sábado, 30 de dezembro de 2017

Carta de Lutero a Spalatino [1516]

A George Spalatino[1], servo de Cristo e sacerdote do Senhor, mestre eruditíssimo, seu amigo sincero e íntegro irmão.

Jesus. Saúde.

O que me causa estranheza no eruditíssimo Erasmo, querido Spalatino, é o seguinte: que ao interpretar o apóstolo entenda a justiça das obras, da lei ou própria (como a chama o apóstolo) como sendo a observância das práticas cerimoniais, e defenda, além disso, que no quinto capítulo de Romanos, o apóstolo não quis fazer referência ao pecado original (que ele, por outra parte, admite). Se ler os livros que Agostinho escreveu contra os pelagianos, e em especial Do espírito e da letra, Do mérito e remissão dos pecados, Contra duas cartas dos pelagianos e Contra Juliano, inclusos quase em sua totalidade no tomo oitavo de suas Obras[2], perceberia que não fala pessoalmente, senão apoiado nos pais de importância como Cipriano, Naziazeno, Rético, Ireneu, Hilário, Olímpio, Inocêncio e Ambrósio. Se o Fizesse entenderia corretamente o apóstolo e teria a Agostinho com maior apreço do que até agora professa ter.

Estou certo de que minha discordância de Erasmo procede de que ao interpretar as sagradas Escrituras prefiro seguir a Agostinho antes que a Jerônimo na mesma medida em que ele prefere a Jerônimo do que a Agostinho[3]. Não que me deixe levar pelas predileções de minha confissão religiosa quando intento revalidar a santo Agostinho; é que me dou conta de que são Jerônimo busca deliberadamente o sentido histórico e - o mais admirável - que interpreta muito melhor as Escrituras quando o faz de forma incidental (por exemplo nas Cartas) que quando o quer fazer exaustivamente como nos Opúsculos.

A justiça da lei ou das obras não se acha somente nas práticas, mas também, e mais exatamente, nas obras de todo o decálogo; porque se observam fora da fé em Cristo, ainda que sejam capazes de fabricar Fabrícios, Régulos e homens integérrimos, saberão tanto da justiça como a árvore sabe de figos. Como opina Aristóteles, não é realizando coisas justas como nos justificamos - a não ser que se trate de uma dissimulação -, senão que nos justificando (por assim dizer) e sendo justos é como realizaremos na justiça. É necessário que se transforme primeiro a pessoa e depois se transformarão as obras. Abel agrada antes que a sua oferta. Mas deixemos isto para outra ocasião.

Rogo que te portes como amigo e cristão e faças saber isto a Erasmo[4]. Porque o mesmo que espero e desejo que sua autoridade chegue a ser celebérrima, temo que muitos se escudem em seu patrocínio para defender a interpretação literal, ou seja morta, da que estão repletos os Comentarios de Lira e quase todos os posteriores a Agostinho[5]. Até ao próprio Estapulense, meu Deus, tão espiritual e tão sincero, por outra parte, lhe falta na interpretação da sagrada Escritura esta inteligência que tem tão presente em sua vida e em seus conselhos[6].

Crerás que sou temerário ao ver que me passo sob a vara de Aristarco[7] a homens tão eminentes, mas há de saber que o faço pela causa teológica e pela salvação dos irmãos.

Adeus, meu querido Spalatino, e interceda por mim. Te escrevo às pressas, no rincão de nosso monastério, o dia seguinte à festa de são Lucas. 1516. Frei Martinus Luther, agostiniano.


NOTAS:
[1] WA Br 1, 70-71. Spalatino (Georg Burckhardt, de Spalt), da mesma geração que Lutero - viveu entre 1484-1545 - exerceu um papel decisivo no início da Reforma dada sua posição na corte de Frederick, o Sábio de Saxônia, de quem era chanceler e pregador. Foi o mediador entre o príncipe e Lutero, humanista, e soube frear certas destemperanças do reformador que lhe escreveu um numeroso corpo de cartas. Cf. 1. Hüss, Georg Spalatin, Weimar 1956; Id., Georg Spalatins Verháltnis zu Luther und der Reformation: Luther 31 (1960), pp. 67-80.
[2] Refere-se às obras de santo Agostinho da edição de Basiléia de 1506.
[3] Sobre o apreço de Erasmo por são Jerônimo - em coincidência com as predileções de todos os humanistas - cf. sua própria confissão para Leão X, em 1515 (Opus espistolarum D. Erasmi 11, edição P. S. Allen, Oxford 1906, 86 e 220).
[4] Spalatino também mediador entre os humanistas e Lutero, cumpriu fielmente o cargo e na carta que escreveu a Erasmo lhe repete estes conceitos (cf. Opus epistolarum, 417).
[5] Refere-se a Nicolás de Lira (1270-1340), que no princípio do século XLV escreveu Postillae perpetuae in vetus et novum testamentum, com grande aceitação e impressas em 1471-1472.
[6] Lefévre d'Etaples (falecido em 1536), patriarca do círculo humanista e reformista de Meaux, com algumas ideias semelhantes as de Lutero. Seguiu fiel à igreja de Roma, mas alguns de seu cenáculo (Farel, por exemplo) se tornariam em partidários fervorosos da Reforma protestante. Cf. F. Hahn, Faher Stapulensis und Luther: Zeitschrift für Kirchengeschichte 57 (1938) 356-432.
[7] Aristarco de Samotracia, gramático, que para Lutero, Erasmo e os humanistas era o símbolo das atitudes críticas.

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