(I)
1. Algo mais acerca do pecado. Precisamos considerar o sofrimento causado pelo pecado.
2. Este sofrimento é tanto temporal como eterno.
3. Tanto é físico como espiritual.
PROPOSIÇÕES
I. Deus incluiu todos os sofrimentos do homem sob a palavra “morte”. Gn 2:17: “no dia em que dela comeres, certamente morrerás.”
II. Há quatro estágios desta morte.
III. O primeiro é a morte espiritual, que é a perda da vida espiritual, de modo que o homem vive apenas para o pecado. Ap 3:1: “Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives e estás morto.”
IV. A segunda é a morte do sofrimento, que é a perda da felicidade original e o desdobramento de toda espécie de desafortúnio. Êx 10:17: “Oreis ao SENHOR, vosso Deus, que tire de mim esta morte.”
V. A terceira é a morte física, que é a perda desta vida, a dissolução do corpo à terra, e o retorno do espírito a Deus. Ec 12:7 “e retornará à terra como era, e o espírito a Deus que o deu.” A alma retornará a Deus que será tanto um pai como um juiz. Apesar da morte, pelo favor de Cristo, ter se tornado numa passagem desta vida para a eternidade, neste lugar a morte será considerada como ela é.
VI. O quarto estágio é a morte eterna, ou estado de condenação, que é chamado de segunda morte, pela comparação com a morte física (Ap 21:8).
VII. Nada, exceto a Escritura, ensina o que é afirmado acerca do estado dos condenados.
VIII. Este estado consiste da perda do sumo bem e o processo para o sumo mal.
IX. A perda do sumo bem é isto: eles serão excluídos para sempre da comunhão com Deus e das suas bençãos (Mt 25:41: “apartai-vos de mim, malditos.”).
X. O correspondente ao maior mal será a eterna comunhão com o demônio e seus anjos (Mt 25:41: “No lago de fogo,[O texto original infernalis; Vulgata e Beza leem “fogo eterno”] preparado para o demônio e seus anjos.”).
XI. O lugar preparado para os condenados é o inferno.
XII. A localização do inferno é um assunto que não pode ser conhecido pela experiência, nem é alcançado pela inquirição.
XIII. É suficiente notar que na Escritura ele é chamado de gehenna (Mt 5:22); “fornalha de fogo” (Mt 13:42); um lugar de tormento (Lc 16:23); “uma prisão” (1 Pe 3:19); “poço do abismo” (Ap 9:1); “o lago de fogo” (Ap 20:15); “lago que arde com fogo e enxofre” (Ap 21:8).
XIV. Os pontos que necessitam de consideração são a multiplicidade, a severidade e a eternidade das punições.
XV. A multiplicidade é óbvia, porque serão tormentos tanto espirituais como físicos.
XVI. As principais punições espirituais será o verme da consciência que não morre (Is 66:24), e seguindo a isto, as extremas e indescritíveis tribulações e aflições (Rm 2:9).
XVII. As punições físicas são chamadas “fogo inextinguível” (Mt 13:42; Ap 20:15); nesta vida não há maior sentimento de sofrimento [do que queimar].
XVIII. A severidade da punição é apresentada pelo lamento e ranger de dentes (Mt 22:13); estes são evidências do mais alto grau de dor e sofrimento.
XIX. Este sofrimento é eterno, de modo que, o réprobo não tem expectativa aonde olhar. (Lc 16:26: “Está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que querem passar daqui para vós outros não podem, nem os de lá passar para nós.” Ap 14:11: “A fumaça do seu tormento sobe pelos séculos dos séculos”).
XX. O absurdo ensino dos papistas acerca do limbo das crianças, dos pais e acerca do purgatório estão baseados nos sonhos dos poetas pagãos, não têm sentido e nem são dignos de especial refutação.
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segunda-feira, 15 de maio de 2017
domingo, 26 de março de 2017
O pecado atual - Johannes Wollebius
(I)
Do mesmo modo que o pecado original. O pecado atual é algo que viola a lei de Deus no pensamento, desejo, palavra e ações.
PROPOSIÇÕES
I. O pecado tem diversas formas por causa da variedade de circunstâncias.
II. O pecado pode ser, dependendo de quem o comete [ex causa efficiens], tanto pessoas públicas ou privadas, e de pessoas dado maior ou menor grau de importância.
III. Ele pode ser, dependendo da causa material, em pensamento, desejo, palavra, ou ação.
IV. Ele é, dependendo da causa formal, tanto de omissão como de comissão.
V. Ele é, dependendo da causa final, tanto por impulso como de paixão, ou um pecado contra a consciência; assim, ele pode ser o resultado da natureza má em vez de uma fraqueza, ou da fraqueza e não da natureza má.[1]
VI. Ele é, dependendo do sujeito, um pecado do corpo ou da alma, ou de ambos.
VII. Ele é, dependendo do objeto, cometido contra Deus, ou contra o próximo.
VIII. Se contra Deus, ele é praticado com parte da vontade, ou com toda a vontade. O último a Escritura chama de “o pecado contra o Espírito Santo” e “pecado para morte” (Mt 12:32; 1 Jo 5:16).
IX. O pecado contra o Espírito Santo, ou pecado para morte, é cometido quando alguém que é convencido em sua consciência pelo testemunho do Espírito Santo, e mesmo assim, por assim dizer, levanta a sua cabeça contra ele com ódio, perversidade e orgulho.[2]
X. O pecado contra homens prejudica tanto a superiores, inferiores, ou iguais, pessoas vinculadas [ao pecador] sejam mais próximos, ou de distantes graus de parentesco, afinidade, etc.
XI. Dependendo das circunstâncias [ex adiunctis] o pecado pode ser em si [per se], ou per accidens. Um exemplo de pecado per accidens é o escândalo em relação as ações que são indiferentes em si (Rm 14).
XII. Nenhum pecado é por natureza tão pequeno [veniale seu tam leve] que não mereça condenação. Isto significa a rejeição do erro dos papistas, que ensinam que alguns pecados são veniais. A razão é esclarecida a partir do objeto e efeito; não há pecado no qual o crime contra a divina e infinita majestade de Deus não seja afetada.
XIII. Mas de fato todos os pecados podem ser perdoados pelo mérito e graça de Cristo, exceto a incredulidade final [infidelitas finalis], e o pecado contra o Espírito Santo. Não é uma questão destes últimos serem mais poderosos do que o mérito e graça de Cristo. Eles são rejeições deste mérito e graça com o seu desprezo.
XIV. O julgamento concernente a relativa seriedade [de gradibus] dos outros pecados precisam ser feitos sobre a base das circunstâncias, em consideração do que eles podem ser avaliados, como mais ou menos graves. Por exemplo, um pecado é mais grave se cometido por uma pessoa de alto grau, mais do que cometido por uma pessoa de baixa posição. “Quanto mais atraente é o crime em si, maior a culpa do criminoso.” Um pecado premeditado é mais grave do que quando meramente pensado, e o de palavra e ação é mais grave do que o praticado em pensamento e desejo. Um pecado deliberado é pior do que um de omissão da mesma ordem. Um pecado contra Deus é pior do que o que é cometido contra o próximo. Um pecado cometido em relação a quem temos razões para sermos contidos do pecado, é mais grave do que se cometido em relação qualquer um; por exemplo, um pecado contra os pais é mais grave do que um da mesma ordem contra um irmão. Um mau exemplo [scandalum] é mais grave quando diante dos jovens do quando o praticamos em relação aos adultos.[3 ]
NOTAS:
[1] Alexander Ross traduz: “Quanto ao fim; ele é tanto da incoerência, ou da afeição, e contra a consciência; e pode ser malícia, e não uma enfermidade; ou o contrário, uma enfermidade, e não malícia.” The Abridgment of Christian Divinity, p. 83.
[2] F. Turrentin também (Locus IX, Questão XIV.3) enfatiza que o pecado para morte precisa ser mais do que ausência de arrependimento final “porque todos os réprobos morrem no final impenitentes, mas de nem todos pode ser afirmado terem pecado contra o Espírito Santo.”
[3] Aqui há base para a casuística que é tão importante na Theologia Practica de Voetius.
Do mesmo modo que o pecado original. O pecado atual é algo que viola a lei de Deus no pensamento, desejo, palavra e ações.
PROPOSIÇÕES
I. O pecado tem diversas formas por causa da variedade de circunstâncias.
II. O pecado pode ser, dependendo de quem o comete [ex causa efficiens], tanto pessoas públicas ou privadas, e de pessoas dado maior ou menor grau de importância.
III. Ele pode ser, dependendo da causa material, em pensamento, desejo, palavra, ou ação.
IV. Ele é, dependendo da causa formal, tanto de omissão como de comissão.
V. Ele é, dependendo da causa final, tanto por impulso como de paixão, ou um pecado contra a consciência; assim, ele pode ser o resultado da natureza má em vez de uma fraqueza, ou da fraqueza e não da natureza má.[1]
VI. Ele é, dependendo do sujeito, um pecado do corpo ou da alma, ou de ambos.
VII. Ele é, dependendo do objeto, cometido contra Deus, ou contra o próximo.
VIII. Se contra Deus, ele é praticado com parte da vontade, ou com toda a vontade. O último a Escritura chama de “o pecado contra o Espírito Santo” e “pecado para morte” (Mt 12:32; 1 Jo 5:16).
IX. O pecado contra o Espírito Santo, ou pecado para morte, é cometido quando alguém que é convencido em sua consciência pelo testemunho do Espírito Santo, e mesmo assim, por assim dizer, levanta a sua cabeça contra ele com ódio, perversidade e orgulho.[2]
X. O pecado contra homens prejudica tanto a superiores, inferiores, ou iguais, pessoas vinculadas [ao pecador] sejam mais próximos, ou de distantes graus de parentesco, afinidade, etc.
XI. Dependendo das circunstâncias [ex adiunctis] o pecado pode ser em si [per se], ou per accidens. Um exemplo de pecado per accidens é o escândalo em relação as ações que são indiferentes em si (Rm 14).
XII. Nenhum pecado é por natureza tão pequeno [veniale seu tam leve] que não mereça condenação. Isto significa a rejeição do erro dos papistas, que ensinam que alguns pecados são veniais. A razão é esclarecida a partir do objeto e efeito; não há pecado no qual o crime contra a divina e infinita majestade de Deus não seja afetada.
XIII. Mas de fato todos os pecados podem ser perdoados pelo mérito e graça de Cristo, exceto a incredulidade final [infidelitas finalis], e o pecado contra o Espírito Santo. Não é uma questão destes últimos serem mais poderosos do que o mérito e graça de Cristo. Eles são rejeições deste mérito e graça com o seu desprezo.
XIV. O julgamento concernente a relativa seriedade [de gradibus] dos outros pecados precisam ser feitos sobre a base das circunstâncias, em consideração do que eles podem ser avaliados, como mais ou menos graves. Por exemplo, um pecado é mais grave se cometido por uma pessoa de alto grau, mais do que cometido por uma pessoa de baixa posição. “Quanto mais atraente é o crime em si, maior a culpa do criminoso.” Um pecado premeditado é mais grave do que quando meramente pensado, e o de palavra e ação é mais grave do que o praticado em pensamento e desejo. Um pecado deliberado é pior do que um de omissão da mesma ordem. Um pecado contra Deus é pior do que o que é cometido contra o próximo. Um pecado cometido em relação a quem temos razões para sermos contidos do pecado, é mais grave do que se cometido em relação qualquer um; por exemplo, um pecado contra os pais é mais grave do que um da mesma ordem contra um irmão. Um mau exemplo [scandalum] é mais grave quando diante dos jovens do quando o praticamos em relação aos adultos.[3 ]
NOTAS:
[1] Alexander Ross traduz: “Quanto ao fim; ele é tanto da incoerência, ou da afeição, e contra a consciência; e pode ser malícia, e não uma enfermidade; ou o contrário, uma enfermidade, e não malícia.” The Abridgment of Christian Divinity, p. 83.
[2] F. Turrentin também (Locus IX, Questão XIV.3) enfatiza que o pecado para morte precisa ser mais do que ausência de arrependimento final “porque todos os réprobos morrem no final impenitentes, mas de nem todos pode ser afirmado terem pecado contra o Espírito Santo.”
[3] Aqui há base para a casuística que é tão importante na Theologia Practica de Voetius.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2017
O pecado original e o livre arbítrio
(I)
1. O pecado resultante do primeiro pecado é tanto original como atual.
2. Pecado original é um mal inato de toda humanidade, enxertada em todos que descendem de Adão, por causa da culpa [reatus] do primeiro pecado, pelo qual a liberdade para o bem foi completamente perdida [penitus] e a emergência de uma inclinação para fazer o mal.
PROPOSIÇÕES
I. Na Escritura este pecado é chamado o pecado par excellence, e também “o corpo do pecado” (Rm 6:6), “pecado ... tornando pecaminoso” (Rm 7:13), “pecado que habita” (Rm 7:17), “a lei dos membros” (Rm 7:23), “o velho homem” (Rm 6:6), e “a carne” (Jo 3:6; Gl 5:17).
II. Ele também é chamado de concupiscência. Rm 7:7: “eu poderia não ter conhecido a concupiscência, se a lei não tivesse dito: ‘não cobiçarás’”.
III. Os papistas estão errados quando removem a concupiscência da lista dos pecados, e adicionam-na as obras de Deus. Pelo nome de concupiscência pode significar outra faculdade natural de desejo, que esteve no homem antes da queda, ou o mal aderindo a esta faculdade, que está ali pelo seu primeiro ato, e pelo qual ela está inclinada para o mal.
IV. A causa aproximada do pecado original é a culpa [reatus] do primeiro pecado, com respeito a ele é justa a punição infligida por Deus, e de fato, parte da morte que Deus advertiu ao homem.
V. Embora a alma humana é soprada [na pessoa] diretamente por Deus, entretanto, desde o primeiro momento estando unido ao corpo, ela é culpada do primeiro pecado, que é imputado a toda raça humana, e por isso é corrompida por aquela pecaminosidade.
VI. O fato dela ser praticada de forma voluntária e consciente, não impede que o pecado original seja pecado. Certo de que a vontade esteja completamente ausente, no entanto, que a ilegalidade esteja em nossa natureza é suficiente [para cometermos pecado].
VII. Nenhum ser humano, nem mesmo a virgem Maria, está livre do pecado original (somente Cristo foi exceção), nem afeta as crianças meramente, mas também aqueles que ainda não nasceram, e ele cresce, como a ganância nos descendentes dos lobos. Sl 51:5 “porque em pecado me concebeu minha mãe”. 2 Co 5:21 “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós”.
VIII. O pecado original consiste não somente na inabilidade para fazer o bem, mas também de uma tendência [proclivitas] para o mal; não é uma mera perda do bem que foi recebido originalmente, mas também a adição do mal correspondente.
IX. Por causa do pecado original a bondade natural é corrompida, e a bondade sobrenatural está completamente [penitus] perdida.
X. Entretanto, subsiste o intelecto, mas ele está confuso; e a vontade que perdeu a sua retidão; e os desejos inferiores que estão totalmente corrompidos.
XI. O homem não redimido mesmo em assuntos naturais e civis é capaz de fazer o bem apenas por graça especial.
XII. Sem esta graça especial de Deus, nada significante é realizado pelos pagãos [gentiles].
XIII. Tudo o que eles são capazes de realizar está tão misturado com multiforme futilidade, que as suas maiores virtudes são simplesmente esplêndidos pecados [splendida peccata] diante de Deus.
XIV. Boas obras não são apenas ações que são boas em si mesmas, mas ações que são realizadas pelos motivos corretos. A frase “boas obras” podem ser usadas em sentido unívoco e equívoco. Ela é usada em sentido unívoco quando as ações são boas simplesmente com respeito a todas as circunstâncias, mas ela é equivocadamente quando as ações são boas em si mesmas, mas corrompidas em relação ao objeto, ou sujeito, ou meios, ou ainda o propósito. Se examinar-se do propósito das ações dos pagãos, será evidente que eles são preocupados com a sua própria glória, e não com a que pertence a Deus.
XV. Embora as paixões dos réprobos são restringidas por Deus como um freio, eles não fazem tudo o que são capazes.
XVI. Os dons sobrenaturais, chamados de iluminação do intelecto, retidão da vontade e a conformidade da paixão da razão, estão completamente perdidos.
XVII. Assim, em assuntos espirituais, o homem em si não possui nenhum princípio de conhecimento ou ação, nem um sólido fato ou possibilidade.
XVIII. Embora há quem atribua aos não redimidos algum livre arbítrio, ou outros poderes pelos quais poderiam fazer o bem, ou preparar-se para a conversão e a graça de Deus, estão buscando uma casa em cinzas. Este é o erro dos pelagianos e dos semipelagianos.
XIX. A vontade permanece livre da coerção, mas não livre de escolher entre o bem e o mal.
XX. A vontade se tornou tão má [factum est ad malum] que ela seria melhor descrita como escrava do que como livre. No que diz respeito ao intelecto “o homem natural não pode entender as coisas concernentes ao Espírito de Deus” (1 Co 2:14). Bem como a vontade “a imaginação do coração do homem é má” (Gn 8:21). E por fim, a Escritura declara que o homem perdeu completamente a vida espiritual, estando “morto em pecado” (Ef 2:1).
XXI. Quando este pecado é perdoado aos pais piedosos, de modo algum é repassado por geração aos seus filhos.
Pois a mancha não está completamente retirada pelo perdão, apesar da culpa ser removida. O dom da fé não é dado pela geração, mas pela regeneração, assim o homem gera um homem não como regenerado, mas simplesmente como um homem, do mesmo modo que uma semente limpa das arestas, palha e casca, ainda produzirá quando crescer.
Tradução de Rev. Ewerton B. Tokashiki
Extraído de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin(Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp. 69-71.
1. O pecado resultante do primeiro pecado é tanto original como atual.
2. Pecado original é um mal inato de toda humanidade, enxertada em todos que descendem de Adão, por causa da culpa [reatus] do primeiro pecado, pelo qual a liberdade para o bem foi completamente perdida [penitus] e a emergência de uma inclinação para fazer o mal.
PROPOSIÇÕES
I. Na Escritura este pecado é chamado o pecado par excellence, e também “o corpo do pecado” (Rm 6:6), “pecado ... tornando pecaminoso” (Rm 7:13), “pecado que habita” (Rm 7:17), “a lei dos membros” (Rm 7:23), “o velho homem” (Rm 6:6), e “a carne” (Jo 3:6; Gl 5:17).
II. Ele também é chamado de concupiscência. Rm 7:7: “eu poderia não ter conhecido a concupiscência, se a lei não tivesse dito: ‘não cobiçarás’”.
III. Os papistas estão errados quando removem a concupiscência da lista dos pecados, e adicionam-na as obras de Deus. Pelo nome de concupiscência pode significar outra faculdade natural de desejo, que esteve no homem antes da queda, ou o mal aderindo a esta faculdade, que está ali pelo seu primeiro ato, e pelo qual ela está inclinada para o mal.
IV. A causa aproximada do pecado original é a culpa [reatus] do primeiro pecado, com respeito a ele é justa a punição infligida por Deus, e de fato, parte da morte que Deus advertiu ao homem.
V. Embora a alma humana é soprada [na pessoa] diretamente por Deus, entretanto, desde o primeiro momento estando unido ao corpo, ela é culpada do primeiro pecado, que é imputado a toda raça humana, e por isso é corrompida por aquela pecaminosidade.
VI. O fato dela ser praticada de forma voluntária e consciente, não impede que o pecado original seja pecado. Certo de que a vontade esteja completamente ausente, no entanto, que a ilegalidade esteja em nossa natureza é suficiente [para cometermos pecado].
VII. Nenhum ser humano, nem mesmo a virgem Maria, está livre do pecado original (somente Cristo foi exceção), nem afeta as crianças meramente, mas também aqueles que ainda não nasceram, e ele cresce, como a ganância nos descendentes dos lobos. Sl 51:5 “porque em pecado me concebeu minha mãe”. 2 Co 5:21 “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós”.
VIII. O pecado original consiste não somente na inabilidade para fazer o bem, mas também de uma tendência [proclivitas] para o mal; não é uma mera perda do bem que foi recebido originalmente, mas também a adição do mal correspondente.
IX. Por causa do pecado original a bondade natural é corrompida, e a bondade sobrenatural está completamente [penitus] perdida.
X. Entretanto, subsiste o intelecto, mas ele está confuso; e a vontade que perdeu a sua retidão; e os desejos inferiores que estão totalmente corrompidos.
XI. O homem não redimido mesmo em assuntos naturais e civis é capaz de fazer o bem apenas por graça especial.
XII. Sem esta graça especial de Deus, nada significante é realizado pelos pagãos [gentiles].
XIII. Tudo o que eles são capazes de realizar está tão misturado com multiforme futilidade, que as suas maiores virtudes são simplesmente esplêndidos pecados [splendida peccata] diante de Deus.
XIV. Boas obras não são apenas ações que são boas em si mesmas, mas ações que são realizadas pelos motivos corretos. A frase “boas obras” podem ser usadas em sentido unívoco e equívoco. Ela é usada em sentido unívoco quando as ações são boas simplesmente com respeito a todas as circunstâncias, mas ela é equivocadamente quando as ações são boas em si mesmas, mas corrompidas em relação ao objeto, ou sujeito, ou meios, ou ainda o propósito. Se examinar-se do propósito das ações dos pagãos, será evidente que eles são preocupados com a sua própria glória, e não com a que pertence a Deus.
XV. Embora as paixões dos réprobos são restringidas por Deus como um freio, eles não fazem tudo o que são capazes.
XVI. Os dons sobrenaturais, chamados de iluminação do intelecto, retidão da vontade e a conformidade da paixão da razão, estão completamente perdidos.
XVII. Assim, em assuntos espirituais, o homem em si não possui nenhum princípio de conhecimento ou ação, nem um sólido fato ou possibilidade.
XVIII. Embora há quem atribua aos não redimidos algum livre arbítrio, ou outros poderes pelos quais poderiam fazer o bem, ou preparar-se para a conversão e a graça de Deus, estão buscando uma casa em cinzas. Este é o erro dos pelagianos e dos semipelagianos.
XIX. A vontade permanece livre da coerção, mas não livre de escolher entre o bem e o mal.
XX. A vontade se tornou tão má [factum est ad malum] que ela seria melhor descrita como escrava do que como livre. No que diz respeito ao intelecto “o homem natural não pode entender as coisas concernentes ao Espírito de Deus” (1 Co 2:14). Bem como a vontade “a imaginação do coração do homem é má” (Gn 8:21). E por fim, a Escritura declara que o homem perdeu completamente a vida espiritual, estando “morto em pecado” (Ef 2:1).
XXI. Quando este pecado é perdoado aos pais piedosos, de modo algum é repassado por geração aos seus filhos.
Pois a mancha não está completamente retirada pelo perdão, apesar da culpa ser removida. O dom da fé não é dado pela geração, mas pela regeneração, assim o homem gera um homem não como regenerado, mas simplesmente como um homem, do mesmo modo que uma semente limpa das arestas, palha e casca, ainda produzirá quando crescer.
Tradução de Rev. Ewerton B. Tokashiki
Extraído de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin(Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp. 69-71.
quarta-feira, 18 de maio de 2016
A queda dos primeiros pais e o início do sofrimento humano - Johanes Wollebius
(I)
1. Muito do governo de Deus sobre o ser humano se estabelece no estado de inocência. O seu governo sobre eles no estado de miséria significa que Deus, pelo justo juízo, sujeita o homem, a quem pelo seu próprio ato caiu em pecado, para várias penalidades.
2. Entretanto, este estado consiste do pecado, e do sofrimento como um resultado do pecado.
3. Pecado é transgressão da lei, ou algo contrário a lei divina (1 Jo 3:4). Neste ponto, por “lei” entende-se tanto os mandamentos como as proibições primeiramente entregues ao homem, e a lei da natureza escrita em seu coração. Anteriormente, no devido lugar, falaremos da restauração e extensão da lei após a queda.
PROPOSIÇÕES
I. A palavra “pecado” é usada tanto concretamente, do assunto sem lei com a sua ilegalidade, como abstratamente, da simples ilegalidade.
II. A definição de pecado é pelo que se pensa, diz e faz é também restrita. De tal maneira os papistas a definem; como aparecerá abaixo, esta definição não cobre o pecado original.
III. Deus não pode, sem blasfêmia, ser chamado o autor do pecado.
IV. Não há razão de por que o mesmo ato, de diferentes perspectivas, não pode ser tanto um pecado e uma punição do pecado.
(2)
1. Pecado é tanto o primeiro pecado ou o resultado dele.
2. Este primeiro pecado é a desobediência dos primeiros pais, pelo qual eles transgrediram a proibição de Deus acerca da árvore do conhecimento do bem e do mal.
PROPOSIÇÕES
I. A causa da transgressão de Adão e Eva não foi Deus, nem um decreto de Deus, nem a anulação de alguma graça especial, nem a permissão da queda, nem qualquer motivo incitado naturalmente, nem o governo providencial da própria queda. Ela não foi Deus, porque ele tinha estritamente proibido o comer do fruto daquela árvore. Ela não foi o seu decreto, porque este conduz somente a uma imutável e para uma coerciva necessidade, nem induz ninguém a pecar. Ela não foi a anulação de alguma graça especial, porque o homem poderia ter se preservado inocente, pois não havia obrigação de dar nem mesmo a graça que Deus deu ao homem; de fato, ele recebeu a habilidade de agir como ele quisesse, apesar de não tê-lo disposto como poderia. Ele não foi incitado por algum motivo natural, pois um motivo em si não era pecado. Ele não foi o governo providencial da queda, pois trazer o bom do mal é ser a fonte do bem antes do que do mal.
II. Deus tanto quis, como não realizou o primeiro pecado. Ele não quis, a medida em que é pecado, mas ele quis a medida em que ele signifique a revelação de sua glória, misericórdia e justiça.
III. A causa imediata do pecado original foi a instigação e persuasão da antiga serpente, o demônio.
IV. A causa antecedente foi a vontade do homem, a qual por si era indiferente em relação ao bem ou mal, mas, quando convencido por Satanás, ela se voltou para o mal.
V. Há cinco estágios da queda, pelos quais o homem caiu de Deus um passo por vez, e não de uma vez: (1) Irrefletida e intrometidamente quando Eva conversou com a serpente na ausência de seu marido; (2) incredulidade, que pouco a pouco ela começou a concordar com as mentiras de Satanás, quem atribuiu dúvida sobre a bondade de Deus em relação ao homem, de modo que ela desconfiou de Deus; (3) desejo pelo fruto proibido e pela glória divina; (4) o próprio ato; (5) a tentação de Adão e também o despertamento nele de um desejo indisciplinado.
VI. Se todos os aspectos [pars] deste pecado forem levados em conta, então, é corretamente ele chamado de transgressão de toda a lei natural. O homem pecou por incredulidade, desconfiança, ingratidão e idolatria, bem como ele deixou Deus, e fez para si um ídolo. Ele também pecou ao desprezar a palavra de Deus, por rebelião, homicídio e descontrole por acatar secretamente aquilo que não tinha a permissão de Deus, por concordar com falsas declarações, e finalmente por desejar uma maior dignidade, de fato, uma dignidade que pertence somente a Deus. Todavia, onde a lei natural é limitada para uma definição que chame este pecado de intemperança, ambição ou orgulho.
VII. Corretamente, entretanto, com o bendito apóstolo, chamamos este pecado de “transgressão”, “crime” e “desobediência” (Rm 5:14, 18-19).
VIII. Neste caso, Adão precisava entender não somente como indivíduo particular, mas também em sua capacidade pública [ut publica persona], e assim, como pai de toda a raça humana, e seu cabeça e raiz.
IX. Portanto, tanto faz se ele perdeu ou ganhou, ele ganhou e perdei para si, bem como para toda a sua posteridade. Assim como o cabeça de uma família negocia tanto sobre o seu favor e dos outros membros, e um nobre pode perder ou preservar os seus privilégios como os de sua posteridade, do mesmo modo, Adão perdeu esta sua felicidade e de sua posteridade. Como de uma raiz envenenada nada saudável pode germinar, assim são naturalmente os que descendem de Adão, nascem sob os efeitos deste pecado.
X. Portanto, este pecado não é apenas pessoal, mas também natural. De fato, toda a natureza foi corrompida por ele, pelo mesmo fato que a posteridade de Adão – que é, toda naturalmente descendente de Adão – está presa. Então, Cristo é exceção desta culpa. Ele nasceu de Adão, mas não através de Adão; não por geração natural, mas pelo poder do Espírito Santo.
XI. Portanto, como uma pessoa corrompeu a natureza, agora a natureza corrompe as pessoas.
XII. Nós piamente cremos que os nossos primeiros pais foram recebidos em graça por Deus.
Tradução de Rev. Ewerton B. Tokashiki
Extraído de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin(Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp.66-68.
1. Muito do governo de Deus sobre o ser humano se estabelece no estado de inocência. O seu governo sobre eles no estado de miséria significa que Deus, pelo justo juízo, sujeita o homem, a quem pelo seu próprio ato caiu em pecado, para várias penalidades.
2. Entretanto, este estado consiste do pecado, e do sofrimento como um resultado do pecado.
3. Pecado é transgressão da lei, ou algo contrário a lei divina (1 Jo 3:4). Neste ponto, por “lei” entende-se tanto os mandamentos como as proibições primeiramente entregues ao homem, e a lei da natureza escrita em seu coração. Anteriormente, no devido lugar, falaremos da restauração e extensão da lei após a queda.
PROPOSIÇÕES
I. A palavra “pecado” é usada tanto concretamente, do assunto sem lei com a sua ilegalidade, como abstratamente, da simples ilegalidade.
II. A definição de pecado é pelo que se pensa, diz e faz é também restrita. De tal maneira os papistas a definem; como aparecerá abaixo, esta definição não cobre o pecado original.
III. Deus não pode, sem blasfêmia, ser chamado o autor do pecado.
IV. Não há razão de por que o mesmo ato, de diferentes perspectivas, não pode ser tanto um pecado e uma punição do pecado.
(2)
1. Pecado é tanto o primeiro pecado ou o resultado dele.
2. Este primeiro pecado é a desobediência dos primeiros pais, pelo qual eles transgrediram a proibição de Deus acerca da árvore do conhecimento do bem e do mal.
PROPOSIÇÕES
I. A causa da transgressão de Adão e Eva não foi Deus, nem um decreto de Deus, nem a anulação de alguma graça especial, nem a permissão da queda, nem qualquer motivo incitado naturalmente, nem o governo providencial da própria queda. Ela não foi Deus, porque ele tinha estritamente proibido o comer do fruto daquela árvore. Ela não foi o seu decreto, porque este conduz somente a uma imutável e para uma coerciva necessidade, nem induz ninguém a pecar. Ela não foi a anulação de alguma graça especial, porque o homem poderia ter se preservado inocente, pois não havia obrigação de dar nem mesmo a graça que Deus deu ao homem; de fato, ele recebeu a habilidade de agir como ele quisesse, apesar de não tê-lo disposto como poderia. Ele não foi incitado por algum motivo natural, pois um motivo em si não era pecado. Ele não foi o governo providencial da queda, pois trazer o bom do mal é ser a fonte do bem antes do que do mal.
II. Deus tanto quis, como não realizou o primeiro pecado. Ele não quis, a medida em que é pecado, mas ele quis a medida em que ele signifique a revelação de sua glória, misericórdia e justiça.
III. A causa imediata do pecado original foi a instigação e persuasão da antiga serpente, o demônio.
IV. A causa antecedente foi a vontade do homem, a qual por si era indiferente em relação ao bem ou mal, mas, quando convencido por Satanás, ela se voltou para o mal.
V. Há cinco estágios da queda, pelos quais o homem caiu de Deus um passo por vez, e não de uma vez: (1) Irrefletida e intrometidamente quando Eva conversou com a serpente na ausência de seu marido; (2) incredulidade, que pouco a pouco ela começou a concordar com as mentiras de Satanás, quem atribuiu dúvida sobre a bondade de Deus em relação ao homem, de modo que ela desconfiou de Deus; (3) desejo pelo fruto proibido e pela glória divina; (4) o próprio ato; (5) a tentação de Adão e também o despertamento nele de um desejo indisciplinado.
VI. Se todos os aspectos [pars] deste pecado forem levados em conta, então, é corretamente ele chamado de transgressão de toda a lei natural. O homem pecou por incredulidade, desconfiança, ingratidão e idolatria, bem como ele deixou Deus, e fez para si um ídolo. Ele também pecou ao desprezar a palavra de Deus, por rebelião, homicídio e descontrole por acatar secretamente aquilo que não tinha a permissão de Deus, por concordar com falsas declarações, e finalmente por desejar uma maior dignidade, de fato, uma dignidade que pertence somente a Deus. Todavia, onde a lei natural é limitada para uma definição que chame este pecado de intemperança, ambição ou orgulho.
VII. Corretamente, entretanto, com o bendito apóstolo, chamamos este pecado de “transgressão”, “crime” e “desobediência” (Rm 5:14, 18-19).
VIII. Neste caso, Adão precisava entender não somente como indivíduo particular, mas também em sua capacidade pública [ut publica persona], e assim, como pai de toda a raça humana, e seu cabeça e raiz.
IX. Portanto, tanto faz se ele perdeu ou ganhou, ele ganhou e perdei para si, bem como para toda a sua posteridade. Assim como o cabeça de uma família negocia tanto sobre o seu favor e dos outros membros, e um nobre pode perder ou preservar os seus privilégios como os de sua posteridade, do mesmo modo, Adão perdeu esta sua felicidade e de sua posteridade. Como de uma raiz envenenada nada saudável pode germinar, assim são naturalmente os que descendem de Adão, nascem sob os efeitos deste pecado.
X. Portanto, este pecado não é apenas pessoal, mas também natural. De fato, toda a natureza foi corrompida por ele, pelo mesmo fato que a posteridade de Adão – que é, toda naturalmente descendente de Adão – está presa. Então, Cristo é exceção desta culpa. Ele nasceu de Adão, mas não através de Adão; não por geração natural, mas pelo poder do Espírito Santo.
XI. Portanto, como uma pessoa corrompeu a natureza, agora a natureza corrompe as pessoas.
XII. Nós piamente cremos que os nossos primeiros pais foram recebidos em graça por Deus.
Tradução de Rev. Ewerton B. Tokashiki
Extraído de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin(Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp.66-68.
sexta-feira, 1 de abril de 2016
O governo de Deus sobre os homens no estado de inocência
(1)
1. Tal é o governo de Deus sobre os anjos. O seu governo sobre os seres humanos é evidente no estado de inocência e mistério, e finalmente no estado de glória e graça.
2. O seu governo sobre os homens num estado de inocência consistiu de dar um pacto das obras para eles, pelo qual, sob a condição de obediência, ele prometeu felicidade eterna, e advertiu a desobediência com morte.
I. O pacto de Deus com o homem é duplo, tanto um pacto de obras como de graça:[1] o primeiro antes da queda e o segundo após ela.
II. O pacto das obras foi confirmado por um duplo sacramento: a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal, e ambas estavam localizadas no centro do paraíso.
III. O seu propósito era duplo: (1) que a obediência do homem pudesse ser posta à prova, através de comer ou abstendo-se delas; (2) que o primeiro pudesse significar felicidade eterna se eles obedecessem, e o segundo, a perda do sumo bem e a vinda de um mal maior se eles que desobedecessem.
IV. Embora a árvore da vida é assim chamada por seu significado sacramental, não porque estivesse nela o poder de conceder a vida.
V. Semelhantemente, a árvore do conhecimento do bem e do mal tinha o seu nome porque ela significa o mais alto bem e mal, e por causa do evento associado a ela. Por meio dela o homem aprendeu como o bem se perdeu, e que mal lhe sobreveio.
VI. A felicidade do homem, enquanto sem pecado, descansava principalmente na imagem de Deus.
VII. O assunto da divina imagem é primariamente a alma, e secundariamente o corpo, de modo que a alma se expressa por meio do corpo.
VIII. Os dons da imagem de Deus foram parcialmente naturais e parcialmente sobrenaturais.
IX. Os dons naturais eram: a substância simples e invisível da alma e as suas faculdades, intelecto e vontade.
X. Os dons sobrenaturais eram: clareza de intelecto, liberdade e retidão da vontade, conformidade [com a razão] sobre a parte da pessoa completa [homo] e domínio sobre as criaturas inferiores.
XI. O intelecto do primeiro homem era tão claro que ele conhecia todas as verdades naturais [naturalia] que poderiam ser conhecidas por meios da auto-evidência dos primeiros princípios. Adão provê uma excelente ilustração desta espécie de conhecimento quando ele nomeia a todas as criaturas de acordo com a sua natureza (Gn 2:20).
XII. O livre arbítrio [no estado de inocência] era indiferente quanto ao bem e mal, de modo que o homem poderia permanecer no estado sem pecado, se ele assim decidisse; ele recebeu a habilidade de agir conforme ele quisesse, mas não decidiu de acordo com esta possibilidade [accipit posse, si vellet, non autem vele ut posset]. O livre arbítrio tem quatro modos, porque o estado do homem se desdobra em quatro momentos.[2] No primeiro homem a vontade era livre para o bem e o mal. No homem caído era livre somente para o mal. No homem regenerado, ou homem em estado de graça, a vontade é livre do mal e para o bem, pela graça de Deus, mas imperfeitamente. No estado de glória ela será perfeitamente livre do mal e para o bem. No estado de inocência o homem era capaz de não pecar [posse non peccare]. No estado de miséria ele não poderia fazer outra coisa senão pecar. No estado de graça o pecado não pode governar o homem. No estado de glória ele será plenamente incapaz para pecar.[3]
XIII. Os apetites inferiores e todas as paixões estavam em harmonia com a razão.
XIV. O primeiro homem era imortal.
XV. O senhorio original do homem sobre as criaturas inferiores não somente era completo, como também era tranquila e pacífica em seu uso.
XVI. Que o labor que era tarefa de Adão, em cuidar e cultivar o jardim, não era por pesar, mas era com muita satisfação.
NOTAS:
[1] Sobre a história deste conceito veja Gottlob Schrenk, Gottesreich u. Bund in ältern Protestantismus (Gütersloh, 1923). Tanto Cocceius como os Padrões de Westminster organizam a teologia sobre este princípio. A escola de Saumur diverge do pensamento da teologia reformada dos três pactos, um “legal” sendo interposto entre os dois aceitos. Nota de John W. Beardslee III.
[2] Aqui Wollebius claramente segue a interpretação de agostiniana do livre arbítrio. Ele ensinava que os quatro estágios da libertas naturae [liberdade da natureza], Richard A. Muller explica que “a liberdade que é própria de um ser dada a sua natureza particular”. Os quatro estados da libertas naturae são: 1) libertas Adami [liberdade de Adão]: “antes da queda - isto é a capacidade ou poder para não pecar”. 2) libertas peccatorum [liberdade de pecadores]: “uma liberdade que é própria e restrita aos limites da natureza caída e é, portanto, uma incapacidade absoluta de fazer o bem, ou para agir para o bem, sendo o pecador incapaz de não pecar”. 3) libertas fidelium [liberdade dos fiéis]: “a liberdade daqueles que são regenerados pelo Espírito Santo, que é próprio da natureza regenerada e, é caracterizada pela capacidade para o pecado e para fazer o bem”. 4) libertas gloriae [liberdade de glória]: “uma liberdade adequada à natureza redimida integralmente, que, como residentes do reino do céu estão agora caracterizados pela incapacidade para o pecado”. Em outras palavras, os quatro estados do homem em relação ao pecado enumerados por Agostinho de Hipona são: 1) no estado antes da queda, o homem era capaz de não pecar (posse non peccare); 2) após a queda, ele é incapaz de não pecar (non posse non peccare); 3) sendo regenerado ele se torna capaz de não pecar (non posse peccare); e 4) no estado de glorificação ele será incapaz de pecar (peccare non posse). Veja Richard A. Muller, Dictionary of Latin and Greek Theological Terms, p. 176. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[3] Thomas Boston escreveu o livro The Nature Human on Fourfould State (The Banner of Truth), que se tornou obra de referência sobre o assunto entre os puritanos. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
Traduzido de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin(Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp.64-66.
1. Tal é o governo de Deus sobre os anjos. O seu governo sobre os seres humanos é evidente no estado de inocência e mistério, e finalmente no estado de glória e graça.
2. O seu governo sobre os homens num estado de inocência consistiu de dar um pacto das obras para eles, pelo qual, sob a condição de obediência, ele prometeu felicidade eterna, e advertiu a desobediência com morte.
I. O pacto de Deus com o homem é duplo, tanto um pacto de obras como de graça:[1] o primeiro antes da queda e o segundo após ela.
II. O pacto das obras foi confirmado por um duplo sacramento: a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal, e ambas estavam localizadas no centro do paraíso.
III. O seu propósito era duplo: (1) que a obediência do homem pudesse ser posta à prova, através de comer ou abstendo-se delas; (2) que o primeiro pudesse significar felicidade eterna se eles obedecessem, e o segundo, a perda do sumo bem e a vinda de um mal maior se eles que desobedecessem.
IV. Embora a árvore da vida é assim chamada por seu significado sacramental, não porque estivesse nela o poder de conceder a vida.
V. Semelhantemente, a árvore do conhecimento do bem e do mal tinha o seu nome porque ela significa o mais alto bem e mal, e por causa do evento associado a ela. Por meio dela o homem aprendeu como o bem se perdeu, e que mal lhe sobreveio.
VI. A felicidade do homem, enquanto sem pecado, descansava principalmente na imagem de Deus.
VII. O assunto da divina imagem é primariamente a alma, e secundariamente o corpo, de modo que a alma se expressa por meio do corpo.
VIII. Os dons da imagem de Deus foram parcialmente naturais e parcialmente sobrenaturais.
IX. Os dons naturais eram: a substância simples e invisível da alma e as suas faculdades, intelecto e vontade.
X. Os dons sobrenaturais eram: clareza de intelecto, liberdade e retidão da vontade, conformidade [com a razão] sobre a parte da pessoa completa [homo] e domínio sobre as criaturas inferiores.
XI. O intelecto do primeiro homem era tão claro que ele conhecia todas as verdades naturais [naturalia] que poderiam ser conhecidas por meios da auto-evidência dos primeiros princípios. Adão provê uma excelente ilustração desta espécie de conhecimento quando ele nomeia a todas as criaturas de acordo com a sua natureza (Gn 2:20).
XII. O livre arbítrio [no estado de inocência] era indiferente quanto ao bem e mal, de modo que o homem poderia permanecer no estado sem pecado, se ele assim decidisse; ele recebeu a habilidade de agir conforme ele quisesse, mas não decidiu de acordo com esta possibilidade [accipit posse, si vellet, non autem vele ut posset]. O livre arbítrio tem quatro modos, porque o estado do homem se desdobra em quatro momentos.[2] No primeiro homem a vontade era livre para o bem e o mal. No homem caído era livre somente para o mal. No homem regenerado, ou homem em estado de graça, a vontade é livre do mal e para o bem, pela graça de Deus, mas imperfeitamente. No estado de glória ela será perfeitamente livre do mal e para o bem. No estado de inocência o homem era capaz de não pecar [posse non peccare]. No estado de miséria ele não poderia fazer outra coisa senão pecar. No estado de graça o pecado não pode governar o homem. No estado de glória ele será plenamente incapaz para pecar.[3]
XIII. Os apetites inferiores e todas as paixões estavam em harmonia com a razão.
XIV. O primeiro homem era imortal.
XV. O senhorio original do homem sobre as criaturas inferiores não somente era completo, como também era tranquila e pacífica em seu uso.
XVI. Que o labor que era tarefa de Adão, em cuidar e cultivar o jardim, não era por pesar, mas era com muita satisfação.
NOTAS:
[1] Sobre a história deste conceito veja Gottlob Schrenk, Gottesreich u. Bund in ältern Protestantismus (Gütersloh, 1923). Tanto Cocceius como os Padrões de Westminster organizam a teologia sobre este princípio. A escola de Saumur diverge do pensamento da teologia reformada dos três pactos, um “legal” sendo interposto entre os dois aceitos. Nota de John W. Beardslee III.
[2] Aqui Wollebius claramente segue a interpretação de agostiniana do livre arbítrio. Ele ensinava que os quatro estágios da libertas naturae [liberdade da natureza], Richard A. Muller explica que “a liberdade que é própria de um ser dada a sua natureza particular”. Os quatro estados da libertas naturae são: 1) libertas Adami [liberdade de Adão]: “antes da queda - isto é a capacidade ou poder para não pecar”. 2) libertas peccatorum [liberdade de pecadores]: “uma liberdade que é própria e restrita aos limites da natureza caída e é, portanto, uma incapacidade absoluta de fazer o bem, ou para agir para o bem, sendo o pecador incapaz de não pecar”. 3) libertas fidelium [liberdade dos fiéis]: “a liberdade daqueles que são regenerados pelo Espírito Santo, que é próprio da natureza regenerada e, é caracterizada pela capacidade para o pecado e para fazer o bem”. 4) libertas gloriae [liberdade de glória]: “uma liberdade adequada à natureza redimida integralmente, que, como residentes do reino do céu estão agora caracterizados pela incapacidade para o pecado”. Em outras palavras, os quatro estados do homem em relação ao pecado enumerados por Agostinho de Hipona são: 1) no estado antes da queda, o homem era capaz de não pecar (posse non peccare); 2) após a queda, ele é incapaz de não pecar (non posse non peccare); 3) sendo regenerado ele se torna capaz de não pecar (non posse peccare); e 4) no estado de glorificação ele será incapaz de pecar (peccare non posse). Veja Richard A. Muller, Dictionary of Latin and Greek Theological Terms, p. 176. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[3] Thomas Boston escreveu o livro The Nature Human on Fourfould State (The Banner of Truth), que se tornou obra de referência sobre o assunto entre os puritanos. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
Traduzido de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin(Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp.64-66.
sábado, 26 de março de 2016
A Criação - Johannes Wollebius
(1)
1. Temos descrito a internas obras de Deus. As externas são aquelas que recebem lugar fora da essência de Deus.
2. Elas são a criação e o governo das criaturas, ou a atual providência de Deus.
3. Criação é o ato pelo qual Deus fez o mundo e tudo o que nele existe, parcialmente do nada e parcialmente de material informe, a fim de revelar a glória do seu poder, sabedoria e bondade. O registro da criação está em Gn 1 e 2.
PROPOSIÇÕES
I. Criar significa não somente fazer algo do nada, mas também fazer alguma coisa além do poder da natureza, da matéria informe.
II. A obra e honra da criação não deveria ser atribuída a alguma criatura, nem mesmo aos anjos, senão somente à Deus.
III. Para as criaturas, mas não para o criador, criação é a transição da potência para o ato.
IV. Esta potência não é privada, mas negativa. A razão é que o material é da natureza informe para o que é feito com ela. Por exemplo, não existiu qualidade ou disposição no pó que poderia produzir o corpo humano, que foi formado de modo não natural e miraculoso a partir dele.
V. A criação do mundo nada adiciona à perfeição de Deus, nem mesmo ele fez alguma coisa boa para que pudesse resultar nalgum benefício para si; pelo contrário, ele o fez a fim de comunicar a sua bondade para as criaturas.
VI. A criação inclui tanto fazer espécies completas com todos os seus membros, como anjos, estrelas e elementos que foram criados de modo definitivo, e também em fazer espécies compostas de indivíduos dando-lhes o poder de reprodução.[1]
VII. Poderíamos levar os estudantes do mundo físico o problema de descrever a natureza de várias criaturas. Para nós é suficiente lista-los de acordo com os dias da criação.[2]
VIII. O primeiro dia da criação merece ser observado por três palavras:
1. A criação dos anjos e do mais alto céu, o céu dos benditos. A criação dos anjos não pode ser indicada por um outro dia além deste, quando Deus estabeleceu a terra, ele foi adorado por eles (Jó 38:7).
2. A criação da matéria deste mundo visível, que não era completamente sem forma, mas faltava-lhe perfeição, individualidade e beleza, o que foi gradualmente acrescentado.
3. A emissão da luz primordial, a qual existia nem de fogo elementar, nem céu brilhante, ou algum corpo, mas uma qualidade enviada na atmosfera [aer] de Deus, que é luz inacessível, e posteriormente, no quarto dia colocando as estrelas.[3]
IX. No segundo dia o firmamento [expansum], chamado atmosfera ou a atmosfera celestial [aer seu coelum aerum], que pela sua parte inferior separa as águas superiores, ou nuvens, do mais baixo, ou o mar, se fez.
X. Sobre o terceiro dia, Deus:
1. Separou as águas inferiores, que até então tinha separado a terra, e confinando-as em pequenas porções, de modo que a restante da terra, chamou de lugares secos, apareceu como uma habitação preparada para os homens e animais.
2. Ao criar as plantas e árvores, deu vegetais vivos à terra, que naquele momento não tinham semente ou sol.
XI. No quarto dia as estrelas e luminares foram colocados nos céus. O seu movimento não vem, como filósofos imaginam, de almas ou inteligências, mas de uma força divinamente implantada; nem a terra permanece sem movimento por alguma razão além de uma força implantada.
XII. O propósito das estrelas é triplo: (1) Distinguir o dia da noite. (2) Dar conhecimento da sucessão e estações do ano. (3) Comunicar energia na matéria da ordem inferior [communicatio virium in rebus inferioribus].[4]
XIII. No quinto dia foram criados pássaros, peixes e répteis.
XIV. No sexto dia, após trazer à existência o reino animal e fez o mundo, como ele era, uma espaçosa habitação abundantemente fornecida com todas as coisas, Deus fez os seres humanos.
(2)
A teologia promove entre estas criaturas especialmente os anjos e seres humanos, desde que Deus lhes concedeu à sua imagem neles.
PROPOSIÇÕES
I. Embora todo o universo é um espelho do divino poder, sabedoria e bondade, todavia, a imagem de Deus, propriamente dita, é uma qualidade apenas dos anjos e homens.
II. A imagem de Deus consiste parcialmente dos dons naturais – ou, a simples, invisível substância dos anjos e a alma humana, vida, intelecto, vontade e imortalidade; e parcialmente de algo sobrenatural – bem-aventurança original, retidão e majestade do intelecto e vontade, e majestade e domínio sobre outras criaturas.
(3)
Os anjos são espíritos inteligentes livres de um corpo.
PROPOSIÇÕES
I. Anjos não são qualidades ou acidentes, mas verdadeiros seres individuais.[5]
II. Anjos são livres de enfermidades físicas e morte.
III. Os corpos com que os anjos aparecem não são meros fantasmas, nem são eles hipostaticamente unidos com eles, mas eles são plenamente assumidos para enaltecer os serviços particulares.
IV. Anjos estão num lugar particular, não como se eles se limitassem a ele, mas para a exclusão de estar em qualquer outro lugar [non circumscriptive sed definitive].[6]
V. Anjos não podem estar em vários lugares ao mesmo tempo.
VI. Anjos se movem verdadeiramente de um lugar para o outro.
(4)
O homem é uma criatura composta de um corpo feito originalmente da terra, e desde então, reproduzido pela transmissão do sêmen, e habitado sobrenaturalmente por uma alma racional.
Não rejeitamos a definição usada pelos filósofos que dizem que o homem é um animal racional. Mas para o nosso propósito, o estudo da teologia, preferimos descrever o homem pela definição que foi dada.
PROPOSIÇÕES
I. Três miraculosas produções de um corpo humano estão registradas na Escritura. Primeiro, do barro da terra, sem pai ou mãe. Segundo, da costela de Adão, sem mãe. Terceiro, do sangue da virgem bendita, sem pai.
II. A alma humana não é reproduzida pela transmissão do sêmen, mas é colocada no corpo por criação imediata de Deus.[7] Acerca da criação do homem, Moisés escreve: “Deus soprou em suas narinas o fôlego da vida, e o homem se tornou alma vivente” (Gn 2:7). Neste texto três pontos são observados. Primeiro, a imediata criação da alma, que é chamada de “sopro de Deus”. Segundo, a ser é soprado. Terceiro, a hipostática união do corpo e da alma: “ele foi feito alma vivente” significa, por metonímia, que ele se tornou uma criatura animada. Os seguintes argumentos mostram que a alma é hoje tão criada do nada por Deus e soprada no indivíduo: (1) se isto não é verdadeiro, as nossas almas são diferentes daquela que Adão recebeu; as nossas seriam feitas de substância preexistente, enquanto a dele a partir do nada. Não há força para a objeção encontrada na diferença entre criação e geração, pois nada é gerado da matéria, exceto o que foi originalmente criado da matéria. (2) Pois a alma de Cristo não foi feita pela transmissão do sêmen, nem por alguma atividade de algum homem, mas por ter sido concebido através da ação do Espírito Santo, do sangue da bendita virgem. (3) A Escritura declara acerca da origem das nossas almas como uma obra da criação, e não da natureza. Jó 33:4: “O Espirito de Deus me fez, e o sopro do Altíssimo deu-me a vida”. Zc 12:1: “O Senhor estende os céus, estabelece a terra e forma o espírito do homem nele”. A partir disto está óbvio que é considerado uma obra da criação. (4) O fim de algo corresponde ao seu começo [talis cuisque genesis, qualis analysis]. Mas o fim do homem é que o corpo retorne ao pó e o espírito à Deus (Ec 12:7). Assim, na morte do homem o seu espírito retorna diretamente a Deus, não deixando dúvida de que ele é criado diretamente dele. (5) A Escritura nitidamente diferencia entre as esferas dos corpos e dos espíritos (Hb 12:9). (6) A alma é indivisível, e portanto, somente pode ser produzida a partir do nada. (7) Se ela foi gerada por transmissão, poderia ser gerada de outra alma, ou de outro corpo, ou de ambos juntos. Ela não é gerada da alma, pois nada é gerado do incorruptível, nem do corpo, pois ela não é corpórea. Nem é ela gerada do corpo e da alma juntos, pois então, seria parte corpóreo e incorpóreo. Portanto, desde que ela é produzida do nada, ela é criada somente por Deus, que é o único que pode fazer alguma coisa do nada.
III. O axioma científico “iguais geram iguais, e homem gera homem”, no entanto, sustenta este ponto porque homem gera homem, como uma pessoa gera uma pessoa, e porque o corpo é gerado pela ação de pais como o sujeito da alma, e está unida com uma alma fornecida por Deus, e finalmente, como uma pessoa completa vindo à existência pelo nascimento. Esta conclusão não enfraquecida pelo fato de que ela faz os pais somente parcialmente a origem de seu filho [homo causa efficiens sit hominis, sed non secundum omnes partes]. Assim como alguém disse matar um homem, de fato, ele matou apenas o corpo, assim como um homem gera um homem, embora ele não gera a alma. Nem é o homem quanto a isto menos honrado do que qualquer outra criatura viva, mesmo porque ele é o mais excelente dentro do conjunto do que Deus produziu em relação a natureza.
IV. A alma humana é imortal, não absolutamente como se Deus não pudesse aniquilá-la, mas pela instituição de Deus, e porque ela não pode ser destruída por causas secundárias.
V. As faculdades da alma são realmente [realiter] distintas da própria alma, como qualidades ou um peculiar acidente [proprium accidens] difere do sujeito. A razão é encontrada no resultado; quando as faculdades da alma são feridas a sua essência permanece.
VI. As faculdades da alma são tão puramente orgânicas como são as faculdades vegetativas e sensitivas, ou elas são tão parcial e temporariamente, como são inteligência e vontade. O primeiro não pode operar após a morte do corpo; o último tanto pode operar sem o auxílio do corpo, e continua a operar após o corpo destruído.
VII. Liberdade de coação é uma qualidade essencial da vontade. Caso contrário à vontade não poderia realizar atos da vontade.
NOTAS:
[1] Alexander Ross traduz: “Também a criação das espécies com todos os indivíduos; assim os anjos, estrelas, elementos foram criados juntos, ou das espécies com alguns somente indivíduos tendo um inato poder de propagação”. The Abridgment of Christian Divinity, p. 48. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[2] Alexander Ross traduz: “um mais particular conhecimento das criaturas nós deixamos para os filósofos naturalistas, que trabalhem sobre este assunto, ao manuseá-lo de acordo com a produção de cada dia”. The Abridgment of Christian Divinity, p. 48. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[3] As palavras aer, aether e atmosfera não são usadas em seu sentido moderno, nem com alguma percepção sobre a tradicional filosofia natural. Nota de John W. Beardslee III.
[4] Wollebius parece assumir a astronomia “Ptolemaica” (a imobilidade da terra) e de ter no máximo sido hesitante em sua rejeição dos princípios da astrologia. Em ambos os pontos ele se assemelha com F. Turrentin, embora o último ao rejeitar a astrologia judiciaria parece ter rejeitado tudo o que é hoje chamado de “astrologia” (Loco V, Questão vii). Nota de John W. Beardslee III.
[5] Alexander Ross traduz: “Anjos não são acidentes, nem qualidades, mas verdadeiras substâncias”. The Abridgment of Christian Divinity, p. 51. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[6] Richard A. Muller esclarece que o termo circumscritivus significa “capaz de ser descrito ou julgado por um limite físico.” Veja em Richard A. Muller, Dictionary of Latim and Greek Theological Terms (Grand Rapids, Baker Books, 2006), p. 68. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[7] Wollebius endossa a teoria Criacionista, em vez do Traducionismo, como a maioria dos reformados. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
Traduzido de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin (Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp.54-58.
1. Temos descrito a internas obras de Deus. As externas são aquelas que recebem lugar fora da essência de Deus.
2. Elas são a criação e o governo das criaturas, ou a atual providência de Deus.
3. Criação é o ato pelo qual Deus fez o mundo e tudo o que nele existe, parcialmente do nada e parcialmente de material informe, a fim de revelar a glória do seu poder, sabedoria e bondade. O registro da criação está em Gn 1 e 2.
PROPOSIÇÕES
I. Criar significa não somente fazer algo do nada, mas também fazer alguma coisa além do poder da natureza, da matéria informe.
II. A obra e honra da criação não deveria ser atribuída a alguma criatura, nem mesmo aos anjos, senão somente à Deus.
III. Para as criaturas, mas não para o criador, criação é a transição da potência para o ato.
IV. Esta potência não é privada, mas negativa. A razão é que o material é da natureza informe para o que é feito com ela. Por exemplo, não existiu qualidade ou disposição no pó que poderia produzir o corpo humano, que foi formado de modo não natural e miraculoso a partir dele.
V. A criação do mundo nada adiciona à perfeição de Deus, nem mesmo ele fez alguma coisa boa para que pudesse resultar nalgum benefício para si; pelo contrário, ele o fez a fim de comunicar a sua bondade para as criaturas.
VI. A criação inclui tanto fazer espécies completas com todos os seus membros, como anjos, estrelas e elementos que foram criados de modo definitivo, e também em fazer espécies compostas de indivíduos dando-lhes o poder de reprodução.[1]
VII. Poderíamos levar os estudantes do mundo físico o problema de descrever a natureza de várias criaturas. Para nós é suficiente lista-los de acordo com os dias da criação.[2]
VIII. O primeiro dia da criação merece ser observado por três palavras:
1. A criação dos anjos e do mais alto céu, o céu dos benditos. A criação dos anjos não pode ser indicada por um outro dia além deste, quando Deus estabeleceu a terra, ele foi adorado por eles (Jó 38:7).
2. A criação da matéria deste mundo visível, que não era completamente sem forma, mas faltava-lhe perfeição, individualidade e beleza, o que foi gradualmente acrescentado.
3. A emissão da luz primordial, a qual existia nem de fogo elementar, nem céu brilhante, ou algum corpo, mas uma qualidade enviada na atmosfera [aer] de Deus, que é luz inacessível, e posteriormente, no quarto dia colocando as estrelas.[3]
IX. No segundo dia o firmamento [expansum], chamado atmosfera ou a atmosfera celestial [aer seu coelum aerum], que pela sua parte inferior separa as águas superiores, ou nuvens, do mais baixo, ou o mar, se fez.
X. Sobre o terceiro dia, Deus:
1. Separou as águas inferiores, que até então tinha separado a terra, e confinando-as em pequenas porções, de modo que a restante da terra, chamou de lugares secos, apareceu como uma habitação preparada para os homens e animais.
2. Ao criar as plantas e árvores, deu vegetais vivos à terra, que naquele momento não tinham semente ou sol.
XI. No quarto dia as estrelas e luminares foram colocados nos céus. O seu movimento não vem, como filósofos imaginam, de almas ou inteligências, mas de uma força divinamente implantada; nem a terra permanece sem movimento por alguma razão além de uma força implantada.
XII. O propósito das estrelas é triplo: (1) Distinguir o dia da noite. (2) Dar conhecimento da sucessão e estações do ano. (3) Comunicar energia na matéria da ordem inferior [communicatio virium in rebus inferioribus].[4]
XIII. No quinto dia foram criados pássaros, peixes e répteis.
XIV. No sexto dia, após trazer à existência o reino animal e fez o mundo, como ele era, uma espaçosa habitação abundantemente fornecida com todas as coisas, Deus fez os seres humanos.
(2)
A teologia promove entre estas criaturas especialmente os anjos e seres humanos, desde que Deus lhes concedeu à sua imagem neles.
PROPOSIÇÕES
I. Embora todo o universo é um espelho do divino poder, sabedoria e bondade, todavia, a imagem de Deus, propriamente dita, é uma qualidade apenas dos anjos e homens.
II. A imagem de Deus consiste parcialmente dos dons naturais – ou, a simples, invisível substância dos anjos e a alma humana, vida, intelecto, vontade e imortalidade; e parcialmente de algo sobrenatural – bem-aventurança original, retidão e majestade do intelecto e vontade, e majestade e domínio sobre outras criaturas.
(3)
Os anjos são espíritos inteligentes livres de um corpo.
PROPOSIÇÕES
I. Anjos não são qualidades ou acidentes, mas verdadeiros seres individuais.[5]
II. Anjos são livres de enfermidades físicas e morte.
III. Os corpos com que os anjos aparecem não são meros fantasmas, nem são eles hipostaticamente unidos com eles, mas eles são plenamente assumidos para enaltecer os serviços particulares.
IV. Anjos estão num lugar particular, não como se eles se limitassem a ele, mas para a exclusão de estar em qualquer outro lugar [non circumscriptive sed definitive].[6]
V. Anjos não podem estar em vários lugares ao mesmo tempo.
VI. Anjos se movem verdadeiramente de um lugar para o outro.
(4)
O homem é uma criatura composta de um corpo feito originalmente da terra, e desde então, reproduzido pela transmissão do sêmen, e habitado sobrenaturalmente por uma alma racional.
Não rejeitamos a definição usada pelos filósofos que dizem que o homem é um animal racional. Mas para o nosso propósito, o estudo da teologia, preferimos descrever o homem pela definição que foi dada.
PROPOSIÇÕES
I. Três miraculosas produções de um corpo humano estão registradas na Escritura. Primeiro, do barro da terra, sem pai ou mãe. Segundo, da costela de Adão, sem mãe. Terceiro, do sangue da virgem bendita, sem pai.
II. A alma humana não é reproduzida pela transmissão do sêmen, mas é colocada no corpo por criação imediata de Deus.[7] Acerca da criação do homem, Moisés escreve: “Deus soprou em suas narinas o fôlego da vida, e o homem se tornou alma vivente” (Gn 2:7). Neste texto três pontos são observados. Primeiro, a imediata criação da alma, que é chamada de “sopro de Deus”. Segundo, a ser é soprado. Terceiro, a hipostática união do corpo e da alma: “ele foi feito alma vivente” significa, por metonímia, que ele se tornou uma criatura animada. Os seguintes argumentos mostram que a alma é hoje tão criada do nada por Deus e soprada no indivíduo: (1) se isto não é verdadeiro, as nossas almas são diferentes daquela que Adão recebeu; as nossas seriam feitas de substância preexistente, enquanto a dele a partir do nada. Não há força para a objeção encontrada na diferença entre criação e geração, pois nada é gerado da matéria, exceto o que foi originalmente criado da matéria. (2) Pois a alma de Cristo não foi feita pela transmissão do sêmen, nem por alguma atividade de algum homem, mas por ter sido concebido através da ação do Espírito Santo, do sangue da bendita virgem. (3) A Escritura declara acerca da origem das nossas almas como uma obra da criação, e não da natureza. Jó 33:4: “O Espirito de Deus me fez, e o sopro do Altíssimo deu-me a vida”. Zc 12:1: “O Senhor estende os céus, estabelece a terra e forma o espírito do homem nele”. A partir disto está óbvio que é considerado uma obra da criação. (4) O fim de algo corresponde ao seu começo [talis cuisque genesis, qualis analysis]. Mas o fim do homem é que o corpo retorne ao pó e o espírito à Deus (Ec 12:7). Assim, na morte do homem o seu espírito retorna diretamente a Deus, não deixando dúvida de que ele é criado diretamente dele. (5) A Escritura nitidamente diferencia entre as esferas dos corpos e dos espíritos (Hb 12:9). (6) A alma é indivisível, e portanto, somente pode ser produzida a partir do nada. (7) Se ela foi gerada por transmissão, poderia ser gerada de outra alma, ou de outro corpo, ou de ambos juntos. Ela não é gerada da alma, pois nada é gerado do incorruptível, nem do corpo, pois ela não é corpórea. Nem é ela gerada do corpo e da alma juntos, pois então, seria parte corpóreo e incorpóreo. Portanto, desde que ela é produzida do nada, ela é criada somente por Deus, que é o único que pode fazer alguma coisa do nada.
III. O axioma científico “iguais geram iguais, e homem gera homem”, no entanto, sustenta este ponto porque homem gera homem, como uma pessoa gera uma pessoa, e porque o corpo é gerado pela ação de pais como o sujeito da alma, e está unida com uma alma fornecida por Deus, e finalmente, como uma pessoa completa vindo à existência pelo nascimento. Esta conclusão não enfraquecida pelo fato de que ela faz os pais somente parcialmente a origem de seu filho [homo causa efficiens sit hominis, sed non secundum omnes partes]. Assim como alguém disse matar um homem, de fato, ele matou apenas o corpo, assim como um homem gera um homem, embora ele não gera a alma. Nem é o homem quanto a isto menos honrado do que qualquer outra criatura viva, mesmo porque ele é o mais excelente dentro do conjunto do que Deus produziu em relação a natureza.
IV. A alma humana é imortal, não absolutamente como se Deus não pudesse aniquilá-la, mas pela instituição de Deus, e porque ela não pode ser destruída por causas secundárias.
V. As faculdades da alma são realmente [realiter] distintas da própria alma, como qualidades ou um peculiar acidente [proprium accidens] difere do sujeito. A razão é encontrada no resultado; quando as faculdades da alma são feridas a sua essência permanece.
VI. As faculdades da alma são tão puramente orgânicas como são as faculdades vegetativas e sensitivas, ou elas são tão parcial e temporariamente, como são inteligência e vontade. O primeiro não pode operar após a morte do corpo; o último tanto pode operar sem o auxílio do corpo, e continua a operar após o corpo destruído.
VII. Liberdade de coação é uma qualidade essencial da vontade. Caso contrário à vontade não poderia realizar atos da vontade.
NOTAS:
[1] Alexander Ross traduz: “Também a criação das espécies com todos os indivíduos; assim os anjos, estrelas, elementos foram criados juntos, ou das espécies com alguns somente indivíduos tendo um inato poder de propagação”. The Abridgment of Christian Divinity, p. 48. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[2] Alexander Ross traduz: “um mais particular conhecimento das criaturas nós deixamos para os filósofos naturalistas, que trabalhem sobre este assunto, ao manuseá-lo de acordo com a produção de cada dia”. The Abridgment of Christian Divinity, p. 48. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[3] As palavras aer, aether e atmosfera não são usadas em seu sentido moderno, nem com alguma percepção sobre a tradicional filosofia natural. Nota de John W. Beardslee III.
[4] Wollebius parece assumir a astronomia “Ptolemaica” (a imobilidade da terra) e de ter no máximo sido hesitante em sua rejeição dos princípios da astrologia. Em ambos os pontos ele se assemelha com F. Turrentin, embora o último ao rejeitar a astrologia judiciaria parece ter rejeitado tudo o que é hoje chamado de “astrologia” (Loco V, Questão vii). Nota de John W. Beardslee III.
[5] Alexander Ross traduz: “Anjos não são acidentes, nem qualidades, mas verdadeiras substâncias”. The Abridgment of Christian Divinity, p. 51. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[6] Richard A. Muller esclarece que o termo circumscritivus significa “capaz de ser descrito ou julgado por um limite físico.” Veja em Richard A. Muller, Dictionary of Latim and Greek Theological Terms (Grand Rapids, Baker Books, 2006), p. 68. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[7] Wollebius endossa a teoria Criacionista, em vez do Traducionismo, como a maioria dos reformados. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
Traduzido de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin (Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp.54-58.
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