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quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Carta de Calvino para Farel [1541]

CALVINO EM BERNA – SUA ENTREVISTA COM UM DOS PRINCIPAIS MAGISTRADOS, E COM OS MINISTROS DAQUELA CIDADE.
MORAT, Setembro de 1541[1]

Assim que cheguei em Berna, apresentei minha carta ao vice-cônsul. Ao lê-la, ele disse: Os de Estrasburgo e Basileia pedem que um salvo-conduto seja concedido a você. Eu respondi que tal requerimento era supérfluo, porque eu nem era um malfeitor, nem estava em um território de completos inimigos. Então eu expliquei o que eles podiam facilmente ter entendido. O Conselho, no entanto, por ignorância grosseira, entendeu assim, como se tivesse sido escrita em referência a uma escolta. O estado da minha saúde impediu minha espera no Senado pessoalmente; nem pareceu-me que isso valeria a pena. Em seguida eu me desculpei com o Vice-Cônsul, quando ele perguntou por que eu não tinha vindo pessoalmente. O Senado retornou em resposta, de que eu não precisava de proteção pública em um cantão pacífico, e que em outros aspectos eles estariam mais que prontos para me auxiliar. Veja que zombaria. Eu encontrei muitas provas de gentileza entre os irmãos. Konzen estava ausente. Erasmo e Sulzer em seus próprios nomes e de outros, aprovaram a minha declaração e livremente prometeram seu auxílio e favor. Sulzer, além de outros, conversou comigo de modo familiar sobre vários pontos. Parece-me que nós devemos fazer o possível para garantir sua cooperação; será de grande utilidade, e ele se mostrou bem disposto. Eu não me esqueci, como você possa supor, de interceder pela causa de seu interesse. Uma comitiva foi enviada.[2] Eu não consegui obter mais; e Giron declarou que seria sem propósito insistir ainda mais nesse assunto. O Senhor, no entanto, não tem necessidade alguma de tal conselho ou proteção. Adeus, com todos os irmãos. – Seu,

João Calvino

[Autógrafo original em latim. -- Biblioteca de Genebra. Volume 106.]

NOTAS:
[1] Após uma curta visita a Berne, Calvino, em Morat, escreveu a Farel para informá-lo sobre alguns dos incidentes de sua viagem.
[2] Essa comitiva tinha ido solicitar o favor do rei Francisco I, pelos valdenses da Provência.

Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana Filadélfia em Marabá-PA; cursando mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo CPAJ – Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Carta de João Calvino a Martin Bucer [1532]

CARTA 7
RECOMENDAÇÃO DE UM REFUGIADO FRANCÊS EM ESTRASBURGO, QUE TINHA SIDO FALSAMENTE ACUSADO DE SUSTENTAR AS DOUTRINAS DOS ANABATISTAS.

Noyon, 04 de setembro de 1532.[1]

A graça e a paz do Senhor estejam com vocês pela misericórdia de Deus e da vitória de Cristo.

O prazer de escrever não teria peso como argumento para me convencer, mais do que um bom conselho, a não ser que me parecesse certo lamentar em algumas palavras o triste fim deste excelente irmão, que alguns amigos de indubitável fé e crédito apresentaram a mim por meio de cartas. Quer pelo que você suportou comigo em minha tristeza e simpatia, quer pelo meu favorecimento a ele em seu caso, eu não poderia deixar de escrever. A disposição e comportamento do homem eu conheci enquanto ele morava conosco na França. Ele se portava como alguém amado entre os homens de nossa profissão, se alguém assim fosse.

Estimado como tal entre os homens dotados de certo grau de autoridade, e de forma tal que não viesse a ser nem vergonha ou desgraça a eles. Finalmente, quando ele já não podia curvar o pescoço para aquele jugo voluntário que nós mesmos ainda suportamos, partiu para fixar residência com você, não tendo nenhuma perspectiva de retorno. Mas, como o assunto permanece em voga, tudo veio a baixo, contrariamente à sua expectativa, como numa mudança de cena de uma apresentação teatral, e ele não conseguiu encontrar nenhuma residência permanente da qual pudesse se valer. Ademais, também, como eu ouvi, ele se apressou por causa de seus meios limitados e problemas domésticos, que ele possa ter o benefício do auxílio de amigos a quem ele mesmo havia ajudado no passado, até que tempos melhores pudessem vir. Agora, observe como a calúnia é de longe mais poderosa que a verdade. Algumas pessoas imprudentes, eu não sei quem, entre o teu povo, a quem eu certamente não posso presumir suspeita de malevolência, tinha enchido os ouvidos de todos com suas invencionices, ao ponto de se fecharem a qualquer explicação. Não houve, portanto, nenhuma pessoa de quem ele poderia extrair um centavo sequer.

Provavelmente não foi intenção da pessoa, quem quer que fosse, acender as faíscas desta tragédia, para destruir o caráter de um indivíduo inofensivo. Apesar disso, no entanto, seja o que for, não posso desculpá-lo nem pedir desculpas a ele, e nem mesmo hesitar em afirmar que ele estava errado, para grande sofrimento e calamidade deste indivíduo. Lançaram sobre ele estas injúrias, como se diz, porque ele tinha caído sob suspeita de Anabatismo. Estranho, de fato, a menos que a pessoa fosse escandalosamente suspeita, espalhando esta conjectura a partir de evidências tão fracas. Em conversa com ele, consegui conduzi-lo intencionalmente a falar deste sacramento. Ele concordou em termos expressos inteiramente comigo, a tal ponto que nunca encontrei qualquer um que professasse a verdade sobre este ponto com maior franqueza.

Enquanto isso, ele sofre, apesar de que não parece haver qualquer probabilidade de que esses rumores sinistros, que já ganharam certo grau de crédito, sejam tão logo suprimidos. Peço-te, Mestre Bucer, se minhas preces - se as minhas lágrimas são de algum valor, que você se faça compassivo e ajude-o em sua situação lastimável. Os pobres são deixados em uma forma especial aos seus cuidados - você é o auxílio do órfão. Sofre com ele para que não seja reduzido a tal necessidade como se empurrado ao extremo. Você poderia ajudá-lo, se escolhesse alguém para ajudar de uma forma ou de outra, mas faça você mesmo, de acordo com sua própria discrição. Eu não poderia, no entanto, reter minha mão de ir além dos limites da moderação para apoiar a causa desse indivíduo. É isto para o momento. – Instruído senhor, adeus.

Teu, do meu coração, CALVINO.

[Autógrafo original latino. – Seminário Protestante de Estrasburgo].
Extraído de Letters 1528-1545 - Selected Works of John Calvin (Albany, Ages Software, 1998), vol. 4, pp. 39-40.

NOTAS:
[1] A carta é destinada para Martin Bucer, pastor da Igreja de Estraburgo. Ele foi uma dos líderes da Reforma, nasceu em Schelestadt, em 1491, influenciado por Martinho Lutero. De postura moderada mediou entre os reformados alemães e suíços, e empenhou-se para adotar uma confissão comum a ambos os grupos. Por causa das ameaças procurou exílio na Inglaterra, e obteve um cargo de docência na Universidade de Cambridge. Morreu em 1551, sendo enterrado com honras, entretanto, teve o corpo retirado da sepultura e queimado numa estaca, sob o reinado de Mary Tudor, mas durante a regência de Elizabeth sua honrosa memória foi restaurada. Nota de Ewerton B. Tokashiki.

Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, pastor efetivo na Igreja Presbiteriana de Lagoa Santa; professor de teologia e hermenêutica na Escola Bíblica Central do Brasil/Lagoa Santa-MG; Bacharel em Teologia e Missiologia pela Escola Superior de Teologia e Estudos Transculturais/Montes Claros-MG (2003), Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie/São Paulo-SP (2013), cursando Mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.

Revisado por Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO

quinta-feira, 13 de março de 2014

A carta de João Calvino para Martinho Lutero [1545]

21 de Janeiro de 1545

Ao mui excelente pastor da Igreja Cristã, Dr M. Lutero,[1] meu tão respeitado pai.

Quando disse que meus compatriotas franceses,[2] que muitos deles foram tirados da obscuridade do Papado para a autêntica fé, nada alteraram da sua pública profissão,[3] e que eles continuam a corromper-se com a sacrílega adoração dos Papistas, como se eles nunca tivessem experimentado o sabor da verdadeira doutrina, fui totalmente incapaz de conter-me de reprovar tão grande preguiça e negligência, no modo que pensei que ela merece.

O que de fato está fazendo esta fé que mente sepultando no coração, senão romper com a confissão de fé? Que espécie de religião pode ser esta, que mentindo submerge sob semelhante idolatria? Não me comprometo, todavia, de tratar o argumento aqui, pois já o tenho feito de modo mais extenso em dois pequenos tratados, e que, se não te for incomodo olha-los, perceberá o que penso com maior clareza em ambos, e através da sua leitura encontrará as razões pelas quais tenho me forçado a formar tais opiniões; de fato, muitos do nosso povo, até aqui estavam em profundo sono numa falsa segurança, mas foram despertados, começando a considerar o que eles deveriam fazer. Mas, por isso que é difícil ignorar toda a consideração que eles têm por mim, para expor as suas vidas ao perigo, ou suscitar o desprazer da humanidade para encontrar a ira do mundo, ou abandonando as suas expectativas do lar em sua terra natal, ao entrar numa vida de exílio voluntário, eles são impedidos ou expulsos pelas dificuldades duma residência forçada.

Eles têm outros motivos, entretanto, é algo razoável, pelo que se pode perceber que somente buscam encontrar algum tipo de justificativa. Nestas circunstâncias, eles se apegam na incerteza; por isso, eles estão desejosos em ouvir a sua opinião, a qual eles merecem defender com reverência, assim, ela servirá grandemente para confirmar-lhes. Eles têm-me requisitado para enviasse um mensageiro confiável até você, que pudesse registrar a sua resposta para nós sobre esta questão. Pois, penso que foi de grande consequência para eles ter o benefício de sua autoridade, para que não continuem vacilando; e eu mesmo estou convicto desta necessidade, estive relutante de recusar o que eles solicitaram.

Agora, entretanto, mui respeitado pai, no Senhor, eu suplico a ti, por Cristo, que você não despreze receber a preocupação para sua causa e minha; primeiro, que você pudesse ler atentamente a epístola escrita em seu nome, e meus pequenos livros, calmamente e nas horas livres, ou que pudesse solicitar a alguém que se ocupasse em ler, e repassasse a substância deles a você. Por último, que você escrevesse e nos enviasse de volta a sua opinião em poucas palavras.[4] De fato, estive indisposto em incomodar você em meio a tantos fardos e vários empreendimentos; mas tal é o seu senso de justiça, que você não poderia supor que eu faria isto a menos que compelido pela necessidade do caso; entretanto, confio que você me perdoará.

Quão bom seria se eu pudesse voar até você, pudera eu em poucas horas desfrutar da alegria da sua companhia; pois, preferiria, e isto seria muito melhor, conversar pessoalmente com você não somente nesta questão, mas também sobre outras; mas, vejo que isto não é possível nesta terra, mas espero que em breve venha a ser no reino de Deus.

Adeus, mui renomado senhor, mui distinto ministro de Cristo, e meu sempre honrado pai.[5] O Senhor te governe até o fim, pelo seu próprio Espírito, que você possa perseverar continuamente até o fim, para o benefício e bem comum de sua própria Igreja.


NOTAS:
[1] O especial interesse por esta carta, pelo que sabemos, é que ela parece ser a única que Calvino escreveu a Lutero.
[2] Calvino se refere aos huguenotes que embora haviam assumido o compromisso com a Confissão de Fé La Rochelle, mas na prática ainda preservavam os ídolos e toda a pompa e ritual da missa católica romana. Esta prática evidenciava uma incoerência entre o ato e a convicção de fé.
[3] Calvino se refere ao culto como uma confissão pública de fé.
[4] Outros escritos de Calvino já eram conhecidos de Lutero. Na carta 42 – Para Farel, escrita em Estrasburgo, em 20 de Novembro de 1539, Calvino cita que Lutero numa carta a Martin Bucer teria escrito que “saúde reverentemente à Sturm e a Calvino, acerca daqueles livros que li com deleite” veja em The Selected Works of John Calvin vol. 4 – Letters 1528-1545 (Albany, Ages Software, 1998), pp. 161-612.
[5] Filipe Melanchthon não entregou esta carta com estes novos livros para Lutero temendo que ele viesse a antipatizar-se com as opiniões de Calvino sobre a Ceia do Senhor. Entretanto, Calvino não tinha este temor. Herman J. Selderhuis observa que “a apreciação por Lutero permaneceria, e – de acordo com Calvino – mesmo que Lutero pudesse chamar Calvino de demônio, e mesmo assim Calvino poderia honrar e descrevê-lo como um especial servo de Deus.” Herman J. Selderhuis, ed., The Calvin Handbook (Grand Rapids, Wm. Eerdmans Publishing Co., 2009), p. 58.


Extraído de Letters of John Calvin: Select from the Bonnet Edition with an introductory biographical sketch (Edinburgh, The Banner of Truth Trust, 1980), pp. 71-73. Esta carta também pode ser encontrada em Selected Works of John Calvin: Tracts and Letters, vol. 4, pp. 440-442.

Revisado e acrecido novas notas em 13 de Março de 2014.
Rev. Ewerton B.Tokashiki

Prefácio de João Calvino à Loci Communes de Filipe Melanchthon

  Introdução Em 1546, uma tradução francesa da obra de Filipe Melanchthon de 1545, Loci communes , foi publicada em Genebra sob o título de ...