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quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Algumas críticas à Loci Communi: A carta de Martinho Lutero para Felipe Melanchthon


 [1 de agosto de 1521][1]

Dia do apóstolo são Pedro, 1521.[2]

 Você não terminou de dar razões suficientes para medir com a mesma norma o voto dos sacerdotes e dos freis. A mim, o que mais me convence é que a ordem sacerdotal foi estabelecida como livre por Deus; mas, não foi assim com os monges que espontaneamente escolheram e ofereceram a sua origem a Deus. Quase me atreveria a decidir que quem ingressou nestes compromissos antes de sua puberdade que podem sair dela sem escrúpulo, se não fosse porque ainda não me atrevo a sentenciar nada acerca dos que são velhos e viveram durante longo tempo neste estado.

Mesmo porque, Paulo afirma com toda liberdade que foram os demônios quem vedaram o matrimônio aos sacerdotes.[3] Assim, como a voz de Paulo é a voz de Deus, não há dúvida de que há que confiarmos nela, de forma que ainda que houvessem pactuado esta proibição diabólica desde o princípio, agora, quando são conscientes de a quem prometeram, há que romper confiadamente o pacto.

Esta proibição do diabo expressada claramente na Escritura Sagrada obriga-me e força a aprovar o realizado pelo bispo cameracense. Deus não engana, nem mente ao dizer que esta é uma proibição do diabo. Portanto, não pode ser estável o pacto firmado, já que se fez na força de um erro ímpio contra Deus e, além disso, depois de havê-lo reprovado e condenado. Disse expressamente serem espíritos do erro os autores dessa proibição.

Por que, então, há de temer a aceitação desta sentença divina, ainda que se oponham todas as portas do inferno? Não se pode comparar isto com o juramento que os filhos de Israel fizeram aos gibeonitas, porque tinham o preceito de oferecer a paz e de admiti-la se lhes era oferecida. Por isso, os admitiram na qualidade de prosélitos aderidos a seu rito. Tudo se fez em Gibeão, pois nada houve nele que se fizesse contra Deus, nem por sugestão dos espíritos do erro, e ainda que a princípio murmurassem, depois achegaram-se a ele.[4]

Além do mais, acrescenta que o celibato é uma instituição meramente humana; o homem que o instituiu pede rescindi-lo e, portanto, pode executá-lo qualquer um cristão. Fixa-te que o digo, inclusive supondo que não tenha se estabelecido por demônios, senão por um bom homem.

Ao não contar com esta sentença divina que se refere aos monges, não é seguro afirmar o mesmo deles. Pessoalmente não me atreveria fazê-lo e, por isso, tão pouco aconselharia aos demais que o fizessem. Desejo fosse possível fazê-lo para que de agora adiante ninguém se fizesse monge, ou para que saíssem os que o são, e se encontram na idade da luxúria. Há que evitar os escândalos, ainda que fossem lícitos, nas coisas em que a Escritura não nos manifesta com clareza.

Quanto ao que o exímio Karlstadt cita de são Paulo que “há que evitar as jovens viúvas e escolher as sexagenárias,”[5] desejo que fosse convincente! Porque podem facilmente arguir que o apóstolo o estabelece para as futuras, e que das anteriores disse estar condenadas por haver falhado com o primeiro compromisso. Essa autoridade evitada não pode constituir um fiel apoio para a consciência, que é o que andamos buscando. E, o que é senão a razão a que inclui que “melhor é casar-se do que viver abrasado” para evitar a fornicação? Então, o matrimônio com o pecado quebra o pacto. Somente buscamos a Escritura e o testemunho da vontade divina. Quem sabe se ao se abrasar hoje, não se abrasaria também amanhã?

Nem eu me atreveria conceder aos sacerdotes o matrimônio somente por esse abrasamento, se são Paulo não disse que tal proibição do matrimônio é errônea, diabólica, hipócrita e condenada por Deus.[6] Ou seja, que ainda que independente do ardor, têm que abandonar o celibato somente pelo temor de Deus. Mas sobre este problema seria útil discutir com maior compromisso. Seria muito satisfatório que pudesse ajudar os frades e as freiras, mas eu sinto muito por estes pobres moços e moças, atormentados pelas poluições e coceiras.

Quanto à comunhão, sob as duas espécies, não argumentarei por meio de exemplos, senão com base na Palavra de Cristo. Não há argumento que convença de que peca, ou deixe de fazê-lo quem receba somente uma espécie; o que há que ter em conta é que Cristo não exige nenhuma das duas, como não exige necessariamente o batismo quando um tirano, ou o mundo fazem impossível recorrer à água. Também a violência das perseguições separa o marido da esposa que Deus proibiu que se separassem, sem que um ou o outro consentisse na separação. Da mesma maneira, tão pouco, quem os corações piedosos veem-se privados da segunda espécie, e quem o consente ou aprova, ninguém poderá negar que são papistas, e não cristãos, nem negar que cometem pecado.

Se não existe esta exigência da necessidade, e sendo que há um tirano que urge, não vejo como possa pecar quem recebe apenas uma espécie. Quem poderá eliminar pela força ao tirano que se opõe? Portanto, o único que vale é a razão que dita que não se observa o que foi estabelecido por Cristo, mas nada define a Escritura, sem a qual não podemos afirmar que constitua pecado. É algo formado por Cristo, mas livremente permitido e não pode ser cativado nem no todo, nem na parte. O que fazer se, como no caso do mártir Donato, que se rompeu e derramou o cálice e alguns não puderam comungar esta espécie, porque não se tem disponível mais vinho, ou se ocorressem em outras circunstâncias? Em resumo, sendo que a Escritura não se pronuncia, nem eu me atrevo dizer de minha parte que isto seja pecado. É muito conveniente, todavia, que restaurem ao seu prístino estado este ensino de Cristo, e precisamente este era o primeiro que havia pensado solicitar quando regressar aí. Conhecemos há muito este tirano, e podemos resisti-lo para não nos vermos obrigados a comungar somente sob uma espécie.

O que nunca voltarei a fazer é celebrar a missa privada. Rogo fervorosamente a Deus que se apresse em conceder-nos o seu Espírito em abundância. Suspeito que não tardará que Deus visite a Alemanha pelo merecido que tem a sua incredulidade, sua impiedade e seu ódio pelo evangelho. Quando isto acontecer eles lançarão sobre nós a culpa deste açoite, por provocarmos a Deus com nossa heresia e nos “convertemos na vergonha dos homens e no desejo do povo;”[7] mas, eles acharão desculpas para os seus pecados, se justificarão comprovando que os réprobos não se converterão, nem pela bondade, nem pela ira e muitos se escandalizarão. Que se faça, sim, que se cumpra a vontade do Senhor. Amém!

Se você é pregador da graça, prega a graça verdadeira, não a graça fingida; se a graça é verdadeira, tenha a certeza de que se trata do pecado verdadeiro, não do fingido, porque, Deus não salva os pecadores fingidos. Seja pecador e peque fortemente, mas confia e se alegre mais fortemente ainda em Cristo, vencedor do pecado, da morte e do mundo. Há de pecar enquanto vivamos aqui. Esta vida não é a morada da justiça, senão que, como disse Pedro, estamos à espera de novos céus e de nova terra em que habite a justiça.[8] Basta que pela riqueza da glória tenhamos conhecido o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo;[9] deste não nos separará o pecado, inclusive ainda que forniquemos e matemos milhares e milhares de vezes ao dia. Por que é que crê ser tão mingado o preço da redenção de nossos pecados, pago por tão grande e bom cordeiro?

Ore forte ainda que seja um pecador fortíssimo.


NOTAS:

[1] WA Br 2, 370-372. Como se pode observar a carta somente foi conservada fragmentariamente. Felipe Melanchthon (1497-1560), indubitavelmente o personagem mais próximo de Lutero, apesar de seu distanciamento teológico progressivo e as suas diferenças de caráter, foi na realidade o primeiro sistematizador da teologia de Lutero (em suas Loci Communes, 1521). Lutero sempre o venerou, se preocupou com a sua saúde, o animou e lhe exasperou em muitas ocasiões. Está presente em quase todas as tentativas de aproximação entre Roma e a Reforma. Graças a ele pode-se preservar, ao menos num setor do luteranismo, um humanismo do qual o reformador e Amsdorf careciam. Cf. H. Bornkamm, Philipp Melanchthon, Göttingen 1950; P. Meinhold, Philipp Melanchthon, der Lehrer der Kirche, Berlin 1960; L. Stern, Martin Luther und Philipp Melanchthon. Ihre ideologische Herkunft und geschichtliche Leistung, 1953; W.H. Heuser, Luther und Melanchthon, Einheit in Gegensatz, München 1960; V. Vajta, Luther und Melanchthon, Göttingen 1961; M. Greschat, Melanchthon neben Luther, Witten 1965. Teófanes Egido, org., Lutero – Obras, pp. 385-387.

[2] Refere-se à festividade de são Pedro “ad vincula.”

[3] Bartolomé Bernhard de Feldkirch prefeito de Kemberg (daí a denominação de “cameracense” aludindo ao famoso Pierre d’Ally bispo de Cambrai) que se casou com farto consentimento de Lutero (Lutero e Melanchthon, 26 de maio de 1521: WA Br 2, p. 347).

[4] Em 1Tm 5.12. Esta primeira parte da carta, ponto de partida das variações posteriores do pensamento de Lutero sobre o celibato, esteve determinada pelas teses sustentadas por Karlstadt em junho deste ano em Wittenberg.

[5] Em 1Co 7.2 e 9.

[6] Em Sl 22.7.

[7] Esta expressão foi uma das mais atacadas pela apologética antiluterana. Pelo contexto o leitor verá o forte conteúdo teológico e cristológico, veementemente (era o seu humor) expresso por Lutero. Uma exegese aceitável deste lugar, cf. J. Lortz, o.c. I, 317 ss.

[8] Em 2Pe 3.13.

[9] Em 1Jo 1.29.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Carta de Martinho Lutero a Johannes Staupitz [9 Fevereiro de 1521]

Ao reverendo e ótimo Johannes Staupitz, mestre na sagrada teologia, agostiniano ermitão, do seu progênito no Senhor.

Saúde. Admira-me que minhas cartas e meus livretos não tenham chegado ainda a suas mãos como deduzo. Pregando aos demais estou me desqualificando a mim mesmo,[1] que até ao extremo me alieno-me no trato com os irmãos. Pelo que lhe garanto que poderá ter uma ideia do espírito com que, todavia, trato a Palavra de Deus. Nada se fez, ainda, em Worms contra mim, considerando que os papistas andam maquinando desígnios perniciosos com furor invejável. Spalatino escreveu-me dizendo que o evangelho goza ali de boa aceitação, que espera que não me condenem sem terem escutado e convencido.

Em Leipzig, Emser, sem envergonharem-se de modo algum, escrevem contra mim um libelo que é um emaranhado de mentiras, desde o princípio até o fim. Vejo-me necessitado de dar uma resposta a este monstruoso desprezo pela causa do duque Jorge, que é quem encoraja a loucura do autor.

Não me incomoda a notícia de que Leão[2] também se dirigiu contra você, desta sorte poderás erigir para exemplo do mundo a cruz que tanto pregou. Não gostaria que o lobo se contentasse com sua resposta em que lhe concedes mais do que é justo. Ele interpretará como se renegasses a mim e de tudo o que é meu, ao declarar que se submete a seu juízo. Por isso, se Cristo o ama, o obrigará à revogação deste escrito, pois que nessa bula se condena tudo o que ensinou e se compraz. Como nada disto lhe é desconhecido, parece-me que ofende a Cristo, pois aceita como juiz a quem é um furioso inimigo de Cristo, a quem se desencadeia contra a palavra da graça. Terá que afirmar isto e argumentar-lhe contra essa impiedade. Que não é para andar com temores, mas gritar, este tempo em que o nosso Senhor Jesus Cristo se vê condenado, despojado e blasfemado. Na mesma medida em que me exorta à humildade, lhe exorto à soberba. A sua humildade é tão excessiva como excedente é minha arrogância.

Mas a situação está séria. Vemos que Cristo está sofrendo. Se antes foi preciso silenciar, agora quando o próprio boníssimo Salvador que se entregou por nós padece de escárnio por todo o mundo, não lutaremos por ele, não arriscaremos o nosso pescoço? Meu pai, que é muito mais grave o perigo do que muitos pensam. Começa a entrar em vigor a declaração do evangelho: “ao que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu pai, mas me envergonharei de quem se envergonhar de mim.”[3]

Que pensem que sou soberbo, avarento, adúltero, homicida, antipapa e réu de todos os vícios, contanto que não podem me impiamente arguir em calar enquanto o Senhor sofre e diz: “não há escapatória para mim; não há quem cuide de meu espírito; olhei para a minha direita e ninguém me reconhecia”[4] Tenho a confiança de que esta confissão me perdoará de todos os meus pecados. Que por este motivo lancei confiado chifres contra esse ídolo e verdadeiro anticristo de Roma. A palavra de Deus não é palavra de paz, mas palavra de espada.[5] Mas “que direi, imundo eu sou, a Minerva?”[6]

Escrevo-lhe isto em confiança, porque muito temo que se levante como um mediador entre Cristo e o papa que percebe o quão violentamente ele é. Roguemos para que o Senhor Jesus Cristo sem tardar com o sopro de sua boca destrua a este filho da perdição.[7] Se não quiser vir após mim, deixe-me que marche e me enfade. Pela graça de Deus não deixarei em minha tarefa de atirar na face de suas monstruosidades a esse monstro.

É verdade que me enche de tristeza a sua submissão, que me revela a um Staupitz tão diferente daquele pregador da graça e da cruz. Não sofreria se houvesse atuado desta forma antes da promulgação da bula e da ignomínia feita a Cristo.

Hutten e outros escrevem com força a meu favor e estão preparando canções que farão pouca graça a essa Babilônia.[8] O nosso príncipe atua com tanta prudência e fidelidade como constância. Edito essas Asserções, por sua ordem, tanto em latim como em alemão.[9]

Felipe[10] lhe saúda e roga para que cresça o seu ânimo. Dê saudações, por favor, ao médico Ludovico[11] que me escreveu com tanta erudição. Não tive tempo de responder-lhe, por isso tenho três prensas trabalhando só para mim. Adeus no Senhor, e rogue por mim.

Wittenberg.
Dia de santa Apolônia, 1521. O seu filho Martinus Lutherus.


NOTAS:

[1] 1Co 9.27.
[2] Leão X, por meio do arcebispo de Salzburg, Mateus Lang, urgiu a Staupitz que declarasse como heréticas as doutrinas de seu súdito, Frei Martinho Lutero. Veja a reação de Lutero ao informar-se de que Staupitz se submetia a sua causa da decisão do pontífice.
[3] Mt 10.32; Lv 9.26.
[4] Sl 142.5.
[5] Mt 10.34.
[6] Dito recolhido de Erasmo, Adagia I.1.40.
[7] 2Ts 2.3 e 8.
[8] É interessante para notar o jogo de opinião pública nesta fase da Reforma.
[9] Assertio omnium articulorum M. Lutheri per bullam Leonis X novissimam damnatorum. WA 7, pp. 94-151.
[10] Felipe Melanchthon.
[11] Ele chama equivocadamente Ludovico, o médico do arcebispo de Salzburg, cujo verdadeiro nome era Leonardo Schmaus.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Acerca da ordem do culto público [1523]

Por Martinho Lutero

O serviço de adoração que agora está em uso comum em todos os lugares remonta ao começo genuíno cristão, e do mesmo modo, o ofício da pregação. Mas assim como este foi pervertido pelos tiranos espirituais, assim o culto foi corrompido pelos hipócritas. Do mesmo modo que não abolimos por essa causa o ofício da pregação, senão que buscamos restaurá-lo outra vez ao seu lugar correto e próprio, muito menos é nossa intenção eliminar o culto, mas sim restaurá-lo novamente ao seu uso devido.

Três sérios abusos foram introduzidos no culto. Primeiro, silenciou-se a Palavra de Deus, e permaneceram somente a leitura e o cântico nas igrejas, o qual é o pior abuso. Segundo, quando se silencio a Palavra de Deus introduziram uma multidão de fábulas e mentiras não cristãs, com lendas, hinos e sermões que é algo horrível de suportar. Terceiro, tal culto divino se converteu numa obra pela qual se poderia ganhar a graça de Deus e a salvação. Como resultado, desapareceu a fé e todos se esforçavam por entrar no sacerdócio, encheram os conventos e os monastérios, e construíram igrejas.

Agora para corrigir estes abusos, primeiro deve-se saber que uma congregação cristã nunca deve se reunir sem a pregação da Palavra de Deus e a oração, ainda que seja breve, como diz o Salmo 102.21-22: "Para que publique em Sião o nome de Jehová, e seu louvor em Jerusalém, quando os povos e os reinos se congregarem para servir a Jehová". E Paulo em 1 Coríntios 14 diz que quando se reunirem deverá haver profecia, ensino e admoestação. Assim, quando não há pregação da Palavra de Deus, melhor que nem se cante, nem leiam, nem sequer se reúnam.

Este foi o costume entre os cristãos do tempo dos apóstolos e também se deve praticar agora. Devemos nos reunir diariamente às quatro ou cinco da manhã e os alunos, ou sacerdotes, ou quem quiser, para ler a Palavra de Deus, da maneira em que, todavia, se lê a lição matinal; isto o devem fazer um ou dois, ou de modo responsivo entre dois indivíduos ou coros, como melhor lhes parecer.

Logo o pregador, ou quem quer que seja que se tenha nomeado, se adiantará e interpretará uma parte da lição, para que todos entendam e a aprendam e sejam admoestados. Ao primeiro Paulo chama "falar em línguas", ao outro o chama "interpretar" ou "profetizar", ou "falar com o sentido ou entendimento". Se não fizerem assim, a congregação não receberá o benefício da lição, como ocorre nos monastérios e nos conventos, onde somente gritavam às paredes.

A lição deve ser extraída do Antigo Testamento. Deve-se selecionar um dos livros e ler um ou dois capítulos, ou a metade de um capítulo até terminar o livro. Depois selecionar outro livro, e prosseguir assim até que se faça a leitura de toda a Bíblia. E quando não se entender o texto, seguir adiante, e dar glória a Deus. Assim com o treinamento diário o povo cristão chegará a estar adestrado e bem versado na Bíblia. Porque deste modo se formaram cristãos genuínos como nos tempos anteriores - tanto virgens como mártires poderão se formar hoje.

Após a duração de meia hora ou algo assim, a lição e sua interpretação, a congregação se unirá em dar graças a Deus, louvá-lo, e orar pelos frutos da Palavra, etc. Para isto debem usar os Salmos e alguns bons responsórios e antífonas. Em resumo, que tudo termine em uma hora, ou o tempo que for conveniente; porque não se deve sobrecarregar as almas, nem cansá-las, como sobrecarregam como mulas nos monastérios e conventos atualmente.

Desse modo, reúnam-se às cinco ou seis da tarde. A esta hora realmente se deve ler outra vez o Antigo Testamento, livro por livro, ou seja, os profetas, assim como Moisés e os livros históricos se consideram na manhã. Mas sendo que também o Novo Testamento é um livro, permito a leitura do Antigo Testamento na manhã e do Novo Testamento à tarde, ou vice e versa, e a leitura, interpretação, louvor, cânticos e oração pela manhã, também por uma hora. Porque a única coisa importante é que se permita trabalhar a Palavra de Deus para elevar e vivificar as almas para que não se cansem. Se desejarem celebrar outro culto similar durante o dia, após o almoço, é um assunto de livre escolha. E ainda que toda a congregação não participe destes cultos diários, os sacerdotes e alunos, e especialmente aqueles de quem se espera, que serão bons pregadores e pastores, devem estar presentes. E deve-se admoestá-los a fazer isto voluntariamente, não por constrangimento ou forçados, ou para obter um prêmio temporal ou eterno, mas somente para a glória de Deus e o bem-estar do próximo.

Além destes cultos diários para um grupo mais reduzido, toda a congregação deve se reunir aos Domingos, e deve cantar a missa e vésperas como é de costume. Em ambos os cultos se pregará para toda a congregação, na parte da manhã sobre o evangelho do dia, e à tarde sobre a epístola; ou o pregador pode usar seu discernimento para determinar se quer pregar sobre certo livro, ou dois. Se alguém deseja receber o sacramento neste tempo, que seja administrado num horário que seja conveniente a todos os interessados.

Devem descontinuar completamente as missas diárias. Porque a Palavra é mais importante e não a missa. Mas se alguém desejar o sacramento durante a semana, que se celebre a misa quando houver a inclinação e a oportunidade. Porque neste assunto não se pode estabelecer regras definitivas.

Que se retenham os cantos nas missas dominicais e vésperas, mesmo que sejam bastante boas e tomadas da Escritura. Todavia, pode-se aumentar ou diminuir o seu número. Mas selecionar os cânticos para os cultos diários da manhã e à tarde será o dever do pastor e pregador. Porque cada manhã determinará um responsório, ou antífona, digno com uma coleta, e o mesmo para a tarde, e com isto se lerá e cantará publicamente após a lição e exposição. Mas momentaneamente podemos eliminar as antífonas, responsórios, e as coletas, do mesmo modo que as lendas dos santos e da cruz, até que sejam purificados, porque há uma terrível quantidade de imundícia neles.

As festas dos santos devem ser descontinuadas, ou onde houver uma boa lenda cristã, se poderá insertar como um exemplo após a leitura do evangelho do Domingo. Podem continuar as festas da purificação e a anunciação de Maria, e pelo momento também sua assunção e natividade, ainda que os cânticos que são usados nelas não sejam puros. A festa de João Batista também é pura. Nenhuma das lendas dos apóstolos é pura, exceto a de são Paulo. Podem ser transferidas para o Domingo mais próximo, ou celebrar separadamente, se assim desejarem.

Outros assuntos se ajustarão segundo surja a necessidade. Para resumir tudo: que tudo se faça para que a Palavra tenha liberdade de atuar, em vez de palavrear como é a regra até agora. Podemos deixar tudo, menos a Palavra. Por outro lado, nada é tão proveitoso como a Palavra. Porque toda a Escritura mostra que a Palavra deve ter liberdade para atuar entre os cristãos. E em Lucas 10, o próprio Cristo disse: "uma coisa é necessária", ou seja, que Maria se sentasse aos pés de Cristo e ouvisse diariamente a sua palavra. Esta é a melhor parte para escolher e nunca lhe será tirada. É uma palavra eterna. Tudo o mais passará, não importa quanto cuidado e esforço Marta dê. Deus nos ajude a alcançar isso. Amém.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Carta de Martinho Lutero para George Spalatino [19 de Outubro de 1516]

19 de Outubro de 1516.


A George Spalatino, servo de Cristo e sacerdote do Senhor, mestre eruditíssimo, seu amigo sincero e íntegro irmão.

Jesus. Saudações. O que me estranha no eruditíssimo Erasmo, querido Spalatino, é o seguinte: que ao interpretar o apóstolo, entenda a justiça das obras, da lei ou própria (que assim a chama o apóstolo) como a observância das práticas cerimoniais, e defenda, além disso, que no capítulo quinto dos Romanos, o apóstolo não quis fazer referência ao pecado original (que ele, por outra parte, admite). Se lesse os livros que Agostinho escreveu Contra os pelagianos e, em especial, Do espírito e da letra, Do mérito e remissão dos pecados, Contra duas cartas dos pelagianos e Contra Juliano, inclusos quase em totalidade no volume oitavo de suas Obras, perceberia que não fala pessoalmente, senão apoiado nos pais de tanta importância como Cipriano, Nazianzeno, Rético, Irineu, Hilário, Olímpio, Inocêncio e Ambrósio. Se o fizesse, entenderia corretamente ao apóstolo e teria a Agostinho em maior apreço do que até agora tem professado.

Tenho certeza de que meu dissentimento com Erasmo procede do momento de interpretar as Escrituras Sagradas. Pois prefiro seguir a Agostinho do que a Jerônimo, na mesma medida em que ele prefere a Jerônimo do que a Agostinho. Não é que me deixe levar por predileções de minha confissão religiosa, quando intento revalidar a Agostinho; é que me dou conta de que são Jerônimo busca deliberadamente o sentido histórico e, o mais admirável, que interprete muito melhor as Escrituras quando o faz de modo acidental (por exemplo nas Cartas) do que quando o intenciona fazer exaustivamente como nos Opúsculos.

A justiça da lei ou das obras não se encontra somente nas práticas, mas também, e mais exatamente, nas obras de todo o decálogo; porque se observam fora da fé em Cristo, ainda que sejam capazes de fabricar Fabrícios, Régulos e homens integérrimos, saberão tanto de justiça como um arbusto sabe de figos. Como opina Aristóteles, não é realizando coisas justas como que nos justificamos, a não ser que se trate de uma simulação, mas que nos justificamos (por assim dizer), sendo justos é como realizaremos na justiça. É necessário que transforme primeiro a pessoa e depois se transformarão as obras. Agrada-se de Abel, antes que a sua oferta. Mas deixemos isto para outra ocasião.

Rogo-te que te portes como amigo e cristão, e faças saber isto a Erasmo. Porque o mesmo que espero e desejo que sua autoridade chegue a ser celebérrima, temo que muitos se escudem em seu patrocínio para defender a interpretação literal, ou seja, morta, da que estão repletos os Comentários de Lira e quase todos os que foram escritos posteriores a Agostinho. Até o próprio Estapulense, meu Deus, tão espiritual e tão sincero por outra parte, lhe falta na interpretação da Escritura Sagrada esta inteligência que está tão presente em sua vida e em seus conselhos.
Acreditarás que estou temeroso ao ver que passou sob a vara de Aristarco a homens tão eminentes, mas hás de saber que o faço por causa teológica, e pela salvação dos irmãos.

Adeus meu querido Spalatino, e rogue por mim. Escrevo-te a apressadamente, do recôndito de nosso monastério.

O dia seguinte à festa de são Lucas. 1516. Fr. Martinus Luther, agostiniano.


NOTAS:
[1] WA Br1, pp. 70-71. Spalatino (Georg Burckardt, de Spalt), da mesma geração que Lutero, ele viveu entre 1484-1545, exerceu um papel decisivo nos começos da Reforma, dada a sua posição na corte de Frederico, o Sábio, da Saxônia, de quem era chanceler e pregador. Foi o mediador entre o príncipe e Lutero, humanista, e quem soube frear certas destemperanças do reformador que lhe escreveu um numeroso corpo de cartas. Cf. 1. Hüss, Georg Spalatin, Weimar 1956; Id., Georg Spalatins Verháltnis zu Luther und der Reformation: Luther 31 (1960), pp. 67-80.
[2] Refere-se à edição das obras de Agostinho publicadas em Basiléia no ano de 1506.
[3] Sobre o apreço de Erasmo por Jerônimo, em coincidência com as predileções de todos os humanistas, cf. sua própria confissão a Leão X, em 1515 (Opus epistolarum D. Erasmi 11, ed. P.S. Allen, Oxford 1906, p. 80 e 220).
[4] Spalatino também era um mediador entre os humanistas e Lutero, cumpriu fielmente o encargo e na carta que escreveu a Erasmo lhe repete estes conceitos (cf. Opus epistolarum, 417).
[5] Refere-se a Nicolás de Lira (1270-1340) que no início do século XIV escreveu Postillae perpetue in vetus et novum testamentum com grande aceitação e impresso em 1471-1472.
[6] Lefévre d’Etaples (m. em 1536), patriarca do círculo humanista e reformista de Meaux, com algumas ideias próximas de Lutero. Continuou fiel à Igreja de Roma, mas alguns de seu intimidade (Farel, por exemplo) se tornaram em líderes fervorosos da Reforma protestante. Cf. F. Hahn. Faher Stapulensis und Luther: Zeitschrift für Kirchengeschitchte 57 (1938), pp. 356-432.
[7] Aristarco de Samotracia, gramático do século III a.C., que para Lutero, Erasmo e os humanistas era o símbolo das atitudes críticas.

Carta de Martinho Lutero para Alberto de Maguncia [31 de Outubro de 1517]

Para Alberto de Maguncia

31 de outubro de 1517

Ao Reverendíssimo Padre em Cristo, Senhor Alberto, Arcebispo de Magdeburg e Maguncia, Senhor de Brandeburg, seu estimado senhor e pastor em Cristo. A graça de Deus seja com ele.

Que a sua Alteza Eleitoral graciosamente me permita, o menor e mais indigno dos homens, escrever a você. O Senhor Jesus Cristo é minha testemunha de que eu, por conta de minha indignidade, há muito tempo tenho hesitado fazer o que agora faço audaciosamente, movido a isso por um senso de obrigação que eu devo a você, reverendíssimo padre. Que a sua Graça olhe graciosamente para mim, pó e cinzas, e responda à minha ânsia por sua aprovação eclesiástica.

Com o consentimento de sua Alteza Eleitoral, a Indulgência Papal para a reconstrução da Basílica de São Pedro em Roma está sendo levada pelo do território. Eu não me queixo muito do alto clamor do pregador de Indulgências, o qual eu não ouvi, mas me entristece o falso significado que o povo simples atribui às indulgências, as pobres almas acreditando que, quando compram tais cartas, asseguram a sua salvação; e também que, no momento em que o dinheiro cai na caixa, almas são libertas do purgatório; e que todos os pecados serão perdoados por meio de uma carta de Indulgência, mesmo aquele de ultraje à Mãe de Deus, fosse alguém blasfemo o suficiente para fazer tal coisa; e, finalmente, que, por meio dessas Indulgências, o homem é livre de todas as punições! Ah, Santo Deus! Assim estão aquelas almas que têm sido entregues aos seus cuidados, querido padre, sendo levadas no caminho de morte. E por elas você terá de prestar contas. Porque os méritos de nenhum bispo podem assegurar a salvação das almas confiadas a ele, o que nem sempre é assegurado através da graça de Deus, o apóstolo admoestando-nos a "trabalhar a vossa própria salvação com temor e tremor"; e que o caminho que leva à vida é tão estreito, que o Senhor, por meio dos profetas Amós e Zacarias, assemelha aqueles que alcançam a vida eterna a um tição tirado do fogo; e, acima de tudo, o Senhor aponta para a dificuldade da redenção. Portanto, eu não poderia mais permanecer em silêncio.

Então, como você pode, por meio de falsas promessas de Indulgências, as quais não promovem a salvação ou a santificação das almas deles, levar o povo à segurança carnal, declarando-os livres das dolorosas consequências da má conduta, com as quais a Igreja costumava punir os pecados deles?Porque atos de piedade e amor são infinitamente melhores do que Indulgências, mas ainda assim os bispos não pregam estes atos tão energicamente, embora o principal dever deles é pregar ao seu povo o amor de Cristo. Em nenhum lugar, Cristo mandou pregar as Indulgências, mas sim o Evangelho. Assim, a que perigo um bispo se expõe quando, ao invés de pregar o Evangelho entre o povo, condena-o ao silêncio, ao mesmo tempo em que o clamor das Indulgências ressoa através do território? Não irá Cristo dizer a eles, "Tu coas um mosquito, mas engoles um camelo"?

Em adição a isto, reverendo padre, tem sido espalhado largamente, sob o seu nome, mas certamente sem o seu conhecimento, que esta Indulgência é o inestimável presente de Deus, por meio do qual o homem pode ser reconciliado com Deus e escapar do fogo do purgatório, e que aqueles que comprarem a Indulgência não têm necessidade de arrependimento.

O que mais eu posso fazer, reverendíssimo padre, além de implorar que a Sua Serena Alteza olhe para este assunto e possa abolir este livreto de instruções, e que ordene aqueles pregadores a adotarem um outro estilo de pregação, para que não surja alguém e lhes refute escrevendo um outro livro em resposta ao primeiro, para a confusão da sua Serena Alteza, ideia que muito me alarma. Eu espero que a sua Serena Alteza possa graciosamente se dignar a aceitar o fiel serviço que o seu insignificante servo, com verdadeira devoção, renderia a você. Que o Senhor guarde você para toda a eternidade. Amém.

Wittenberg, véspera do Dia de Todos os Santos, 1517.

Se for conforme o desejo de sua Graça, talvez você poderia olhar as minhas teses que envio em anexo, para que você possa perceber que a opinião sobre as Indulgências é muito variada, enquanto aqueles que as proclamam fantasiam que tais Indulgências não podem ser disputadas. Seu filho indigno,

Martinho Lutero
Agostiniano, separado como Doutor de Sagrada Teologia.

Carta de Martinho Lutero para Johannes Lange [1 Março de 1517]

Para Johannes Lange
1º de março de 1517

No presente momento, eu estou lendo o nosso Erasmo, mas meu coração recua dele mais e mais. No entanto, uma coisa que eu admiro é que ele constantemente e sabiamente acusa não somente os monges, mas também os padres, de uma ignorância preguiçosa e profundamente arraigada.

Todavia, sou temeroso, pois ele não propaga com amplitude suficiente a graça de Cristo e de Deus, da qual ele conhece muito pouco. O humano é para ele de maior importância do que o divino.

Embora eu não queira julgar Erasmo, eu lhe advirto para que você não leia cegamente o que ele escreve. Pois nós vivemos em tempos perigosos e todos os que são bons estudiosos do hebraico e do grego não são verdadeiros cristãos; mesmo Dr. Jerônimo, com as suas cinco línguas, não conseguiu se aproximar de Agostinho, com sua única língua -- embora Erasmo veja tudo isso de um ponto de vista diferente. Aqueles que atribuem algo ao livre-arbítrio do homem consideram estas coisas diferentemente daqueles que conhecem a livre graça de Deus.

De nossa deserta Wittenberg.
Martinho Lutero, Agostiniano.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Sobre o hábito de embreagar dos alemães

Lutero disse: "Amanhã eu tenho que dar uma palestra sobre a embriaguez de Noé [Gn 9: 20-27], então eu devo beber o suficiente esta noite para poder falar sobre a maldade como alguém que sabe por experiência."

O Dr. Cordatus [seu convidado] disse: "De maneira nenhuma, você deveria fazer o oposto!"

Para isso, Lutero respondeu: "É preciso fazer o melhor dos vícios que são peculiares a cada terra. Os boêmios empanturram-se, os Wendes [colonos eslavos na Saxônia] roubam e os alemães bebem avidamente sem parar. Como você superaria um alemão, querido Cordatus, exceto deixando-o bêbado - especialmente um alemão que não ama música e mulheres?"

LW rol. 54, no. 3476.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Dos judeus e suas mentiras - por Martinho Lutero

NOTA DOS EDITORES

Com esta publicação o leitor brasileiro tem o privilégio de travar conhecimento – pela primeira vez em língua portuguesa –, com esta polêmica obra do Reformador da Igreja, MARTIN LUTHER, ou Lutero, datada de 1543. Este livreto – conforme definição do próprio Luther – apesar de esporadicamente citado, nunca esteve ao alcance dos brasileiros. Trata-se de uma obra “abafada”, a exemplo de importantíssimas edições e reedições trazidas a luz pela REVISÃO, em nosso país, e que forças do obscurantismo, sob absurdas alegações, procuram manter escondidas nos mais profundos escaninhos da História.

A presente edição de um escrito com mais de 450 anos, com termos e expressões não usuais na língua alemã de hoje, foi traduzida ao linguajar atual, sem perder a fidelidade do original – em alemão arcaico com letras góticas – disponível na livraria da Universidade de Harvard, EUA, sob número catalográfico 1282.59.105. A publicação desta obra se destina a estudo e á pesquisa de uma época. Certos de estarmos contribuindo para a ampliação do conhecimento sobre a História, passamos a palavra ao grande Reformador.
Porto Alegre, novembro de 1993


APRESENTAÇÃO

A QUESTÃO JUDAICA! – fantasmagórica qual Ahasveros, há milênios ronda os destinos da humanidade como terrível incógnita! O que há com este povo que outrora rejeitou a graça divina, rejeitou o Messias, perseguindo-o até os nossos dias com ódio implacável, que pregou na cruz e aos brados raivosos proclamou “que seu sangue venha sobre nós e nossos filhos”! Que papel lhe foi dado no seio dos povos onde vive, por toda terra? Será o fermento da decomposição, que tudo destrói o “espírito que sempre nega”? Já se viu em Mefisto o símbolo de Judá, mas onde está a “força que sempre cria o bem”? Todas perguntas sem respostas. Grandes mentes se ocuparam deste tema, imperadores romanos, notáveis guerreiros, sábios conquistadores: Napoleão, Schiller, Goethe, filósofos e poetas eminentes, mas o enigma continua.

Todos concordam, no entanto, em ver no judeu um perigo universal. Martin Luther, o grande Reformador alemão, merece especial destaque entre os que se ocuparam da questão judaica. Espírito vigoroso, Lutero a princípio se empenhou na conversão dos judeus. Mais tarde, porém, experiências pessoais o convenceram do contrário, reconhecendo o grande perigo que Judá representava para o povo alemão, e isto já há mais de quatrocentos anos! – chamando a atenção a este fato através da palavra e em escritos. Lutero desconhecia a questão racial, se bem que chegou a mencionar e alertar sobre a mistura de sangue, ressaltando essencialmente o aspecto religioso da questão; mas também sobre o aspecto religioso da questão; mas também sobre o aspecto religioso o perigo lhe parecia imenso para o seu povo, tanto que nas suas últimas predicas fazia advertências denunciando este perigo, como antes, nos anos de 1542/3 em seus dois escritos “Dos judeus e suas mentiras” e “Schem Hamphoras e da linhagem de Cristo”, ambos praticamente desconhecidos em nossos círculos religiosos. Afirmam alguns que os citados escritos devem ser lidos com reserva, pois Lutero já estava na fase final da sua vida. Testemunhas pessoais, no entanto, afirmam que Lutero se manteve com espírito lúcido até os últimos dias. O fato é que ambos os escritos desapareceram do mercado. A humanidade, tem o direito de saber como Lutero encarava a questão judaica.

Os excertos que publicamos são fiéis ao texto original. A publicação do original completo fugiria ao caráter popular por conter considerações de ordem teológicas e exegéticas de difícil compreensão, além da linguagem cáustica, própria do Reformador – o que pretendemos evitar. Se mesmo assim o leitor ficar chocado com um ou outro termo, ele deve lembrar-se que a linguagem há mais de quatrocentos anos atrás era naturalmente mais rude, popular, direta, sem as preocupações sofisticadas da linguagem social dos nossos dias. Para que o leitor entenda que tivemos que adaptar um pouco o texto original à linguagem dos nossos dias, deixamos o título, a introdução e a parte final em seu texto original, para que o leitor tenha uma ideia da linguagem da época. Das interpretações e conceitos de Lutero pode cada um pensar o que quiser, mas pelo exemplo de sua vida e através dos seus escritos mostrou seu grande amor ao seu povo, o povo alemão.

No segundo livreto (diz Lutero “Buechlein”, ou seja, livrinho), Lutero trata do curioso tema “Schem Hamphoras”, ou Tetragrama – as letras IHWH – tetragrama ao qual os rabinos e não rabinos davam poderes mágicos, e, segundo a lenda, usado até por Cristo para realizar seus milagres.
Que o leitor aprecie ao máximo o vigor da linguagem de Lutero.

HANS LUDOLF PARISIUS, 1936.



Dos judeus e suas mentiras
MARTIN LUTHER. Doutor

Havia-me proposto de não mais escrever sobre ou contra os judeus, mas como soube que estes infelizes não param com as tentativas de aliciar a nós, cristãos, para o seu campo resolvi fazer publicar esse pequeno livro para figurar como testemunho entre aqueles que resistiram e alertaram os cristãos contra esse venenoso propósito dos judeus jamais imaginei que um Cristão pudesse deixar-se enganar ao ponto de praticar o que os Judeus praticam mas o demônio é o senhor do mundo que faz o que quer lá onde não está a palavra de Deus não só com os fracos mas também com os fortes que Deus nos ajude Amém.
Graça e paz no Senhor!


Caro senhor e amigo!

Recebi um escrito, falando de uma conversa entre um judeu e um cristão, sendo que o judeu atreveu-se a interpretar diferentemente os versos das Escrituras da nossa Fé (em Cristo e sua mãe Maria), querendo com isto derrubar a nossa crença. Pois darei a ele, e a todos, a minha resposta. Não é minha intenção brigar com os judeus nem aprender com eles como devem ser interpretadas as Escrituras. Já sei a verdade. Muito menos quero converter os judeus, coisa impossível e inútil. Eles sempre nos causaram contrariedades. Tornaram-se duros e insensíveis aos castigos, nem querem livrar-se da maldição de não terem chegado a Deus após 14 séculos, suplicando em vão! Castigos corporais seriam inúteis, tanto quanto nossos discursos ou ponderações.

Por isso o cristão deve manter-se calmo e não brigar com os judeus, mas quando falar com um deles, dizer somente assim: “tu não sabes, judeu, que Jerusalém, vosso reinado, vosso templo e vossos sacerdotes foram destruídos há mais de 1460 anos? A contar deste ano de 1543, fazem precisamente 1469, quase 1500 anos, portanto, que Vespasiano e Tito destruíram Jerusalém, expulsando vocês judeus”. Deem a eles este ossinho para roer. Essa imensa ira de Deus mostra claramente que eles erram e são injustos. Qualquer criança vê isto. Deus não podia ser tão severo a ponto de castigar seu povo tão duramente sem dar sequer um sinal de advertência, uma palavra de consolo, ou predizer o fim do castigo! Quem teria esperanças num Deus assim, quem o amaria? De onde se pode concluir que os judeus foram abandonados por Deus, não sendo mais o seu povo, nem Ele seu Deus.

Vejamos Oséias 1.9 – “Vós não sóis meu povo, como não sou vosso deus”. Sim, infelizmente eles estão sofrendo e podem questionar como quiserem – a verdade é esta. Se tiverem um mínimo de discernimento e juízo, deveriam pensar assim: “Meu Senhor, algo está errado conosco, a miséria é grande, duradoura, severa demais; Deus nos esqueceu.” Eu mesmo não sou judeu, mas sinceramente não gosto de pensar sobre a ira de Deus contra eles, pensamento que me assusta e arrepia. Que fará a eterna ira de Deus contra os falsos cristãos e ateus no inferno? Pois bem, os judeus podem pensar de Jesus o que quiserem, mas será como diz Lucas em 21.22.23: “Quando virem Jerusalém sitiada por um exército, saibam que é vindo o tempo da destruição, pois serão os dias da vingança, haverá grande miséria e ira sobre este povo.”

Em suma, não discuta muito com os judeus sobre artigos da nossa Fé. Eles foram criados e ducados no ódio contra nosso Deus e não há outra esperança de eles, algum dia, aceitar Cristo como o Messias, senão pelo cansaço do sofrimento e do desespero. Por ora é cedo discutir com eles, além de inútil. Para fortalecer nossa Fé, vamos tratar agora da maneira como os judeus, na sua crença, cometem tolices, cheias de veneno, na interpretação das Escrituras. Se um único judeu for com isso beneficiado, tanto melhor. Porém não vamos falar com os judeus, mas dos judeus e seus procedimentos, para que os alemães os conheçam.

Eles têm um grande motivo para vangloriar-se desmesuradamente! Afinal são os “Bem-nascidos” deste mundo! Nascidos de Abraão, Sara, Isaac, Rebeca, Jacó e mais... Nós. (Goiym) pagãos, aos seus olhos, não somos gente, apenas nobres vermes, indignos de ser por eles considerados não somos da sua extirpe de sangue nobre, do seu povo, de sua descendência!... Na minha concepção, são estes seus principais argumentos. E Deus tem que aturar este orgulho injurioso nas escolas, nos seus hinos, nos seus ensinamentos sem fim: tem que ouvir suas ladainhas cheias de autoelogios e veneração pelo “seu” Deus que, de modo mui agradecidos, os separou dos pagãos e os fez nascer de santos ancestrais e seu povo eleito. Um hino de louvor sem fim.

Para completar estas ladainhas idiotas e insensatas, louvam e agradecem a deus por tê-los feito gente e não animais, que pertencem a Israel e não aos pagãos (Goiym), que os fez másculos e não efeminados. No entanto, tamanhas bobagens não provem de Israel, mas sim dos goiym. Contam antigas lendas que o grego Platão glorificava os céus diariamente, agradecendo aos deuses que o fizeram gente e não animal, que o fizeram homem e não mulher, grego e não estrangeiro e bárbaro. Esta é a forma de um blasfemo agradecer! Assim como os Walen (povo de Veneza, que sabiam achar metais nobres com um espelho mágico, segundo a lenda), convencidos de que só eles eram gente, sendo os outros subumanos, quando não patos ou ratos. Na verdade, não se pode negar aos judeus sua estirpe de tribo de Israel. Pelo seu orgulho, diz no velho Testamento que foram castigados em muitas batalhas e guerras perdidas (o que nenhum judeu consegue entender). Todos os profetas os castigaram por esse atrevimento, resultando em mortes e perseguição.

Nosso Senhor também os chama de “ninhada de víboras‟, João 9.39: “Se forem filhos de Abraão, façam a obra de Abraão. Vós sois filhos do diabo, ele é vosso pai”. Ser filhos do diabo e não de Abraão? Desta não gostaram, e não gostam até hoje. Mudar tudo, entregar tudo, deixar da nossa maneira de ser? (Seguem-se provas extraídas das Escrituras refutando e rejeitando a autoglorificação e pretensão descabidas, terminando Lutero com as palavras:) isto disse para reforçar nossa fé; os judeus jamais deixarão deste orgulho e da glória de sua extirpe nobre. São obstinados. Os cristãos devem precaver-se para que não sejam seduzidos por este povo maldito e obstinado, que despreza todo mundo. Eles gostariam de atrair-nos para sua crença, e o fazem sempre que possível. E mesmo que Deus lhes conceda misericórdia e graça, terão que abandonar antes suas orações blasfemas, tirá-las das escolas, dos seus corações e suas bocas, pois tais orações provocam a ira de Deus. Mas eles não farão! Humilhar-se a esse ponto?...

Outro fato que os judeus apontam e apregoam para demonstrar sua superioridade, é a circuncisão, instituída por Abraão.

Valha-me Deus do sofrimento dos pagãos nas suas escolas! Como devemos feder para seus narizes por não sermos circuncidados! (seguem-se considerações de ordem teológica, terminando com Salmo 5, continuando Lutero). Este Salmo diz respeito a todos, principalmente aos judeus, para quem foi feito, como toda Escritura, que os descreve e caracteriza bem. Pois foram eles que praticaram atos pagãos, blasfêmia e falsos ensinamentos, como o próprio Moisés e todos os profetas lamentam. Queriam com isto agradar a Deus, mas só praticam erros e assassinaram profetas. É um povo maligno, obcecado, e, como dizem os escritos, não abdicaram do mal nem através dos ensinamentos ou doutrinas dos profetas. Mesmo assim querem ser servos de Deus, e se afirmam perante Ele. São palermas orgulhosos que até hoje só sabem vangloriar-se do sangue de sua tribo, desprezando e amaldiçoando todos os outros, nas escolas nas suas orações e seus ensinamentos. Mesmo assim se dizem os filhos prediletos de Deus.

São eles grandes mentirosos, cachorros raivosos que desvirtuaram e falsificaram as Escrituras com suas calúnias e inverdades. Seu grande sonho é de um dia poder tratar de nós como outrora trataram os pagãos na Pérsia, no tempo de Ester. Ah, como gostam do livro de Ester! Tão ao gosto de seus instintos sanguinários, vingativos, sua ânsia assassina! Nunca o sol iluminou um povo tão sanguinário e vingativo, e ainda se julga o povo eleito de Deus! Julga-se não só no direito, mas no dever de eliminar os pagãos, exterminar pela espada todos os não judeus – tudo na expectativa do seu messias! Processo esse que eles demonstraram desde o começo e continuam usando, apesar de terem sido castigados tantas vezes por isso. (Lutero cita aqui motivos fictícios usados pelos judeus para justificar duvidosas vantagens que teriam perante os outros povos, como a circuncisão, base da legislação e da justiça judaica. Com citações bíblicas fala das injustiças, descrenças e ignomínias praticadas pelos judeus, comparando-os ao próprio Satanás). Como seria melhor para eles se nem tivessem a lei de Deus, ou simplesmente a desconhecessem, ficando livres da condenação. Mas são condenados porque a conhecem e a contrariam constantemente. Da mesma forma se dizem povo de Deus as prostitutas, assassinos e ladrões e todas as pessoas más, pois conhecem a lei de Deus, sabem que lhe devem obediência e amor, mas o contrariam assassinando e praticando adultério. Deixe que se vangloriem como os judeus, de ser o povo de Deus. Digo como os judeus que, vangloriando-se de ser o povo eleito de um Deus que os santificou, por outro lado desafiam suas leis, praticam o orgulho, enchem-se de inveja, aplicam a usura, são sovinas e cheios de maldade, mas nas suas orações, querem mostrar-se devotos e santos. Pois são tão cegos que não só praticam a usura, como a ensinam como um direito concedido por Moisés. Na verdade, porém, a usam para mentir a Deus, como em tudo. Mas não é aqui o momento de falar sobre isso. (Goethe, em “Feira Anual de Plunderswellen” diz: “Eles praticam uma crença que lhes permitem roubar aos outros”).

Se os Dez Mandamentos não são cumpridos, que dizer das outras leis? Serão mera bufonaria, escárnio, fazer Deus de bobo. Um palhaço vestido de Papa, Bispo ou pregador, fazendo a vez do demônio, blasfemando, tratando os Mandamentos e as Escrituras a pontapés. Que bela roupagem para um santo! Ou uma bela jovem, com todos os modos de virtuosa virgem, a esconder, na verdade, pecaminoso ventre de prostituta, desafiando os Dez Mandamentos e querendo iludir-nos com aparente santidade! Nós condenaríamos – sete vezes mais! – do que a prostituta pública declarada. Assim Deus sempre considerou os filhos de Israel, através dos seus profetas, como prostituta enganadora, para, sob falsa aparência, praticar maldades e bruxaria, como lastima Oséias nos cap. 2, 4 e 5.

É agradável quando uma mulher ou uma virgem se veste bem e se comporta com bons modos. Mas se for uma prostituta, seus adornos ficariam melhor numa porca enlameada, como disse Salomão. Vangloriar-se abertamente das leis de Moisés, desrespeitadas abertamente pelo não cumprimento da lei da obediência, é condenável e os faz sete vezes mais indignos de ser o povo de Deus do que os pagãos o são. Deixem que vão! Fiquemos com aqueles que rezem o Miserere. Salmo 51, isto é, com aqueles que sabem que é e o que não é obediência. Saiba, pois, caro cristão, o que fazes ao te deixar persuadir pelos judeus. Aqui vale o ditado: quando um cego guia outro cego, os dois caem no abismo. Mais do que isto não se aprende com eles.

A não compreensão das leis divinas, aliada a seu orgulho e arrogância contra os pagãos, que não tem orgulho e por isso melhores, é atitude condenável destes falsos santos, blasfemos e mentirosos. Cuide-se, pois, dos judeus e de suas escolas que não passam de ninhos diabólicos, cheias de blasfêmias, mentiras e arrogância contra Deus e todas as gentes, como só faz o próprio demônio; e onde vires um judeu pregar, saiba que ele está envenenando as pessoas, envenenando e matando com o maior descaramento. Não entenderam a ira de Deus; acham, ao contrário, que blasfêmia, orgulho e outras maldades contra os não-judeus, é servir ao seu Deus e resguardar sua nobre estirpe e sangue. Cuidado com eles! Ainda se vangloriam com orgulho de terem recebido de Deus a terra de Canaã, a cidade de Jerusalém e o templo! Apesar de Deus ter castigado seu orgulho várias vezes, notadamente através do rei Babel que os tirou de sua terra e tudo destruiu, assim como o rei da Assíria, que os carregou, e por fim dizimados e arrasados pelos romanos; apesar de já terem passado 14 séculos que Deus não os olha, nem as suas terras, suas cidades e sacerdotes, eles ainda não entenderam que não são o povo eleito de Deus. Suas nucas orgulhosas ainda não se curvaram, suas frontes não se ruborizaram de vergonha, continuam teimosos, cegos, irredutíveis e duros. Ainda esperam que Deus os guie de volta e lhes devolva tudo.

Eles não perceberam que deus tudo fez para que observassem seus Mandamentos, mas a estes desprezaram. Vangloriaram-se da circuncisão, mas o motivo para o qual foi instituída – a observância das leis – a este, desprezaram. Enaltecem suas leis, o templo, seus cultos, cidades, terras e domínio, mas porque tem tudo isso, não o valorizam. Satanás, com todos os seus anjos, exorta esse povo para que enalteça perante Deus somente exterioridades, como a casca sem caroço, oca, vazia. Diz Moisés “assim como eles não me têm como seus Deus, também não o tenho como meu povo”, trecho também encontrado em Oséias 2,2. Se Deus não tivesse expulsado da terra, ninguém poderia dizer que não são Seu povo, pois cidade e terra ainda seriam deles, apesar de sua desobediência, suas maldades e obstinação. Mesmo com centenas de profetas e mil Moisés proclamando que não são o povo eleito, eles o seriam. Mas por terem sido expulsos há mais de 1500 anos, castigados e sofridos, mostra que não o são, mesmo que o proclamem. E orgulhosamente nutrem a esperança de voltar à sua terra por seus próprios méritos, pois eles não têm promessa ou profecia que os pudesse consolar, a não ser o que eles mesmo rabiscam falsamente nas Escrituras. Deste modo os judeus estão à mercê de suas próprias decisões, dos erros que propositadamente cometem, agarrados aos seus rabinos; deixemo-los então com suas blasfêmias e suas mentiras venenosas.

Dou meu testemunho pessoal de como são os judeus. Três deles, doutos, me procuraram na esperança de converter-me ao judaísmo. É que, aqui em Wittemberg, começaram a ler hebraico; como também líamos os seus livros, seria sinal de que me breve, nós cristãos estaríamos informados da verdade (mais bem informados...). Como discuti com eles, fizeram o mesmo, mostrando-me seus escritos. Eu os obriguei a fixar-se nos textos. Procurando fugir aos mesmos, disseram que acreditam tanto nos rabinos como nós acreditamos no Papa e nos doutos. Mas me compadeci deles, fiquei com pena deles. Consegui-lhes o “passe livre” para que pudessem transitar sem restrições. (Geleitsrecht: mediante uma taxa em dinheiro, eram protegidos e podiam mover-se livremente, era o “Judenschuts”).

Como soube depois, eles chamaram a Cristo de TOLA, ou seja, um mercenário enforcado. Por isso não quero saber mais nada dos judeus. Como disse São Paulo: eles estão entregueis à ira; quanto mais o ajudamos, mais obstinados se tornam. Que sejam! – (seguem-se considerações de ordem teológica, científica, citações bíblicas e considerações diversas, fortes, típicas de Martin Lutero). Só queremos extrair o seguinte, Ageu 2, - assim fala o Senhor: “dentro de pouco tempo agitarei os céus e a terra, os mares e continentes, mais, agitarei todos os pagãos, quando então virá Hemdath, o consolo dos pagãos”. É necessário explicar que lá, onde não chegou o consolo, isto é, o Messias, enquanto ainda existia o templo, ele não chegará nunca depois da sua destruição, há 1568 anos. Os judeus não entenderam a advertência do “pouco tempo”. Pois 1568 anos é muito tempo. E aqui eles desvirtuam os conceitos, propositalmente. Hemdath, que em hebraico significa literalmente “consolo ou esperança dos pagãos”, Messias, portanto, eles interpretam como “ouro e prata” dos pagãos. Como Hemdath, pela gramática também significa cobiça ou volúpia, optaram por essa conceituação. Então quando virá o Hemdath, será ouro e prata, o que seu messias distribuirá entre eles. É assim que interpretam as Escrituras. Será que os profetas de Deus não tinham outra coisa para anunciar a estes malditos judeus, senão satisfazer seu apetite pelo ouro e pela prata? Eles nutrem aos não-judeus um ódio fatal, herdado dos pais e dos rabinos, ódio, como diz o salmo 109, que lhes passa pelos ossos e pela carne, e, como não se mudam nem osso nem carne a não ser por um ato milagroso de deus. Saiba, pois, caro cristão, que não tens inimigo mais atroz, mais forte, mais venenoso do que o judeu convicto. Deve haver entre eles alguns primitivos que acreditam no que também acredita uma vaca ou um ganso, mas não deixam de pertencer à estirpe dos circuncidados. Em histórias muitas vezes são acusados de envenenar poços, de roubar crianças e torturá-las, como em Trento e Weissenssee (prática do sacrifício, como ritual religioso, Ritalmord). E quando praticam algum bem, saiba que não é por amor ou para te beneficiar; o fazem para garantir um espaço entre nós. Se duvidares, leia o que dizem homens sérios como Lyra e Buchen. Alguém que não conheça o demônio, deve admirar-se do ódio que nos têm, quando nem há motivo; eles habitam entre nós, sob nossa proteção (Judenschutz), usam nossa terra, nossas ruas, nossas feiras e nossos becos. E, muitas de nossas nobres autoridades, roncam impassíveis, de boca aberta, deixando os judeus esvaziar seus cofres, deixam-se explorar pelos juros até o próprio empobrecimento, tornando-se mendigos. Os judeus, pelo certo, nada deviam ter, porque é tudo nosso. Como não trabalham, a nada tem direito, muito menos que os paguemos com nosso dinheiro. No entanto eles tem nosso dinheiro e nossos bens e, apesar de estrangeiros, são donos de nossa terra. Quando um ladrão rouba 10 ducados, ele perde a cabeça, mas quando um judeu rouba 10 toneladas de ouro, através da usura, ele é melhor que o próprio Deus. E ainda se vangloriam dizendo: vejam como Deus está conosco, como ele nos protege em terras estrangeiras. Não trabalhamos, cultivamos a preguiça enquanto estes amaldiçoados goiym trabalham para nós e ainda tiramos seus dinheiros; são nossos escravos e nós os senhores. Firmes queridos, queridos filhos de Israel, tudo vai melhorar ainda mais, nosso Messias virá se continuarmos a explorar os pagãos pela usura ou outros meios. E nós ainda os protegemos! (seguem-se trechos históricos e exegéticos que mostram que Lutero conhecia a fundo o Talmud e o Schulchan Aruch, o que explica a sua mudança de atitude perante os judeus). Entre outras, o Talmud que não é pecado matar um pagão, só é pecado matar um irmão israelita. Quebrar juramento também não é pecado.

Roubar ou expropriar um pagão é prestar um serviço a Deus, pois se consideram de sangue nobre e circuncidados. Não nos tratam pior porque são os senhores do mundo, sendo nós escravos e animais. Isto ensinam os rabinos, como diz em Mateus 15,6 e 5,28, propagando falsos ensinamentos e, como diz Cristo, desvirtuando os 10 Mandamentos, pois tinham no templo agiotas, mercadores e atravessadores (Geizhaendler) fazendo da casa de Deus um covil de ladrões. Se Deus chegou a chamar sua própria casa de covil de ladrões e assassinos, imaginem o que deve ter-se passado lá! Quantas almas se perderam por causa de falsos ensinamentos! E insistem os judeus nestes falsos ensinamentos até hoje, herdados dos pais, desvirtuam a palavra de Deus, praticam usura, roubam e matam onde podem, passando estas práticas para os filhos e os filhos dos filhos ...

Comparados aos judeus, como são mais honestos os filósofos e poetas pagãos; falam da ordem de Deus, da vida futura, das virtudes humanas, quando ensinam que o homem, por natureza, é obrigado a ser bom contra o próximo, mesmo sendo inimigo, a ser fiel e dedicado ao próximo, principalmente em épocas de penúria, como já ensinavam Cícero a seus pares. Eu afirmo que só em três fábulas de Esopo, em algumas comédias de Terento, acham-se mais sabedoria que deveria penetrar nos corações dos judeus.

Talvez vocês pensem que eu falo demais, pois vos digo que falo de menos! Eu vejo nos seus escritos como eles nos condenam, como em suas escolas e suas orações nos desejam todo mal possível (ver a famosa oração Rol-Nidre, que diz tudo...). Eles nos tiram bens e dinheiro pela usura e onde podem aplicam ardilosos truques, ainda proclamando que todo mal a nós causado, é agradável aos olhos de Deus. Os pagãos nunca fizeram coisa semelhante, a não ser quando possuídos pelo demônio, como o são todos os judeus. Burgensis, que foi um rabino sábio, convertido para o cristianismo (coisa rara), falando dessas maldades todas, conclui que os judeus não podem ser o povo eleito, porque se o fossem, fariam como fizeram no cativeiro da Babilônia, quando Jeremias diz: “orai pelo rei e pela cidade, pois sois escravos, e na paz deles encontrareis a vossa paz”. Mas nossos bastardos e falsos judeus acham que devem odiar-nos e causar-nos todo mal, apesar de não ter motivos para isto. Não, realmente, eles não são o povo eleito de Deus. (Interessante são as considerações tecidas sobre como sobre como os judeus, maliciosamente desvirtuam o sentido das palavras para declarar seu ódio a Cristo e aos cristãos). Jesus em hebraico significa “salvador” ou “aquele que presta auxilio”. Os velhos saxões em nossa terra o chamavam de Helprich (o que ajuda): hoje o chamamos de Huelfrich, que tem o mesmo sentido. Os judeus o apelidam de “Jesu”, que em hebraico não é nem nome nem palavra com sentido. Podiam até ser números.

Por exemplo, poderia citar o número romano CLV (155) e dar-lhe um sentido qualquer. Assim eles usam JESU como o número 316, com o significado de “Hebel Vorik” maquinação linguística para enganar à vontade. Leia Anton, Magaritham. Quando os visitamos, eles nos cumprimentam com “Sched wil kom”, e não com “Seid Gott willkommen”. A última expressão significa “bem-vindos de Deus”; a primeira significa “diabo, venha”. Como não entendemos sua linguagem, nem percebemos como nos achincalham, nos ofendem em silêncio, chamam a Jesus de filho de prostituta, dizem-no filho de um ferreiro e de Maria adúltera. A contragosto tenho que falar rudemente, mas é a linguagem contra o demônio. Os judeus sabem que mentem propositadamente e o fazem com medo de que sua juventude seja influenciada pelos ensinamentos de Cristo. Sebastião Muenster, em sua Bíblia, fala de um venenoso rabino que chama Maria de “Haria”, que significa “monte de esterco”, e quanto não fazem e dizem que não sabemos. (Lutero tece considerações gerais sobre Messias, sobre o caráter dos judeus e sua queixa de se sentir cativos entre nós...) e vejam que enorme mentira quando se queixam de serem nossos cativos! Há 1400 anos o templo foi destruído, mas os que foram perseguidos durante 300 anos, torturados ou mortos, foram os cristãos. Até hoje não sabemos como os judeus vieram parar em nossas terras. Certamente não fomos buscá-los em Jerusalém e ninguém os prende aqui. As estradas são livres – que voltem para lá, se quiserem. Ainda lhes daríamos presentes para livrar-nos deles, porque para nós são um peso, uma praga e uma desgraça. Na verdade, já foram expulsos de vários lugares, como a França, que no livro de Obadia chamam de Zarpath (terra que apreciam muito).

Há pouco tempo foram expulsos da Espanha, que, também no livro de Obadia, chamam de Sepharad, pelo querido rei Carlos, terra que também apreciavam como seu ninhm. Neste ano que corre, foram tocados do reino da Bohemia, onde tinham em Praga um ninho todo especial, assim também de Magdeburg, Regensburg e outros lugares mais. Se não gosto de alguém na minha terra ou na minha casa, significa que mantenho preso? Na verdade, são eles que nos mantém presos em nossa própria terra. Deixam-nos trabalhar, enquanto curtem a preguiça, nada fazendo senão pilhar nossos bens através da usura e dos juros. Preguiçosos, praticam a pompa, comem e bebem do melhor, mantendo-nos como seus escravos, e ainda blasfemam contra Nosso Senhor.

Não seria motivo para o demônio alegrar-se e dançar, ao encontrar tal paraíso entre os cristãos, que ele criou por intermédio dos judeus, seus santos, que devoram o que conseguimos com nosso suor e trabalho, amaldiçoando a Deus e os homens?

Em Jerusalém, sua terra, nos tempos de Davi e Salomão, os judeus certamente não tiveram dias tão generosos como os têm aqui, terra que saqueia, e exploram todo dia. Nem se queixam que os mantemos em cativeiro. Nós os suportamos como eu suporto um cálculo de rim ou de vesícula, ou qualquer, mas do sangue ou qualquer outra desgraça, cm a maior naturalidade. Eu gostaria de vê-los de volta a Jerusalém, junto aos outros judeus e quem mais quisessem. Sendo certo que não os mantemos escravizados, por que então nos odeiam tanto? Não chamamos suas mulheres de prostitutas, como eles chamam a Jesus, nem os amaldiçoamos. Pelo contrário, queremos a sua felicidade, os abrigamos e deixamos e matamos seus filhos (Ritualmord), não envenenamos suas águas, não somos sedentos do seu sangue. Por que então nos nutrem tanto ódio? Nada mais é, segundo Moisés, que Deus nos castigou com a loucura, a cegueira e coração maldoso. Nós somos os culpados por não termos vingado o sangue inocente de Cristo e o de tantos cristãos mortos nos primeiros três séculos do cristianismo, das crianças sacrificadas (Ritualmord).

Em vez de matá-los, os deixamos impunes pelos assassinatos, blasfêmias e mentiras e dando-lhes espaço entre nós; protegemos suas casas, suas escolas, suas vidas e seus bens, deixando que nos roubem, e ainda escutamos deles que nós devíamos ser espoliados e mortos! Os judeus proclamam que têm razões sagradas para nos destruir. As práticas contra nós são convicção religiosa! O que nós cristãos, devíamos fazer com este povo maldito e amaldiçoado? Que fazer já que os temos entre nós, para não compartilhar com suas mentiras e blasfêmias? Como dizem os profetas, não podemos apagar o eterno fogo da ira divina, nem podemos converter os judeus. Devemos rezar com fervor, praticar a piedade e bom exemplo, na esperança de converter pelo menos alguns deles. Não devemos nos vingar, porque já vivem a vingança de Deus, que é pior do que seria a nossa. Vou dar o meu conselho.

Primeiro devíamos incendiar suas sinagogas (ou escolas) e o que não queimar, devia ser soterrado definitivamente, para honra de Nosso Senhor e da cristandade, mostrando a Deus que não toleramos ofensas ao seu filho, nem a quem o segue. Porque o que fizemos até agora, por ignorância, (eu mesmo não sabia) Deus perdoará. Mas agora que o sabemos, ainda temos que guardar suas casas, tolerar suas mentiras e blasfêmias? Seria imperdoável. No Deuteronômio, Moisés diz que uma cidade, onde se pratica a idolatria, deve ser destruída pelo incêndio. Se Moisés fosse vivo, seria o primeiro a incendiar as escolas judaicas (cita provas). Não só as escolas, suas casas deviam também ser destruídas, porque dentro delas praticam a mesma coisa que nas escolas. Os judeus deviam ser reunidos sobre um único teto, como numa estrebaria, igual aos ciganos, para que saibam que não são donos da terra, mas prisioneiros, por suas mentiras e blasfêmias. Em seguida, deviam ser confiscados seus livros de orações e o Talmud, pois só ensinam idolatria e mentiras. Depois, proibir por todos os meios, que os rabinos continuem a pregar, pois perderam o direito de pregar.

Mas, maliciosamente usam os ditos de Moisés 17,11 e 12, para manter os pobres judeus submissos. Nesses textos Moisés diz que os rabinos e professores ensinam a lei de Deus, que deve ser obedecida, nem que custe a vida. Mas o que fazem esses malditos? Usam a obediência para ensinar veneno, blasfêmia e maldição. Que lhes seja negada a proteção nas estradas, pois não são da terra, não são senhores nem funcionários, nem mercadores. Têm de ficar em casa. Eu soube que um judeu andou percorrendo as estradas com uma tropa de 12 cavalos, praticando a usura e roubando a população com seus juros. Cada um deve aprender a se defender desta prática dos judeus. Devemos proibir-lhes a especulação, como Moisés já havia proibido. Devemos tirar-lhes todos os objetos de valor e o ouro, e guardá-los nós, pois foi de nós que tiraram tudo. Sem o que de nós roubaram, eles não se mantêm. Este dinheiro devia ser usado, (só para este fim) para ajudar a um judeu que honestamente tenha se convertido. Devia ser-lhe fornecido o dinheiro suficiente, conforme o caso, para que pudesse adquirir comida para sua mulher e filhos, ou ajudar idosos necessitados. Porque dinheiro que não seja aplicado, com benção de Deus, para fins de caridade, torna-se amaldiçoado.

Citando Moisés, Deutero. 23,20, eles alardeiam que tem todo direito de especular e praticar usura (sendo a única citação que ainda tem a seu favor). Vamos responder. Tem (existem) dois tipos de judeus. Os primeiros são aqueles que Moisés conduziu do Egito para a terra de Canaã, como lhe ordenou Deus. A eles deu as leis e mandou que aí permanecessem até a vinda do Messias. Os outros são os judeus do rei, surgindo no tempo de Pilatos, governador da terra de Judá. Quando perguntou o que devia fazer com Jesus, chamado o Messias, eles responderam gritando: “crucifica-o”! Pilatos perguntou: “Querem que eu crucifique vosso rei?” Ao que responderam: “nós não termos rei a não ser o Imperador (romano)!”. Tal subordinação (submissão) ao Imperador, deus não lhes ordenou, eles a escolheram. Mas quando o imperador exigiu-lhes cega obediência, eles se revoltaram. O imperador foi a Jerusalém, reuniu todos os seus súditos e os espalhou por todo o reino, para que se submetessem às suas ordens. Esses são os lugares dos judeus de hoje, dos quais Moisés nada sabe, e eles nada de Moisés. Se eles quisessem obedecer a lei de Moisés, terão antes que voltar a Canaã, voltar a ser judeus de Moisés com suas leis e submeter pagãos e outros estranhos. Então podem praticar a usura à vontade e tanto quanto os outros suportarem. E como não obedecem à lei de Moisés, deviam pelo menos respeitar os direitos do imperador nas terras se encontram, pois, a lei de Moisés não foi feita para o Egito ou para a Babilônia, ela foi feita para asa terras de Canaã (do Jordão).

Que se deem enxadas, machados e pás aos jovens judeus, para que ganhem o pão com o suor do seu rosto, como foi ordenado aos olhos de Abraão, Gên. 3.19, porque não é justo que deixem os goym desgraçados trabalhar e suar, enquanto eles, preguiçosamente e em casa, a se refestelar com comida que não produziram. Devíamos arrancar esta preguiça deles. Sua aversão ao trabalho é tamanha, que mesmo que pudessem nos prejudicar com o trabalho, não o fariam. Sua soberba não o permitiria. Devíamos fazer como a França, a Espanha e a Bohêmia. Ajustar contas, tirar deles o que nos tiraram, expulsá-los daqui, pois a ira de Deus é contra eles e tratá-los com piedade é inútil: então, fora com eles!

Escuto dizer os judeus dão grandes somas aos poderosos (Herren). Sim, mas de onde tiram estas grandes somas senão destes mesmos poderosos e seus súditos, que somos nós. De seu próprio trabalho é que certamente não provem. Somos nós os idiotas, explorados por eles, que produzimos as riquezas que depois nos tiram, rindo de nós e praticando maldades, tornando-se cada vez mais ricos às custas de nosso suor. Se um servo ou hospede dá a seu 10 florins (moedas) ao ano, mas tira-lhe mil, em pouco tempo o servo estará rico e seu Senhor falido. É o que o judeu faz. Se não reagirmos, estaremos traindo a Cristo e vendendo nosso império, nossas mulheres e nossos filhos. Mesmo que CAD judeu desse, por ano, 100 mil florins (moedas) não devíamos permitir ofensas deles a um único cristão. Em suma, meus queridos e nobres senhores, se o meu conselho não for o certo, apresentem outro melhor, para que todos nós não sejamos culpados perante Deus de nada termos feito contra este fardo diabólico, com suas ofensas a Cristo, sua Santa Mãe, contra toda autoridade, para tirar deles toda proteção, todas a garantias, para que não possam mais tirar o que é nosso. Certamente nós já temos pecados em número suficiente, incluindo os do Papado, desprezando tantas vezes o que Deus nos ofereceu, que não queremos cometer mais este, deixando que os judeus nos explorem. Lembre-se que combatemos diariamente os turcos, porque precisamos redimir-nos dos nossos pecados e garantir-nos uma vida melhor. Quero aqui desculpar e aliviar a minha consciência por ter, pelo menos, exposto e denunciado estes fatos. A todos, senhores, amigos, pastores e pregadores; quero chamar a atenção para que cumpram este dever de alertar a todos sobre os perigos que os judeus podem nos causar. Não devemos blasfemar contra eles ou causar-lhes prejuízos pessoais, pois com suas blasfêmias contra Jesus e sua Santa Mãe, já estão castigados.

As autoridades devem tratá-los como sugiro. E tu, cristão, quando vires um judeu, pense assim: Olhe esta boca maldita, que todo sábado ofende a Nosso Senhor, que derramou seu sangue por nós, e que reza para que eu, minha mulher e meus filhos morramos indignamente, transpassados por espadas (coisas que fariam pessoalmente, se pudessem), para apoderar-se dos nossos bens. Só no dia de hoje, quantas vezes não devem ter cuspido no chão, amaldiçoando Nosso Senhor?! E com uma boca destas devo compartilhar à mesa, escutá-la, beber e ouvi-la? Que me guarde Deus! Eles não têm nossa crença e convertê-los é impossível. Toda ajuda que dermos a eles, em forma de proteção nas estradas, garantia de moradia, bebida ou asilo, pode torna-nos cúmplices do seu ódio e blasfêmia.

À qualquer ajuda nossa, respondem com escárnio, porque afirmam que Deus os fez senhores e a nós escravos: se num sábado acenderes um fogo e cozinhares para eles, ainda darão risadas. Eles sempre foram e ainda são nossa desgraça, nossa praga pestilenta. Lá onde vocês atuam, caros pregadores, se houver judeus, façam ver aos senhores e regentes, para que cumpram sua obrigação de evitar que eles explorem o povo, para que eles os façam trabalhar, coibindo a prática da usura e da blasfêmia. Porque nossas falhas ou crimes – roubo ou blasfêmia –, eles cobram, por que não haveremos de julgar os seus crimes, estes filhos do inferno? Sofremos mais sob os judeus do que eles sob os espanhóis, que lhes tiram o que podem e ainda os ameaçam de morte. Assim fazem os judeus conosco, apesar de serem nossos hóspedes. Nos roubam, espremem, não saem da nossa nuca, xingam Nosso Senhor, nos amaldiçoam e desejam-nos todo mal possível. O que justifica termos que aturar tudo que nos fazem, afirmando ainda que não são nossos escravos, quando na verdade são nossos senhores e tiranos! Por que os senhores de nossas terras não os expulsam, não os mandam de voltam para suas terras, onde, em Jesus, podem mentir, roubar e assassinar à vontade? Que nos deixem em paz na nossa terra, com nossos filhos e nossa fé. Se vocês, pregadores, tiverem chamado atenção para tudo isso, e se nenhum senhor ou súdito tiver tomado qualquer atitude, então podemos, como disse Cristo, limpar o pó dos nossos sapatos e dizer: somos inocentes do vosso sangue! Quantas vezes eu vi e experimentei, como é caridoso este mundo errado, quando devia ser severo, e é severo quando devia ser caridoso. Assim como o rei Acab, Reis 20, assim o príncipe rege o mundo.

Decerto serão caridosos com os judeus, para garantir um lugar no céu, mas ignoram a maldade que cometem contra nós. O que é que nós pobres pregadores podemos fazer!? (Seguem relatos sobre imolações, Ritualmord). Quem quiser abrigar, tratar bem estas víboras diabólicas e ainda se deixar explorar – pois bem, que o faça, prenda-se às suas bocas, enfie-se nos seus retos, pratique a mesma idolatria para dizer que foi caridoso, que encorajou o demônio a blasfemar ainda mais contra Nosso Senhor, que derramou seu santo sangue para nos salvar. Sim, sereis então o cristão perfeito com muitas obras de caridade praticadas – que Cristo premiará no juízo final com o fogo eterno, junto com os judeus. È uma linguagem dura, mas dirigida contra os esbravejar impiedoso deles. Os judeus sabem disto. Como cristãos, vamos usar de linguagem mais sutil, mais espiritual. Assim fala N. S. Jesus Cristo em Mateus 10: “quem me acolhe, acolhe Àquele que me enviou”; Lucas 10: “quem vos despreza a mim despreza, despreza Àquele que me enviou”; João 15; “quem me odeia, odeia meu Pai”; João 5: “que todos glorifiquem ao filho como glorificaram ao Pai: quem não honra o filho não honra o Pai que o enviou”.

Pode alguém, dizer que os judeus não sabem disto porque não aceitaram o Novo Testamento, ao que eu respondo: eles podem acreditar no que quiserem, mas nós cristãos sabemos que eles blasfemam publicamente contra deus e Nosso Senhor. O que poderíamos responder a Deus se no dia do Juízo Final nos perguntasse desta forma: e tu, cristão, que sabias que os judeus blasfemavam contra Mim e meu Filho e ainda os deixava proceder assim sem castigá-los? (seguem-se considerações gerais a respeito).

Por fim, Lutero resume da seguinte forma: será, pois, para nós cristãos, tarefa muito séria de tudo fazer para livrar-nos, com nossas almas, desta peste que são os judeus, para salvar-nos do Satanás e da morte eterna. Devemos, antes de mais nada, como já dissemos, queimar suas sinagogas com enxofre e fogo do próprio inferno, para que Deus testemunhe o fim destes lugares usados para ofende-lo e ofender nossa sincera devoção. Segundo, tirar-lhes seus livros escritos, que só usam para injuriar o Filho de Deus, criador do céu e da terra. Terceiro, que se lhe proíba louvar e agradecer a Deus, sob pena máxima. Que o façam na sua terra, nós não queremos ouvi-lo, pelo motivo de suas preces e louvores serem pura blasfêmia, chamando de “Hebel Vorik” ao Filho de Deus, pois o que se dizem do Filho, dizem do Pai. Está escrito que não usarás o nome de Deus em vão, e, apesar da sua linguagem bajuladora, chamaram Deus de “Baal” nos tempos dos reis. Quarto, que lhes seja proibido pronunciar o nome de Deus, pois nossa consciência não permite que chamem a N. S. de Hebel Vorik, e quando o fizerem que sejam entregues às autoridades, sem piedade, pois se trata da honra de Deus e da bem-aventurança de todos nós, inclusive a dos judeus. Mas se eles disserem que não é essa sua intenção, que não sabem que estão blasfemando, estão ao mesmo tempo louvando e honrando a Deus! Mas acima já foi dito: eles não entenderam a Palavra de Deus, permanecendo durante 1500 anos no mesmo erro, o que não é desculpa, pelo contrário, fazem-se sete vezes culpados! Por fim quero dizer: se Deus não me desse outro Messias senão aquele que os judeus querem e esperam, eu preferiria ser um porco a ser uma pessoa humana, pois o Messias deles deve ser um Kochab e um mundano, com poderes para destruir o que não seja judaico. (Kochab: conceito de origem desconhecida; a partir do séc. XVI estrela de segunda categoria na constelação do Pequeno Urso). Com um Messias desses, minha vida seria dez vezes pior que a de um porco! Eu diria: Meu Deus! Fique com esse messias ou dê-o a quem quiser; transforme-me num porco, pois seria melhor do que a condição de um humano moribundo. Como disse Cristo: seria melhor ao homem não ter nascido. Se eu, no entanto, tivesse um “messias” que me libertasse dessa condição, me tirasse o medo da morte, do demônio e do inferno, que me fizesse não temer mais a ira de Deus, meu coração exultaria de alegria e festa. Não precisaria de ouro ou de prata – o mundo seria um paraíso, mesmo que tivesse que morar num cárcere com alegria e gratidão intermináveis!

Judeus e turcos nada querem saber de um Messias assim. Eles querem um “das Arábias”, que lhes encha a pança e que seja mortal como qualquer vaca ou cachorro. Em minha opinião, se quisermos ficar livres dos males judaicos, temos que separar-nos deles, temos que mandá-los embora de nossas terras. E eles? Que vão para a sua pátria! Assim não ouviremos mais suas mentiras sobre o cativeiro entre nós, e nós estaremos livres de suas blasfêmias e usura! Penso que dei o melhor conselho para garantir ambas as partes. (Seguem-se considerações sobre a Santíssima Trindade, contestada pelos judeus).

Finalizando diz Lutero:
“Tudo isto, meu caro amigo e bondoso senhor, fui obrigado a redigir para feitura deste livreto, para mostrar como um judeu aplica sua arte de conversação contra um cristão despreparado. Comigo, valha-me Deus, ele não o faria. O cristão que não queira tornar-se um judeu, tem agora uma arma na mão para defender-se dos venenosos judeus, não só, ele sabe agora como são maus, como mentem e blasfemam, sabe agora que seu credo, além de ser falso, é regido por todos os demônios. Cristo, nosso bom Senhor, converte-os piedosamente, e guarde-nos para sempre, com firmeza, a compreensão de Ti, que és a vida eterna.
AMÉM.



Do Schem Hamphoras e da Linhagem de Cristo
Wittemberg, 1543, Martin Luther
(Schem Hamphoras, nome hebraico explicito de Deus)

No outro livreto eu havia anunciado que iria arrolar o que estes furiosos e malditos judeus escrevem, mentem e blasfemam sobre seu Scham Hamphoras, como relata Purchetus em seu livro chamado VITORIA. Quero fazê-lo em honra da nossa crença e contra as mentiras diabólicas dos judeus.
Em suma são jovens demônios condenados ao inferno. Mas se ainda existe alguma coisa de humano neles, que lhes seja de utilidade o que aqui escrevo. Que tenha esperanças quem quiser. Eu não tenho. Nem a maioria dos nossos cristãos podemos converter, quanto mais estes filhos do demônio, se bem que muitos acreditam nesta utopia pelas palavras de São Paulo aos romanos, quando fala da conversão dos judeus no fim dos tempos. Palavras mal interpretadas. São Paulo quis dizer bem outra coisa.

Há mais ou menos trinta anos eu ouvi dizer de um judeu que se infiltrou junto ao duque da Saxônia. Albercht, que também ensina a arte de se defender contra todos os tipos de armas, para evitar que sejamos apunhalados, batidos ou atirados. Oh, é uma bela arte a de seduzir um nobre senhor para eliminá-lo traiçoeiramente. Mas o duque foi esperto, certificando-se antes. Cavalgaram ambos ao campo e disse: judeu, preciso experimentar esta arte em você, transpassando-lhe o corpo que caiu inerte, de nada valendo seu Schem hamphoras e nem o Tetragramaton. (Tetragrama, nome próprio para Deus, composto das letras JHWH, usado só em rituais especiais). Disse o duque: como querias, judeu, tirar-me a vida? E ainda terias dado risadas, com certeza. Foi melhor assim. Ainda guardo comigo um cristal, que me foi dado pelo meu atual senhor, duque João. Este cristal contém letras e símbolos hebraicos, para serem invocados a qualquer instante necessário. Mas o nobre duque era sábio o suficiente não se entregando a estas superstições.

Também por serem os judeus tão ávidos em se apossar destes cristãos renegados e viciados, que nada de bom lhes oferecem, o sangue judeu se misturou, tornou-se impuro, aguado e selvagem, aprendendo desta forma a odiar cristãos. Por outro lado, os judeus também nada de bom aprenderam com eles. Assim mestres e aprendizes se misturaram, praticando e se aperfeiçoando ao ponto de tornar-se este caldeirão infernal. Pois um cristão renegado torna-se terrível inimigo da Cristandade.

Evitar, naturalmente o mau exemplo, que nada as dignifica das virgens e viúvas que arranjam filhos sem pai, como nas Escrituras, quando falam em mulheres sem homem, mas com filhos. Seria muito estranho se nossas filhas, nossas virgens e viúvas enchessem nossas casas e filhos que arranjaram “lambendo a neve”, não tendo outro pai. De “lamber neve” ninguém engravida. Moisés diz em Gên. 1 que são necessários um homem e uma mulher; só quando Deus os unir, lhes dará a benção do fruto ventral.

Que nós aprendamos sua língua e sua gramática é bom, assim como eles aprendem de nós a língua alemã, dos belgas a língua belga, e onde se encontram aprendem a língua do país. Mas a nossa Fé e a compreensão das Escrituras, eles não aprendem. Assim devemos nós aprender a sua língua, mas sua crença, condenada por Deus, não.


PALAVRAS FINAIS

Assim foi ordenado aos conhecedores da língua hebraica. Termino aqui, nada mais querendo saber deles ou escrever sobre ou contra eles. Entre eles há muitos que querem se converter. Deus lhes conceda sua graça, para que, conosco, louvem nosso Deus e Senhor, nosso Criador, assim como a Jesus Cristo e ao Espírito Santo, por toda eternidade.
Amém.


ATENÇÃO
Os escritos de Martin Luther, que acabaram de ler, são de 1543, portanto, de 450 anos atrás.
Publicado originalmente pela REVISÃO EDITORA LTDA, Porto Alegre, Novembro de 1993.

Contra a acusação de que Martinho Lutero era um antissemita leia ESTE ARTIGO.
Revisado por Rev. Ewerton B. Tokashiki

Prefácio de João Calvino à Loci Communes de Filipe Melanchthon

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