quarta-feira, 17 de maio de 2017

A Lei Moral - Johannes Wollebius

1. Assim são os estados de inocência e de sofrimento. O próximo são os estados de graça e glória.
2. Há duas principais divisões da doutrina concernente ao estado de graça. O primeiro diz respeito ao nosso Redentor como a eficiente causa deste estado; e o segundo é concernente ao nosso chamado para este estado.
3. O Redentor é conhecido através da lei como também por meio do evangelho. Da lei aprendemos a necessidade de um redentor, e do evangelho aprendemos a verdade da redenção.
4. A lei é quem ensina que Deus revela o que ele requer que façamos, com uma advertência de morte eterna e uma promessa de vida eterna, de modo que, conheçamos que somos incapazes de satisfazer as suas exigências, e assim, sejamos levados a buscar a Cristo.

PROPOSIÇÕES
(1)
I. A lei divina transmitida por Moisés difere em forma (ratio), mas não em conteúdo (res) da lei natural dada ao primeiro homem, e vestígios dela também podem ser encontrados entre os gentios. (Rm 2:14-15: “Quando, pois, os gentios, que não têm lei, procedem, por natureza, de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos”).
II. Ninguém, exceto Cristo, pode perfeitamente obedecer a lei.
III. Todos nós somos culpados (reus) da transgressão e violação de toda a lei. (Rm 3:23: “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus”).
IV. Todavia, a nossa miséria é dupla: não somente estamos cortados da promessa da vida eterna, como também estamos condenados (reus) à morte eterna. (Lv 18:5: “Cumprindo-os, o homem viverá por eles”; Dt 27:26: “Maldito aquele que não confirmar as palavras desta lei, não as cumprindo”).
V. Todavia, se é possível sermos salvos, uma dupla satisfação é requerida de nós. A lei requer tanto uma punição como uma obediência; um satisfazendo as suas advertências e o outro as suas promessas. A lei exige ambos de nós, e não há nenhum outro caminho para a vida eterna que não seja o cumprimento da lei, conforme o que Cristo disse “faze isto e viverás” (Lc 10:28). Todavia, se fôssemos completamente livres da culpa e da punição da transgressão, ainda assim não poderíamos obter a vida eterna sem cumprir a lei.
VI. Somos incapazes de oferecer qualquer satisfação por nós mesmos, mas devemos busca-la em Cristo.
VII. Após a queda a lei foi restabelecida por Deus para um fim mais alto, a fim de fazer retornar ao antigo estado [ius postlimnii]. A lei foi dada e inscrita no primeiro homem, de modo que, pela sua própria obediência, se ele quisesse, poderia alcançar a vida eterna; ela é oferecida ao homem caído, de modo que, que é incapaz de cumprir a lei, e que somente pode cumprir através de Cristo (Rm 10:4: “O fim da lei é Cristo, para justiça de todo o que crê”).
VIII. Todavia, a promulgação da lei para Israel no Monte Sinai foi um ato gracioso.
IX. Cristo não corrigiu uma imperfeita lei, nem decretou uma nova lei, como se fosse um segundo Moisés, mas ele confirmou a lei contra a corrupção dos fariseus. Os fariseus eram intérpretes da lei de acordo com a letra e ensinavam somente uma obediência externa, com é evidente da refutação de seu ensino (Mt 5). Todavia, os discípulos de Samosata[1] e outros semelhantes a eles, estão errados porque ensinam que a lei é imperfeita. Embora ela seja imperfeita para as nossas necessidades, em que ela é insuficiente para a salvação de nosso pecado, ela é em si perfeita, e apresenta uma perfeita ideia de justiça do reino do céu.
X. Também estão em erro os papistas que ensinam que a perfeição da lei mente nos “conselhos”, antes do que nos “preceitos”.

(2)
1. Há uma tríplice divisão da lei: moral, cerimonial e política.[2]
2. A lei moral é aquela que Deus sumarizou nos dez mandamentos.

PROPOSIÇÕES
A norma para o correto entendimento e exposição dos dez mandamentos é:
I. A interpretação de cada preceito deve ser encontrada em seu propósito.
II. Pelo fato destes mandamentos serem breves, eles devem ser entendidos tanto literalmente, como pela sinédoque. Na negação do mandamento o correspondente positivo deve ser entendido, e vice e versa, em cada preceito há uma correspondente proibição, e vice e versa; em cada espécie igualmente o gênero deve ser entendido como incluso, e vice e versa; na adoração externa a atitude interna está inclusa, e vice e versa, tanto em palavras, como em ações, desejos, planos, ações, estão plenamente incluídas e, finalmente em cada termo o correlato deve ser entendido.
III. É possível que algum mandamento seja aplicado a vários assuntos de perspectivas diferentes.
IV. Uma lei geral [em casos de conflito] seja preferível que uma especial.
V. Um mandamento negativo tenha maior ênfase do que uma positiva. É esperado que o mandamento negativo tenha uma aplicação mais ampla, desde que o positivo seja modificado pelas circunstâncias. Um mandamento positivo é sempre vinculado, mas nem sempre aplica [non obligat ad semper], considerando que um negativo é sempre vinculado e aplicado; por exemplo, nós sempre estamos obrigados a ajudar ao nosso próximo, mas, não somos exigidos auxiliá-lo a cada momento, nem a fazermos sempre que tenhamos oportunidade. Mas, nunca é legítimo prejudicar o próximo.
VI. Entretanto, há mais mandamentos negativos do que positivos.
VII. Pecados levam o nome do mesmo ato que é especificamente proibido. Isto é feito para que possamos mais facilmente entender a malignidade dos pecados. Então, Cristo chama de “adultério” o olhar lascivo sobre uma mulher, e João chama quem se ira de “assassino” (Mt 5:28; 1 Jo 3:15).
VIII. Promessas terrenas são símbolos de privilégios celestiais. Todavia, os discípulos de Servetus e os anabatistas estão apenas sonhando, quando dizem que estas promessas são terrenas. Recompensas terrenas designam algo celestial; deste modo, Deus é visto acomodando a si para o seu primitivo povo, que estavam vivendo sob um guardião [paedagogus].

(3)
1. Há duas partes do decálogo: o prefácio e os mandamentos.
2. O prefácio tem duas partes: uma por Moisés e outra por Deus.
3. O prefácio por Moisés é: “Deus disse todas estas palavras”.
4. O prefácio por Deus é: “Eu sou Jeová, o seu Deus, que conduziu vocês para fora da terra do Egito.” Por estas palavras Deus mostra a sua autossuficiente autoridade e o seu absoluto direito de ordenar. O fundamento para isto é: (1) a sua divina essência, em que os nomes “Jeová” e “Elohim” são símbolos; (2) a obra da redenção da qual a libertação dos israelitas do Egito é o tipo.
5. Há duas tábuas de mandamentos: a primeira contém os nossos deveres para com Deus, e a segunda os deveres para com o nosso próximo.
6. O sumário da primeira tábua é: “Amarás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua força.” [3] Estas palavras requerem sinceridade e perfeição do amor: sinceridade porque eles mencionam o coração, alma, e todas as faculdades; perfeição porque Deus nos ordena amar com todo o coração, alma e faculdades.
7. Quatro mandamentos pertencem a esta tábua:
a) O primeiro mostra quem deve ser servido como o verdadeiro Deus.
b) O segundo mostra como ele quer ser adorado.
c) O terceiro mostra que reverência é devida ao nome de Deus em toda a vida.
d) O quarto mostra que tempo apropriado para a adoração pública de Deus deverá ser realizada.
8. (a) O sumário da segunda tábua é: “amarás ao teu próximo como a ti mesmo.”
(b) Este mandamento é semelhante ao primeiro porque como no sumário dos primeiros quatro mandamentos, todavia, este é um sumário dos seis últimos mandamentos que lidam com o amor ao próximo.
9. Entretanto, acerca desta tábua pertencem:
a) O quinto mandamento protege a honra do próximo.
b) O sexto protege a sua vida.
c) O sétimo protege a sua integridade sexual.
d) O oitavo protege os seus bens.
e) O nono protege a sua reputação.
f) O décimo proíbe os maus desejos para com o próximo.
O que foi declarado acima é suficiente para esclarecer o quanto a lei moral evidencia a necessidade de redenção.[4] Que as boas obras estão inclusas sob cada mandamento é o assunto do Livro II.[5]


NOTAS:
[1] Paulo de Samosata era um bispo de Antioquia e teologicamente sustentava o monarquianismo adocionista. A sua heresia negava as três pessoas da Trindade. Ele ensinava que o Pai era “Deus criador de todas as coisas, de Filho ao homem Jesus, de Espírito Santo à graça que reside nos apóstolos. Para Ele, Jesus é maior que os profetas e do que o próprio Moisés, pois ‘a Sabedoria não habitou igualmente em nenhum outro’, afirmava. Esta habitação não equivale, de modo algum, à encarnação. Jesus não é o Logo, pois, o Logos-Sabedoria é maior do que ele. Além do mais, o Logos não tem uma substância (ousia), não possuí uma ‘hipóstase’ própria, não é uma ‘pessoa’ em Deus, mas uma dinamis, uma faculdade com a qual Deus opera no mundo.” in: Roque Frangiotti, História das Heresias (séculos I-VII) – conflitos ideológicos dentro do Cristianismo (São Paulo, Editora Paulus, 1995), p. 52. Ele foi reprovado no Concílio de Cesaréia da Capadócia, em 264, e embora, se retratou e subscreveu a decisão do concílio, demonstrou posteriormente ter dissimulado e insistido em sua heresia. O seu ensino foi definitivamente condenado no Concílio de Nicéia. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[2] O texto latino trás forensis (a tradução holandesa Wet der Politie). O termo “forense” não tem estreito significado teológico relacionado com a justificação. Nota de John W. Beardslee III.
[3] Em Mt 22:37 traduz vires por mente (Vulgata mens, e Beza traduz cogitas). Nota de John W. Beardslee III.
[4] O motivo para a discussão da lei neste ponto é aqui apresentado. Um similar arranjo é seguido por Calvino e Francis Turrentin, e no Catecismo de Lutero. Nos catecismos de Heidelberg e de Westminster, na Teologia Sistemática de Charles Hodge, a lei não é discutida antes da redenção, e sim como parte da nova vida. Nota de John W. Beardslee III.
[5] O Livro II é um manual de ética a partir da exposição dos Dez Mandamentos. Wollebius, Compendium, pp. 191-262. Nota de Ewerton B. Tokashiki.

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