrevem com força a meu favor e estão preparando canções que farão pouca graça a esta Babilônia.[10] Nosso príncipe atua com tanta prudência e fidelidade como com constância. Por seu mandato o edito dessas declarações foram publicadas en latim e alemão.[11]
Saúda-te Felipe[12] e roga para que cresça o teu ânimo. Por favor, dê saudações ao médico Ludovico[13] que me escreveu com tanto conhecimento. Não tive tempo para responder-lhe, pois tenho só trabalhando para mim. Adeus no Senhor e ore por mim.
Wittenberg, Dia de santa Apolônia, 1521.[14]
Teu filho Martinus Lutherus.
NOTAS:
[1] Johannes Staupitz foi o tutor de Lutero e quem incentivou o futuro reformador aos estudos. Nesta carta Lutero reclama do silêncio de seu antigo mestre, em não comentar os livros que havia lhe enviado, nem se posicionar em relação ao movimento de reforma e das bula papal emitida. Nota do tradutor.
[2] 1 Co 9:27. Nota de Teófanes Egido.
[3] Veja a carta 6, nota 4. Nota de Teófanes Egido.
[4] Leão X, por meio do Arcebispo Matthew Lang de Salzburg, exigiu a Staupitz que declarasse como heréticas as doutrinas de seu súdito, Frei Martinho Lutero. Nota de Teófanes Egido.
[5] Mt 10:32; Lv 9:26. Nota de Teófanes Egido.
[6] Sl 142:5. Nota de Teófanes Egido.
[7] Mt 10:34. Nota de Teófanes Egido.
[8] Ditado por Erasmo, Adagia I, 1, 40. Nota de Teófanes Egido.
[9] 2 Ts 2:3 e 8. Nota de Teófanes Egido.
[10] É interessante observar a influência da opinião pública nesta fase da Reforma (ver carta 6, nota 8).
[11] Assertio omnium articulorum M. Lutheri per bullam Leonis X novissimam, damnatorum: WA 7, 94-151.
[12] Felipe Melanchthon (ver carta 9, nota 1). Nota de Teófanes Egido.
[13] Equivocadamente chama de Ludovico, o médico do arcebispo de Salzburg, cujo verdadeiro nome era Leonard Schmaus. Nota de Teófanes Egido.
[14] Data equivale a 9 de Fevereiro de 1521. Nota do tradutor.
Esta carta foi originalmente traduzida para o espanhol da versão revisada à luz dos dados da edição crítica de Weimar (Briefwechsel 1930 1970, WA Br 2, 263-264), em 14 volumes. Traduzido de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 381-383.
Tradução com introdução e notas em 13 de Fevereiro de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
Saudações.
Admira-me que as minhas cartas e meus livros não tenham chegado ainda às tuas mãos, como deduzo de ti. Pregando aos demais, estou desqualificando a mim mesmo,[2] que até tal extremo me aliena o trato com os humanos. Porque te adjunto poderás ter uma ideia do espírito com que trato a Palavra de Deus. Nada se fez ainda em Worms contra mim, considerando que os papistas andam maquinando desígnios perniciosos com invejável furor. Spalatino escreveu-me dizendo que o evangelho goza ali de grande aceitação, que espera que não me condenem sem antes escutarem e serem convencidos.
Em Leipzig, sem nenhum tipo de inibição, Emser escreveu contra mim acusações que são coletâneas de mentiras desde o princípio até o fim. Percebo que preciso dar uma resposta a este monstruoso projeto do duque George, que é quem nutre a loucura do autor.[3]
Não me incomoda a notícia de que Leão X[4] também se voltou contra ti. Desta sorte, poderás erigir para exemplo do mundo a cruz que tanto pregaste. Não gostaria que o lobo se contentasse com tua resposta na que lhe concedes mais do que é justo; o interpretará como se renegasses de mim e de tudo o que é meu, ao declarar que te vem a submeter a seu juízo. Por isso, se Cristo te ama, te obrigará a reconvocação deste escrito, sendo que nessa bula se condenou tudo o que ensinas e aprazes. Como nada disto te és desconhecido, parece-me que ofendes a Cristo, pois aceitas como juiz aquele que é um furioso inimigo de Cristo, a quem se desenfreia contra a palavra da graça. Terias que afirmar isto, e repreendê-lo por esta impiedade. Que não é motivo para andar com medo, senão que deves responder, neste tempo em que nosso Senhor Jesus Cristo se vê condenado, despojado e blasfemado. Na mesma medida em que me exortas à humildade, eu exorto a tua soberba; tua humildade é tão excessiva, como excessiva é minha soberba.
Mas, a situação é séria. Vemos que Cristo está sofrendo. Se antes foi preciso calar, agora, quando o próprio boníssimo Salvador que se entregou a si mesmo por nós, padecendo ignomínia por todo o mundo, não lutaremos por ele, não ariscaremos o nosso pescoço? Meu pai, que é muito mais grave o perigo do que muitos pensam; começa a entrar no vigor do evangelho: “o que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu pai, mas me envergonharei do que de mim se envergonhar.”[5]
Que pensem que eu seja soberbo, avarento, adúltero, homicida, contra o Papa e réu de todos os vícios, com tanto que não podem arguir de calar impiamente enquanto o Senhor sofre e diz: “não há escapatória para mim; não há quem cuide de meu espírito; olhava a minha direita e ninguém me reconhecia.”[6] Tenho a confiança de que esta confissão me perdoará todos os meus pecados. Que por este motivo lancei confiado contra esse ídolo e verdadeiro anticristo de Roma. A palavra de Cristo não é palavra de paz, senão que palavra de espada.[7] Entretanto, o que direi, “miserável eu sou, Minerva?”.[8]
Estas coisas escrevo a ti, em confiança, porque muito temo que te coloques como mediador entre Cristo e o Papa, e que vejas o quão violentamente contrário eles são entre si. Roguemos para que o Senhor Jesus com o sopro de sua boca destrua sem tardar a este filho da perdição.[9] Se não queres vir após mim, deixe que eu marche e me retire. Não deixarei, pela graça de Deus, a tarefa de jogar na cara as atrocidades deste monstro.
De fato, que me enche de tristeza esta tua submissão, que me revela a um Staupitz tão diferente daquele pregador da graça e da cruz. Não teria sofrido se tivesses atuado desta forma antes da promulgação da bula e da ignomínia feita a Cristo.
Hutten e muitos outros escrevem com força a meu favor e estão preparando canções que farão pouca graça a esta Babilônia.[10] Nosso príncipe atua com tanta prudência e fidelidade como com constância. Por seu mandato o edito dessas declarações foram publicadas en latim e alemão.[11]
Saúda-te Felipe[12] e roga para que cresça o teu ânimo. Por favor, dê saudações ao médico Ludovico[13] que me escreveu com tanto conhecimento. Não tive tempo para responder-lhe, pois tenho só trabalhando para mim. Adeus no Senhor e ore por mim.
Wittenberg, Dia de santa Apolônia, 1521.[14]
Teu filho Martinus Lutherus.
NOTAS:
[1] Johannes Staupitz foi o tutor de Lutero e quem incentivou o futuro reformador aos estudos. Nesta carta Lutero reclama do silêncio de seu antigo mestre, em não comentar os livros que havia lhe enviado, nem se posicionar em relação ao movimento de reforma e das bula papal emitida. Nota do tradutor.
[2] 1 Co 9:27. Nota de Teófanes Egido.
[3] Veja a carta 6, nota 4. Nota de Teófanes Egido.
[4] Leão X, por meio do Arcebispo Matthew Lang de Salzburg, exigiu a Staupitz que declarasse como heréticas as doutrinas de seu súdito, Frei Martinho Lutero. Nota de Teófanes Egido.
[5] Mt 10:32; Lv 9:26. Nota de Teófanes Egido.
[6] Sl 142:5. Nota de Teófanes Egido.
[7] Mt 10:34. Nota de Teófanes Egido.
[8] Ditado por Erasmo, Adagia I, 1, 40. Nota de Teófanes Egido.
[9] 2 Ts 2:3 e 8. Nota de Teófanes Egido.
[10] É interessante observar a influência da opinião pública nesta fase da Reforma (ver carta 6, nota 8).
[11] Assertio omnium articulorum M. Lutheri per bullam Leonis X novissimam, damnatorum: WA 7, 94-151.
[12] Felipe Melanchthon (ver carta 9, nota 1). Nota de Teófanes Egido.
[13] Equivocadamente chama de Ludovico, o médico do arcebispo de Salzburg, cujo verdadeiro nome era Leonard Schmaus. Nota de Teófanes Egido.
[14] Data equivale a 9 de Fevereiro de 1521. Nota do tradutor.
Esta carta foi originalmente traduzida para o espanhol da versão revisada à luz dos dados da edição crítica de Weimar (Briefwechsel 1930 1970, WA Br 2, 263-264), em 14 volumes. Traduzido de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 381-383.
Tradução com introdução e notas em 13 de Fevereiro de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
terça-feira, 18 de março de 2014
Carta de Martinho Lutero a George Spalatino [1525]
A Spalatino. Em 16 de Junho de 1525.
A George Spalatino, servo de Deus, seu irmão em Cristo.
Graça e paz. Meu querido Spalatino, com Catarina von Bora tapei a boca aos que me difamam. Se lhe for conveniente preparar um banquete em testemunho deste meu matrimônio, será proveitoso que não somente esteja presente, mas também cooperes, se houver necessidade de carne. Entretanto, dá-nos tua benção e interceda por nós.
Com esta boda tenho-me feito tão desprezível e depreciado, que tenho esperança de que os anjos do céu riam e chorem todos os demônios. Os sábios não conhecem o mundo, nem o bom e sábio amor de Deus e somente em mim veem como um ímpio e diabólico. O melhor de tudo é que com este matrimônio se condena a incomodada opinião de todos quantos se empenham em continuar ignorando a Deus.
Adeus e rogue por mim.
Wittenberg, sexta-feira após o dia da Trindade, 1525.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), p. 401.
Tradução com introdução e notas em 17 de Março de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
A George Spalatino, servo de Deus, seu irmão em Cristo.
Graça e paz. Meu querido Spalatino, com Catarina von Bora tapei a boca aos que me difamam. Se lhe for conveniente preparar um banquete em testemunho deste meu matrimônio, será proveitoso que não somente esteja presente, mas também cooperes, se houver necessidade de carne. Entretanto, dá-nos tua benção e interceda por nós.
Com esta boda tenho-me feito tão desprezível e depreciado, que tenho esperança de que os anjos do céu riam e chorem todos os demônios. Os sábios não conhecem o mundo, nem o bom e sábio amor de Deus e somente em mim veem como um ímpio e diabólico. O melhor de tudo é que com este matrimônio se condena a incomodada opinião de todos quantos se empenham em continuar ignorando a Deus.
Adeus e rogue por mim.
Wittenberg, sexta-feira após o dia da Trindade, 1525.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), p. 401.
Tradução com introdução e notas em 17 de Março de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
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