quinta-feira, 20 de março de 2014

Carta de Martinho Lutero a Johannes Staupitz [1521]

Ao reverendo e excelentíssimo Johannes Staupitz, mestre na sagrada teologia, agostiniano ermitão, seu primogênito no Senhor.[1]

Saudações.

Admira-me que as minhas cartas e meus livros não tenham chegado ainda às tuas mãos, como deduzo de ti. Pregando aos demais, estou desqualificando a mim mesmo,[2] que até tal extremo me aliena o trato com os humanos. Porque te adjunto poderás ter uma ideia do espírito com que trato a Palavra de Deus. Nada se fez ainda em Worms contra mim, considerando que os papistas andam maquinando desígnios perniciosos com invejável furor. Spalatino escreveu-me dizendo que o evangelho goza ali de grande aceitação, que espera que não me condenem sem antes escutarem e serem convencidos.

Em Leipzig, sem nenhum tipo de inibição, Emser escreveu contra mim acusações que são coletâneas de mentiras desde o princípio até o fim. Percebo que preciso dar uma resposta a este monstruoso projeto do duque George, que é quem nutre a loucura do autor.[3]

Não me incomoda a notícia de que Leão X[4] também se voltou contra ti. Desta sorte, poderás erigir para exemplo do mundo a cruz que tanto pregaste. Não gostaria que o lobo se contentasse com tua resposta na que lhe concedes mais do que é justo; o interpretará como se renegasses de mim e de tudo o que é meu, ao declarar que te vem a submeter a seu juízo. Por isso, se Cristo te ama, te obrigará a reconvocação deste escrito, sendo que nessa bula se condenou tudo o que ensinas e aprazes. Como nada disto te és desconhecido, parece-me que ofendes a Cristo, pois aceitas como juiz aquele que é um furioso inimigo de Cristo, a quem se desenfreia contra a palavra da graça. Terias que afirmar isto, e repreendê-lo por esta impiedade. Que não é motivo para andar com medo, senão que deves responder, neste tempo em que nosso Senhor Jesus Cristo se vê condenado, despojado e blasfemado. Na mesma medida em que me exortas à humildade, eu exorto a tua soberba; tua humildade é tão excessiva, como excessiva é minha soberba.

Mas, a situação é séria. Vemos que Cristo está sofrendo. Se antes foi preciso calar, agora, quando o próprio boníssimo Salvador que se entregou a si mesmo por nós, padecendo ignomínia por todo o mundo, não lutaremos por ele, não ariscaremos o nosso pescoço? Meu pai, que é muito mais grave o perigo do que muitos pensam; começa a entrar no vigor do evangelho: “o que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu pai, mas me envergonharei do que de mim se envergonhar.”[5]

Que pensem que eu seja soberbo, avarento, adúltero, homicida, contra o Papa e réu de todos os vícios, com tanto que não podem arguir de calar impiamente enquanto o Senhor sofre e diz: “não há escapatória para mim; não há quem cuide de meu espírito; olhava a minha direita e ninguém me reconhecia.”[6] Tenho a confiança de que esta confissão me perdoará todos os meus pecados. Que por este motivo lancei confiado contra esse ídolo e verdadeiro anticristo de Roma. A palavra de Cristo não é palavra de paz, senão que palavra de espada.[7] Entretanto, o que direi, “miserável eu sou, Minerva?”.[8]

Estas coisas escrevo a ti, em confiança, porque muito temo que te coloques como mediador entre Cristo e o Papa, e que vejas o quão violentamente contrário eles são entre si. Roguemos para que o Senhor Jesus com o sopro de sua boca destrua sem tardar a este filho da perdição.[9] Se não queres vir após mim, deixe que eu marche e me retire. Não deixarei, pela graça de Deus, a tarefa de jogar na cara as atrocidades deste monstro.

De fato, que me enche de tristeza esta tua submissão, que me revela a um Staupitz tão diferente daquele pregador da graça e da cruz. Não teria sofrido se tivesses atuado desta forma antes da promulgação da bula e da ignomínia feita a Cristo.

Hutten e muitos outros escrevem com força a meu favor e estão preparando canções que farão pouca graça a esta Babilônia.[10] Nosso príncipe atua com tanta prudência e fidelidade como com constância. Por seu mandato o edito dessas declarações foram publicadas en latim e alemão.[11]

Saúda-te Felipe[12] e roga para que cresça o teu ânimo. Por favor, dê saudações ao médico Ludovico[13] que me escreveu com tanto conhecimento. Não tive tempo para responder-lhe, pois tenho só trabalhando para mim. Adeus no Senhor e ore por mim.

Wittenberg, Dia de santa Apolônia, 1521.[14]

Teu filho Martinus Lutherus.


NOTAS:
[1] Johannes Staupitz foi o tutor de Lutero e quem incentivou o futuro reformador aos estudos. Nesta carta Lutero reclama do silêncio de seu antigo mestre, em não comentar os livros que havia lhe enviado, nem se posicionar em relação ao movimento de reforma e das bula papal emitida. Nota do tradutor.
[2] 1 Co 9:27. Nota de Teófanes Egido.
[3] Veja a carta 6, nota 4. Nota de Teófanes Egido.
[4] Leão X, por meio do Arcebispo Matthew Lang de Salzburg, exigiu a Staupitz que declarasse como heréticas as doutrinas de seu súdito, Frei Martinho Lutero. Nota de Teófanes Egido.
[5] Mt 10:32; Lv 9:26. Nota de Teófanes Egido.
[6] Sl 142:5. Nota de Teófanes Egido.
[7] Mt 10:34. Nota de Teófanes Egido.
[8] Ditado por Erasmo, Adagia I, 1, 40. Nota de Teófanes Egido.
[9] 2 Ts 2:3 e 8. Nota de Teófanes Egido.
[10] É interessante observar a influência da opinião pública nesta fase da Reforma (ver carta 6, nota 8).
[11] Assertio omnium articulorum M. Lutheri per bullam Leonis X novissimam, damnatorum: WA 7, 94-151.
[12] Felipe Melanchthon (ver carta 9, nota 1). Nota de Teófanes Egido.
[13] Equivocadamente chama de Ludovico, o médico do arcebispo de Salzburg, cujo verdadeiro nome era Leonard Schmaus. Nota de Teófanes Egido.
[14] Data equivale a 9 de Fevereiro de 1521. Nota do tradutor.


Esta carta foi originalmente traduzida para o espanhol da versão revisada à luz dos dados da edição crítica de Weimar (Briefwechsel 1930 1970, WA Br 2, 263-264), em 14 volumes. Traduzido de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp. 381-383.

Tradução com introdução e notas em 13 de Fevereiro de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.

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