Mostrando postagens com marcador Determinismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Determinismo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 29 de março de 2016

A providência atual de Deus - Johannes Wollebius

(1)

A providência atual é aquela obra pela qual Deus não apenas preserva as suas criaturas, mas governa todas as coisas com ilimitada [immensus] sabedoria, bondade, poder, justiça e misericórdia.

PROPOSIÇÕES

I. Negar a providência é negar o próprio Deus.
II. A providência atual difere da providência eterna como a execução do decreto difere do decreto.
III. Na providência eterna o que Deus intenta fazer, na providência atual o que ele quer é mais alto.
IV. A providência consiste não somente do conhecimento, mas do governo de todas as coisas, das maiores até as menores.
V. A providência de Deus não destrói as causas secundárias, mas as preserva.
VI. Da perspectiva da providência os eventos são contingentes, mas em relação as causas secundárias são necessárias. Mas é uma necessidade da imutabilidade, e não da coerção.
VII. A providência de Deus é muito diferente do fatalismo estoico. O fatalismo estoico se relaciona a Deus no conjunto das causas secundárias; cristãos [ensinam] que as causas secundárias estão subordinadas a absoluta e livre vontade de Deus, a qual emprega-as livremente, não por necessidade, nem porque ele careça delas, mas porque ele as quer.
VIII. Tanto os atos bons como os maus estão sob o controle da providência de Deus.
IX. Os atos bons são controlados pelo seu ato efetivo, sob o qual pertencem ao título de previdência divina [praecursus], concorrência [concursus] e preservação [succursus].
X. Os atos maus são controlados pela permissão realizada [actuosus], e consequentemente permitindo, limitando e dirigindo-os.
XI. A providência de Deus é sempre livre da desordem e do pecado, até mesmo em conexão com os atos desordenados e pecaminosos. Em conexão com os atos maus dois aspectos precisam ser reconhecidos: o ato em si e a sua ilegalidade. O ato em si, como um evento na natureza, acontece pela efetiva ação de Deus. A sua ilegalidade ou qualidade perversa [malitia] existe pela sua permissão realizada. O pecado é controlado quando (1) permitido, (2) restringido e preservado com limites, (3) e dirigido para um bom resultado. Em nenhum destes casos Deus pode ser chamado de causa do pecado; nem em criar efetivamente o lado material do pecado, pois assim como um cavalo causa movimento e outras causam param, do mesmo modo não é o mesmo ser a causa de uma ação e a causa da má qualidade inerente na ação. Não permitindo que uma ação pecaminosa, pois por nenhuma lei é ele requerido evitar o pecado. Nem por limita-lo; assim como alguém que extingue um fogo, de modo que não possa se espalhar, não é a causa do fogo, assim ele que coloca um limite para o pecado, não é a causa do pecado. Nem por dirigi-lo para um final bom; assim como preparando uma medicina saudável de um animal venenoso é uma nobre arte, assim, é mais glorioso para Deus trazer luz até mesmo das trevas,[1] ou até mesmo o bem do mal. Portanto, é fácil perceber quão tolas são as falsidades daqueles que, a fim de reivindicar que Deus seja contra a mancha do pecado, tropeçam numa mera permissão vazia [como tudo o que Deus tem que fazer com os atos maus].
XII. Embora a Escritura muitas vezes atribua ao mesmo ato de Deus, ao demônio e aos ímpios, todavia, o pecado não pode ser imputado em nenhum sentido a Deus. Nem nesta matéria pode-se recorrer como sendo [a ideia de] uma mera permissão, mas estas ações precisam ser entendidas sobre a base de seu limite e propósito. Na mesma ação os planos de Deus, dos demônios e ímpios são diferentes. O sofrimento de Jó descreve a Deus: “Deus o deu e Deus o tomou”, disse Jó; este sofrimento é também atribuído a Satanás, bem como aos sabeus e caldeus, e o assunto precisa ser entendido nos termos do propósito de cada um. A alvo de Satanás era de reduzir Jó ao desespero; enquanto que o objetivo dos sabeus e dos caldeus era de enriquecerem-se pela pilhagem e despojos de um homem justo; todavia, Deus determinou provar e fazer manifesto a fé de seu servo. Na crucificação de Cristo, o alvo de Pilatos era permanecer em favor dos judeus e com César; o propósito dos judeus era de satisfazer a sua ira e desejos vingativos; mas o propósito de Deus era de redimir a raça humana. Assim, pode-se dizer que os outros nada fizeram, exceto o que “a mão e propósito de Deus predeterminaram” (At 4:28).
XIII. O endurecimento do ímpio é atribuído a Deus como um justo juízo, de modo que nenhuma culpa pode ser atribuída a Deus, nem pode o ímpio ser desculpado dela. O ímpio são sem desculpa nesta matéria, porque Deus endurece somente aqueles que se endurecem, nem ele faz endurecido [os corações] do macio, mas, por justo juízo, do endurecimento [dos corações], ele faz mais duro ainda. Eles endurecem a si mesmos pelo abuso dos dons pelos quais eles poderiam se voltar ao arrependimento; isto é: (1) A longanimidade de Deus (Rm 2:4-5: “desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento? Mas, segundo a tua dureza de coração impenitente, acumulas contra ti mesmo ira para o dia da ira”, etc.). (2) A palavra de Deus (2 Co 2:15-16: “porque nós somos para com Deus o bom perfume de Cristo, tanto nos que são salvos como nos que se perdem. Para com estes, cheiro de morte para morte; para com aqueles, aroma de vida para vida”). (3) As punições ou vara de Deus, que, como uma bigorna, faz-lhes mais endurecidos (Jr 5:3: “tu os feriste, e não lhes doeu; consumiste-os, e não quiseram receber a disciplina; endureceram o rosto mais do que uma rocha; não quiseram se arrepender”). Então, por isso eles se endurecem, bem como são endurecidos por Deus, que disse acerca de Faraó: “eu sustentarei o seu coração, fazendo-o teimoso e endurecido o seu coração”. Deus não endurece os corações dos ímpios por mera permissão, mas também: (1) por remover as amarras pelas quais ele restringe os seus desejos (Rm 1:24: Deus abandonou tais homens à sua imundícia”; Rm 1:28: “Deus abandonou-os a uma mentalidade reprovável para praticarem coisas inconvenientes”). (2) por conceder-lhes a Satanás como um carrasco (1 Rs 22:21-22: “então, um espírito veio, e se colocou diante de Jeová, e disse: ‘eu os enganarei’. E Jeová disse: ‘com o que?’ E ele disse: ‘sairei, e serei espírito mentiroso na boca dos profetas’. Então, ele disse: ‘vai e tu os enganarás; sai e faze-o assim’”). Assim como um magistrado que autoriza um carrasco punir um criminoso, não é a causa nem do crime, nem da morte do criminoso, assim também quando Deus entrega pecadores para Satanás, a culpa para o endurecimento de seu coração e para a sua morte não podem ser imputados a ele.


NOTA:
[1] O moto de Genebra ex tenebris lux, que os teólogos reformados parecem ter se afeiçoado de usar tanto quanto possível. Nota de John W. Beardslee III.

Traduzido de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin (Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp.58-61.

sábado, 26 de dezembro de 2015

A Predestinação - Johannes Wollebius

(1)

1. Um decreto de Deus que afeta as criaturas pode ser tanto geral como específico.
2. O decreto geral é aquele em que ele determinou mostrar a glória de seu poder, sabedoria e bondade na criação e preservação de todas as coisas.
3. O decreto específico, chamado predestinação, é aquele que ele ordena esta glória de sua graça, misericórdia e justiça se revelando nas criaturas racionais, sejam eles eleitos ou réprobos.

PROPOSIÇÕES

I. Embora a predestinação seja um ato único e absolutamente simples na mente de Deus, todavia, levando em consideração a fraqueza do nosso entendimento, a predestinação como um destino último, pode ser diferenciada da predestinação com respeito aos meios.
II. Todos os que estão predestinados para um destino, também têm predestinado os seus meios.

(2)

1. A predestinação afeta tanto os anjos como aos homens.
2. A predestinação dos anjos significa que Deus determinou sempre preservar alguns deles em [sua] felicidade original, em Cristo como cabeça,[1] e punir outros eternamente em abandoná-los de seu estado de sua própria harmonia, para revelar a glória de sua graça e justiça.
3. A predestinação dos seres humanos significa que, da raça humana que ele criou à sua própria imagem, mas que caíram em pecado por seu próprio ato, Deus determinou na eternidade salvar alguns por meio de Cristo, mas também condenar eternamente os demais, mantendo-os em sua própria miséria, para que revelassem a glória de sua misericórdia e justiça.
4. Entretanto, há dois aspectos [pars] da predestinação: eleição e reprovação.

PROPOSIÇÕES

I. A predestinação é num sentido um decreto absoluto e ao mesmo tempo não.
II. Ele é absoluto com respeito a sua causa eficiente [causa efficiens impulsiva] o qual nem é a fé do eleito, nem o pecado do réprobo, mas absolutamente a livre vontade de Deus. Nem é a fé ou a santidade prevista a causa da eleição, nem se tornou eleita a pessoa porque creu. Pelo contrário, ele crê porque foi eleito. Em At 13:48 “creram os que estavam ordenados para a vida eterna”. Nem somos escolhidos porque seríamos santos, mas “a fim de que sejamos santos e inculpáveis nele, em amor” (Ef 1:4). Nem é o pecado previsto a causa da reprovação. Se fosse, todos seríamos reprovados. Que Deus agiu sobre a sua absoluta e livre boa vontade [beneplacitum] é evidente em Lc 12:33: “é a boa vontade do Pai dar-lhes o reino”, e de Rm 9:15: “terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia”, e 9:18: “ele tem misericórdia de quem quer, e endurece a quem lhe apraz”.
III. Mas o decreto da predestinação não é absoluto com respeito aquilo que ele oferece [materia seu obiectus], nem em relação aos meios pelos quais ele conduz.
IV. Aquilo que a predestinação realiza não é o homem considerado absolutamente, mas o homem é quem caiu em pecado pelo seu próprio ato. As razões para isto são óbvias. (1) O decreto pressupõe pecado ao revelar misericórdia e a ira, ou a justiça; a misericórdia é sem sentido exceto na presença do sofrimento, bem como a justiça ou da ira é sem sentido exceto na presença do pecado. (2) Somente a culpa pode ser reprovada. Mas o homem não é culpado quando criado por Deus, senão quando ele foi deformado por Satanás.
V. Todavia, o pecado não é a causa da reprovação, mas uma necessária condição no objeto [materia seu obiectus]. Embora ele não seja a causa da reprovação, no entanto, o pecado é uma causa da culpa [causa reprobabilitatis]. A diferença entre ser culpado e ser reprovado é o mesmo que entre potência e ato; todos os homens são culpados por causa do pecado, mas nem todos são réprobos.
VI. Portanto, a predestinação pressupõe os seguintes decretos: (1) criar o homem; (2) conceder a imagem de Deus ao homem criado, mas de tal forma que pudesse perde-la; (3) permitir a sua queda.
VII. Os meios pelos quais o decreto é conduzido são tais que, embora Deus atue apenas pelo seu beneplácito, todavia, o eleito não tem base para orgulhar-se, nem o réprobo tem fundamento para reclamar. Sobre o primeiro confere imerecida graça, e, sobre o outro reserva punição.
VIII. Numerosas questões surgem: (1) Sobre qual direito Deus condena um homem à reprovação, sendo ele sua própria criatura? (2) Por que ele não elege, ou condena igualmente a todos? (3) Por que ele escolhe alguém como Pedro, e condena outro como Judas? A resposta para a primeira questão depende da causa material, que é um homem tão caído como culpado. A resposta da segunda vem do propósito, porque Deus pretende revelar a glória de sua misericórdia e sua justiça. A resposta da terceira vem da causa ativa, porque este é o modo que Deus deseja fazê-lo. Do mesmo modo, seria como perguntar por que um oleiro faz diferentes pratos do mesmo monte de argila, a resposta é encontrada no seu propósito de servir aos muitos usos dos pratos numa casa. Mas se for perguntado por que ele faz um vaso de um pedaço de todo o barro, e um pote de outra parte, a resposta está na causa ativa: isto é o que oleiro quer.
IX. Cristo pode ser considerado tanto Deus-homem, ou como o nosso mediador. Do primeiro ponto de vista ele é, com o Pai e o Espírito Santo, a eficiente causa da nossa eleição. De uma segunda perspectiva, ele é o meio de executar a nossa eleição. Portanto, se diz que somos escolhidos em Cristo (Ef 1:4); e de fato, somos conduzidos à salvação por meio dele. O decreto que nos salva é predestinação para um destino final; que é dar Cristo como nosso cabeça, predestinação significando a aplicação.
X. As palavras gregas próthesis [propósito], prógnosis [presciência] e proorismós [predestinação], podem ser diferenciadas pelo propósito de instrução, embora sejam muitas vezes usadas como sinônimos. Assim, a palavra próthesis se refere à intenção de salvar, enquanto que prógnosis à livre graça pela qual Deus nos vê como seus, e proorismós designa a predestinação para Cristo e os outros meios da salvação. Rm 8:28-29: “porque sabemos, que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito [katá próthesin]”. “Pois aqueles que ele preconheceu [proégno] ele também predestinou [proórise] para serem conformes à imagem de seu Filho”.
XI. Estão errados aqueles que ensinam a doutrina da eleição ao mesmo tempo que negam a reprovação. A Escritura ensina a reprovação do mesmo modo que a eleição. Is 41:9: “eu te escolhi, e não te rejeitei.” Ml 1:2-3: “amei a Jacó, mas odiei a Esaú.” Rm 9:18: “Ele tem misericórdia de quem quer, e endurece a quem lhe apraz.” Rm 11:7: “o eleito é alcançado, e os outros endurecidos.” 1 Ts 5:9: “Deus não nos destinou para a ira, mas para a salvação.” 2 Tm 2:20: “vasos para honra, e outros para desonra.” Jd 4: “desde muito tempo alguns homens dissimulados, foram destinados para a condenação”.
XII. Assim como Cristo não é a causa da eleição, mas da salvação, do mesmo modo a incredulidade não é a causa da reprovação, mas da condenação. A condenação difere da reprovação como o meio de realizar um decreto se distingue do próprio decreto.
XIII. O propósito da reprovação não é a condenação, mas a revelação da glória da justiça de Deus. Entretanto, o homem não pode alegar que foi criado para ser condenado; pois a condenação pela qual a pessoa foi rejeitada, se conduz para o mal, não é o propósito, mas o meio da execução do propósito de Deus.
XIV. Dois atos da reprovação podem ser aceitos com o propósito de instrução: a negação da imerecida graça, que é chamada de preterição, e a entrega da merecida punição, que é chamada de condenação.
XV. Ao examinar a nossa eleição pela lógica, faz-se necessário proceder dos meios de realizar do próprio decreto, fazendo a origem de nossa santificação. O argumento é o seguinte: todo aquele que sabe que recebeu o dom da santificação [in se sentit donum] pelo qual morremos para o pecado, e vivemos para a justiça, é justificado, chamado ou habitado com fé verdadeira, e eleito. Mas eu sei [sentio] isto pela graça de Deus; e assim, eu sou justificado, chamado e eleito.[2]
XVI. É diabólico o argumento de que se eu sou um eleito, então não necessito de boas obras, e que se eu sou um réprobo, elas são inúteis. Em primeiro lugar, um cristão não precisa decidir se ele é um eleito ou um réprobo; pelo contrário, ele deve examinar a sua fé como um meio de [verificar] a sua eleição. 2 Co 13:5-6 “examinem-se, vejam se realmente estais na fé; provai-vos, a vós mesmos. Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados. Mas espero reconheçais que não somos reprovados”. Em segundo lugar, este argumento separa assuntos que deveriam ser simples por serem corretamente subordinados, e une conceitos contraditórios. As boas obras devem ser subordinadas à eleição, mas nunca separados dela, bem como elas são os meios que quando realizados, certificam a nossa eleição. É contraditório para qualquer um, que sendo réprobo realizar boas obras.[3]

NOTAS:
[1] Sobre a relação dos anjos com Cristo, veja também Francis Turrentin, Loco IV, questão viii. Nota de John W. Beardslee III.
[2] Veja Turretin, Locus IV, questões xii, xiii. Nota de John W. Beardslee III.
[3] Wollebius define boas obras como sendo “aquelas ações que são realizadas pela graça do Espírito Santo, por causa de uma fé verdadeira e de acordo com as exigências da lei, para a glória de Deus, a certeza da nossa salvação e a edificação do nosso próximo”. Por isso, ele declara que um réprobo é incapaz de realizar boas obras. John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics, p. 191. Nota de Ewerton B. Tokashiki.

Traduzido de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin (Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp.50-53.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

As obras de Deus e os decretos divinos em geral - Johannes Wollebius

(1)
Até agora Deus foi considerado em si mesmo. Agora ele também precisa ser considerado em suas obras.
1. Isto inclui tanto as obras essenciais como as pessoais.
2. As obras essenciais são aquelas que são realizadas por toda a Santíssima Trindade operando como sendo apenas um Ser.
3. As obras pessoais são aquelas que são peculiares a uma pessoa em particular.
4. Tanto as obras essenciais como as pessoais incluem aquilo que afeta Deus somente [ad intra] e aqueles efeitos são percebidos fora de Deus [ad extra].
5. A primeira espécie não tem outro objeto [terminus] além de Deus. [A esta espécie pertencem] tais assuntos como a inteligência pela qual Deus conhece a si mesmo, a geração do Filho e a procedência do Espírito Santo.
6. As obras da segunda espécie têm alguns outros objetos além da Santíssima Trindade. Tais como a predestinação, criação e coisas semelhantes que concernem às criaturas como objetos externos a Deus.

PROPOSIÇÕES

I. A mesma obra externa é tanto pessoal como essencial de diferentes pontos de vista. Assim, a encarnação de Cristo, em seu aspecto eterno [inaugurativo] é uma obra essencial, comum à toda a Trindade; em seu aspecto histórico [consumativo] ela é uma obra pessoal apenas do Filho. Embora o Pai e o Espírito sejam causas da encarnação, somente o Filho tornou-se encarnado. Do mesmo modo, embora a criação, redenção e santificação são obras de toda a Santíssima Trindade, todavia, de um ponto de vista, elas podem ser chamadas de pessoais. O Pai é chamado criador, porque ele é, como era a origem [fons] da operação da Trindade, e o Filho e Espírito Santo agem pelo Pai. O Filho é chamado redentor, porque ele consumou a obra da redenção assumindo a natureza humana. O Espírito Santo é chamado santificador, porque ele é enviado pelo Cristo como um confortador e santificador.
II. As obras externas são indivisíveis ou comuns a todas as pessoas. Desta proposição segue do que foi declarado acima; uma vez que a essência é comum a todas as pessoas, as obras essenciais também precisam ser comuns a todos os três.
III. Toda obra específica sempre preserva o mesmo princípio essencial, causa eficiente e efeito.

(2)
1. As obras de Deus que tem a sua realização fora dele são tanto imanente e interna, como exposta e externa. As obras imanentes e internas de Deus são aquelas que recebem lugar dentro de sua divina essência, e deste modo são os decretos de Deus.

PROPOSIÇÕES
I. Nem todas as obras cujo objeto é fora de Deus [ad extra] é uma obra externa. Um decreto de Deus é ad extra naquilo que se refere à criatura ou alguma coisa além de Deus, mas ela é interna naquilo que ela permanece em toda a essência de Deus.
II. As obras imanentes e internas de Deus são as realidades [res] não diferem da essência de Deus. Tudo o que estiver em Deus é Deus, como apresentamos acima como uma consequência da simplicidade da essência divina; e como essência e ser [essentia et esse] não são diferentes em Deus, assim, em sua vontade e o ato da vontade não são realidades [realiter] diferentes.

(3)
Um decreto é um ato interno da vontade divina, pelo qual ele determina, da eternidade, livremente, com absoluta certeza, aqueles assuntos que acontecerão no tempo.

PROPOSIÇÕES
I. Os decretos são chamados “o plano definitivo” (At 2:23), “a mão e plano de Deus” (At 4:28), “o beneplácito de Deus” (Ef 1:9), e a eterna providência de Deus. Eles são chamados de “eterna providência” em distinção da atual providência que não é outra senão que a execução dos decretos de Deus.
II. Eles também são chamados de vontade de Deus, e o que Deus intenta fazer [voluntas beneplaciti]. Na realidade, o decreto é a própria vontade de Deus; mas, para o propósito de ensino a vontade é tratada como a causa eficiente, e o decreto como o efeito. Outra nomenclatura acerca da vontade pode ser adotada para vários propósitos e várias distinções são feitas pelos teólogos; a distinção entre o que Deus intenta fazer e o que ele nos quer fazer [voluntas beneplaciti et signi], entre vontades antecedente e consequente, absoluta e condicional, oculta e revelada. Estas não são divisões reais, ou partes da vontade divina de Deus, pois de fato, ela é propriamente chamada àquilo que Deus intenta fazer [voluntas beneplaciti] porque pela sua completa liberdade e beneplácito, ele decretou tudo que acontecerá. O mesmo é “antecedente” porque ele existiu antes das coisas criadas, e foi contado com Deus desde a eternidade. Ele é chamado “absoluto” porque se baseia unicamente na boa vontade de Deus e não de nada no tempo, e finalmente, ele é chamado de “oculto” porque nem anjos, ou homens entendem-no sem auxílio [a priori]. Mas como está numa cantiga popular “Ele comanda e ele proíbe, permite, divide e completa” possa ser vagamente chamado pela designação da vontade divina. Assim como os editos de um magistrado são chamados de sua vontade, do mesmo modo a designação da vontade pode ser dada aos preceitos, proibições, promessas e bem como aos fatos e eventos. Assim, a divina vontade também é chamada daquilo que Deus quer fazer [voluntas signi], pois ela significa o que é aceitável a Deus; o que ele quer fazer a nosso favor. O decreto é chamado de “consequente” porque ele segue aquela vontade que antecede a eternidade; ele é “condicional” porque os mandamentos, proibições ou desobediência estão ligados a ele. Finalmente, ele é chamado de “revelado” porque é o modo explicado na palavra de Deus. É necessário observarmos que este espécie de discussão não postula outra realidade diversa, ou contraditória, como se fossem vontades de Deus.
III. Ao lado da vontade de Deus não há causas que podem ser contrárias a sua vontade. De fato, muitas coisas podem ser contrárias àquilo que Deus quer [voluntas signi], no entanto, elas se conformam ao plano divino [voluntas beneplaciti]. Deus não criou o pecado do homem, pelo contrário, mais estritamente ele o proibiu. Contudo, ao mesmo tempo ele o decretou de acordo com a esta vontade [beneplaciti] como um meio de revelar a sua glória.
IV. Tanto o bem como mal, entretanto, resultam do decreto e vontade de Deus; primeiro ele causa, e depois ele permite.
V. Contudo, o decreto e vontade de Deus não têm o mesmo sentido como causa do mal ou do pecado, embora tudo o que Deus decreta assume a posição de necessidade. Desde os males que são decretados, não efetivamente, mas permissivamente, o decreto de Deus não é a causa do mal. Nem são os decretos de Deus a causa do mal sobre a explicação da inevitabilidade de seu resultado, ou mesmo que eles conduzam os resultados não por uma necessidade coerciva, mas meramente por algo imutável.
VI. A inevitabilidade [necessitas] dos decretos de Deus não destrói a liberdade nas criaturas racionais. A razão é que a necessidade não é uma necessidade da coerção, mas da imutabilidade. Que a queda de Adão aconteceu pela necessidade com respeito a um decreto divino; todavia, Adão pecou livremente, nem ordenado, nem coagido, ou influenciado por Deus; de fato, ele teve a mais estrita advertência para não pecar.
VII. A inevitabilidade dos decretos de Deus não destrói a contingência das causas secundárias. Muitos eventos que acontecem pela necessidade com respeito aos planos de Deus são contingentes com as causas secundárias.
VIII. Não existe uma causa ativa [causa impulsiva] além da absolutamente livre vontade e prazer de Deus capaz de determinar os decretos divinos.
IX. O propósito [finis] dos divinos decretos é a glória de Deus.
X. Um decreto de Deus é singular e simples em si mesmo; nele não existe algo que seja anterior ou posterior.
XI. Com respeito a todas as coisas decretadas, deve ser especificado que na ordem em que ocorrem, Deus diz ter decretado quais deveriam ocorrer.

Tais questões como se Deus primeiro decretou isto ou aquilo, ou se ele decretou primeiro e o fim, ou os meios, são tolice. Desde que um decreto de Deus é em si mesmo um ato absolutamente simples, não há nela nem antecedente ou posterior; apenas com respeito às coisas decretadas podem ser especificadas. Com este entendimento podemos dizer que Deus decretou (1) criar o homem, (2) dar-lhe a sua imagem, mas de um modo que pudesse se perder, (3) permitir a queda, (4) e deixar alguns dos caídos entregues a si mesmos, mas eleger outros e preservá-los para a vida eterna.

Traduzido de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin (Grand Rapids, Baker Books, 1977).

Prefácio de João Calvino à Loci Communes de Filipe Melanchthon

  Introdução Em 1546, uma tradução francesa da obra de Filipe Melanchthon de 1545, Loci communes , foi publicada em Genebra sob o título de ...