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quinta-feira, 23 de maio de 2019

Os Artigos de Lausanne por João Calvino

Questões a serem discutidas em Lausanne
na nova província de Berna

em 1 de Outubro de 1537

I
A Sagrada Escritura ensina apenas uma maneira de justificação, que é pela fé em Jesus Cristo, de uma vez por todas oferecida, e não é senão um destruidor de toda a virtude de Cristo, quem faz outra satisfação, oferta ou purificação para a remissão de pecados.

II
Esta Escritura reconhece a Jesus Cristo, que ressuscitou dos mortos e está no céu à direita do Pai, como o único chefe e verdadeiro sacerdote, mediador soberano e verdadeiro defensor da sua Igreja.

III
A Sagrada Escritura chama de Igreja de Deus todos os que creem que são recebidos somente pelo sangue de Jesus Cristo e que, creem com constância e sem vacilar, firmam e apoiam-se na Palavra, que, retirando-se de entre nós em presença corpórea, todavia, a virtude de seu Espírito Santo enche, sustenta, governa e vivifica todas as coisas.

IV
A referida Igreja contém certas coisas que são conhecidas apenas para os olhos de Deus. Possui sempre cerimônias ordenadas por Cristo, através das quais é visto e conhecido, isto é, o Batismo e a Ceia de nosso Senhor, que são chamados sacramentos, pois são símbolos e sinais de coisas secretas, isto é, da graça divina. A referida Igreja não reconhece nenhum ministério, exceto o que prega a Palavra de Deus e administra os sacramentos.

VI
Além disso, esta mesma Igreja não recebe nenhuma outra confissão além daquela que é feita a Deus, nenhuma outra absolvição do que aquela que é dada por Deus para a remissão dos pecados e que, por si só, perdoa e remete seus pecados que, para esse fim, confessam a sua culpa.

VII
Além disso, esta mesma Igreja nega todas as outras formas e meios de servir a Deus, além do que é espiritualmente ordenado pela Palavra de Deus, que consiste no amor de si mesmo e do próximo. Por isso, rejeita inteiramente os inúmeros esforços fúteis de todas as cerimônias que pervertem a religião, como imagens e coisas semelhantes.

VIII
Também reconhece o magistrado civil ordenado por Deus apenas como necessário para preservar a paz e a tranquilidade do Estado. Para que fim, deseja e ordena que todos sejam obedientes a medida em que nada é ordenado contrário a Deus.

IX
Em seguida, afirma que o casamento é instituído por Deus para todas as pessoas como adequado e conveniente a elas, e não infringe a santidade de ninguém.

X
Finalmente, quanto às coisas que são indiferentes, como alimentos, bebidas e a observação dos dias, permite que tudo o que o homem crê que possa usar em todos os momentos de forma livre, a não ser o que a sabedoria e a caridade impeçam.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

A forma de questionar e examinar aos pequenos antes de serem admitidos a receber a Ceia do Senhor

Escrito por João Calvino


Pergunta o mestre: Vocês são cristãos?
Responde o discípulo: Sim somos, pela misericórdia de Deus.

Mestre: Vocês nasceram cristãos, ou se tornaram após o nascimento?
Discípulo: Todos nascemos pecadores desde o ventre da mãe, condenados, inimigos de Deus e filhos da ira por natureza. Mas, depois recebemos o benefício de sermos cristãos por amor de Jesus Cristo.

Mestre: Por que motivo nascemos assim?
Discípulo: Porque todos pecamos em Adão, por ele ter se tornado pecador, nascemos pecadores corrompidos e sentenciados a morte como traidores.

Mestre: Que sinal vocês têm de que são cristãos?
Discípulo: Tenho a fé do evangelho e o batismo.

Mestre: Se têm a fé por sinal de são cristãos, digam-me agora em que creem?
Discípulo: Cremos em Deus Pai, e em Jesus Cristo seu Filho, e no Espírito Santo, em quem tenho toda confiança de minha salvação, e a quem sempre recorremos em todas as nossas necessidades.

Mestre: O Pai, o Filho e o Espírito Santo são mais de um Deus?
Discípulo: Não. Porque não há, nem pode existir além de um, que é o Criador e Preservador de tudo.

Mestre: Que confissão de fé vocês fazem?
Discípulo: A que é desde sempre comum à Igreja de Jesus Cristo, que se chama o Símbolo dos Apóstolos, que começa: Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, criador do céu e da terra ...

Mestre: Em quantas partes se divide?
Discípulo: Em quatro.

Mestre: Diga o resumo do que contém na primeira parte.
Discípulo: Que Deus, que é Pai de Jesus Cristo, nosso Senhor, é também pai de todos nós por amor dele; e é o princípio e causa de todas as coisas, as quais governa de tal maneira que nada ocorre sem a sua ordenação e vontade, e ele é o provedor de todas as coisas, o que mantém e sustenta com sua bondade, sabedoria e poder.

Mestre: Agora diga o que contém na segunda.
Discípulo: Que Jesus Cristo, sendo Deus igual ao Pai, condescendeu ao mundo, e se fez homem no ventre da santa e virgem Maria, por obra do Espírito Santo, e vindo cumprir tudo o que se requeria para nossa salvação; e que do céu, aonde subiu após ressuscitado, e onde está assentado à destra do Pai, no último dia virá com grande glória e majestade para julgar vivos e mortos.

Mestre: Passe para as duas últimas.
Discípulo: A suma da terceira é que confessamos crer no Espírito Santo, Deus verdadeiro, igual com o Pai e o Filho, por cuja virtude e potência as promessas feitas e cumpridas em Jesus Cristo são impressas e seladas em nossos corações; o qual nos santifica e conserva pela fé, e nos faz seu templo. A última é que há uma igreja santa e universal, congregada e iluminada pelo Espírito Santo, livre e purificada de seus pecados pelo sangue de Jesus Cristo, o qual é seu cabeça, de onde recebe espírito e vida, e que Deus lhe tem equipada a cumprida possessão da vida eterna. Este é o resumo e substância do que creio.

Mestre: Está bem declarado, passemos adiante. Devemos servir a Deus segundo os seus mandamentos, ou segundo as tradições dos homens?
Discípulo: Devemos servi-lo segundo os seus mandamentos, e não segundo as tradições dos homens.

Mestre: Por que não temos de servi-lo segundo as tradições dos homens?
Discípulo: Porque todos os serviços que por elas se fazem, os têm proibidos como sendo vãos e abomináveis. E castiga com cegueira de entendimento e outros muitos males aos homens por eles.

Mestre: Onde encontraremos os mandamentos de Deus pelos quais requer servi-lo?
Discípulo: Encontraremos em muitos lugares da santa Escritura, e singularmente no capítulo 20 de Êxodo. Deus os deu a seu povo, pela mão de Moisés, dizendo: “Ouve Israel, Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da escravidão: não terás outros deuses diante de mim”, etc. E os demais da primeira e segunda tábua.

Mestre: Vocês têm força para cumpri-los como Deus ordena?
Discípulo: Não, de modo algum; porque toda a nossa inclinação é fraqueza, ignorância e corrupção.

Mestre: Então, quem é que os cumpre em vocês?
Discípulo: O Espírito Santo.

Mestre: E depois de Deus ter concedido o seu Espírito, vocês são capazes de cumpri-los perfeitamente?
Discípulo: Muito menos.

Mestre: Deus na lei amaldiçoa e rejeita a todos os que não cumprem perfeitamente os seus mandamentos.
Discípulo: Assim é verdade.

Mestre: Então, por qual meio vocês serão salvos e livres da maldição de Deus?
Discípulo: Seremos salvos somente pela morte e sofrimento de nosso Senhor Jesus Cristo.

Mestre: Como assim?
Discípulo: Porque por sua morte nos restituiu a vida, e nos reconciliou com o eterno Pai. Segundo disse são Paulo, que foi morto pelos nossos pecados, e ressuscitou para nossa justificação.

Mestre: De que maneira vocês serão participantes do benefício de sua morte e ressurreição para alcançar a salvação?
Discípulo: Recebendo-o por verdadeira fé e confiança na misericórdia de Deus.

Mestre: Essa fé com que se recebe o benefício de Cristo, encontra-se sem a obediência de Deus, e sem caridade para com o próximo?
Discípulo: Não, de modo algum. Porque ela é a raiz de onde procedem. E assim, quem verdadeiramente crê, alegremente obedece a Deus e ama ao seu próximo, e pelas boas obras que lhe faz, declara tanto um como o outro.

Mestre: De que maneira a fé, a obediência e o amor estão juntas no cristão?
Discípulo: Na verdade elas sempre andam tão unidas que onde qualquer uma delas se acha, necessariamente se encontram todas as outras.

Mestre: Satisfeito, passemos à oração, e digam-me primeiro. Em nome de quem vocês invocam a Deus?
Discípulo: Em nome de Jesus Cristo, que é o nosso perpétuo intercessor e advogado diante de sua Majestade.

Mestre: Há outro advogado, ou temos necessidade de outro além deste diante do Pai?
Discípulo: Não há outro, nem temos necessidade de outro. Porque não há além de um Redentor, que é Jesus Cristo, assim não há, nem pode haver mais de um advogado e mediador entre Deus e os homens, que é ele mesmo.

Mestre: Será ouvido se fizer uma oração a Deus por meio de outro que não seja Jesus Cristo?
Discípulo: Não. Pelo contrário, peca em orar assim. Porque não tem mandamento, nem promessa de Deus para isto; e tudo o que não procede da fé, é pecado.

Mestre: Logo os que invocam a Deus por meio dos santos que passaram por este mundo, são deste modo ofensores de sua Majestade?
Discípulo: É verdade. Porque não tem Deus expressamente proibido e mostram os que assim o fazem, que não têm Deus por Pai, nem conhecem a Jesus Cristo.

Mestre: Vejamos qual é a forma que se tem que invocá-lo?
Discípulo: A que ensinou Jesus Cristo aos seus apóstolos, para a sua Igreja, de onde se contém tudo o que temos que pedir a Deus para passar desta vida, e vir depois a gozar da que é eterna. E começa desta maneira: Pai nosso, que está no céu, etc.

Mestre: É permitido usar de outra forma de oração que não seja esta?
Discípulo: É lícito, desde que se refira a esta todas as orações que fizermos.

Mestre: Por que?
Discípulo: Porque nesta oração se abrange tudo o que Deus requer que lhe peçamos, e nos é dada por regra de bem orar.

Mestre: Quantos sacramentos há na Igreja cristã?
Discípulo: Somente dois.

Mestre: Quais são?
Discípulo: O batismo e a Santa Ceia do Senhor.

Mestre: Qual é a significação do batismo?
Discípulo: Tem duas partes. Porque nele nos representa o Senhor, de um lado, e a remissão dos nossos pecados, e por outro, a nossa regeneração ou renovação espiritual.

Mestre: E o que nos significa a Santa Ceia?
Discípulo: Significamos que pela comunhão do corpo e do sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, são mantidas nossas almas na esperança da vida eterna.

Mestre: O que nos representa o pão e o vinho que nos são dados na Santa Ceia?
Discípulo: Representam-nos que o corpo e sangue de Jesus Cristo têm tal virtude para manter nossas almas, do mesmo modo que o pão e o vinho para sustentar os nossos corpos.

Mestre: A Ceia foi instituída para que novamente se faça nela o sacrifício a Deus do corpo de seu Filho?
Discípulo: Não, de maneira alguma. Porque somente a Jesus Cristo, por ser o eterno sacerdote, pertence o ofício de sacrificar, o qual na cruz ofereceu seu corpo em perpétuo sacrifício, que bastou para a nossa salvação. Portanto, não resta senão que gozemos dele.

Mestre: Então, para que foi estabelecida a Ceia, se não temos que sacrificar?
Discípulo: Foi-nos deixada por um perpétuo memorial da morte do Senhor. E assim, pelo uso legítimo dela somos induzidos a considerar tudo o que ele fez para a nossa salvação, e somos mantidos espiritualmente, e confirmados na fé de tudo isto.

Mestre: Todo cristão deve receber o sinal do pão e do vinho, ou basta usar apenas de um deles.
Discípulo: É necessário a todo cristão receber ambas os elementos. Porque assim o Senhor Jesus Cristo deixou ordenado e estabelecido. E quem o fizer contra isto, incorre em gravíssimo pecado.

Mestre: Vocês entendem que o corpo de Jesus Cristo esteja encerrado no pão, e o seu sangue no vinho?
Discípulo: Não.

Mestre: Então, onde devemos buscar a Jesus Cristo a fim de satisfazermos nele?
Discípulo: No céu, na glória do Pai.

Mestre: Qual é o meio para ao céu onde Jesus Cristo está?
Discípulo: É a verdadeira fé do evangelho. Porque por ela Deus nos atraí para si, e vamos a ele.

Mestre: Então, é necessário exercer a verdadeira fé, antes que possamos bem usar deste santo sacramento?
Discípulo: É verdade. Porque foi instituída para confortar e esforçar os que estão vivos em Deus, e nenhum está se não a tiver.

Mestre: O que recebem os que carecendo desta fé se achegam da mesa do Senhor para comungar?
Discípulo: Recebendo o sacramento do corpo e do sangue do Senhor, recebem juízo e condenação contra si, como disse são Paulo.

Mestre: Então o que faremos para que recebendo o sacramento nos seja saudável?
Discípulo: Devemos nos examinar como ordena o apóstolo.

Mestre: Como se fará esta prova e exame?
Discípulo: Que observe cada um antes da comunhão, se tem verdadeiro arrependimento de seus pecados, e firme propósito de viver conforme a lei de Deus; se está unido com Jesus Cristo pela fé, e com seus próximos pelo amor.

Mestre: E como podemos ter esta fé para que estejamos dispostos para este celestial convite?
Discípulo: Obtemos pelo Espírito Santo que mora em nossos corações e nos faz certos das promessas de Deus, que nos são feitas no evangelho.

Mestre: Que sinais teremos para conhecer que as recebemos?
Discípulo: Temos quatro. A primeira, amar a Deus e estar afeiçoados pela sua lei. A segunda, ter a consciência pacífica e certa de que são perdoados os nossos pecados pelo sangue de Jesus Cristo. A terceira, usar da caridade com os próximos em geral, e especialmente com os fiéis e membros de Cristo. A última, mortificar continuamente todas as concupiscências e desejos da carne, e ter grande ódio ao pecado.

Mestre: Onde houver estes frutos, existirá a fé verdadeira e eficaz?
Discípulo: Sim, porque eles são conhecidos.

Mestre: Agora sigam com a graça de Deus, e esforcem-se sempre com diligência de frutificar desta maneira, e roguem ao Senhor que faça a todos, que seja glorificado por meio de todos, e que sejamos verdadeiros imitadores de Jesus Cristo, o nosso único Redentor e Senhor.


Fim do catecismo


Traduzido de B. Foster Stockwell, "Catecismo de la Iglesia de Ginebra [1542]" in: Catecismos de la Iglesia Reformada (Buenos Aires, Editorial "La Aurora", 1962), pp. 116-124.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

A externa administração da igreja - Johannes Wollebius

(1)
1. Temos discutido a natureza da igreja. A sua administração será o próximo assunto.
2. Esta é tanto ordinária como extraordinária.
3. A administração ordinária é tanto pública como privada.
4. A administração pública é tanto eclesiástica como civil.
5. A administração eclesiástica é aquela que lida com assuntos espirituais.
6. Alguns de seus assuntos estão restritos àqueles que detém o ofício na igreja [personae in eclesia publicae]; e alguns outros são compartilhados por toda a congregação [coetus].
7. O que é restrito são as coisas que são realizadas por alguns ministros da igreja em razão de seu chamado.
8. Os ministros da igreja são as pessoas que Deus colocou como autoridade na igreja.[1]

PROPOSIÇÕES
I. Ninguém pode ser posto como autoridade na igreja a menos que seja legitimamente chamado.
II. Ninguém pode ser forçado a exercer o ofício eclesiástico.
III. O casamento não é proibido aos ministros. 1 Co 9:5 “não temos o direito de sermos acompanhados por uma irmã como esposa,[2] como os outros apóstolos e o irmão do Senhor, e Cefas?”; 1 Tm 3:2 “o bispo precisa ser irrepreensível, marido de uma esposa”; 1 Tm 3:4 “que governe bem a própria casa, criando os filhos submissos e respeitosos cada todas as coisas”.

(2)
1. Os ministros são tanto extraordinários como ordinários.
2. Os ministros extraordinários eram aqueles homens que Deus levantou para estabelecer um novo regime na igreja, ou para restaurar o antigo naquilo que ela tinha falhado. Assim, sob o Antigo Testamento, eram os profetas. No tempo do Novo Testamento temos João Batista, Cristo, os apóstolos, os profetas (i.e., homens com dom de interpretação Escritura), os evangelistas que acompanhavam e assistentes dos apóstolos, os pastores das igrejas e os mestres encarregados das escolas (Ef 4:11) [eram ministros extraordinários].

PROPOSIÇÕES
I. As marcas do ministro extraordinário eram os dons extraordinários.
II. Estes eram os dons de profecia, línguas e milagres.
III. Estes dons extraordinários antigamente abundavam sempre que a vontade de Deus, ou a necessidade da igreja os exigia, e depois eram retirados, e o ministério ordinário continua.
3. Os ministros ordinários são aqueles que são providos e chamados pelos meios ordinários.
4. Eles são tanto pastores, mestres, presbíteros [presbyteri] e diáconos.
5. Os pastores são aqueles que supervisionam uma particular congregação, para pregar, administrar os sacramentos e cuidar do rebanho.

PROPOSIÇÕES
I. O título de bispo pertence a todos os pastores (1 Tm 3:1).
II. Embora se desenvolveu o costume na igreja, que quem preside uma diocese de igrejas locais é chamado de bispo, o título de bispo universal não se deve conceder a ninguém.
6. Os mestres são aqueles que percebem a verdadeira doutrina, ensinando-a aos jovens nas escolas, bem como, fazem com que prevaleça na igreja.

PROPOSIÇÕES
Entre os pastores e mestres há estas diferenças: pastores são líderes nas igrejas, enquanto os mestres das escolas; pastores são pessoalmente dedicados a mover [a vontade] de seus ouvintes, enquanto que os mestres fazem instruindo-os.[3]
7. Os presbíteros são homens honestos e piedosos, assistentes [adiuncti] dos pastores, que servem em assuntos que afetam o bem-estar da igreja, em visitar o rebanho, tomando nota das irregularidades na vida e coisas similares.
8. Aqueles usos para diáconos e diaconisas[4] se referiam a quem eram confiáveis para receber e distribuir a propriedade eclesiástica (At 6:1-6; 1 Tm 3:8-10).[5]

[ TEXTO COMPLETO ACESSE AQUI ]

NOTAS:
[1] Alexander Ross traduz: “Os ministros são aqueles que Deus comissionou para conduzir o seu rebanho” in: The Abridgment of Christian Divinity, p. 214. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[2] Soror uxor, com Beza. Veja comentários. Nota de John W. Beardslee III.
[3] Alexander Ross traduz: “Pastores diferem dos doutores, que nisto eles têm a condução da igreja, e estes da escola; aqueles movem as afeições, e estes informam o entendimento do seu auditório”. The Abridgment of Christian Divinity, p. 217. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[4] O texto latino: “Diaconi & diaconisse olim erant, quibus bona Eclesiastica coligenda & distribuenda concredita erant” [Os diáconos e diaconisas que por sua vez faziam a coleta e distribuição dos bens eclesiásticos que lhes foram confiados] in: Joanne Wollebio, Compendium Theologicae Christianae (Amsterdami, Apud Aegidum Janssonium Valckenier, 1655), p. 154. Alexander Ross traduz: “Diáconos e diaconisas, na antiguidade, eram eles que faziam a coleta e a distribuição dos bens da igreja” in: The Abridgment of Christian Divinity, p. 217. A tradição reformada ignora a existência de diaconisas, embora Wollebius faça menção a elas. A ordenação feminina é uma novidade entre igrejas presbiterianas e reformadas que aderiram ao liberalismo teológico no século XX. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[5] O título “diácono” permanece em muitas igrejas reformadas, mas não é universalmente usado. Nota de John W. Beardslee III.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Os Artigos com as 67 Conclusões de Hulrich Zwingli [1523]


Os artigos[1]
Eu, Hulrich Zwingli,[2] confesso ter pregado[3] na nobilíssima cidade de Zurique os artigos e conclusões que passarei a expor. Encontram-se baseados na Sagrada Escritura, a “theopneustos”, ou seja, a [palavra] inspirada por Deus. Ofereço-me para defender estes artigos, e estou disposto a ser ensinado,[4] caso não tenha compreendido[5] corretamente a Sagrada Escritura;[6] mas, qualquer correção que me faça permanecer fundamentado somente[7] na Sagrada Escritura.[8]

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[ este texto foi retirado por motivo de publicação ]

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Extraído de James T. Dennison, Jr., ed., Reformed Confessions of the 16th and 17th Centuries in English Translation – 1523-1552 (Grand Rapids, Reformation Heritage Books, 2008), vol. 1, págs. 1-8; ainda, recorrendo ao texto original e notas de Phillip Schaff, “Articuli sive conclusiones LXVII. H. Zwinglii” in: The Creeds of Christendom (Grand Rapids, Baker Books, 2007), vol. 3, pág. 197, e também da tradução hispânica com notas preparadas por M. Gutiérrez Marín, Zuinglio – Antología (Barcelona, Producciones Editoriales del Nordeste, 1973).

Tradução e notas revisadas em 23 de Fevereiro de 2014.
Tradução e notas de Rev. Ewerton B. Tokashiki

Observação: Sou grato ao Rev. Alexandre Ribeiro Lessa por revisar a língua portuguesa e fazer preciosas sugestões de estilo na tradução. Obviamente se ainda há algum erro, assumo toda a responsabilidade.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

As 10 Teses de Berna [1528]

Introdução histórica

A Reforma teve início na Alemanha e encontrava adeptos na Suíça. Thomas Wyttenbach, um professor da Universidade de Basiléia,[1] produzia discípulos cada vez mais influentes no cantão leste. A teologia e as práticas da Igreja Católica Romana estavam progressivamente sendo mais questionadas na região de língua alemã. Deste modo, as cidades de Zurique, liderada por Hulrich Zwingli, Berna sob a liderança de Berthold Haller,[2] Sebastian Meyer[3] e Franz Kolb, e Basiléia com Thomas Wyttenbach influente mentor dos demais,[4] tornavam-se uma ameaça para o monopólio religioso romano.

Os governantes civis de Berna seguiram o exemplo de Zurique[5] e convocaram um concílio para realizarem um debate público em alemão, e não em latim. A reunião ocorreu durante o período de 7 a 26 de Janeiro de 1528, entretanto, os debates tiveram início formal em 15 de Janeiro. O concílio terminou no dia 26 de Janeiro, com a subscrição da maioria dos clérigos de Berna.

De um lado estariam os pregadores protestantes defendendo as suas conclusões teológicas. Assim foram as 10 Teses preparadas e defendidas pelos ministros que deram início à reforma da Igreja de Berna, Berthold Haller, Sebastian Meyer e Franz Kolb. Posteriormente, o texto foi revisado e publicado em alemão, latim e francês[6] para que fosse usado na conferência. Segundo Thomas M. Lindsay elas representavam uma “sucinta apresentação da pregação da Igreja Reformada na Suíça”[7] sob a liderança de Zwingli, que durante o período da disputa pregou dois sermões que causaram positiva impressão nos cidadãos.

Os bispos católicos da cidade de Constança, de Basiléia, de Valais e de Lausanne, apesar de convidados, não compareceram. Durante um segundo momento somente esteve presente o bispo Conrad Treger, de Lausanne, que decidiu guardar silêncio, por não aceitar que o debate ocorresse em língua nativa e não em latim. Os partidários romanistas da cidade de Berna não demonstraram interesse pelo debate, visto se virem desamparados pelo clero regional.

Os principais líderes da Reforma alemã e suíça estavam na conferência. Dentre os mais influentes Ambrosius Blaarer de Constança, Oecolampadius de Basiléia, Martin Bucer e Capito de Estrasburgo, Sebastian Wagner Hofmeister de Schaffhausen, William Farel que era pregador em Aigle, e outros menos conhecidos que entre os suíços e estrangeiros, somavam aproximadamente 250 clérigos presentes.

O resultado da disputa teológica entre protestantes e romanistas foi que as autoridades e cidadãos estavam resolutos em adotar a Reforma. De imediato foram tomadas decisões que refletiram o compromisso com o espírito reformado. A missa foi abolida e substituída pelo sermão,[8] imagens foram removidas dos templos e, os monastérios foram esvaziados e usados para a educação de pessoas comuns, e o sustento clérigos romanistas e a verba papal foi declarada ilegal em Berna. Deste modo o resultado foi que o novo movimento protestante obteve completa vitória em Berna.

A importância deste documento é que ele inaugura a expansão do movimento de Reforma na Suíça. Até então no cantão leste, Zurique está só, e Berna era uma das três cidades mais importantes da região. A união era uma necessidade urgente para que pudessem fortalecer o movimento de Reforma e alcançar outras cidades da federação suíça.


As 10 Teses de Berna

São nos entregues as seguintes conclusões de Franciscus Kolb e Berchtoldus Haller, ambos sendo pastores da Igreja de Berna, ao lado de outros professores ortodoxos, e por esta única razão, as recebemos a partir dos escritos bíblicos, tanto dos livros do Antigo como do Novo Testamento, neste dia designado, sendo o próximo domingo após o dia da circuncisão, no ano de 1528.[9]

I. A santa Igreja Cristã,[10] sobre quem somente Cristo é a Cabeça, é nascida da Palavra de Deus, e se conforma na mesma, e não ouve a voz de estranho.
II. A Igreja de Cristo não pode fazer nenhuma lei ou mandamento aparte da Palavra de Deus. Deste modo, as tradições humanas não devem ser-nos exigidas se elas não estiverem fundamentadas na Palavra de Deus.[11]
III. Cristo é a nossa única sabedoria, justiça, redenção e satisfação pelos pecados de todo o mundo. Assim sendo, nega a obra de Cristo, quando se confessa que há outro fundamento de salvação e satisfação.[12]
IV. Que o corpo e sangue de Cristo é recebido, essencial e corporalmente, no pão da Eucaristia é impossível de se provar a partir da Escritura Sagrada.[13]
V. A missa como atualmente é usada, na qual Cristo é oferecido a Deus o Pai, pelos pecados dos vivos e mortos, é contrária à sagrada Escritura, é blasfêmia contra o mais santo sacrifício, paixão e morte de Cristo e, por esta razão, considerado um abuso e uma abominação diante de Deus.
VI. Assim, somente Cristo morreu por nós, assim, ele deve ser adorado como o único Mediador e Advogado entre Deus o Pai e os crentes. Sendo assim, é contrário à Palavra de Deus propor e invocar outros mediadores.
VII. A Escritura nada revela acerca de um purgatório após esta vida. Assim, todas as homenagens aos mortos, como vigílias, missas pelos mortos, ritos fúnebres de sétimo dia, lâmpadas, candelabros, e coisas deste tipo, são inúteis.[14]
VIII. A adoração de imagens é uma prática contrária à Escritura, tanto nos livros do Antigo como no Novo Testamento. Deste modo, como as imagens desonram a si mesmas, e são um perigo, deveriam ser abolidas como objetos de adoração.
IX. O matrimônio não é proibido na Escritura para nenhuma ordem ou homem em qualquer condição, pelo contrário, é ordenado e permitido a todos que se casem como um meio de impedir a fornicação e a impureza.[15]
X. Assim, de acordo com a Escritura, um assumido fornicador precisa ser excomungado, porque ele está vivendo uma vida de solteiro luxuriosa e impura, que é tão pernicioso para qualquer pessoa e, muito mais para o sacerdote.

NOTAS:
[1] Fundada em 1459 a Universidade de Basiléia é o mais antigo centro acadêmico da Suíça em contínuo funcionamento.
[2] Berthold Haller nasceu em Aldingen (1492-1536), estudou em Rothweil e Pfortzheim onde ele estabeleceu uma aproximação com Felipe Melanchthon. Recebeu o seu bacharel em teologia da Universidade de Köln e, retornou para ensinar em Rothweil e em seguida foi lecionar em Berna (1513-1518), sendo eleito assistente de Thomas Wyttenbach. A sua simpatia e eloquência deu-lhe proeminência na cidade, entretanto o seu repetido desânimo diante das dificuldades precisou que Zwingli o encorajasse a perseverar na obra da Reforma. Segundo Thomas M. Lindsay foram Haller e Zwingli quem esboçaram o texto e tiveram o auxílio de Kolb para expor o seu conteúdo.
[3] Sebastian Meyer (1467-1545) foi um professor franciscano de teologia, de Elsas, que pregava em Berna desde 1518, contra os abusos da Igreja Roma. Os notórios ataques dos monges dominicanos em Berna (1507-1509) e, a venda de indulgências (1518) promovida por eles motivou os cidadãos a apreciarem as pregações e a lerem o documento.
[4] No livro Interpretação e fundamento das 67 Conclusões, escrito em 29 de Janeiro de 1523, Hulrich Zwingli afirma que “no início do ano de 1519 (cheguei a Zurique no dia 27 de Dezembro de 1518, o dia de São João Evangelista), nada sabia de Lutero, a não ser que havia publicado um escrito sobre as indulgências, escrito que a mim, nada poderia dizer de novidade. Acerca das indulgências, eu havia aprendido que são um engano e uma falsa esperança. Aprendi numa discussão promovida em Basiléia alguns anos antes, pelo Dr Thomas Wyttenbach, de Biel, ainda que não estive presente nos debates.” M. Gutiérrez Marín, Zuinglio – Antología (Barcelona, Producciones Editoriales del Nordeste, 1973), pág. 59. A concepção de Zwingli sobre a doutrina da Ceia do Senhor também recebeu influência de Wyttenbach que “atacou a venda de indulgências antes de Lutero, a concepção católica romana da Ceia do Senhor, e o celibato obrigatório.” Albert H. Newman, A Manual of Church History (Philadelphia, The American Baptist Publication Society, 1953), vol. 2, pág. 126; veja também em J. Rilliet, Zwingli: Third Man of the Reformation (Londres, Lutterworth Press, 1964), págs. 27-28.
[5] Em 1523 a liderança da cidade de Zurique convocou um debate entre Zwingli e um grupo representante da Igreja Católica Romana. Nesta disputa o reformador suíço apresentou as suas 67 Conclusões, dando início público à Reforma Suíça com o apoio da cidade.
[6] Originalmente o texto foi escrito em alemão suíço sendo traduzido por Zwingli para o latim e por Farel para o francês visando beneficiar os estrangeiros que estariam presentes no debate. Vide* Thomas M. Lindsay, A History of the Reformation (New York, Charles Scribner’s Sons, 1925), vol.2, págs. 41-42.
[7] Thomas M. Lindsay, A History of the Reformation, vol.2, págs. 42.
[8] O debate terminou no dia 26 de Janeiro e a missa foi abolida em 7 de Fevereiro do mesmo ano.
[9] A tradução fiz do texto latino conforme aparece em Philip Schaff, The Creeds of Christendom (Grand Rapids, Baker Books, 6ªed., 2007), vol. 3, pág. 208. O texto latino reza o seguinte: De sequentibus Conclusionibus nos Franciscus Kolb et Berchtoldus Haller, ambo pastores Ecclesiae Bernensis, simul cum aliis orthodoxiae professoribus unicuique rationem reddemus, ex scriptis biblicis, Veteris nimirum et N. Testamenti libris, die designato, mimirum primo post dominicam primam circumcisionis, anno MDXXVIII.” Um tanto diferente James T. Dennison, Jr. do latim traduz a parte introdutória desta forma: “Berthold Haller e Francis Kolb, ministros evangélicos em Berna com outros professores evangélicos, ambos responderão seguindo o método de proposições e deduções, sendo a regra para todos os debatedores que seja a sacra Escritura, que é a Bíblia do Antigo e Novo Testamento, no dia indicado em Berna, ou seja, aquele que é próximo à Festa da Circuncisão do Senhor. Ano 1528”. James T. Dennison, Jr., Reformed Confessions of the 16th and 17th Centuries in English Translation 1523-1552, vol. 1, pág. 41.
[10] James T. Dennison, Jr. traduz: “A santa igreja católica...” in: Reformed Confessions of the 16th and 17th Centuries in English Translation 1523-1552, vol. 1, pág. 41.
[11] Thomas M. Lindsay traduz: “A Igreja de Cristo não faz lei, nem estatuto aparte da Palavra de Deus, e conseqüentemente, aquelas ordenanças humanas que são chamados mandamentos da Igreja não podem obrigar nossas consciências a menos que estejam fundamentadas na Palavra de Deus e de acordo com ela.” A History of the Reformation, vol.2, págs. 41.
[12] Lindsay traduz: “Cristo é nossa sabedoria, justiça, redenção e pagamento pelos pecados do mundo todo; e todos os que pensam que podem obter salvação de outro modo, ou ter outra satisfação pelos seus pecados, renunciaram a Cristo.” A History of the Reformation, vol.2, págs. 41.
[13] Lindsay traduz: “É impossível provar das Escrituras que o Corpo e Sangue de Cristo estão corporalmente presentes no pão da Santa Ceia.” A History of the Reformation, vol.2, págs. 41.
[14] Lindsay traduz: “Não há evidência de Purgatório após a morte na Bíblia; e nenhum culto pelos mortos, nem vigílias, missas, ou coisa parecida, estas coisas são inúteis.” A History of the Reformation, vol.2, págs. 41.
[15] Lindsay traduz: “O casamento não é proibido em nenhum estado [civil] pela Escritura, mas devassidão e a fornicação são proibidas a qualquer estado em que se encontrar.” A History of the Reformation, vol.2, págs. 41.
[16] Collison revela que quando “Zwinglio se casou, informou seu bispo de que não era a concubina ou ‘ama de casa’ que a maior parte do clero suíço mantinha num quarto dos fundos.” Patrick Collison, A Reforma (Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2006), pág.94.


O texto pode ser encontrado em latim em Rev. B.J. Kidd, ed., Documents illustrative of the Continental Reformation (Eugene, Wipf & Stock Publishers, 1911), págs. 459-460; o texto comparativo do latim com o alemão suíço encontra-se em Philip Schaff, The Creeds of Christendom (Grand Rapids, Baker Books, 6ªed., 2007), vol. 3 págs. 208-210; o texto traduzido do francês para o inglês por James T. Dennison, Jr., org., Reformed Confessions of the 16th and 17th Centuries in English Translation – 1523-1552 (Grand Rapids, Reformation Heritage Books, 2008), vol. 1, págs. 40-42; e também do francês para o inglês uma tradução de Thomas M. Lindsay, A History of the Reformation (New York, Charles Scribner’s Sons, 1925), vol. 2, págs. 42-43.

Tradução com introdução e notas históricas em 27 de Junho de 2011.
Revisado em 10 de Fevereiro de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.

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