quarta-feira, 30 de março de 2016

O governo dos anjos - Johannes Wollebius

(1)

1. A providência atual de Deus é visível especialmente em seu governo sobre os anjos e sobre os seres humanos.[1]
2. O seu governo sobre os anjos estende tantos aos bons quanto aos maus.
3. O seu governo sobre anjos bons significa que ele os preserva em sua retidão original e felicidade em seu Filho, como o seu cabeça, para o louvor de sua gloriosa graça.

PROPOSIÇÕES

I. Os anjos bons, apenas pela sua natureza, são capazes de cair tanto quanto os maus.
II. A sua permanência na bondade não deve ser creditada a eles, mas à graça de Deus o Pai, e ao Filho como o seu cabeça.
III. O Filho de Deus é o cabeça dos anjos, não pelo direito da redenção, mas da criação, e graciosa união com Deus. Eles não foram criados à imagem de Deus, nem foram adotados como filhos, senão que estão no Filho de Deus, que é “a visível imagem de Deus, e o primogênito de toda criação” (Cl 1:15).
IV. O anjo que muitas vezes aparece aos pais em forma humana antes da encarnação, não era um anjo criado, mas o Filho de Deus. Gn 18:13: “Jehovah disse a Abraão, ‘por que Sara riu?’”. Gn 32:28: “Como um príncipe”, disse o anjo a Jacó, “porque você lutou com um anjo”, que é esclarecido em Os 12:3: “Como um príncipe ele lutou com Deus”. Js 5:14: “Ele (o homem mencionado por Josué) disse ‘eu sou um capitão do exército de Jehovah’” e Js 6:2: “então, Jehovah disse a Josué.” Veja Zc 1-3.
V. Embora não exista anarquia entre os anjos, não está claro na Escritura qual é a sua ordem de modo que tenha algum cabeça ao lado do Filho de Deus. O arcanjo Miguel é melhor entendido como o Filho de Deus. De fato, Miguel se opõe ao demônio, o cabeça dos anjos maus. Ap 12:7: “Miguel e seus anjos lutaram com o dragão”; Ap 12:10: “então, a salvação, poder e autoridade de nosso Senhor e seu Cristo vem”.
VI. Os anjos bons são mui rápidos executores da divina vontade, especialmente na adoração de Deus, e na proteção dos piedosos.
VII. Se os anjos são responsáveis por seres humanos particulares, ou por tarefas particulares, não é um assunto legítimo para se inquirir detalhadamente. Certamente é uma silente evidência na Escritura que Deus às vezes usa os serviços de alguns, e outras vezes de muitos.

(2)

O governo de Deus sobre os anjos maus significa que Deus expulsou dos céus para uma ruína infernal [infernalis], aqueles que caíram de sua integridade original e se tornaram inimigos de Cristo.

PROPOSIÇÕES

I. Os anjos maus o são como um resultado de sua própria queda, e não pela criação.
II. A Escritura não menciona se o seu pecado teve origem no orgulho, mas certamente ele não foi cometido sem soberba. O orgulho é ingressou com algum outro pecado cometido intencionalmente.
III. É melhor, com o apóstolo Judas (verso 6), para nós chamarmos este pecado de “uma queda de seu estado original, e um abandono de sua verdadeira habitação”.
IV. Os anjos maus têm um líder[2] a quem a Escritura chama de demônio por excelência, e “aquela antiga serpente”, “Satanás” e “o dragão” (Ap 12:9).
V. Assim, a Escritura nada diz acerca do tempo de sua queda, ou do número destes anjos maus, por isso, é melhor que também preservemos silêncio sobre este assunto.
VI. A sua punição consiste parcialmente da perda da memória e irrecuperável felicidade, e parcialmente da experiência eterna de maldade e sofrimento.
VII. A substância simples, invisível e imortal estão retidas nas propriedades dos anjos maus.
VIII. Também permanece neles considerável conhecimento e sabedoria para o entendimento futuro. Eles têm os seguintes recursos: (1) conhecimento natural; (2) o conhecimento empírico baseado numa longa experiência; (3) astrologia; (4) entendimento da Escritura, especialmente das profecias; (5) especiais revelações, sempre que Deus faz uso de seu serviço como seus agentes.
IX. Todavia, desde que o seu conhecimento é sem amor, ele é despido de todo conforto, e nada lhes proporciona além de medo. Mt 8:29: “o que temos nós contigo, Jesus o Filho de Deus? Vieste antes do tempo para condenar-nos?”. Tg 2:19: “Crê que Deus é um, você faz bem; os demônios também creem e temem”.
X. Ainda neles preserva grande poder, que eles usam para mover grandes corpos de um lugar para o outro; para causar tempestades; para tremer construções e montanhas; poluindo o ar e corpos com fumaças venenosas; para possuir e assediar seres humanos; e para iludir pela variação e mudanças nos órgãos internos e externos, ou no objeto [da percepção sensorial].[3]
XI. Contudo, eles não têm direito ou poder sobre os corpos celestiais, ou estrelas. Apenas “potestade do ar” é dado a eles (Ef 2:2).
XII. Todo o seu poder é tão restrito às ordens inferiores pela providência de Deus, de modo que eles não podem fazer nada sem a sua permissão. Mt 8:31: “e, os demônios imploram-lhe: ‘se nos expulsas, permita-nos que entrar naquela manada de porcos”.
XIII. Anjos maus realizam poderosas obras [mira], mas não milagres. Milagres são obras além do poder das criaturas.


NOTAS:
[1] Sobre os anjos, também veja F. Turretin, Loco IV, Questão viii. Nota de John W. Beardslee III.
[2] Não um “cabeça” como os anjos bons e o povo redimido. Nota de John W. Beardslee III.
[3] Pode se observar que esta teologia não oferece nenhuma base para oposição quer seja da astrologia comum, ou para a acusação de feitiçaria. Nota de John W. Beardslee III.

Traduzido de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin (Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp.61-64.

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