sexta-feira, 1 de abril de 2016

O governo de Deus sobre os homens no estado de inocência

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1. Tal é o governo de Deus sobre os anjos. O seu governo sobre os seres humanos é evidente no estado de inocência e mistério, e finalmente no estado de glória e graça.
2. O seu governo sobre os homens num estado de inocência consistiu de dar um pacto das obras para eles, pelo qual, sob a condição de obediência, ele prometeu felicidade eterna, e advertiu a desobediência com morte.

I. O pacto de Deus com o homem é duplo, tanto um pacto de obras como de graça:[1] o primeiro antes da queda e o segundo após ela.
II. O pacto das obras foi confirmado por um duplo sacramento: a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal, e ambas estavam localizadas no centro do paraíso.
III. O seu propósito era duplo: (1) que a obediência do homem pudesse ser posta à prova, através de comer ou abstendo-se delas; (2) que o primeiro pudesse significar felicidade eterna se eles obedecessem, e o segundo, a perda do sumo bem e a vinda de um mal maior se eles que desobedecessem.
IV. Embora a árvore da vida é assim chamada por seu significado sacramental, não porque estivesse nela o poder de conceder a vida.
V. Semelhantemente, a árvore do conhecimento do bem e do mal tinha o seu nome porque ela significa o mais alto bem e mal, e por causa do evento associado a ela. Por meio dela o homem aprendeu como o bem se perdeu, e que mal lhe sobreveio.
VI. A felicidade do homem, enquanto sem pecado, descansava principalmente na imagem de Deus.
VII. O assunto da divina imagem é primariamente a alma, e secundariamente o corpo, de modo que a alma se expressa por meio do corpo.
VIII. Os dons da imagem de Deus foram parcialmente naturais e parcialmente sobrenaturais.
IX. Os dons naturais eram: a substância simples e invisível da alma e as suas faculdades, intelecto e vontade.
X. Os dons sobrenaturais eram: clareza de intelecto, liberdade e retidão da vontade, conformidade [com a razão] sobre a parte da pessoa completa [homo] e domínio sobre as criaturas inferiores.
XI. O intelecto do primeiro homem era tão claro que ele conhecia todas as verdades naturais [naturalia] que poderiam ser conhecidas por meios da auto-evidência dos primeiros princípios. Adão provê uma excelente ilustração desta espécie de conhecimento quando ele nomeia a todas as criaturas de acordo com a sua natureza (Gn 2:20).
XII. O livre arbítrio [no estado de inocência] era indiferente quanto ao bem e mal, de modo que o homem poderia permanecer no estado sem pecado, se ele assim decidisse; ele recebeu a habilidade de agir conforme ele quisesse, mas não decidiu de acordo com esta possibilidade [accipit posse, si vellet, non autem vele ut posset]. O livre arbítrio tem quatro modos, porque o estado do homem se desdobra em quatro momentos.[2] No primeiro homem a vontade era livre para o bem e o mal. No homem caído era livre somente para o mal. No homem regenerado, ou homem em estado de graça, a vontade é livre do mal e para o bem, pela graça de Deus, mas imperfeitamente. No estado de glória ela será perfeitamente livre do mal e para o bem. No estado de inocência o homem era capaz de não pecar [posse non peccare]. No estado de miséria ele não poderia fazer outra coisa senão pecar. No estado de graça o pecado não pode governar o homem. No estado de glória ele será plenamente incapaz para pecar.[3]
XIII. Os apetites inferiores e todas as paixões estavam em harmonia com a razão.
XIV. O primeiro homem era imortal.
XV. O senhorio original do homem sobre as criaturas inferiores não somente era completo, como também era tranquila e pacífica em seu uso.
XVI. Que o labor que era tarefa de Adão, em cuidar e cultivar o jardim, não era por pesar, mas era com muita satisfação.


NOTAS:
[1] Sobre a história deste conceito veja Gottlob Schrenk, Gottesreich u. Bund in ältern Protestantismus (Gütersloh, 1923). Tanto Cocceius como os Padrões de Westminster organizam a teologia sobre este princípio. A escola de Saumur diverge do pensamento da teologia reformada dos três pactos, um “legal” sendo interposto entre os dois aceitos. Nota de John W. Beardslee III.
[2] Aqui Wollebius claramente segue a interpretação de agostiniana do livre arbítrio. Ele ensinava que os quatro estágios da libertas naturae [liberdade da natureza], Richard A. Muller explica que “a liberdade que é própria de um ser dada a sua natureza particular”. Os quatro estados da libertas naturae são: 1) libertas Adami [liberdade de Adão]: “antes da queda - isto é a capacidade ou poder para não pecar”. 2) libertas peccatorum [liberdade de pecadores]: “uma liberdade que é própria e restrita aos limites da natureza caída e é, portanto, uma incapacidade absoluta de fazer o bem, ou para agir para o bem, sendo o pecador incapaz de não pecar”. 3) libertas fidelium [liberdade dos fiéis]: “a liberdade daqueles que são regenerados pelo Espírito Santo, que é próprio da natureza regenerada e, é caracterizada pela capacidade para o pecado e para fazer o bem”. 4) libertas gloriae [liberdade de glória]: “uma liberdade adequada à natureza redimida integralmente, que, como residentes do reino do céu estão agora caracterizados pela incapacidade para o pecado”. Em outras palavras, os quatro estados do homem em relação ao pecado enumerados por Agostinho de Hipona são: 1) no estado antes da queda, o homem era capaz de não pecar (posse non peccare); 2) após a queda, ele é incapaz de não pecar (non posse non peccare); 3) sendo regenerado ele se torna capaz de não pecar (non posse peccare); e 4) no estado de glorificação ele será incapaz de pecar (peccare non posse). Veja Richard A. Muller, Dictionary of Latin and Greek Theological Terms, p. 176. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[3] Thomas Boston escreveu o livro The Nature Human on Fourfould State (The Banner of Truth), que se tornou obra de referência sobre o assunto entre os puritanos. Nota de Ewerton B. Tokashiki.


Traduzido de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin(Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp.64-66.

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