sábado, 15 de fevereiro de 2014

Carta de Pedro Rechier a João Calvino [1557]

Carta do Rev. Pedro Rechier[1] a João Calvino, em Março de 1557, desde o Forte de Coligny, na Guanabara, por ocasião da primeira tentativa de implantação da Igreja Reformada no Brasil pelos franceses[2]


Não quis desprezar a presente ocasião, para esclarecê-lo, meu irmão, acerca das nossas coisas. Em primeiro lugar quero que seja por ti conhecido o benefício que de Deus recebemos até agora, a fim de que conosco lhe dês graças pela sua bondade. Pois de todos nós teve tal cuidado que, pela sua bondade nos conduziu todos ao porto, sãos e incólumes, através das multas separações das terras e do mar. Saih, na verdade, como é natural, expôs-nos, no caminho, a diversos perigos: mas, como filhos, embora indignos, sempre experimentamos muito a mão auxiliadora do Pai que continua misericordiosamente estendida para nós através dos dias.

Ao chegarmos ao porto, Villegagnon[3] quis que a Palavra de Deus fosse publicamente pregada.[3] Na semana subsequente desejou que fosse administrada a ceia sagrada de Cristo, a que ele próprio com alguns de seus domésticos, religiosamente compareceu, dando um exemplo da sua fé para a edificação das pessoas presentes. Quem podia melhor auxiliar o nosso plano? Que podia corresponder mais oportunamente aos nossos desejos todos de que a verdadeira igreja ter-se patenteado a esses furiosos junto de nós? Com tais benefícios o nosso supremo Pai se dignou recompensar-nos.

Esta região, doutro lado, porque seja inculta e com raros habitantes, quase nada produz daquilo que a gente de nosso país gosta de saborear. Produz milho é verdade, figos silvestres e umas certas raízes com as quais fabricam para seus habitantes, a farinha que lhes serve de provisão de viagem. Não tem pão, nem produz vinho ou algo semelhante. Além disso, não nos servimos, em nenhum tempo ou lugar, de nenhum fruto familiar. Todavia, qualquer coisa nos basta, e passamos perfeitamente bem, bastando dizer que estou mais forte que de costume e o mesmo acontece a todos os outros. Um naturalista teria acrescido ao que disse a bondade do ar, que de tal sorte se tempera e corresponde ao nosso maio. De tal forma o Pai celeste se mostra bom e nos oferece o seu paterno afeto que aqui, em tão bárbaro e agreste solo, nos ministra o seu favor, a fim de que comprovemos que a provisão de viagem do homem não depende do pão, mas, da Palavra de Deus, cuja bênção substitui para nós todas as delícias.

Uma coisa há que nos constrange e preocupa: a selvageria do povo, tão grande que maior não podia ser. Não lhes censuro serem antropófagos o que, entretanto, é neles muito vulgar; mas deploro a estupidez de sua mente que é palpável mesmo nas trevas. Sobre a virtude do Pai também nada conhecem não distinguindo o bem do mal e os vícios que a natureza revela naturalmente às outras gentes eles os têm por virtude; não conhecendo a torpeza do vício pouco diferem das feras. E o que é a mais perniciosa de todas as coisas, não sabem se Deus existe. Estão muito longe de observar a Sua lei ou admirar o Seu poder e vontade, por isso não temos esperança de ganhá los inteiramente para Cristo, embora seja realmente a coisa mais importante de todas. Aprovo na verdade quem os descreve como uma “tábula rasa”, facilmente pintável em quaisquer cores, pois essa espécie de cores nada tem de contrário à pureza natural.

Mas o grande obstáculo é a diversidade de idiomas. Acrescente se que não temos intérpretes fiéis a Deus. O mérito de nossa obra consiste para nós em refrear o passo e esperar pacientemente que os adolescentes aprendam a língua dos índios. E já alguns vivem entre eles. Praza a Deus que fique aquém deles qualquer perigo para as suas almas. Desde que o Altíssimo nos impôs esta tarefa, devemos esperar que esta terra se torne a futura possessão de Cristo. Neste ínterim precisamos mais gente para que se forme esta nação bárbara e que nossa igreja receba seu incremento. Abundaríamos certamente de toda a cópia de bens se aqui houvesse um povo numeroso; sendo poucas almas progride o agricultor muito devagar. Mas por todas as coisas vela o Altíssimo. Nós em verdade, desejamos fortemente ser recomendados às preces de todas as nossas Igrejas.[4]

NOTAS:
[1] O Rev Pedro Rechier foi um dos pastores formados na Academia de Genebra e indicados por Calvino para integrarem a primeira expedição de franceses e suíços [de genebrinos] que veio para o Brasil. Eles aportaram na Baia da Guanabara, no Rio de Janeiro. Ele era "doutor ver em teologia e ex-frade carmelita, convertera-se ao Protestantismo e, após haver feito seus estudos em Genebra, dirigiu-se ao Brasil em 1556, de onde voltou no ano seguinte, sendo então enviado a Rochelle, em cujo lugar organizou a Igreja e morreu a 8 de março de 1580. Ali publicou ele, primeiro em latim (1561) e depois em francês (1562), a Refutação às loucas fantasias, às execráveis blasfêmias, aos erros e às mentiras de Nicolas Durand de Villegaignon." Jean Crespin, A tragédia da Guanabara - A História dos Primeiros Mártires do Cristianismo no Brasil (Rio de Janeiro, CPAD, 2006), p. 25. Nota do revisor.
[2] Enquanto tradicionalmente a nossa história apresenta, duma perspectiva católica, os franceses como invasores, na realidade eles eram colonizadores. Nota do revisor.
[3] Nicolas Durand de Villegagnon. Nota do revisor.
[4] Para uma análise da Confissão de Fé da Guanabara recomendo a leitura da Dissertação de Mestrado do Ms. Rev. Folton Nogueira da Silva. # [SILVA, Folton Nogueira da. Principais doutrinas da Confissão de fé da Guanabara. 1998] que pode ser obtida nos arquivos do CPAJ na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Para estudo continuado sobre o assunto recomendo dois livros que oferecem ad fontes:
1. Jean Crespin, A tragédia da Guanabara - A história dos primeiros mártires do Cristianismo no Brasil (Rio de Janeiro, CPAD, 2006).
2. Jean Crespin, A tragédia da Guanabara - A história dos primeiros mártires do Cristianismo no Brasil (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2007).


Tradução de Sergio Milliet
Revisão e notas por Rev. Ewerton B. Tokashiki
Extraído do livro Viagem à terra do Brasil, Jean de Léry, nota 134, Editora Itatiaia, 1980.

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