(1)
Até agora Deus foi considerado em si mesmo. Agora ele também precisa ser considerado em suas obras.
1. Isto inclui tanto as obras essenciais como as pessoais.
2. As obras essenciais são aquelas que são realizadas por toda a Santíssima Trindade operando como sendo apenas um Ser.
3. As obras pessoais são aquelas que são peculiares a uma pessoa em particular.
4. Tanto as obras essenciais como as pessoais incluem aquilo que afeta Deus somente [ad intra] e aqueles efeitos são percebidos fora de Deus [ad extra].
5. A primeira espécie não tem outro objeto [terminus] além de Deus. [A esta espécie pertencem] tais assuntos como a inteligência pela qual Deus conhece a si mesmo, a geração do Filho e a procedência do Espírito Santo.
6. As obras da segunda espécie têm alguns outros objetos além da Santíssima Trindade. Tais como a predestinação, criação e coisas semelhantes que concernem às criaturas como objetos externos a Deus.
PROPOSIÇÕES
I. A mesma obra externa é tanto pessoal como essencial de diferentes pontos de vista. Assim, a encarnação de Cristo, em seu aspecto eterno [inaugurativo] é uma obra essencial, comum à toda a Trindade; em seu aspecto histórico [consumativo] ela é uma obra pessoal apenas do Filho. Embora o Pai e o Espírito sejam causas da encarnação, somente o Filho tornou-se encarnado. Do mesmo modo, embora a criação, redenção e santificação são obras de toda a Santíssima Trindade, todavia, de um ponto de vista, elas podem ser chamadas de pessoais. O Pai é chamado criador, porque ele é, como era a origem [fons] da operação da Trindade, e o Filho e Espírito Santo agem pelo Pai. O Filho é chamado redentor, porque ele consumou a obra da redenção assumindo a natureza humana. O Espírito Santo é chamado santificador, porque ele é enviado pelo Cristo como um confortador e santificador.
II. As obras externas são indivisíveis ou comuns a todas as pessoas. Desta proposição segue do que foi declarado acima; uma vez que a essência é comum a todas as pessoas, as obras essenciais também precisam ser comuns a todos os três.
III. Toda obra específica sempre preserva o mesmo princípio essencial, causa eficiente e efeito.
(2)
1. As obras de Deus que tem a sua realização fora dele são tanto imanente e interna, como exposta e externa. As obras imanentes e internas de Deus são aquelas que recebem lugar dentro de sua divina essência, e deste modo são os decretos de Deus.
PROPOSIÇÕES
I. Nem todas as obras cujo objeto é fora de Deus [ad extra] é uma obra externa. Um decreto de Deus é ad extra naquilo que se refere à criatura ou alguma coisa além de Deus, mas ela é interna naquilo que ela permanece em toda a essência de Deus.
II. As obras imanentes e internas de Deus são as realidades [res] não diferem da essência de Deus. Tudo o que estiver em Deus é Deus, como apresentamos acima como uma consequência da simplicidade da essência divina; e como essência e ser [essentia et esse] não são diferentes em Deus, assim, em sua vontade e o ato da vontade não são realidades [realiter] diferentes.
(3)
Um decreto é um ato interno da vontade divina, pelo qual ele determina, da eternidade, livremente, com absoluta certeza, aqueles assuntos que acontecerão no tempo.
PROPOSIÇÕES
I. Os decretos são chamados “o plano definitivo” (At 2:23), “a mão e plano de Deus” (At 4:28), “o beneplácito de Deus” (Ef 1:9), e a eterna providência de Deus. Eles são chamados de “eterna providência” em distinção da atual providência que não é outra senão que a execução dos decretos de Deus.
II. Eles também são chamados de vontade de Deus, e o que Deus intenta fazer [voluntas beneplaciti]. Na realidade, o decreto é a própria vontade de Deus; mas, para o propósito de ensino a vontade é tratada como a causa eficiente, e o decreto como o efeito. Outra nomenclatura acerca da vontade pode ser adotada para vários propósitos e várias distinções são feitas pelos teólogos; a distinção entre o que Deus intenta fazer e o que ele nos quer fazer [voluntas beneplaciti et signi], entre vontades antecedente e consequente, absoluta e condicional, oculta e revelada. Estas não são divisões reais, ou partes da vontade divina de Deus, pois de fato, ela é propriamente chamada àquilo que Deus intenta fazer [voluntas beneplaciti] porque pela sua completa liberdade e beneplácito, ele decretou tudo que acontecerá. O mesmo é “antecedente” porque ele existiu antes das coisas criadas, e foi contado com Deus desde a eternidade. Ele é chamado “absoluto” porque se baseia unicamente na boa vontade de Deus e não de nada no tempo, e finalmente, ele é chamado de “oculto” porque nem anjos, ou homens entendem-no sem auxílio [a priori]. Mas como está numa cantiga popular “Ele comanda e ele proíbe, permite, divide e completa” possa ser vagamente chamado pela designação da vontade divina. Assim como os editos de um magistrado são chamados de sua vontade, do mesmo modo a designação da vontade pode ser dada aos preceitos, proibições, promessas e bem como aos fatos e eventos. Assim, a divina vontade também é chamada daquilo que Deus quer fazer [voluntas signi], pois ela significa o que é aceitável a Deus; o que ele quer fazer a nosso favor. O decreto é chamado de “consequente” porque ele segue aquela vontade que antecede a eternidade; ele é “condicional” porque os mandamentos, proibições ou desobediência estão ligados a ele. Finalmente, ele é chamado de “revelado” porque é o modo explicado na palavra de Deus. É necessário observarmos que este espécie de discussão não postula outra realidade diversa, ou contraditória, como se fossem vontades de Deus.
III. Ao lado da vontade de Deus não há causas que podem ser contrárias a sua vontade. De fato, muitas coisas podem ser contrárias àquilo que Deus quer [voluntas signi], no entanto, elas se conformam ao plano divino [voluntas beneplaciti]. Deus não criou o pecado do homem, pelo contrário, mais estritamente ele o proibiu. Contudo, ao mesmo tempo ele o decretou de acordo com a esta vontade [beneplaciti] como um meio de revelar a sua glória.
IV. Tanto o bem como mal, entretanto, resultam do decreto e vontade de Deus; primeiro ele causa, e depois ele permite.
V. Contudo, o decreto e vontade de Deus não têm o mesmo sentido como causa do mal ou do pecado, embora tudo o que Deus decreta assume a posição de necessidade. Desde os males que são decretados, não efetivamente, mas permissivamente, o decreto de Deus não é a causa do mal. Nem são os decretos de Deus a causa do mal sobre a explicação da inevitabilidade de seu resultado, ou mesmo que eles conduzam os resultados não por uma necessidade coerciva, mas meramente por algo imutável.
VI. A inevitabilidade [necessitas] dos decretos de Deus não destrói a liberdade nas criaturas racionais. A razão é que a necessidade não é uma necessidade da coerção, mas da imutabilidade. Que a queda de Adão aconteceu pela necessidade com respeito a um decreto divino; todavia, Adão pecou livremente, nem ordenado, nem coagido, ou influenciado por Deus; de fato, ele teve a mais estrita advertência para não pecar.
VII. A inevitabilidade dos decretos de Deus não destrói a contingência das causas secundárias. Muitos eventos que acontecem pela necessidade com respeito aos planos de Deus são contingentes com as causas secundárias.
VIII. Não existe uma causa ativa [causa impulsiva] além da absolutamente livre vontade e prazer de Deus capaz de determinar os decretos divinos.
IX. O propósito [finis] dos divinos decretos é a glória de Deus.
X. Um decreto de Deus é singular e simples em si mesmo; nele não existe algo que seja anterior ou posterior.
XI. Com respeito a todas as coisas decretadas, deve ser especificado que na ordem em que ocorrem, Deus diz ter decretado quais deveriam ocorrer.
Tais questões como se Deus primeiro decretou isto ou aquilo, ou se ele decretou primeiro e o fim, ou os meios, são tolice. Desde que um decreto de Deus é em si mesmo um ato absolutamente simples, não há nela nem antecedente ou posterior; apenas com respeito às coisas decretadas podem ser especificadas. Com este entendimento podemos dizer que Deus decretou (1) criar o homem, (2) dar-lhe a sua imagem, mas de um modo que pudesse se perder, (3) permitir a queda, (4) e deixar alguns dos caídos entregues a si mesmos, mas eleger outros e preservá-los para a vida eterna.
Traduzido de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin (Grand Rapids, Baker Books, 1977).
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segunda-feira, 25 de maio de 2015
sábado, 14 de março de 2015
As Pessoas da Trindade
por Johannes Wollebius
(1)
As pessoas da divindade são subsistentes que possuem a completa essência de Deus, mas diferem pelas propriedades incomunicáveis.
PROPOSIÇÕES
I. A palavra “pessoa”, “Trindade”, e homoousion, não se encontram na Escritura, todavia, são consistentes com a Escritura, e são sabiamente usadas na igreja.
II. As palavras “hypostasis” e “hypostasized” são de significado amplo do que a palavra “pessoa” [persona]. Uma hypostasis é uma substância individual. Uma pessoa [persona] é uma substância pessoal racional completa, diferindo das outras por uma propriedade incomunicável. Mas o apóstolo (Hb 1:3) usou “hypostasis” para “pessoa” pela metalepsis.
III. Um pessoa da Trindade [persona divina] não é uma espécie de Deus, ou da Divindade ou parte dele, ou alguma coisa de Deus, ou modo, ou mero relacionamento, ou simplesmente um modo de existência, pelo contrário, a essência de Deus em um específico modo de existência.
IV. Uma pessoa da Trindade não é um composto de dois seres, nem é a essência de Deus e o modo de existência para ser considerado como duas entidades da mesma ordem [res et res], mas eles são realmente ou ser e o modo [modus] deste ser.
(2)
1. As pessoas da Divindade são três: Pai, Filho e Espírito Santo.
2. O Pai é a primeira pessoa da Trindade, auto-existente, gerando [gignens] o Filho desde a eternidade e com o Filho produzindo [producens] o Espírito Santo.
3. O Filho é a segunda pessoa, gerado pelo Pai desde a eternidade, e com o Pai produzindo o Espírito Santo.
4. O Espírito Santo é a terceira procedendo desde a eternidade do Pai e do Filho.
PROPOSIÇÕES
I. A Trindade não é um processo, mas um completo estado do ser [non numerus numerans, sed numeratus].
II. O dogma da Trindade não é meramente uma tradição da igreja, mas um ensino proclamado na Escritura Sagrada. Isto é mantido contra os papistas, que a fim de afirmar a imperfeição da Escritura não se envergonham de defender o contrário.
III. Embora a doutrina da Santíssima Trindade este obscura no tempo do Antigo Testamento, ela não estava completamente desconhecida. Em Gn 1:1 diz “No princípio Deus criou os céus e a terra”; e o vs. 2 “O Espírito de Deus estava pairando sobre a face das águas”; e o vs. 26 “Façamos o homem”. O Sl 33:6 diz “Pela a palavra de Jehovah os céus se fizeram, e todas as hostes pelo Espírito de sua boca.”[1] Em 2 Sm 23:2 “o Espírito de Jehovah falou através de mim, e a sua palavra pela minha língua.” Em Is 6:3 diz “santo, santo, santo é Jehovah dos Exércitos.” Em Is 63:9 “O anjo de sua presença (isto é, Deus o Pai) salvou lhes.” Em Is 63:10 diz “Eles se rebelaram e entristeceram o seu Santo Espírito.” Estas testemunhas são suficientes para a mente cristã, embora eles aludem a teimosia dos judeus.
IV. Entretanto, há textos mais explícitos no Novo Testamento. Em Mt 3:16 diz “E, os céus estavam abertos para ele, e ele viu o Espírito de Deus descendo sobre ele.” E em Mt 3:17 está “e vendo, havia uma voz do céu que dizia: ‘este é o meu filho amado, em quem tenho prazer.’” Em Mt 28:19, “batize-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo.” Em Jo 14:16 “eu orarei ao Pai, e ele dará um outro consolador.” Jo 15:26 “quando o confortador vier, ele é quem enviaria você do Pai. Em 2 Co 13:14 diz “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vocês.” 1 Jo 5:8 diz “Há três pessoas que testificam no céu, o Pai, a Palavra e o Espírito Santo.”[2]
V. Para isto podem ser acrescentadas provas da divindade do Filho e do Espírito Santo a partir de seus nomes, seus atributos, suas obras e suas honras divinas. Assim, a deidade do Filho é provada por:
I. Os seus nomes divinos.
No Antigo Testamento o “Anjo da aliança” (Ml 3:1) que aparecia frequentemente aos pais como uma preparação para a encarnação, era o Filho de Deus, e é muitas vezes chamado de Jehovah e Deus (Gn 16:13, 18:1; 32:9, e também Os 12:4; Êx 3:15; Js 6:2; Zc 1:12 e 3:1-2).[3] No Novo Testamento o testemunho é muito mais simples. João 1:1 declara “a Palavra era Deus”. João 17:3 “esta é a vida eterna que eles conheçam a ti, o único verdadeiro Deus, e Jesus Cristo a quem tu enviaste.” João 20:31 “estes foram escritos, para que tu possa crer que Jesus é o Cristo, o filho de Deus.” Atos 20:28 “Deus redimiu a igreja com o seu próprio sangue.” Romanos 9:5 “Deus bendito para sempre.”[4] Tito 2:13 “aquele grande Deus.” Estas expressões são muito comuns em Apocalipse.
II. Os seus atributos divinos.
1. Eternidade. João 8:58 “antes de Abraão, eu sou.” Apocalipse 1:8 “eu sou o alfa e ômega, que é, e era, e ainda há de vir.”
2. Onisciência. João 2:24-25 “ele conhece todos os homens, e não necessita de que alguém lhe testemunho do que é o ser humano, pois ele conhece o que está no homem.”
3. Onipresença. Mateus 28:20 “eu estarei convosco até o fim dos tempos.”
4. Onipotência. João 5:19 “tudo o Pai faz, o Filho também faz.” Hebreus 1:3 “Ele sustenta todas as coisas pela sua palavra de poder.”
III. A sua divina obra. João 14:11 “crê que o Pai está em mim e, eu no Pai, ou também creia por causa da glória das mesmas obras.”
IV. Divina honra. As pessoas precisam crer nele (Jo 3:16). Em seu nome pessoas são batizadas (Mt 28:19). Em seu nome todo joelho se dobrará (Fp 2:10).
A deidade do Espírito Santo prova que:
I. O nome “Deus”. Atos 5:3-4 “Pedro lhe disse: ‘Ananias, porque Satanás encheu o seu coração, para que você mentisse ao Espírito Santo? Você não mentiu a homens, mas a Deus.”
II. Os seus atributos divinos.
1. Eternidade. Gênesis 1:2 “O Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.”
2. Onipresença. Salmo 139:7 “para onde fugirei de teu Espírito?”
3. Onisciência. 1 Corintians 2:10 “o Espírito busca todas as coisas, em todos os caminhos de Deus.”
4. Onipotência. Isto é óbvio pelas suas obras.
III. As suas obras divina.
1. A criação de todas as coisas (Gn 1:2; Sl 33:6; Jó 26:13; 38:4).
2. A preservação de todas as coisas. Gênesis 1:2 “Ele pairava sobre as águas” de modo semelhante a uma ave sobre os seus filhotes e deles cuida.
3. O seu envio e unção de Cristo. Isaías 61:1 “o Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele ungiu-me.”
4. Os dons de línguas e milagres. 1 Corintians 12:4 “vários dons, mas o mesmo Espírito.”
IV. A sua divina honra.
V. As pessoas creem nele de acordo com o credo. As pessoas precisam ser batizadas em seu nome (Mt 28:19). Orações são feitas por ele (2 Co 13:14; Ap 1:4; onde são chamados sete espíritos, não com respeito ao número, mas referindo-se aos seus dons, quando a antiga igreja cantava “Tu com sete dons”).[5]
VI. As diferenças entre as pessoas aparecem na posição, atributos e na maneira de operar. Na posição, o Pai é primeiro, o Filho em segundo e o Espírito Santo em terceiro. Nos atributos, o Pai existe por si mesmo, não somente considera a sua essência, mas também com respeito a sua pessoa. O Filho existe por meio do Pai; o Espírito Santo, pelo Pai e do Filho. No modo de operar, o Pai sempre age por si mesmo, o Filho pelo Pai, e o Espírito Santo por ambos.
VII. A Trindade de pessoas não destrói a unidade da essência: há três pessoas, mas um Deus. Deuteronômio 6:4 “ouve Israel, Jehovah nosso Deus é o único Jehovah.” 1 Coríntians 8:6 “pois conhecemos um Deus, o Pai de quem são todas as coisas, e a quem somos, e o único Senhor Jesus Cristo, através de quem todas as coisas, e nós existimos.” Efésios 4:6 “um Deus e Pai de todos.” 1 Timóteo 2:5 “há um Deus e único mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo.” 1 João 5:7 “e estes três são um.”
VIII. Entretanto, a palavra “Deus” pode ser usada tanto para toda a Santa Trindade, ou para uma específica pessoa desta Trindade. Em Atos 20:18 “Deus redimiu a igreja pelo seu próprio sangue”, a palavra “Deus” precisa ser entendida como sendo uma referência ao Filho.
IX. A unidade das três pessoas da Santa Trindade consiste de identidade de essência, igualdade e relação entre elas [circumcessio].
X. Identidade, ou unicidade da essência [omousía seu enousía] significa que as três pessoas são coessenciais, ou da mesma essência. Eles não são de essência semelhante [omoioúsioi], nem de diferentes essências [anómoioi], nem de diversas essências [eterousioi], nem são eles de indivíduos diferentes da mesma espécie [tautousioi, isto é, eiusdem essentiae specificae].
XI. Por igualdade de pessoas entende-se que as três pessoas da divindade são iguais em essência, atributos, ações essenciais, glória e honra. O Filho e o Espírito Santo são em si mesmos auto-existentes e justos tanto quanto o Pai.
XII. Por circumcessio entende-se que as pessoas são mais intimamente unidas, todavia, cada uma sempre mantém relação umas com as outras.[6]
NOTA:
[1] As versões AV a RSV “breath of his mouth”; Vulgata traduz: spiritus oris eius. Nota de John W. Beardslee III.
[2] A autenticidade deste verso tem sido questionada. O escolasticismo “ortodoxo” defende-o por todo aquele século. Veja Francis Turrentin, Disputatio de Tribus Testibus Coelestibus (texto não traduzido). Nota de John W. Beardslee III.
[3] Transcrevo as citações das Escrituras conforme Wollebius as fez. O leitor muitas vezes terá que ler uma longa porção da Bíblia, de modo que, possa ver o completo sentido da referência. Em cada caso o contexto inclui um “anjo” que pode ser considerado como não criado. Este anjo é “o Filho de Deus” que claramente oferece uma específica e tradicional dedução cristã. Veja Francis Turrentin, Compêndio de Teologia Apologética, Terceiro Tópico, Questões IV e VII. [publicado pela Editora Cultura Cristã]. Nota de John W. Beardslee III.
[4] Wollebius claramente aceita o tradicional entendimento desta passagem, diferenciando como termina na RSV. Nota de John W. Beardslee III.
[5] Do cântigo Veni Creator Spiritus. Nota de John W. Beardslee III.
[6] Para um breve esclarecimento sobre circumcessio, ou, da relação das pessoas da Trindade veja AQUI. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
Texto de John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin (Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp. 40-45.
Traduzido 14 de Março de 2015.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO
(1)
As pessoas da divindade são subsistentes que possuem a completa essência de Deus, mas diferem pelas propriedades incomunicáveis.
PROPOSIÇÕES
I. A palavra “pessoa”, “Trindade”, e homoousion, não se encontram na Escritura, todavia, são consistentes com a Escritura, e são sabiamente usadas na igreja.
II. As palavras “hypostasis” e “hypostasized” são de significado amplo do que a palavra “pessoa” [persona]. Uma hypostasis é uma substância individual. Uma pessoa [persona] é uma substância pessoal racional completa, diferindo das outras por uma propriedade incomunicável. Mas o apóstolo (Hb 1:3) usou “hypostasis” para “pessoa” pela metalepsis.
III. Um pessoa da Trindade [persona divina] não é uma espécie de Deus, ou da Divindade ou parte dele, ou alguma coisa de Deus, ou modo, ou mero relacionamento, ou simplesmente um modo de existência, pelo contrário, a essência de Deus em um específico modo de existência.
IV. Uma pessoa da Trindade não é um composto de dois seres, nem é a essência de Deus e o modo de existência para ser considerado como duas entidades da mesma ordem [res et res], mas eles são realmente ou ser e o modo [modus] deste ser.
(2)
1. As pessoas da Divindade são três: Pai, Filho e Espírito Santo.
2. O Pai é a primeira pessoa da Trindade, auto-existente, gerando [gignens] o Filho desde a eternidade e com o Filho produzindo [producens] o Espírito Santo.
3. O Filho é a segunda pessoa, gerado pelo Pai desde a eternidade, e com o Pai produzindo o Espírito Santo.
4. O Espírito Santo é a terceira procedendo desde a eternidade do Pai e do Filho.
PROPOSIÇÕES
I. A Trindade não é um processo, mas um completo estado do ser [non numerus numerans, sed numeratus].
II. O dogma da Trindade não é meramente uma tradição da igreja, mas um ensino proclamado na Escritura Sagrada. Isto é mantido contra os papistas, que a fim de afirmar a imperfeição da Escritura não se envergonham de defender o contrário.
III. Embora a doutrina da Santíssima Trindade este obscura no tempo do Antigo Testamento, ela não estava completamente desconhecida. Em Gn 1:1 diz “No princípio Deus criou os céus e a terra”; e o vs. 2 “O Espírito de Deus estava pairando sobre a face das águas”; e o vs. 26 “Façamos o homem”. O Sl 33:6 diz “Pela a palavra de Jehovah os céus se fizeram, e todas as hostes pelo Espírito de sua boca.”[1] Em 2 Sm 23:2 “o Espírito de Jehovah falou através de mim, e a sua palavra pela minha língua.” Em Is 6:3 diz “santo, santo, santo é Jehovah dos Exércitos.” Em Is 63:9 “O anjo de sua presença (isto é, Deus o Pai) salvou lhes.” Em Is 63:10 diz “Eles se rebelaram e entristeceram o seu Santo Espírito.” Estas testemunhas são suficientes para a mente cristã, embora eles aludem a teimosia dos judeus.
IV. Entretanto, há textos mais explícitos no Novo Testamento. Em Mt 3:16 diz “E, os céus estavam abertos para ele, e ele viu o Espírito de Deus descendo sobre ele.” E em Mt 3:17 está “e vendo, havia uma voz do céu que dizia: ‘este é o meu filho amado, em quem tenho prazer.’” Em Mt 28:19, “batize-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo.” Em Jo 14:16 “eu orarei ao Pai, e ele dará um outro consolador.” Jo 15:26 “quando o confortador vier, ele é quem enviaria você do Pai. Em 2 Co 13:14 diz “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vocês.” 1 Jo 5:8 diz “Há três pessoas que testificam no céu, o Pai, a Palavra e o Espírito Santo.”[2]
V. Para isto podem ser acrescentadas provas da divindade do Filho e do Espírito Santo a partir de seus nomes, seus atributos, suas obras e suas honras divinas. Assim, a deidade do Filho é provada por:
I. Os seus nomes divinos.
No Antigo Testamento o “Anjo da aliança” (Ml 3:1) que aparecia frequentemente aos pais como uma preparação para a encarnação, era o Filho de Deus, e é muitas vezes chamado de Jehovah e Deus (Gn 16:13, 18:1; 32:9, e também Os 12:4; Êx 3:15; Js 6:2; Zc 1:12 e 3:1-2).[3] No Novo Testamento o testemunho é muito mais simples. João 1:1 declara “a Palavra era Deus”. João 17:3 “esta é a vida eterna que eles conheçam a ti, o único verdadeiro Deus, e Jesus Cristo a quem tu enviaste.” João 20:31 “estes foram escritos, para que tu possa crer que Jesus é o Cristo, o filho de Deus.” Atos 20:28 “Deus redimiu a igreja com o seu próprio sangue.” Romanos 9:5 “Deus bendito para sempre.”[4] Tito 2:13 “aquele grande Deus.” Estas expressões são muito comuns em Apocalipse.
II. Os seus atributos divinos.
1. Eternidade. João 8:58 “antes de Abraão, eu sou.” Apocalipse 1:8 “eu sou o alfa e ômega, que é, e era, e ainda há de vir.”
2. Onisciência. João 2:24-25 “ele conhece todos os homens, e não necessita de que alguém lhe testemunho do que é o ser humano, pois ele conhece o que está no homem.”
3. Onipresença. Mateus 28:20 “eu estarei convosco até o fim dos tempos.”
4. Onipotência. João 5:19 “tudo o Pai faz, o Filho também faz.” Hebreus 1:3 “Ele sustenta todas as coisas pela sua palavra de poder.”
III. A sua divina obra. João 14:11 “crê que o Pai está em mim e, eu no Pai, ou também creia por causa da glória das mesmas obras.”
IV. Divina honra. As pessoas precisam crer nele (Jo 3:16). Em seu nome pessoas são batizadas (Mt 28:19). Em seu nome todo joelho se dobrará (Fp 2:10).
A deidade do Espírito Santo prova que:
I. O nome “Deus”. Atos 5:3-4 “Pedro lhe disse: ‘Ananias, porque Satanás encheu o seu coração, para que você mentisse ao Espírito Santo? Você não mentiu a homens, mas a Deus.”
II. Os seus atributos divinos.
1. Eternidade. Gênesis 1:2 “O Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.”
2. Onipresença. Salmo 139:7 “para onde fugirei de teu Espírito?”
3. Onisciência. 1 Corintians 2:10 “o Espírito busca todas as coisas, em todos os caminhos de Deus.”
4. Onipotência. Isto é óbvio pelas suas obras.
III. As suas obras divina.
1. A criação de todas as coisas (Gn 1:2; Sl 33:6; Jó 26:13; 38:4).
2. A preservação de todas as coisas. Gênesis 1:2 “Ele pairava sobre as águas” de modo semelhante a uma ave sobre os seus filhotes e deles cuida.
3. O seu envio e unção de Cristo. Isaías 61:1 “o Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele ungiu-me.”
4. Os dons de línguas e milagres. 1 Corintians 12:4 “vários dons, mas o mesmo Espírito.”
IV. A sua divina honra.
V. As pessoas creem nele de acordo com o credo. As pessoas precisam ser batizadas em seu nome (Mt 28:19). Orações são feitas por ele (2 Co 13:14; Ap 1:4; onde são chamados sete espíritos, não com respeito ao número, mas referindo-se aos seus dons, quando a antiga igreja cantava “Tu com sete dons”).[5]
VI. As diferenças entre as pessoas aparecem na posição, atributos e na maneira de operar. Na posição, o Pai é primeiro, o Filho em segundo e o Espírito Santo em terceiro. Nos atributos, o Pai existe por si mesmo, não somente considera a sua essência, mas também com respeito a sua pessoa. O Filho existe por meio do Pai; o Espírito Santo, pelo Pai e do Filho. No modo de operar, o Pai sempre age por si mesmo, o Filho pelo Pai, e o Espírito Santo por ambos.
VII. A Trindade de pessoas não destrói a unidade da essência: há três pessoas, mas um Deus. Deuteronômio 6:4 “ouve Israel, Jehovah nosso Deus é o único Jehovah.” 1 Coríntians 8:6 “pois conhecemos um Deus, o Pai de quem são todas as coisas, e a quem somos, e o único Senhor Jesus Cristo, através de quem todas as coisas, e nós existimos.” Efésios 4:6 “um Deus e Pai de todos.” 1 Timóteo 2:5 “há um Deus e único mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo.” 1 João 5:7 “e estes três são um.”
VIII. Entretanto, a palavra “Deus” pode ser usada tanto para toda a Santa Trindade, ou para uma específica pessoa desta Trindade. Em Atos 20:18 “Deus redimiu a igreja pelo seu próprio sangue”, a palavra “Deus” precisa ser entendida como sendo uma referência ao Filho.
IX. A unidade das três pessoas da Santa Trindade consiste de identidade de essência, igualdade e relação entre elas [circumcessio].
X. Identidade, ou unicidade da essência [omousía seu enousía] significa que as três pessoas são coessenciais, ou da mesma essência. Eles não são de essência semelhante [omoioúsioi], nem de diferentes essências [anómoioi], nem de diversas essências [eterousioi], nem são eles de indivíduos diferentes da mesma espécie [tautousioi, isto é, eiusdem essentiae specificae].
XI. Por igualdade de pessoas entende-se que as três pessoas da divindade são iguais em essência, atributos, ações essenciais, glória e honra. O Filho e o Espírito Santo são em si mesmos auto-existentes e justos tanto quanto o Pai.
XII. Por circumcessio entende-se que as pessoas são mais intimamente unidas, todavia, cada uma sempre mantém relação umas com as outras.[6]
NOTA:
[1] As versões AV a RSV “breath of his mouth”; Vulgata traduz: spiritus oris eius. Nota de John W. Beardslee III.
[2] A autenticidade deste verso tem sido questionada. O escolasticismo “ortodoxo” defende-o por todo aquele século. Veja Francis Turrentin, Disputatio de Tribus Testibus Coelestibus (texto não traduzido). Nota de John W. Beardslee III.
[3] Transcrevo as citações das Escrituras conforme Wollebius as fez. O leitor muitas vezes terá que ler uma longa porção da Bíblia, de modo que, possa ver o completo sentido da referência. Em cada caso o contexto inclui um “anjo” que pode ser considerado como não criado. Este anjo é “o Filho de Deus” que claramente oferece uma específica e tradicional dedução cristã. Veja Francis Turrentin, Compêndio de Teologia Apologética, Terceiro Tópico, Questões IV e VII. [publicado pela Editora Cultura Cristã]. Nota de John W. Beardslee III.
[4] Wollebius claramente aceita o tradicional entendimento desta passagem, diferenciando como termina na RSV. Nota de John W. Beardslee III.
[5] Do cântigo Veni Creator Spiritus. Nota de John W. Beardslee III.
[6] Para um breve esclarecimento sobre circumcessio, ou, da relação das pessoas da Trindade veja AQUI. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
Texto de John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin (Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp. 40-45.
Traduzido 14 de Março de 2015.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Carta de João Calvino a Lélio Socino [1551]
Você está equivocado no modo como expõe a impressão de que [Felipe] Melanchton[1] não concorda conosco a respeito da doutrina da predestinação.[2] Eu somente disse de forma breve que tinha uma carta escrita por sua própria mão, na qual ele confessou que sua opinião concordava com a minha. Contudo, posso crer que de tudo o que você disse, e que não é novidade sua equivocar-se neste assunto, o melhor é desfazer-se das enfadonhas dúvidas. Certamente não existe ninguém que tenha mais aversão ao paradoxo do que eu, e em sutilezas não encontro nenhum prazer. Contudo, nada poderia impedir-me de admitir abertamente o que tenho aprendido da Palavra de Deus; pois, nada além do que é proveitoso é ensinado na escola deste mestre. Ela é o meu único guia, e concordar com as suas evidentes doutrinas seria minha constante regra de sabedoria.[3]
O que você também, meu querido Lélio,[4] poderia aprender regular a sua capacidade com a mesma moderação! Você não tem motivos para esperar de mim uma réplica do mesmo modo como você levou adiante aquelas monstruosas questões. Se você está satisfeito pela incerteza entre aquelas tênues especulações, permita-me, eu lhe suplico, um humilde servo de Cristo, para que medite sobre aqueles assuntos que tendem para a edificação da minha fé. E, de fato, eu daqui em diante seguirei minha sabedoria em silêncio, que você possa não ser aborrecido por mim. E, na verdade, estou muito preocupado com os finos talentos com os quais Deus tem concedido a você, que poderiam ser ocupados não somente com coisas que são vãs e infrutíferas, mas que correm o risco de também ser prejudicados por imaginações perniciosas. Advirto você de continuar, e seriamente preciso repetir, que a menos que você corrija a tempo esta sarna após uma investigação, ela deverá ser temida, pois você trará sobre si mais severo sofrimento.
Eu seria cruel com você se tratasse do assunto com uma aparência de indulgência, o que creio ser um verdadeiro erro.[5] Preferiria, adequadamente, ofender-lhe um pouco no presente pela minha severidade, do que permiti-lo entregar-se incontrolado na cativante fascinação da curiosidade. O tempo virá, eu espero, quando você regozijará em ter sido tão violentamente admoestado. Adeus, irmão tão altamente estimado por mim; e se esta repreensão for demais áspera do que ela tem que ser, atribua-a ao meu amor por você.[6]
NOTAS:
[1] Nota do tradutor: numa carta anterior Socino acusou Felipe Melanchton de discordar de Calvino quanto à doutrina da predestinação. Inicialmente Melanchton defendia como Calvino a doutrina da predestinação, todavia, posteriormente a morte de Martinho Lutero ele modificou em muito a sua posição, tornando-a mais sinergista. Talvez, nesta época Socino já havia identificado esta mudança em Melanchton e usou a sua opinião para confrontar Calvino. Vide, Bengt Hägglund explica que “Melanchton passou a rejeitar a própria ideia da predestinação na forma em que a apresentara anteriormente” in: História da Teologia (São Leopoldo, Concórdia Editora, 1999), p. 214.
[2] Nota do tradutor: por causa do seu estreito relacionamento com Melanchton, Calvino prefaciou a primeira edição francesa de Loci Communes. Posteriormente, Calvino ao perceber a mudança sinergista que ocorreu com o colega luterano, lamentou este fato. Vide, Paul K. Jewett, Elección y Predestinación (Jenison, TELL, 1992), p. 28
[3] Nota do tradutor: Esta interação epistolar com Socino fez com que Calvino, quanto a doutrina do mérito de Cristo e da certeza da fé, incorporasse “estas respostas na edição de 1559 das Institutas, sem qualquer modificação significativa.” Alister McGrath, A vida de João Calvino (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2004), p. 63.
[4] Nota do tradutor: Lélio Socino [Laelius Socinus] - (1525-1562) precursor da seita herética unitarista conhecida por Socianismo que surgiu na segunda metade do século XVI e início do XVII. O historiador I. Breward nota que a “sua obra Confissão de Fé (1555), que usava termo ortodoxos, mas de maneira ilimitada e inquiridora, fez que alguns protestantes se sentissem desconfortáveis.” I. Breward, “Socino e Socinianismo” in: Sinclair Ferguson, ed., Novo Dicionário de Teologia (São Paulo, Editora Hagnos, 2009), p. 932. Lélio Socino esteve em Genebra em dois momentos diferentes, primeiro entre 1548, ou 1549, e noutro momento, em 1554. Philip Schaff, History of the Christian Church (Peabody, Hendrickson Publishers, 2011), vol. 8, pp. 634-635.
[5] Nota do tradutor: Servetus foi executado em 1553. Se Socino explicitasse as suas ideias, certamente teria um fim semelhante ao do unitarista espanhol. Mas Socino pela sua forma polidamente educada, levantando mais questões e dúvidas, do que fazendo asseverações confrontadoras, consegue esconder a sua verdadeira opinião sobre a doutrina da Trindade. A sua dissimulação teológica conseguiu que desfrutasse de uma amizade com Henrich Bullinger.
[6] Nota do tradutor: esta carta escrita por Calvino pertence aos últimos meses do ano de 1551. Lélio Socino estava residindo em Wittenberg, Alemanha. Calvino evidencia certa intolerância as insistentes dúvidas e cepticismo de Socino quanto às doutrinas da expiação vicária, dos sacramentos e Trindade.
Extraído de Letters of John Calvin: Select from the Bonnet Edition with an introductory biographical sketch (Edinburgh, The Banner of Truth Trust, 1980), pp. 128-129. Este livro foi publicado em português sob o título de Cartas de João Calvino (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2009).
Tradução e notas revisadas em 27 de Fevereiro de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO
O que você também, meu querido Lélio,[4] poderia aprender regular a sua capacidade com a mesma moderação! Você não tem motivos para esperar de mim uma réplica do mesmo modo como você levou adiante aquelas monstruosas questões. Se você está satisfeito pela incerteza entre aquelas tênues especulações, permita-me, eu lhe suplico, um humilde servo de Cristo, para que medite sobre aqueles assuntos que tendem para a edificação da minha fé. E, de fato, eu daqui em diante seguirei minha sabedoria em silêncio, que você possa não ser aborrecido por mim. E, na verdade, estou muito preocupado com os finos talentos com os quais Deus tem concedido a você, que poderiam ser ocupados não somente com coisas que são vãs e infrutíferas, mas que correm o risco de também ser prejudicados por imaginações perniciosas. Advirto você de continuar, e seriamente preciso repetir, que a menos que você corrija a tempo esta sarna após uma investigação, ela deverá ser temida, pois você trará sobre si mais severo sofrimento.
Eu seria cruel com você se tratasse do assunto com uma aparência de indulgência, o que creio ser um verdadeiro erro.[5] Preferiria, adequadamente, ofender-lhe um pouco no presente pela minha severidade, do que permiti-lo entregar-se incontrolado na cativante fascinação da curiosidade. O tempo virá, eu espero, quando você regozijará em ter sido tão violentamente admoestado. Adeus, irmão tão altamente estimado por mim; e se esta repreensão for demais áspera do que ela tem que ser, atribua-a ao meu amor por você.[6]
NOTAS:
[1] Nota do tradutor: numa carta anterior Socino acusou Felipe Melanchton de discordar de Calvino quanto à doutrina da predestinação. Inicialmente Melanchton defendia como Calvino a doutrina da predestinação, todavia, posteriormente a morte de Martinho Lutero ele modificou em muito a sua posição, tornando-a mais sinergista. Talvez, nesta época Socino já havia identificado esta mudança em Melanchton e usou a sua opinião para confrontar Calvino. Vide, Bengt Hägglund explica que “Melanchton passou a rejeitar a própria ideia da predestinação na forma em que a apresentara anteriormente” in: História da Teologia (São Leopoldo, Concórdia Editora, 1999), p. 214.
[2] Nota do tradutor: por causa do seu estreito relacionamento com Melanchton, Calvino prefaciou a primeira edição francesa de Loci Communes. Posteriormente, Calvino ao perceber a mudança sinergista que ocorreu com o colega luterano, lamentou este fato. Vide, Paul K. Jewett, Elección y Predestinación (Jenison, TELL, 1992), p. 28
[3] Nota do tradutor: Esta interação epistolar com Socino fez com que Calvino, quanto a doutrina do mérito de Cristo e da certeza da fé, incorporasse “estas respostas na edição de 1559 das Institutas, sem qualquer modificação significativa.” Alister McGrath, A vida de João Calvino (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2004), p. 63.
[4] Nota do tradutor: Lélio Socino [Laelius Socinus] - (1525-1562) precursor da seita herética unitarista conhecida por Socianismo que surgiu na segunda metade do século XVI e início do XVII. O historiador I. Breward nota que a “sua obra Confissão de Fé (1555), que usava termo ortodoxos, mas de maneira ilimitada e inquiridora, fez que alguns protestantes se sentissem desconfortáveis.” I. Breward, “Socino e Socinianismo” in: Sinclair Ferguson, ed., Novo Dicionário de Teologia (São Paulo, Editora Hagnos, 2009), p. 932. Lélio Socino esteve em Genebra em dois momentos diferentes, primeiro entre 1548, ou 1549, e noutro momento, em 1554. Philip Schaff, History of the Christian Church (Peabody, Hendrickson Publishers, 2011), vol. 8, pp. 634-635.
[5] Nota do tradutor: Servetus foi executado em 1553. Se Socino explicitasse as suas ideias, certamente teria um fim semelhante ao do unitarista espanhol. Mas Socino pela sua forma polidamente educada, levantando mais questões e dúvidas, do que fazendo asseverações confrontadoras, consegue esconder a sua verdadeira opinião sobre a doutrina da Trindade. A sua dissimulação teológica conseguiu que desfrutasse de uma amizade com Henrich Bullinger.
[6] Nota do tradutor: esta carta escrita por Calvino pertence aos últimos meses do ano de 1551. Lélio Socino estava residindo em Wittenberg, Alemanha. Calvino evidencia certa intolerância as insistentes dúvidas e cepticismo de Socino quanto às doutrinas da expiação vicária, dos sacramentos e Trindade.
Extraído de Letters of John Calvin: Select from the Bonnet Edition with an introductory biographical sketch (Edinburgh, The Banner of Truth Trust, 1980), pp. 128-129. Este livro foi publicado em português sob o título de Cartas de João Calvino (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2009).
Tradução e notas revisadas em 27 de Fevereiro de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO
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