sábado, 26 de março de 2016

A Criação - Johannes Wollebius

(1)

1. Temos descrito a internas obras de Deus. As externas são aquelas que recebem lugar fora da essência de Deus.
2. Elas são a criação e o governo das criaturas, ou a atual providência de Deus.
3. Criação é o ato pelo qual Deus fez o mundo e tudo o que nele existe, parcialmente do nada e parcialmente de material informe, a fim de revelar a glória do seu poder, sabedoria e bondade. O registro da criação está em Gn 1 e 2.

PROPOSIÇÕES

I. Criar significa não somente fazer algo do nada, mas também fazer alguma coisa além do poder da natureza, da matéria informe.
II. A obra e honra da criação não deveria ser atribuída a alguma criatura, nem mesmo aos anjos, senão somente à Deus.
III. Para as criaturas, mas não para o criador, criação é a transição da potência para o ato.
IV. Esta potência não é privada, mas negativa. A razão é que o material é da natureza informe para o que é feito com ela. Por exemplo, não existiu qualidade ou disposição no pó que poderia produzir o corpo humano, que foi formado de modo não natural e miraculoso a partir dele.
V. A criação do mundo nada adiciona à perfeição de Deus, nem mesmo ele fez alguma coisa boa para que pudesse resultar nalgum benefício para si; pelo contrário, ele o fez a fim de comunicar a sua bondade para as criaturas.
VI. A criação inclui tanto fazer espécies completas com todos os seus membros, como anjos, estrelas e elementos que foram criados de modo definitivo, e também em fazer espécies compostas de indivíduos dando-lhes o poder de reprodução.[1]
VII. Poderíamos levar os estudantes do mundo físico o problema de descrever a natureza de várias criaturas. Para nós é suficiente lista-los de acordo com os dias da criação.[2]
VIII. O primeiro dia da criação merece ser observado por três palavras:
1. A criação dos anjos e do mais alto céu, o céu dos benditos. A criação dos anjos não pode ser indicada por um outro dia além deste, quando Deus estabeleceu a terra, ele foi adorado por eles (Jó 38:7).
2. A criação da matéria deste mundo visível, que não era completamente sem forma, mas faltava-lhe perfeição, individualidade e beleza, o que foi gradualmente acrescentado.
3. A emissão da luz primordial, a qual existia nem de fogo elementar, nem céu brilhante, ou algum corpo, mas uma qualidade enviada na atmosfera [aer] de Deus, que é luz inacessível, e posteriormente, no quarto dia colocando as estrelas.[3]
IX. No segundo dia o firmamento [expansum], chamado atmosfera ou a atmosfera celestial [aer seu coelum aerum], que pela sua parte inferior separa as águas superiores, ou nuvens, do mais baixo, ou o mar, se fez.
X. Sobre o terceiro dia, Deus:
1. Separou as águas inferiores, que até então tinha separado a terra, e confinando-as em pequenas porções, de modo que a restante da terra, chamou de lugares secos, apareceu como uma habitação preparada para os homens e animais.
2. Ao criar as plantas e árvores, deu vegetais vivos à terra, que naquele momento não tinham semente ou sol.
XI. No quarto dia as estrelas e luminares foram colocados nos céus. O seu movimento não vem, como filósofos imaginam, de almas ou inteligências, mas de uma força divinamente implantada; nem a terra permanece sem movimento por alguma razão além de uma força implantada.
XII. O propósito das estrelas é triplo: (1) Distinguir o dia da noite. (2) Dar conhecimento da sucessão e estações do ano. (3) Comunicar energia na matéria da ordem inferior [communicatio virium in rebus inferioribus].[4]
XIII. No quinto dia foram criados pássaros, peixes e répteis.
XIV. No sexto dia, após trazer à existência o reino animal e fez o mundo, como ele era, uma espaçosa habitação abundantemente fornecida com todas as coisas, Deus fez os seres humanos.

(2)

A teologia promove entre estas criaturas especialmente os anjos e seres humanos, desde que Deus lhes concedeu à sua imagem neles.

PROPOSIÇÕES

I. Embora todo o universo é um espelho do divino poder, sabedoria e bondade, todavia, a imagem de Deus, propriamente dita, é uma qualidade apenas dos anjos e homens.
II. A imagem de Deus consiste parcialmente dos dons naturais – ou, a simples, invisível substância dos anjos e a alma humana, vida, intelecto, vontade e imortalidade; e parcialmente de algo sobrenatural – bem-aventurança original, retidão e majestade do intelecto e vontade, e majestade e domínio sobre outras criaturas.

(3)

Os anjos são espíritos inteligentes livres de um corpo.

PROPOSIÇÕES

I. Anjos não são qualidades ou acidentes, mas verdadeiros seres individuais.[5]
II. Anjos são livres de enfermidades físicas e morte.
III. Os corpos com que os anjos aparecem não são meros fantasmas, nem são eles hipostaticamente unidos com eles, mas eles são plenamente assumidos para enaltecer os serviços particulares.
IV. Anjos estão num lugar particular, não como se eles se limitassem a ele, mas para a exclusão de estar em qualquer outro lugar [non circumscriptive sed definitive].[6]
V. Anjos não podem estar em vários lugares ao mesmo tempo.
VI. Anjos se movem verdadeiramente de um lugar para o outro.

(4)

O homem é uma criatura composta de um corpo feito originalmente da terra, e desde então, reproduzido pela transmissão do sêmen, e habitado sobrenaturalmente por uma alma racional.
Não rejeitamos a definição usada pelos filósofos que dizem que o homem é um animal racional. Mas para o nosso propósito, o estudo da teologia, preferimos descrever o homem pela definição que foi dada.

PROPOSIÇÕES

I. Três miraculosas produções de um corpo humano estão registradas na Escritura. Primeiro, do barro da terra, sem pai ou mãe. Segundo, da costela de Adão, sem mãe. Terceiro, do sangue da virgem bendita, sem pai.
II. A alma humana não é reproduzida pela transmissão do sêmen, mas é colocada no corpo por criação imediata de Deus.[7] Acerca da criação do homem, Moisés escreve: “Deus soprou em suas narinas o fôlego da vida, e o homem se tornou alma vivente” (Gn 2:7). Neste texto três pontos são observados. Primeiro, a imediata criação da alma, que é chamada de “sopro de Deus”. Segundo, a ser é soprado. Terceiro, a hipostática união do corpo e da alma: “ele foi feito alma vivente” significa, por metonímia, que ele se tornou uma criatura animada. Os seguintes argumentos mostram que a alma é hoje tão criada do nada por Deus e soprada no indivíduo: (1) se isto não é verdadeiro, as nossas almas são diferentes daquela que Adão recebeu; as nossas seriam feitas de substância preexistente, enquanto a dele a partir do nada. Não há força para a objeção encontrada na diferença entre criação e geração, pois nada é gerado da matéria, exceto o que foi originalmente criado da matéria. (2) Pois a alma de Cristo não foi feita pela transmissão do sêmen, nem por alguma atividade de algum homem, mas por ter sido concebido através da ação do Espírito Santo, do sangue da bendita virgem. (3) A Escritura declara acerca da origem das nossas almas como uma obra da criação, e não da natureza. Jó 33:4: “O Espirito de Deus me fez, e o sopro do Altíssimo deu-me a vida”. Zc 12:1: “O Senhor estende os céus, estabelece a terra e forma o espírito do homem nele”. A partir disto está óbvio que é considerado uma obra da criação. (4) O fim de algo corresponde ao seu começo [talis cuisque genesis, qualis analysis]. Mas o fim do homem é que o corpo retorne ao pó e o espírito à Deus (Ec 12:7). Assim, na morte do homem o seu espírito retorna diretamente a Deus, não deixando dúvida de que ele é criado diretamente dele. (5) A Escritura nitidamente diferencia entre as esferas dos corpos e dos espíritos (Hb 12:9). (6) A alma é indivisível, e portanto, somente pode ser produzida a partir do nada. (7) Se ela foi gerada por transmissão, poderia ser gerada de outra alma, ou de outro corpo, ou de ambos juntos. Ela não é gerada da alma, pois nada é gerado do incorruptível, nem do corpo, pois ela não é corpórea. Nem é ela gerada do corpo e da alma juntos, pois então, seria parte corpóreo e incorpóreo. Portanto, desde que ela é produzida do nada, ela é criada somente por Deus, que é o único que pode fazer alguma coisa do nada.
III. O axioma científico “iguais geram iguais, e homem gera homem”, no entanto, sustenta este ponto porque homem gera homem, como uma pessoa gera uma pessoa, e porque o corpo é gerado pela ação de pais como o sujeito da alma, e está unida com uma alma fornecida por Deus, e finalmente, como uma pessoa completa vindo à existência pelo nascimento. Esta conclusão não enfraquecida pelo fato de que ela faz os pais somente parcialmente a origem de seu filho [homo causa efficiens sit hominis, sed non secundum omnes partes]. Assim como alguém disse matar um homem, de fato, ele matou apenas o corpo, assim como um homem gera um homem, embora ele não gera a alma. Nem é o homem quanto a isto menos honrado do que qualquer outra criatura viva, mesmo porque ele é o mais excelente dentro do conjunto do que Deus produziu em relação a natureza.
IV. A alma humana é imortal, não absolutamente como se Deus não pudesse aniquilá-la, mas pela instituição de Deus, e porque ela não pode ser destruída por causas secundárias.
V. As faculdades da alma são realmente [realiter] distintas da própria alma, como qualidades ou um peculiar acidente [proprium accidens] difere do sujeito. A razão é encontrada no resultado; quando as faculdades da alma são feridas a sua essência permanece.
VI. As faculdades da alma são tão puramente orgânicas como são as faculdades vegetativas e sensitivas, ou elas são tão parcial e temporariamente, como são inteligência e vontade. O primeiro não pode operar após a morte do corpo; o último tanto pode operar sem o auxílio do corpo, e continua a operar após o corpo destruído.
VII. Liberdade de coação é uma qualidade essencial da vontade. Caso contrário à vontade não poderia realizar atos da vontade.


NOTAS:
[1] Alexander Ross traduz: “Também a criação das espécies com todos os indivíduos; assim os anjos, estrelas, elementos foram criados juntos, ou das espécies com alguns somente indivíduos tendo um inato poder de propagação”. The Abridgment of Christian Divinity, p. 48. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[2] Alexander Ross traduz: “um mais particular conhecimento das criaturas nós deixamos para os filósofos naturalistas, que trabalhem sobre este assunto, ao manuseá-lo de acordo com a produção de cada dia”. The Abridgment of Christian Divinity, p. 48. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[3] As palavras aer, aether e atmosfera não são usadas em seu sentido moderno, nem com alguma percepção sobre a tradicional filosofia natural. Nota de John W. Beardslee III.
[4] Wollebius parece assumir a astronomia “Ptolemaica” (a imobilidade da terra) e de ter no máximo sido hesitante em sua rejeição dos princípios da astrologia. Em ambos os pontos ele se assemelha com F. Turrentin, embora o último ao rejeitar a astrologia judiciaria parece ter rejeitado tudo o que é hoje chamado de “astrologia” (Loco V, Questão vii). Nota de John W. Beardslee III.
[5] Alexander Ross traduz: “Anjos não são acidentes, nem qualidades, mas verdadeiras substâncias”. The Abridgment of Christian Divinity, p. 51. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[6] Richard A. Muller esclarece que o termo circumscritivus significa “capaz de ser descrito ou julgado por um limite físico.” Veja em Richard A. Muller, Dictionary of Latim and Greek Theological Terms (Grand Rapids, Baker Books, 2006), p. 68. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[7] Wollebius endossa a teoria Criacionista, em vez do Traducionismo, como a maioria dos reformados. Nota de Ewerton B. Tokashiki.


Traduzido de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin (Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp.54-58.

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