sábado, 15 de março de 2014

Prolegomena à Teologia Cristã de Johannes Wollebius [1586-1629]

PREFÁCIO DO TRADUTOR

No Brasil o teólogo reformado Johannes Wollebius ainda é desconhecido pelo público geral. Numa busca rápida na internet, poucos textos são encontrados em português, quer escrito ou, traduzido. Em inglês também há poucos artigos ou pesquisa sobre a sua pessoa ou obra. O fato é que “Teologia Histórica” no período dos séculos XVI e XVII ainda é uma área de pesquisa pouco explorada em nosso país. O Dr Heber C. Campos Jr, dentre os reformados brasileiros, é um pioneiro no desbravamento de pesquisas e produção acadêmica do protestantismo escolástico, inclusive trazendo para o conhecimento, discussão e atraindo a atenção de outros pesquisados para este fértil campo de estudo. Apesar de ter em minha biblioteca o Compendium de Wollebius desde 2009, foi no módulo “Puritanismo e Protestantismo Escolástico” realizado em 2013 no CPAJ que despertou o interesse em conhecê-lo melhor a fim de produzir um artigo. Essa descoberta motivou-me traduzir este livro. O presente texto é o primeiro capítulo.

A primeira tradução para a língua inglesa apareceu em 1650, por Alexander Ross e foi publicado em Londres sob o título de Abridgement of Christian Divinitie. Esta versão se encontra disponível na internet para download. Mas a tradução de John W. Beardslee III surgiu em 1965, e embora, obteve várias publicações, inclusive por diferentes editoras, atualmente está esgotada, podendo ser encontrada apenas alguns volumes usados.

Beardslee III oferece em sua introdução uma breve descrição da importância da obra de Wollebius
Johannes Wollebius (1586-1629) nasceu e foi educado em Basiléia, onde se tornou pastor em 1611, e professor de Antigo Testamento e pregador da catedral em 1618. O Compendium Theologicae Christianae foi publicado em 1626, sendo várias vezes, reimpresso em Latim (Basiléia, 1634; Amsterdã, 1638; 1642; Oxford, 1657; Londres, 1760), e foi traduzido para o holandês e inglês. Ernst Bizer quem reeditou o original em nossa geração, poderia agora prevenir-nos contra superestimar a sua importância, concordando com diversos historiadores do século XIX, mas não seria possível negar que seu extenso uso durante o século XVII, a sua brevidade, clareza e fidelidade, não fosse uma positiva expressão característica dos teólogos reformados nos tempos do Sínodo de Dort e que poderia manter esta afirmação concedendo-lhe o título por considera-lo como uma avenida para uma completa descrição do entendimento “ortodoxo” aceito pela Fé Reformada – o “que comumente é ensinado com aceitação em nossas igrejas” e que pode ser encontrado em Voetius, Turretin e igualmente em outros.[1]

Nesta breve nota introdutória algumas informações foram omitidas por Beardslee III que precisam ser acrescidas à importância deste manual de dogmática.[2] Após a sua primeira publicação, em 1626, em Basiléia, em várias universidades reformadas da Europa, ela se tornou o livro-texto tanto para dogmática como para o ensino de ética. Os teólogos reformados necessitam conhece-lo, em especial, por causa da sua influência sobre os divines da Assembleia de Westminster. Infelizmente há sobre os teólogos protestantes do século XVII um estigma de que eram áridos e abstratos. Wollebius em seu manual desmitifica essa deformada caricatura. A sua linguagem é cheia de citações das Escrituras, e por vezes, oferecendo a sua própria tradução dos originais, demonstrando boa exegese na construção de seus argumentos. Há ainda uma preocupação na área da teologia prática, tanto no conteúdo dogmático, como na parte em que ele interpreta e aplica o decálogo. A sua influência entre os teólogos do século XVII se dá por causa de sua clareza, brevidade e precisão nas definições e argumentação. É um excelente sumário da teologia reformada do período do protestantismo escolástico.

Dedico esta tradução ao meu filho João Marcos que desde o aprendizado das primeiras letras ama a nossa herança reformada.



PROLEGOMENA À TEOLOGIA CRISTÃ

A teologia cristã é a doutrina a respeito de Deus, como ele é conhecido e adorado para a sua glória e para a nossa salvação.

PROPOSIÇÕES

I. A palavra “teologia”, que possuí muitos significados, será usada nesta obra para descrever aquele conhecimento de Deus que um cristão pode obter nesta vida da própria Palavra de Deus. De fato, o nome “teologia” afrouxou-se devido ao ensino dos antigos pagãos que era designado sob as três classificações do pensamento poético, mítico, filosófico, sacerdotal ou político em que as pessoas comuns eram mantidas sob o controle das exigências da religião. A verdadeira teologia é corretamente classificada como original e derivada. A teologia original é o conhecimento que Deus tem de si mesmo. Na realidade esta não difere da essência de Deus. A teologia derivada é uma espécie de cópia da original, primeiro em Cristo, o Deus-homem, e em segundo, nos membros de Cristo. Alguns membros de Cristo são triunfantes no céu, e outros militantes na terra; a teologia dos triunfantes pode ser chamada de teologia dos benditos, e a dos militantes é nomeada de teologia dos peregrinos.

II. Teologia não é considerada nesta obra apenas como uma faculdade do intelecto, mas um sistema de ensino, e por isso, é descrito como doutrina. Como um corpo de ensinos, a teologia difere da faculdade intelectual da teologia como um efeito difere de uma causa eficiente. Considera-la apenas como uma faculdade intelectual levanta a dúvida de sua classificação entre estas faculdades; e como um assunto de fato, qualquer uma delas por si mesma é muito restrita para descrever a teologia. O entendimento [intelligentia] que apreende princípios, o conhecimento [scientia] que alcança as conclusões dos princípios, e a sabedoria [sapientia] que resulta do entendimento e conhecimento, são todas faculdades puramente contemplativas. A prudência [prudentia] que dirige a mente nas ações é ativa, e destreza [ars] é uma faculdade que se torna ativa em relação com o correto raciocínio. A teologia consiste tanto em contemplação como em ação. Ela é sabedoria e prudência; o discernimento naquilo que ele apreende princípios através de uma inteligência divinamente iluminada e estende as suas conclusões através do conhecimento; e a prudência está no que ela guia a alma humana em suas ações.

III. O fundamento de ser da teologia é Deus; o fundamento pelo qual ele é conhecido é a palavra de Deus.

IV. Antigamente, antes de Moisés, a palavra de Deus não se encontrava escrita; ela foi escrita porque Deus, de acordo com o seu mais sábio propósito, a partir de Moisés, quis que fosse atestada pelos profetas e apóstolos. Os papistas a fim de substituir as suas tradições pela palavra escrita, declaram que ela foi escrita meramente por causa de circunstâncias não essenciais. Mas isto é refutado por todos os mandamentos de escrever, dados aos profetas e aos apóstolos (Êx 17:14; 34:27; Dt 31:19; Is 8:1; 30:8; Jr 30:2; Hc 2:2; Ap 1:11, 19; 14:13; 19:9; 21:9). A ideia papista é refutada pelo testemunho dos apóstolos, que declararam que eles nada falaram, ou escreveram, a partir de intenções humanas (Jo 20:31: “mas estas coisas são escritas para que vocês possam crer”, etc; Rm 14:5; 1 Co 10:11; 2 Pe 1:20-21; Is 8:20; Jo 5:39). Finalmente, aquelas passagens pelas quais somos dirigidos às Escrituras em matéria concernente a salvação (Is 8:20: “para o ensino e para o testemunho!”; Jo 5:39: “Examinem as Escrituras”).

V. Consequentemente, não reconhecemos outra base para a teologia, senão a escrita palavra de Deus.

VI. Que a Escritura Sagrada é de origem divina e autoridade é uma doutrina sustentada sem dúvidas entre todos os cristãos.

VII. Por isso, é impróprio para um cristão questionar de qualquer modo a Escritura, a Bíblia Sagrada, se ela é a palavra de Deus. Apenas nas escolas não há debate contra quem nega os postulados, então, devemos considerar como impróprio para qualquer um ouvir falar quem nega as bases da religião cristã.

VIII. A dúvida quando busca saber do testemunho da qualidade divina [divinitas] da Escritura Sagrada se torna conhecida, é válida para qualquer um dentre cristãos, se ela é motivada por um desejo de instrução, e não conduzindo ao desvio ou a ridicularização da verdade.

IX. Este testemunho é duplo: primário e subordinado [principais et ministerialis]. O testemunho primário é aquele do Espírito Santo, tanto externamente, na Escritura em si, e internamente, falando no coração e na mente de uma pessoa crente que ele ilumina, lhe assegurando a divina qualidade da Escritura. O testemunho subordinado é aquele que é dado pela igreja. Externamente, o Espírito Santo testemunha, na própria Escritura, acerca da origem e autoridade da palavra, em que tais expressões como “a palavra de Deus,” “assim disse Jehovah,” “Jesus disse,” “toda a Escritura é divinamente inspirada” (2 Tm 3:16), ou “movidos pelo Espírito Santo, santos homens de Deus falaram” (2 Pe 1:21). Internamente, nos corações dos crentes, o Espírito apresenta a divina qualidade da Escritura deste modo: quando um homem lê a Escritura com oração, ele abre os seus olhos e ilumina a sua mente, de modo que, o leitor vê as maravilhosas obras de Deus e, reconhece a voz do Espírito de Deus falando na Escritura. Os papistas sustentam o testemunho somente da igreja, e isto para estender ao que eles defendem que toda a autoridade da Escritura depende da igreja, e declaram que ela somente poderia ser considerada a palavra de Deus através do testemunho da igreja. Isto é claramente inválido para o testemunho da divina qualidade da Escritura, como para conferir aquela qualidade sobre ela. Portanto, da nossa parte provamos pelos seguintes argumentos, que o testemunho do Espírito Santo, e ele somente, nos convence com certeza da divina qualidade da Escritura: (1) O testemunho da Escritura da parte de quem aquela inspiração da Escritura que foi escrita é de maior autoridade: de fato, qualquer um sabe melhor de sua mão e estilo. Mas a Escritura foi escrita pela inspiração do Espírito Santo (2 Tm 3:16; 2 Pe 1:20-21). (2) O testemunho da Escritura da parte de quem é prometido aos crentes numa íntima união [individuus nexus] com a Escritura é de maior autoridade. Mas o Espírito Santo é prometido em íntima união com a Escritura (Is 59:21: “meu Espírito que está em você, e minhas palavras, as quais eu coloquei em sua boca, não se apartariam de sua boca [ou afastariam da boca de suas crianças]”). O testemunho da autoridade da Escritura acerca dele, sem aquela iluminação, ninguém perceberia as maravilhas da Escritura, que é de uma maior autoridade. Mas sem a iluminação do Espírito Santo, ninguém perceberia as maravilhas da Escritura (“Desvenda os meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da tua lei.” Sl 119:18, ARA). E assim por diante, etc.[3] Também, pelo seu testemunho daquela função de que é para levar-nos a verdade, e torna-lo nosso conhecimento que a Escritura é a palavra de Deus. Mas esta é a função do Espírito Santo de levar-nos a toda a verdade (Jo 16:13).

À medida que o testemunho da igreja seja o interesse, ela deve ser aceita como uma serva de Deus, todavia, é falso supor que a autoridade da Escritura dependa dela. O que poderia ser mais absurdo que para um chefe de família ter que obter a sua autoridade de um empregado, ou, de uma carta enviada por pais ter que depender do mensageiro, ou, o edito de um magistrado ter que depender do impressor, ou, a norma sobre o que é regulado? Sabemos que para a igreja “foram confiada os oráculos de Deus” (Rm 3:2, ARA), e que ela é a “coluna e baluarte da verdade” (1 Tm 3:15, ARA). Mas, apenas seria insensato dizer que um candeeiro recebe luz do castiçal, embora o candeeiro esteja sobre o castiçal, mesmo assim, é um absurdo transferir a autoridade da Escritura para a igreja. A autoridade da igreja auxilia aqueles que são ignorantes quanto a Escritura, e não têm recebido “o genuíno leite da palavra”, nem crescido por meio dele (1 Pe 2:2). O testemunho da Escritura e do Espírito Santo é determinado e eficaz naqueles que por si experimentam doçura dos divinos oráculos. Assim, como se tem muito melhor apreciação da doçura do mel, se por si mesmo experimenta-lo, do que alguém que crê no que outros falam e testemunham acerca dele, assim aquele que prova a sua doçura, sabe que os escritos sagrados são a palavra de Deus, com muito mais segurança do que aquele que meramente acredita no ensino da igreja. Os samaritanos num primeiro momento creram no testemunho que a mulher deu acerca de Cristo; mas, após eles terem ouvido ao próprio Cristo, eles disseram à mulher: “já agora não é pelo que disseste que nós cremos; mas, porque nós mesmos temos ouvido e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo” (Jo 4:42, ARA). Do mesmo modo, qualquer um, após obter com o auxílio do Espírito Santo, lê e lê continuamente, declara “agora já não creio mais baseado no testemunho da igreja que os escritos sagrados são inspirados [divinus], mas eu creio nisto porque as tenho lido eu mesmo, e através da minha leitura esta conclusão está implantada em minha mente.”

Qualquer escrito que em todas as suas partes apresenta o próprio Deus como quem fala; que foi registrado por homens que receberam dons de profecia e de operar milagres, e que eram ensinados sobrenaturalmente de modo extraordinário, e não dissimularam nenhum de seus pecados e faltas, ou ambos associados; que descreveram não somente assuntos que são verdadeiros e consistentes com o correto raciocínio, mas também outros que transcendem a toda razão; que registra os mesmos eventos em diferentes versões com surpreendente e verdadeira harmonia sobrenatural; que serve para glorificar a Deus e simultaneamente para nossa salvação; que operam com maravilhosa eficácia nos corações humanos e, que concedem força diante do mais terrível sofrimento; e, que são miraculosamente preservados contra a fúria do demônio e dos tiranos – tais escritos estão além de qualquer dúvida, de que a sua origem e autoridade é divina.

Assim é a Escritura Sagrada.

Por essa razão a sua origem e autoridade é divina.

Resumindo: O testemunho da igreja ocorre primeiro; mas, o testificar do Espírito Santo tem primazia em natureza e eficácia. Cremos na igreja, mas não cremos baseados no julgamento da igreja; o Espírito Santo precisa ser crido baseado em si mesmo. O testemunho da igreja apresenta o “o que”; e o testemunho do Espírito Santo revela o “por que”. A igreja dá razões [suadet]; o Espírito Santo convence [persuadet]. O testemunho da igreja oferece opinião; o testemunho da Escritura dá conhecimento e certeza da fé.

X. Os livros canônicos da Escritura são aqueles que compõem o Antigo e Novo Testamento. Ao Antigo Testamento pertencem os cinco livros de Moisés, Josué, Juízes e Ruth cada forma um livro; Samuel, Reis e Crônicas a cada dois formam livros; Esdras, Neemias, Ester, Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cantares; e, os quatro profetas maiores e os doze menores, cada um forma um livro. No Novo Testamento são os quatro evangelhos; o livro de Atos dos Apóstolos; as cartas de Paulo, uma aos Romanos, duas aos Coríntios, e cada uma aos Gálatas, Efésios, Filipenses e aos Colossenses, duas para Tessalonicenses e para Timóteo, e uma para Tito, Filemon, e aos Hebreus; são duas cartas de Pedro, três de João, uma de Tiago e outra de Judas, e por fim, de Apocalipse.

XI. Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiásticos, primeiro, segundo e terceiro Macabeus, Baruque, o Livro de Oração de Manassés, a Carta de Jeremias, e os acréscimos no livro de Daniel e Ester não possuem a mesma autoridade para provar os artigos de fé do mesmo modo que os livros canônicos, embora, eles possam ser lidos com proveito, e assim, eles são chamados de “apócrifos”; ou seja, ocultos.

As razões são: (1) A maioria deles não é escrito pelos profetas, mas somente após Malaquias, o último dos profetas. (2) Eles não foram escritos com a linguagem profética [Hebraico]. (3) Não foram citados em nenhum lugar no Novo Testamento. (4) Há neles muitas narrativas incompatíveis com os registros canônicos, bem como contradições e mitos contrários à fé e devoção.

XII. A Sagrada Escritura é perfeita para o propósito da salvação [ad salutem perfecta est]. “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2 Tm 3:16-17, ARA).

XIII. Embora, as regras da igreja, que prevê conformando em ritos externos, possam ser admitidas em seus devidos lugares, todavia, nenhuma tradição fora da Escritura pode ser admitida como se ela fosse necessária para a salvação.

Os papistas não somente argumentam a favor das tradições papais, mas também fazem destas tradições de igual, senão superior autoridade em relação as Escrituras. Mas, nós aceitamos o mandamento de Deus, de que nada se adicione, nem mesmo seja retirado de sua palavra (Dt 4:2; 5:32, e 12:32; Ap 22:18).

XIV. O estudo da Sagrada Escritura é o dever de todos os cristãos. “Examinais as Escrituras” (Jo 5:39, ARA). “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo” (Cl 3:16, ARA). A obscuridade em alguns textos dos escritos sagrados, que os papistas enfatizam, não é objeção; enquanto algumas passagens são mais obscuras, outras explicam por si mesmas, e apresentam os claros artigos primários da religião [perspicue].

XV. Por isso, é necessária a sua tradução em linguagem comum para todas as nações.

XVI. Nenhuma tradução é autoritária [authenticus] exceto no caso de estar de concordo com os originais Hebraico e Grego.

XVII. Embora a interpretação da Escritura seja confiada à igreja, não obstante, o supremo juiz da interpretação não é outro, senão o Espírito Santo falando na Escritura. “Eis que a mão do SENHOR não está encolhida, para que não possa salvar; nem surdo o seu ouvido, para não poder ouvir” (Is 59:1, ARA). “Sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2 Pe 1:20-21, ARA). Por isso, é sacrilégio dos papistas usurpar este privilégio da suprema autoridade [ius] para a igreja Romana; atribuindo aos seus concílios e do mesmo modo apenas ao Papa.

XVIII. O significado [sensus] de qualquer passagem da Escritura sempre é simples [unicus];[4] todavia, no Antigo Testamento o significado das profecias é muitas vezes composta como sendo – histórica e típica. Por exemplo, Oseas 11:1 é composto destas palavras: “quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho.” Literal e historicamente as palavras são entendidas como a libertação do povo hebreu do Egito; mas, tipificado e misticamente como uma referência ao chamado de Cristo do Egito (Mt 2:15).

XIX. Os meios de encontrar o verdadeiro sentido da Escritura são: constante oração, conhecimento e exame dos idiomas originais, consideração do argumento e propósito da passagem, distinção entre passagens literais e de linguagem figurada; entendimento das causas, circunstâncias e consequências; análise lógica, comparação de passagens obscuras com outras que sejam claras, iguais com iguais, diferentes com diferentes; e finalmente, a analogia da fé [analogia fidei].

XX. Do mesmo modo que Deus é o peculiar [proprius] e primário objeto da teologia, assim também, é o seu primário e objetivo final.

XXI. Por isso, desde que o seu objetivo final e o mais alto bem [summum bonum] são o mesmo, é óbvio que somente a teologia cristã pode nos ensinar corretamente o mais alto bem.

XXII. Uma finalidade subordinada da teologia sagrada é a nossa salvação, a qual consiste da comunhão com Deus e a nossa satisfação nele.


NOTAS:
[1] John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics, pp. 10-11. Nota do tradutor.
[2] W. Hadorn, “Wolleb, Johannes” in: Samuel M. Jackson, ed., The New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge (Grand Rapids, Baker Book House, 1950), p. 407. Nota do tradutor.
[3] Wollebius emprega uma elipse, em vez de repetir uma “óbvia” conclusão. Nota de John W. Beardslee III.
[4] Uma típica declaração reformada originada numa polêmica contra a doutrina do sentido tríplice. Nota de John W. Beardslee III.


Extraído de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, ed., Reformed Dogmatics - Seventeeth-Century Reformed Theology Through the Writings of Wollebius, Voetius and Turretin (Grand Rapids, Baker Books House, 1977), pp. 27-35.

Traduzido em 15 de Março de 2014
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO

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