sábado, 12 de abril de 2014

Carta de Martinho Lutero a Erasmo de Rotterdam [1519]

A Erasmo em Basiléia. 28 de Março de 1519[1]

Jesus. Saudações. Quantas vezes, conversei com você Erasmo, nossa glória e nossa esperança, e você comigo, e ainda não nos conhecemos! Estranho isso, não é mesmo? Não, não é de se estranhar devido às muitas tarefas de todos os dias. Quem há cujas dificuldades mais profundas não ocupem Erasmo, a quem Erasmo não ensine, em que Erasmo não domine? Refiro-me com clareza a quem devidamente ama as letras. Agrada-me, sobremaneira, que outros presentes de Cristo possam se enumerar também, os quais a muitos resultem em perturbação; precisamente nisto me apoio para discernir os dons do misericordioso Deus, dos do Deus irado. Felicito-o, porque ao mesmo tempo resulta em tão grato motivo a todos os bons, desagrada não menos aqueles que anelam ser os únicos supremos e o mais gratos.

Mas, eu seria um néscio, que com as mãos sem lavar e sem um prefácio de reverência e honra com que me dirijo a você, varão de categoria incomparável, como um desconhecido se dirige a outro desconhecido. A sua humanidade saberá desconsiderar a minha amizade, ou a minha imperícia, já que, transcorrido minha existência entre os sofistas, nem sequer aprendi a forma de saudar por carta a um homem erudito. Doutro modo com quantas cartas o fadiguei demoradamente, sem poder sofrer que estivesse me falando perpetuamente na solidão da minha cela!

Mas, através do excelentíssimo Fabrício Capitão[2] fui informado de que, graças a aquela bagatela das indulgências, meu nome tornou-se noticiado para você, e que não somente leu, como também aceitou as minhas insignificantes afirmações no prólogo de uma edição posterior de sua Enchiridion[3], então, senti a obrigação ainda que fosse por esta barbaríssima carta, de reconhecer o teu espírito egrégio, filão que enriquece ao meu, bem como o de todos. Ainda que seja consciente do pouco que significará para você, que por carta me confesse devoto e agradecido (a você, a quem excede com seu ânimo fervoroso, com oculto agradecimento e amor de Deus, como nos basta, apesar de não nos conhecer, considera os seus sentimentos e suas obras nos livros, sem necessidade de cartas, nem de conversas pessoais), todavia, nem o pudor, nem a consciência sofre que não manifeste o meu agradecimento por escrito, e mais desde que o meu nome começou a sair da obscuridade, para que a ninguém incorra interpretar o silêncio como algo mal-intencionado e péssimo.

Portanto, meu Erasmo, homem amável, se a você parece reconhecer este menor irmão em Cristo, devotíssimo e afeitíssimo por você, ainda que por sua ignorância não mereça outra coisa, senão que jazer enterrado num rincão, desconhecido até para o sol e o céu de todos, que é o que sempre desejei; não por preguiça, senão porque era consciente de meu limitado recurso. Mas não me explico porque tenha distorcido alguma coisa, de modo que me veja forçado a padecer com grande vergonha, e que minhas ignominias e minha infortunada ignorância se vejam agitadas e ocupadas diante dos doutores.

Felipe Melanchthon está bem. Apenas se conseguirmos entre todos que não exponha a sua saúde em esforço de sua excessiva paixão pelas letras. O ardor de sua idade lhe arde em desejos de fazer tudo ao mesmo tempo. Bom serviço prestaria se o advertir por carta que se guarde por amor de nós, e às boas letras. Nada melhor poderíamos prometer-nos que a salvação desta cabeça.[4]

Saúda-o Andres Karlstadt[5] que em o venera de todo em Cristo. Que o mesmo Jesus o guarde sempre, excelente Erasmo, amém. Resultei verboso, mas estará de acordo, em que não te convém ler sempre cartas eruditas e que, de vez em quando “com os enfermos tem de enfermar”.[6]

Wittenberg, dia quinto das calendas de Abril, 1519.


NOTAS:
[1] WA Br 1, pp. 361-363. Lutero se dirige a Erasmo com humildade estratégica e forçada. É evidente a sua intencionalidade. Há que contrastar estes tons com os das cartas 1 e 2.
[2] Capitão comunicou a Lutero por carta (WA Br 1, p. 197) a admiração de Erasmo. Wolfgang Fabrício Capitão (1478-1541), em 1519, todavia, ainda estava nas fileiras católicas, mas, posteriormente tornou-se um dos reformadores de Estrasburgo, de talante conciliador.
[3] Erasmo, na edição de 1518, colocou um prólogo com pontos de convergência das ideias das 95 Teses de Lutero.
[4] Assim fez Erasmo no mês seguinte, numa carta dirigida a Melanchthon (Opus epistolarum, 3, p. 540).
[5] Cf. carta 2, nota 5.
[6] 1 Co 9:12. Esta tradução mencionada por Lutero não equivale ao texto grego. Difícil descobrir qual fonte, ou se foi uma citação parafraseada de memória [imprecisa] do texto bíblico. A sua tradução final para o alemão é "So andere dieser Macht an euch teilhaftig sind, warum nicht viel mehr wir? Aber wir haben solche Macht nicht gebraucht, sondern ertragen allerlei, daß wir nicht dem Evangelium Christi ein Hindernis machen" [Se outros participam de vocês, não seria muito mais do que nós? Mas, temos um direito que não é necessário, para suportar todas as coisas, para que não façamos um obstáculo para o evangelho de Cristo]. É possível que Lutero esteja citando a tradução latina do Novo Testamento de Erasmo. Nota do tradutor.

Extraído de Teófanes Egido, org., Lutero – Obras (Salamanca, Ediciones Síguime, 4ª ed., 2006), pp.. 378-379.
Tradução com introdução e notas em 12 de Abril de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.

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