Mostrando postagens com marcador Anabatismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Anabatismo. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Ulrich Zwingli: uma carta ao bom povo de Appenzell [1526]

Em vários lugares Zwingli despreocupadamente se referiu a Appenzell como um ninho de atividade anabatista. Embora necessariamente não estivesse incorreta a sua acusação causou um pouco de contenda (mesmo ele nunca tendo, francamente, acusado o governo da cidade de quaisquer simpatias com os anabatistas). Então, numa tentativa de esclarecer os fatos, em 12 de fevereiro de 1526, ele escreveu:[1]

"Graça e paz da parte de Deus para vocês, respeitados, honrados, sábios, clementes, graciosos e amados Mestres: um caso extremamente infeliz aconteceu comigo, em que fui acusado publicamente diante de suas reuniões de adoração, ter insultado com palavras indecorosas e, se diga com todo o respeito, de ter chamado vocês de hereges, meus graciosos governantes do Estado.

Estou tão longe de aplicar esse nome a vocês, que eu deveria em breve, pensar em chamar o céu de inferno. Por toda a minha vida eu tenho pensado e falado de vocês em termos elogiosos e honra, senhores de Abtzell, como o faço agora, e, como Deus me favorece, deverei fazer até ao fim dos meus dias.

Mas não aconteceu há muito tempo, quando eu estava pregando contra os Catabatistas[2] que eu usei essas palavras: 'os Catabatistas estão agora a fazer tanto mal aos honestos cidadãos de Abtzell e estão mostrando tão grande insolência, que nada poderia ser mais infame.’ Vocês podem perceber, gentis senhores, com que modéstia eu os tenho em consideração, porque os Catabatistas turbulentos lhes causaram tantos problemas. Na verdade, eu suspeito que os Catabatistas são as mesmas pessoas que criaram este sermão contra mim em circulação entre vocês, pois eles fazem muitas destas coisas que não os tornam verdadeiros cristãos. Portanto, gentis e sábios senhores, peço mais sinceramente que vocês tenham me desculpado ante toda a comunidade, e, se for o caso, que vocês leiam esta carta em assembleia pública.

Senhores, eu lhes garanto, em nome de Deus, o nosso Salvador, nestes tempos perigosos que nunca vocês estiveram fora de meus pensamentos e minha solícita ansiedade; e se de alguma forma eu serei capaz de servir a vocês, que eu não poupe esforços para fazê-lo. Além do fato de que eu nunca usei esses termos, mesmo contra os meus inimigos, deixe-me dizer que nunca entrou na minha mente a aplicação de tais epítetos insultuosos a vocês, meus senhores piedosos e sábios.

Seja isto suficiente. Que Deus vos conserve em segurança, e que Ele possa colocar um freio nessas falsidades desenfreadas que estão sendo espalhadas por toda parte, o que é uma evidência de alguns grandes perigos - e que Ele possa realizar seus cultos e o completo estado na verdadeira fé em Cristo! Receba esta minha carta como boa parte, pois eu não poderia sofrer assim, com base numa falsidade contra mim, sem que desmentisse esta acusação.”


NOTAS:
[1] O texto original alemão foi traduzido por S.M. Jackson: Gnad und frid von gott. Hochgeachte, ersame, wysen, gnädige, günstige lieben herren Es kumpt mir eigenlich für, wie ich vor üwer wysheit offenlich gescholten sye, als ob ich uch, mine gnädigen herren gemeins lands, bescholten habe mit etwas ungeschickten worten und urloub vor üwer eer kätzer genempt hab, welchs als verr vor mir ist, als das ich geredt hab, die hell sye der himel. Ich hab all min läbtag herlich und erlich von uch minen herren von Abtzell geredt und gehalten, und noch hüt bi tag und, ob gott wil, bis in minen tod. Es hat sich aber in vergangner zyt begeben, do ich wider die widertöuffer gepredget, also geredt hab: “Die widertöuffer gebend ietz den biderben lúten zuo Abtzell so vil muey und arbeit ze schaffen und tribend so vil muotwillens, das ‘s ein spott ist”. Sehend, gnädigen herren, mit was zucht ich erbermd hab mit üwer wysheit gehebt, das úch die verwirrigen töuffer so vil unruowen gestattend. Aber ich zwyfel eigenlich, das mir die widertöuffer selb sölchen lümbden by úch ufgeblasen habind; dann sy tuond der dingen vil, die christenen warhaften menschen nit wol anstond. Hierumb, gnädige wyse herren, wellend mich umb gotzwillen vor gantzer gemeind verantwurt haben und, hatt es fuog, ouch disen brief vor gantzer gemeind vorlesen lassen; dann ich by gott, der üns alle erlöst hatt, sag, das ir mir uss miner sorg und angst in disen gevarlichen zyten nimmer kumend; und wo ich úch für andre yenen gedienen könd, wölt ich mich nit sparen. Darzuo hab ich minen fygenden all min tag nie sölichs zuogeredt, was wolt ich denn úch frommen wysen herren und ein gantze biderbe gemeind mit sölcher unghander red beladen? Nit me denn: sind gott bevolhen; der welle üns sölcher fräfnen lügen abhelffen, die allenthalb werdend fürggeben, das doch ein gwüss zeichen ist einer großen gevar, und üwer wisheit sampt gantzer gemeind in warem christenem glouben behalten. Derstond min schryben imm besten; dann ich sölchen unerberen lug nit hab mögen uff mir ligen lassen. Geben z’ Zürich xij. tags Hornungs M.D. xxvj. Üwer wysheit williger Huldrych Zuingli. Den frommen, fürsichtigen, ersamen, wysen amman, radt und gantzer gemeind zuo Abbtzell, sinen gnädigen, günstigen, lieben herren.
[2] Catabatistas é outro termo usado por Zwingli para os anabatistas.


Extraído de https://zwingliusredivivus.wordpress.com/2015/02/12/today-with-zwingli-a-letter-to-the-good-people-of-appenzell/

Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki em 8 de Abril de 2015.
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Carta de João Calvino a Martin Bucer [1532]

CARTA 7
RECOMENDAÇÃO DE UM REFUGIADO FRANCÊS EM ESTRASBURGO, QUE TINHA SIDO FALSAMENTE ACUSADO DE SUSTENTAR AS DOUTRINAS DOS ANABATISTAS.

Noyon, 04 de setembro de 1532.[1]

A graça e a paz do Senhor estejam com vocês pela misericórdia de Deus e da vitória de Cristo.

O prazer de escrever não teria peso como argumento para me convencer, mais do que um bom conselho, a não ser que me parecesse certo lamentar em algumas palavras o triste fim deste excelente irmão, que alguns amigos de indubitável fé e crédito apresentaram a mim por meio de cartas. Quer pelo que você suportou comigo em minha tristeza e simpatia, quer pelo meu favorecimento a ele em seu caso, eu não poderia deixar de escrever. A disposição e comportamento do homem eu conheci enquanto ele morava conosco na França. Ele se portava como alguém amado entre os homens de nossa profissão, se alguém assim fosse.

Estimado como tal entre os homens dotados de certo grau de autoridade, e de forma tal que não viesse a ser nem vergonha ou desgraça a eles. Finalmente, quando ele já não podia curvar o pescoço para aquele jugo voluntário que nós mesmos ainda suportamos, partiu para fixar residência com você, não tendo nenhuma perspectiva de retorno. Mas, como o assunto permanece em voga, tudo veio a baixo, contrariamente à sua expectativa, como numa mudança de cena de uma apresentação teatral, e ele não conseguiu encontrar nenhuma residência permanente da qual pudesse se valer. Ademais, também, como eu ouvi, ele se apressou por causa de seus meios limitados e problemas domésticos, que ele possa ter o benefício do auxílio de amigos a quem ele mesmo havia ajudado no passado, até que tempos melhores pudessem vir. Agora, observe como a calúnia é de longe mais poderosa que a verdade. Algumas pessoas imprudentes, eu não sei quem, entre o teu povo, a quem eu certamente não posso presumir suspeita de malevolência, tinha enchido os ouvidos de todos com suas invencionices, ao ponto de se fecharem a qualquer explicação. Não houve, portanto, nenhuma pessoa de quem ele poderia extrair um centavo sequer.

Provavelmente não foi intenção da pessoa, quem quer que fosse, acender as faíscas desta tragédia, para destruir o caráter de um indivíduo inofensivo. Apesar disso, no entanto, seja o que for, não posso desculpá-lo nem pedir desculpas a ele, e nem mesmo hesitar em afirmar que ele estava errado, para grande sofrimento e calamidade deste indivíduo. Lançaram sobre ele estas injúrias, como se diz, porque ele tinha caído sob suspeita de Anabatismo. Estranho, de fato, a menos que a pessoa fosse escandalosamente suspeita, espalhando esta conjectura a partir de evidências tão fracas. Em conversa com ele, consegui conduzi-lo intencionalmente a falar deste sacramento. Ele concordou em termos expressos inteiramente comigo, a tal ponto que nunca encontrei qualquer um que professasse a verdade sobre este ponto com maior franqueza.

Enquanto isso, ele sofre, apesar de que não parece haver qualquer probabilidade de que esses rumores sinistros, que já ganharam certo grau de crédito, sejam tão logo suprimidos. Peço-te, Mestre Bucer, se minhas preces - se as minhas lágrimas são de algum valor, que você se faça compassivo e ajude-o em sua situação lastimável. Os pobres são deixados em uma forma especial aos seus cuidados - você é o auxílio do órfão. Sofre com ele para que não seja reduzido a tal necessidade como se empurrado ao extremo. Você poderia ajudá-lo, se escolhesse alguém para ajudar de uma forma ou de outra, mas faça você mesmo, de acordo com sua própria discrição. Eu não poderia, no entanto, reter minha mão de ir além dos limites da moderação para apoiar a causa desse indivíduo. É isto para o momento. – Instruído senhor, adeus.

Teu, do meu coração, CALVINO.

[Autógrafo original latino. – Seminário Protestante de Estrasburgo].
Extraído de Letters 1528-1545 - Selected Works of John Calvin (Albany, Ages Software, 1998), vol. 4, pp. 39-40.

NOTAS:
[1] A carta é destinada para Martin Bucer, pastor da Igreja de Estraburgo. Ele foi uma dos líderes da Reforma, nasceu em Schelestadt, em 1491, influenciado por Martinho Lutero. De postura moderada mediou entre os reformados alemães e suíços, e empenhou-se para adotar uma confissão comum a ambos os grupos. Por causa das ameaças procurou exílio na Inglaterra, e obteve um cargo de docência na Universidade de Cambridge. Morreu em 1551, sendo enterrado com honras, entretanto, teve o corpo retirado da sepultura e queimado numa estaca, sob o reinado de Mary Tudor, mas durante a regência de Elizabeth sua honrosa memória foi restaurada. Nota de Ewerton B. Tokashiki.

Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, pastor efetivo na Igreja Presbiteriana de Lagoa Santa; professor de teologia e hermenêutica na Escola Bíblica Central do Brasil/Lagoa Santa-MG; Bacharel em Teologia e Missiologia pela Escola Superior de Teologia e Estudos Transculturais/Montes Claros-MG (2003), Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie/São Paulo-SP (2013), cursando Mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.

Revisado por Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO

Prefácio de João Calvino à Loci Communes de Filipe Melanchthon

  Introdução Em 1546, uma tradução francesa da obra de Filipe Melanchthon de 1545, Loci communes , foi publicada em Genebra sob o título de ...