quarta-feira, 1 de julho de 2026

Prefácio de João Calvino à Loci Communes de Filipe Melanchthon

 Introdução

Em 1546, uma tradução francesa da obra de Filipe Melanchthon de 1545, Loci communes, foi publicada em Genebra sob o título de Sumário da Teologia, ou Lugares Comuns, revisada e ampliada pela última vez por Ms. Filipe Melanchthon.[1] Em sua introdução, Calvino tem o cuidado de elogiar o braço direito de Lutero, em vez de apontar as divergências que existiam entre eles, particularmente sobre o livre-arbítrio e a predestinação.[2] Wulfert de Greef afirma: “Isso é surpreendente porque mais tarde (1552), em um debate com Jean Trolliet sobre a predestinação, fica bastante claro que Calvino e Melanchthon não concordavam e todos os aspectos”.[3]

Contudo, a falta de referência a esses assuntos talvez não seja tão surpreendente, considerando o propósito de Calvino em seu prefácio. Bruce Gordon avalia que o objetivo de Calvino era “tornar o professor de Wittenberg conhecido pelos leitores franceses como um piedoso mestre da igreja e demonstrar que havia um corpo doutrinário consensual entre as igrejas protestantes e que, ao se dirigir aos evangélicos franceses, Calvino falava com a voz comum da Reforma Protestante em geral”.[4]

É certamente uma demonstração da apreciação e magnanimidade de Calvino o fato de ele não ter permitido que essas diferenças em questões que ambos consideravam centrais prejudicassem uma amizade para toda a vida, iniciada em outubro de 1538, quando foram apresentados por Martin Bucer.[5] Calvino valorizava essa amizade, embora, por vezes, a defesa de Lutero por Melanchthon e sua submissão a ele lhe causassem angústia, particularmente no que diz respeito à doutrina da presença real nas controvérsias eucarísticas e à virulência de Lutero sobre o assunto. Na dedicatória de seu comentário sobre Daniel, ele descreveu Melanchthon como “um homem que, por conta de sua incomparável habilidade nos mais excelentes ramos do conhecimento, sua piedade e outras virtudes, é digno da admiração de todas as épocas”. Por sua vez, Melanchthon chamava Calvino de “o teólogo”.[6] A estima mútua entre eles é atestada nas cartas que trocaram, mais do lado genebrino (14) do que do lado de Wittenberg (8). Como afirma Philip Schaff, “Melanchthon era doze anos mais velho que Calvino, assim como Lutero era treze anos mais velho que Melanchthon. Calvino, portanto, pode ter mantido com Melanchthon a relação de aluno com professor.”[7]

Os dois reformadores se encontraram três vezes ao todo: em Frankfurt (1539), Worms (1540) e Regensburg (1541).[8] Após o Colóquio de Regensburg, não se viram novamente, pois Calvino havia reassumido seu cargo em Genebra em setembro de 1541, após uma ausência de três anos. No ano seguinte, Melanchthon sugeriu que Calvino respondesse ao teólogo holandês Albert Pighius, o que Calvino fez, dedicando seu tratado De libero arbitrio a Melanchthon em fevereiro de 1543. Melanchthon agradeceu a Calvino por esse gesto em maio do ano seguinte: “Fiquei muito comovido com sua gentileza e agradeço-lhe por ter demonstrado seu amor por mim ao mundo todo, colocando meu nome no início de seu notável livro, onde o mundo inteiro poderá vê-lo.”[9]

Calvino escreveu esta introdução à principal obra de Melanchthon estando plenamente ciente da diferença em suas abordagens, particularmente no que diz respeito ao problema da predestinação divina e do pecado.[10] Na primeira edição dos Loci, em 1521, e em seu Comentário de Romanos três anos depois, Melanchthon havia afirmado, assim como Lutero na controvérsia com Erasmo, que Deus faz todas as coisas não por permissividade, mas por poder, e que ele predestinou os atos humanos livres.[11] Mais tarde, ele hesitou, dizendo: “Sustento a proposição de que Deus não é o autor do pecado e, portanto, não pode desejá-lo. Davi foi levado à transgressão por sua própria vontade”.[12] Apesar dessa diferença, Calvino deixou suas reservas de lado e escreveu uma introdução excepcional. Schaff comenta: “Este é o único exemplo de um reformador republicando e recomendando a obra de outro reformador, que era a única rival formidável de sua própria obra principal sobre o mesmo assunto (as Institutas) e diferia dela em vários pontos”.[13] Calvino também teve a palavra final nessas trocas fraternas no auge da controvérsia eucarística, dois anos após a morte de seu amigo em abril de 1560, apelando a Melanchthon em uma oração sincera:

Ó Filipe Melanchthon! Apelo a ti, que agora vives com Cristo no seio de Deus, e ali nos espera até que sejamos reunidos contigo naquele repouso bendito. Cem vezes, quando exausto de trabalhos e oprimido por tantas aflições, repousaste tua cabeça familiarmente em meu peito e disseste: “Quem me dera poder morrer neste seio!” Desde então, desejei mil vezes que nos fosse concedido viver juntos; pois certamente assim terias tido mais coragem para a inevitável contenda, e serias mais forte para desprezar a inveja e para não considerar como nada todas as acusações. Desta maneira, também, a malícia de muitos teria sido refreada, os quais, de tua mansidão que chamam de fraqueza, reuniram audácia para seus ataques.[14]

 

 

O texto

 João Calvino, aos leitores[15]

 Se este livro fosse publicado em latim, dificilmente seria digno da minha parte recomendá-lo. Se o fizesse, estaria me expondo a acusações de impertinência e presunção. O seu autor é tão renomado entre os eruditos de hoje que ninguém pode deixar de conhecê-lo. Além de ser reconhecido por sua excelente erudição, ele também merece crédito por citar os escritos de outros, o que é mais um motivo para recomendar suas obras. Como ele é menos conhecido entre aqueles de nosso país que não tiveram o benefício da instrução acadêmica, achei pertinente, juntamente com vários outros que compartilham da mesma opinião, informar aos leitores que muito se pode aprender com este livro e incentivá-los a estudá-lo completamente.

Não comentarei aqui sobre o autor, nem sobre os dons extraordinários com que ele é abençoado, graças pelas quais ele é digno de ser honrado por todos aqueles que amam as coisas de Deus. Apenas me referirei ao livro. Quanto ao seu conteúdo, trata-se de um breve resumo das coisas que os cristãos precisam saber para guiá-los no caminho da salvação. Aqui encontramos tudo o que precisamos saber sobre Deus; como devemos servi-lo; o que precisamos crer a respeito de Cristo; por que ele nos foi enviado por seu Pai; a graça que recebemos por meio dele; em que devemos fundamentar nossa esperança de salvação; como devemos invocar o nome do Senhor; o que são a verdadeira fé e o arrependimento; como podemos ser pacientes na adversidade e onde os cristãos podem encontrar verdadeira consolação; onde devemos discernir a igreja; como ela deve ser governada e quem são seus verdadeiros líderes; qual a utilidade dos sacramentos e sua administração; quais são nossas responsabilidades uns para com os outros, para com aqueles que têm autoridade sobre nós, para com aqueles que estão sob nossa responsabilidade e para com nossos iguais. Estas são as coisas às quais os cristãos devem dedicar suas vidas, se aspiram a usar seu tempo com ensinos proveitosos. Todas essas questões são abordadas neste livro e apresentadas de forma que, tanto jovens quanto adultos, recebam instruções úteis, contanto que as abordem com o desejo de aprender.

O que é louvável é que este autor profundamente erudito não se preocupou com sutilezas nem escreveu com grandeza retórica, como facilmente poderia ter feito, mas simplificou o material ao máximo, buscando apenas edificar seus leitores. Todos nós deveríamos tentar escrever dessa maneira, exceto nas ocasiões em que os argumentos falaciosos apresentados por nossos adversários nos obrigam a agir de outra forma. No entanto, a simplicidade é a maior qualidade ao lidar com a doutrina cristã. É por isso que o autor se absteve de desenvolver certos pontos em profundidade, mesmo que o justificassem.[16] Ele se ateve ao que é considerado necessário para a salvação, deixando de lado ou omitindo questões não absolutamente essenciais, sobre as quais a falta de conhecimento ou o julgamento suspenso não comprometem o resultado, como, por exemplo, a questão do livre-arbítrio. Estou bem ciente de que a apresentação feita aqui não é suficiente para satisfazer a todos.[17] Parece que as capacidades humanas recebem muita liberdade. A razão para isso é que, tendo tratado do cerne da questão, o autor prefere passar adiante e não abordar questões que não são essenciais para a salvação dos crentes. Ele parte do princípio de que o entendimento humano é cego, a tal ponto que nossa razão não pode nos conduzir a Deus ou ao conhecimento dele, a menos que Deus nos ilumine pela graça do seu Espírito Santo. Da mesma forma, nossa própria vontade é perversa e distorcida, a tal ponto que produz apenas inclinações errôneas e rebelião contra Deus e sua justiça, que, consequentemente, lhe desagradam, até que o Espírito Santo renove nossos corações.[18] Assim, vemos que ele considera a graça de Deus como a única origem de qualquer bem espiritual em nossa salvação, e que o homem não tem nada de que se gloriar. Ele, contudo, afirma que o homem possui certa liberdade no que diz respeito a esta vida terrena, no estar acordado e no dormir, em cumprir suas atividades diárias, em trabalhar, estudar ou se ocupar de negócios.[19] Por quê? Ao se limitar ao essencial, ele coloca o homem em seu verdadeiro nível, mostrando que, por si só, ele só pode se desviar de Deus e pecar, caindo assim na perdição, e que qualquer capacidade que ele tenha para fazer o bem não lhe é inerente, mas apenas pela graça de Deus. Dito isso, ele impõe limites a essa liberdade, que chama de liberdade civil, afirmando que Deus reina continuamente do alto. Não há muito o que criticar nisso. Mas era importante esclarecer ao leitor as intenções do autor, para que ninguém se ofendesse com um detalhe menor.

Pode-se igualmente dizer da questão da predestinação. Visto que hoje existem tantos espíritos rebeldes que procuram apenas satisfazer a sua curiosidade e que não conhecem a moderação, num esforço para evitar o perigo, ele prefere tratar apenas do que é necessário saber, deixando outras coisas em suspenso.[20] Se ele desenvolvesse completamente esta questão, daria vazão a um grande debate confuso e desconcertante, sem frutos nem edificação. Afirmo que nada do que é revelado nas Escrituras seja omitido, qualquer que seja o caso. No entanto, quem deseja edificar os seus leitores não deve ser culpado por se limitar às coisas que se sabe serem mais úteis, ou por apenas mencionar ou deixar de lado o que sabe ser improdutivo.

No que diz respeito aos sacramentos, um senso de humildade o levou a acrescentar a absolvição como um terceiro sacramento, além do batismo e da ceia do Senhor.[21] Visto que a absolvição aparece comumente nesse contexto, ele se adaptou à prática comum, desejando evitar controvérsias. Não que ele jamais tenha pretendido colocar a absolvição no mesmo nível do batismo e da Ceia do Senhor, conferindo-lhe o mesmo status, ou obrigar os cristãos a observá-la como se fosse um sacramento instituído por Jesus Cristo. A sua intenção não era impô-la, mas sim permitir que os cristãos recorressem a ela.[22] Isso fica claro na justificativa que ele apresenta. Ele a considera uma prática boa e útil, o que, no entanto, não é motivo suficiente para considerá-la um sacramento.

Se os leitores mantiverem o senso de proporção ao avaliar este livro que o autor demonstrou ao escrevê-lo, tudo correrá bem e nada os impedirá de se beneficiarem enormemente da leitura. Mas o problema é que muitas pessoas hoje em dia não leem livros com o desejo de aprender, seja qual for o assunto, mas sim buscam algo para criticar. E se conseguirem questionar uma única palavra, isso se torna um obstáculo que as impede de se beneficiarem de qualquer forma. Então, ignorando tudo de bom que o livro contém, orgulham-se de uma maneira que causa sua própria ruína. Pior ainda, os mais ignorantes são os mais francos e críticos. Outros são tão exigentes que um único detalhe pode afastá-los completamente, a ponto de uma única frase que não lhes agrade afastá-los do livro como um todo, mesmo que ele contenha muito conteúdo sobre o qual seria aconselhável refletir. Sem dúvida, é um truque do diabo para desviá-los e impedi-los de receber a sã doutrina que lhes é apresentada. Portanto, aqueles que desejam obter algum proveito deste livro devem cultivar um espírito ensinável, deixando de lado tudo o que for um obstáculo ao progresso, para que avancem no caminho correto que leva à pura verdade de Deus, a única coisa à qual somos chamados a nos apegar, usando esses meios humanos para nos ajudar a alcançar esse objetivo.[23]

 

Notas:

[1] La Somme de théologie, ou Lieux communs, revus et augmentez pour la dernière fois, par M. Philippe Melancthon. A obra de Melanchthon, que apareceu pela primeira vez em 1521, foi expandida em diversas edições, principalmente em 1535 e 1545, antes de sua versão definitiva em 1559, um ano antes da morte do autor. A “última vez” mencionada no título francês é provavelmente uma estratégia de marketing. Foi traduzido do francês por Alison Wells, com introdução e anotações de Paul Wells. As notas acrescentadas por mim, serão identificadas como “nota do tradutor”.

[2] Barbara Pitkin nota que “há ainda outro motivo pelo qual o período de 1539 a 1546 representa um campo fértil para explorar as diferenças entre as concepções de Calvino e Melanchthon sobre a natureza humana. Foi também nesse período que cada um desenvolveu sua própria compreensão da natureza e das capacidades humanas, levando-as a uma expressão mais completa. Em 1539, Calvino publicou uma edição revisada e ampliada de suas Institutas, que continha discussões novas e detalhadas sobre a natureza humana, a natureza do arrependimento e a vida cristã. Em 1542, publicou um tratado sobre a natureza e a imortalidade da alma, ostensivamente uma refutação da ideia de que, após a morte, a alma ou ‘dorme’ em um estado de esquecimento até o dia do juízo final ou que, de fato, morre com o corpo. Finalmente, em 1543, defendeu a servidão da vontade em um tratado expressamente dedicado a Melanchthon.” Barbara Pitkin, “The Protestant Zeno: Calvin and the Development of Melanchthon’s Anthropology” in: The Journal of Religion, vol. 84, no. 3 (July 2004), pp. 350-351. Nota do tradutor.

[3] Wulfert de Greef, The Writings of John Calvin: An Introductory Guide, p. 193. De Greef sugere que a referência de Calvino à “acomodação” de Melanchthon (ver o Prefácio abaixo) é crítica, enquanto pode ser interpretada como um reconhecimento da abordagem sensível do escritor de Wittenberg a questões difíceis.

[4] Bruce Gordon, Calvin (New Haven: Yale University Press, 2009), p. 162. Melanchthon não respondeu à tradução e, por não falar francês, provavelmente nunca leu o texto.

[5] James T. Hickman, “The Friendship of Melanchthon and Calvin,” Westminster Theological Journal 38.2 (1976): 152–65. Cf. Clyde L. Manschreck, Melanchthon: The Quiet Reformer (Eugene, OR: Wipf & Stock, 2009), pp. 254–255.

[6] Phillip Schaff, History of the Christian Church: Modern Christianity. The Swiss Reformation, vol. 8, p. 344 (as páginas 344–354 referem-se à Calvino e Melanchthon).

[7] Phillip Schaff, History of the Christian Church: Modern Christianity. The Swiss Reformation, vol. 8, p. 344.

[8] O Colóquio de Regensburg foi a última oportunidade realista de reunir as confissões católica e protestante na Alemanha. Ele fracassou devido à incapacidade de se chegar a um acordo sobre uma fórmula satisfatória a respeito da doutrina eucarística e da questão da autoridade da Igreja.

[9] Phillip Schaff, History of the Christian Church: Modern Christianity. The Swiss Reformation, vol. 8, p. 348.

[10] Barbara Pitkin conclui que “Calvino estava claramente ciente de algumas dessas mudanças e respondeu a elas, ainda não diretamente a Melanchthon, pois continuava a esperar seu apoio e concordância. Em vez disso, alertou os leitores franceses de Melanchthon sobre as deficiências na abordagem do autor a temas como o livre-arbítrio e a predestinação, no prefácio que escreveu para a tradução francesa de 1546 dos Loci communes. Ali, Calvino adverte seus leitores sobre a ortodoxia de Melanchthon e seu desejo de simplicidade. É esta última qualidade, afirma Calvino, que levou o autor a conceder certa liberdade em assuntos terrenos, a abordar a predestinação apenas superficialmente e a incluir a absolvição entre os sacramentos. Calvino, assim, explicitou, desta vez citando nomes, três áreas-chave de divergência, ainda convicto de que estas refletiam meramente diferentes maneiras de ensinar e não divisões permanentes ou intransponíveis.” Barbara Pitkin, “The Protestant Zeno: Calvin and the Development of Melanchthon’s Anthropology” in: The Journal of Religion, vol. 84, no. 3 (July 2004), pp. 376-377. Nota do tradutor.

[11] Na edição de 1521 do Loci de Melanchthon, são citados doze textos e afirma-se que “já que tudo o que acontece ocorre necessariamente segundo a predestinação divina, a nossa vontade não tem liberdade”, acrescentando-se em seguida: “O que mais Paulo está fazendo em Romanos 9 e 11 senão atribuir tudo o que acontece à predestinação divina?” Philip Melanchthon, Commonplaces: Loci Communes, 1521 (St. Louis, Concordia Publishing, 2014), pp. 65–66.

[12] Phillip Schaff, History of the Christian Church: Modern Christianity. The Swiss Reformation, vol. 8, p. 349.

[13] Phillip Schaff, History of the Christian Church: Modern Christianity. The Swiss Reformation, vol. 8, p. 350.

[14] Baum, Cunitz, Reuss, eds., Ioannis Calvini Opera Quae Supersunt Omnia, (Brunschwig: C.A. Schwetschke, 1870), vol. 9, p. 461.

[15] Segue-se o “Prefácio de João Calvino à tradução francesa de Loci Communes de Filipe Melanchthon” in Ioannis Calvini Opera Quae Supersunt Omnia, ed. Baum, Cunitz, Reuss (Brunschwig: C.A. Schwetschke, 1870), vol. 9 pp. 847–850.

[16] A marca registrada de Calvin era a simplicidade e a concisão.

[17] As formulações de Melanchthon sobre o tema do livre-arbítrio são bem mais abrangentes do que o tom incisivo do De servo arbitrio de Martinho Lutero contra Erasmo (1525). Calvino provavelmente acha que Melanchthon não foi longe o suficiente, mas se absteve de críticas explícitas.

[18] Apesar das reservas de Calvino, sua reação moderada deve-se em parte ao fato de que os pontos essenciais estão seguros — a pecaminosidade total do homem e a necessidade da obra do Espírito Santo na renovação.

[19] Freedom in terrestrial things was indicated by Luther in his argument against Erasmus, and not to be confused with man’s incapacity in the spiritual realm, apart from regeneration. In the 1521 Loci, Melanchthon distinguishes between internal and external freedom, Commonplaces, 76. Considered according to predestination there is no freedom in either domain, but if the will is considered according to external works, “natural judgment concludes that some freedom exists.” A liberdade nas coisas terrenas foi indicada por Lutero em seu argumento contra Erasmo, e não deve ser confundida com a incapacidade do homem no reino espiritual, exceto pela regeneração. Em Loci (1521), Melanchthon distingue entre liberdade interna e externa (Commonplaces, 76). Considerada segundo a predestinação, não há liberdade em nenhum dos domínios, mas se a vontade for considerada segundo as obras externas, “o juízo natural conclui que existe alguma liberdade”.

[20]  Calvino respondeu em 1543 aos primeiros seis livros de Albert Pighius, Ten Books on Human Free Choice and Divine Grace with his. A.N.S. Lane, ed, De Libero Arbitrio in: The Bondage and the Liberation of the Will (Grand Rapids, Baker Books, 1996).

[21] Veja Herman A. Speelman, Melanchthon and Calvin on Confession and Communion: Early Modern Protestant Penitential and Eucharistic Piety (Göttingen: Vandenhoek & Ruprecht, 2016).

[22] Para Calvino, a absolvição está relacionada ao “poder das chaves” e ao perdão por meio da pregação do evangelho, em contraste com o sacramento da absolvição. Veja John Calvin, Institutas 3.4.14–15 e 4.19.16.

[23] Calvino aprecia contrastar o caminho reto e estreito da verdade em Cristo com caminhos tortuosos, “tempestuosos e incertos”. Veja, por exemplo, seu comentário sobre Cristo como mediador único no Comentário de 1Timóteo. Opera, vol. 42, p. 270.

quarta-feira, 18 de junho de 2025

Oração de Philip Melanchthon

A ti, ó Filho de Deus, Restaurador da imagem desfigurada e deformada de Deus no homem, que morreste pelos nossos pecados e ressuscitaste para a nossa justiça, a ti oramos de todo o coração. Cria em nós uma nova vida através do teu Espírito Santo. Infunde em nós o verdadeiro conhecimento, a oração e o amor. Sê a nossa proteção, ó Cristo, para que a ira ardente de Deus não caia sobre nós; para que nós, imundos e impuros, não sejamos julgados diante de Deus. Reveste-nos da tua justiça e purifica-nos do nosso pecado, para que sejamos aceitáveis ​​ao teu Pai eterno. Fortalece agora a nossa fé, para que na próxima vida, restaurados, possamos dar-te graças e, com todos os anjos justos, bem como os homens, louvar-te para sempre, a ti e ao Pai e ao teu Espírito Santo. Amém.


Donald K. McKim, Everyday Prayer with the Reformers.



terça-feira, 17 de junho de 2025

Oração de Martinho Lutero

 Eis, Senhor, um vaso vazio que precisa ser enchido. Meu Senhor, enche-o. Sou fraco na fé; fortalece-me. Sou frio no amor; aquece-me e torna-me fervoroso para que o meu amor se estenda ao meu próximo. Não tenho uma fé forte e firme; às vezes duvido e sou incapaz de confiar totalmente em ti. Ó Senhor, ajuda-me. Fortalece a minha fé e a minha confiança em ti. Em ti selei os tesouros de tudo o que tenho. Sou pobre; tu és rico e vieste para ser misericordioso com os pobres. Sou pecador; tu és justo. Comigo há abundância de pecado; em ti está a plenitude da justiça. Portanto, permanecerei contigo, de quem posso receber, mas a quem não posso dar. Amém.


Donald K. McKim, Everyday Prayer with the Reformers.

Oração de Philip Melanchthon

 Dou-te graças, Deus Todo-Poderoso, por te revelares a mim, por enviares teu Filho Jesus Cristo, para que ele se tornasse um sacrifício, para que por ele eu pudesse ser perdoado e receber a vida eterna. Dou-te graças, ó Deus, por me fazeres um recipiente do teu grande favor através do Evangelho e dos Sacramentos, e por preservares a tua Palavra e a tua Santa Igreja. Ó, que eu possa verdadeiramente declarar a tua bondade e as tuas bênçãos! Inflama-me, eu te suplico sinceramente, com o teu Espírito Santo para que a ação de graças possa brilhar na minha vida. ... Ilumina o meu coração, eu te suplico, para que eu possa estar mais plenamente consciente do teu favor para comigo e para sempre te adorar com verdadeira ação de graças.


Donald K. McKim, Everyday Prayer with the Reformers.

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Algumas críticas à Loci Communi: A carta de Martinho Lutero para Felipe Melanchthon


 [1 de agosto de 1521][1]

Dia do apóstolo são Pedro, 1521.[2]

 Você não terminou de dar razões suficientes para medir com a mesma norma o voto dos sacerdotes e dos freis. A mim, o que mais me convence é que a ordem sacerdotal foi estabelecida como livre por Deus; mas, não foi assim com os monges que espontaneamente escolheram e ofereceram a sua origem a Deus. Quase me atreveria a decidir que quem ingressou nestes compromissos antes de sua puberdade que podem sair dela sem escrúpulo, se não fosse porque ainda não me atrevo a sentenciar nada acerca dos que são velhos e viveram durante longo tempo neste estado.

Mesmo porque, Paulo afirma com toda liberdade que foram os demônios quem vedaram o matrimônio aos sacerdotes.[3] Assim, como a voz de Paulo é a voz de Deus, não há dúvida de que há que confiarmos nela, de forma que ainda que houvessem pactuado esta proibição diabólica desde o princípio, agora, quando são conscientes de a quem prometeram, há que romper confiadamente o pacto.

Esta proibição do diabo expressada claramente na Escritura Sagrada obriga-me e força a aprovar o realizado pelo bispo cameracense. Deus não engana, nem mente ao dizer que esta é uma proibição do diabo. Portanto, não pode ser estável o pacto firmado, já que se fez na força de um erro ímpio contra Deus e, além disso, depois de havê-lo reprovado e condenado. Disse expressamente serem espíritos do erro os autores dessa proibição.

Por que, então, há de temer a aceitação desta sentença divina, ainda que se oponham todas as portas do inferno? Não se pode comparar isto com o juramento que os filhos de Israel fizeram aos gibeonitas, porque tinham o preceito de oferecer a paz e de admiti-la se lhes era oferecida. Por isso, os admitiram na qualidade de prosélitos aderidos a seu rito. Tudo se fez em Gibeão, pois nada houve nele que se fizesse contra Deus, nem por sugestão dos espíritos do erro, e ainda que a princípio murmurassem, depois achegaram-se a ele.[4]

Além do mais, acrescenta que o celibato é uma instituição meramente humana; o homem que o instituiu pede rescindi-lo e, portanto, pode executá-lo qualquer um cristão. Fixa-te que o digo, inclusive supondo que não tenha se estabelecido por demônios, senão por um bom homem.

Ao não contar com esta sentença divina que se refere aos monges, não é seguro afirmar o mesmo deles. Pessoalmente não me atreveria fazê-lo e, por isso, tão pouco aconselharia aos demais que o fizessem. Desejo fosse possível fazê-lo para que de agora adiante ninguém se fizesse monge, ou para que saíssem os que o são, e se encontram na idade da luxúria. Há que evitar os escândalos, ainda que fossem lícitos, nas coisas em que a Escritura não nos manifesta com clareza.

Quanto ao que o exímio Karlstadt cita de são Paulo que “há que evitar as jovens viúvas e escolher as sexagenárias,”[5] desejo que fosse convincente! Porque podem facilmente arguir que o apóstolo o estabelece para as futuras, e que das anteriores disse estar condenadas por haver falhado com o primeiro compromisso. Essa autoridade evitada não pode constituir um fiel apoio para a consciência, que é o que andamos buscando. E, o que é senão a razão a que inclui que “melhor é casar-se do que viver abrasado” para evitar a fornicação? Então, o matrimônio com o pecado quebra o pacto. Somente buscamos a Escritura e o testemunho da vontade divina. Quem sabe se ao se abrasar hoje, não se abrasaria também amanhã?

Nem eu me atreveria conceder aos sacerdotes o matrimônio somente por esse abrasamento, se são Paulo não disse que tal proibição do matrimônio é errônea, diabólica, hipócrita e condenada por Deus.[6] Ou seja, que ainda que independente do ardor, têm que abandonar o celibato somente pelo temor de Deus. Mas sobre este problema seria útil discutir com maior compromisso. Seria muito satisfatório que pudesse ajudar os frades e as freiras, mas eu sinto muito por estes pobres moços e moças, atormentados pelas poluições e coceiras.

Quanto à comunhão, sob as duas espécies, não argumentarei por meio de exemplos, senão com base na Palavra de Cristo. Não há argumento que convença de que peca, ou deixe de fazê-lo quem receba somente uma espécie; o que há que ter em conta é que Cristo não exige nenhuma das duas, como não exige necessariamente o batismo quando um tirano, ou o mundo fazem impossível recorrer à água. Também a violência das perseguições separa o marido da esposa que Deus proibiu que se separassem, sem que um ou o outro consentisse na separação. Da mesma maneira, tão pouco, quem os corações piedosos veem-se privados da segunda espécie, e quem o consente ou aprova, ninguém poderá negar que são papistas, e não cristãos, nem negar que cometem pecado.

Se não existe esta exigência da necessidade, e sendo que há um tirano que urge, não vejo como possa pecar quem recebe apenas uma espécie. Quem poderá eliminar pela força ao tirano que se opõe? Portanto, o único que vale é a razão que dita que não se observa o que foi estabelecido por Cristo, mas nada define a Escritura, sem a qual não podemos afirmar que constitua pecado. É algo formado por Cristo, mas livremente permitido e não pode ser cativado nem no todo, nem na parte. O que fazer se, como no caso do mártir Donato, que se rompeu e derramou o cálice e alguns não puderam comungar esta espécie, porque não se tem disponível mais vinho, ou se ocorressem em outras circunstâncias? Em resumo, sendo que a Escritura não se pronuncia, nem eu me atrevo dizer de minha parte que isto seja pecado. É muito conveniente, todavia, que restaurem ao seu prístino estado este ensino de Cristo, e precisamente este era o primeiro que havia pensado solicitar quando regressar aí. Conhecemos há muito este tirano, e podemos resisti-lo para não nos vermos obrigados a comungar somente sob uma espécie.

O que nunca voltarei a fazer é celebrar a missa privada. Rogo fervorosamente a Deus que se apresse em conceder-nos o seu Espírito em abundância. Suspeito que não tardará que Deus visite a Alemanha pelo merecido que tem a sua incredulidade, sua impiedade e seu ódio pelo evangelho. Quando isto acontecer eles lançarão sobre nós a culpa deste açoite, por provocarmos a Deus com nossa heresia e nos “convertemos na vergonha dos homens e no desejo do povo;”[7] mas, eles acharão desculpas para os seus pecados, se justificarão comprovando que os réprobos não se converterão, nem pela bondade, nem pela ira e muitos se escandalizarão. Que se faça, sim, que se cumpra a vontade do Senhor. Amém!

Se você é pregador da graça, prega a graça verdadeira, não a graça fingida; se a graça é verdadeira, tenha a certeza de que se trata do pecado verdadeiro, não do fingido, porque, Deus não salva os pecadores fingidos. Seja pecador e peque fortemente, mas confia e se alegre mais fortemente ainda em Cristo, vencedor do pecado, da morte e do mundo. Há de pecar enquanto vivamos aqui. Esta vida não é a morada da justiça, senão que, como disse Pedro, estamos à espera de novos céus e de nova terra em que habite a justiça.[8] Basta que pela riqueza da glória tenhamos conhecido o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo;[9] deste não nos separará o pecado, inclusive ainda que forniquemos e matemos milhares e milhares de vezes ao dia. Por que é que crê ser tão mingado o preço da redenção de nossos pecados, pago por tão grande e bom cordeiro?

Ore forte ainda que seja um pecador fortíssimo.


NOTAS:

[1] WA Br 2, 370-372. Como se pode observar a carta somente foi conservada fragmentariamente. Felipe Melanchthon (1497-1560), indubitavelmente o personagem mais próximo de Lutero, apesar de seu distanciamento teológico progressivo e as suas diferenças de caráter, foi na realidade o primeiro sistematizador da teologia de Lutero (em suas Loci Communes, 1521). Lutero sempre o venerou, se preocupou com a sua saúde, o animou e lhe exasperou em muitas ocasiões. Está presente em quase todas as tentativas de aproximação entre Roma e a Reforma. Graças a ele pode-se preservar, ao menos num setor do luteranismo, um humanismo do qual o reformador e Amsdorf careciam. Cf. H. Bornkamm, Philipp Melanchthon, Göttingen 1950; P. Meinhold, Philipp Melanchthon, der Lehrer der Kirche, Berlin 1960; L. Stern, Martin Luther und Philipp Melanchthon. Ihre ideologische Herkunft und geschichtliche Leistung, 1953; W.H. Heuser, Luther und Melanchthon, Einheit in Gegensatz, München 1960; V. Vajta, Luther und Melanchthon, Göttingen 1961; M. Greschat, Melanchthon neben Luther, Witten 1965. Teófanes Egido, org., Lutero – Obras, pp. 385-387.

[2] Refere-se à festividade de são Pedro “ad vincula.”

[3] Bartolomé Bernhard de Feldkirch prefeito de Kemberg (daí a denominação de “cameracense” aludindo ao famoso Pierre d’Ally bispo de Cambrai) que se casou com farto consentimento de Lutero (Lutero e Melanchthon, 26 de maio de 1521: WA Br 2, p. 347).

[4] Em 1Tm 5.12. Esta primeira parte da carta, ponto de partida das variações posteriores do pensamento de Lutero sobre o celibato, esteve determinada pelas teses sustentadas por Karlstadt em junho deste ano em Wittenberg.

[5] Em 1Co 7.2 e 9.

[6] Em Sl 22.7.

[7] Esta expressão foi uma das mais atacadas pela apologética antiluterana. Pelo contexto o leitor verá o forte conteúdo teológico e cristológico, veementemente (era o seu humor) expresso por Lutero. Uma exegese aceitável deste lugar, cf. J. Lortz, o.c. I, 317 ss.

[8] Em 2Pe 3.13.

[9] Em 1Jo 1.29.

Prefácio de João Calvino à Loci Communes de Filipe Melanchthon

  Introdução Em 1546, uma tradução francesa da obra de Filipe Melanchthon de 1545, Loci communes , foi publicada em Genebra sob o título de ...