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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Carta de Martinho Lutero a George Spalatino [Novembro de 1521]

A George Spalatino, discípulo de Cristo, seu amigo na fé.[1]

Jesus. Saudações. Creio que nunca recebi uma carta tão desagradável como a última que você me enviou. Estava decidido não somente a demorar responder, como também a não responder.

Em primeiro lugar, não estou disposto a suportar o que me disse, de que o príncipe não suportará que escreva contra o de Magnuncia, nem nada que possa perturbar a paz pública; pelo contrário, permanecerei sem você, sem o príncipe e sem ninguém no mundo. Se enfrentei o papa, criador do engano, vou me deter diante a sua criatura? Declara muito formoso que não se deve perturbar a paz pública, e você sofreria por turbar a paz eterna de Deus com as ações ímpias e profanas dessa perdição? Isto não sucederá, caro Spalatino; não ocorrerá isto, príncipe, senão que por amor das ovelhas de Cristo e para exemplo dos demais há que resistir ferozmente a este perigosíssimo lobo. Por isso lhe envio o panfleto[2] que preparei contra ele quando recebi a sua carta que não me fez mudar em nada, ainda que o submeti a juízo de Felipe para que o corrigisse no que cresse ser necessário. Não pense impedir a devolução do livro a Felipe nem desestimulá-lo. Considere que não farei isto.

Não deveria impressioná-lo que nós e nossos amigos nos vejamos na precisão de ouvir insultos por parte de nossos adversários, ou dos excessivamente prudentes nas coisas divinas, já que você sabe muito bem que nem Cristo, nem o apóstolo foram agradáveis aos homens. Além do mais, até agora não chegou aos meus ouvidos que aos nossos sejam acusados de algum crime, senão somente de depreciar a impiedade e as doutrinas da perdição, ainda que não me agradem as atitudes dos jovens que receberam mal o enviado dos antonianos.[3] Mas, quem seria capaz de frear sempre a todos e em todo lugar? Ou, eles jamais obram mal? Até os discípulos sofreram a vergonha de Judas Iscariotes e diariamente tiveram que suportar as comunidades por causa de seus maus membros; somente de nós é exigido que não gemamos. Peço a você que não espere a redação de uma apologia para cada um daqueles que desagrada a Wittenberg; não há nada mais impossível.

Não perecerá o evangelho porque algum de nós peque por falta de modéstia: os que por este motivo se afastam da palavra estão provando que não foi ela que aceitaram, senão somente a sua glória. As portas do inferno não poderão separar dela os que acolheram a palavra por causa da palavra. O que quer abandoná-la, que a abandone. Por que não se fixam no melhor e mais sólido que possuímos? Por que se apegam somente ao pior e ao mais fraco? É Felipe e os seus amigos acusados deste crime? Por que condenam o todo por uma parte? É um pecado mais leve receber um pregador ímpio do que aceitar fielmente a sua doutrina. Todavia, este pecado se vê elogiado e o pregador condenado como irredimível. E juízes e equidades desta atitude te fazem temer que o evangelho vá perecer por razões que não são mais do que fumaça?[4]

Confirmo a revogação das missas neste livro que te envio junto a carta.[5] Não pude preparar a Paraclesis, nem creio ser necessário fazê-lo, pelo fato de abordar o assunto em minha Tessaradecade.[6] Por que não facilita a leitura desta obra? Por que não se convence de ler o evangelho e a paixão de Cristo, pois não encontrará consolo melhor? Terei que escrever uma consolação para cada caso? O que diriam os inimigos? Além do mais, espero que baste a Paraclesis de Felipe, pois imagino que no intervalo cessará a enfermidade de seu ânimo, e desta forma a minha chegaria tarde e resultaria inútil. Não será ímpio, nem perigoso diferir ou descuidá-lo de tais circunstâncias.

O que de fato me preocupa agora é a perdição das almas, que é sobre o que ando trabalhado. Estou determinado a atacar os votos dos religiosos e liberar os jovens deste inferno do celibato, imundo e condenadíssimo por causa das coceiras e das poluções. Estou escrevendo isto em parte por causa das tentações, e em parte pela indignação que sinto.[7] Verá que é bom. Não há um só Satanás comigo, ou melhor, contra mim, que estou sozinho e, às vezes, me faço só.

Adeus e saúda a todos os nossos. A Gerbel[8] e lhe escrevi quando recebi a sua última e tudo estava fechado e selado.

Dia de são Martin, 1521. Seu Martinus Luther.

NOTAS:
[1] WA Br 2, 402-403.
[2] Alberto de Maguncia para conseguir ingressos que sanassem as suas finanças em Setembro de 1521 realizou uma exposição indulgenciando as relíquias de sua igreja em Halle. Para evitar reações enviou emissários a Wittenberg que tratassem de convencer ao príncipe eleitor e a amigos de Lutero da conveniência de não se opor. Parece que em parte conseguiu. Mas Lutero escreveu um furioso panfleto Contra o ídolo de Halle, cuja publicação irritou o príncipe. Note-se a violência de Lutero e a reincidência do cardeal, personagem ambíguo e não afetado pelos sucessos de 1517.
[3] Em 5 de Outubro, seguindo o costume, os monges antonianos de Lichtenburg enviaram delegados para recolher esmolas. Foram recebidos violentamente e não foi possível nem sequer pregar.
[4] Is 7:4.
[5] De Abroganda missa privata M. Lutheri setentia: WA 8, 411-476.
[6] A Paraclesis, ou tratado consolatório, neste caso dedicado ao príncipe. Tessaradecas consolatoria pro laborantibus et oneratis, escrito em 1520: WA 6, 104-134.
[7] Plano de sua obra De votis monasticis: WA 8, 573-669.
[8] Nicolás Gerbel foi um jurisconsulto de Estraburgo a quem se dirigiu em 1 Novembro de 1521 (WA Br 2, 396-398).


Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 390-391.
Traduzido em 5 de Janeiro de 2015.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Carta de Martinho Lutero a Johannes Staupiz [Setembro de 1521]

A Staupitz. 9 de Setembro de 1521[1]


Jesus. Saudações. Em nada me preocupa a crítica do Capitão[2], nem a de Erasmo, nem me altera a opinião que sobre eles tenho formada. Temi que teria que me explicar com eles, até que me dei conta de que Erasmo estava muito longe do conhecimento da graça, sendo que, em todos os seus escritos não recorre à cruz, senão à paz. Ele crê que tudo pode ser tratado com certa cortesia e benevolência; mas, Behemoth[3] não anda com estas cerimônias e esse sistema é recomendado a ninguém.

Recordo o que aplicava em seu prólogo ao Novo Testamento: “O cristão tem facilidade de depreciar a glória.” Eu pensava comigo: “Oh! Erasmo, muito temo que esteja equivocado!” Grande coisa é depreciar a glória, mas não se referia ao desprezo que lhe poderiam fazer, senão ao que tinha em seu pensamento. Se não tem nenhum significado o desprezo da glória da palavra, menos valor terá o que existe somente no pensamento. Assim, segundo são Paulo “o reino de Deus está no poder”;[4] por isso, ainda não pude me gloriar em nada mais do que da palavra da verdade que me confiou o Senhor.

E por isso, os escritos destes homens que se abstêm de chicotear, de morder, de ofender, nada conseguem. Corrigem educadamente aos pontífices, o tomam como uma lisonja, e como se gozassem do direito de serem incorrigíveis, continuam tão satisfeitos de serem grandes e de que ninguém se atreva a repreendê-los. Estes são os personagens representados por Plutarco em seu livro Da Adulação, e aos que Jeremias fustiga de maneira mais severa e terrível: “maldito quem realiza fraudulentamente o trabalho do Senhor.”[5] Fala da ação da espada contra os inimigos de Deus. Inclusive me assusta e me ofende a consciência porque em Worms fiz caso do conselho que você me deu e os amigos, e não me mostrei forte de espírito, nem me exibi como um novo Elias diante daqueles ídolos.[6] Ouviriam outra coisa se comparecesse novamente diante deles. Mas não falemos mais disto.

O duque João, o Maior, está inteirado de meu paradeiro,[7] coisa que até o momento ignorava; meu anfitrião tem mantido em segredo, mas saberá calar. Encontro-me bem aqui, mas, miserável que sou, me faço preguiçoso, definho no espírito. Hoje, depois de seis dias, fiz do ventre fezes muito duras, que acreditei que exalaria a alma. Agora estou sentado, sentindo dor como uma recém-parida, lacerado, ferido, sangrando, e esta noite não terei nenhum descanso, mesmo que pouco. Dou graças a Cristo que não me priva de alguns dos fragmentos da santa cruz. Estaria curado de todas as feridas se tivesse o ventre ligeiro; mas o que sara em quatro dias volta a abrir toda vez que vou defecar. Digo a você estas coisas, não para que se compadeça de mim, mas para que me congratule e rogue para que me faça digno de fervor espiritual. Chegou o tempo de orar com todas as forças contra Satanás, porque anda gestando alguma tragédia funesta contra a Alemanha. Estou temendo que o Senhor permita e aqui me tenha roncando e vagaroso para orar, resistir, até tal ponto que estou violentamente descontente e cansado de mim mesmo, porque me encontro sozinho e vocês não me ajudam. Oremos e vigiemos para não entrar em tentação.[8] Por hora não tenho mais o que te dizer. Você sabe das demais coisas.

Alegro-me de que Wittenberg prospere, tanto mais porque isto ocorre durante a minha ausência, para que o ímpio veja, se irrite e pereça os seus desejos.[9] Que Cristo termine o que ele começou. Desejaria vividamente que Felipe[10] pregasse às pessoas em algum lugar da cidade nos dias de festa, quando aos poucos se entregarão à bebida e aos jogos, para que se introduzisse o hábito da liberdade[11] e se restituam a face e os costumes da igreja primitiva. Porque se desvalorizado a todas as leis humanas e rejeitado os seus jugos, então, por que é um obstáculo o fato de que não esteja ungido ou tonsurado e que seja casado? Se o anunciar a palavra é uma função sacerdotal, ele é um sacerdote e como sacerdote atua de fato; de outra forma, nem Cristo seria sacerdote, ele que ensinava nas sinagogas, nas barcas e beira mar, nas montanhas: sempre foi o mesmo em todos os lugares e em todos os momentos. Portanto, que não se negue a ninguém que sendo chamado por Deus e que exercendo o ministério da palavra, porque importa que mesmo não sendo chamado por estes tiranos, ou seja, bispos não das igrejas, senão de cavalos e lacaios de príncipes? Não obstante, conheço muito bem os sentimentos deste homem e sei que não se convencerá por minhas razões.

Tem que ser chamado e urgido por mandato e impulso de toda a comunidade. Se ela pede e lhe exige, não se deve, nem pode recusar. Se estivesse presente engajaria todo o meu esforço com o conselho e povo para que lhe pedissem que explicassem o evangelho em privado e em alemão, como comecei a fazê-lo em latim: assim, o bispo converteria em alemão o mesmo que o é em latim. Eu sentiria muita satisfação que fizesses de tua parte tal coisa uma realidade, porque o que mais urgentemente necessita o povo é a palavra de Deus; e que esta abunde no mais generosamente que em todos os demais, ao menos que, urgindo-o a consciência e exigindo-o a Deus, temos a obrigação de chamar-lhe para que não se desperdice o fruto da palavra.

A ti será fácil tratar este assunto no conselho por mediação de Lucas e Cristian[12] para que Cristo vindique a minha ausência e meu silêncio com a sua pregação e sua voz para confusão de Satanás e suas crias. Orígenes ensinou de modo privado as mulheres[13], então, por que motivo ele não tenta fazer o mesmo, sendo que ele pode e deve fazê-lo? E ainda mais quando o povo está necessitado e sedento. Rogo a você que não deixe se vencer por desculpas. Redigirá textos formosos que é algo que lhe é conveniente. Não há motivo para ambicioná-lo, mas tem que ser insistentemente chamado pela igreja, inclusive até solicitado para que este serviço e faça não o que seja útil para ele, senão que o que proveitoso para muitos. Ainda te suplico: coloque maior diligência em fixa-lo, ajudando-o com amigos que juntos possam apoiá-lo.

E adeus. Lembre-se de mim diante o Senhor.

Do deserto,[14] dia seguinte à natividade de Maria, 1521. Teu Martinus Luther.


NOTAS:
[1] WA Br 2, 387-389.
[2] Capitão a esta altura era um dos humanistas que se aproximava de Erasmo em Basiléia.
[3] Jó 40:15ss.
[4] 1 Co 4:20.
[5] Jr 48:10.
[6] 1 Rs 18:20ss.
[7] Irmão de Frederico, o Sábio.
[8] Mt 26:41.
[9] Sl 112:10.
[10] Felipe Melanchthon.
[11] Lutero pensa na liberdade da palavra de Deus, da pregação, e no sacerdócio universal dos crentes.
[12] Lucas Cranach, o célebre pintor, e Cristian Düring, o mais conhecido e talvez o maior impressor de Wittenberg, ambos seus amigos.
[13] Jerônimo, De viris illustribus, 54 (ML 23, 699).
[14] Denominação que ele aplica aos seus retiros forçados, agora em Warturb, logo (1530) nas cartas de Coburgo.

Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), p. 388-390.

Tradução em 5 de Janeiro de 2015.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Carta de Martinho Lutero a George Spalatino [1521]

A Spalatino. 14 de Maio de 1521[1]

Ao seu caríssimo e fidelíssimo servo em Cristo, George Spalatino, em Altenburg.

Jesus. Saudações. Recebi a sua carta, assim como as de Gerbel e Sapido, na domínica Exaudi, querido Spalatino. Atrasei deliberadamente a contestação para que o ruído recente de meu cativeiro não desse motivo para que alguém interceptasse as cartas. Por aqui correm muitos rumores sobre mim; não obstante, prevalece a opinião de que fui capturado por amigos enviados da Franconia. Amanhã expira o prazo do salvo-conduto imperial.[2] Causa-me dor o que me disse do rigorosíssimo edito que dará motivo para violentar até as consciências[3]; e não é algo que dói por mim, mas porque sua imprudência acabará arrojando todo o mal sobre suas cabeças e porque estão incitando cada vez mais ódio. Quanto ódio suscitará está vergonhosa violência! Mas deixe-o; possivelmente esteja chegando o tempo de sua visitação.[4]

Continuo sem notícias acerca dos nossos de Wittenberg e dos demais lugares. Enquanto íamos a Eisenach a juventude de Erfurt assaltou durante a noite as casas de alguns sacerdotes; estava indignado porque o decano de são Severino, grande papista, agarrando-os pela gola das vestes, expulsou publicamente do coro o mestre Drach, sob o pretexto de que estava excomungado, pela simples razão de que, junto conosco, saiu para me receber quando cheguei a Erfurt. Entretanto, aguardam que outras coisas aconteçam. O conselho anda dissimulando; os sacerdotes não tendo boa reputação ali, e dizem que a juventude artesã anda conspirando com os estudantes. Possivelmente está próximo o cumprimento do provérbio “Erfordia Praga”.[5]

Contaram-me ontem que em Gotha, certo sacerdote foi mal recebido porque havia comprado não sei o que para incrementar os ingressos da igreja e, com a desculpa de isenção eclesiástica, negou-se pagar os impostos e tributos. Podemos perceber que o povo não pode nem quer continuar aguentando o jugo papista, como disse Erasmo em sua Boulé.[6] Não cessamos de urgi-lo e dar-lhe importância, porque, graças a luz reveladora de tudo, temos prescindido da fama, da opinião, e aquele tipo de piedade não vale, nem reina, como não reinou até agora. Veremos se de agora em diante, oprimindo e aumentando tudo como até este momento fizeram.

Da minha parte aqui estou todos os dias sentado, ocioso e crapuloso. Estou lendo a Bíblia em hebraico e grego. Vou escrever um sermão em alemão sobre a liberdade da confissão auricular, continuarei com os Salmos e os comentários, desde que receba de Wittenberg algumas coisas necessárias, entre as quais se encontra o Magnificat que comecei.

Você não faz ideia da amabilidade com o que o abade de Hersfeld nos acolheu.[7] Ele fez com que o seu chanceler e seu tesoureiro saíssem ao nosso encontro a uma légua de larga distância; depois, o mesmo com muitos cavaleiros nos recebeu à entrada de seu castelo e nos acompanhou até a cidade. Nela fomos recebidos pelo conselho. Descansamos em seu monastério e me alojou em seu próprio quarto. Obrigaram-me a pregar um sermão às cinco da manhã, apesar de que lhes adverti que se expunham a perder os seus benefícios, se a notícia chegasse aos imperiais, que o interpretariam como uma violação da promessa dada ao mandato de não pregar em meu itinerário. Entretanto, disse-lhes que não havia consentido em que se atasse a Palavra de Deus, como era a verdade. Também preguei em Eisenach apesar do protesto do acovardado pároco ante o notário e testemunhas presentes, alegando com humildade de ser necessário a isto, por medo de seus tiranos. Talvez em Worms digam que com isto violei a promessa, mas não foi assim, porque não dependia de minha condição de atar a Palavra de Deus, nem prometi isto; e ainda, de ir contra Deus, e muito menos poderia observá-lo ainda que houvesse prometido. Ao dia seguinte nos acompanhou até a selva e havendo o seu chanceler se unido a nós, nos ofereceu comida a todos em Berka. Por fim, e depois de partir todo este acompanhamento com Jerônimo, entramos pela tarde em Eisenach e fomos recebidos pelos cidadãos do local que a pé, saíram ao nosso encontro.

Através da selva fui visitar aos meus parentes que estão espalhados por quase toda a região. Despedi-me deles, e quando nos dirigíamos a Walterhausen, um pouco além das proximidades de Altenstein, fui capturado. Amsdorf[8] estava forçosamente informado de que alguém planejava sequestrar-me, mas ignora o lugar de meu cativeiro. O irmão que ia comigo[9] ao perceber a tempo os cavaleiros, saltou do carro e dizem que chegou a pé, pela tarde, em Walterhausen, sem que ninguém lhe saudasse.

Aqui em encontro, despojado de meu hábito, disfarçado de cavaleiro, com barba e cabelos longos. Seria difícil para você me reconhecer, porque há muito tempo que nem eu mesmo me conheço. Atuo com liberdade cristã, livre de todas as leis desse tirano, se bem que é verdade que eu gostaria que o porco de Dresden[10] se dignasse em matar-me por pregar em público, se é que Deus lhe agrada que padeça por sua Palavra.

Adeus e rogue por mim. Saudações a toda a tua corte.

No Monte, terça-feira da domínica Exaudi, 1521.
Martinus Luterus.


NOTAS:
[1] WA Br 2, pp. 337-338. Incluímos esta carta por expressar e recompor o retorno de Lutero de Worms e os sentimentos que o animam em seu retiro forçado em Wartburg, onde disfarçado passaria 300 dias e conhecido pelo “cavaleiro George”.
[2] Refere-se ao salvo-conduto expedido por Carlos V, no dia 25 de Abril e válido por 21 dias.
[3] O edito imperial de proscrição com todos os efeitos conseguintes (qualquer um poderia atentar com toda tranquilidade contra a vida do proscrito), estava redigido, ainda que tardaria algo em promulgar-se. Este é o motivo de que toda a vida posterior de Lutero transcorra na Saxônia.
[4] Jr 46:21.
[5] Reproduz um provérbio popular que fazia referência aos sucessos que em 1409 registra-se ocorrem na cidade de Praga. O rei da Bohemia reformou o estudo e concedeu a independência a “nação” Tcheca, em prejuízo da Alemanha, que era quem a dominava naqueles dias de Huss. Os alemães, em parte, recorreram a Erfurt, primeira universidade de Lutero.
[6] Consilium cuiusdam exa animo cupientis que apareceu entre 1520-1521, que literalmente diz citado por Lutero, e que certamente não era de paternidade erasmiana.
[7] Era abade do monastério de Hersfeld naquelas circunstâncias Kraft Myle.
[8] Nicolas de Amsdorf (1483-1565), professor de Wittenberg, companheiro de Lutero e um de seus mais próximos amigos e colaboradores. Se tornaria no representante da ortodoxia luterana contra os “desvios” irenistas e sinergistas de Melanchthon e do “luteranismo”. Consagrado bispo de Naumburg por Lutero (1542). Cf. P. Brunner, Nikolaus von Amsdorf als Bischof von Naumburg, Gütersloh 1961.
[9] O irmãos agostiniano J. Petzensteiner, companheiro com Amsdorf deste velhor regresso de Worms e testemunha do sequestro simulado. Cf. M. Simon, Johannes Petzensteiner, Luthers Reisebegleiter in Worms: Zeitschrift für bayerische Kirchengeschichte 35 (1966), pp. 113-137.
[10] O duque George da Saxônia.


Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp.383-385.
Tradução com introdução e notas em 12 de Abril de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Carta de João Calvino a Martin Bucer [1532]

CARTA 7
RECOMENDAÇÃO DE UM REFUGIADO FRANCÊS EM ESTRASBURGO, QUE TINHA SIDO FALSAMENTE ACUSADO DE SUSTENTAR AS DOUTRINAS DOS ANABATISTAS.

Noyon, 04 de setembro de 1532.[1]

A graça e a paz do Senhor estejam com vocês pela misericórdia de Deus e da vitória de Cristo.

O prazer de escrever não teria peso como argumento para me convencer, mais do que um bom conselho, a não ser que me parecesse certo lamentar em algumas palavras o triste fim deste excelente irmão, que alguns amigos de indubitável fé e crédito apresentaram a mim por meio de cartas. Quer pelo que você suportou comigo em minha tristeza e simpatia, quer pelo meu favorecimento a ele em seu caso, eu não poderia deixar de escrever. A disposição e comportamento do homem eu conheci enquanto ele morava conosco na França. Ele se portava como alguém amado entre os homens de nossa profissão, se alguém assim fosse.

Estimado como tal entre os homens dotados de certo grau de autoridade, e de forma tal que não viesse a ser nem vergonha ou desgraça a eles. Finalmente, quando ele já não podia curvar o pescoço para aquele jugo voluntário que nós mesmos ainda suportamos, partiu para fixar residência com você, não tendo nenhuma perspectiva de retorno. Mas, como o assunto permanece em voga, tudo veio a baixo, contrariamente à sua expectativa, como numa mudança de cena de uma apresentação teatral, e ele não conseguiu encontrar nenhuma residência permanente da qual pudesse se valer. Ademais, também, como eu ouvi, ele se apressou por causa de seus meios limitados e problemas domésticos, que ele possa ter o benefício do auxílio de amigos a quem ele mesmo havia ajudado no passado, até que tempos melhores pudessem vir. Agora, observe como a calúnia é de longe mais poderosa que a verdade. Algumas pessoas imprudentes, eu não sei quem, entre o teu povo, a quem eu certamente não posso presumir suspeita de malevolência, tinha enchido os ouvidos de todos com suas invencionices, ao ponto de se fecharem a qualquer explicação. Não houve, portanto, nenhuma pessoa de quem ele poderia extrair um centavo sequer.

Provavelmente não foi intenção da pessoa, quem quer que fosse, acender as faíscas desta tragédia, para destruir o caráter de um indivíduo inofensivo. Apesar disso, no entanto, seja o que for, não posso desculpá-lo nem pedir desculpas a ele, e nem mesmo hesitar em afirmar que ele estava errado, para grande sofrimento e calamidade deste indivíduo. Lançaram sobre ele estas injúrias, como se diz, porque ele tinha caído sob suspeita de Anabatismo. Estranho, de fato, a menos que a pessoa fosse escandalosamente suspeita, espalhando esta conjectura a partir de evidências tão fracas. Em conversa com ele, consegui conduzi-lo intencionalmente a falar deste sacramento. Ele concordou em termos expressos inteiramente comigo, a tal ponto que nunca encontrei qualquer um que professasse a verdade sobre este ponto com maior franqueza.

Enquanto isso, ele sofre, apesar de que não parece haver qualquer probabilidade de que esses rumores sinistros, que já ganharam certo grau de crédito, sejam tão logo suprimidos. Peço-te, Mestre Bucer, se minhas preces - se as minhas lágrimas são de algum valor, que você se faça compassivo e ajude-o em sua situação lastimável. Os pobres são deixados em uma forma especial aos seus cuidados - você é o auxílio do órfão. Sofre com ele para que não seja reduzido a tal necessidade como se empurrado ao extremo. Você poderia ajudá-lo, se escolhesse alguém para ajudar de uma forma ou de outra, mas faça você mesmo, de acordo com sua própria discrição. Eu não poderia, no entanto, reter minha mão de ir além dos limites da moderação para apoiar a causa desse indivíduo. É isto para o momento. – Instruído senhor, adeus.

Teu, do meu coração, CALVINO.

[Autógrafo original latino. – Seminário Protestante de Estrasburgo].
Extraído de Letters 1528-1545 - Selected Works of John Calvin (Albany, Ages Software, 1998), vol. 4, pp. 39-40.

NOTAS:
[1] A carta é destinada para Martin Bucer, pastor da Igreja de Estraburgo. Ele foi uma dos líderes da Reforma, nasceu em Schelestadt, em 1491, influenciado por Martinho Lutero. De postura moderada mediou entre os reformados alemães e suíços, e empenhou-se para adotar uma confissão comum a ambos os grupos. Por causa das ameaças procurou exílio na Inglaterra, e obteve um cargo de docência na Universidade de Cambridge. Morreu em 1551, sendo enterrado com honras, entretanto, teve o corpo retirado da sepultura e queimado numa estaca, sob o reinado de Mary Tudor, mas durante a regência de Elizabeth sua honrosa memória foi restaurada. Nota de Ewerton B. Tokashiki.

Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, pastor efetivo na Igreja Presbiteriana de Lagoa Santa; professor de teologia e hermenêutica na Escola Bíblica Central do Brasil/Lagoa Santa-MG; Bacharel em Teologia e Missiologia pela Escola Superior de Teologia e Estudos Transculturais/Montes Claros-MG (2003), Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie/São Paulo-SP (2013), cursando Mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.

Revisado por Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO

sábado, 31 de maio de 2014

Carta de Martinho Lutero a Johannes Staupitz [1521]

A Staupitz. 14 de Janeiro de 1521[1]

Jesus. Saudações. Quando estávamos em Augsburg[2], reverendíssimo pai, ao tratar deste meu assunto, e entre outras coisas, me disse: “não esqueça, irmão, que tudo você começou em nome de nosso Senhor Jesus Cristo.” Estas palavras as recebi não como faladas por você, mas proferidas por meio da sua pessoa, e as tenho gravadas em minha memória. Com estas mesmas palavras, suplico: “acorde também do que você me disse”. Este negócio se tornou num jogo até agora; ao presente a coisa está se tornando mais sério e, ao tom de suas palavras, se Deus não o completar, é impossível que chegue ao seu término. Ninguém pode colocar em dúvida que tudo se acha na mão do poderosíssimo Deus. Que de nós pode decidir aqui? O que pensarão os homens? É tão violento o tumulto que se levanta, que me parece não será possível aplacar até o dia final, que tanta é a animosidade a que de um lado, ou de outro chegou.

Ainda que emita excomunhões, queime livros e me mate, é fato, que o papado não se encontra na mesma situação que antes. Todos os sinais dizem que um grande portento está clamando às portas. Que afortunado seria o papa se empenhasse em compor a paz com bons meios, em vez de afrontar a questão tratando de eliminar a Lutero pelo redemoinho da violência! Queimei os livros e a bula papal[3], no princípio o fiz com medo e rezando, mas hoje estou contente de ter realizado, pelo que teria feito durante minha vida. São mais peçonhentos do que eu acreditava serem.

Emser, de Leipzig, escreveu em língua vernácula, motivado pelo duque George[4], que está furioso comigo, e que “respirando ameaças e morte”,[5] dispôs na mesma aula de forma impiedosa que tomassem medidas contra mim.

O imperador me convocou por carta dirigida ao príncipe. Ao recusar este, revogou aquele a primeira carta com outras. Somente Deus sabe o que sucederá[6].

O nosso vigário Wenceslao marchou para Nürnberg. Zschessius se encontra em Grimma e disse que partirá dali; Deus o conserve.[7]

Aqui tudo está florescendo como antes. Hutten apostilou a bula[8] com anotações saladísimas contra o papa e está preparando outras coisas sobre o mesmo. Os meus escritos foram queimados três vezes: em Lovaina, em Colônia e na Maguncia com grande desprezo e perigo dos que os queimaram. Até Tomás Murner[9] furioso escreveu contra mim. Esse asno descalço de Leipzig não me incomoda.[10]

Adeus, meu pai. Rogue pela palavra de Deus e por mim. Estou arrebatado e envolto nestas olas.

Wittenberg, dia de são Felix, 1521.
Martinus Lutherus, agostiniano.


NOTAS:
[1] WA Br 2, pp. 245-246.
[2] Na entrevista com Cajetano em Outubro de 1518 (cf. Conversas a Mesa).
[3] A queima pública e teatral da bula condenatória de sua doutrina (Exsurge Domine, de Leão X), assim como dos livros que representavam o direito e as tradições eclesiásticas e escolásticas ocorreu em 10 de Dezembro de 1520. (Os panfletos que distribuiu impressos, cf. em WA 6, pp. 597ss; 7, pp. 94ss. Uma narrativa vivida, por uma testemunha presente, em WA 7, pp. 184ss). H. Grisar, Zu Luthers Verbrennung der Bannbulle: Historisches Jahrbuch 42 (1922), pp. 266-276; J. Luther, Noch einmal Luthers Worte bei der Verbrennung der Bannbulle: Archiv für Reformationsgeschichte 45 (1954), pp. 260-265.
[4] A obra de referência escrita por Jerônimo Emser contra o Manifesto à nobreza. George da Saxônia será um inimigo próximo e perseguidor de Lutero, e sua universidade de Leipzig das mais hostis contra o reformador.
[5] Compare com At 9:1.
[6] Em relação com a Dieta de Worms, cf. a nossa introdução ao escrito 6 desta edição.
[7] Wenceslao Link, sucessor de Staupitz no cargo de superior de Lutero em 1520, três anos depois que aderiu a Reforma, na qual ele foi um elemento ativo. Wolgang Zeschau, abade do convento agostiniano de Grimma, também partidário de Lutero.
[8] Ulrich von Hutten (1488-1523), é um dos personagens mais caracterizados deste momento alemão. Apoiou a causa de Lutero por motivos políticos (nacionalistas), econômicos (talvez, também pelos religiosos), sendo que era um dos representantes dos cavaleiros prejudicados pela conjectura do novo capitalismo. Moveu – como bom humanista – bem os ressortes xenófobos contra Roma. Ademais de outros modos, lançou o panfleto de referência Bulla Decimi Leonis contra errores Martini Lutheri et sequatium. Sobre sua pessoa, atividade, etc., cf. a obra clássica de P. Kalkoff, Ulrich von Hutten und die Entscheidungsjahre der Reformation, Leipzig 1920, e a mais atual de K. Kleinschmidt, Ulrich von Hutten, Berlim 1955.
[9] Tomás Murner (1475-1537) um dos escritores satíricos antiluteranos de maior altura e genialidade. Entre outros escritos neste ano crítico a que Lutero alude, lançaria o que mais lhe deu fama, e o mais violento, em tom de epopeia Sobre os loucos luteranos (1522).
[10] Refere-se a Alfeld.


Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp.. 380-381.
Tradução com introdução em 31 de Maio de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.

sábado, 12 de abril de 2014

Carta de Martinho Lutero a Erasmo de Rotterdam [1519]

A Erasmo em Basiléia. 28 de Março de 1519[1]

Jesus. Saudações. Quantas vezes, conversei com você Erasmo, nossa glória e nossa esperança, e você comigo, e ainda não nos conhecemos! Estranho isso, não é mesmo? Não, não é de se estranhar devido às muitas tarefas de todos os dias. Quem há cujas dificuldades mais profundas não ocupem Erasmo, a quem Erasmo não ensine, em que Erasmo não domine? Refiro-me com clareza a quem devidamente ama as letras. Agrada-me, sobremaneira, que outros presentes de Cristo possam se enumerar também, os quais a muitos resultem em perturbação; precisamente nisto me apoio para discernir os dons do misericordioso Deus, dos do Deus irado. Felicito-o, porque ao mesmo tempo resulta em tão grato motivo a todos os bons, desagrada não menos aqueles que anelam ser os únicos supremos e o mais gratos.

Mas, eu seria um néscio, que com as mãos sem lavar e sem um prefácio de reverência e honra com que me dirijo a você, varão de categoria incomparável, como um desconhecido se dirige a outro desconhecido. A sua humanidade saberá desconsiderar a minha amizade, ou a minha imperícia, já que, transcorrido minha existência entre os sofistas, nem sequer aprendi a forma de saudar por carta a um homem erudito. Doutro modo com quantas cartas o fadiguei demoradamente, sem poder sofrer que estivesse me falando perpetuamente na solidão da minha cela!

Mas, através do excelentíssimo Fabrício Capitão[2] fui informado de que, graças a aquela bagatela das indulgências, meu nome tornou-se noticiado para você, e que não somente leu, como também aceitou as minhas insignificantes afirmações no prólogo de uma edição posterior de sua Enchiridion[3], então, senti a obrigação ainda que fosse por esta barbaríssima carta, de reconhecer o teu espírito egrégio, filão que enriquece ao meu, bem como o de todos. Ainda que seja consciente do pouco que significará para você, que por carta me confesse devoto e agradecido (a você, a quem excede com seu ânimo fervoroso, com oculto agradecimento e amor de Deus, como nos basta, apesar de não nos conhecer, considera os seus sentimentos e suas obras nos livros, sem necessidade de cartas, nem de conversas pessoais), todavia, nem o pudor, nem a consciência sofre que não manifeste o meu agradecimento por escrito, e mais desde que o meu nome começou a sair da obscuridade, para que a ninguém incorra interpretar o silêncio como algo mal-intencionado e péssimo.

Portanto, meu Erasmo, homem amável, se a você parece reconhecer este menor irmão em Cristo, devotíssimo e afeitíssimo por você, ainda que por sua ignorância não mereça outra coisa, senão que jazer enterrado num rincão, desconhecido até para o sol e o céu de todos, que é o que sempre desejei; não por preguiça, senão porque era consciente de meu limitado recurso. Mas não me explico porque tenha distorcido alguma coisa, de modo que me veja forçado a padecer com grande vergonha, e que minhas ignominias e minha infortunada ignorância se vejam agitadas e ocupadas diante dos doutores.

Felipe Melanchthon está bem. Apenas se conseguirmos entre todos que não exponha a sua saúde em esforço de sua excessiva paixão pelas letras. O ardor de sua idade lhe arde em desejos de fazer tudo ao mesmo tempo. Bom serviço prestaria se o advertir por carta que se guarde por amor de nós, e às boas letras. Nada melhor poderíamos prometer-nos que a salvação desta cabeça.[4]

Saúda-o Andres Karlstadt[5] que em o venera de todo em Cristo. Que o mesmo Jesus o guarde sempre, excelente Erasmo, amém. Resultei verboso, mas estará de acordo, em que não te convém ler sempre cartas eruditas e que, de vez em quando “com os enfermos tem de enfermar”.[6]

Wittenberg, dia quinto das calendas de Abril, 1519.


NOTAS:
[1] WA Br 1, pp. 361-363. Lutero se dirige a Erasmo com humildade estratégica e forçada. É evidente a sua intencionalidade. Há que contrastar estes tons com os das cartas 1 e 2.
[2] Capitão comunicou a Lutero por carta (WA Br 1, p. 197) a admiração de Erasmo. Wolfgang Fabrício Capitão (1478-1541), em 1519, todavia, ainda estava nas fileiras católicas, mas, posteriormente tornou-se um dos reformadores de Estrasburgo, de talante conciliador.
[3] Erasmo, na edição de 1518, colocou um prólogo com pontos de convergência das ideias das 95 Teses de Lutero.
[4] Assim fez Erasmo no mês seguinte, numa carta dirigida a Melanchthon (Opus epistolarum, 3, p. 540).
[5] Cf. carta 2, nota 5.
[6] 1 Co 9:12. Esta tradução mencionada por Lutero não equivale ao texto grego. Difícil descobrir qual fonte, ou se foi uma citação parafraseada de memória [imprecisa] do texto bíblico. A sua tradução final para o alemão é "So andere dieser Macht an euch teilhaftig sind, warum nicht viel mehr wir? Aber wir haben solche Macht nicht gebraucht, sondern ertragen allerlei, daß wir nicht dem Evangelium Christi ein Hindernis machen" [Se outros participam de vocês, não seria muito mais do que nós? Mas, temos um direito que não é necessário, para suportar todas as coisas, para que não façamos um obstáculo para o evangelho de Cristo]. É possível que Lutero esteja citando a tradução latina do Novo Testamento de Erasmo. Nota do tradutor.

Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp.. 378-379.
Tradução com introdução e notas em 12 de Abril de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Carta de Martinho Lutero à Johannes Staupitz [1519]

A Staupitz. 20 de Fevereiro de 1519[1]

Ao reverendo e excelentíssimo padre Johan Staupitz, vigário dos Ermitões de Santo Agostinho, e no culto de Cristo, o seu patrono e superior.

Jesus. Saudações. Reverendo padre: Ainda que esteja tão longe de mim e tão calado que não me escreva as esperadíssimas cartas, me atreverei a quebrar o silêncio.[2] Desejo – bem como desejam todos – que te deixes ver alguma vez nesta situação afligida pelas pragas do céu. Espero haver chegado até você as minhas Atas[3], ou seja, a cólera e a indignação de Roma. Deus não somente me conduz, me arrebata, como também me empurra; não estou em minha sensatez: quero estar tranquilo e todavia, me vejo pressionado no fragor dos tumultos.

Carlos Miltitz entrevistou-me em Altenburg[4]. Estava queixoso de que eu tinha ganho a todos para a minha causa e os afastado do papa. Da exploração que fiz em todas as hospedagens deduzi que apenas dois a cada cinco estavam a favor de Roma. Depois, na corte do príncipe, informei-me que vinha armado com setenta breves apostólicos a fim de conduzir-me preso para a Jerusalém homicida, a essa Babilônica de púrpura.[5] Quando desesperou-se neste projeto começou a tratar de que eu restituísse à igreja romana o que lhe havia roubado, e se empenhou em convencer-me que eu me retratasse. Ao rogar-lhe que me indicasse no que tinha que retratar-me, por fim, nos convencemos em remeter a causa a alguns bispos. Propus-lhe o arcebispo de Salzburg, bem como ao de Tréveres e ao de Freising. Pela tarde fui convidado, estivemos alegres na comida e nos separamos depois de haver me dado um ósculo. Comportei-me como se não estivesse consciente dessas italianidades e simulações. Também convocou a Tetzel e lhe repreendeu. Em Leipzig, por fim, o convenceu de que gozasse de uma estupenda mensalidade de noventa florins e mais três empregados e uma carruagem livre de todo custo. Então, Tetzel desapareceu; ninguém – talvez, a exceção de seus progenitores – sabe para onde ele se foi.[6]

Eck, meu homem astuto, quer arrastar-me para novas disputas, como pode ver no que te adjunto. Desta maneira, Deus cuida em manter-me andando ocupado. Mas, se é a vontade de Cristo, desta disputa nada de bom poderá saldar para os direitos e usos de Roma, que são o cetro em que Eck se apoia.[7]

Eu gostaria que visse os meus livretos impressos em Basiléia[8] e que confrontasse o que os eruditos opinam sobre mim, sobre Eck, sobre Silvestre e sobre os teólogos escolásticos. Equivocando-se deliberadamente, com muitíssimo gracejo, chamam Silvestre (além de outras coisas cheias de humor) de magiro de palácio, em lugar de mestre de palácio (magiro em grego significa cozinheiro)[9]. Isto cairá mal aos heróis romanos. Rogo a ti: reze por mim. Confio com firmeza que o Senhor forçará ao teu coração para cuidar de mim. Sou um homem que está em perigo e empurrado à sociedade, ao deboche, ao desprezo, a negligência e outras moléstias, além das que me oprimem por ofício.

Por fim, se aproximam os de Leipzig para a disputa com Eck. Acusam-me de ser imprudente por escrever que rejeitava e reclamam que cante a palinódia num escrito pessoal. Mas fui assegurado pelo duque George[10] de que eles haviam recusado antecipadamente e eu disse a eles em duas ocasiões que o seu decano havia recusado anteriormente a minha petição, como na realidade o fez. Desta maneira tão baixa quer esta gente impedir tal disputa; mas, o duque George continua urgindo-a.

Adeus, boníssimo padre. 20 de Fevereiro de 1519. Fr. Martinus Lutherus, agostiniano.


NOTAS:
[1] WA 1, pp. 344-345. Nota de Teófanes Egido.
[2] Johannes Staupitz para não se comprometer, associando-se de algum modo, com Lutero, evita inclusive responder as várias cartas enviadas por Lutero, em que o reformador alemão solicita conselhos, posicionamento e coerência com o evangelho que primeiramente ele viu em seu tutor. Veja nas outras cartas traduzidas os insistentes pedidos de resposta de Lutero. Nota do tradutor.
[3] Lutero se refere às Atas Augustana (WA 2, 1ss), onde narra a célebre entrevista com Cajetano (cf. Conversas à Mesa, n. 9-10 desta edição). Nota de Teófanes Egido.
[4] Sobre os contatos do legado de Miltitz e Lutero neste tempo e a desafortunada intervenção do primeiro, cf. a nossa introdução ao Tratado sobre a liberdade cristã, escrito 5 desta edição. Sobre a entrevista aludida por Lutero, cf. H. Boehmer, Der junge Luther, ed. de H. BornKamm, Leipzig 1952, pp. 207ss. Nota de Teófanes Egido.
[5] É interessante notar que Lutero usa uma linguagem apocalíptica condenatória contra a Igreja Romana, bem como contra ao papa. Nota do tradutor.
[6] Johannes Tetzel (1465-1519) pregador da indulgência que desencadeou o primeiro protesto público de Lutero em 1517 (veja as 95 Teses). Sobre a alusão da carta e o histórico do dominicano, cf. N. Paulus, Johann Tetzel der Ablassprâdiger, Mainz 1899, pp. 71ss. Nota de Teófanes Egido.
[7] Refere às teses impressas por Eck (WA 2, p. 154) com vistas à disputa que em Leipzig lhe enfretaria com Karlstadt e Lutero. Eck foi sem dúvidas o mais formidável e um dos melhores e mais preparados debatedores contra Lutero. Nota de Teófanes Egido.
[8] Os seus primeiros escritos latinos surgem editados em Outubro de 1518, na impressa de Froben (Basiléia), numa edição feita sema autorização de Lutero. Nota de Teófanes Egido.
[9] Silvestre Prierias (1456-1523), um dos primeiros rivais de Lutero, sem a grandeza de Eck. O livro Diálogo equivocadamente da capa do livro, cf. WA 1, p. 645. Nota de Teófanes Egido.
[10] O duque George Spalatino da Saxônia. Nota do tradutor.


Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), p. 377-378.

Tradução em 8 de Abril de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.

terça-feira, 25 de março de 2014

Carta Martinho Lutero a Johannes Staupitz [1518]

31 de Março de 1518[1]


A seu pai e superior em Cristo.

Jesus. Meu pai no Senhor: ao andar ocupado em tantas coisas me vejo forçado a comunicar-lhe pouquíssimas outras. Em primeiro lugar, creio que meu nome fede para muitos. Há algum tempo muitas pessoas boas atribuem-me condenar os rosários, coroas, ofícios fúnebres, e outras orações e até qualquer boa obra. O mesmo ocorreu a são Paulo, a quem imputavam ter declarado “façamos o mal para que o bem aconteça”.[2] O que ensino, continua sendo a teologia de Tauler e do livreto de Christian Aurifaber que você mesmo editaste, é que os homens depositem a sua confiança, não em orações, nem em méritos, nem nas próprias obras, mas, somente em Jesus Cristo, porque não nos salvaremos por correr, mas pela misericórdia de Deus.[3] Desta minha preocupação, eles tiram veneno que, como você pode ver, andam espalhando. Mas o mesmo que não comecei, tão pouco retrocederei em meu empenho movido pela fama ou pela infâmia. Deus haver de julgar.

Esses mesmos doutores escolásticos atiçam o ódio contra mim, tanto em força como em fervor, de seu zelo e estão a ponto de enlouquecer, pela simples razão de que antes que a eles, eu prefiro aos escritores escolásticos e a Bíblia. E é que leio aos escolásticos com discrição, não com olhos fechados (como é seu costume), sendo que o apóstolo preceituou “provai tudo, e retende o que é bom”.[4] Não os rejeito em tudo, nem tão pouco, os aprovo em tudo. Estes tagarelas costumam tomar a parte pelo todo, a converter a faísca em incêndio, e a mosca em elefante. Graças a Deus não me causam preocupação, nem mesmo os menores destes fantasmas. É puro palavreado e não passarão disso. Se foi permitido a Scotus, Gabriel e a outros semelhantes discordar de são Tomás, e se aos tomistas não lhes está vedado contradizer a tudo o que se ponha adiante, nem que entre eles existam tantas divisões como cabeças, ou inclusive como crinas de cada cabeça, por quê não me concederiam o meu esgrimir contra eles o mesmo direito que arrogam contra si? Se Deus agir, ninguém poderá impedi-lo, ninguém poderá levantá-lo se está descansando.

Adeus e rogue por mim, e pela verdade divina onde quer a encontre.

Wittenberg, 31 de Março de 1518. Fr. M. Eleutherius, agostiniano.


NOTAS:
[1] WA Br 1, 160. Johannes de Staupitz (falecido em 1524), vicário geral de Lutero agostiniano, é um personagem presente desde os seus primeiros anos na religião, como representante da bondade compreensiva. Lutero sempre lhe foi agradecido, mas não conseguiu envolve-lo na Reforma. Ver cartas seguintes e, em especial, a que Lutero lhe escreveu em 17 de Setembro de 1523. Cf. D.C. Steinmetz, Misericordia Dei. The Theology os Johannes Staupiz, Leiden 1968.
[2] Rm 3:8.
[3] Rm 9:16.
[4] 1 Ts 5:21.


Traduzido de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 376-377.

Tradução em 22 de Fevereiro de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.

sábado, 22 de março de 2014

Carta Martinho Lutero a George Spalatino [1518]

18 de Janeiro de 1518[1]

Ao seu irrepreensível George Spalatino,[2] verdadeiro discípulo de Cristo e irmão.

Jesus. Saúde. Até agora você tem me perguntado algumas coisas, ótimo Spalatino, cuja resposta dependia de minha capacidade ou de minha temeridade; agora, ao rogar-me que te oriente em que concerne o conhecimento da Sagrada Escritura, me levanta um problema que excede em muito todas as minhas forças. E, é que nem eu mesmo posso encontrar quem me guie no assunto com tanta transcendência. Cada um, inclusive os mais eruditos e melhores intelectuais, podem perceber o seu lazer. Aí tem a Erasmo: afirma publicamente que são Jerônimo é um teólogo de categoria tal, que a segundo a sua predileção deveria ser o único que tomasse em consideração. Pois bem, se ousar antepor a santo Agostinho, e se me tomasse por árbitro parcial e suspeito por causa de minhas confessas simpatias e de sentença divulgada, e que a tempos aceitei de Erasmo, que afirmou que seria uma enorme vergonha comparar Agostinho com Jerônimo. Outros abundam outras opiniões.

Da minha parte, dada minha pobre erudição e escassa inteligência, não me atreveria a dizer nada em assuntos de tanta importância e entre juízes tão qualificados. A Erasmo sempre o louvo, e o defendo ante todos os que deliberadamente odeiam a Escritura Sagrada, ou a desconhecem por ignorância,[3] mas, intencionalmente me guardo de vomitar no que discordo dele para não alimentar a inveja que eles têm, e apesar disto que vejam em Erasmo muitas coisas que me parecem tão pouco imprudentes para chegar ao conhecimento de Cristo. Tudo isto, está claro, falando como um teólogo, e não como um gramático; porque, de outra forma, o próprio Jerônimo, tão celebrado por Erasmo, não encontraria nada mais erudito e inteligente que isto.

Você sabe que violará o sagrado da amizade se comunicar a alguém a minha opinião sobre Erasmo. Não te digo isto em vão. Bem sabe que há muitos que deliberadamente andam a caça de motivos para caluniar aos bons eruditos. Permaneça em segredo o que disse. E ainda mais: não me faças caso, até que você mesmo não tenha se convencido disto pela leitura.

Não obstante, se te empenha em saber do meu programa de erudito, eu confiarei por completo a você um grupo de amigos íntimos, mas sob a condição de que não me sigas, a não ser criteriosamente. A primeira coisa que você tem que ter presente é a certeza indestrutível de que a Escritura Sagrada é impossível penetrá-la baseado no estudo e inteligência. Portanto, teu primeiro empenho será o começar pela oração; mas, uma oração em que peça para que a mais pura misericórdia te conceda a inteligência da sua palavra, e que se agrade de te usar para a sua glória, não para a tua, nem para a de nenhum humano. Nenhum mestre das palavras divinas poderá ser o melhor do que seu próprio autor, de acordo com o que disse: “todos serão ensinados por Deus.”[4] Portanto, convém sobremaneira que você se desespere com todas as suas forças e de toda a tua inteligência e confie unicamente na ação do Espírito. Atente a quem te diz por experiência própria.

Baseado neste humilde desespero, depois leia a Bíblia em ordem, desde o princípio até o fim, para que aprendas primeiro e de memória a narração livre (o que imagino que terá feito). Para isto será muito proveitoso são Jerônimo em suas Cartas e Comentários, mas para chegar ao conhecimento de Cristo e da graça – ou seja, para penetrar na inteligência mais secreta do espírito – parecem-me muito mais coerentes que santo Agostinho e Ambrósio, porque a percepção de que são Jerônimo “originou” (ou seja, alegorizou) demasiadamente.[5] Digo isto, mas deixo o a juízo de Erasmo, pois, não me pediu a opinião de Erasmo, e sim a minha.

Se lhe agrada o meu método começará pela leitura de Do espírito e da letra de santo Agostinho, obra que o nosso Karlstadt,[6] homem de incomparáveis conhecimentos, explicou e editou com admiráveis comentários. Leis depois o livro Contra Juliano e Contra as cartas dos pelagianos. Também acrescente Da vocação de todas as nações de são Ambrósio, se bem que pelo estilo, pela inteligência e pela cronologia deva ser atribuído a outro autor; todavia, está cheio de erudição. Deixe os demais para depois, se é que resultarem de teu agrado o que indiquei a você. E perdoe-me a temeridade de atrever-me antepor em assunto tão árduo o meu sistema ao de outros de tanto peso.

Por fim, renunciarei da Apologia de Erasmo, mas me afeta veementemente o duelo que desencadeou entre dois príncipes das letras.[7] Erasmo está muito acima de todos, e é o que melhor se expressa, mas também é o mais amargo apesar de seus esforços por conservar a amizade.

Adeus meu Spalatino. Em nosso monastério, dia de santa Prisca, quando recebi a sua carta, 1518. Fr. Martinus Eleutherius. O P. Staupitz anda por Munich, em Baviera; e de lá acaba de escrever-me.


NOTAS:
[1] WA Br 1, 133-134. Do valor doutrinário desta carta deu testemunho o próprio destinatário com a nota marginal que lhe pôs: “1518. Introductio in theologiam”.
[2] WA Br 1, pp. 70-71. Spalatino (Georg Burckhardt, de Spalt) da mesma geração que Lutero. Ele viveu entre 1484-1545, realizou um papel decisivo no início da Reforma devido a sua posição na corte de Frederico, o Sábio da Saxônia, de quem era chanceler e pregador. Foi o mediador entre o príncipe e Lutero, que como humanista, soube frear certas exageros do reformador que escreveu um numeroso corpo de cartas. Cf. I. Hüss, Georg Spalatin, Weimar 1956; Id., Georg Spaltins Verhâltins zu Luther und der Reformation: Luther 31 (1960), pp. 67-80. Nota de Teófanes Egido.
[3] Alude aos escolásticos, tão maltratados pelos humanistas e o reformador, numa das poucas coisas em que estavam de acordo. Nota de Teófanes Egido. Erasmo criticando os teólogos escolásticos declara que “arrogam-se insolentemente o direito de definir e discutir verdades incompreensíveis, profanando assim a majestade da teologia com as palavras e sentenças mais insulsas e triviais. No entanto, esses insignificantes faladores envaidecem-se com sua vazia erudição e experimentam tanto prazer em ocupar-se dia e noite com essas suavíssimas nênias que nem tempo lhe sobre para ler ao menos uma vez o Evangelho e as cartas de são Paulo.” Erasmo Rotterdam, Elogio da loucura (São Paulo, Editora Martin Claret, 2002), p. 82. Igualmente Lutero declara o seu rompimento formal com os escolásticos em sua Disputatio contra scholasticam theologiam. Martinho Lutero, “Debate sobre a Teologia Escolástica” in: Obras Selecionadas – Os primórdios escritos de 1517-1519 (São Leopoldo, Editora Sinodal & Concórdia Editora, 1987), vol. 1, pp. 13-20. Nota do tradutor.
[4] Jo 6:45.
[5] Lutero está fazendo menção a Orígenes, conhecido pelo seu método alegórico, segundo a Escola de Alexandria. Nota do tradutor.
[6] Karlstadt (Andreas Rudolf Karlstadt, 1480-1541). A opinião de Lutero é dos primeiros anos, quando Karlstadt era seu defensor sem restrições. Depois, por interpretações pessoais da Escritura, distanciou-se de Lutero na doutrina e nas práticas eucarísticas, sobressaindo-lhe, chegando a posturas sócio-religiosas “iluminadas”. Terminou como um dos personagens mais odiados por Lutero, sobretudo desde 1523. Cf. E. Hertzsch, Karlstadt und seine Bedeutung für das Luthertum, Gotha 1932.
[7] Refere-se a Apologia contra L. d’Etaples, editada em 1517, e a controvérsia entre ambos a propósito de determinados problemas da carta aos Hebreus.


Traduzido de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 374-376.

Tradução com introdução e notas em 22 de Fevereiro de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Carta de Martinho Lutero a George Spalatino [1516]

19 de Outubro de 1516.[1]

A George Spalatino, servo de Cristo e sacerdote do Senhor, eruditíssimo mestre, seu amigo sincero e íntegro irmão.

Jesus. Saudações. O que me estranho no eruditíssimo Erasmo, querido Spalatino, é o seguinte: que ao interpretar o apóstolo entenda a justiça das obras, da lei ou própria (que assim a chama o apóstolo) como a observância das práticas cerimoniais e defenda, além disso, que no capítulo quinto aos Romanos, o apóstolo não intencionou referir-se ao pecado original (que ele, noutra parte, admite). Se ler os livros que Agostinho escreveu aos pelagianos, e em especial Do espírito e da letra, Do mérito e a remissão dos pecados, Contra as cartas dos pelagianos e Contra Juliano, inclusos em quase a sua totalidade no oitavo volume de suas Obras,[2] perceberia de que não fala a sua opinião pessoal, mas apoiado em pais de tanta importância como Cipriano, Nacianceno, Rético, Ireneu, Hilário, Olímpio, Inocêncio e Ambrósio. Se fizesse corretamente entender o que disse o apóstolo, teria em Agostinho um maior apreço do que até agora manifesta.

Estou certo de que meu dissentimento com Erasmo procede de que no momento de interpretar as Sagradas Escrituras prefiro seguir a Agostinho que a Jerônimo, na mesma medida em que ele prefere a Jerônimo que a Agostinho.[3] Não que eu me deixe levar por predileções de minha confissão religiosa quando intento revalidar a Santo Agostinho; é que percebo que São Jerônimo busca deliberadamente o sentido histórico e – o mais admirável – que interpreta muito melhor as Escrituras quando o faz de forma incidental (por exemplo, nas Cartas) do que quando o quer fazer exaustivamente, como nos Opúsculos.

A justiça da lei ou das obras não se encontra somente nas práticas, mas também, e mais exatamente, nas obras de todo o decálogo; porque se observar fora da fé em Cristo, ainda que sejam capazes de fabricar Fabrícios, Régulos e homens de integralíssimos, ainda assim saberiam tanto da justiça como a sorbus[4] sabe de figos. Discordando de Aristóteles, não é realizando coisas justas que nos justificamos – a não ser que se trate de uma simulação – mas que justificando-nos (por assim dizer) e, sendo justos é como realizaremos a justiça. É necessário que se transforme primeiro a pessoa e depois se transformarão as obras. Agrada Abel antes que sua oferta. Mas deixemos isto par outra ocasião.

Rogo-te que portes como amigo e cristão e faças saber isto a Erasmo.[5] Porque o mesmo que espero e desejo que sua autoridade chegue a ser celebérrima, temo que muitos se escudem em seu patrocínio para defender a interpretação literal, que equivale dizer morta, da que estão repletos os Comentários de Lira, e quase todos os posteriores a Agostinho.[6] Até mesmo Estapulense, meu Deus, tão espiritual e tão sincero por outra lado, na interpretação da Sagrada Escritura lhe falta inteligência que tem tão presente em sua vida e em seus conselhos.[7]

Terá um sentimento temerário ao ver que passo sob a vara de Aristarco[8] a homens tão eminentes, mas saberá que o faço pelo motivo teológico e pela salvação do irmãos.

Adeus, meu querido Spalatino, e rogue por mim. Escrevo para você às pressas, do interior de nosso monastério, no dia seguinte à festa de são Lucas. 1516.[9]

Fr. Martinus Luther, agostiniano.


NOTAS:
[1] WA Br 1, pp. 70-71. Spalatino (Georg Burckhardt, de Spalt) da mesma geração que Lutero. Ele viveu entre 1484-1545, realizou um papel decisivo no início da Reforma devido a sua posição na corte de Frederico, o Sábio da Saxônia, de quem era chanceler e pregador. Foi o mediador entre o príncipe e Lutero, que como humanista, soube frear certas exageros do reformador que escreveu um numeroso corpo de cartas. Cf. I. Hüss, Georg Spalatin, Weimar 1956; Id., Georg Spaltins Verhâltins zu Luther und der Reformation: Luther 31 (1960), pp. 67-80. Nota de Teófanes Egido.
[2] Se refere à edição das obras de São Agostinho de Basiléia, 1506. Nota de Teófanes Egido.
[3] Sobre o apreço de Erasmo com São Jerônimo – coincidentemente com as predileções de todos os humanistas – cf. sua própria confissão a Leão X, em 1515 (Opus epistolarum D. Erasmi II, edic. P.S. Allen, Oxford 1906, pp. 86 e 220). Nota de Teófanes Egido.
[4] É a planta que produz os frutos utilizados para fazer a vodca russa. Nota do tradutor.
[5] Spalatino também mediou entre os humanistas e Lutero, cumprindo fielmente o cargo e na carta que escreveu a Erasmo lhe repete estes conceitos (cf. Opus epistolarum, 417). Nota de Teófanes Egido.
[6] Refere-se a Nicolas Lira (1270-1340), que no início do século XIV escreveu Postillae perpetuae in vetus et novum testamentum, tendo grande aceitação e várias publicações em 1471-1472. Nota de Teófanes Egido.
[7] Lefévre d’Etaples (faleceu em 1536) foi patriarca do círculo humanista e reformista de Meaux, com algumas ideias semelhantes de Lutero. Continuou fiel à Igreja de Roma, mas alguns de seu circulo (por exemplo Farel) se tornariam em paladinos fervorosos da Reforma protestante. Cf. F. Hahn, Faber Stapulensis um Luther: Zeitschrift für Kirchengeschichite 57 (1938), pp. 356-432. Nota de Teófanes Egido.
[8] Aristarco de Samotracia foi gramático do século III, que para Lutero, Erasmo e os demais humanistas era o símbolo das atitudes críticas. Nota de Teófanes Egido.
[9]Teófanes Egido no prefácio da coletânea das “Cartas” de Lutero afirma que [nota do tradutor]:

Nem os escritos maiores, nem muitas vezes as suas obras ocasionais, são válidas para traçar os sentimentos, as reações, as preocupações profundas e as alegrias de Lutero. As cartas constituem o melhor instrumento para reconstruir a sua íntima biografia. Não apenas isso, como poderemos observar, pois algumas das cartas inclusas nesta edição são verdadeiramente programáticas ou possuem conteúdos básicos de sua teologia e do primeiro período da história do “protestantismo”.

O fato de que ser possível se reunir na edição crítica de Weimar o elevado número de aproximadamente 4500 cartas, indica o que na realidade deveria ser a atividade epistolar de Lutero, sendo que, forçosamente, as que se perderam são em número mais do que as coletadas nestes 14 volumes da citada edição.

Procuramos oferecer amostras de todos os tons, cartas onde pontifica, anatematiza, onde se humilha diante de Erasmo, ou esbraveja contra ele, nas que expõe as suas convicções, as suas misérias, o convite da festa de casamento, ou, na que salta de ternura diante do seu filho, as cheias de sentimento por sua Cate e as formosas antologias da série de Coburgo. Esperamos que o esforço de selecionar corresponda a nossa intencionalidade.

As edições das Cartas de Lutero que usamos de base foram as seguintes. As publicadas pela edição Walch (volume 21 da primeira, 21a e 21b da segunda) da metade do século XVIII. A coleção de M. de Vette – J.R. Seidemann, Luthers Briefe, Berlim 1825-1828, 1856. A mais completa de L. Enders – G. Kawerau, Dr. Martin Luthers Briefwechsel, Berlim, 19 volumes, Frankfurt-Stuttgart-Leipzig 1884-1907, 1932 (incorporadas na edição Erlangen). Todas as cartas consultadas foram revisadas à luz das informações da edição crítica de Weimar, Briefwechsel, 14 volumes, 1930-1970. Nos servimos também, para aclarar muitos detalhes, das correções de H. Rückert, Luthers Briefe, Berlim 1966 (volume 6 da edição de CI), assim como LW 48-50 e Lab 8.

Para evitar reiterações e facilitar as citações, somente ofereceremos a referência obrigada do lugar correspondente a cada carta na clássica e, por agora, definitiva edição Weimar.


Traduzido de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 373-374.

Tradução com introdução e notas em 20 de Fevereiro de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Carta de Martinho Lutero a Johannes Staupitz [1521]

Ao reverendo e excelentíssimo Johannes Staupitz, mestre na sagrada teologia, agostiniano ermitão, seu primogênito no Senhor.[1]

Saudações.

Admira-me que as minhas cartas e meus livros não tenham chegado ainda às tuas mãos, como deduzo de ti. Pregando aos demais, estou desqualificando a mim mesmo,[2] que até tal extremo me aliena o trato com os humanos. Porque te adjunto poderás ter uma ideia do espírito com que trato a Palavra de Deus. Nada se fez ainda em Worms contra mim, considerando que os papistas andam maquinando desígnios perniciosos com invejável furor. Spalatino escreveu-me dizendo que o evangelho goza ali de grande aceitação, que espera que não me condenem sem antes escutarem e serem convencidos.

Em Leipzig, sem nenhum tipo de inibição, Emser escreveu contra mim acusações que são coletâneas de mentiras desde o princípio até o fim. Percebo que preciso dar uma resposta a este monstruoso projeto do duque George, que é quem nutre a loucura do autor.[3]

Não me incomoda a notícia de que Leão X[4] também se voltou contra ti. Desta sorte, poderás erigir para exemplo do mundo a cruz que tanto pregaste. Não gostaria que o lobo se contentasse com tua resposta na que lhe concedes mais do que é justo; o interpretará como se renegasses de mim e de tudo o que é meu, ao declarar que te vem a submeter a seu juízo. Por isso, se Cristo te ama, te obrigará a reconvocação deste escrito, sendo que nessa bula se condenou tudo o que ensinas e aprazes. Como nada disto te és desconhecido, parece-me que ofendes a Cristo, pois aceitas como juiz aquele que é um furioso inimigo de Cristo, a quem se desenfreia contra a palavra da graça. Terias que afirmar isto, e repreendê-lo por esta impiedade. Que não é motivo para andar com medo, senão que deves responder, neste tempo em que nosso Senhor Jesus Cristo se vê condenado, despojado e blasfemado. Na mesma medida em que me exortas à humildade, eu exorto a tua soberba; tua humildade é tão excessiva, como excessiva é minha soberba.

Mas, a situação é séria. Vemos que Cristo está sofrendo. Se antes foi preciso calar, agora, quando o próprio boníssimo Salvador que se entregou a si mesmo por nós, padecendo ignomínia por todo o mundo, não lutaremos por ele, não ariscaremos o nosso pescoço? Meu pai, que é muito mais grave o perigo do que muitos pensam; começa a entrar no vigor do evangelho: “o que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu pai, mas me envergonharei do que de mim se envergonhar.”[5]

Que pensem que eu seja soberbo, avarento, adúltero, homicida, contra o Papa e réu de todos os vícios, com tanto que não podem arguir de calar impiamente enquanto o Senhor sofre e diz: “não há escapatória para mim; não há quem cuide de meu espírito; olhava a minha direita e ninguém me reconhecia.”[6] Tenho a confiança de que esta confissão me perdoará todos os meus pecados. Que por este motivo lancei confiado contra esse ídolo e verdadeiro anticristo de Roma. A palavra de Cristo não é palavra de paz, senão que palavra de espada.[7] Entretanto, o que direi, “miserável eu sou, Minerva?”.[8]

Estas coisas escrevo a ti, em confiança, porque muito temo que te coloques como mediador entre Cristo e o Papa, e que vejas o quão violentamente contrário eles são entre si. Roguemos para que o Senhor Jesus com o sopro de sua boca destrua sem tardar a este filho da perdição.[9] Se não queres vir após mim, deixe que eu marche e me retire. Não deixarei, pela graça de Deus, a tarefa de jogar na cara as atrocidades deste monstro.

De fato, que me enche de tristeza esta tua submissão, que me revela a um Staupitz tão diferente daquele pregador da graça e da cruz. Não teria sofrido se tivesses atuado desta forma antes da promulgação da bula e da ignomínia feita a Cristo.

Hutten e muitos outros escrevem com força a meu favor e estão preparando canções que farão pouca graça a esta Babilônia.[10] Nosso príncipe atua com tanta prudência e fidelidade como com constância. Por seu mandato o edito dessas declarações foram publicadas en latim e alemão.[11]

Saúda-te Felipe[12] e roga para que cresça o teu ânimo. Por favor, dê saudações ao médico Ludovico[13] que me escreveu com tanto conhecimento. Não tive tempo para responder-lhe, pois tenho só trabalhando para mim. Adeus no Senhor e ore por mim.

Wittenberg, Dia de santa Apolônia, 1521.[14]

Teu filho Martinus Lutherus.


NOTAS:
[1] Johannes Staupitz foi o tutor de Lutero e quem incentivou o futuro reformador aos estudos. Nesta carta Lutero reclama do silêncio de seu antigo mestre, em não comentar os livros que havia lhe enviado, nem se posicionar em relação ao movimento de reforma e das bula papal emitida. Nota do tradutor.
[2] 1 Co 9:27. Nota de Teófanes Egido.
[3] Veja a carta 6, nota 4. Nota de Teófanes Egido.
[4] Leão X, por meio do Arcebispo Matthew Lang de Salzburg, exigiu a Staupitz que declarasse como heréticas as doutrinas de seu súdito, Frei Martinho Lutero. Nota de Teófanes Egido.
[5] Mt 10:32; Lv 9:26. Nota de Teófanes Egido.
[6] Sl 142:5. Nota de Teófanes Egido.
[7] Mt 10:34. Nota de Teófanes Egido.
[8] Ditado por Erasmo, Adagia I, 1, 40. Nota de Teófanes Egido.
[9] 2 Ts 2:3 e 8. Nota de Teófanes Egido.
[10] É interessante observar a influência da opinião pública nesta fase da Reforma (ver carta 6, nota 8).
[11] Assertio omnium articulorum M. Lutheri per bullam Leonis X novissimam, damnatorum: WA 7, 94-151.
[12] Felipe Melanchthon (ver carta 9, nota 1). Nota de Teófanes Egido.
[13] Equivocadamente chama de Ludovico, o médico do arcebispo de Salzburg, cujo verdadeiro nome era Leonard Schmaus. Nota de Teófanes Egido.
[14] Data equivale a 9 de Fevereiro de 1521. Nota do tradutor.


Esta carta foi originalmente traduzida para o espanhol da versão revisada à luz dos dados da edição crítica de Weimar (Briefwechsel 1930 1970, WA Br 2, 263-264), em 14 volumes. Traduzido de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 381-383.

Tradução com introdução e notas em 13 de Fevereiro de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.

terça-feira, 18 de março de 2014

Carta de Martinho Lutero a George Spalatino [1525]

A Spalatino. Em 16 de Junho de 1525.

A George Spalatino, servo de Deus, seu irmão em Cristo.


Graça e paz. Meu querido Spalatino, com Catarina von Bora tapei a boca aos que me difamam. Se lhe for conveniente preparar um banquete em testemunho deste meu matrimônio, será proveitoso que não somente esteja presente, mas também cooperes, se houver necessidade de carne. Entretanto, dá-nos tua benção e interceda por nós.

Com esta boda tenho-me feito tão desprezível e depreciado, que tenho esperança de que os anjos do céu riam e chorem todos os demônios. Os sábios não conhecem o mundo, nem o bom e sábio amor de Deus e somente em mim veem como um ímpio e diabólico. O melhor de tudo é que com este matrimônio se condena a incomodada opinião de todos quantos se empenham em continuar ignorando a Deus.

Adeus e rogue por mim.

Wittenberg, sexta-feira após o dia da Trindade, 1525.


Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), p. 401.

Tradução com introdução e notas em 17 de Março de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.



quinta-feira, 13 de março de 2014

A carta de João Calvino para Martinho Lutero [1545]

21 de Janeiro de 1545

Ao mui excelente pastor da Igreja Cristã, Dr M. Lutero,[1] meu tão respeitado pai.

Quando disse que meus compatriotas franceses,[2] que muitos deles foram tirados da obscuridade do Papado para a autêntica fé, nada alteraram da sua pública profissão,[3] e que eles continuam a corromper-se com a sacrílega adoração dos Papistas, como se eles nunca tivessem experimentado o sabor da verdadeira doutrina, fui totalmente incapaz de conter-me de reprovar tão grande preguiça e negligência, no modo que pensei que ela merece.

O que de fato está fazendo esta fé que mente sepultando no coração, senão romper com a confissão de fé? Que espécie de religião pode ser esta, que mentindo submerge sob semelhante idolatria? Não me comprometo, todavia, de tratar o argumento aqui, pois já o tenho feito de modo mais extenso em dois pequenos tratados, e que, se não te for incomodo olha-los, perceberá o que penso com maior clareza em ambos, e através da sua leitura encontrará as razões pelas quais tenho me forçado a formar tais opiniões; de fato, muitos do nosso povo, até aqui estavam em profundo sono numa falsa segurança, mas foram despertados, começando a considerar o que eles deveriam fazer. Mas, por isso que é difícil ignorar toda a consideração que eles têm por mim, para expor as suas vidas ao perigo, ou suscitar o desprazer da humanidade para encontrar a ira do mundo, ou abandonando as suas expectativas do lar em sua terra natal, ao entrar numa vida de exílio voluntário, eles são impedidos ou expulsos pelas dificuldades duma residência forçada.

Eles têm outros motivos, entretanto, é algo razoável, pelo que se pode perceber que somente buscam encontrar algum tipo de justificativa. Nestas circunstâncias, eles se apegam na incerteza; por isso, eles estão desejosos em ouvir a sua opinião, a qual eles merecem defender com reverência, assim, ela servirá grandemente para confirmar-lhes. Eles têm-me requisitado para enviasse um mensageiro confiável até você, que pudesse registrar a sua resposta para nós sobre esta questão. Pois, penso que foi de grande consequência para eles ter o benefício de sua autoridade, para que não continuem vacilando; e eu mesmo estou convicto desta necessidade, estive relutante de recusar o que eles solicitaram.

Agora, entretanto, mui respeitado pai, no Senhor, eu suplico a ti, por Cristo, que você não despreze receber a preocupação para sua causa e minha; primeiro, que você pudesse ler atentamente a epístola escrita em seu nome, e meus pequenos livros, calmamente e nas horas livres, ou que pudesse solicitar a alguém que se ocupasse em ler, e repassasse a substância deles a você. Por último, que você escrevesse e nos enviasse de volta a sua opinião em poucas palavras.[4] De fato, estive indisposto em incomodar você em meio a tantos fardos e vários empreendimentos; mas tal é o seu senso de justiça, que você não poderia supor que eu faria isto a menos que compelido pela necessidade do caso; entretanto, confio que você me perdoará.

Quão bom seria se eu pudesse voar até você, pudera eu em poucas horas desfrutar da alegria da sua companhia; pois, preferiria, e isto seria muito melhor, conversar pessoalmente com você não somente nesta questão, mas também sobre outras; mas, vejo que isto não é possível nesta terra, mas espero que em breve venha a ser no reino de Deus.

Adeus, mui renomado senhor, mui distinto ministro de Cristo, e meu sempre honrado pai.[5] O Senhor te governe até o fim, pelo seu próprio Espírito, que você possa perseverar continuamente até o fim, para o benefício e bem comum de sua própria Igreja.


NOTAS:
[1] O especial interesse por esta carta, pelo que sabemos, é que ela parece ser a única que Calvino escreveu a Lutero.
[2] Calvino se refere aos huguenotes que embora haviam assumido o compromisso com a Confissão de Fé La Rochelle, mas na prática ainda preservavam os ídolos e toda a pompa e ritual da missa católica romana. Esta prática evidenciava uma incoerência entre o ato e a convicção de fé.
[3] Calvino se refere ao culto como uma confissão pública de fé.
[4] Outros escritos de Calvino já eram conhecidos de Lutero. Na carta 42 – Para Farel, escrita em Estrasburgo, em 20 de Novembro de 1539, Calvino cita que Lutero numa carta a Martin Bucer teria escrito que “saúde reverentemente à Sturm e a Calvino, acerca daqueles livros que li com deleite” veja em The Selected Works of John Calvin vol. 4 – Letters 1528-1545 (Albany, Ages Software, 1998), pp. 161-612.
[5] Filipe Melanchthon não entregou esta carta com estes novos livros para Lutero temendo que ele viesse a antipatizar-se com as opiniões de Calvino sobre a Ceia do Senhor. Entretanto, Calvino não tinha este temor. Herman J. Selderhuis observa que “a apreciação por Lutero permaneceria, e – de acordo com Calvino – mesmo que Lutero pudesse chamar Calvino de demônio, e mesmo assim Calvino poderia honrar e descrevê-lo como um especial servo de Deus.” Herman J. Selderhuis, ed., The Calvin Handbook (Grand Rapids, Wm. Eerdmans Publishing Co., 2009), p. 58.


Extraído de Letters of John Calvin: Select from the Bonnet Edition with an introductory biographical sketch (Edinburgh, The Banner of Truth Trust, 1980), pp. 71-73. Esta carta também pode ser encontrada em Selected Works of John Calvin: Tracts and Letters, vol. 4, pp. 440-442.

Revisado e acrecido novas notas em 13 de Março de 2014.
Rev. Ewerton B.Tokashiki

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Tratado sobre a indulgência e a graça por Martinho Lutero [1518]

INTRODUÇÃO POR TEÓGANES EGIDO

Sempre desagradou a Lutero o êxito das 95 teses anteriores. Por isso pensou em dar-lhes nova forma, mais coerente e acessível, além disso, em alemão, como informa para Trutfetter (9 de maio de 1518, WA Br 1, 170). Ele não executou seu propósito, mas realizou em parte ao publicar em língua vernácula este pequeno tratado (sermão), que, graças aos trabalhos de Paulus e as investigações de Clemens (1, 10-11), sabe-se que apareceu em 04 de abril de 1518.

Lutero intencionava fazer ao máximo que suas teses anteriores fossem esquecidas (carta a C. Scheure, 5 de março de 1518, WA Br 1, 152). O sucesso destacou seu plano, pois enquanto são muitos os exemplares que se conservam deste tratado, somente três exemplares das teses foram encontrados (cf. Clemens, ibid.).

O escrito, mais condensado, sem os exageros do anterior, não deixa de negar as verdades das indulgências, se bem que a ação de coloca-las em dúvida já é suficientemente explícita. Insiste em aspectos já vistos, como os da oposição radical à escolástica, à teologia da cruz, limitação do poder da igreja, um latente antirromanismo, etc.

EDIÇÕES. Walch 2, 18, 270-275; E 27, 4-8; WA 1, 243-246; Cl 1, 11-14; Mu 3, 1, 109-112; LD 2, 83-87; Lab 1, 116-120.


TRATADO SOBRE A INDULGÊNCIA E A GRAÇA

1. Deveis saber, para começar, que alguns novos doutores, como o mestre das sentenças, S. Tomás e seus seguidores, dividem a penitência em três partes, a saber, na contrição, a confissão, a satisfação. Apesar de que tal distinção, segundo opinam, é difícil, ou melhor, impossível fundamentá-la na sagrada Escritura e nos doutores cristãos da antiguidade, não obstante vamos considera-las por agora e vamos aderir a sua forma de falar.
2. Afirmam que a indulgência não livra da primeira ou segunda parte, a saber, da contrição e da confissão, mas sim da terceira, ou seja, da satisfação.
3. Por sua vez, se divide a satisfação em três partes: oração, jejum, esmolas. A oração compreende todas as obras próprias da alma, tais como ler, meditar, escutar a palavra de Deus, pregar, ensinar e outras semelhantes. O jejum compreende as obras da mortificação da carne: vigílias, trabalhos árduos, camas duras, roupas rasgadas, etc. As esmolas compreendem toda classe de boas obras de amor e misericórdia para com o próximo.
4. Não há dúvida de que para todos eles as indulgências isentam destas mesmas obras satisfatórias que temos que fazer obrigatoriamente ou que nos tem sido impostas por causa do pecado. Pois bem, se a indulgência livrasse destas obras, já não restaria nada bom por praticar.
5. Entre muitos tem força certa opinião de que ainda não se decidiu: se as indulgências livram de algo mais do que destas boas obras, a saber, se perdoam também as penas que a justiça divina exige pelos pecados.
6. Neste momento não refutarei esta opinião. Afirmo o seguinte: que não se pode provar com base em texto algum que a justiça divina deseje ou exija do pecador qualquer pena ou satisfação, a não ser unicamente a contrição sincera de seu coração ou a conversão, com o propósito firme de levar adiante a cruz de Cristo e de exercitar-se nas obras mencionadas (mesmo que nada lhes seja imposto), porque Deus disse por boca de Ezequiel: “Se o pecador se converte e se comporta como convém, me esquecerei de seus pecados”.[1] Ademais, ele mesmo perdoou a todos: a Maria Madalena, ao paralítico, a mulher adúltera, etc. Eu me encantaria escutar a qualquer que provasse o contrário, desconsiderando o que tenham pensado alguns doutores.
7. Nos deparamos com a verdade de que Deus castiga a alguns segundo sua justiça ou que por meio das penas os leva à contrição, como diz o Salmo 88: “Se seus filhos cometem pecados, eu castigarei suas transgressões coma vara, porém não lhes negarei minha misericórdia”.[2] Não obstante, não existe poder humano capaz de cancelar estas penas; somente o poder divino pode fazê-lo. Mais ainda: Ele não deseja cancelá-las, pelo contrário, promete que quer impô-las.
8. Por este motivo não se pode dar nenhum nome a esta pena imaginária, nem se sabe nada em que consiste, senão nestas boas obras acima indicadas.
9. Afirmo que, embora a igreja cristã tenha decidido ou declara ainda hoje que a indulgência perdoa mais que as obras satisfatórias, seria mil vezes melhor que o cristão cumprisse estas obras e sofresse esta pena do que comprar ou desejar esta indulgência. Porque a indulgência não é, nem pode ser outra coisa senão abandono das boas obras e de uma pena saudável, que melhor seria desejar do que abandonar; e que, embora alguns dos novos pregadores tenham inventado duas classes de penas, medicinais e satisfatórias, visando ao conserto ou à satisfação. Não obstante, louvado seja Deus, gozamos nós de maior liberdade para depreciar tais coisas e charlatanismos semelhantes que eles inventam; porque toda pena, ou seja, tudo o que Deus impõe, é bom e proveitoso para os cristãos.
10. Com isto não se quer dizer que as penas e as obras sejam excessivas, e que o homem, na brevidade da vida, não possa cumpri-las, motivo pelo qual a indulgência se faria imprescindível. Respondo que isto não tem fundamento nenhum e que é uma pura invenção. Nem Deus nem a santa igreja impõem nada que não se pode cumprir; também S. Paulo declara que Deus não prova em nada mais além de suas forças.[3] Isto influencia, não pouco, na desonra da cristandade, ao fazê-la responsável de impor mais do que podemos suportar.
11. Mesmo que a penitência canônica estivesse em vigor, a saber, se por cada pecado mortal fossem impostos sete anos de penitência, a cristandade deveria abandonar estas leis e não impor nada além do que cada um pode cumprir, menos motivo haverá para impor mais do que se pode suportar agora, quando estas leis já não tem mais valor algum.
12. Diz-se que o pecador, com o que ainda lhe resta sofrer, tem que ir ao purgatório ou fazer uso das indulgências, mas dizem tantas coisas sem razão nem com qualquer tipo de prova.
13. É um erro grande querer satisfazer alguém por seus pecados, quando Deus os perdoa ilimitadamente de forma gratuita por sua inestimável graça e sem nenhuma exigência em troca. A única exigência de Deus é que daí em diante se leve uma vida boa. A cristandade exige algumas coisas; também pode cancelá-las e não impor nada que seja difícil e insuportável.
14. A indulgência tem sido autorizada por causa dos cristãos imperfeitos e preguiçosos, que não querem exercitar-se com valentia nas boas obras, ou por causa dos rebeldes. Como a indulgência não anima em nada a consertar-se, senão que mais tolera e autoriza sua imperfeição, não se deve falar nada contra a indulgência, nem tampouco há de se recomendá-la a nada.
15. Agiria muito melhor quem desse algo puramente por amor a Deus para a fábrica de S. Pedro ou para outra coisa, em lugar de adquirir em troca uma indulgência. Porque se corre o perigo de fazer tal doação por amor à indulgência e não por amor a Deus.
16. É muito mais valiosa a esmola dada ao indigente do que a outorgada para este edifício; é muito melhor do que a indulgência conseguida pela troca. Porque, como já se tem dito, vale muito mais uma boa obra cumprida do que muitas menosprezadas. Com a indulgência, ou se omite de muitas boas obras ou não se consegue nenhuma remissão. Prestem atenção no que vou lhes dizer para instruí-los como é devido: antes de qualquer coisa (e sem levar em conta o edifício de S. Pedro e a indulgência), se queres dar algo, deve dar ao pobre. Se acontece que em sua cidade não há ninguém necessitado de socorro (o que Deus quer nunca acontecerá), então, se assim o desejas, poderá dar para igrejas, altares, ornamentos, cálices da sua cidade. Se isto não for necessário para o presente, e se te parece bem, poderás dar para a fábrica de S. Pedro ou para qualquer outra coisa. Mas nem neste caso deverás fazê-lo para ganhar a indulgência, porque declara S. Paulo: “Quem não cuida dos membros de sua família não é cristão, é pior que um pagão”.[4] Enfim, para expressar meu pensamento: qualquer um que te ensine de outra maneira está te induzindo ao erro ou anda buscando sua alma dentro de seu bolso, e se nele encontrar alguns centavos, terá mais interesse neles do que em todas as almas. Se você diz que não voltará a comprar indulgências, te respondo: “já lhe disse antes; minha vontade, meu desejo, minha constante súplica e meu conselho é que ninguém compre a indulgência. Deixa que os cristãos preguiçosos e sonolentos as comprem; Você, segue o seu caminho.”
17. A indulgência não é recomendada nem aconselhada: busque as coisas autorizadas e permitidas. Por este motivo, não é uma obra de obediência, nem meritória, senão uma evasão da obediência. Portanto, embora não se deva proibir ninguém que as adquira, se deveriam afastar delas todos os cristãos, e estimulá-los à mudança para se fortificarem pelas obras e pelas penas que anulam a indulgência.
18. Que em virtude da indulgência salvar as almas do purgatório ser algo que ignoro e que não creio ainda, embora alguns novos doutores o afirmem; e como lhes é impossível provar, e ainda, a igreja nada tem decidido a respeito, para maior segurança é muito melhor, mais valioso e seguro que intercedas e trabalhe por estas almas.
19. Estou totalmente convencido da certeza destes pontos, suficientemente fundados na Escritura. Por isso, não duvide deles, e deixe que os doutores escolásticos sigam sendo “escolásticos”; Deixe-os todos com suas opiniões, incapazes de autorizar sua pregação.
20. Não me importa muito que no presente me considerem como herege, alguns a quem esta verdade cause forte prejuízo, posto que somente me qualificam assim algumas mentes tenebrosas que jamais ouvem a Bíblia nem leem os doutores cristãos, que nunca compreendem seus próprios mestres e que estão a ponto de decompor-se em suas opiniões proferidas, de agoureiros e sem fundamento; porque se os houvessem compreendido, entenderiam que não devem qualificar de blasfemo a ninguém sem tê-lo escutado e convencido. Que Deus, não obstante, lhes conceda e nos conceda um espírito reto. Amém.

NOTAS:
[1] Ez 18, 21; 33, 14-16
[2] Sal 89, 31-34
[3] 1 Cor 10,31
[4] 1 Tim 5, 8.


Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 70-73.

Traduzido em 18 de Fevereiro de 2014.
Rev. Evanderson Henrique da Cunha, M.Div.
Coordenador do Seminário Presbiteriano Brasil Central - Extensão Rondônia
Professor do Departamento Teologia Pastoral

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Discurso pronunciado na Dieta de Worms por Martinho Lutero (1521)

Introdução histórica por Teófanes Egido

Para a compreensão do feito e do significado da atuação de Lutero ante a Dieta de Worms e de seu discurso, é necessário considerar os eventos a seguir. O dia 15 de junho de 1520 traz muitos fatos obscuros com Federico o Sábio, duque da Saxônia eleitoral e – como já vimos – protetor de Lutero. Roma decidiu condenar a doutrina de Augustinho na bula Exsurge, Domine, certamente confusa. Na realidade, o documento ainda não condena a pessoa de Lutero, e já conhecemos a sua reação violenta, que em um ato teatral queimou a bula juntamente com os textos representativos das práticas canônicas e morais da igreja (10 de dezembro). No início do ano seguinte publicou-se a bula Decet romanum pontificem com a excomunhão do “herege”. A excomunhão eclesiástica surtiu efeito por ter sido referendada pela expulsão civil, ou seja, imperial. Não obstante, o jovem imperador Carlos V, pressionado por dificuldades econômicas, pelo compromisso com os costumes alemães, por rivalidades com a cúria de Roma, pelo favor que a opinião pública manifestava por Lutero – convertido em herói dos alemães -, não quis condená-lo sem antes ouvi-lo. Para ele a melhor ocasião era aproveitar a dieta – a primeira imperial - de Worms (aberta solenemente em 27 de janeiro de 1521) e convoca-lo a comparecer.

O tempo transcorrido foi precioso para a causa luterana e, de fato, foi uma das épocas mais relevantes de Lutero, desde o ponto de vista de seus escritos e de sua influência. A convocação para a dieta, por outro lado, lhe serviu como uma invejável oportunidade para sua exposição. Por isso se sentiu expectante e temeroso, na condição de vítima e de herói, percebendo com clareza a magnífica repercussão de um púlpito peculiar (cf. Gravier, o. c., 50 ss).

No dia 17 de abril, ao entardecer, compareceu diante da assembleia. Lutero se viu surpreso: ele havia acreditado em uma oportunidade para pregar suas idéias mas se encontrou em uma condição em que a única opção que lhe era oferecida era de retratar-se ou não do conteúdo de seus livros que Aleandro havia empilhado com cuidado. Diante da surpresa, pediu uma prorrogação e, no dia seguinte, como resposta ao interrogatório, pronunciou o célebre discurso que transcrevemos.

O documento tem um valor transcendental e é, talvez, o reflexo do momento mais decisivo e claro, não somente da existência de Lutero, senão de toda a história de sua reforma. Em tons um pouco dramáticos nega a autoridade do papa, dos concílios, e proclama a autoridade da Escritura e da consciência. Quem viu nele uma proclamação dos direitos da consciência individual pecou por um evidente anacronismo, pois é indiscutível a valentia de Lutero, ainda monge, o qual enfrentou boa parte dos componentes da dieta como arauto da liberdade do evangelho.

A resposta do imperador foi contundente e não menos decisiva: contra a heresia – disse – “estou determinado em empenhar meus reinos e senhorios, meus amigos, meu corpo, meu sangue, minha vida e minha alma” (Sandoval). Nem a decisão nem a contundência de Carlos, ao decretar na dieta a expulsão imperial de Lutero, puderam fazer muita coisa. As dificuldades da Espanha, o perigo da França, o regresso do imperador à agitada Castela, a burocracia, o apoio de alguns senhores, etc, atrasaram a publicação do edito firmado em 26 de maio de 1521, quando Lutero estava em segurança, graças ao sequestro organizado pelo seu protetor.

EDIÇÕES: Nossa tradução se esforçou para transmitir o texto em sua forma mais próxima possível de como foi pronunciado por Lutero. Como base, temos adotado a versão pessoal de Lutero como está contida em Verhandlungent mit D. Martin Luther auf dem Reichstag zu Worms 1521 (Coleção de WA 7, 814-857). Temos a contrastado com a versão do testemunho prescencial J. Cochlaus, Colloquium cum Luthero Wormatiae olim habitum, publicado em Flusgschriften aus den ersten Jahren der Reformation IV, Leipzig 1910, 177-218, com as notícias de A. Wrede, Reichstag zu Worms (1520-1521), Gotha, 1896 (da serie Deutsche Reichstagsakten unter Karl V., vol. II). O texto, com anotações críticas, cf. também em Lab 2, 309-316; em H. Junghaus, Die Reformation in Augenzeugen Berichten, Munchen 1973, 107-112; em Ls 98-102, etc.

BIBLIOGRAFIA. Para os atos, ambientes, etc., da dieta, cf. P. de Sandoval, Historia de la vida e hechos del emperador Carlos V (edic. BAE, 80), Madrid 1955; Relación de lo que pasó al emperador em Bormes com Lutero em 1521 (publicado por A. Wrede, o. c., 632-638, y por A. Morel-Fatio em Bulletin Hispanique 16 [1914] 35-46). Últimos trabalhos relacionados com o tema: E. Kessel, Luther vor dem Rechstag im Worms 1521, em Festgabe fur Paul Kirn, Berlin 1961, 172-190. Por ocasião do 450º aniversário do sucesso editaram numerosos estudos, entre os que citamos como mais representativos e equilibrados, alguns dos contidos no volume Der Reichstag zu Worms von 1521. Reichspolitik und Luthersache, edit. Por F. Reuter, Worms 1971: R. Wohlfeil, Der Wormser Reichstag von 1521, 59-154; M. Schmidt, Luther charismatischer Reformationsbegriff und der Reichstag zu Worms, 155-207; R. Schwarz, Luthers Erscheinen auf dem Reichstag in der Sicht Thomas Muntzers, 208-221; H. Wolter, Das bekenntnis zu Worms 1521, 222-236; E. W. Kohls, Die Bedeutung des Verhaltens Luthers in Worms innerhalb der neueren Historiographie: Archiv fur Reformationsgeschichte 62 (1972) 43-71; H. Steitz, Marthin Luther auf dem Reichstag zu Worms 1521: Blatter fur Pfalzische Kirchengeschichte 39 (1972) 112-133.


Jesus.
Excelentíssimo senhor imperador, mui ilustres príncipes, mui graciosos senhores:

Compareço pontual e obediente, à hora que me determinou ontem à tarde, e suplico a vossa graciosíssima majestade e aos ilustríssimos príncipes e senhores que, pela misericórdia de Deus, se dignem atender com clemência esta minha causa, que espero seja a causa da justiça e da verdade. E se por minha inexperiência me dirijo a alguém de forma incorreta, ou de alguma maneira me comportar contra os usos e costumes da corte, rogo que me desculpem com benevolência, porque não tenho vivido na corte, mas no isolamento do monastério, e a única coisa que posso dizer é que até hoje minhas únicas preocupações tem sido, tanto em minha docência como em meus escritos, a glória de Deus e a instrução dos fiéis de coração humilde.

Excelentíssimo imperador, ilustres príncipes: vossa sereníssima majestade me levantou ontem duas questões: se reconhecia como meus os livros que se multiplicam e tem sido publicados em meu nome, e se estava disposto a seguir os defendendo ou negá-los.

Sobre o primeiro ponto minha resposta é simples; sem dúvida, me mantenho com ela e seguirei mantendo-a sempre: se trata de livros meus, que foram publicados em meu próprio nome, mas sempre com as possíveis mudanças e interpretações mal feitas que devem ser atribuídas à astúcia ou a importuna sabedoria de meus adversários. Em todo caso, reconheço somente o que é meu e o que por mim foi escrito; mas não as interpretações de meus adversários.

Quanto à segunda questão, suplico à vossa serene majestade, se digne levar em conta que meus livros não são todos da mesma classe.

Há um primeiro grupo de escritos nos quais trato da fé e costumes de uma maneira tão simples e evangélica, que até meus adversários se veem obrigados a reconhecerem sua utilidade e sua inocuidade, e que são dignos de ser lidos por um cristão. A mesma bula do papa, por mais implacável e cruel que seja,[1] admite que alguns destes livros são inofensivos, embora, por um juízo estranho, os haja condenado. O que aconteceria se eu decidisse retratá-los? Seria o único dos mortais que condenaria a verdade que amigos e inimigos confessam de comum acordo, o único em resistir à unanimidade desta confissão.

Outra categoria de escritos é a que ataca o papado e as empresas de seus seguidores, posto que sua péssima doutrina e exemplo tem arrastado a toda a cristandade para a destruição espiritual e corporal. Porque todo o mundo tem a experiência, testemunhada pelo general descontente, de que as leis dos papas e suas doutrinas humanas tem escravizado miseravelmente as consciências dos fiéis, as tem atormentado e torturado; que a incrível tirania tem devorado os bens e os recursos, e os segue devorando de forma insultante cada vez mais sobre todos em nossa nobre nação alemã. Além disso, seus próprios decretos (por exemplo, Dist. 9, 25, quaest. 1 e 2) apresentam como errôneas e inválidas as leis papais que estão em contradição com o ensinamento do evangelho e dos pais da igrejas.[2] Se eu retratasse também estes livros, não faria mais do que fortificar sua tirania e abrir de par em par a tão grande impiedade não somente uma pequena janela, mas também todas as portas, para que aquela entrasse de forma mais ampla bem como a comodidade que jamais até agora teve. Minha retratação seria o melhor favor concedido a sua ilimitada e desavergonhada malícia, e daria vigor e estabilidade a este senhorio cada vez mais intolerável para o miserável povo, e mais se anuncia que fiz tudo isto por ordem de vossa serena majestade e de todo o império romano. Grande Deus, que estupenda ocasião serviria para encobrir a malícia e a tirania!

A terceira categoria é a constituída pelos livros que escrevi para certas pessoas particulares, empenhadas em amparar a tirania romana e em destruir meus ensinamentos sobre a fé. Confesso que contra esta gente tenho me comportado mais duramente do que convém a um homem que tem professado a uma religião. Tenho que acrescentar que não me considero um santo; não se trata aqui de discutir sobre minha vida, mas sobre o que se ensina sobre Jesus Cristo. Menos ainda que os anteriores me está permitido retratar estes escritos, porque, se o fizesse, serviria de reivindicação para que a tirania e a impiedade reinassem e se desencadeassem contra o povo de Deus com maior violência que antes.

Considerando que sou homem e não Deus, não me é lícito defender meus escritos mas a maneira em que Jesus Cristo meu Senhor defendeu seus ensinamentos diante de Anás quando este lhe interrogava e um soldado lhe deu uma bofetada: “Se tem falado mal, lhe digo, mostre-me em que”.[3] Se o próprio Senhor, que tinha certeza de sua inerrância, não se recusou ao menos escutar a contestação de seu ensinamento, ainda que fosse por parte do mais humilde dos soldados, com quanta maior razão eu, escória da plebe, constantemente exposto ao erro, devo desejar suplicar que se conteste minha doutrina. Por este motivo, rogo a vossa serena majestade, a vós outros, ilustres senhores e a todos os que possam fazê-lo, tanto o maior como o menor, pela misericórdia de Deus, que me provem e me convençam de meus erros, que se refute a base dos escritos proféticos e evangélicos. Se concluir-se que devo instruir-me melhor, nada melhor disposto que eu retratar qualquer erro, seja o que for, eu seria o primeiro a lançar meus escritos nas chamas.

O que acabo de dizer evidencia que tenho considerado e ponderado suficientemente as urgências, perigos, inquietudes e dissenções que surgiram no mundo por ocasião de meus ensinamentos, como me censurou ontem com energia e gravidade. O que mais me alegra em tudo isto é contrastar que por causa da palavra de Deus nascem paixões e dissenções, porque este é o caminho, a maneira e o acontecimento que segue a palavra de Deus sobre a terra conforme a afirmação de Cristo: “Não vim para trazer paz, digo, mas a guerra; eu vim para separar o filho do pai, etc.”[4] É necessário que nos despertemos para o quão admirável e terrível é nosso Deus em seus juízos, para que o anseio de apaziguar os distúrbios não comece por rejeitar a palavra de Deus, nem venha a ser que este intento nos atraia um dilúvio de desgraças insuportáveis. Devemos vigiar para que o reinado de nosso jovem e privilegiado príncipe Carlos (em quem, depois de Deus, se depositam tão grandes esperanças) não seja desgraçado e se inaugure com auspícios funestos.[5]

Poderia respaldar tudo isto com numerosos exemplos das Escrituras Sagradas que se referem ao Faraó, ao rei de Babilônia e aos reis de Israel, personagens que conheceram os maiores desastres precisamente quando seus sábios desígnios se ordenavam a estabelecer a paz e afirmar seus reinados. “Porque é ele quem surpreende aos sábios em sua sabedoria e transporta as montanhas sem que se apercebam disso”.[6] É preciso, pois, temer a Deus. Se falo estas coisas, não é porque creio que em elevadas cúpulas tenham necessidade de meus ensinamentos e advertências, mas não posso subtrair da minha Alemanha o serviço a que estou obrigado.

E com estas palavras me recomendo a vossa serena majestade e a vossos senhores, suplicando humildemente que não permitam que as paixões de meus adversários me façam injustamente detestável diante de vós.

Eu disse.

(Depois que eu falei desta forma, o arauto imperial me quis repreender com dureza. Disse que não me havia inserido no assunto e que não era possível voltar a discutir ponto que já haviam sido condenados e definidos pelos concílios. Me obrigou então uma resposta simples e sem sutilezas; “Queria retratar-me ou não?” Tenho aqui o que então respondi).

Posto que vossa graciosa majestade e vossos senhores me pedem uma resposta, então a darei “sem chifres ou dentes”:[7] A menos que se me convença por testemunho da Escritura ou por razões evidentes – posto que não creio no papa nem nos concílios somente, já que está claro que eles tem se equivocado com frequência e tem se contradito entre eles mesmos -, estou acorrentado pelos textos escriturísticos que tenho citado e minha consciência é uma escrava da palavra de Deus. Não posso nem quero retratar-me em nada, porque não é seguro nem honesto atuar contra a própria consciência. Que Deus me ajude. Amém.[8]


NOTAS:
[1] A bula Exsurge, Domine (15 de junho 1520), que condenava 41 pontos da doutrina de Lutero. Mesclando capítulos heréticos com os que não eram, escrita por inspiração de inimigos de Lutero, não duvidemos que no documento escapa a condenação da tese básica da justificação pela fé somente.
[2] Se refere ao Decreto de Graciano (século XII), praticamente o corpo jurídico da igreja durante muito tempo.
[3] João 18, 23.
[4] Mt 10, 34 ss.
[5] A coroação imperial de Carlos V havia tido lugar em Aquisgrán meio ano antes, 23 de outubro de 1520.
[6] Jó 5, 13; 9, 5.
[7] “Sem chifres ou dentes”: coro escolástico para expressar uma sentença clara, simples e com um só sentido.
[8] A conclusão do histórico discurso de Lutero tem desencadeado discussões incontáveis. Até mesmo a edição de Weimar termina com as frases: “Ich kann nicht anders, hier stehe ich. Gott helfe mir, amen” (Não posso atuar de outra maneira, aqui estou. Que Deus me ajude, amém). Hoje se admite como a única versão autêntica a usada em nosso texto, muito mais provável e em conformidade com os testemunhos, mesmo que o atemorizado Lutero despoje algo de seu caráter de herói e de mártir. O acréscimo apócrifo, que não recolhem os testemunhos oculares, nem sequer Cochleo, começou pronto a executar como pronunciado por Lutero desde a edição do texto (em latim e alemão) por Gruneberg, Wittenberg. Já insistiu nele K. Muller, Luthers Schlusswort in Worms 1521, em Philotesia. Festschrift fur P. Kleinert, Berlin 1907, 269-289.


Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 171-175.

Traduzido em 16 de Fevereiro de 2014.
Rev. Evanderson Henrique da Cunha, M.Div.
Coordenador do Seminário Presbiteriano Brasil Central - Extensão Rondônia
Professor do Departamento Teologia Pastoral

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