Estes artigos são resultado do colóquio de Marburgo, realizado entre os dias 1 a 4 de Outubro de 1529, organizado pelo Princípe eleitor Philip de Hesse.
Artigo I
Que nós de ambos os lados, cremos e confessamos unanimemente que há apenas um único verdadeiro Deus natural, criador de todas as criaturas, e que este mesmo Deus é um em essência e natureza e trino em pessoas, a saber, Pai, Filho e Espírito Santo, como foi decretado no Concílio de Nicéia e é cantado e lido no Credo Niceno pela Igreja Cristã inteira em todo o mundo
Artigo II
Cremos que não o Pai, nem o Espírito Santo, mas o Filho de Deus Pai, ele próprio por natureza Deus verdadeiro, se tornou homem mediante a operação do Espírito Santo, sem a colaboração de semente masculina, nascendo da pura Virgem Maria, completo em corpo e alma como outro homem qualquer, mas sem pecado.
Artigo III
Que este Filho de Deus e de Maria, não dividido na pessoa, Jesus Cristo, foi crucificado por nós, morreu, foi sepultado, ressuscitou dos mortos, subiu ao céu, está assentado à direita de Deus, Senhor sobre todas as criaturas, e virá para julgar os vivos e os mortos.
Artigo IV
Cremos que o pecado original é inato, e herdado por nós de Adão, e é pecado de tal espécie que condena todas as pessoas. E se Jesus Cristo não tivesse vindo para nos ajudar com sua morte e vida, ser-nos-ia necessário morrer eternamente e não poderíamos ter entrado no reino de Deus e alcançado a salvação.
Artigo V
Cremos que somos salvos desse pecado e de todos os outros pecados, bem como da morte eterna, se cremos neste Filho de Deus, Jesus Cristo, que morreu por nós e que, além dessa fé, nenhuma obra posição ou ordem nos pode livrar de qualquer pecado.
Artigo VI
Que essa fé é dádiva de Deus, que não podemos obter mediante quaisquer obras precedentes ou méritos, nem adquirir por meio de nossas próprias forças, mas o Espírito Santo outorga e cria essa fé em nossos corações, como lhe agrada, quando ouvimos o Evangelho ou Palavra de Cristo.
Artigo VII
Que essa fé é nossa justiça perante Deus, em vista da qual Deus nos reconhece e nos considera justos, piedosos e santos, sem todas as obras e méritos e, por intermédio dela, nos livra do pecado, da morte e do inferno, e nos recebe em sua graça e nos salva, mediante seu Filho, no qual cremos e assim usufruímos e compartilhamos sua justiça, vida e todos os bens. Portanto, toda a vida e os votos monásticos, quando se considera que contribuem para a salvação, são completamente condenados.
Artigo VIII
Que o Espírito Santo normalmente não outorga essa fé ou dádiva a ninguém sem pregação, ou a palavra oral, ou tendo precedido o Evangelho de Cristo, mas, mediante essa palavra oral, e com ela produz e cria a fé onde e em quem lhe agrada (Rm 10:17).
Artigo IX
Que o Santo Batismo é um sacramento que foi instituído por Deus como auxílio a essa fé, e porque a ordem de Deus “ide, batizai”, e a promessa de Deus “aquele que crê” estão contidas nele, não é mero sinal vazio ou senha entre cristãos, mas antes sinal e obra de Deus Poe cujo intermédio nossa fé cresce e somos regenerados para a vida eterna.
Artigo X
Que essa fé, quando fomos considerados e declarados justos e santos por intermédio, pela eficácia do Espírito Santo, pratica boas obras por nosso intermédio, a saber, amar nosso próximo, orar a Deus e sofrer toda espécie de perseguição.
Artigo XI
Que a confissão ou busca de aconselhamento com seu pastor ou próximo deve, na verdade, ser voluntária e livre, não obstante, é muito útil às consciências aflitas, atribuladas ou oprimidas pelos pecados, ou que caíram em erro, especialmente devido à absolvição ou ao consolo do Evangelho, que é a verdadeira absolvição.
Artigo XII
Que todos os magistrados e leis seculares, tribunais e decretos, onde quer que existam, são verdadeiramente bons, e não são proibidos como alguns do papado e anabatistas ensinam e sustentam. Pelo contrário, que o cristão que nasce ou é chamado para uma dessas instituições, certamente pode ser salvo pela fé em Cristo, do mesmo modo como no estado de pai ou mãe, esposo ou esposa, etc.
Artigo XIII
O que se denomina tradição ou ordenança humana em questões espirituais ou eclesiásticas, caso não contradiga evidentemente a palavra de Deus, pode ser conservado ou abolido livremente conforme (a necessidade) do povo com o qual tratamos, a fim de evitar escândalo desnecessário na prática do amor para o fraco e para se preservar a paz. Também que a doutrina da proibição do matrimônio dos sacerdotes é doutrina do demônio (1 Tm 4:1 ss.)
Artigo XIV
Que o Batismo de crianças é correto, e que, mediante ele, elas são recebidas na graça de Deus e na cristandade.
Artigo XV
Todos cremos e sustentamos, no tocante à Ceia de nosso querido Senhor Jesus Cristo, que ambas as espécies devem ser usadas segundo a instituição de Cristo; também que a missa não é obra mediante a qual se obtém graça para outros, vivos ou mortos; também que o sacramento do Altar é o sacramento do verdadeiro corpo e sangue de Cristo, e que a participação espiritual desse corpo e sangue é especialmente necessária para todo cristão verdadeiro. Do mesmo modo, que o uso do sacramento, tal como acontece com a Palavra, é dado pelo Deus onipotente a fim de que consciências fracas possam, por seu intermédio, ser estimuladas a fé, pelo Espírito Santo. E apesar de, no momento, não concordarmos quanto a se o verdadeiro corpo e sangue de Cristo estão corporalmente presentes no pão e vinho, apesar disso, cada lado deve demonstrar amor cristão ao outro, o quanto permitir a consciência, e ambos devem orar com fervor ao Deus onipotente para que ele, mediante seu Espírito, nos confirme na reta compreensão Amém.
Martinus Luther, Johannes Brentius, Justus Jonas Johanes Oecolampadius, Philipus Melanchthon, Huldrychus Zwinglius, Andreas Osiander, Martinus Butzerus, Stephanus Agrícola, Caspar Hedio.
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quarta-feira, 27 de setembro de 2017
sábado, 25 de março de 2017
Carta de Martinho Lutero a Erasmo de Rotterdam [1525]
A Erasmo. 18 de Abril de 1524.[1]
Graça e paz de nosso Senhor Jesus Cristo.
Excelentíssimo Erasmo, estive calado o tempo suficiente, e ainda que esperasse que se adiantasse em romper o silêncio, esta espera tão longa apenas resultou falida. Por isso, creio que a própria caridade tem me motivado a começar. Não tenho nada que objetar contra você, pelo fato de que no princípio tenha se afastado de nós, pois podendo entregar-se por completo e sem obstáculos a sua causa contra os meus inimigos papistas; mas, muito menos cheguei a mal em absoluto, que em algumas passagens de seus livros editados nos mordeu e ofendeu com sua pitada de aspereza, para conseguir a sua graça ou mitigar o seu furor. Porque como vemos que Deus ainda não lhe concedeu a força e a coragem para lutar conosco, livre e confiadamente contra os nossos monstros, não somos quem nos atrevemos a exigir algo que supere as suas forças e que não vá com o seu modo de ser. Isto não foi obstáculo para tolerar a tua pusilanimidade e venerar a medida do dom de Deus;[2] porque o que não posso negar a orbe inteira é que o florescimento e reinado das letras, meio para chegar à leitura limpa da Bíblia, é um dom egrégio e magnífico que Deus lhe deu e que temos que agradecer.
Por este motivo nunca desejei que abandonasse ou menosprezasses os seus dotes e se arrolasse em nossos exércitos. Muito nos valeria a sua genialidade e eloquência, mas, ao faltar coragem, era mais seguro que servisse segundo seu dom. Somente temia uma coisa: que em alguma circunstância os inimigos o induzissem a atacar os nossos dogmas em seus escritos publicados e nos víssemos na urgência de nos enfrentar contigo face a face.[3] Contivemos a alguns que com livros preparados estávamos decididos a desafiá-lo. Esse foi o motivo pelo que desejei que não se editasse a Expostulatio de Hutten e muito menos a Esponja,[4] em que, ao meu entender, você percebe que facilmente resulta escrever sobre a modéstia e arguir da falta de modéstia de Lutero, mas que é muito difícil, para não dizer impossível, manter-se invulnerável, sem uma graça singular do Espírito.
Creia ou não, Cristo é testemunha de que lamento com todo o meu coração por tanto ódio e antipatia, como tantas pessoas desencadeia contra você. O seu valor humano está muito acima de todos estes ataques, mas não posso crer que ante eles, você permaneça imóvel. Possivelmente os impulses um zelo justo e lhes pareça que tenha provocado de forma indigna. Direi com toda liberdade: se fossem mais sinceros, não teriam motivos de indignação; mas, estão justificados, porque são de condição tal, que a sua debilidade não lhes permite suportar o teu mau humor e sua simulação (coisas que você preferiria que fossem vistas como prudência e modéstia). Eu mesmo, ainda que irritado e com frequência esteja ansioso, e tenha escrito mais exageradamente do que devo, somente o fiz contra os teimosos e indômitos. Além do mais, me parece que minha própria consciência e a experiência de muitos excedem em testemunho a minha misericórdia e mansidão com os pecadores e os ímpios, ainda que sejam insensatos e iníquos. Que por esse motivo contive a minha pluma quando você me acusava e, em minhas cartas - que chegaram a ti - disse a meus amigos, que contenderia comigo até que saltasse publicamente ao debate; porque, ainda que não simpatizasse conosco, ainda ímpia ou dissimuladamente condena, ou não aprova muitos capítulos da piedade, todavia, não posso, nem quero rotulá-lo de pertinaz.
Mas, e agora, o que posso fazer? As coisas chegaram a seu ponto de máxima frieza por ambas as partes. Se me fosse possível, optaria por fazer-me de mediador para que cessassem de ataca-lo com tanta animosidade e, permitissem que em sua velhice dormisse pacificamente no Senhor. Tenho convicção de que se acalmariam se, em primeiro lugar, tivessem em conta a sua pusilanimidade e medissem a magnitude de nossa causa, que transbordam as suas possibilidades, fundamentalmente porque chegou a um extremo em que não há que temer nenhum perigo, inclusive ainda que Erasmo a combatesse com toda as suas energias, muito menos se faria do que aumentar os seus sarcasmos e dentadas de vez em quando: e se, por outro lado, você meu Erasmo, pensasse em sua debilidade, e não continuasse com esses recursos picantes e agudos de sua retórica, de maneira que, se não pode, nem quer nos defender, que não se comprometa com eles, mas que se dedique as suas coisas. As reações tão iniquamente ante as suas mordidas se deve apenas (e você testemunha disso) a fraqueza humana, que se teme à fama e autoridade de Erasmo, e é muito pior uma mordida de Erasmo que ser triturado por todos os papistas.
Desejo o que disse, ótimo Erasmo, constitua um testemunho de minha boa vontade com você, e a expressão do desejo que abrigo de que Deus lhe conceda um espírito digno de sua fama; se a Deus comprazer demorar nesta concessão, lhe suplico que, entretanto, se não pode colaborar de outra maneira, que limite a ser um mero expectador de nossa tragédia; que não se alie com os nossos adversários engrossando as suas fileiras, e sobretudo, que não edite argumentos que me ataquem, do mesmo modo que não publicarei contra você. Por fim, lembre que os que se amparam sob o meu nome para arremeter, são homens semelhantes a nos dois, aos que é preciso perdoar e ignorar, e que, como disse são Paulo, que têm que nos ajudar a carregar as cargas.[5] Já se mordeu o bastante, cuidemos agora de não nos destruirmos mutuamente;[6] seria um espetáculo ainda mais vergonhoso, sendo indubitável que de ambas as partes têm o desejo de prejudicar a piedade, senão que anela se entregar a sua respectiva tarefa sem pertinência.
Não interprete mal a minha rudeza e atribua-a ao Senhor. Recomendo-lhe esse jovem Joaquim que se parece com o nosso Felipe;[7] verá que, uma vez admitido, se recomendará melhor por si mesmo.
Wittenberg, ano de 1524. Martinus Luther.
NOTAS:
[1] WA Br 3, 270-271. É de interesse esta carta para contrastar a mudança de atitude de Lutero com Erasmo. Próxima da ruptura pública, Lutero luta para conseguir a neutralidade de um adversário sempre temido.
[2] Ef 4:7.
[3] Gl 2:11.
[4] Ulrich von Hutten após a derrota dos “cavaleiros”, fugiu para Basiléia, onde somente recebeu o menosprezo de seu adorado príncipe Erasmo. Este foi o motivo de sua dolorosa Ulrici ab Hutten cum Erasmo Roterdamo presbytero expostulatio, que foi impressa em Estrasburgo, em 1523, após a difusão do manuscrito de Erasmo correspondeu com sua Spongia Erasmi adversus aspergines Hutteni, Basiléia 1523.
[5] Gl 6:2.
[6] Gl 5:15.
[7] Joaquim Camerário do círculo de Wittenberg, amigo de Melanchthon e helenista, achou graça ante Erasm, a julgar pela resposta deste à carta de Lutero: WA Br 3, p. 285.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 397-398.
Tradução em 25 de Março de 2017.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Graça e paz de nosso Senhor Jesus Cristo.
Excelentíssimo Erasmo, estive calado o tempo suficiente, e ainda que esperasse que se adiantasse em romper o silêncio, esta espera tão longa apenas resultou falida. Por isso, creio que a própria caridade tem me motivado a começar. Não tenho nada que objetar contra você, pelo fato de que no princípio tenha se afastado de nós, pois podendo entregar-se por completo e sem obstáculos a sua causa contra os meus inimigos papistas; mas, muito menos cheguei a mal em absoluto, que em algumas passagens de seus livros editados nos mordeu e ofendeu com sua pitada de aspereza, para conseguir a sua graça ou mitigar o seu furor. Porque como vemos que Deus ainda não lhe concedeu a força e a coragem para lutar conosco, livre e confiadamente contra os nossos monstros, não somos quem nos atrevemos a exigir algo que supere as suas forças e que não vá com o seu modo de ser. Isto não foi obstáculo para tolerar a tua pusilanimidade e venerar a medida do dom de Deus;[2] porque o que não posso negar a orbe inteira é que o florescimento e reinado das letras, meio para chegar à leitura limpa da Bíblia, é um dom egrégio e magnífico que Deus lhe deu e que temos que agradecer.
Por este motivo nunca desejei que abandonasse ou menosprezasses os seus dotes e se arrolasse em nossos exércitos. Muito nos valeria a sua genialidade e eloquência, mas, ao faltar coragem, era mais seguro que servisse segundo seu dom. Somente temia uma coisa: que em alguma circunstância os inimigos o induzissem a atacar os nossos dogmas em seus escritos publicados e nos víssemos na urgência de nos enfrentar contigo face a face.[3] Contivemos a alguns que com livros preparados estávamos decididos a desafiá-lo. Esse foi o motivo pelo que desejei que não se editasse a Expostulatio de Hutten e muito menos a Esponja,[4] em que, ao meu entender, você percebe que facilmente resulta escrever sobre a modéstia e arguir da falta de modéstia de Lutero, mas que é muito difícil, para não dizer impossível, manter-se invulnerável, sem uma graça singular do Espírito.
Creia ou não, Cristo é testemunha de que lamento com todo o meu coração por tanto ódio e antipatia, como tantas pessoas desencadeia contra você. O seu valor humano está muito acima de todos estes ataques, mas não posso crer que ante eles, você permaneça imóvel. Possivelmente os impulses um zelo justo e lhes pareça que tenha provocado de forma indigna. Direi com toda liberdade: se fossem mais sinceros, não teriam motivos de indignação; mas, estão justificados, porque são de condição tal, que a sua debilidade não lhes permite suportar o teu mau humor e sua simulação (coisas que você preferiria que fossem vistas como prudência e modéstia). Eu mesmo, ainda que irritado e com frequência esteja ansioso, e tenha escrito mais exageradamente do que devo, somente o fiz contra os teimosos e indômitos. Além do mais, me parece que minha própria consciência e a experiência de muitos excedem em testemunho a minha misericórdia e mansidão com os pecadores e os ímpios, ainda que sejam insensatos e iníquos. Que por esse motivo contive a minha pluma quando você me acusava e, em minhas cartas - que chegaram a ti - disse a meus amigos, que contenderia comigo até que saltasse publicamente ao debate; porque, ainda que não simpatizasse conosco, ainda ímpia ou dissimuladamente condena, ou não aprova muitos capítulos da piedade, todavia, não posso, nem quero rotulá-lo de pertinaz.
Mas, e agora, o que posso fazer? As coisas chegaram a seu ponto de máxima frieza por ambas as partes. Se me fosse possível, optaria por fazer-me de mediador para que cessassem de ataca-lo com tanta animosidade e, permitissem que em sua velhice dormisse pacificamente no Senhor. Tenho convicção de que se acalmariam se, em primeiro lugar, tivessem em conta a sua pusilanimidade e medissem a magnitude de nossa causa, que transbordam as suas possibilidades, fundamentalmente porque chegou a um extremo em que não há que temer nenhum perigo, inclusive ainda que Erasmo a combatesse com toda as suas energias, muito menos se faria do que aumentar os seus sarcasmos e dentadas de vez em quando: e se, por outro lado, você meu Erasmo, pensasse em sua debilidade, e não continuasse com esses recursos picantes e agudos de sua retórica, de maneira que, se não pode, nem quer nos defender, que não se comprometa com eles, mas que se dedique as suas coisas. As reações tão iniquamente ante as suas mordidas se deve apenas (e você testemunha disso) a fraqueza humana, que se teme à fama e autoridade de Erasmo, e é muito pior uma mordida de Erasmo que ser triturado por todos os papistas.
Desejo o que disse, ótimo Erasmo, constitua um testemunho de minha boa vontade com você, e a expressão do desejo que abrigo de que Deus lhe conceda um espírito digno de sua fama; se a Deus comprazer demorar nesta concessão, lhe suplico que, entretanto, se não pode colaborar de outra maneira, que limite a ser um mero expectador de nossa tragédia; que não se alie com os nossos adversários engrossando as suas fileiras, e sobretudo, que não edite argumentos que me ataquem, do mesmo modo que não publicarei contra você. Por fim, lembre que os que se amparam sob o meu nome para arremeter, são homens semelhantes a nos dois, aos que é preciso perdoar e ignorar, e que, como disse são Paulo, que têm que nos ajudar a carregar as cargas.[5] Já se mordeu o bastante, cuidemos agora de não nos destruirmos mutuamente;[6] seria um espetáculo ainda mais vergonhoso, sendo indubitável que de ambas as partes têm o desejo de prejudicar a piedade, senão que anela se entregar a sua respectiva tarefa sem pertinência.
Não interprete mal a minha rudeza e atribua-a ao Senhor. Recomendo-lhe esse jovem Joaquim que se parece com o nosso Felipe;[7] verá que, uma vez admitido, se recomendará melhor por si mesmo.
Wittenberg, ano de 1524. Martinus Luther.
NOTAS:
[1] WA Br 3, 270-271. É de interesse esta carta para contrastar a mudança de atitude de Lutero com Erasmo. Próxima da ruptura pública, Lutero luta para conseguir a neutralidade de um adversário sempre temido.
[2] Ef 4:7.
[3] Gl 2:11.
[4] Ulrich von Hutten após a derrota dos “cavaleiros”, fugiu para Basiléia, onde somente recebeu o menosprezo de seu adorado príncipe Erasmo. Este foi o motivo de sua dolorosa Ulrici ab Hutten cum Erasmo Roterdamo presbytero expostulatio, que foi impressa em Estrasburgo, em 1523, após a difusão do manuscrito de Erasmo correspondeu com sua Spongia Erasmi adversus aspergines Hutteni, Basiléia 1523.
[5] Gl 6:2.
[6] Gl 5:15.
[7] Joaquim Camerário do círculo de Wittenberg, amigo de Melanchthon e helenista, achou graça ante Erasm, a julgar pela resposta deste à carta de Lutero: WA Br 3, p. 285.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 397-398.
Tradução em 25 de Março de 2017.
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