quarta-feira, 7 de junho de 2017

O ofício medianeiro de Cristo - Johannes Wollebius

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Até agora temos considerado a pessoa de Cristo o redentor. O seu ofício medianeiro é, como Deus-homem, ele cumpriu tudo o que foi necessário na relação entre nós e Deus, para a nossa salvação.

I. O ofício de Cristo como mediator tem a sua beleza descrita nos nomes “Jesus”, “Messias”, “Cristo” e “Senhor”.
II. Cristo é chamado o mediador dos anjos num sentido diferente daquele em que é chamado mediador dos homens. Ele é mediador para os anjos com respeito a uma graciosa união com Deus;[1] ele é mediador para os homens com respeito à reconciliação e redenção.
III. A causa eficiente deste ofício é toda a Trindade Santa, mas o Pai o é por excelência. Is 42:1: “Eis aqui o meu servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem a minha alma se compraz”. Is 49:1: “O SENHOR me chamou desde o meu nascimento, desde o ventre de minha mãe”. Sl 110:4: “O SENHOR jurou e não se arrependerá; Tu és sacerdote para sempre”, etc. Hb 5:5: “Cristo a si mesmo não se glorificou para se tornar sumo sacerdote, mas o glorificou aquele que lhe disse: ‘Tu és meu Filho, eu hoje te gerei’”.
IV. Não somente é o inteiro Cristo o sujeito de seu ofício, mas Cristo é mediador de acordo com ambas as naturezas unidas. Os discípulos de Samosata, e os papistas, negam isto, ensinando que Cristo é mediador somente de acordo com a sua natureza humana. Mas a nossa doutrina descansa sobre uma base absolutamente inquestionável. Se a obra mediadora é divinamente-humana e perfeita, na qual há atividade, não somente pela natureza humana, mas também pela natureza divina, então, o ofício precisa ser atribuído à Cristo de acordo com a sua divina natureza. A primeira premissa é verdadeira; do mesmo modo a segunda é verdadeira. O que é aceito aqui pode ser provado por exemplos. Sem a operação da deidade ele não poderia tornar público a oculta sabedoria de Deus, nem iluminar as nossas mentes. Sem a eficácia da deidade ele não poderia realizar a satisfação, nem efetiva intercessão diante de Deus. Sem a deidade, ele não poderia suportar o infinito peso da ira divina, nem sobressair e vencer a morte e o demônio. Sem o poder da deidade, ele não poderia preservar a igreja, nem derrotar os seus inimigos. Não se constituí argumento contra isto mencionar que ele é chamado “um mediador, o homem Jesus Cristo” (1 Tm 2:5). A palavra “homem” não se aplica aqui à natureza, mas à pessoa, e pelo fato dele ser chamado “mediador entre Deus e o homem”, numa mediação hipostática, na qual ele é tanto Deus como homem, é pressuposto. Há muitos textos provas em que a atividade da deidade [na mediação] é enfaticamente apresentada (At 20:28: “Deus redimiu a igreja pelo seu sangue”; Hb 9:14: “Por meio do eterno espírito, ele ofereceu a si mesmo”; 1 Jo 1:7: “O sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo pecado”). Apesar do Filho ser uma parte ofendida, não lhe é impossível realizar mediação consigo. Assim como a palavra “retidão” é apropriadamente usada com respeito aos outros, mas analogicamente com respeito à nós, assim “mediação” é corretamente com respeito a outros, mas analogicamente com respeito ao próprio mediador. Cristo é de fato a parte ofendida, considerado absolutamente, mas ele é o mediador em que, por um gracioso ato, ele assume o ofício de intercessor sobre si; como um filho de um rei que, uma parte ofendida adianta-se ao seu pai, vai até o inimigo e reconcilia-o com o seu pai.
V. O objeto deste ofício de Cristo é Deus, que foi ofendido, e o homem, que cometeu a ofensa.
VI. A maneira pela qual Cristo é chamado para este ofício consiste daquela abundante unção, pela qual ele recebeu sem limite os dons do Espírito Santo, em nosso nome. Sl 45:7: “Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria, como a nenhum dos teus companheiros.” Is 61:1: “O Espírito do SENHOR Deus está sobre mim, porque o SENHOR me ungiu”. Jo 3:34: “Deus não dá o Espírito por medida”.
VII. O propósito deste ofício é que, assim como Deus fez todas as coisas por meio de Cristo, do mesmo modo, ele pode reconciliar todas as coisas para si por meio dele (Cl 1:20).
VIII. Cristo é mediador tanto por mérito e como por eficácia. Por mérito, porque ele fez completa satisfação a nosso favor. Por eficácia, porque ele aplica este mérito em nós efetivamente. Novamente fica óbvio que este ofício é administrado não somente na natureza humana, mas também na divina; de outra forma o mérito não poderia ser de infinito valor, nem aplicado a nós. Ele nos salva, concede-nos vida, desfaz-nos de nossos pecados e ouve as nossas orações, pelo mérito de sua natureza humana, que é eficaz por causa de sua natureza divina.
IX. Cristo é o exclusivo e único mediador. At 4:12: “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos.” 1 Tm 2:5: “Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem.”

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1. Este ofício de Cristo é triplo: profético, sacerdotal e real.
2. O ofício profético é para a instrução do eleito na verdade celestial.
3. Os aspecto [pars] deste ofício são a externa proclamação do conselho divino e a interna iluminação da mente.
4. O ofício sacerdotal é para prover plena satisfação em nosso lugar [loco nostro] diante de Deus e para interceder a nosso favor.
5. Os aspectos deste ofício são a satisfação e a intercessão.
6. O ofício real é para governar e preservar a igreja.
7. Os aspectos deste ofício são para o governo [gubernatio] da igreja e a vitória sobre os seus inimigos.[2]


NOTAS:
[1] Conferir com Francis Turrentin, Locus IV, Questão VIII. 9-17. Nota de John W. Beardslee III.
[2] Outra tradução seria: “vencer os inimigos da igreja” (sem modificar para “inimigos” no texto). Nota de John W. Beardslee III.

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