sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Carta de Lutero ao Príncipe Eleitor Frederick, o Sábio [5 de Março de 1522]

Berna, 5 de Março de 1522.


Ao ilustre e excelentíssimo Príncipe e Nobre, Senhor Frederick, Duque da Saxônia, Príncipe Eleitor do Sacro Império Romano, Landgrave da Turíngia, Marquês de Meissen, meu Senhor e Patrão.

Jesus. Graça e paz de Deus, nosso Pai, e de nosso Senhor Jesus Cristo e meus serviços mais submissos.
Ilustre e excelentíssimo Príncipe Eleitor, Clementíssimo Senhor: Recebi o escrito e as objeções benévolas de Vossa Alteza Eleitoral,[1] sexta-feira à noite, quando estava preparando-me para partir no dia seguinte, o sábado. É desnecessário que eu manifeste o meu testemunho que V.A.E. tenha as melhores intenções comigo, pois creio estar seguro nelas até onde chega o conhecimento humano. Mas, por outro lado, também tenho boa intenção. Creio que sabes por um conhecimento que sobrepuja a experiência humana. Mas com isso não se faz nada.
O escrito de V.A.E. deu-me a impressão de que minha carta afetou um pouco a V.A.E., enquanto escrevi que fosse prudente. Mas a firme convicção de que V.A.E. conhece bem meu coração, me precaveu de semelhante imaginação, para que V.A.E. não creia que com tais palavras intencionasse aludir à celebérrima prudência de V.A.E.. Pois, creio que o estado de meu coração que por razão e sem dissimulação alguma, sempre tem o prazer e satisfação na pessoa de V.A.E., mais que em todos os demais príncipes e autoridades. Entretanto, o que escrevi deve-se à preocupação de confortar a V.A.E, não por minha causa, no qual não pensava até então, mas pelo assunto desacertado que em Wittenberg[2] suscitou por parte dos nossos, para grande opróbrio do evangelho. Temi que V.A.E. afligisse-se muito com isso. Pois também me atribulei tanto que me desalentei acerca desta causa, se não estivesse seguro de que o puro Evangelho está entre nós. Tudo o que de mal afligiu-me até agora por este assunto, foi-me uma mera distração e um nada. Se fosse possível, impediria com o sacrifício da minha vida. Aconteceu de uma maneira que não podemos responder do ocorrido nem diante de Deus, nem ante o mundo. É um pesadelo para mim e ainda mais para o Santo Evangelho. Isto me dói no coração.
Por isso, Clementíssimo Senhor, minha carta somente refere-se àquele assunto, não à minha causa, para que V.A.E. não se fixe no pensamento o que o diabo apresenta nesse jogo. Para mim foi uma necessidade expressar semelhante exortação, ainda que para V.A.E. não vos faça falta.
Entretanto, Vossa Senhoria, quanto a minha causa, respondo-vos assim: V.A.E. sabes – ou se não sabes, faço-vos ciente disto – que tenho o evangelho não de homens, senão somente do céu recebido do nosso Senhor Jesus Cristo, de maneira que com direito, poderia me gloriar de ser servo e evangelista, e assim ser chamado, como agora adiante o farei. Mas ao oferecer-me para um interrogatório e um tribunal, eu o fiz, não porque duvidava disso, mas por demasiada humildade para chamar os demais.
Mas vejo agora que o meu excesso de humildade atraiu como consequência uma humilhação do Evangelho. O diabo quer ocupar todo o lugar, enquanto concedo somente um palmo. Impulsionado por minha consciência devo fazer outra coisa. A V.A.E. compraza-te o suficiente em esconder-me por este ano, a fim de servir a V.A.E.. Pois o diabo sabe bem que não o fiz por covardia. Viu claramente o meu coração quando entrei em Worms, de modo que, sabendo que tantos demônios se levantaram contra mim, como teias há nos tetos, com prazer saltaria no meio deles.
O Duque George [Spalatino] está longe de ser tanto como apenas um diabo. E o pai da imensa misericórdia pelo evangelho nos fez senhores corajosos e superiores a todos os demônios e acima da morte, e nos deu abundante confiança para que possamos dizer-lhe: amantíssimo pai. Por isso V.A.E. podes notar que para semelhante pai seria maior vergonha se não confiássemos tanto nele para ser também senhores sobre a ira do Duque George.
Quanto a mim, sei muito bem que, se esta causa em Leipzig se encontrar no mesmo estado como em Wittenberg, eu iria cavalgando para lá, ainda que (V.A.E. me perdoe a expressão simplória) chovessem durante nove dias puros Duques Georges e cada um fosse nove vezes mais feroz do que ele. Ele tem a meu Cristo como um homem trançado de palha. Meu senhor e eu aguentaremos por um momento.
Não ocultarei a V.A.E. que não foi apenas vez que implorei e chorei, em favor do Duque George, para que Deus o ilumine. Então, mais uma vez, clamarei e chorarei, entretanto, depois nunca mais o farei. Rogo a V.A.E. que também ajude a pedir e faça implorar para que possamos afastar dele o juízo que (oh, meu Deus!) se aproxima sem cessar. Quisera estrangular rapidamente ao Duque George com uma palavra, se com isso pudesse resolver.
Escrevo isso a V.A.E. com a intenção de que saibas que chegarei a Wittenberg com uma proteção mais alta do que a do Príncipe Eleitor. Por isso não penso em solicitar a proteção de V.A.E. Até opino que eu possa proteger mais a V.A.E. do que vos a mim. Além do mais, se soubesse que V.A.E. pudera e quisera proteger-me, não iria. Neste assunto não deve intervir a nenhuma espada, nem de prever em nada. Somente Deus deve operar aqui em qualquer preocupação e colaboração humana. Consequentemente, V.A.E. é ainda muito débil na fé, não posso em nada ter a V.A.E. por um homem que possas proteger e salvar-me.
Como agora V.A.E. desejas saber o que fazer nestes assuntos, crendo ter realizado pouco, contesto submissamente: V.A.E. fez o suficiente, e não há de fazer mais nada. Pois a Deus não agrada a preocupação e a intromissão de V.A.E., nem as minhas. Por isso pode guiar-se V.A.E. Se V.A.E. crês nisso, estará seguro e terás paz. Se não crês, por minha, o creio e tenho que tolerar que V.A.E. em sua incredulidade tenha suas penas por suas preocupações, como corresponde padecer a todas descrenças.
Como não quero obedecer a V.A.E., Vossa Senhoria fica desculpado ante Deus no caso de prenderem e me matarem. Diante dos homens, V.A.E. deve conduzir-se assim: como príncipe eleitor ser obediente à autoridade e admitir que a majestade imperial proceda nas cidades e países de V.A.E. com respeito aos corpos e bens como corresponde segundo a constituição do império e não se defender, nem resistir, nem apelar de forma alguma à resistência ou a algum impedimento, quando quiserem prender ou matar-me.
Pois a autoridade não deve quebrar, nem resistir a ela, senão aquele que a instituiu. O contrário seria rebelião e estaria contra Deus.
Pois a autoridade não deve interromper, nem resistir a ela, senão aquele de nascimento nobre para que seja o meu carcereiro. Se V.A.E. deixa as portas abertas e respeita o livre salvo-conduto eleitoral, quando eles ou os seus emissários vierem buscar-me, V.A.E. cumpres com a obediência. Não podem pedir mais de V.A.E. que saber que Lutero está com Vossa Senhoria. E isso sucederá sem preocupação, intervenção e perigo para V.A.E.. Cristo não me ensinou a ser cristão com prejuízo de outro. Mas, se fossem tão insensatos e ordenassem que V.A.E. pusesses as mãos sobre mim, então direi a V.A.E. o que haverdes de fazer. Quero que por minha causa, V.A.E. esteja a salvo de dano e perigo em corpo, bens e alma, creia ou não.
Com isso encomendo a V.A.E. a graça de Deus. Seguiremos falando quando necessário, se fizer falta. Este escrito o despacho rapidamente para que V.A.E. não se aflija ao ouvir de meu regresso. Pois se quero ser um cristão verdadeiro, devo e tenho que ser consolador para todos, e não prejudicial. É outro homem com que trato: conheces-me bem e eu o conheço o suficiente. Se V.A.E. fosse crente, veria a magnificência de Deus. Mas como não crês, então, não podes ainda nada perceber. Amor a louvor a Deus para sempre! Entregue em Berna, na casa do oficial de impostos, quarta-feira de cinzas de 1522.

De V.A.E. servo submisso
M. Lutherus

NOTAS:
[1] Doravante abreviado como V.A.E..
[2] Alusão aos atos turbulentos de Wittenberg.


Carlos Mitthaus, org., Páginas Escogidas de Martín Lutero (Buenos Aires, editorial La Autora, 1961), pp. 197-200.
Tradução de Rev. Ewerton B. Tokashiki

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