quarta-feira, 11 de junho de 2014

Carta de João Calvino a Martin Bucer [1532]

CARTA 7
RECOMENDAÇÃO DE UM REFUGIADO FRANCÊS EM ESTRASBURGO, QUE TINHA SIDO FALSAMENTE ACUSADO DE SUSTENTAR AS DOUTRINAS DOS ANABATISTAS.

Noyon, 04 de setembro de 1532.[1]

A graça e a paz do Senhor estejam com vocês pela misericórdia de Deus e da vitória de Cristo.

O prazer de escrever não teria peso como argumento para me convencer, mais do que um bom conselho, a não ser que me parecesse certo lamentar em algumas palavras o triste fim deste excelente irmão, que alguns amigos de indubitável fé e crédito apresentaram a mim por meio de cartas. Quer pelo que você suportou comigo em minha tristeza e simpatia, quer pelo meu favorecimento a ele em seu caso, eu não poderia deixar de escrever. A disposição e comportamento do homem eu conheci enquanto ele morava conosco na França. Ele se portava como alguém amado entre os homens de nossa profissão, se alguém assim fosse.

Estimado como tal entre os homens dotados de certo grau de autoridade, e de forma tal que não viesse a ser nem vergonha ou desgraça a eles. Finalmente, quando ele já não podia curvar o pescoço para aquele jugo voluntário que nós mesmos ainda suportamos, partiu para fixar residência com você, não tendo nenhuma perspectiva de retorno. Mas, como o assunto permanece em voga, tudo veio a baixo, contrariamente à sua expectativa, como numa mudança de cena de uma apresentação teatral, e ele não conseguiu encontrar nenhuma residência permanente da qual pudesse se valer. Ademais, também, como eu ouvi, ele se apressou por causa de seus meios limitados e problemas domésticos, que ele possa ter o benefício do auxílio de amigos a quem ele mesmo havia ajudado no passado, até que tempos melhores pudessem vir. Agora, observe como a calúnia é de longe mais poderosa que a verdade. Algumas pessoas imprudentes, eu não sei quem, entre o teu povo, a quem eu certamente não posso presumir suspeita de malevolência, tinha enchido os ouvidos de todos com suas invencionices, ao ponto de se fecharem a qualquer explicação. Não houve, portanto, nenhuma pessoa de quem ele poderia extrair um centavo sequer.

Provavelmente não foi intenção da pessoa, quem quer que fosse, acender as faíscas desta tragédia, para destruir o caráter de um indivíduo inofensivo. Apesar disso, no entanto, seja o que for, não posso desculpá-lo nem pedir desculpas a ele, e nem mesmo hesitar em afirmar que ele estava errado, para grande sofrimento e calamidade deste indivíduo. Lançaram sobre ele estas injúrias, como se diz, porque ele tinha caído sob suspeita de Anabatismo. Estranho, de fato, a menos que a pessoa fosse escandalosamente suspeita, espalhando esta conjectura a partir de evidências tão fracas. Em conversa com ele, consegui conduzi-lo intencionalmente a falar deste sacramento. Ele concordou em termos expressos inteiramente comigo, a tal ponto que nunca encontrei qualquer um que professasse a verdade sobre este ponto com maior franqueza.

Enquanto isso, ele sofre, apesar de que não parece haver qualquer probabilidade de que esses rumores sinistros, que já ganharam certo grau de crédito, sejam tão logo suprimidos. Peço-te, Mestre Bucer, se minhas preces - se as minhas lágrimas são de algum valor, que você se faça compassivo e ajude-o em sua situação lastimável. Os pobres são deixados em uma forma especial aos seus cuidados - você é o auxílio do órfão. Sofre com ele para que não seja reduzido a tal necessidade como se empurrado ao extremo. Você poderia ajudá-lo, se escolhesse alguém para ajudar de uma forma ou de outra, mas faça você mesmo, de acordo com sua própria discrição. Eu não poderia, no entanto, reter minha mão de ir além dos limites da moderação para apoiar a causa desse indivíduo. É isto para o momento. – Instruído senhor, adeus.

Teu, do meu coração, CALVINO.

[Autógrafo original latino. – Seminário Protestante de Estrasburgo].
Extraído de Letters 1528-1545 - Selected Works of John Calvin (Albany, Ages Software, 1998), vol. 4, pp. 39-40.

NOTAS:
[1] A carta é destinada para Martin Bucer, pastor da Igreja de Estraburgo. Ele foi uma dos líderes da Reforma, nasceu em Schelestadt, em 1491, influenciado por Martinho Lutero. De postura moderada mediou entre os reformados alemães e suíços, e empenhou-se para adotar uma confissão comum a ambos os grupos. Por causa das ameaças procurou exílio na Inglaterra, e obteve um cargo de docência na Universidade de Cambridge. Morreu em 1551, sendo enterrado com honras, entretanto, teve o corpo retirado da sepultura e queimado numa estaca, sob o reinado de Mary Tudor, mas durante a regência de Elizabeth sua honrosa memória foi restaurada. Nota de Ewerton B. Tokashiki.

Tradutor: Rev. Antônio dos Passos Pereira Amaral, ministro presbiteriano, pastor efetivo na Igreja Presbiteriana de Lagoa Santa; professor de teologia e hermenêutica na Escola Bíblica Central do Brasil/Lagoa Santa-MG; Bacharel em Teologia e Missiologia pela Escola Superior de Teologia e Estudos Transculturais/Montes Claros-MG (2003), Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie/São Paulo-SP (2013), cursando Mestrado (MDiv) em Teologia Histórica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP.

Revisado por Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO

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