Ao reverendo e ótimo Johannes Staupitz, mestre na sagrada teologia, agostiniano ermitão, do seu progênito no Senhor.
Saúde. Admira-me que minhas cartas e meus livretos não tenham chegado ainda a suas mãos como deduzo. Pregando aos demais estou me desqualificando a mim mesmo,[1] que até ao extremo me alieno-me no trato com os irmãos. Pelo que lhe garanto que poderá ter uma ideia do espírito com que, todavia, trato a Palavra de Deus. Nada se fez, ainda, em Worms contra mim, considerando que os papistas andam maquinando desígnios perniciosos com furor invejável. Spalatino escreveu-me dizendo que o evangelho goza ali de boa aceitação, que espera que não me condenem sem terem escutado e convencido.
Em Leipzig, Emser, sem envergonharem-se de modo algum, escrevem contra mim um libelo que é um emaranhado de mentiras, desde o princípio até o fim. Vejo-me necessitado de dar uma resposta a este monstruoso desprezo pela causa do duque Jorge, que é quem encoraja a loucura do autor.
Não me incomoda a notícia de que Leão[2] também se dirigiu contra você, desta sorte poderás erigir para exemplo do mundo a cruz que tanto pregou. Não gostaria que o lobo se contentasse com sua resposta em que lhe concedes mais do que é justo. Ele interpretará como se renegasses a mim e de tudo o que é meu, ao declarar que se submete a seu juízo. Por isso, se Cristo o ama, o obrigará à revogação deste escrito, pois que nessa bula se condena tudo o que ensinou e se compraz. Como nada disto lhe é desconhecido, parece-me que ofende a Cristo, pois aceita como juiz a quem é um furioso inimigo de Cristo, a quem se desencadeia contra a palavra da graça. Terá que afirmar isto e argumentar-lhe contra essa impiedade. Que não é para andar com temores, mas gritar, este tempo em que o nosso Senhor Jesus Cristo se vê condenado, despojado e blasfemado. Na mesma medida em que me exorta à humildade, lhe exorto à soberba. A sua humildade é tão excessiva como excedente é minha arrogância.
Mas a situação está séria. Vemos que Cristo está sofrendo. Se antes foi preciso silenciar, agora quando o próprio boníssimo Salvador que se entregou por nós padece de escárnio por todo o mundo, não lutaremos por ele, não arriscaremos o nosso pescoço? Meu pai, que é muito mais grave o perigo do que muitos pensam. Começa a entrar em vigor a declaração do evangelho: “ao que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu pai, mas me envergonharei de quem se envergonhar de mim.”[3]
Que pensem que sou soberbo, avarento, adúltero, homicida, antipapa e réu de todos os vícios, contanto que não podem me impiamente arguir em calar enquanto o Senhor sofre e diz: “não há escapatória para mim; não há quem cuide de meu espírito; olhei para a minha direita e ninguém me reconhecia”[4] Tenho a confiança de que esta confissão me perdoará de todos os meus pecados. Que por este motivo lancei confiado chifres contra esse ídolo e verdadeiro anticristo de Roma. A palavra de Deus não é palavra de paz, mas palavra de espada.[5] Mas “que direi, imundo eu sou, a Minerva?”[6]
Escrevo-lhe isto em confiança, porque muito temo que se levante como um mediador entre Cristo e o papa que percebe o quão violentamente ele é. Roguemos para que o Senhor Jesus Cristo sem tardar com o sopro de sua boca destrua a este filho da perdição.[7] Se não quiser vir após mim, deixe-me que marche e me enfade. Pela graça de Deus não deixarei em minha tarefa de atirar na face de suas monstruosidades a esse monstro.
É verdade que me enche de tristeza a sua submissão, que me revela a um Staupitz tão diferente daquele pregador da graça e da cruz. Não sofreria se houvesse atuado desta forma antes da promulgação da bula e da ignomínia feita a Cristo.
Hutten e outros escrevem com força a meu favor e estão preparando canções que farão pouca graça a essa Babilônia.[8] O nosso príncipe atua com tanta prudência e fidelidade como constância. Edito essas Asserções, por sua ordem, tanto em latim como em alemão.[9]
Felipe[10] lhe saúda e roga para que cresça o seu ânimo. Dê saudações, por favor, ao médico Ludovico[11] que me escreveu com tanta erudição. Não tive tempo de responder-lhe, por isso tenho três prensas trabalhando só para mim. Adeus no Senhor, e rogue por mim.
Wittenberg.
Dia de santa Apolônia, 1521. O seu filho Martinus Lutherus.
NOTAS:
[1] 1Co 9.27.
[2] Leão X, por meio do arcebispo de Salzburg, Mateus Lang, urgiu a Staupitz que declarasse como heréticas as doutrinas de seu súdito, Frei Martinho Lutero. Veja a reação de Lutero ao informar-se de que Staupitz se submetia a sua causa da decisão do pontífice.
[3] Mt 10.32; Lv 9.26.
[4] Sl 142.5.
[5] Mt 10.34.
[6] Dito recolhido de Erasmo, Adagia I.1.40.
[7] 2Ts 2.3 e 8.
[8] É interessante para notar o jogo de opinião pública nesta fase da Reforma.
[9] Assertio omnium articulorum M. Lutheri per bullam Leonis X novissimam damnatorum. WA 7, pp. 94-151.
[10] Felipe Melanchthon.
[11] Ele chama equivocadamente Ludovico, o médico do arcebispo de Salzburg, cujo verdadeiro nome era Leonardo Schmaus.
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quinta-feira, 29 de novembro de 2018
quinta-feira, 10 de março de 2016
Carta de Martinho Lutero a Johannes Staupitz [Setembro de 1523]
Ao reverendo pai em Cristo, João, abade de São Pedro da ordem dos beneditinos em Salzburg, seu superior em Cristo, seu pai e preceptor.[1]
A graça e paz em Cristo Jesus, o nosso Senhor.
Reverendo pai em Cristo: é injusto o teu silêncio e facilmente podes suspeitar o que dele opinamos. Mas, ainda que tenhamos perdido a tua graça e teu beneplácito não poderemos nos esquecer e ser ingratos contigo, por quem começou a brilhar a luz do evangelho nas trevas e em nossos corações. Confesso que nos agradaria mais se não te houvessem feito abade, mas, já que o és, procuraremos, o bem dos dois e deixemos que cada um abunde em sua opinião. Pior que ter te afastado de nós é suportarmos os teus amigos e eu o que esteja a serviço desse monstruoso famoso, teu cardeal.[2] Te vês obrigado a suportar e calar o que queres fazer, coisa que o mundo apenas pode aguentar. Milagre será não estejas em perigo de renegar a Cristo. Por isso, todos rogamos e desejamos que retornes a nós, que te libertes do cárcere desta tirania e esperamos que estejas de acordo por tua parte. Tal como te conheci até agora, sinto-me incapaz de compor esses dois extremos que se combatem entre si: que continues sendo o mesmo, e que consintas perseverar nessa situação, o que, se continuas sendo o mesmo, não penses com frequência em abandoná-la. E por último, como de ti pensamos e desejamos o melhor, abrigamos boas esperanças, ainda que a nossa esperança se veja fortemente abalada por teu duradouro silêncio.
Por este motivo me atrevo enviar-te estas letras em favor do irmão Acácio, cativo antes em teu monastério e agora, assim o espero, liberto em Cristo. Se continuas sendo o mesmo que conheci, não te peço somente que o perdoes, mas o farás generosamente, como também, te rogo que lhe dês algo da abundância de teu rico monastério, com o que possa iniciar uma nova vida, este homem pobre e carente. Assim peço a ele, e ainda que estive duvidando na incerteza, espero o melhor e me inclinei a presumir o melhor de ti. Se tens mudado em relação a nós, que Cristo não queira isto – te falo com toda a liberdade – não queiras perder tempo com palavra inúteis, mas que preferiria invocar a misericórdia de Deus sobre ti e sobre todos nós.
Assim vês, reverendo pai, que ambiguamente tenho que escrever a causa de que teu longo silêncio nos têm munido na incerteza sobre os teus sentimentos, quando tu tão bem nos conheces. Além do mais, estou certo de que o teu coração não pode depreciar-nos, ainda que nada em nós fosse do teu agrado. Por minha parte não deixarei de orar para que se cumpra o meu desejo de que te afastes de teu cardeal e do papado, como separado estou e tu o estiveste. Deus me ouça, e te una a nós. Amém.
Wittenberg, Dia de são Lamberto, 1523.[3] Martinus Lutherus.
NOTAS:
[1] WA Br 3, pp. 155-156. Staupitz terminou se tornando abade da histórica abadia de São Pedro em Salzburg; ou seja, ele foi transferido dos agostinianos para os beneditinos. A carta de Staupitz, possível contestação a este fato, onde se reflete a sua bondade natural, mas em que fecha a cara para Lutero por causa de seus excessos e violência. Cf. WA Br 3, pp. 236ss. Significado de Staupitz para Lutero em E. Wolf, Staupitz und Luther, Leipzig 1927.
[2] Mateo Lang, arcebispo de Salzburg, outra das pessoas cordialmente aborrecidas por Lutero.
[3] Data equivale a 17 de Setembro de 1523. Nota do tradutor.
Esta carta foi originalmente traduzida de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 395-396.
Tradução com introdução e notas em 10 de Março de 2016.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
A graça e paz em Cristo Jesus, o nosso Senhor.
Reverendo pai em Cristo: é injusto o teu silêncio e facilmente podes suspeitar o que dele opinamos. Mas, ainda que tenhamos perdido a tua graça e teu beneplácito não poderemos nos esquecer e ser ingratos contigo, por quem começou a brilhar a luz do evangelho nas trevas e em nossos corações. Confesso que nos agradaria mais se não te houvessem feito abade, mas, já que o és, procuraremos, o bem dos dois e deixemos que cada um abunde em sua opinião. Pior que ter te afastado de nós é suportarmos os teus amigos e eu o que esteja a serviço desse monstruoso famoso, teu cardeal.[2] Te vês obrigado a suportar e calar o que queres fazer, coisa que o mundo apenas pode aguentar. Milagre será não estejas em perigo de renegar a Cristo. Por isso, todos rogamos e desejamos que retornes a nós, que te libertes do cárcere desta tirania e esperamos que estejas de acordo por tua parte. Tal como te conheci até agora, sinto-me incapaz de compor esses dois extremos que se combatem entre si: que continues sendo o mesmo, e que consintas perseverar nessa situação, o que, se continuas sendo o mesmo, não penses com frequência em abandoná-la. E por último, como de ti pensamos e desejamos o melhor, abrigamos boas esperanças, ainda que a nossa esperança se veja fortemente abalada por teu duradouro silêncio.
Por este motivo me atrevo enviar-te estas letras em favor do irmão Acácio, cativo antes em teu monastério e agora, assim o espero, liberto em Cristo. Se continuas sendo o mesmo que conheci, não te peço somente que o perdoes, mas o farás generosamente, como também, te rogo que lhe dês algo da abundância de teu rico monastério, com o que possa iniciar uma nova vida, este homem pobre e carente. Assim peço a ele, e ainda que estive duvidando na incerteza, espero o melhor e me inclinei a presumir o melhor de ti. Se tens mudado em relação a nós, que Cristo não queira isto – te falo com toda a liberdade – não queiras perder tempo com palavra inúteis, mas que preferiria invocar a misericórdia de Deus sobre ti e sobre todos nós.
Assim vês, reverendo pai, que ambiguamente tenho que escrever a causa de que teu longo silêncio nos têm munido na incerteza sobre os teus sentimentos, quando tu tão bem nos conheces. Além do mais, estou certo de que o teu coração não pode depreciar-nos, ainda que nada em nós fosse do teu agrado. Por minha parte não deixarei de orar para que se cumpra o meu desejo de que te afastes de teu cardeal e do papado, como separado estou e tu o estiveste. Deus me ouça, e te una a nós. Amém.
Wittenberg, Dia de são Lamberto, 1523.[3] Martinus Lutherus.
NOTAS:
[1] WA Br 3, pp. 155-156. Staupitz terminou se tornando abade da histórica abadia de São Pedro em Salzburg; ou seja, ele foi transferido dos agostinianos para os beneditinos. A carta de Staupitz, possível contestação a este fato, onde se reflete a sua bondade natural, mas em que fecha a cara para Lutero por causa de seus excessos e violência. Cf. WA Br 3, pp. 236ss. Significado de Staupitz para Lutero em E. Wolf, Staupitz und Luther, Leipzig 1927.
[2] Mateo Lang, arcebispo de Salzburg, outra das pessoas cordialmente aborrecidas por Lutero.
[3] Data equivale a 17 de Setembro de 1523. Nota do tradutor.
Esta carta foi originalmente traduzida de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 395-396.
Tradução com introdução e notas em 10 de Março de 2016.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
Carta de Martinho Lutero a Johannes Staupiz [Setembro de 1521]
A Staupitz. 9 de Setembro de 1521[1]
Jesus. Saudações. Em nada me preocupa a crítica do Capitão[2], nem a de Erasmo, nem me altera a opinião que sobre eles tenho formada. Temi que teria que me explicar com eles, até que me dei conta de que Erasmo estava muito longe do conhecimento da graça, sendo que, em todos os seus escritos não recorre à cruz, senão à paz. Ele crê que tudo pode ser tratado com certa cortesia e benevolência; mas, Behemoth[3] não anda com estas cerimônias e esse sistema é recomendado a ninguém.
Recordo o que aplicava em seu prólogo ao Novo Testamento: “O cristão tem facilidade de depreciar a glória.” Eu pensava comigo: “Oh! Erasmo, muito temo que esteja equivocado!” Grande coisa é depreciar a glória, mas não se referia ao desprezo que lhe poderiam fazer, senão ao que tinha em seu pensamento. Se não tem nenhum significado o desprezo da glória da palavra, menos valor terá o que existe somente no pensamento. Assim, segundo são Paulo “o reino de Deus está no poder”;[4] por isso, ainda não pude me gloriar em nada mais do que da palavra da verdade que me confiou o Senhor.
E por isso, os escritos destes homens que se abstêm de chicotear, de morder, de ofender, nada conseguem. Corrigem educadamente aos pontífices, o tomam como uma lisonja, e como se gozassem do direito de serem incorrigíveis, continuam tão satisfeitos de serem grandes e de que ninguém se atreva a repreendê-los. Estes são os personagens representados por Plutarco em seu livro Da Adulação, e aos que Jeremias fustiga de maneira mais severa e terrível: “maldito quem realiza fraudulentamente o trabalho do Senhor.”[5] Fala da ação da espada contra os inimigos de Deus. Inclusive me assusta e me ofende a consciência porque em Worms fiz caso do conselho que você me deu e os amigos, e não me mostrei forte de espírito, nem me exibi como um novo Elias diante daqueles ídolos.[6] Ouviriam outra coisa se comparecesse novamente diante deles. Mas não falemos mais disto.
O duque João, o Maior, está inteirado de meu paradeiro,[7] coisa que até o momento ignorava; meu anfitrião tem mantido em segredo, mas saberá calar. Encontro-me bem aqui, mas, miserável que sou, me faço preguiçoso, definho no espírito. Hoje, depois de seis dias, fiz do ventre fezes muito duras, que acreditei que exalaria a alma. Agora estou sentado, sentindo dor como uma recém-parida, lacerado, ferido, sangrando, e esta noite não terei nenhum descanso, mesmo que pouco. Dou graças a Cristo que não me priva de alguns dos fragmentos da santa cruz. Estaria curado de todas as feridas se tivesse o ventre ligeiro; mas o que sara em quatro dias volta a abrir toda vez que vou defecar. Digo a você estas coisas, não para que se compadeça de mim, mas para que me congratule e rogue para que me faça digno de fervor espiritual. Chegou o tempo de orar com todas as forças contra Satanás, porque anda gestando alguma tragédia funesta contra a Alemanha. Estou temendo que o Senhor permita e aqui me tenha roncando e vagaroso para orar, resistir, até tal ponto que estou violentamente descontente e cansado de mim mesmo, porque me encontro sozinho e vocês não me ajudam. Oremos e vigiemos para não entrar em tentação.[8] Por hora não tenho mais o que te dizer. Você sabe das demais coisas.
Alegro-me de que Wittenberg prospere, tanto mais porque isto ocorre durante a minha ausência, para que o ímpio veja, se irrite e pereça os seus desejos.[9] Que Cristo termine o que ele começou. Desejaria vividamente que Felipe[10] pregasse às pessoas em algum lugar da cidade nos dias de festa, quando aos poucos se entregarão à bebida e aos jogos, para que se introduzisse o hábito da liberdade[11] e se restituam a face e os costumes da igreja primitiva. Porque se desvalorizado a todas as leis humanas e rejeitado os seus jugos, então, por que é um obstáculo o fato de que não esteja ungido ou tonsurado e que seja casado? Se o anunciar a palavra é uma função sacerdotal, ele é um sacerdote e como sacerdote atua de fato; de outra forma, nem Cristo seria sacerdote, ele que ensinava nas sinagogas, nas barcas e beira mar, nas montanhas: sempre foi o mesmo em todos os lugares e em todos os momentos. Portanto, que não se negue a ninguém que sendo chamado por Deus e que exercendo o ministério da palavra, porque importa que mesmo não sendo chamado por estes tiranos, ou seja, bispos não das igrejas, senão de cavalos e lacaios de príncipes? Não obstante, conheço muito bem os sentimentos deste homem e sei que não se convencerá por minhas razões.
Tem que ser chamado e urgido por mandato e impulso de toda a comunidade. Se ela pede e lhe exige, não se deve, nem pode recusar. Se estivesse presente engajaria todo o meu esforço com o conselho e povo para que lhe pedissem que explicassem o evangelho em privado e em alemão, como comecei a fazê-lo em latim: assim, o bispo converteria em alemão o mesmo que o é em latim. Eu sentiria muita satisfação que fizesses de tua parte tal coisa uma realidade, porque o que mais urgentemente necessita o povo é a palavra de Deus; e que esta abunde no mais generosamente que em todos os demais, ao menos que, urgindo-o a consciência e exigindo-o a Deus, temos a obrigação de chamar-lhe para que não se desperdice o fruto da palavra.
A ti será fácil tratar este assunto no conselho por mediação de Lucas e Cristian[12] para que Cristo vindique a minha ausência e meu silêncio com a sua pregação e sua voz para confusão de Satanás e suas crias. Orígenes ensinou de modo privado as mulheres[13], então, por que motivo ele não tenta fazer o mesmo, sendo que ele pode e deve fazê-lo? E ainda mais quando o povo está necessitado e sedento. Rogo a você que não deixe se vencer por desculpas. Redigirá textos formosos que é algo que lhe é conveniente. Não há motivo para ambicioná-lo, mas tem que ser insistentemente chamado pela igreja, inclusive até solicitado para que este serviço e faça não o que seja útil para ele, senão que o que proveitoso para muitos. Ainda te suplico: coloque maior diligência em fixa-lo, ajudando-o com amigos que juntos possam apoiá-lo.
E adeus. Lembre-se de mim diante o Senhor.
Do deserto,[14] dia seguinte à natividade de Maria, 1521. Teu Martinus Luther.
NOTAS:
[1] WA Br 2, 387-389.
[2] Capitão a esta altura era um dos humanistas que se aproximava de Erasmo em Basiléia.
[3] Jó 40:15ss.
[4] 1 Co 4:20.
[5] Jr 48:10.
[6] 1 Rs 18:20ss.
[7] Irmão de Frederico, o Sábio.
[8] Mt 26:41.
[9] Sl 112:10.
[10] Felipe Melanchthon.
[11] Lutero pensa na liberdade da palavra de Deus, da pregação, e no sacerdócio universal dos crentes.
[12] Lucas Cranach, o célebre pintor, e Cristian Düring, o mais conhecido e talvez o maior impressor de Wittenberg, ambos seus amigos.
[13] Jerônimo, De viris illustribus, 54 (ML 23, 699).
[14] Denominação que ele aplica aos seus retiros forçados, agora em Warturb, logo (1530) nas cartas de Coburgo.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), p. 388-390.
Tradução em 5 de Janeiro de 2015.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
Jesus. Saudações. Em nada me preocupa a crítica do Capitão[2], nem a de Erasmo, nem me altera a opinião que sobre eles tenho formada. Temi que teria que me explicar com eles, até que me dei conta de que Erasmo estava muito longe do conhecimento da graça, sendo que, em todos os seus escritos não recorre à cruz, senão à paz. Ele crê que tudo pode ser tratado com certa cortesia e benevolência; mas, Behemoth[3] não anda com estas cerimônias e esse sistema é recomendado a ninguém.
Recordo o que aplicava em seu prólogo ao Novo Testamento: “O cristão tem facilidade de depreciar a glória.” Eu pensava comigo: “Oh! Erasmo, muito temo que esteja equivocado!” Grande coisa é depreciar a glória, mas não se referia ao desprezo que lhe poderiam fazer, senão ao que tinha em seu pensamento. Se não tem nenhum significado o desprezo da glória da palavra, menos valor terá o que existe somente no pensamento. Assim, segundo são Paulo “o reino de Deus está no poder”;[4] por isso, ainda não pude me gloriar em nada mais do que da palavra da verdade que me confiou o Senhor.
E por isso, os escritos destes homens que se abstêm de chicotear, de morder, de ofender, nada conseguem. Corrigem educadamente aos pontífices, o tomam como uma lisonja, e como se gozassem do direito de serem incorrigíveis, continuam tão satisfeitos de serem grandes e de que ninguém se atreva a repreendê-los. Estes são os personagens representados por Plutarco em seu livro Da Adulação, e aos que Jeremias fustiga de maneira mais severa e terrível: “maldito quem realiza fraudulentamente o trabalho do Senhor.”[5] Fala da ação da espada contra os inimigos de Deus. Inclusive me assusta e me ofende a consciência porque em Worms fiz caso do conselho que você me deu e os amigos, e não me mostrei forte de espírito, nem me exibi como um novo Elias diante daqueles ídolos.[6] Ouviriam outra coisa se comparecesse novamente diante deles. Mas não falemos mais disto.
O duque João, o Maior, está inteirado de meu paradeiro,[7] coisa que até o momento ignorava; meu anfitrião tem mantido em segredo, mas saberá calar. Encontro-me bem aqui, mas, miserável que sou, me faço preguiçoso, definho no espírito. Hoje, depois de seis dias, fiz do ventre fezes muito duras, que acreditei que exalaria a alma. Agora estou sentado, sentindo dor como uma recém-parida, lacerado, ferido, sangrando, e esta noite não terei nenhum descanso, mesmo que pouco. Dou graças a Cristo que não me priva de alguns dos fragmentos da santa cruz. Estaria curado de todas as feridas se tivesse o ventre ligeiro; mas o que sara em quatro dias volta a abrir toda vez que vou defecar. Digo a você estas coisas, não para que se compadeça de mim, mas para que me congratule e rogue para que me faça digno de fervor espiritual. Chegou o tempo de orar com todas as forças contra Satanás, porque anda gestando alguma tragédia funesta contra a Alemanha. Estou temendo que o Senhor permita e aqui me tenha roncando e vagaroso para orar, resistir, até tal ponto que estou violentamente descontente e cansado de mim mesmo, porque me encontro sozinho e vocês não me ajudam. Oremos e vigiemos para não entrar em tentação.[8] Por hora não tenho mais o que te dizer. Você sabe das demais coisas.
Alegro-me de que Wittenberg prospere, tanto mais porque isto ocorre durante a minha ausência, para que o ímpio veja, se irrite e pereça os seus desejos.[9] Que Cristo termine o que ele começou. Desejaria vividamente que Felipe[10] pregasse às pessoas em algum lugar da cidade nos dias de festa, quando aos poucos se entregarão à bebida e aos jogos, para que se introduzisse o hábito da liberdade[11] e se restituam a face e os costumes da igreja primitiva. Porque se desvalorizado a todas as leis humanas e rejeitado os seus jugos, então, por que é um obstáculo o fato de que não esteja ungido ou tonsurado e que seja casado? Se o anunciar a palavra é uma função sacerdotal, ele é um sacerdote e como sacerdote atua de fato; de outra forma, nem Cristo seria sacerdote, ele que ensinava nas sinagogas, nas barcas e beira mar, nas montanhas: sempre foi o mesmo em todos os lugares e em todos os momentos. Portanto, que não se negue a ninguém que sendo chamado por Deus e que exercendo o ministério da palavra, porque importa que mesmo não sendo chamado por estes tiranos, ou seja, bispos não das igrejas, senão de cavalos e lacaios de príncipes? Não obstante, conheço muito bem os sentimentos deste homem e sei que não se convencerá por minhas razões.
Tem que ser chamado e urgido por mandato e impulso de toda a comunidade. Se ela pede e lhe exige, não se deve, nem pode recusar. Se estivesse presente engajaria todo o meu esforço com o conselho e povo para que lhe pedissem que explicassem o evangelho em privado e em alemão, como comecei a fazê-lo em latim: assim, o bispo converteria em alemão o mesmo que o é em latim. Eu sentiria muita satisfação que fizesses de tua parte tal coisa uma realidade, porque o que mais urgentemente necessita o povo é a palavra de Deus; e que esta abunde no mais generosamente que em todos os demais, ao menos que, urgindo-o a consciência e exigindo-o a Deus, temos a obrigação de chamar-lhe para que não se desperdice o fruto da palavra.
A ti será fácil tratar este assunto no conselho por mediação de Lucas e Cristian[12] para que Cristo vindique a minha ausência e meu silêncio com a sua pregação e sua voz para confusão de Satanás e suas crias. Orígenes ensinou de modo privado as mulheres[13], então, por que motivo ele não tenta fazer o mesmo, sendo que ele pode e deve fazê-lo? E ainda mais quando o povo está necessitado e sedento. Rogo a você que não deixe se vencer por desculpas. Redigirá textos formosos que é algo que lhe é conveniente. Não há motivo para ambicioná-lo, mas tem que ser insistentemente chamado pela igreja, inclusive até solicitado para que este serviço e faça não o que seja útil para ele, senão que o que proveitoso para muitos. Ainda te suplico: coloque maior diligência em fixa-lo, ajudando-o com amigos que juntos possam apoiá-lo.
E adeus. Lembre-se de mim diante o Senhor.
Do deserto,[14] dia seguinte à natividade de Maria, 1521. Teu Martinus Luther.
NOTAS:
[1] WA Br 2, 387-389.
[2] Capitão a esta altura era um dos humanistas que se aproximava de Erasmo em Basiléia.
[3] Jó 40:15ss.
[4] 1 Co 4:20.
[5] Jr 48:10.
[6] 1 Rs 18:20ss.
[7] Irmão de Frederico, o Sábio.
[8] Mt 26:41.
[9] Sl 112:10.
[10] Felipe Melanchthon.
[11] Lutero pensa na liberdade da palavra de Deus, da pregação, e no sacerdócio universal dos crentes.
[12] Lucas Cranach, o célebre pintor, e Cristian Düring, o mais conhecido e talvez o maior impressor de Wittenberg, ambos seus amigos.
[13] Jerônimo, De viris illustribus, 54 (ML 23, 699).
[14] Denominação que ele aplica aos seus retiros forçados, agora em Warturb, logo (1530) nas cartas de Coburgo.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), p. 388-390.
Tradução em 5 de Janeiro de 2015.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
sábado, 31 de maio de 2014
Carta de Martinho Lutero a Johannes Staupitz [1521]
A Staupitz. 14 de Janeiro de 1521[1]
Jesus. Saudações. Quando estávamos em Augsburg[2], reverendíssimo pai, ao tratar deste meu assunto, e entre outras coisas, me disse: “não esqueça, irmão, que tudo você começou em nome de nosso Senhor Jesus Cristo.” Estas palavras as recebi não como faladas por você, mas proferidas por meio da sua pessoa, e as tenho gravadas em minha memória. Com estas mesmas palavras, suplico: “acorde também do que você me disse”. Este negócio se tornou num jogo até agora; ao presente a coisa está se tornando mais sério e, ao tom de suas palavras, se Deus não o completar, é impossível que chegue ao seu término. Ninguém pode colocar em dúvida que tudo se acha na mão do poderosíssimo Deus. Que de nós pode decidir aqui? O que pensarão os homens? É tão violento o tumulto que se levanta, que me parece não será possível aplacar até o dia final, que tanta é a animosidade a que de um lado, ou de outro chegou.
Ainda que emita excomunhões, queime livros e me mate, é fato, que o papado não se encontra na mesma situação que antes. Todos os sinais dizem que um grande portento está clamando às portas. Que afortunado seria o papa se empenhasse em compor a paz com bons meios, em vez de afrontar a questão tratando de eliminar a Lutero pelo redemoinho da violência! Queimei os livros e a bula papal[3], no princípio o fiz com medo e rezando, mas hoje estou contente de ter realizado, pelo que teria feito durante minha vida. São mais peçonhentos do que eu acreditava serem.
Emser, de Leipzig, escreveu em língua vernácula, motivado pelo duque George[4], que está furioso comigo, e que “respirando ameaças e morte”,[5] dispôs na mesma aula de forma impiedosa que tomassem medidas contra mim.
O imperador me convocou por carta dirigida ao príncipe. Ao recusar este, revogou aquele a primeira carta com outras. Somente Deus sabe o que sucederá[6].
O nosso vigário Wenceslao marchou para Nürnberg. Zschessius se encontra em Grimma e disse que partirá dali; Deus o conserve.[7]
Aqui tudo está florescendo como antes. Hutten apostilou a bula[8] com anotações saladísimas contra o papa e está preparando outras coisas sobre o mesmo. Os meus escritos foram queimados três vezes: em Lovaina, em Colônia e na Maguncia com grande desprezo e perigo dos que os queimaram. Até Tomás Murner[9] furioso escreveu contra mim. Esse asno descalço de Leipzig não me incomoda.[10]
Adeus, meu pai. Rogue pela palavra de Deus e por mim. Estou arrebatado e envolto nestas olas.
Wittenberg, dia de são Felix, 1521.
Martinus Lutherus, agostiniano.
NOTAS:
[1] WA Br 2, pp. 245-246.
[2] Na entrevista com Cajetano em Outubro de 1518 (cf. Conversas a Mesa).
[3] A queima pública e teatral da bula condenatória de sua doutrina (Exsurge Domine, de Leão X), assim como dos livros que representavam o direito e as tradições eclesiásticas e escolásticas ocorreu em 10 de Dezembro de 1520. (Os panfletos que distribuiu impressos, cf. em WA 6, pp. 597ss; 7, pp. 94ss. Uma narrativa vivida, por uma testemunha presente, em WA 7, pp. 184ss). H. Grisar, Zu Luthers Verbrennung der Bannbulle: Historisches Jahrbuch 42 (1922), pp. 266-276; J. Luther, Noch einmal Luthers Worte bei der Verbrennung der Bannbulle: Archiv für Reformationsgeschichte 45 (1954), pp. 260-265.
[4] A obra de referência escrita por Jerônimo Emser contra o Manifesto à nobreza. George da Saxônia será um inimigo próximo e perseguidor de Lutero, e sua universidade de Leipzig das mais hostis contra o reformador.
[5] Compare com At 9:1.
[6] Em relação com a Dieta de Worms, cf. a nossa introdução ao escrito 6 desta edição.
[7] Wenceslao Link, sucessor de Staupitz no cargo de superior de Lutero em 1520, três anos depois que aderiu a Reforma, na qual ele foi um elemento ativo. Wolgang Zeschau, abade do convento agostiniano de Grimma, também partidário de Lutero.
[8] Ulrich von Hutten (1488-1523), é um dos personagens mais caracterizados deste momento alemão. Apoiou a causa de Lutero por motivos políticos (nacionalistas), econômicos (talvez, também pelos religiosos), sendo que era um dos representantes dos cavaleiros prejudicados pela conjectura do novo capitalismo. Moveu – como bom humanista – bem os ressortes xenófobos contra Roma. Ademais de outros modos, lançou o panfleto de referência Bulla Decimi Leonis contra errores Martini Lutheri et sequatium. Sobre sua pessoa, atividade, etc., cf. a obra clássica de P. Kalkoff, Ulrich von Hutten und die Entscheidungsjahre der Reformation, Leipzig 1920, e a mais atual de K. Kleinschmidt, Ulrich von Hutten, Berlim 1955.
[9] Tomás Murner (1475-1537) um dos escritores satíricos antiluteranos de maior altura e genialidade. Entre outros escritos neste ano crítico a que Lutero alude, lançaria o que mais lhe deu fama, e o mais violento, em tom de epopeia Sobre os loucos luteranos (1522).
[10] Refere-se a Alfeld.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp.. 380-381.
Tradução com introdução em 31 de Maio de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
Jesus. Saudações. Quando estávamos em Augsburg[2], reverendíssimo pai, ao tratar deste meu assunto, e entre outras coisas, me disse: “não esqueça, irmão, que tudo você começou em nome de nosso Senhor Jesus Cristo.” Estas palavras as recebi não como faladas por você, mas proferidas por meio da sua pessoa, e as tenho gravadas em minha memória. Com estas mesmas palavras, suplico: “acorde também do que você me disse”. Este negócio se tornou num jogo até agora; ao presente a coisa está se tornando mais sério e, ao tom de suas palavras, se Deus não o completar, é impossível que chegue ao seu término. Ninguém pode colocar em dúvida que tudo se acha na mão do poderosíssimo Deus. Que de nós pode decidir aqui? O que pensarão os homens? É tão violento o tumulto que se levanta, que me parece não será possível aplacar até o dia final, que tanta é a animosidade a que de um lado, ou de outro chegou.
Ainda que emita excomunhões, queime livros e me mate, é fato, que o papado não se encontra na mesma situação que antes. Todos os sinais dizem que um grande portento está clamando às portas. Que afortunado seria o papa se empenhasse em compor a paz com bons meios, em vez de afrontar a questão tratando de eliminar a Lutero pelo redemoinho da violência! Queimei os livros e a bula papal[3], no princípio o fiz com medo e rezando, mas hoje estou contente de ter realizado, pelo que teria feito durante minha vida. São mais peçonhentos do que eu acreditava serem.
Emser, de Leipzig, escreveu em língua vernácula, motivado pelo duque George[4], que está furioso comigo, e que “respirando ameaças e morte”,[5] dispôs na mesma aula de forma impiedosa que tomassem medidas contra mim.
O imperador me convocou por carta dirigida ao príncipe. Ao recusar este, revogou aquele a primeira carta com outras. Somente Deus sabe o que sucederá[6].
O nosso vigário Wenceslao marchou para Nürnberg. Zschessius se encontra em Grimma e disse que partirá dali; Deus o conserve.[7]
Aqui tudo está florescendo como antes. Hutten apostilou a bula[8] com anotações saladísimas contra o papa e está preparando outras coisas sobre o mesmo. Os meus escritos foram queimados três vezes: em Lovaina, em Colônia e na Maguncia com grande desprezo e perigo dos que os queimaram. Até Tomás Murner[9] furioso escreveu contra mim. Esse asno descalço de Leipzig não me incomoda.[10]
Adeus, meu pai. Rogue pela palavra de Deus e por mim. Estou arrebatado e envolto nestas olas.
Wittenberg, dia de são Felix, 1521.
Martinus Lutherus, agostiniano.
NOTAS:
[1] WA Br 2, pp. 245-246.
[2] Na entrevista com Cajetano em Outubro de 1518 (cf. Conversas a Mesa).
[3] A queima pública e teatral da bula condenatória de sua doutrina (Exsurge Domine, de Leão X), assim como dos livros que representavam o direito e as tradições eclesiásticas e escolásticas ocorreu em 10 de Dezembro de 1520. (Os panfletos que distribuiu impressos, cf. em WA 6, pp. 597ss; 7, pp. 94ss. Uma narrativa vivida, por uma testemunha presente, em WA 7, pp. 184ss). H. Grisar, Zu Luthers Verbrennung der Bannbulle: Historisches Jahrbuch 42 (1922), pp. 266-276; J. Luther, Noch einmal Luthers Worte bei der Verbrennung der Bannbulle: Archiv für Reformationsgeschichte 45 (1954), pp. 260-265.
[4] A obra de referência escrita por Jerônimo Emser contra o Manifesto à nobreza. George da Saxônia será um inimigo próximo e perseguidor de Lutero, e sua universidade de Leipzig das mais hostis contra o reformador.
[5] Compare com At 9:1.
[6] Em relação com a Dieta de Worms, cf. a nossa introdução ao escrito 6 desta edição.
[7] Wenceslao Link, sucessor de Staupitz no cargo de superior de Lutero em 1520, três anos depois que aderiu a Reforma, na qual ele foi um elemento ativo. Wolgang Zeschau, abade do convento agostiniano de Grimma, também partidário de Lutero.
[8] Ulrich von Hutten (1488-1523), é um dos personagens mais caracterizados deste momento alemão. Apoiou a causa de Lutero por motivos políticos (nacionalistas), econômicos (talvez, também pelos religiosos), sendo que era um dos representantes dos cavaleiros prejudicados pela conjectura do novo capitalismo. Moveu – como bom humanista – bem os ressortes xenófobos contra Roma. Ademais de outros modos, lançou o panfleto de referência Bulla Decimi Leonis contra errores Martini Lutheri et sequatium. Sobre sua pessoa, atividade, etc., cf. a obra clássica de P. Kalkoff, Ulrich von Hutten und die Entscheidungsjahre der Reformation, Leipzig 1920, e a mais atual de K. Kleinschmidt, Ulrich von Hutten, Berlim 1955.
[9] Tomás Murner (1475-1537) um dos escritores satíricos antiluteranos de maior altura e genialidade. Entre outros escritos neste ano crítico a que Lutero alude, lançaria o que mais lhe deu fama, e o mais violento, em tom de epopeia Sobre os loucos luteranos (1522).
[10] Refere-se a Alfeld.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp.. 380-381.
Tradução com introdução em 31 de Maio de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
terça-feira, 8 de abril de 2014
Carta de Martinho Lutero à Johannes Staupitz [1519]
A Staupitz. 20 de Fevereiro de 1519[1]
Ao reverendo e excelentíssimo padre Johan Staupitz, vigário dos Ermitões de Santo Agostinho, e no culto de Cristo, o seu patrono e superior.
Jesus. Saudações. Reverendo padre: Ainda que esteja tão longe de mim e tão calado que não me escreva as esperadíssimas cartas, me atreverei a quebrar o silêncio.[2] Desejo – bem como desejam todos – que te deixes ver alguma vez nesta situação afligida pelas pragas do céu. Espero haver chegado até você as minhas Atas[3], ou seja, a cólera e a indignação de Roma. Deus não somente me conduz, me arrebata, como também me empurra; não estou em minha sensatez: quero estar tranquilo e todavia, me vejo pressionado no fragor dos tumultos.
Carlos Miltitz entrevistou-me em Altenburg[4]. Estava queixoso de que eu tinha ganho a todos para a minha causa e os afastado do papa. Da exploração que fiz em todas as hospedagens deduzi que apenas dois a cada cinco estavam a favor de Roma. Depois, na corte do príncipe, informei-me que vinha armado com setenta breves apostólicos a fim de conduzir-me preso para a Jerusalém homicida, a essa Babilônica de púrpura.[5] Quando desesperou-se neste projeto começou a tratar de que eu restituísse à igreja romana o que lhe havia roubado, e se empenhou em convencer-me que eu me retratasse. Ao rogar-lhe que me indicasse no que tinha que retratar-me, por fim, nos convencemos em remeter a causa a alguns bispos. Propus-lhe o arcebispo de Salzburg, bem como ao de Tréveres e ao de Freising. Pela tarde fui convidado, estivemos alegres na comida e nos separamos depois de haver me dado um ósculo. Comportei-me como se não estivesse consciente dessas italianidades e simulações. Também convocou a Tetzel e lhe repreendeu. Em Leipzig, por fim, o convenceu de que gozasse de uma estupenda mensalidade de noventa florins e mais três empregados e uma carruagem livre de todo custo. Então, Tetzel desapareceu; ninguém – talvez, a exceção de seus progenitores – sabe para onde ele se foi.[6]
Eck, meu homem astuto, quer arrastar-me para novas disputas, como pode ver no que te adjunto. Desta maneira, Deus cuida em manter-me andando ocupado. Mas, se é a vontade de Cristo, desta disputa nada de bom poderá saldar para os direitos e usos de Roma, que são o cetro em que Eck se apoia.[7]
Eu gostaria que visse os meus livretos impressos em Basiléia[8] e que confrontasse o que os eruditos opinam sobre mim, sobre Eck, sobre Silvestre e sobre os teólogos escolásticos. Equivocando-se deliberadamente, com muitíssimo gracejo, chamam Silvestre (além de outras coisas cheias de humor) de magiro de palácio, em lugar de mestre de palácio (magiro em grego significa cozinheiro)[9]. Isto cairá mal aos heróis romanos. Rogo a ti: reze por mim. Confio com firmeza que o Senhor forçará ao teu coração para cuidar de mim. Sou um homem que está em perigo e empurrado à sociedade, ao deboche, ao desprezo, a negligência e outras moléstias, além das que me oprimem por ofício.
Por fim, se aproximam os de Leipzig para a disputa com Eck. Acusam-me de ser imprudente por escrever que rejeitava e reclamam que cante a palinódia num escrito pessoal. Mas fui assegurado pelo duque George[10] de que eles haviam recusado antecipadamente e eu disse a eles em duas ocasiões que o seu decano havia recusado anteriormente a minha petição, como na realidade o fez. Desta maneira tão baixa quer esta gente impedir tal disputa; mas, o duque George continua urgindo-a.
Adeus, boníssimo padre. 20 de Fevereiro de 1519. Fr. Martinus Lutherus, agostiniano.
NOTAS:
[1] WA 1, pp. 344-345. Nota de Teófanes Egido.
[2] Johannes Staupitz para não se comprometer, associando-se de algum modo, com Lutero, evita inclusive responder as várias cartas enviadas por Lutero, em que o reformador alemão solicita conselhos, posicionamento e coerência com o evangelho que primeiramente ele viu em seu tutor. Veja nas outras cartas traduzidas os insistentes pedidos de resposta de Lutero. Nota do tradutor.
[3] Lutero se refere às Atas Augustana (WA 2, 1ss), onde narra a célebre entrevista com Cajetano (cf. Conversas à Mesa, n. 9-10 desta edição). Nota de Teófanes Egido.
[4] Sobre os contatos do legado de Miltitz e Lutero neste tempo e a desafortunada intervenção do primeiro, cf. a nossa introdução ao Tratado sobre a liberdade cristã, escrito 5 desta edição. Sobre a entrevista aludida por Lutero, cf. H. Boehmer, Der junge Luther, ed. de H. BornKamm, Leipzig 1952, pp. 207ss. Nota de Teófanes Egido.
[5] É interessante notar que Lutero usa uma linguagem apocalíptica condenatória contra a Igreja Romana, bem como contra ao papa. Nota do tradutor.
[6] Johannes Tetzel (1465-1519) pregador da indulgência que desencadeou o primeiro protesto público de Lutero em 1517 (veja as 95 Teses). Sobre a alusão da carta e o histórico do dominicano, cf. N. Paulus, Johann Tetzel der Ablassprâdiger, Mainz 1899, pp. 71ss. Nota de Teófanes Egido.
[7] Refere às teses impressas por Eck (WA 2, p. 154) com vistas à disputa que em Leipzig lhe enfretaria com Karlstadt e Lutero. Eck foi sem dúvidas o mais formidável e um dos melhores e mais preparados debatedores contra Lutero. Nota de Teófanes Egido.
[8] Os seus primeiros escritos latinos surgem editados em Outubro de 1518, na impressa de Froben (Basiléia), numa edição feita sema autorização de Lutero. Nota de Teófanes Egido.
[9] Silvestre Prierias (1456-1523), um dos primeiros rivais de Lutero, sem a grandeza de Eck. O livro Diálogo equivocadamente da capa do livro, cf. WA 1, p. 645. Nota de Teófanes Egido.
[10] O duque George Spalatino da Saxônia. Nota do tradutor.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), p. 377-378.
Tradução em 8 de Abril de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
Ao reverendo e excelentíssimo padre Johan Staupitz, vigário dos Ermitões de Santo Agostinho, e no culto de Cristo, o seu patrono e superior.
Jesus. Saudações. Reverendo padre: Ainda que esteja tão longe de mim e tão calado que não me escreva as esperadíssimas cartas, me atreverei a quebrar o silêncio.[2] Desejo – bem como desejam todos – que te deixes ver alguma vez nesta situação afligida pelas pragas do céu. Espero haver chegado até você as minhas Atas[3], ou seja, a cólera e a indignação de Roma. Deus não somente me conduz, me arrebata, como também me empurra; não estou em minha sensatez: quero estar tranquilo e todavia, me vejo pressionado no fragor dos tumultos.
Carlos Miltitz entrevistou-me em Altenburg[4]. Estava queixoso de que eu tinha ganho a todos para a minha causa e os afastado do papa. Da exploração que fiz em todas as hospedagens deduzi que apenas dois a cada cinco estavam a favor de Roma. Depois, na corte do príncipe, informei-me que vinha armado com setenta breves apostólicos a fim de conduzir-me preso para a Jerusalém homicida, a essa Babilônica de púrpura.[5] Quando desesperou-se neste projeto começou a tratar de que eu restituísse à igreja romana o que lhe havia roubado, e se empenhou em convencer-me que eu me retratasse. Ao rogar-lhe que me indicasse no que tinha que retratar-me, por fim, nos convencemos em remeter a causa a alguns bispos. Propus-lhe o arcebispo de Salzburg, bem como ao de Tréveres e ao de Freising. Pela tarde fui convidado, estivemos alegres na comida e nos separamos depois de haver me dado um ósculo. Comportei-me como se não estivesse consciente dessas italianidades e simulações. Também convocou a Tetzel e lhe repreendeu. Em Leipzig, por fim, o convenceu de que gozasse de uma estupenda mensalidade de noventa florins e mais três empregados e uma carruagem livre de todo custo. Então, Tetzel desapareceu; ninguém – talvez, a exceção de seus progenitores – sabe para onde ele se foi.[6]
Eck, meu homem astuto, quer arrastar-me para novas disputas, como pode ver no que te adjunto. Desta maneira, Deus cuida em manter-me andando ocupado. Mas, se é a vontade de Cristo, desta disputa nada de bom poderá saldar para os direitos e usos de Roma, que são o cetro em que Eck se apoia.[7]
Eu gostaria que visse os meus livretos impressos em Basiléia[8] e que confrontasse o que os eruditos opinam sobre mim, sobre Eck, sobre Silvestre e sobre os teólogos escolásticos. Equivocando-se deliberadamente, com muitíssimo gracejo, chamam Silvestre (além de outras coisas cheias de humor) de magiro de palácio, em lugar de mestre de palácio (magiro em grego significa cozinheiro)[9]. Isto cairá mal aos heróis romanos. Rogo a ti: reze por mim. Confio com firmeza que o Senhor forçará ao teu coração para cuidar de mim. Sou um homem que está em perigo e empurrado à sociedade, ao deboche, ao desprezo, a negligência e outras moléstias, além das que me oprimem por ofício.
Por fim, se aproximam os de Leipzig para a disputa com Eck. Acusam-me de ser imprudente por escrever que rejeitava e reclamam que cante a palinódia num escrito pessoal. Mas fui assegurado pelo duque George[10] de que eles haviam recusado antecipadamente e eu disse a eles em duas ocasiões que o seu decano havia recusado anteriormente a minha petição, como na realidade o fez. Desta maneira tão baixa quer esta gente impedir tal disputa; mas, o duque George continua urgindo-a.
Adeus, boníssimo padre. 20 de Fevereiro de 1519. Fr. Martinus Lutherus, agostiniano.
NOTAS:
[1] WA 1, pp. 344-345. Nota de Teófanes Egido.
[2] Johannes Staupitz para não se comprometer, associando-se de algum modo, com Lutero, evita inclusive responder as várias cartas enviadas por Lutero, em que o reformador alemão solicita conselhos, posicionamento e coerência com o evangelho que primeiramente ele viu em seu tutor. Veja nas outras cartas traduzidas os insistentes pedidos de resposta de Lutero. Nota do tradutor.
[3] Lutero se refere às Atas Augustana (WA 2, 1ss), onde narra a célebre entrevista com Cajetano (cf. Conversas à Mesa, n. 9-10 desta edição). Nota de Teófanes Egido.
[4] Sobre os contatos do legado de Miltitz e Lutero neste tempo e a desafortunada intervenção do primeiro, cf. a nossa introdução ao Tratado sobre a liberdade cristã, escrito 5 desta edição. Sobre a entrevista aludida por Lutero, cf. H. Boehmer, Der junge Luther, ed. de H. BornKamm, Leipzig 1952, pp. 207ss. Nota de Teófanes Egido.
[5] É interessante notar que Lutero usa uma linguagem apocalíptica condenatória contra a Igreja Romana, bem como contra ao papa. Nota do tradutor.
[6] Johannes Tetzel (1465-1519) pregador da indulgência que desencadeou o primeiro protesto público de Lutero em 1517 (veja as 95 Teses). Sobre a alusão da carta e o histórico do dominicano, cf. N. Paulus, Johann Tetzel der Ablassprâdiger, Mainz 1899, pp. 71ss. Nota de Teófanes Egido.
[7] Refere às teses impressas por Eck (WA 2, p. 154) com vistas à disputa que em Leipzig lhe enfretaria com Karlstadt e Lutero. Eck foi sem dúvidas o mais formidável e um dos melhores e mais preparados debatedores contra Lutero. Nota de Teófanes Egido.
[8] Os seus primeiros escritos latinos surgem editados em Outubro de 1518, na impressa de Froben (Basiléia), numa edição feita sema autorização de Lutero. Nota de Teófanes Egido.
[9] Silvestre Prierias (1456-1523), um dos primeiros rivais de Lutero, sem a grandeza de Eck. O livro Diálogo equivocadamente da capa do livro, cf. WA 1, p. 645. Nota de Teófanes Egido.
[10] O duque George Spalatino da Saxônia. Nota do tradutor.
Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), p. 377-378.
Tradução em 8 de Abril de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
terça-feira, 25 de março de 2014
Carta Martinho Lutero a Johannes Staupitz [1518]
31 de Março de 1518[1]
A seu pai e superior em Cristo.
Jesus. Meu pai no Senhor: ao andar ocupado em tantas coisas me vejo forçado a comunicar-lhe pouquíssimas outras. Em primeiro lugar, creio que meu nome fede para muitos. Há algum tempo muitas pessoas boas atribuem-me condenar os rosários, coroas, ofícios fúnebres, e outras orações e até qualquer boa obra. O mesmo ocorreu a são Paulo, a quem imputavam ter declarado “façamos o mal para que o bem aconteça”.[2] O que ensino, continua sendo a teologia de Tauler e do livreto de Christian Aurifaber que você mesmo editaste, é que os homens depositem a sua confiança, não em orações, nem em méritos, nem nas próprias obras, mas, somente em Jesus Cristo, porque não nos salvaremos por correr, mas pela misericórdia de Deus.[3] Desta minha preocupação, eles tiram veneno que, como você pode ver, andam espalhando. Mas o mesmo que não comecei, tão pouco retrocederei em meu empenho movido pela fama ou pela infâmia. Deus haver de julgar.
Esses mesmos doutores escolásticos atiçam o ódio contra mim, tanto em força como em fervor, de seu zelo e estão a ponto de enlouquecer, pela simples razão de que antes que a eles, eu prefiro aos escritores escolásticos e a Bíblia. E é que leio aos escolásticos com discrição, não com olhos fechados (como é seu costume), sendo que o apóstolo preceituou “provai tudo, e retende o que é bom”.[4] Não os rejeito em tudo, nem tão pouco, os aprovo em tudo. Estes tagarelas costumam tomar a parte pelo todo, a converter a faísca em incêndio, e a mosca em elefante. Graças a Deus não me causam preocupação, nem mesmo os menores destes fantasmas. É puro palavreado e não passarão disso. Se foi permitido a Scotus, Gabriel e a outros semelhantes discordar de são Tomás, e se aos tomistas não lhes está vedado contradizer a tudo o que se ponha adiante, nem que entre eles existam tantas divisões como cabeças, ou inclusive como crinas de cada cabeça, por quê não me concederiam o meu esgrimir contra eles o mesmo direito que arrogam contra si? Se Deus agir, ninguém poderá impedi-lo, ninguém poderá levantá-lo se está descansando.
Adeus e rogue por mim, e pela verdade divina onde quer a encontre.
Wittenberg, 31 de Março de 1518. Fr. M. Eleutherius, agostiniano.
NOTAS:
[1] WA Br 1, 160. Johannes de Staupitz (falecido em 1524), vicário geral de Lutero agostiniano, é um personagem presente desde os seus primeiros anos na religião, como representante da bondade compreensiva. Lutero sempre lhe foi agradecido, mas não conseguiu envolve-lo na Reforma. Ver cartas seguintes e, em especial, a que Lutero lhe escreveu em 17 de Setembro de 1523. Cf. D.C. Steinmetz, Misericordia Dei. The Theology os Johannes Staupiz, Leiden 1968.
[2] Rm 3:8.
[3] Rm 9:16.
[4] 1 Ts 5:21.
Traduzido de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 376-377.
Tradução em 22 de Fevereiro de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
A seu pai e superior em Cristo.
Jesus. Meu pai no Senhor: ao andar ocupado em tantas coisas me vejo forçado a comunicar-lhe pouquíssimas outras. Em primeiro lugar, creio que meu nome fede para muitos. Há algum tempo muitas pessoas boas atribuem-me condenar os rosários, coroas, ofícios fúnebres, e outras orações e até qualquer boa obra. O mesmo ocorreu a são Paulo, a quem imputavam ter declarado “façamos o mal para que o bem aconteça”.[2] O que ensino, continua sendo a teologia de Tauler e do livreto de Christian Aurifaber que você mesmo editaste, é que os homens depositem a sua confiança, não em orações, nem em méritos, nem nas próprias obras, mas, somente em Jesus Cristo, porque não nos salvaremos por correr, mas pela misericórdia de Deus.[3] Desta minha preocupação, eles tiram veneno que, como você pode ver, andam espalhando. Mas o mesmo que não comecei, tão pouco retrocederei em meu empenho movido pela fama ou pela infâmia. Deus haver de julgar.
Esses mesmos doutores escolásticos atiçam o ódio contra mim, tanto em força como em fervor, de seu zelo e estão a ponto de enlouquecer, pela simples razão de que antes que a eles, eu prefiro aos escritores escolásticos e a Bíblia. E é que leio aos escolásticos com discrição, não com olhos fechados (como é seu costume), sendo que o apóstolo preceituou “provai tudo, e retende o que é bom”.[4] Não os rejeito em tudo, nem tão pouco, os aprovo em tudo. Estes tagarelas costumam tomar a parte pelo todo, a converter a faísca em incêndio, e a mosca em elefante. Graças a Deus não me causam preocupação, nem mesmo os menores destes fantasmas. É puro palavreado e não passarão disso. Se foi permitido a Scotus, Gabriel e a outros semelhantes discordar de são Tomás, e se aos tomistas não lhes está vedado contradizer a tudo o que se ponha adiante, nem que entre eles existam tantas divisões como cabeças, ou inclusive como crinas de cada cabeça, por quê não me concederiam o meu esgrimir contra eles o mesmo direito que arrogam contra si? Se Deus agir, ninguém poderá impedi-lo, ninguém poderá levantá-lo se está descansando.
Adeus e rogue por mim, e pela verdade divina onde quer a encontre.
Wittenberg, 31 de Março de 1518. Fr. M. Eleutherius, agostiniano.
NOTAS:
[1] WA Br 1, 160. Johannes de Staupitz (falecido em 1524), vicário geral de Lutero agostiniano, é um personagem presente desde os seus primeiros anos na religião, como representante da bondade compreensiva. Lutero sempre lhe foi agradecido, mas não conseguiu envolve-lo na Reforma. Ver cartas seguintes e, em especial, a que Lutero lhe escreveu em 17 de Setembro de 1523. Cf. D.C. Steinmetz, Misericordia Dei. The Theology os Johannes Staupiz, Leiden 1968.
[2] Rm 3:8.
[3] Rm 9:16.
[4] 1 Ts 5:21.
Traduzido de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 376-377.
Tradução em 22 de Fevereiro de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
quinta-feira, 20 de março de 2014
Carta de Martinho Lutero a Johannes Staupitz [1521]
Ao reverendo e excelentíssimo Johannes Staupitz, mestre na sagrada teologia, agostiniano ermitão, seu primogênito no Senhor.[1]
Saudações.
Admira-me que as minhas cartas e meus livros não tenham chegado ainda às tuas mãos, como deduzo de ti. Pregando aos demais, estou desqualificando a mim mesmo,[2] que até tal extremo me aliena o trato com os humanos. Porque te adjunto poderás ter uma ideia do espírito com que trato a Palavra de Deus. Nada se fez ainda em Worms contra mim, considerando que os papistas andam maquinando desígnios perniciosos com invejável furor. Spalatino escreveu-me dizendo que o evangelho goza ali de grande aceitação, que espera que não me condenem sem antes escutarem e serem convencidos.
Em Leipzig, sem nenhum tipo de inibição, Emser escreveu contra mim acusações que são coletâneas de mentiras desde o princípio até o fim. Percebo que preciso dar uma resposta a este monstruoso projeto do duque George, que é quem nutre a loucura do autor.[3]
Não me incomoda a notícia de que Leão X[4] também se voltou contra ti. Desta sorte, poderás erigir para exemplo do mundo a cruz que tanto pregaste. Não gostaria que o lobo se contentasse com tua resposta na que lhe concedes mais do que é justo; o interpretará como se renegasses de mim e de tudo o que é meu, ao declarar que te vem a submeter a seu juízo. Por isso, se Cristo te ama, te obrigará a reconvocação deste escrito, sendo que nessa bula se condenou tudo o que ensinas e aprazes. Como nada disto te és desconhecido, parece-me que ofendes a Cristo, pois aceitas como juiz aquele que é um furioso inimigo de Cristo, a quem se desenfreia contra a palavra da graça. Terias que afirmar isto, e repreendê-lo por esta impiedade. Que não é motivo para andar com medo, senão que deves responder, neste tempo em que nosso Senhor Jesus Cristo se vê condenado, despojado e blasfemado. Na mesma medida em que me exortas à humildade, eu exorto a tua soberba; tua humildade é tão excessiva, como excessiva é minha soberba.
Mas, a situação é séria. Vemos que Cristo está sofrendo. Se antes foi preciso calar, agora, quando o próprio boníssimo Salvador que se entregou a si mesmo por nós, padecendo ignomínia por todo o mundo, não lutaremos por ele, não ariscaremos o nosso pescoço? Meu pai, que é muito mais grave o perigo do que muitos pensam; começa a entrar no vigor do evangelho: “o que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu pai, mas me envergonharei do que de mim se envergonhar.”[5]
Que pensem que eu seja soberbo, avarento, adúltero, homicida, contra o Papa e réu de todos os vícios, com tanto que não podem arguir de calar impiamente enquanto o Senhor sofre e diz: “não há escapatória para mim; não há quem cuide de meu espírito; olhava a minha direita e ninguém me reconhecia.”[6] Tenho a confiança de que esta confissão me perdoará todos os meus pecados. Que por este motivo lancei confiado contra esse ídolo e verdadeiro anticristo de Roma. A palavra de Cristo não é palavra de paz, senão que palavra de espada.[7] Entretanto, o que direi, “miserável eu sou, Minerva?”.[8]
Estas coisas escrevo a ti, em confiança, porque muito temo que te coloques como mediador entre Cristo e o Papa, e que vejas o quão violentamente contrário eles são entre si. Roguemos para que o Senhor Jesus com o sopro de sua boca destrua sem tardar a este filho da perdição.[9] Se não queres vir após mim, deixe que eu marche e me retire. Não deixarei, pela graça de Deus, a tarefa de jogar na cara as atrocidades deste monstro.
De fato, que me enche de tristeza esta tua submissão, que me revela a um Staupitz tão diferente daquele pregador da graça e da cruz. Não teria sofrido se tivesses atuado desta forma antes da promulgação da bula e da ignomínia feita a Cristo.
Hutten e muitos outros escrevem com força a meu favor e estão preparando canções que farão pouca graça a esta Babilônia.[10] Nosso príncipe atua com tanta prudência e fidelidade como com constância. Por seu mandato o edito dessas declarações foram publicadas en latim e alemão.[11]
Saúda-te Felipe[12] e roga para que cresça o teu ânimo. Por favor, dê saudações ao médico Ludovico[13] que me escreveu com tanto conhecimento. Não tive tempo para responder-lhe, pois tenho só trabalhando para mim. Adeus no Senhor e ore por mim.
Wittenberg, Dia de santa Apolônia, 1521.[14]
Teu filho Martinus Lutherus.
NOTAS:
[1] Johannes Staupitz foi o tutor de Lutero e quem incentivou o futuro reformador aos estudos. Nesta carta Lutero reclama do silêncio de seu antigo mestre, em não comentar os livros que havia lhe enviado, nem se posicionar em relação ao movimento de reforma e das bula papal emitida. Nota do tradutor.
[2] 1 Co 9:27. Nota de Teófanes Egido.
[3] Veja a carta 6, nota 4. Nota de Teófanes Egido.
[4] Leão X, por meio do Arcebispo Matthew Lang de Salzburg, exigiu a Staupitz que declarasse como heréticas as doutrinas de seu súdito, Frei Martinho Lutero. Nota de Teófanes Egido.
[5] Mt 10:32; Lv 9:26. Nota de Teófanes Egido.
[6] Sl 142:5. Nota de Teófanes Egido.
[7] Mt 10:34. Nota de Teófanes Egido.
[8] Ditado por Erasmo, Adagia I, 1, 40. Nota de Teófanes Egido.
[9] 2 Ts 2:3 e 8. Nota de Teófanes Egido.
[10] É interessante observar a influência da opinião pública nesta fase da Reforma (ver carta 6, nota 8).
[11] Assertio omnium articulorum M. Lutheri per bullam Leonis X novissimam, damnatorum: WA 7, 94-151.
[12] Felipe Melanchthon (ver carta 9, nota 1). Nota de Teófanes Egido.
[13] Equivocadamente chama de Ludovico, o médico do arcebispo de Salzburg, cujo verdadeiro nome era Leonard Schmaus. Nota de Teófanes Egido.
[14] Data equivale a 9 de Fevereiro de 1521. Nota do tradutor.
Esta carta foi originalmente traduzida para o espanhol da versão revisada à luz dos dados da edição crítica de Weimar (Briefwechsel 1930 1970, WA Br 2, 263-264), em 14 volumes. Traduzido de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 381-383.
Tradução com introdução e notas em 13 de Fevereiro de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
Saudações.
Admira-me que as minhas cartas e meus livros não tenham chegado ainda às tuas mãos, como deduzo de ti. Pregando aos demais, estou desqualificando a mim mesmo,[2] que até tal extremo me aliena o trato com os humanos. Porque te adjunto poderás ter uma ideia do espírito com que trato a Palavra de Deus. Nada se fez ainda em Worms contra mim, considerando que os papistas andam maquinando desígnios perniciosos com invejável furor. Spalatino escreveu-me dizendo que o evangelho goza ali de grande aceitação, que espera que não me condenem sem antes escutarem e serem convencidos.
Em Leipzig, sem nenhum tipo de inibição, Emser escreveu contra mim acusações que são coletâneas de mentiras desde o princípio até o fim. Percebo que preciso dar uma resposta a este monstruoso projeto do duque George, que é quem nutre a loucura do autor.[3]
Não me incomoda a notícia de que Leão X[4] também se voltou contra ti. Desta sorte, poderás erigir para exemplo do mundo a cruz que tanto pregaste. Não gostaria que o lobo se contentasse com tua resposta na que lhe concedes mais do que é justo; o interpretará como se renegasses de mim e de tudo o que é meu, ao declarar que te vem a submeter a seu juízo. Por isso, se Cristo te ama, te obrigará a reconvocação deste escrito, sendo que nessa bula se condenou tudo o que ensinas e aprazes. Como nada disto te és desconhecido, parece-me que ofendes a Cristo, pois aceitas como juiz aquele que é um furioso inimigo de Cristo, a quem se desenfreia contra a palavra da graça. Terias que afirmar isto, e repreendê-lo por esta impiedade. Que não é motivo para andar com medo, senão que deves responder, neste tempo em que nosso Senhor Jesus Cristo se vê condenado, despojado e blasfemado. Na mesma medida em que me exortas à humildade, eu exorto a tua soberba; tua humildade é tão excessiva, como excessiva é minha soberba.
Mas, a situação é séria. Vemos que Cristo está sofrendo. Se antes foi preciso calar, agora, quando o próprio boníssimo Salvador que se entregou a si mesmo por nós, padecendo ignomínia por todo o mundo, não lutaremos por ele, não ariscaremos o nosso pescoço? Meu pai, que é muito mais grave o perigo do que muitos pensam; começa a entrar no vigor do evangelho: “o que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu pai, mas me envergonharei do que de mim se envergonhar.”[5]
Que pensem que eu seja soberbo, avarento, adúltero, homicida, contra o Papa e réu de todos os vícios, com tanto que não podem arguir de calar impiamente enquanto o Senhor sofre e diz: “não há escapatória para mim; não há quem cuide de meu espírito; olhava a minha direita e ninguém me reconhecia.”[6] Tenho a confiança de que esta confissão me perdoará todos os meus pecados. Que por este motivo lancei confiado contra esse ídolo e verdadeiro anticristo de Roma. A palavra de Cristo não é palavra de paz, senão que palavra de espada.[7] Entretanto, o que direi, “miserável eu sou, Minerva?”.[8]
Estas coisas escrevo a ti, em confiança, porque muito temo que te coloques como mediador entre Cristo e o Papa, e que vejas o quão violentamente contrário eles são entre si. Roguemos para que o Senhor Jesus com o sopro de sua boca destrua sem tardar a este filho da perdição.[9] Se não queres vir após mim, deixe que eu marche e me retire. Não deixarei, pela graça de Deus, a tarefa de jogar na cara as atrocidades deste monstro.
De fato, que me enche de tristeza esta tua submissão, que me revela a um Staupitz tão diferente daquele pregador da graça e da cruz. Não teria sofrido se tivesses atuado desta forma antes da promulgação da bula e da ignomínia feita a Cristo.
Hutten e muitos outros escrevem com força a meu favor e estão preparando canções que farão pouca graça a esta Babilônia.[10] Nosso príncipe atua com tanta prudência e fidelidade como com constância. Por seu mandato o edito dessas declarações foram publicadas en latim e alemão.[11]
Saúda-te Felipe[12] e roga para que cresça o teu ânimo. Por favor, dê saudações ao médico Ludovico[13] que me escreveu com tanto conhecimento. Não tive tempo para responder-lhe, pois tenho só trabalhando para mim. Adeus no Senhor e ore por mim.
Wittenberg, Dia de santa Apolônia, 1521.[14]
Teu filho Martinus Lutherus.
NOTAS:
[1] Johannes Staupitz foi o tutor de Lutero e quem incentivou o futuro reformador aos estudos. Nesta carta Lutero reclama do silêncio de seu antigo mestre, em não comentar os livros que havia lhe enviado, nem se posicionar em relação ao movimento de reforma e das bula papal emitida. Nota do tradutor.
[2] 1 Co 9:27. Nota de Teófanes Egido.
[3] Veja a carta 6, nota 4. Nota de Teófanes Egido.
[4] Leão X, por meio do Arcebispo Matthew Lang de Salzburg, exigiu a Staupitz que declarasse como heréticas as doutrinas de seu súdito, Frei Martinho Lutero. Nota de Teófanes Egido.
[5] Mt 10:32; Lv 9:26. Nota de Teófanes Egido.
[6] Sl 142:5. Nota de Teófanes Egido.
[7] Mt 10:34. Nota de Teófanes Egido.
[8] Ditado por Erasmo, Adagia I, 1, 40. Nota de Teófanes Egido.
[9] 2 Ts 2:3 e 8. Nota de Teófanes Egido.
[10] É interessante observar a influência da opinião pública nesta fase da Reforma (ver carta 6, nota 8).
[11] Assertio omnium articulorum M. Lutheri per bullam Leonis X novissimam, damnatorum: WA 7, 94-151.
[12] Felipe Melanchthon (ver carta 9, nota 1). Nota de Teófanes Egido.
[13] Equivocadamente chama de Ludovico, o médico do arcebispo de Salzburg, cujo verdadeiro nome era Leonard Schmaus. Nota de Teófanes Egido.
[14] Data equivale a 9 de Fevereiro de 1521. Nota do tradutor.
Esta carta foi originalmente traduzida para o espanhol da versão revisada à luz dos dados da edição crítica de Weimar (Briefwechsel 1930 1970, WA Br 2, 263-264), em 14 volumes. Traduzido de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 381-383.
Tradução com introdução e notas em 13 de Fevereiro de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.
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